22.6.09

 

 

 

 

 

 

É porque há sempre nela esse signo imperioso da minha morte futura que cada foto, ainda que aparentemente muito ligada ao mundo excitado dos vivos, vem interpelar cada um de nós, um por um, fora de toda a generalidade (mas não fora de toda a transcendência). Aliás, as fotos, excepto nos cerimoniais constrangedores de alguns serões fastidiosos, são para ser vistas a sós. Suporto mal a projecção privada de um filme (não há público suficiente, nem suficiente anonimato), mas tenho necessidade de estar sozinho diante das fotos que contemplo. No fim da Idade Média, alguns crentes substituíram a leitura ou a oração colectiva por uma leitura e uma oração individual, em voz baixa, interiorizada, meditativa (devotio moderna). É este, parece-me, o regime da spectatio. A leitura das fotografias públicas é sempre, no fundo, uma leitura privada. Isto é evidente para as fotos antigas («históricas»), nas quais leio um tempo contemporâneo da minha juventude, ou da minha mãe, ou, indo mais além, dos meus avós, e nas quais projecto um ser perturbador que é o da linhagem de que sou o termo. Mas isto também é verdade para as fotos que, à primeira vista, não têm qualquer ligação, mesmo metonímica, com a minha existência (por exemplo, todas as fotos de reportagem). Cada foto é lida como a aparência privada do seu referente: a idade da Fotografia corresponde precisamente à irrupção do privado no público, ou, melhor, à criação de um novo valor social, que é a publicidade do privado. O privado é consumido como tal, publicamente (as constantes agressões da Imprensa contra a privacidade das vedetas e os crescentes embaraços da legislação testemunham esse movimento). Mas como o privado não é apenas um bem (sob a alçada das leis históricas da propriedade), como ele é também, e para além disso, o lugar absolutamente precioso, inalienável, em que a minha imagem é livre (livre de se abolir), como ele é a condição de uma interioridade que creio que se confunde com a minha verdade, ou, se se preferir, com o Impossível de que sou feito, acabo por reconstituir, por uma resistência necessária, a divisão do público e do privado: quero enunciar a interioridade sem renunciar à intimidade.

Vivo a Fotografia e o mundo de que ela faz parte em função de duas regiões: de um lado as Imagens, do outro as minhas fotos; de um lado, a negligência, a indiferença, o ruído, o inessencial (mesmo que esteja abusivamente ensurdecido com isso); do outro lado, o escaldante, o ferido.

 

Roland Barthes

in A Câmara Clara, Nota sobre a fotografia (40)

Tradução de Manuela Torres - Edições 70 Lda

 

© Cahiers du Cinema/Gallimard/Seuil,1980

 

Imagem: Jacqueline Kennedy III (Jackie III) de Andy Warhol, 1966 aqui

 

link do postPor VF, às 21:26  comentar

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