30.3.16

 

 

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 Aeroporto de Zaventem, Bruxelas, 2016

 

 

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Avé Marias e pelouros

 

 

 

“E com muitas Avé Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo” conta Fernão Mendes Pinto do combate da sua nau contra o junco do pirata Cimilau, no mar da China. Embora o homem da Peregrinação tivesse veia mitómana à Luis Stau Monteiro – chamavam-lhe mesmo Fernão, mentes? Minto! – esta tem pinta verídica (com os nossos que lá ficaram convencidos de que iriam dali para o Céu).

 

Convicções semelhantes nutre rapaziada (e, em muito menor número - mas não querem valer menos que os homens - raparigada) que ultimamente, ao grito de Alá é grande!, se faz explodir, a si própria e a muita gente à sua volta, em vários lugares da Europa: o último tendo sido Bruxelas. Europa onde quase todos eles (e elas) nasceram, e em cujos reformatórios e prisões, a que delitos comuns mais ou menos violentos os haviam levado, foram convertidos ao Islão radical. São a carne de canhão do Estado Islâmico, mandados para o matadouro por teólogos e por tecnocratas que, esses, não se suicidam para ganharem atalho directo ao Paraíso.

 

Em suma, estão em guerra contra nós. Não só contra nós: o Estado Islâmico é, primeiro que tudo, um ariete sunita contra chitas e outros hereges muçulmanos, a seguir contra judeus mas, por variadas razões, a sua sanha contra europeus e norte americanos tomou posição de proa. Havia 15 sauditas entre os 19 kamikazes do 11 de Setembro de 2001 em Nova Iorque e em Washington; agora a primeira explosão na aerogare de Bruxelas foi na bicha da American Airlines, a segunda, logo a seguir, num Starbucks a 50 metros. Estados Unidos e União Europeia - aquilo a que se costumava chamar o Ocidente – são alvo predilecto dessa guerra. E aí temos um problema.

 

Entendidos falarão logo de guerras assimétricas: nisso, terroristas calham pior ainda do que guerrilheiros; a OTAN, joia da nossa coroa, foi inventada para nos proteger de ataque convencional da Rússia, a começar na Alemanha. Tal investida nunca chegou: ganhámos a Guerra Fria sem ninguém dar um tiro; houve quem quisesse acabar com a OTAN nessa altura, o bom senso prevaleceu, depressa precisámos dela para peacekeeping robusto (na Bósnia e no Kosovo), está bem preparada para meter o devido respeito à Rússia belicosa de Putin. Os Aliados que a integram sabem que têm também de acudir aos perigos do Sul e estão a meter mãos à obra.

 

O problema é outro. Quanto a armas químicas, o Presidente dos Estados Unidos traçou uma linha vermelha para além da qual o governo sírio não poderia passar. Este passou mesmo e não lhe aconteceu nada. Os aliados dos Estados Unidos estremeceram, Putin rejubilou e Obama insiste em dizer que assim é que deve ser. A ministra dos negócios estrangeiros da Europa - em tudo menos em título - durante uma visita oficial a Amã, quando soube das atrocidades de Bruxelas desatou a chorar diante de jornalistas. “Um fraco rei faz fraca a forte gente” escreveu o Vate que sabia destas coisas e perdera um olho a guerrear contra os mouros.

 

 

 

 

 

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26.3.16

 

 

C

 

 

 

 

contentinho
con.ten.ti.nho
Forma nominalizada com 2 géneros
(de contente + inho)


Diminutivo de contente com direito a substantivação e autonomia semântica. Com ele se designa a criatura que exibe ou deixa transparecer exuberante autocontentamento (≠ contente, satisfeito). O contentinho – não esquecer a possibilidade de flexão de género – tem plena consciência da sua sagacidade, facto que o aproxima do espertinho. No momento de se mostrar sagaz, manifesta uma ansiedade de menino bem comportado que levanta o dedo para responder à pergunta ainda ela não acabou de ser formulada: é a antecipação do triunfo. A certeza excita-o, em todos os sentidos. Vive na luminosa crença de que sabe muito. Gosta de ter público, e ele próprio tem lugar cativo na primeira fila. É moderno, evidentemente. E inimputável. Detesta pormenores, mas adora fazer planos e, sobretudo, dirigir coisas. É assertivo e demonstrativo, a roçar a histeria. De vez em quando põe-se repentinamente sério, quase com a gravidade bovina que Camilo atribuía aos filósofos, e expõe pensamentos e ideias. O contentinho a-d-o-r-a ter pensamentos e ideias. O contentinho acha-se o máximo quando tem pensamentos e ideias. Acha-se brutal.

 

 

 

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23.3.16

 

 

Eanes Machel 2

Samora Machel e Ramalho Eanes

 

 

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Nobre povo

 

 

 

Quando o Presidente Ramalho Eanes visitou Moçambique em 1981 a expectativa local era imensa. Pela primeira vez desde a independência, que tinha sido só há seis anos, um presidente português visitava o país, havia espíritos claros e espíritos baralhados e houve ajustes de última hora a fazer. Do nosso lado, por exemplo, para o banquete oferecido por Eanes, em retribuição do banquete de boas vindas que Samora Machel, Presidente de Moçambique, lhe oferecera, o Protocolo do Estado em Lisboa fizera imprimir cartões de convite na boa cartolina do costume com espaço em branco onde os nomes dos convidados fossem depois escritos à mão na embaixada em Maputo: O Presidente da República/ tem a honra de convidar (espaço em branco), etc.. Os cartões chegaram felizmente alguns dias antes e, de entrada, o Protocolo não percebia ser preciso corrigir a asneira: então não era o Presidente que convidava? Era com certeza, mas não estava em Portugal e seria por isso preciso precisar que era o Presidente da República Portuguesa. Em Moçambique, “O Presidente da República”, sem mais nada, significaria Samora Machel ou, pior, daria a entender que Portugal não se dera ainda bem conta da volta dada pelo mundo.

 

Do lado moçambicano o equívoco foi muito diferente e muito maior. Chovia a potes no dia em que Eanes chegou a Moçambique e em Moçambique chuva dá sorte. Animado, o povo saiu à rua sem necessidade do enquadramento e dos cantes da Frelimo, correntes à época para louvor de causas que o regime achasse nobres – “Vamos para a Tanzania/Agradecer ao Presidente Nyerere”, etc. -, aplaudindo e provavelmente esperançado que depois da chegada do presidente português chegasse outra vez comida. Não chegou mas, apesar disso, toda a gente, dum lado e doutro, achou a visita um sucesso. As relações entre Lisboa e Maputo nunca se estragaram e o actual Presidente de Moçambique foi o único chefe de estado dos PALOP convidado e presente na cerimónia de tomada de posse do novo presidente português.

 

Não sei se entendimento entre os povos nos está na massa do sangue ou não mas imprensa estrangeira especializada na coisa europeia, distante do ‘peito ilustre Lusitano’ e por isso mais ‘objectiva’, como os comunistas gostavam de dizer, tem, nos últimos dias, feito notar que, em contraste flagrante com os seus colegas da União, o nosso primeiro-ministro acha que não nos mandaram refugiados a mais mas sim a menos e pede que venha mais gente. Atitude de nobreza rara nesta tragédia dos fugitivos da guerra na Síria, quando tantos dos seus pares se levantaram contra Angela Merkel num espectáculo de falência moral equivalente à dos entusiastas de Donald Trump nos Estados Unidos. Contra a corrente, entendo que se vai chegar a alguma decência europeia porque amor do próximo lá levará. E não fará mal lembrar que entre os “retornados” havia muitos que nunca tinham estado em Portugal, muitos que não eram brancos, e muitos que eram muçulmanos e hindus. Nação valente e imortal.

 

 

 

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19.3.16

 

 

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lucidez
lu.ci.dez
nome feminino
(de lúcido + suf. –ez)

 

 

A lucidez é a capacidade de ver através dos objectos opacos. É diferente da vidência, que é a capacidade de ignorar esses objectos. Já a cegueira torna os objectos, todos os objectos, igualmente opacos e irremediavelmente presentes. Aquilo a que chamamos idiotia é, pelo contrário, um estado de opacidade face aos objectos.

 

 

imagem: aqui

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16.3.16

 

 

Montaigne

 

 

 

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All you need is love

 

 

 

E é – diga o que disser o seu administrador de fortuna ou de massa falida, gestor de conta, cabo de esquadra onde tenha de se apresentar todas as semanas até chegar a sua vez na bicha infinda de acesso ao banco dos réus nos nossos tribunais; oncologista recomendado pela mulher de um primo que se deu bem com ele e que ele há quase três anos deu por curada (enquanto o da Caixa indicado pelo médico de família não deu conta do recado e a deixou, leitora, depois de cirurgia e de radioterapia e de quimioterapia – tudo minuciosamente relatado a parentes, amigos e estranhos em estalagens do Minho - sem conforto nem esperança); centro de encontros na net fornecendo aplicação que deteta o homem – ou a mulher - ideal cinco léguas em redondo, tão rigorosa que indica probabilidades de alma gémea de 1% a 100% (está programada para incluir LGBT e, pagando emolumentos dobrados, apenas heterossexuais de qualquer sexo - de maneira que pais e mães convencionais, com aversão a riscos a possam oferecer a filhas e filhos adolescentes) ou, no caso de gente mais à antiga mas moderna bastante para ter sido primeiro convencida por e depois se ter desimaginado de Freud ou de Jung ou de Lacan, bruxo num rés-do-chão à Rua da Boavista especializado na reconquista de entes queridos cujos corações se hajam tresmalhado no vasto mundo, garantindo resultados mesmo a quem as frequências da dor já tenham ensinado a desejos deixar de ser contente (sem aldrabices: ou sucesso ou devolução dos honorários já pagos). All you need is love.

 

Mais do que as duas outras coisas da cantiga – la salud y la platilla – melhor dito, é a única das três coisas da cantiga, que faz milagres comparáveis aos relatados no Antigo e no Novo Testamento, que só Deus conseguiu. (Ateu como eu não deveria escrever isto mas não encontrei melhor figura de retórica para referir the love that you need e explicações verosímeis e cabais conciliando tais estados de graça e as minhas luzes metafísicas, ler-se-iam como folhetos explicativos dentro de embalagens de remédios ou como o small print de contratos propostos por instituições financeiras. Com gentes de outras fés a questão é a mesma. Para um cristão, quem não acredite no Deus de Abraão, Isaac e Jacob não acredita em Deus, ponto final. Montaigne achava que nem sempre: quem, nascido em terras distantes, educado noutras crenças, longe do cristianismo – ou por este não existir ainda ou por estar tão longe dessas terras que nada dele lá fosse conhecido ou suspeitado – acreditasse nos deuses que Deus lhe dera poderia salvar-se. É simpático mas lógicos formais demoliram há muito a verosimilhança do argumento, conhecido no ramo por “falácia de Montaigne”).

 

Salud não faz milagres. Platilla pode fazer cópias que enganam, mas é batota. Amor, sim mas cada um sabe de si. Ignazio Silone escreve no começo de um dos seus livros: estas são algumas das melhores histórias que conheço mas não são as melhores. As melhores, guardo-as para mim.

 

 

 

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12.3.16

 

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ressabiamento

res.sa.bi.a.men.to
nome masculino

(de ressabiar + mento)

 

Forma de ressentimento, rancor ou azedume que se manifesta por regurgitação. O ressabiado, forma que aqui já contempla a existência de ressabiadas, tem uma digestão difícil e vive atormentado por essa dificuldade da mesma forma que o adolescente típico é atormentado pela borbulhagem. Tal como o escorpião da historieta, está amarrado à sua condição, pelo que não lhe é possível qualquer tipo de distanciamento, estando-lhe por isso vedada qualquer espécie de grandeza. Um dos traços do ressabiado, mas não exclusivo dele, é atribuir aos outros as suas próprias debilidades. A persistência no erro é, no ressabiado, uma manifestação de despeito, ainda que apresentada com as cores do orgulho. Sendo um inseguro, é normal reagir através de sucedâneos da birra, como o capricho, a insolência ou a arrogância. O ressabiado tem rabo-de-palha, a que, regra geral, acaba ele próprio por pegar fogo.

 

 

 

 

 

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9.3.16

 

 

 

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edição FFMS 2016

 

 

Quando as notícias deram conta, a propósito do livro de Henrique Raposo, das manifestações daquela «vocação do energúmeno» de que Nemésio fala no seu belíssimo prefácio a um livro sobre Polémicas Portuguesas[1], desta vez sob a forma de auto-de-fé, senti que talvez tivesse de contrariar a minha aversão a meter o nariz onde não sou chamado. Ou admitir que havia chamamento, afinal.

 

É que de imediato reconheci o espírito – ou, melhor, a falta dele – que estava por detrás das ditas manifestações, e quase por instinto decidi que queria estar na apresentação pública do livro (e na altura nem sabia que Rentes de Carvalho usaria da palavra!). A minha vivência alentejana difere, no tempo, no espaço e na duração, da experiência de Henrique Raposo: é mais antiga, mais interior (em sentido duplo), mais longa e abrangente. Mas talvez igualmente distanciada e crítica.

 

Estimo a ousadia de Henrique Raposo, que não conheço pessoalmente, e creio que ele dá corpo a algumas intuições certeiras. Estimo igualmente a genica com que procura um paradigma diferente na abordagem do Alentejo e das suas mitologias. Mas também penso que é por vezes demasiado ligeiro, até abusivo, nas generalizações, e, malgré lui, dominado por um certo romantismo.

 

A minha ideia de ir à apresentação era, em primeiro lugar, marcar presença (coisa que só para mim contaria), aliás logo justificada ao notar a presença façanhuda e pesporrente de algumas personagens entre a assistência. Conheço bem o género. Depois, chegar à fala com o autor e dizer-lhe: parabéns pelo seu livro, que li com interesse, também eu sou alentejano, não há como ver-me livre disso e lido bem com a coisa, e gostaria um dia de trocar impressões sobre um certo número de ideias, factos e memórias.

 

Fiquei-me pela presença. O resto fica aqui dito.

 

Jorge Colaço

 

[1] Direcção de Artur Anselmo, 2 vols., Verbo, 1964 e 1967.

 

 

 

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alentejo 4

 

 

 

 

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Alentejo

 

 

 

Robert Lowell dava aula no colégio de All Souls em Oxford. Um estudante quis saber o que é que ele pensava de literatura “engagée”. Que era uniformemente má. O estudante insistiu: “E o livro de Norman Mailer sobre o Vietname?” “O livro de Norman Mailer sobre o Vietname não é sobre o Vietname é sobre Norman Mailer”.

 

Isto à laia de introito ao Alentejo prometido de Henrique Raposo, que é mais sobre Henrique Raposo do que sobre o Alentejo, sem por isso perder qualidade. Li-o com gosto e curiosidade e fico à espera de investigação sistemática e pormenorizada sobre temas nele aflorados – passado de violência e suicídio, por exemplo – para ficarmos a saber melhor o que por lá houve e haja ainda. O que Raposo publicou é estimulante mas é pouco e impressionístico.

 

Sobre suicídio, tinha-me telefonado faz já algum tempo porque há quase meio século publiquei monografia sobre outra parte do Alentejo e oficiais do mesmo ofício gostam de comparar notas. Não pude ser-lhe de grande utilidade: sim, também havia suicídios por onde eu tinha andado – as mulheres normalmente atiravam-se a poços com as saias atadas para não flutuarem; os homens davam tiro de caçadeira na boca, o gatilho puxado pelo dedo grande do pé – e disso já ele sabia. Só agora, lendo o livro, percebi porque é que o fenómeno do suicídio lhe fez tanta impressão e não ma tinha feito a mim. Henrique Raposo tem objecção moral ao suicídio e eu não. Além disso, nado e criado nos arredores de Lisboa, foi tentar perceber a terra donde vinham os seus pais a partir de instituições e valores morais muito marcadas pelas do Norte de Portugal. Para muitos alentejanos, o suicídio, por mal que possa fazer a gente próxima do suicida e por distúrbio na comunidade que cause, não constitui ofensa a Deus porque Deus não existe. E as razões da sua prevalência em terras transtaganas - as estatísticas parecem inequívocas, embora se deva lembrar que, em lugares onde o suicídio seja grande pecado e socialmente muito mal visto, certidões do óbito possam não o mencionar – terão, julgo eu, fundamento histórico simples.

 

Enquanto a cristianização do Norte de Portugal coube ao clero secular de dioceses e paróquias, a cristianização do Alentejo foi sobretudo feita por Ordens religiosas. Se a densidade populacional era mais baixa no Sul do país do que no Norte, a densidade de pessoal religioso era muito mais baixa ainda e, com a extinção das ordens religiosas do Liberalismo, a situação piorou. No começo da República, as coisas não se passaram muito mal: mais padres no Alentejo do que no Norte do país aceitaram ser pagos pelo Estado. Mas em 1960, menos de metade das paróquias tinham pároco no Alentejo: “país de missão”, chamava-lhe a Igreja. Não creio que, entretanto, tenha mudado muito.

 

 

NB Alentejo prometido é interessante e bem escrito. Mesmo que o não fosse, a agressão alentejana a autor e livro por pimpões e pimponas ofendidas, no século XXI e na Europa Ocidental, deixa este alentejano de boca aberta.

 

 

 

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5.3.16

 

 

T letter embroidered.jpg

 

 

tolerância
to.le.rân.ci.a

nome feminino

(do latim tolerantia)


A tolerância é uma atitude benévola e benigna, por vezes um tanto paternalista, que se manifesta tanto no plano individual como no plano social. No tempo da outra senhora era permitida e praticada em casas próprias para o efeito. Hoje requer-se que faça figura de valor universal. Seja como for, a tolerância confina e é limitada pelo território do intolerável. A tolerância que confina com mais tolerância torna-se uma tolerância sem limites, isto é, de onde o intolerável está ausente, e onde, portanto, tudo é aceitação, condescendência, complacência: essa tolerância corresponde a um estado gelatinoso e repugnante. E intolerável.

 

 

 

 

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2.3.16

 

 

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Lord Ismay, 1º secretário-geral da OTAN, no seu gabinete, palais de chaillot,  1953

© OTAN/NATO

 

 

 

 

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Olhar por nós

 

 

 

 

Com segurança não se brinca. Seis anos de guerra sem quartel acabando em rendições incondicionais da Alemanha e do Japão em 1945 temperaram os Estados Unidos, deixando-os aptos a chefiarem aquilo a que chamávamos o Mundo Livre durante a Guerra Fria.

 

Em geração próxima – Churchill seria um dos vencedores de duas guerras mundiais; Hitler, um dos vencidos –, a seguir à vitória de 1918, o Senado desfizera os sonhos do Presidente Wilson, recusando que os EUA se juntassem à Sociedade das Nações. Entretanto, as condições leoninas impostas à Alemanha vencida ajudaram ao colapso da República de Weimar e ao triunfo eleitoral do nazismo. (Convém nestes dias de Trumps, Le Pens e Putins, lembrar que Hitler não tomou o poder pelas armas; apanhou-o do chão em eleições livres e limpas).

 

Assim, em 1945 a Alemanha, ou pelo menos a parte dela que coube ao Ocidente, foi poupada a exacções ruinosas. Pelo contrário, em 1953, quando até mesmo os franceses tinham percebido que o inimigo passara a ser a Rússia e deixara de ser a Alemanha, quase toda a dívida que restava das duas guerras lhe foi perdoada para a ancorar melhor ainda no Ocidente. Washington queria ter os pés bem assentes no chão: só depois de alguns europeus terem criado organização de defesa própria – a União da Europa Ocidental – os americanos se dispuseram a negociar com eles e alguns outros, quase todos democracias (Portugal era a excepção e a base das Lajes a razão dela - com segurança não se brinca) o Tratado de Washington, assinado em 1949. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN/NATO) estabeleceu-se em 1952. A maior e mais reputada aliança militar do mundo contemporâneo desimaginou durante quarenta anos a URSS de aventuras insensatas e ganhou a Guerra Fria sem ter de dar um tiro (salvo em exercícios de fogos reais).

 

Desde essa altura houve quem achasse que devia acabar: amantes imprevidentes da paz, que não são poucos e nunca aprendem; anti-americanos primários, convencidos de que a Rússia deixara de ser problema e, sobretudo, a Rússia de Putin que diz ser o alargamento da OTAN a Leste uma provocação agressiva (dado que Geórgia e Ucrânia, vizinhos da Rússia que estão fora da OTAN, são atacados pelos russos, e outros vizinhos, dentro dela, não o são, é preciso ter lata).

 

Único instrumento colectivo de defesa de que dispomos, para além de continuar a meter respeito profilático desempenha outro papel crucial: refreia nacionalismos militaristas dos Aliados, pondo os europeus na bicha e não virados uns contra os outros. Defender-nos-á de eventuais invasores - terroristas, cibernéticos, nucleares, convencionais. (E, se o Kremlin ganhar um dia boa-fé, será interlocutora ideal na discussão de interesses europeus e americanos).

 

Só não serve para a vergonha actual: 500 milhões, prósperos e anafados, enxotando como pestíferos escassas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças fugidos de guerra nas suas terras, no engodo enganado dos valores europeus.

 

 

 

 

 

 


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