8.2.10

 

 

 

 

 

ENONE

 

 

 

 

Senhora, que fazeis? E que mortal pesar

contra aquilo que sois vos vem hoje animar?


 

FEDRA

 

 

 

Se Vénus assim quer, da triste estirpe minha

sou última a morrer, mais mísera e mesquinha.


 

ENONE

 

 

Mas amais?

 

FEDRA

 

É do amor que tenho tais furores.

 

ENONE

 

 

E por quem?

 

FEDRA

 

 

Vais ouvir um cúmulo de horrores.

Amo... E tremo de frio a nome assim fatal.

Amo...

 

ENONE

 

 

Quem?

 

FEDRA

 

 

Da Amazona o filho, sabes qual,

o príncipe a quem sou, tanto há, de aversão cheia?

 

 

ENONE

 

Hipólito! Ó Céus!

 

FEDRA

 

És tu quem o nomeia.

 

 

ENONE

 

 

Gela-me o sangue, ó Céus!, nas veias já não passa.

Ó desespero! Ó crime! Ó deplorável raça!

Ó viagem de azar! Ó margens lamentosas,

preciso era chegar-te às costas perigosas?

 

 

FEDRA

 

 

Vem de mais longe o mal. Quando ao filho de Egeu

pouco havia me unira a lei do himeneu,

e tudo em paz feliz dir-se-ia me ficou,

meu soberbo inimigo Atenas me mostrou.

Vi-o, corei, perdi a cor e de repente:

e a turvação subiu em mim perdidamente;

meus olhos já sem ver, eu sem falar poder;

todo o corpo senti como transido a arder.

Vénus reconheci e seu fogo implacável,

ao sangue que ela odiar tormento inevitável.

Assíduos votos fiz, cuidei que os desviava:

Um templo a ela ergui e eu mesma o enfeitava;

com vítimas em volta eu mesma guarnecida,

nos seus flancos busquei minha razão perdida,

para amor sem ter cura uma incapaz poção!

E a minha mão no altar queimou incenso em vão:

Quando a Deusa implorando a boca eu já movia,

Hipólito adorava; e ele era quem eu via

mesmo ao pé desse altar onde eu turibulava

e sem ousar nomeá-lo a um Deus tudo ofertava.

E sempre o evitei. Triste miséria, ai!,

revê-lo o meu olhar nos traços de seu pai.

Contra mim mesma enfim me pude decidir:

E a mim me encorajei a sempre o perseguir.

Inimigo a banir da idolatria à custa,

o desgosto afectei de uma madrasta injusta;

seu exílio exigi e meus gritos eternos

o arrancaram do seio e dos braços paternos.

E eu respirava, Enone, e desde a sua ausência,

dias menos febris corriam na inocência.

Submetida a Teseu, mas escondendo os lutos,

do himeneu fatal eu cultivava os frutos.

Vãs precauções! Cruéis em mim destino e vida!

Por meu próprio marido a Trezénia trazida,

o inimigo revi que eu soubera afastar:

Ficam-me em carne viva as feridas a sangrar,

Não é mais um ardor que em minhas veias erra.

É Vénus, ela só, que a sua presa aferra.

Concebi por meu crime um bem justo terror;

odiei vida e chama e vi-as com horror.

Morrendo eu quis cuidar de ter glória futura,

quis o dia livrar de flama tão escura:

mas choro e insistência em ti ver não podendo,

tudo te confessei, e já não me arrependo,

desde que desta morte acates a chegada

e não me aflijas mais nem me censures nada,

e que em socorro vão deixes de convocar

um resto de calor prestes a se exalar.

 

 

 

 

 

 

 

 

Fedra de Jean Racine ( Acto I  - Cena III )

tradução de Vasco Graça Moura

 

© Vasco Graça Moura e Bertrand Editora, 2005

 

 

 

 

aqui

 

 

Fedra encenada por Patrice Chéreau em DVD  

aqui

 

 

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 17:59  comentar

De helena cardoso a 11 de Fevereiro de 2010 às 18:58
Hmmm.... Que bom, ler traduções assim.

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