15.8.09

 

 

Querida Vera,

 

serve o presente para te dizer o quanto aprecio o trabalho de investigação e de (re)criação a que te entregaste. Sem querer cair na vulgata psicanalítica, o resultado deste teu "investimento" pessoal e afectivo é um exemplo feliz de "sublimação" ou não fosse a vida uma alquimia onde calcinamos as frustrações e o sofrimento no fito de chegarmos ao ouro do "conhecimento"  de nós próprios e dos demais.

(J.A.S.)

 

 

O comentário foi deixado aqui pelo meu amigo Jorge, antes mesmo de ter folheado o meu livro ou lido a sua epígrafe, que retirei de Uma Infelicidade Maravilhosa, ensaio dedicado aos processos de cicatrização das feridas do passado.

 

Revisitar o passado para o (re)criar, como tão bem diz o Jorge, corresponde quase sempre à necessidade de conferir um sentido ao sofrimento. No lançamento de Retrovisor, não abriu o meu irmão o seu discurso de apresentação interrogando-se sobre as razões que levam a escrever um livro deste tipo? Para logo citar famosa frase (de Tolstoi, em Anna Karenina): "As famílias felizes parecem-se todas; as famílias infelizes são infelizes cada uma à sua maneira".

 

 

Que diz Cyrulnik?

 

Tal como a felicidade, a infelicidade nunca é pura. Mas, assim que construímos a sua história, conferimos um sentido aos nossos sofrimentos e compreendemos, muito tempo depois, como pudemos transformar um infortúnio em algo de maravilhoso, pois qualquer homem agredido é obrigado a metamorfosear-se.

 

A leitura de Uma Infelicidade Maravilhosa foi esclarecedora porque sendo embora impensável comparar os meus infortúnios com as provações suportadas pelos homens e mulheres de que este livro nos fala — permitiu-me compreender melhor certos aspectos da minha história pessoal. Confortaram-me, ainda, a confiança e o optimismo que o autor transmite, ao debrucar-se não tanto sobre os danos provocados pelo trauma mas antes sobre os processos de reparação:

 

O que é interessante para o nosso tema é o facto de todos os que conseguiram ultrapassar as suas dificuldades terem elaborado, muito cedo, uma “teoria da vida”, que associava o sonho e a intelectualização. Quase todas as crianças resilientes tiveram de responder a duas questões. A primeira, «porque tenho de sofrer tanto?», levou-as a um processo de intelectualização. A outra, «apesar disso, como farei para ser feliz?», incitou-as a sonhar.

 

 

 

 

Tradução de Carlos Correia Monteiro de Oliveira

Editora Âmbar

© Éditions Odile Jacob, 1999

 

link do postPor VF, às 13:27  comentar

pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo