29.3.17

 

albert-einstein-on-a-bike-t-shirts-men-s-t-shirt

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

A Utilidade do Saber Inútil

 

 

 

The Usefulness of  Useless Knowledge” foi o título de um seminário que teve lugar há poucas semanas no Institute for Advanced Study, em Princeton, New Jersey, em que o director do Instituto participou – um holandês cheio de imaginação; ainda no meu tempo havia sido a vez de um inglês que fora precedido pelo americano que eu lá encontrara à chegada, na sucessão de outros americanos até ao escolhido para ser o primeiro director, quando da fundação do Instituto em 1930. Instituição das mais venerandas – senão a mais veneranda – do alto saber nos Estados Unidos da América, o seu endereço postal diz tudo: 1 Einstein Drive, Princeton, New Jersey (ignoro o nome da alameda antes de a crismarem depois da morte do grande sábio). Os directores, passado pedagogo inicial, quase todos físicos ou matemáticos, com um economista tresmalhado. Os professores, Einstein um deles, são e sempre foram de nacionalidades variadas (dantes fugia-se para os Estados Unidos da América); os “membros”, geralmente professores em universidades americanas ou de outros países que durante um ano académico estudam ou escrevem, sem responsabilidades de ensino e nobilitando o curriculum, vêm também de todo o mundo. A anglófono ou anglófona que queira conversa muito inteligente ao almoço, não sei recomendar melhor mesa que a do restaurante do Instituto. (A comida também não é má).

 

O que é uma educação útil e o que é uma educação, digamos, ornamental pode parecer simples mas não o é a não ser em casos extremos. Ler  “Hamlet” será provavelmente sempre ornamental (salvo, escreveu Bertrand Russell, no caso de alguém que esteja a planear assassinar um tio). E a ascensão do saber de experiência feito acima do saber só aprendido em livros acontece na nossa civilização com o Renascimento, primavera de que os primeiros rebentos se anunciam no Século XIV, como a regra a que se chama “Occam’s razor” – entre as várias alternativas de solução de um problema a mais simples é a mais provável – ligada a frade franciscano do mesmo nome, não estando ainda a guerra ganha em meados do século XVII quando Sir William Harvey, que descobriu a circulação do sangue tal como a conhecemos, recomendava aos alunos: “Não penses, experimenta” – “Don’t think, try”.

 

Depois chegou o século das luzes e, escarranchada nessas luzes, a Revolução Francesa. Em pano de fundo, rugindo antes e depois, a revolução industrial. A seguir, duas guerras mundiais; armas nucleares; robots; inteligência artificial. Ciência (de Silicon Valley ou de alhures) agora sempre com precedência sobre humanidades. Apetece às vezes dizer: “Não experimentes, pensa”.

 

A quantidade de coisas utilíssimas vindas de pensamentos julgados inúteis é imensa. Quem pergunte ‘O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba?’  não percebe a diferença entre o saber comum – que é vago, contraditório e gabarola – e o saber filosófico – que é preciso, coerente e humilde (outra vez Bertrand Russell).  

 

 

 

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28.3.17

 

 

B LIGHT-VINTAGE-LETTER-

 

 

 

 

bimbo
bim.bo
nome e adjectivo com 2 géneros
(origem incerta; talvez do italiano bimbo, criança)

 

Esta é uma daquelas palavras de invenção urbana e significado volátil que se usa como categoria de desclassificação. Originalmente «pacóvio», «parolo», «provinciano», «rústico», «ingénuo», por extensão passou a indicar rudeza, falta de maneiras, mau gosto e, de um modo geral, uma inadequação aos valores e representações sociais e estéticos do locutor, que assim se exclui e distancia da categoria apontada e desdenhada. Um marcador social. Por tal razão, bimbo designa com frequência o matarruano, o labroste ou lapuz, o simplório; mais raramente aponta o ignorante, o estupor, o pedante, o pretensioso, o inculto e o idiota encartado nas suas múltiplas e ramalhudas derivações modernas. O tempo fez, porém, estragos neste cenário, e a rudeza, a falta de maneiras e o mau gosto revivem em glória nos ademanes e costumes de urbanos e suburbanos, de diversa extracção e notoriedade, que se arrogam o direito de também se diferenciarem dos «bimbos». Sinal dos tempos. Mas é terreno resvaladiço, quando o significado, com tanta e sucessiva extensão, se desprende ou perde das palavras. E do juízo de quem as usa.

 

 

 

 

 

 

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22.3.17

Philips 1964

 gravador Philips, 1964

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

As coisas são o que são. 

 O que é ser? O que são coisas?

 

Quando perguntei ao Tio Zé Peidinho, pastor reformado (de gado, não de almas) como é que achava que o mundo tinha começado, analfabeto com melhor cabeça que muitos doutores que eu conheci – nesse tempo, doutores eram pelo menos licenciados em matérias estudadas em universidades e não técnicos enfeitados com o título no afã de serem promovidos a portugueses de primeira pelo tratamento que lhes passava a dar o comércio - respondeu: “Há de ter começado como tudo: de pequenino”.

 

O Tio Zé Peidinho tinha 82 anos, era muita idade nesse tempo, eu 32, e estávamos à conversa numa manhã de sol, só com barulhos de campo e de sinos da igreja da Vila às horas, meias e quartos de hora, porque escribas, acocorados ou não, precisam de saber às quantas o mundo anda. Pontualidade mais rigorosa só chegou com máquinas que exigiam disciplina no trabalho, começando no Noroeste da Europa com o que se chamou a revolução industrial. No lugar onde o Tio Zé Peidinho e eu estávamos tal revolução nunca tinha realmente chegado mas produtos e subprodutos seus tinham já feito mudar muita coisa: antes da fábrica de cartão construída na margem do Guadiana, antecipada com desconfiança (“Como se eu acreditasse que aquela merda serve para fazer papel” rosnou o secretário do tribunal da sua cadeira de lona na esplanada do Café Central à passagem lenta de um reboque carregado de maquinaria) mas que, pela primeira vez na história local, deu trabalho a operários entra o ano, sai o ano (até albufeira da barragem de Alqueva a ter deliberadamente submergido) encontravam-se na freguesia sinais claros de dependência do mundo exterior. Em casinhoto no sopé da colina havia há décadas uma bomba fabricada - e assinada - em Inglaterra para levar água do rio à cisterna intramuros lá em cima.

 

Registei a nossa conversa no gravador Philips e perguntei-lhe se queria ouvir. Ouviu atento e depois disse: “Olha que mánicazinha tã esperta!” Concordei, os dois embevecidos com aquela maravilha do progresso. Pouco tempo depois, em St.Antony’s College, Oxford, eu e um economista de turbante chamado Montek Sing que de lá foi para o Banco Mundial, ficávamos fascinados com grande fotocopiadora xerox na administração do colégio que além de nos fazer ouvir espécie de deglutição mecânica própria de tais engenhos, chispava luzes verdes. Talvez Montek e eu, o Punjab e o Alentejo, estivéssemos menos longe do campo original da espécie do que ingleses, americanos, alemães, judeus e outros que também viviam no Colégio e não me lembro de encontrar na contemplação da copiadora.

 

Remanso que acabou. Exponenciações da lei de Moore aceleram inexoravelmente o mundo digital. Física quântica tem aplicações práticas inesperadas e surpreendentes. O resto da natureza sofre ainda mais do que nós. Políticos desorientados querem diminuir trocas comerciais e produzir mais armamentos. Estamos a ficar analfabetos e não somos tão espertos como o Tio Zé Peidinho.

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20.3.17

 

J wooden letter birch

 

 

 

 

já-agora
já.a.go.ra
advérbio + advérbio
(do latim: jam + hac hora, nesta hora)

 

Bem sei que o dicionário regista palavras, unidades lexicais, e esta entrada é formada por duas, dois advérbios de tempo de significado similar, usados em conjunto em muitíssimas situações. Como noutros casos, aqui o resultado não é igual à soma das partes, o que torna ainda mais difícil explicar de forma lógica o sentido do seu uso. É uma das expressões do português mais difíceis de traduzir e de explicar, por exemplo a um estrangeiro. A saudade tem fama de não ter equivalentes, mas o «já agora» é um caso bem bicudo. Nem sequer é fácil substituir este par por outra expressão equivalente. A sinonímia que alguns dicionários propõem não é completamente convincente. Talvez a expressão «visto isto» se aproxime, mas é isso mesmo, uma aproximação. Só com uma perífrase se consegue explicitar o sentido oportunístico da expressão: «já que aqui estou», «já que é assim», «já que pergunta», etc. A expressão traduz um sentido de oportunidade em que o locutor procura tirar partido de uma dada situação. Vejamos as diferenças e as semelhanças de uso nos seguintes contextos:
1.
- Quer beber alguma coisa enquanto espera?
- Já agora bebo um café, obrigado.

2.

- Vou levar o carro à revisão e já agora mando arranjar o espelho partido.

3.
- O maioral agarra, viril, a moçoila e com a outra mão desabotoa a berguilha, quando ela escapa com um safanão. Vendo-se de mãos a abanar e de berguilha aberta, o maioral diz para si, «já agora mijo».

 

 

 

 

 

 

 

 

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15.3.17

 

Turquia, 2017

 Turquia, 2017

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Patriotas

 

 

 

Recep Tyyip Erdogän (devia haver uma espécie de v, em vez de trema, sobre o a mas falta no meu teclado embora só um tonto ou um fanático se queixaria disso: há quase um século Mustafá Kemal, depois conhecido por Kemal Ataturk – pai dos turcos – mudou o alfabeto em que se escrevia a língua turca do árabe para o nosso e ninguém se lembrou ainda de voltar para trás; conta-se de resto que o grupo de sábios encarregado da tarefa não atava nem desatava há mais de um ano quando Kemal mandou um dia vir a papelada, trabalhou sobre ela a noite inteira e de manhã fez entregar o alfabeto novo aos sábios), Recep Tyyip Erdogän, dizia eu, é déspota oriental obrigado por um século de ocidentalização da Turquia a dotar-se de constituição, parlamento e outras modernices que nunca se deveriam dar ao povo - até porque, depois de dadas, é muito difícil tirar-lhas – de maneira que procura ajeitá-las o mais possível às exigências de uma monarquia absoluta. Primeiro-ministro de 2004 a 2014 e Presidente da República desde 2014, tudo ao longo dos anos como deveria ser, em eleições livres e limpas, vai em Maio fazer um referendo para aprovar nova Constituição que torne a governação muito mais presidencial do que parlamentar. Ao contrário do que Erdogän esperara, animado não só pelos triunfos eleitorais anteriores mas também por aumento da sua popularidade a seguir a tentativa falhada de golpe de estado que tencionara matá-lo e colocou brevemente ao seu lado até oposicionistas tradicionais, sondagens agora não o deixam achar que sejam favas contadas e a campanha pelo sim não pode desleixar-se. Ora em 2014 Erdogän e o AKP, seu partido, perceberam melhor que os outros partidos turcos que os votos da diáspora eram importantes e passaram a fazer campanha no estrangeiro, o que se prepararam para repetir desta vez.

 

Entretanto, porém, aconteceram duas coisas: por um lado, políticos populistas na Europa estimulam entusiasticamente o ódio aos muçulmanos; por outro lado, traços autoritários com toques paranoides foram-se acentuando em Erdogän, envenenando também as perspectivas de adesão da Turquia à União Europeia. Por fim, arranjo manigânciado entre a União e a Turquia permite à primeira mandar emigrantes de países terceiros à segunda e à segunda receber dinheiro e vistos. Alemanha, Áustria, Suécia e Suissa, também fecharam agora a porta a ministros turcos mas os holandeses foram mais brutos, os turcos lembraram o nazismo – muito eficaz na Holanda durante a ocupação alemã – e hoje as relações políticas entre Haia e Ancara viram Clausewitz do avesso: guerra por outros meios. (Erdogän chamou à Holanda e à Alemanha “estados bandidos”). Dá jeito a uns e a outros por agradar aos mais renhidos dos seus patriotas.

 

A França mistura a República mais monárquica do mundo com Liberté, Égalité, Fraternité e autorizou o MNE turco a ir lá falar, sendo hipocritamente condenada por outros europeus e (também tem eleições à porta) pela sua própria extrema-direita.  

 

 

 


12.3.17

 

E-black-paint-splatter-icon

 

 

 

 

eles
e.les
pronome pessoal masc. pl.
(do latim ille)

 

O contexto de utilização deste pronome que interessa aqui evidenciar é o da referência a uma entidade ao mesmo tempo indefinida e abstracta, embora de natureza colectiva, da qual o locutor se separa e distancia ao referir-se a «eles». Um trabalhador de uma empresa, digamos, por exemplo, caixa do supermercado, referir-se-á ao conjunto de regras que tem de cumprir e à cadeia hierárquica a que tem de obedecer – isto é, referir-se-á à empresa que integra – como «eles». Num outro exemplo, um professor referir-se-á ao Ministério a cujos quadros pertence como «eles». Em ambos os casos, o locutor exclui-se da pertença às entidades que menciona. E neste «eles» há um travo a ressentimento e a hostilidade. É toda uma visão do mundo. «Eles» são o «sistema», a autoridade, a organização. O «eu» não faz parte dessa pandilha, que olha com desconfiança (não raro justificada, diga-se). Nesse caso, constitui um enunciado de desresponsabilização: «eles» é que têm a culpa, «eles» é que disseram para fazer assim. «Eles» são, por exemplo, o hospital ou o centro de saúde, o banco, a escola, as finanças, a administração pública, a meteorologia (eles dizem que vai chover), o corpo director da empresa, a polícia, os transportes, e, mais recentemente, a internet, o Google e similares. E, no repúdio e na indignação, dir-se-á, na versão suave, «quero que eles se lixem!». O que comporta sempre um certo risco, porque «eles» estão em toda a parte e têm ouvidos de tísico. O que vale é que a gente não tem medo deles.

 

 

 

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8.3.17

 

affiche Chagall

 Marc Chagall

 

José Cutileiro

 

 

Na caixa do supermercado

 

 

No sábado à tarde, quando, com a minha mulher, empurrando num carrinho o que ia comprar, cheguei junto das caixas só estava aberta a última das três – a do velho pequeno, calvo, irritadiço e rabugento. Chamo-lhe velho, embora ele tenha com certeza mais de vinte c cinco anos menos do que eu, assim como posso chamar a antigo condiscípulo na Valsassina um rapaz da minha idade: manhas de sobrevivência que querem dar vestígio de doçura à vida e não se inventam por mal. Chamo-lhe rabugento porque, entre o ano saia o ano, faça chuva ou faça sol, no calor dos verões bons ou no frio dos invernos maus, foi sempre assim que o vi, agastado por a máquina se recusar a ler etiquetas de preço, por frutos não terem sido pesados, por não ter chegado ainda à caixa outro empregado que tivesse chamado pelo telefone, por causas de mim desconhecidas que o levem a murmurar sombriamente consigo mesmo palavras indistintas. Funambulista das relações humanas, nunca cai: não chega a ser malcriado com a clientela e nem tampouco a ser acolhedor.

 

La Grande Épicerie onde passamos depois do golf da Myriam antes de seguirmos para casa é a última escala contra mundo dos rituais da semana e quando vejo o velho na sua caixa, sempre a mesma, procuro se possível sair por uma das outras, onde as mesmas raparigas belgas, magrebinas ou ucranianas, que vão variando com as semanas, se ocupam de nós sem imposição lúgubre de personalidade. Neste sábado tal não foi possível e ainda bem porque aconteceu, inesperadamente coisa extraordinária. Enquanto passávamos as compras do carrinho para o tabuleiro rolante que vai dar à caixa o velho que falava com o cliente anterior, já despachado, deu uma gargalhada e, não me tinha eu refeito do espanto, porque não fora sequer sarcástica, mais outra e outra ainda, de riso aberto e generoso. O cliente ria também, contente, em frente dele e saiu a seguir para o parque de estacionamento. O velho voltou-se para nós e eu disse-lhe:

 

 

“O Senhor vai desculpar-me o que eu lhe vou dizer mas nunca o vi tão feliz”.

 

“Devo tomar as suas palavras como um cumprimento?”

 

“Com certeza.”

 

 

“É que nunca estive tão feliz. Nem julguei que me pudesse alguma vez acontecer. Mas aconteceu, há umas semanas. E na minha idade. Encontrei a mulher dos meus sonhos” (falávamos na sua língua, o francês da Walónia, e o que ele disse foi J’ai trouvé la perle rare que é uma das imagens conhecidas da língua francesa para referir momento assim) “Nunca pensei que me aconteceria a mim” repetiu e ria, olhando-me nos olhos, contente de estar feliz.

 

Paguei, pusemos os sacos no carrinho e saímos para o parque de estacionamento. Tinha parado de chover e pensei que se eu acreditasse em espíritos e mesas de pé de galo procuraria quem pudesse conjurar Maupassant ou Tchecov ou O. Henry para eu lhe contar a história e ele fazer dela o que quisesse. Assim, pensei que só é pessimista quem quer. E que – longe vá o agoiro – é capaz de haver Deus.

 

 

 

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5.3.17

 

Carnival_L_250

 

 

ludíbrio
lu.dí.bri.o
nome masculino
(do latim ludibrium)

Embuste, engano; habilidade ou manha conducentes ao logro. A primitiva acepção de escárnio incorporou-se no significado que vingou na língua actual, envolvendo a menorização ou o desprezo pelo ludibriado, que, não sendo propriamente néscio, faz figura de otário. Engano ou ilusão obtidos com acinte e malícia premeditados. Intrujice. Por extensão, significa também cilada, emboscada. Por analogia com o futebol, diz-se que fulano foi «fintado» com o significado de «enganado com habilidade»; ou «toureado» se a analogia for de natureza tauromáquica. Logro astucioso da percepção elevado, por vezes, à categoria de arte: com minúscula ou mesmo com maiúscula.

 

 

 

 

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1.3.17

 

 

José Cutileiro

 

Duas na ferradura

 

Ia começar a escrever mais este Bloco (chamo-lhes Bloco-Notas e a Vera consente-me tal liberdade poética por ter um grande coração; ao se referir a eles ela própria chama-lhes Blocos de Notas que é como se deve dizer) quando tive o meu filho ao telefone que, entre outras coisas, me contou haver recebido de presente a História da Segunda Guerra Mundial de Winston Churchill (versão abreviada, só com cerca de mil páginas) e estar a antecipar o gosto de a ler. Churchill dizia que a História o iria certamente tratar bem porque tencionava ser ele a escrevê-la e assim foi; embora ajudantes eminentes, eles próprios historiadores, tenham molhado a sopa como também era inevitável e costumeiro noutras artes – Miguel Ângelo não deu todas as pinceladas precisas para acabar o teto da Capela Sistina, nem tampouco foi Wolfgang Amadeus a lançar no papel todas as notas das suas partituras. O Zézinho – a graça do meu filho é José, como é a minha e como fora a do meu Pai; o nosso sistema de parentesco é cognático com forte pendor patrilinear mesmo depois da extinção dos morgadios; o diminutivo resulta de inclinação linguística portuguesa e senioridade nas famílias – é, como o pai, grande apreciador de Churchill e perguntou-me se eu sabia o que é que Winston considerava o mais forte argumento contra a democracia? Não. Eu só conhecia o mais forte a favor (o pior sistema de governo tirando todos os outros). O mais forte argumento contra era conversa de dez minutos com um eleitor médio. Em qualquer dos nossos países.

 

O que durante as décadas a seguir a guerra (1939-1945) cujo resultado permitira a sobrevivência das democracias parlamentares ocidentais (e, como moda nova, também em outras partes do mundo) fora tomado por graça elitista travessa de que a gente se ria e de que se esquecia a seguir, dói agora até ao osso…. depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e da escolha dos cidadãos do Reino Unido de saírem da União Europeia, no ano passado; da desfaçatez de Geert Wilders nos Países Baixos e de Marine Le Pen em França, um e outra à beira de eleições nos seus países e aparecendo muito altos nas preferências dos eleitores em sondagens de opinião – espuma fumegante sobre caldo a ferver de ódio a estrangeiros, de preferência da força sobre a razão para dirimir questões com outra gente – Trump a querer estar sempre à frente na corrida aos armamentos o que é prudente mas não devia ser badalado assim e a cortar dinheiro que faria baixar tensões e tornar guerras menos prováveis; para não falar de países de Leste na Europa em que demãos apressadas de democracia estão a estalar depressa e a deixarem à vista indecências de poder e de vida que eram o pão nosso de cada dia nas sociedades criadas e sustentadas pela União Soviética.

 

As duas na ferradura? É que o ferreiro não acerta: para lá do que vemos não percebemos nada. Sabemos que os remédios populistas receitados fazem a emenda pior do que o soneto, mas qual é o bom caminho? 

 

 

 

 

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