7.1.09

 

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Marão, 1938

 

De política, nenhum de nós sabia nada. Era como se tudo o que vinha nos jornais se passasse a séculos e milhares de quilómetros de distancia. As nossas famílias não se interessavam por política, senão em termos de «Ordem», e louvavam-se da paz que o governo impusera a um país em desordem. Qual seria esta desordem e como era a ordem que o governo impunha, nós não fazíamos grande ideia. Os jornais falavam às vezes do caos administrativo e financeiro do passado, enaltecendo as providencias do governo. (…) Mas as transcendências do orçamento e da dívida pública ultrapassavam de muito as especulações das nossas famílias da média ou da alta burguesia. A «ordem» era o contrário de haver «revoluções». (…) Na minha infancia, ainda houvera «revoluções» que eram, para mim, inseparáveis de passarmos dois ou três dias no quarto interior e escuro da casa, deitados no chão, «por causa das balas perdidas» enquanto meu pai e o vizinho de baixo, na escada, discutiam de onde eram os tiros que se ouviam: a Penha de França, a Graça, a Ajuda, etc., sem chegarem a outro acordo que o resultante de, a um estrondo maior, meu pai voltar para dentro, e recolher-se ao quarto escuro, chamado pelos clamores lancinantes da minha mãe. Depois, as revoluções tinham efectivamente acabado, ou abortavam longe e em silêncio, esmagadas suplementarmente pela severidade dos periódicos (que meu pai lia alto, com grandes assentimentos de cabeça) e por grupos de pescadores da Nazaré ou lavradeiras do Minho, que, com os seus trajes típicos, vinham ao Terreiro do Paço, com os regedores na frente e a banda de música, oferecer flores aos salvadores da ordem, que se juntavam todos numa janela a agradecer, como eu e outros, escapados ao liceu, havíamos ido ver uma vez. (…) Claro que, ainda no liceu, o «Anschluss» fora discutido e a Guerra da Etiópia também. Mas a ascensão de Hitler, cujo nome começava a ser conhecido, não aparecia, mesmo no noticiário dos jornais, como uma ameaça às democracias, mas sim como uma perturbação da «ordem» estabelecida pelos «Aliados» na Primeira Grande Guerra. E Mussolini era muito louvado oficialmente, ainda que com discreção, pela sua autoritária organização do progresso da Itália. Todavia, a guerra da Etiópia não era o mesmo que o Anschluss... Que se unissem povos da mesma língua e da mesma raça, não nos parecia coisa por aí além. Que se atacassem o Negus e os «ráses», que o noticiário apresentava habilmente na contradição de serem uns selvagens quase antropófagos, que se recusavam às delícias do progresso, em nome de uma independência que datava desde Salomão e a Rainha do Sabá (e todos nós conhecíamos, de nome, muito mais a Etiópia do que a Austria, já que esse país figurara nas pompas onomásticas dos reis de Portugal,que sabíamos de cor desde a escola primária), eis o que era, sem dúvida, uma agressão. Não o eram, é claro, as campanhas de ocupação africana, que andavam então na moda oficial: os italianos não tinham sido, na verdade, os descobridores da Etiópia, como nós o havíamos sido de tudo e da Etiópia também. Era, de resto, nestes termos de passado histórico que tudo era avaliado e, a tal ponto as coisas nos eram distanciadas, que a república fôra proclamada em Espanha, sem que déssemos por isso.

 

© Jorge de Sena

 

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