11.3.10

 

 

 

 

 

num cinema perto de si

 

 

O paradoxo suportado por Alice está patente desde a primeira página das aventuras no país das maravilhas. O universo vitoriano é introduzido como um universo pastoral idealizado, feito de leituras e de jogos. Mas a menina aborrece-se: «Sentada no tronco ao lado de sua irmã, Alice começava a estar cansada de não ter nada para fazer .» O calor adormece-lhe o espírito. A plenitude ambiente não esgota o desejo que procura o seu objecto: «Ela estava, portanto, interrogando-se (...) se o prazer de entrançar uma grinalda de margaridas valia o esforço de se levantar para ir colher as margaridas .» Alice hesita entre não fazer nada, pôr termo a todos os desejos e deixar-se dormir (o que verificaremos que é o que fará), e procurar sair do tédio e satisfazer o desejo que a anima. Alice adormece. No fim, o leitor deve convir que tudo aquilo era um sonho mas, no mesmo movimento, Alice é brutalmente projectada num universo estranho. As suas aventuras largam amarras assim que a sua curiosidade é desperta pelo aparecimento do Coelho Branco. A técnica do maravilhoso faz-nos deslizar imperceptivelmente duma realidade de ficção para um mundo puramente imaginário. A primeira página do conto surge já comandada por uma dupla tensão. O desejo de abolir o desejo e a sua impossibilidade. Lewis Carroll antecipa, afinal, a descoberta freudiana segundo a qual o sonho é a realização dum desejo inconsciente. O país das maravilhas apresentar-se-á, desde logo, como sendo o inverso desse mundo vitoriano idealizado: um universo onde o desejo que governa os protagonistas vem levantar obstáculos à racionalidade, ao ponto de deitar por terra os seus fundamentos. O universo imaginário está mais próximo do nosso do que a realidade de ficção que nos é apresentada no início e no fim das aventuras de Alice. Com efeito, o sonho dá em pesadelo. Alice não é um conto de fadas tradicional que se acaba com a realização do desejo. As suas viagens ao país das maravilhas ou ao outro lado do espelho dão melhor conta da impossível satisfação do desejo, fundada, segundo a descoberta freudiana, pela perda original dum objecto de fruição, irrecuperável e interdito, que Lacan designa como o objecto a, objecto causa do desejo. Uma das primeiras descobertas de Alice depois da sua queda na toca do coelho é um boião vazio de compota de laranja: ela anuncia o desdobramento dum tal saber no texto, igualmente movido pelo desejo paradoxal de abolição do desejo. É por isso que As Aventuras de Alice no País das MaravilhasDo Outro Lado do Espelho terminam num retorno ao mesmo. Alice volta a ser a criança que era, não cresceu, não se tornou a mulher que a irmã imagina que ela venha a ser, e lamenta então a sua infância. Ela deixa de ser rainha no fim do seu périplo através do espelho, justamente na altura em que acabava de atingir esse estatuto, e a própria Rainha Vermelha volta a ser gatinha.

 

 

 

Sophie Marret

in  Alice

Tradução  de Maria Antonieta de Carvalho

© Éditions Autrement, Paris, 1998 / Editora Pergaminho, Cascais, 2000

 

 

 

 

 

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