6.10.10

 

 

 



 

 

 

Como português,e como filho de Alfredo Keil, apresento respeitosamente a V.Exa este protesto cheio de tristeza, pedindo que o meu nome (que é o de minha filha) e o de meu irmão não sejam comprehendidos entre os que são apenas tolerados na terra portuguesa.

 

Lisboa, 2 de Maio de 1916

 

Portugal entrara na I Guerra a 9 de Março de 1916. De imediato começaram a surgir pequenas notícias nos diários, sobre a partida de alemães, as respectivas andanças por Lisboa, as voltas pelos guichets, do Governo Civil para o Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) e vice-versa.

Prevalecia um ambiente algo irreal quanto ao que significasse estar em guerra, excepto na profusão declaratória da imprensa e dos políticos sobre o heroísmo, a defesa da pátria. Os jornais prometiam novas leis aplicáveis aos súbditos alemães. Passado um mês, a 4 de Abril, um primeiro diploma, emanado do Ministério do Interior, proibia a entrada no território da República aos súbditos da Alemanha e dos seus aliados. Aos estrangeiros já residentes em Portugal eram dados oito dias para solicitar título de residência válido por seis meses, prorrogável, o qual poderia ser retirado a qualquer momento.

[...]

A 21 de Abril de 1916, Afonso Costa fazia sair pelo seu Ministério das Finanças o Decreto-Lei 2.350, que bania todos os súbditos alemães de ambos os sexos, mandados sair pela fronteira terrestre, no prazo de cinco dias, excepção feita aos do sexo masculino entre os 16 e os 45 anos, que seriam conduzidos para a ilha da Terceira, podendo fazer-se acompanhar de mulher e filhos menores (despesas a seu cargo). O incumprimento implicava julgamento por tribunal militar e condenações de um a três anos de prisão em presídio militar. Quanto aos indivíduos sem nacionalidade, mas que tivessem sido alemães, podia o governo aplicar-lhes todas estas disposições se visse inconveniente na livre residência em território português. Restringia-se também a capacidade civil e a propriedade industrial e comercial de nacionais alemães, sujeitas a arrolamento e sequestro em modalidades habituais em estado de guerra. 

A opinião publicada na imprensa ficou satisfeita.

[...]

Os requerimentos amontoavam-se. Centenas e centenas deles estão ainda hoje à disposição para consulta no Arquivo Histórico-Diplomático do MNE. Viúvas, soldados, Frauleins, gente chique ou modesta: a vasta maioria, bisnetos de alemães, muitos deles fugidos da Alemanha por ocasião das revoluções de 1848. Refugiados políticos ou económicos, de entre o milhão de alemães que na altura deixou a Europa e partiu para os EUA, uma pequena fatia instalara-se no Portugal liberal. Agora, viam-se apanhados nas voltas da história. 



 

 

 

Manuela Franco

in “Os desnacionalizados da I República”

Jornal Público–P2 25 Setembro 2010

Leia o artigo aqui


 

 

 

 

 

 

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