6.5.10

 

 

 

 

carta de Vitorino Nemésio a Margarida

 

 

 

 

Casaréus do Tòvim,

(Coimbra), 2 Set° 1942.

 

 

A sua carta deu-me muita alegria.  Acabo de lê-la.  Estou na aldeia há dois dias, rodeado de latadas morangueiras, com o vale do Mondego diante de mim, oliveiras derroda e às vezes a paz correspondente... (O meu Jorge partiu pela terceira vez um braço).  Mas basta de paisagem.  O que quero é fazer-lhe chegar rapidamente a minha gratidão por aquilo que me diz.  Vou guardar aquela polegada de cartão como uma das coisas mais honrosas da minha vida.

 

às vezes, lembrando-me do que tenho cá dentro para dizer, e que poderia sair em poema, romance ou "vida", e vendo a minha baça esterilidade de escritor, apetece-me soltar o "rai’s parto" dos carreiros que por aqui passam com os bois. Não é só o ofício de professor que me tira o tempo : são as mil e uma formas de dispersão para reforçar o orçamento.  Mas depois acontecem-me coisas como esta carta da Margarida, e penso de mim para mim que talvez valha a pena trocar uma hipótese de obra literária pela consolação de sentir que alguma coisa passou do meu entusiasmo a alguém.  "Talvez" !  Que mesquinho !  Mas "com certeza" !...

 

E até me vejo um velhinho de setenta anos, no esquife do limite de idade, coberto de flores e de cãs (essas minhas difíceis cãs de quarentão sem uma branca), e com uma borla, que ainda não comprei, toda orvalhada de lágrimas...  Haverá música para o "Antigamente a escola era risonha e franca" ?

 

Perdoe, Margarida ; não há direito de brincar assim numa carta como esta.

 

Repito que as suas palavras me comovem.  Estimo-as por virem de quem vême pela delicadeza com que escolheu as condições de isenção para mas mandar.

 

Desejo-lhe boas férias, — verdadeiras, alegres, sem sabedorias.

 

Minha Mulher retribui os seus cumprimentos.  Lembranças a seu Pai. E creia

 

na maior estima

 

Do seu muito amigo

 

 

Vitorino Nemésio

 

 

 

 


Em 1942, Margarida* acabara de se licenciar, com distinção, em Filologia Germânica, na Faculdade de Letras de Lisboa, onde Vitorino Nemésio fôra seu professor. Nesta altura, Vitorino Nemésio ainda não tinha publicado o romance Mau Tempo no Canal (1944).

 

Vitorino Nemésio é um dos nossos maiores poetas e escritores do século XX. No fim da sua vida, conquistou o público português com a crónica semanal  "Se Bem Me Lembro", programa transmitido pela RTP de 1969 a 1975 em horário nobre.

 

 

 

 

Vitorino Nemésio e alunos na Faculdade de Letras,

c. 1942**

 

 

 

*Uma fotografia de Margarida aqui

 

**Detalhe de fotografia reproduzida no livro Retrovisor, Um Álbum de Família.

À direita de Vitorino Nemésio está Maria da Graça Paço d'Arcos. À frente,no canto inferior direito, Maria Violante Vieira.

 

Mais sobre V.N. aqui

 



 

 

link do postPor VF, às 11:08  comentar

De helena cardoso a 7 de Maio de 2010 às 13:38
Comovente esta carta. Que espólio fantástico! Linda a escrita de VN e o cheiro das latadas morangueiras. Os poemas da tua mãe também mereciam mais ar...

De VF a 8 de Maio de 2010 às 00:07
E tenho mais surpresas para os leitores :-)
Obrigada pelo encorajamento!

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