31.5.17

 

Jean-Michel-Basquiat-50-cent-Piece.-1983

 Jean-Michel Basquiat, 1983 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Não há de ser nada

 

 

Leitora querida, duas gerações abaixo da minha, jurista – o que ainda me impressiona sempre, é uma espécie de microtraumatismo para a minha mente moldada em fôrma alentejana anarquista na qual o pai proíbe o filho de em crescido ser padre, soldado ou advogado - metida num desses programas europeus para a educação superior que vão sob o nome geral de Erasmo, levam gente nova de um lado para o outro a encontrar outra gente e, logo por isso, não teriam desagradado ao sábio de Roterdão do Elogio da Loucura, mandou-me dizer o seguinte:

 

A marcha da tecnologia é um problema bicudo, mas não há de ser o fim do mundo. Admito que me irrita um pouco a jovialidade com que os jornais gostam de proclamar semana sim, semana não, o antecipado fim da profissão X ou Y (às vezes incluindo o da minha-a-partir-do-ano-que-vem-com-sorte). Mas se nos conseguimos – mais ao menos e depois de muita tareia – adaptar às mudanças da revolução industrial, não vejo porque estas serão diferentes. O ritmo assusta, é certo, e não digo que nos esperam rosas, mas alguma coisa se haverá de arranjar.”

 

That’s the spirit!” teria eu reagido, nos meus anos ingleses, tão diferentes dos anos de hoje em Inglaterra ou seja onde for. O ritmo realmente assusta. Em A Cidade e as Serras, Zé Fernandes, vê fita de papel sair de máquina em casa do seu amigo Jacinto (que tinha nascido com cento e nove contos de renda em fartas terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival – e cento e nove contos no fim do século XIX eram muitíssimo dinheiro) no número 202 dos Campos Elísios, fita onde está escrito que a fragata russa Azoff entrara no porto de Marselha com avaria e pergunta a Jacinto porque é que aquilo lhe interessa. “É uma notícia” responde o anfitrião e hoje estamos todos como ele. Smartphones, tablets, computadores, emails, twitts, Facebook, Skipe, WhatsApp, etc., etc., etc., deixam-nos ao fim de cada dia – que a rotação da terra, tirando ou pondo um minuto por século, essa ainda é a mesma - com milhares de fragatas russas avariadas em centenas de portos dentro da cabeça. Eu sei que o saber não ocupa lugar (houve a certa altura colecção de livros de divulgação chamada assim) mas o que entra todos os dias parece incomensurável - e, de qualquer maneira, serão precisos instrumentos inéditos de medição no bravo mundo novo da post-verdade.

 

Cada homem é uma ilha, escreveu o poeta. Em 1968, em Oxford, ainda assim parecia ser. M.S. Lourenço e eu inventámos poeta escocês romântico esquecido, redescoberto e analisado pelos filólogos oxonianos Marks, judeu, e Spencer, goyim, de cujo nome já me não lembro mas de quem sei ainda de cor a tradução – feita por nós do original inglês – de um verso: “Já do teu sentimento conhecimento não tinha.” Graças à mania inveterada de fazer partidas de M. S. estivemos quase a mandar curto artigo sobre ele a uma das nossas revistas literárias, seguros de que os nomes dos filólogos não poriam de fora o rabo do gato. Bons tempos.

 

 

 

 

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24.5.17

 

Domingo Ortega 1

Domingo Ortega

 

 

José Cutileiro

 

 

Hidrogénio ou Hydrogénio?

 

 

 

O Dr. Miranda de Lemos, professor de ciências naturais na Escola Valsassina, muito velhinho aos meus olhos de gaiato, marcava-nos erro em pontos e redacções se escrevêssemos hidrogénio sem ypsilon, como se devia escrever segundo a ortografia oficial da altura, que não era sequer nova em folha. Em 1911, logo a seguir ao derrube da monarquia – o galicismo mais pesado em consequências cometido pelo peito ilustre lusitano a quem Neptuno e Marte obedeceram – e à implantação da primeira República, reforma ortográfica fizera desaparecer do alfabeto que se aprendia na escola o k, o w, e o y. Mas, impecável no jaquetão caseiro de gola de veludo com que vinha dar aulas, cabeleira quase branca e olhos a faiscarem por detrás dos óculos de tartaruga, Miranda de Lemos não ia nisso – resistência de já 33 anos, quando os nossos destinos se cruzaram. Ao fio dos dias fui-me esquecendo dele mas voltou-me de repente à ideia, flamejante, muitos anos depois – e já há muitos anos – em intervalo do Rigoleto, numa frisa de S. Carlos para a qual a Teresa Gouveia convidara Vasco Graça Moura, eu e as mulheres que nos tinham na altura. O acordo ortográfico veio à baila e aí o meu chorado Vasco foi exemplar, dando cabo dele como Domingo Ortega despachava touros sem nobreza, rematando por baixo a lide de muleta – parar, cargar, templar y mandar, ordenava o Maestro – e acabando-os com meia estocada, que não mereciam mais.

 

Na primeira República, no Estado Novo, até na Revolução dos Cravos, as coisas eram assim. Havia mudanças – os três nomes acima davam de resto eles próprios sinais de mudança funda, com um antes e um depois (mesmo que nem sempre, em cada um dos dois lados, estivesse toda a gente de acordo sobre tudo. O poeta Guerra Junqueiro, por exemplo, republicano, autor de A Velhice do Padre Eterno, herói dos anticlericais quase até ao fim da vida, e da Santa Madre Igreja no fim mesmo, quando voltou ao seio dela e quis ser confortado com todos os seus sacramentos, ficou furioso quando se decidiu mudar da bandeira azul e branca da monarquia liberal para a bandeira de hoje. “Encarnado e verde são cores de preto!” tonitruou numa polémica) – mas mudanças levavam décadas e a gente ia-se habituando. Agora as mudanças são tantas em tão pouco tempo, que há quem pense que não se poderá continuar a viver assim, que num mundo em que robots façam tudo por nós, a palavra se arrisque a servir só para falarmos sozinhos. A guerrilha contra esse futuro aterrador já começou. Ontem, médico disse-me que nos dias em que a mulher o manda ao supermercado nunca paga nas caixas automáticas. Prefere esperar em bichas e tratar com as criaturas que restem (duas em doze caixas, no seu supermercado).

 

Combate inglório? Esta semana, nos Estados Unidos, a Ford despediu o seu PDG por a companhia estar a vender menos carros do que a Tesla cujos automóveis são eléctricos – e cujo serviço de investigação está inteiramente virado paras automóveis sem condutor. 

 

 

 

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17.5.17

 

 

portugal bandeira

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Portugal: bom ou mau ?

 

 

Quando, há mais de 40 anos, o PREC (Processo Revolucionário Em Curso) acabou e, depois de eleições, deixámos de ter governos provisórios e passámos a ter governos constitucionais, chegando o primeiro destes em 1976, ocorreu-me que o país mais parecido com Portugal depois do 25 de Abril era Portugal antes do 25 de Abril. Na altura, esta constatação irritou amigas de esquerda, cheias de sangue progressivo na guelra, que acharam ser eu um reacionário não recuperável – como o puto de Les Mains Sales, depois de quadro sabichão do PC lhe ter comido a pequena – por não me ter dado conta de quanto a luz do dia era diferente passada a noite negra do fascismo. E irritou também amigas de direita que se agastavam com tudo, desde ter sido mudado o nome da ponte sobre o Tejo até haver cada vez menos educação em escolas, cafés e transportes públicos, sem que eu, esquerdista inveterado, parecesse dar por isso ou, se dava, sem me incomodar. (Falso: lembro-me numa esplanada de Lisboa ter dito a rapaz que nos atendia de mau modo que poderia ser eu a servi-lo às segundas, quartas e sextas, e ele a servir-me a mim às terças, quintas e sábados, mas cada um no seu lugar, sem falta de respeito pelo outro. Olhou para mim com boi para palácio e eu concluí que é inútil tentar postular igualdade quando esta não exista).

 

O que se ache de Portugal, vai muito da disposição com que se esteja e da experiência que se tenha tido. Em 1879, Eça rematou O Crime do Padre Amaro, evocando “pátria para sempre passada, memória quase perdida” – depois de descrição lúgubre da nova pátria, no Largo do Loreto, acabada assim. “Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de tabernas, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime”.

 

Em 1900, ano em que morreu, ocorreu-lhe falar de Portugal de outra maneira. No fim de A Ilustre Casa de Ramires um dos personagens diz a outros quem Gonçalo Mendes Ramires lhe lembra. “A franqueza, a doçura, a bondade … Os fogachos e entusiasmos que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência… A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos quase pueris… A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique que sanará todas as dificuldades… Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa (…) Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

 

- Portugal.

 

(Um bocadinho como aquele que não admitia que não se fosse socialista antes dos 40 anos ou que se fosse depois).

 

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10.5.17

 

 

 

FRANCE POLITICS ELECTIONS MACRON

Emmanuel Macron

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O desbravar do caminho

 

 

 

 

Emmanuel Macron ganhou folgadamente a eleição presidencial em França mas os 34% de votos em Marine Le Pen mostraram mais de um terço da França virada para o país pétainista que fora no começo dos anos quarenta do século passado, contente por Hitler a ter salvo do comunismo – e tanto pior para os judeus. Que em 1945 a França não só tenha escapado ao opróbrio da derrota mas também sido dada por um dos cinco grandes vencedores da segunda guerra mundial – juntamente com Rússia, Inglaterra, América e China – com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, deve-se ao génio do general De Gaulle que, de Londres onde se refugiara, apelara à resistência aos alemães pelas forças francesas livres, uma pequena minoria de civis e militares (a que os comunistas se aliaram mas só depois de Hitler ter invadido a União Soviética, rompendo brutalmente o pacto germano-sovético contra as democracias europeias) e, a despeito da sobranceria norte-americana , comandara a sua luta com tal eficácia militar e política que, em 1944, descera os Campos Elísios à frente dos seus como libertador de Paris.

 

A França (e a fortiori a União Europeia) precisa também agora de quem a salve e talvez tenha encontrado o salvador em Emmanuel Macron. É trabalho de Hércules mas poderá ser feito e Macron parece estar disso convencido, tal como parecem estar os milhões que foi juntando à sua volta desde que, há um ano, lançou o movimento En marche! quando ninguém o conhecia para lá do mundo político parisiense onde se sabia haver aparecido rapaz inteligentíssimo com quem toda a gente simpatizava , casado com Senhora muito mais velha do que ele que fora sua professora no liceu. Se Macron der conta do recado, é preciso ir mais atrás na história de França do que De Gaulle para encontrar figura comparável: Napoleão Bonaparte. Os tempos e as técnicas são outros e a guerra não é militar mas em tenacidade de propósito, clareza no rumo à vitória, planeamento a longo prazo de estruturas e pormenores necessários ao projecto sem por isso perder comando e controle da luta diária, as semelhanças são sugestivas.

 

Muitos comentadores franceses e alguns estrangeiros lembram em tom magistral que não há homens providenciais. (Argumento conhecido contra a história contada por feitos de Reis, por praticantes da história contada por variações do preço do centeio). Infelizmente para os comentadores, “providencial” assenta como uma luva em De Gaulle e Napoleão (até o mando lhe subir à cabeça e o desterrar para Santa Helena). Sem homens providenciais – e uma mulher, Joana d’Arc – a França não seria a França.

 

Macron terá maioria na Assembleia Nacional. As piores dificuldades vêm de fora: austeridade, imposta pelos seus amigos alemães; vandalização da verdade, desde a teoria da evolução ao aquecimento global e a tudo o resto, exemplificada pelo 45º presidente dos Estados Unidos, que disse já quase 500 mentiras provadas desde que tomou posse a 20 de Janeiro.

 

 

 

 

 

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3.5.17

 

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Paris

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A eleição francesa

 

 

Na primeira volta da eleição presidencial francesa, as empresas que fazem sondagens em França portaram-se muito melhor dos que as suas congéneres no Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda no Norte e nos Estados Unidos da América se tinham portado (isto é, acertaram em quem viria a ganhar e a perder e com os números certos). No primeiro caso, quando do referendo sobre permanecer ou não membro da União Europeia em Junho do ano passado em que as ditas congéneres do lado de lá do Canal da Mancha, como um só homem, previram que quem queria ficar na União ganharia sem sombra de dúvida e, no segundo caso, sobre a eleição presidencial que opôs Donald Trump a Hillary Clinton (outros candidatos não contavam embora complicassem: por exemplo, candidata à esquerda de Clinton, a quem fora pedido, em vão, que desistisse antes da ida às urnas, ganhou em Michigan, Pensilvânia e Wisconsin votos que, se tivessem sido contados para Clinton, lhe teriam dado vitória no Colégio Eleitoral, isto é, na eleição) em que as congéneres transatlânticas, também com certeza absoluta, previram Clinton como o 45º Presidente, a entronizar em Janeiro. (O Clinton macho avisara que era preciso prestar atenção aos brancos pobres da ‘cintura da ferrugem’; não considerar os votos deles adquiridos sem sequer os ir ver e falar com eles mas a rapaziada – e raparigada – que mandava na campanha mandou o velho ir dar uma volta).

 

Com esse precedente, os especialistas franceses destas coisas ganharam crédito e a gente agora espera que o que nos apresentarem desta vez como resultado mais provável esteja outra vez certo. Os últimos palpites desses especialistas de que tive notícia dão 59% dos votos expressos a Emmanuel Marcron e 41% a Marine Le Pen. Como o medo de abstenção por muita gente de direita, apesar da recomendação de votar Macron dos seus chefes – Fillon, Sarkozy, Juppé – bem como por muita gente de extrema-esquerda, sem recomendação de votar Macron do candidato Jean-Luc Mélenchon, em quarto lugar na primeira volta, estava a generalizar-se, começa a sentir-se alívio por parecer muito provável que o 7º Presidente da 5ª República francesa venha a ser Emmanuel Macron. Pessoalmente, estou convencido de que Macron tem qualidades de chefia excepcionais que lhe permitirão, nas eleições legislativas de Junho, ganhar maioria presidencial na Assembleia Nacional e levar depois a França a bom porto. Ao mesmo tempo, felicito-me por não irmos ter Marine Le Pen no Palácio do Eliseu.

 

Mas além disso não haverá grande motivo para exultação. Muito pelo contrário. Quase 40% dos franceses prefeririam ser governados por gente com provas dadas de nacionalismo brutal (patriotismo é amar os nossos; nacionalismo é odiar os outros, disse Romain Gary); nostalgia de regimes nazis ou fascistas que mandaram em partes da Europa nas décadas de 30 e 40 (e na Península Ibérica até aos anos 70) do século passado; antissemitismo; racismo em geral. E 40% dos franceses é muita gente.

 

 

 

 

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2.5.17
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