28.10.10

 

 

 

 

 

 

Revista Cinémonde, anos 60

 

 

 

Muito lá de casa eram todos aqueles de quem, lá em casa, havia retratos em imensas gavetas, que foram a primeira das minhas explorações predilectas, a primeira das minhas paixões predilectas. Esgotados os retratos de família, até ao mais remoto primo, havia centenas (não exagero) de fotografias de personagens que, nem que fosse por um dia, tinham sido muito de casa. Senhores barbudos, velhas com grandes chapéus, virgens pálidas, jovens olheirentos. Fotografîas com dedicatórias retóricas: «Ao Exm.° Senhor F... offereço como prova de estima». Insaciável, eu queria saber os nomes de todos e em toda a casa de que era muito pedia para ver essas gavetas e esses retratos. Se os crescidos não tinham mais que fazer, identificavam-nos para meu deleite e, em dias mais fastos, contavam-me, para cada um ou de cada um, histórias de espantar.

 

Foi numa dessas casas, de que eu era muito, que, um dia, quando já esgotara todas as gavetas e já sabia de cor e salteado os nomes dos habitantes delas, alguém me passou para a mão um exemplar da «Marie Claire». Era um número antigo, provavelmente de 1940, porque me lembro de saber que a revista interrompera a publicação depois de os alemães entrarem em Paris. E fui parar a duas páginas — que passaram para mim a ser as páginas centrais — em que estavam retratos de 15 actrizes e 15 actores, arrumados, ao alto para as senhoras e ao baixo para os senhores, por ordem das respectivas alturas.

[...]

Esqueci a maior parte dos retratados nas gavetas, à medida que fui deixando de as abrir ou que se fecharam as casas que habitavam em efígie. As actrizes e os actores, em truque bem digno da arte deles, elevaram-se desses rectângulos, em que figuravam em corpo inteiro, nas páginas da «Marie Claire», para grandes planos que me ficarão a acompanhar para todo o sempre. Estáticos, nessa primeira visão, animaram-se depois nos muitos, muitos filmes que vi com eles.

[...]

Por uns apaixonei-me eu, por outros não. Muitos forram hoje a casa em que vivo. Todos passaram a ser muito lá de casa. E foi só um princípio. Com eles trouxeram, como os demónios expulsos da parábola evangélica, não mais 30, mas mais 300, uns vindos ainda mais de trás, antepassados dessa galeria dos «thirties», outros herdeiros deles, ramos da mesma árvore, filhos ou netos dos altos e baixos da «Marie Claire».

 

 

João Bénard da Costa

in Muito lá de casa (O Problema da Habitação) aqui

©Assírio e Alvim e João Bénard da Costa, 1993

 

 

 

link do postPor VF, às 11:08  comentar

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