3.3.10
 
 
1
 
Devagar.
 

Devagar, sem pudor nem malícia,

Peça a peça tombando a teus pés,

Bem-me-quer, bem-me-quer,

Muito!
 

Bem-me-quer, nua e breve,

Um momento, na penumbra,

Como traço de farol

No leito,

Riscando o lençol.

 
 
2
 

Cerradas as portas de dentro,

Fica uma réstea amarfanhada de Sol

No lençol.

 

Serão, depois, as palavras ciciadas serenas

E uma lágrima, talvez... que se não vê

E um brilho nos olhos ainda longe.

 

Revolto o cabelo,

A cabeça no braço apoiada, tão leve...

Perdura um arfar na tarde finda,

A colcha enrodilhada no soalho.

 

Ciciadas, a medo, as palavras,

Não se desfez o nó que se quis cego,

O frémito e a sofreguidão.

 

De silêncio a penumbra:

Lá fora, na calçada quieta,

O rodar de um carro, silêncio depois,

 

Regressam braços a enlear:

Morfina o tempo retendo

No clarão 'inda alvo do lençol,

Extinta, embora, a réstea de Sol.

 

 

 

Tomaz Kim

in  Exercícios Temporais

Colecção Poesia e Verdade, Guimarães Editores,1966.

 

 

a obra de T.K. aqui

 

 

link do postPor VF, às 16:40  comentar

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