27.2.16

 

 

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empáfia

em.pá.fi.a

nome feminino
(de origem incerta)


O mesmo que embófia. Arrogância que se produz na garganta e enche a boca por completo. Não altivez, talvez apenas alta voz. Atitude caracterizada por palavreado enfático e oco; prosápia. Atitude contígua à pesporrência, que é a empáfia em acto. Petulância. Presunção. Bazófia. Pode ser observada facilmente nas pessoas que, por uma razão ou por outra, têm uma alta consideração por si próprias ou se acham importantes. A empáfia alimenta-se da adulação, ainda que esta se manifeste apenas por conveniência de serviço, e, talvez por isso, se traduza num atrevimento sem limites nem pudor (ver pudor).

 

 

 

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25.2.16

 

 

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Recolher, preservar e divulgar as memórias de gente comum, reconhecendo que esses testemunhos de vida contribuem para o conhecimento da história e da identidade nacionais, é a missão do Arquivo dos Diários, associação cultural criada há dois anos, que lançou o concurso “Conta-nos e Conta Connosco”, destinado a enriquecer o seu acervo.

 

Agora que dispõe de uma equipa e de um espaço na Biblioteca de São Lázaro, graças a uma parceria com a Junta de Freguesia de Arroios, a associação está em condições de começar a reunir cartas e diários através dos quais os portugueses poderão contar a sua história. Diários, cartas, fotografias e filmes caseiros ou simples evocações feitas pelas pessoas são uma parte importante na construção da memória de cada um. Mas esses documentos servem também para ajudar a construir a narrativa de uma comunidade. A ideia é catalogar por temas tudo o que for recebido e, no futuro, disponibilizar o acervo num meio digital. 

 

Existem já em vários países europeus arquivos dedicados a recolher a memória popular, designadamente o Archivio Diarístico Nazionale, em Itália, que serviu de referência a Clara Barbacini e Roberto Falanga, fundadores deste projecto.

 

 

 

 

 

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© Soraia Martins 

 

 

 

O principal obstáculo, admitem, é chegar às pessoas e mostrar-lhes que as suas memórias e objectos pessoais podem ajudar a desenvolver outros projectos interessantes, do cinema ao teatro, da ficção à investigação, ou simplesmente servir para consulta de quem tem curiosidade por histórias de outros tempos.

 

“Espero que os portugueses desmintam o pudor como traço da sua cultura”, diz Roberto. “Sei que vai ser complicado, mas desafiante. E acho que só o facto de alguém se questionar se deve ou não entregar [os diários e cartas da sua família] já é bom. Estimula o pensamento. Nesse tempo de reflexão o tema esteve ali, a ser considerado.”

 

Também sabem que poderá haver resistências à entrega de materiais e à publicação. “Sabemos que estamos a tocar assuntos muito delicados”, asseguram. Recordam o caso de uma mulher, vítima de violência doméstica, que ganhou em Itália um concurso semelhante ao agora lançado em Portugal e só anos mais tarde recebeu o prémio, depois de o marido morrer. Há também questões legais que podem colocar-se, por exemplo, no caso de pessoas que encontram ou compram materiais que não se importam de doar mas que dizem respeito a terceiros.

 

Tal como em Itália, está prevista a publicação anual de pelo menos um diário: quem entrega os seus materiais pode escolher participar num concurso aberto até 1 de Março próximo. Depois, um painel de dois júris – um popular e um técnico – escolherá um vencedor. Será publicado pela Penguin – Companhia das Letras.

 

As entregas podem ser feitas na Biblioteca de São Lázaro todos os sábados das 11h às 13h ou enviadas por correio e a associação tem um site com toda a informação em www.arquivodosdiarios.pt. Tem também uma página de Facebook aqui.

 

Arquivo dos Diários

Biblioteca de São Lázaro

Rua do Saco, 1  Lisboa 1169-107 (Freguesia de Arroios)  

 

 

Agradecimentos:

 

artigo de Vanessa Rato no jornal Público, artigo de Samuel Alemão em “O Corvo” e textos reunidos no site Arquivo dos Diários.

 

Fotos gentilmente cedidas por Arquivo dos Diários e Soraia Martins

 

 

 


24.2.16

 

 

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 All Souls College, Oxford

 

 

 

 

 

 

 

 

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Ao correr da pena

 

 

 

E.P., que se pronunciava I Pi porque estávamos em Inglaterra e o homem era inglês, Edward Evan Evans-Pritchard no passaporte (os ingleses são anti-jacobinos saudáveis e nem cartões de identidade admitem), Professor de Antropologia Social e Fellow de All Souls na Universidade de Oxford, nesse tempo o mais conceituado oficial do seu ofício em todo o país, baptizado na fé dos pais, dos avós, dos bisavós e por aí acima até ao reinado de Henrique VIII que mandara Roma às urtigas e fundara a igreja anglicana, convertera-se ao catolicismo contra a maré, já homem crescido. Eu vinha de país católico, fora recomendado ao Instituto de Antropologia de Oxford por Ruy Cinatti (que, ao mesmo tempo, me persuadira a mim a ir para Oxford, pois eu ia matricular-me em University College, Londres. Deste fixei regulamento se se faltasse a exame: apresentar atestado de doença ou when appropriate certidão de óbito; o caso mais extremo de insolência funcionária de que me lembre), o Ruy era católico exigente, quase jansenista - “Eu com o Antigo Testamento entendia-me; depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló, estragou tudo!” – enquanto eu me dizia agnóstico mas, quem sabe, talvez fosse mesmo ateu. Pérolas a porco. Sem nunca termos falado dessas coisas, I Pi sabia.

 

Um dia, no pub, a tomar half-a-bitter, disse-me: “Sabe, para se ser católico (to be a Roman catholic) é preciso ser-se muito estúpido ou então muito inteligente”. Deixando-me na ‘no man’s land’ intermédia que me cabia, pediu-me para o ajudar com livro de memórias que lhe mandara pelo correio Hortense Powdermaker, antropóloga americana do seu tempo, que também fora aluna de Malinowski (Malinowski era polaco, de nacionalidade alemã em 1914, fazia trabalho de campo em ilhas no Pacífico do Império Britânico, e fora lá internado durante os quatro anos da guerra, depois ensinara na London School of Economics, deixando-nos uma obra prima “Os Argonautas do Pacífico Ocidental”. Conhecia a sua arte de alto a baixo: “A antropologia ensina o administrador a tirar terra ao indígena seguindo os costumes do indígena”.) I Pi ia ser operado às cataratas. “O que é que quer que eu veja?” “Procure-me no índice”. Encontrei várias entradas, li-lhas, gostou do que ouviu, disse que Hortense era boa rapariga e acrescentou pormenores salazes da relação dela com Malinowski. Em coscuvilhice, intriga, ofensas e maledicência, pior do que um departamento universitário nem as cúpulas de um partido político (“enquanto há morte há esperança”) nem as/os prima-donas de uma companhia de ópera. Henry Kissinger acha que essa intensidade desmedida é devida à pequenez do que está em jogo.

 

À leitora que tenha chegado aqui acrescento: se de médico e de louco todos temos um pouco, agora de comentador também. Somos mais do que as coisas a comentar e declaro uma trégua. A Inglaterra sai ou entra? Qual dos Costas tem razão? Obama é mesmo um banana? Deixo palpites para outro dia e fico-me pelas caturrices de I Pi.

 

 

 

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20.2.16

 

 

 

 

 

 

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alarve
a.lar.ve
1. Nome (2 géneros)
2. adjectivo (2 géneros)

(do árabe al-árab, «os árabes»)

 

 

 

O alarve pode ser um rústico, mas é pela grosseria, pela bruteza, pelo excesso que se torna alarve. Tais atributos não são, porém, exclusivo do rústico, nem o rústico é necessariamente alarve. Pode ter-se comido alarvemente e ser-se um tipo decente. O que é diferente de comer como um alarve. O alarve gosta de pavonear o excesso, e esse é um registo particularmente alarve. A ignorância ostensiva é alarve. A importância empinada é alarve. O alarve tem a mania. Frequentemente tem a mania das grandezas. Há mais alarves entre os homens, embora a alarvidade se possa manifestar independentemente do género. O alarve é um campeão do sexo explícito no discurso e de contar cruamente anedotas picantes, mas é, ao mesmo tempo, um mestre do eufemismo e da alusão: diz coisas como «fogo», «fónix» e «tintins». O olhar constitui uma manifestação particularmente rica do alarve. Há ideias alarves. Chama-se alarvejar à acção dos alarves, que é também o termo onomatopaico que se lhes aplica. O alarve gosta de cooptar os outros para a sua própria alarvidade. O alarve gosta de mandar, razão pela qual há muitos alarves na política e no poder. O alarve gosta de fazer voz grossa, mesmo que isso por vezes não passe de um acto falhado. O alarve pretensioso gosta de usar as pessoas: no bolso ou na lapela.

 

 

 

 

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19.2.16

 

 

Os textos do Romanceiro português e respectivos registos sonoros, quando conservados, vão passar a estar disponíveis online e em acesso livre na plataforma Romanceiro.pt. A preservação deste património, através da digitalização, era urgente, já que a sua manutenção nos formatos em que se encontrava (cassetes áudio e fotocópias em papel) constituía uma séria ameaça à sua preservação. 

 

A plataforma digital será apresentada amanhã, pelas 16h, na Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé), pelo coordenador do projecto, o investigador Pedro Ferré.

 

O objetivo é tornar acessível ao grande público um arquivo sem par no contexto ibérico, que alberga já perto de 14000 imagens de documentos de grande relevo no âmbito da literatura patrimonial portuguesa, nomeadamente do Romanceiro de tradição oral, e cuja expansão está prevista.

 

Nos últimos anos, os investigadores do CIAC  Pere Ferré, Mirian Tavares e Sandra Boto trabalharam o acervo da Fundação Manuel Viegas Guerreiro, que compreende 660 horas de gravação em 609 cassetes áudio ali depositadas, e onde estão guardadas 3632 versões inéditas de romances e acolhe 10096 versões de romances publicadas entre 1828 e 2010. A plataforma Romanceiro.pt é o resultado do projeto “O Arquivo do Romanceiro Português da Tradição Oral Moderna (1828-2010): sua preservação e difusão”, uma parceria entre a Fundação Manuel Viegas Guerreiro (Loulé) e o CIAC – Centro de Investigação em Artes e Comunicação/FCT (Universidade do Algarve / Escola Superior de Teatro e Cinema) com o mecenato da Fundação Calouste Gulbenkian, no âmbito do Concurso de Recuperação, Tratamento e Organização de Acervos Documentais (2013).

 

 

 

 

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O Romanceiro é um género poético tradicional que circula desde os finais da Idade Média na memória dos povos de expressão portuguesa, galega, castelhana e catalã, difundindo-se desde então oralmente de geração em geração. Trata-se, portanto, de um património imaterial de uma vitalidade excepcional e de uma riqueza ímpar que importa preservar, numa altura em que a disseminação das novas tecnologias e dos media parece ter aniquilado talvez definitivamente a sua vitalidade e função no seio das comunidades rurais em que ainda permaneciam até há pouco tempo.

 

Remonta a 1421 o primeiro documento conhecido onde se fixa uma versão de um romance, o "Gentil dona, gentil dona", pela mão do estudante maiorquino Jaume de Olesa. Foi, contudo, o Romantismo que encetou o interesse sistemático por este género poético. Desde 1824, foram coligidas milhares e milhares de versões de romances em Portugal, em Espanha e nos países da diáspora portuguesa e espanhola, sem falar na memória romancística que os judeus expulsos da Península Ibérica nos finais do século XV transportaram com eles pelo mundo e que ainda hoje é preservada.

 

Poderíamos, para o caso específico português, referir-nos ao contributo das recolhas e publicações de versões de romances realizadas a cargo de nomes como Almeida Garrett, Teófilo Braga, Leite de Vasconcellos, Consiglieri Pedroso, Alves Redol, Michel Giacometti, Maria Aliete Galhoz, Manuel Viegas Guerreiro, entre tantos outros. Este arquivo alimenta-se, justamente, dos trabalhos de recolha e publicação do romanceiro tradicional português que estes e muitos outros interessados na literatura de tradição oral levaram e continuam a levar a cabo no presente.

 

 

 

Leia mais aqui e aqui

Entrevista com os investigadores aqui

No facebook aqui  

 

 

 

 

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17.2.16

 

 

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 O busto devolvido de Winston Churchill

©afp/getty

 

 

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Dia Santo na loja?

 

 

 

 

O poeta mexicano Octávio Paz escreveu, famosamente: “Pobre México. Tão longe de Deus e tão perto dos Estados Unidos!”.

 

Vivi em Maputo entre 1981 e 1983, anos de grande penúria e muita gente a passar fome. Logo a seguir à independência, quase todos os portugueses tinham tido de se ir embora ficando a economia em muito mau estado e a autoridade dos chefes tradicionais era desrespeitada pelo triunfalismo dos quadros da Frelimo. A retórica do poder, anti-ocidental, anti-americana e disparatada proclamava que, guiado pelo marxismo, o país sairia do sub-desenvolvimento em quinze anos. Nas lojas faltava quase tudo. Num grande supermercado da Baixa da cidade com todas as prateleiras vazias salvo uma no meio da sala, cheia de pensos higiénicos para senhoras, lembrei-me de Octávio Paz. “Pobre Moçambique” ocorreu-me. “Tão longe de Deus e tão longe dos Estados Unidos”.

 

Passando para a Europa agora. Acabado o perigo que a União Soviética representava para os Estados Unidos, estes distraíram-se – haverá ainda quem se lembre do “fim da História”? – e, cereja em cima do bolo, em Janeiro de 2009 tomou posse em Washington presidente filho de pai queniano preto e mãe americana branca, nascido no Havai, jurista eloquente cujo hobby era a organização comunitária, avesso a guerras (o seu predecessor metera a América em duas, estúpidas e caras), que devolveu logo ao governo de Sua Majestade Britânica busto de Churchill oferecido a Bush filho (que o pusera na Sala Oval) e, para a celebração dos vinte anos da queda do muro, em vez de ir pessoalmente a Berlim mandou vídeo com discurso seu.

 

O afastamento da Europa não foi só obra sua: houve sempre em Washington políticos isolacionistas e desconfiados dos europeus mas a mistura desses sentimentos antigos com alheamento à Europa inédito em inquilino da Casa Branca não ajuda europeus (e americanos) convictos de que primazia norte americana no mundo, em entendimento forte com a Europa, seria a melhor garantia de paz, liberdade e decência pública imaginável no nosso tempo.

 

Ainda por cima, numa espécie de acerto de contas depois da derrota na Guerra Fria, Putin parece chegar e sobrar para Obama: está a ganhar perigosamente no tabuleiro da Síria devido à inépcia do outro. (Disse-se de Franklin Roosevelt que tinha uma inteligência de segunda mas um temperamento de primeira. Com Obama é o contrário).

 

Os Estados Unidos não se darem ao respeito é muito mau para a Europa. A União Europeia e, antes, a OTAN construíram-se porque Estaline nos aterrorizava e porque os Estados Unidos queriam barbacãs. Putin incomoda os europeus mas não os aterroriza e hoje os americanos não precisam de muralhas dessas – até dos Açores se livram. Ora, sem os americanos, os europeus não se saberão defender de quem os atacar - e mesmo sem ataques não sabem pôr-se na bicha quando é preciso fazê-lo (como se está desgraçadamente a ver quanto aos refugiados). O patrão está fora mas na loja o dia não é Santo – é maldito.

 

 

 

 

 

 

 

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13.2.16

 

 

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inovação
i.no.va.ção

nome feminino
(do latim innovatio, -onis)


Divindade do panteão do Progresso, cujo culto foi declarado oficial e obrigatório. A Inovação é uma deusa poderosa, servida por uma multidão de sacerdotes e serventuários fanatizados, prontos a denunciar os não-crentes e mesmo os cépticos. Adeptos do Novo, crêem numa forma de vida superior, a que chamam Futuro. Por essa razão, dominam sectores estratégicos, como o do ensino, que policiam milimetricamente. O culto da Inovação foi inicialmente praticado pelos sectários da Técnica e da Tecnologia, que aí obtiveram triunfos avassaladores no aperfeiçoamento de máquinas e processos. Mais tarde, com a apropriação ideológica de que foi objecto, a Inovação foi imposta a toda a sociedade, a maior parte das vezes em formas muito degradadas de culto, como, por exemplo, as formas burocráticas, muitas vezes vazias ou apenas formais. Os ímpios e todos os que não conseguem alcançar nenhuma das duas categorias fundamentais — de «inovador» e «verdadeiramente inovador» —, são ignorados, censurados, condenados, banidos ou até eliminados como obscurantistas e inimigos da sociedade.

 

 

 

 

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10.2.16

 

 

 

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25 de Abril de 1974: Francisco Sousa Tavares no Largo do Carmo

 

 

 

 

 

 

 

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Outro 25 de Abril?

 

 

 

Na manhã do dia 25 de Abril do Ano da Graça de 1974 durante o qual nasceram meninas que caminham agora para balzaquianas – o livro de Balzac que inspirou o adjectivo chama-se A Mulher de Trinta Anos (1842) mas progressos da ciência, desde a pílula ao botox, e aligeiramento dos costumes coevo, do corpete às maminhas ao léu, da ‘menoridade’ perante pais e maridos à liberdade de género e de preferência sexual, foram juntando decénios ao protótipo que estará hoje entre os sessenta e os setenta anos – eu tinha ido cedo da minha casa de Belsize Park para o meu gabinete na London School of Economics onde às oito e meia recebi telefonema da Teresa. O João Monjardino, nosso vizinho em Hampstead, telefonara porque o irmão Carlos, banqueiro em Paris, lhe telefonara dizendo que tinha havido um golpe militar em Portugal. (Tudo telefones fixos; não tínhamos outros na altura). “Da direita ou da esquerda?”, perguntei. A essa hora nenhum dos citados acima parecera saber ao certo mas depressa se percebeu - antes das chegadas do estrangeiro de Álvaro Cunhal e de Mário Soares – e há fotografias do Tareco, marido da Sophia e pai do Miguel, arengando a multidão de cima de uma guarita, diante do quartel do Carmo em Lisboa.

 

A Pátria viveu depois ano e meio de Montanha Russa (às vezes com toque de Montanha Americana diria gente de humor barato, ao qual procuro resistir mas o sentimento estava lá: amigo do peito que já morreu achava que se deveria ter erguido na Outra Banda estátua de Frank Carlucci que pudesse emparelhar com a do Cristo Rei). A 25 de Novembro de 1975 a Montanha Russa parou de repente e nos anos menos sacudidos que se seguiram havia de vez em quando quem se exaltasse: “Se isto continua assim, qualquer dia apanhamos com outro 25 de Abril!”. Aí, o António Alçada Baptista, outro amigo que já lá vai, perdia a paciência. “Outro 25 de Abril? Para isso era preciso outro Estado Novo, outro Império Colonial, outras décadas de reviralho, outra tropa farta de comissões de serviço… Nunca mais.” E recordava muitas tentativas falhadas da oposição portuguesa perante população desconfiada de mudança que parecia aceitar tudo do regime e achar, como lavrador alentejano que conheci no tempo antigo: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há.”

 

Alguém se lembrou de nos oferecer outra volta na Montanha Russa. Talvez dure mais do que os seus inimigos vaticinam. As quatro décadas sem ela acabaram porque em Outubro passado os portugueses não deram votos que chegassem a liberais mascarados de sociais-democratas. Talvez já estejam arrependidos mas, entretanto, também mascarados de sociais-democratas, vieram comunistas que preferem autoridade e mando do Estado a liberdade e iniciativa de cada um. Será que afinal calam fundo em gente que prefira o conforto preguiçoso de estar bem com a lei que há ao trabalho arriscado de tentar ir mudando a lei? Haverão os portugueses de ser sempre os mesmos por não haver outros?

 

 

 

 

 

 

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6.2.16

 

 

 

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pudor
pu.dor
nome masculino
(do latim pudor, -oris)

 

Embaraço, acanhamento ou sentimento de vergonha tradicionalmente associado ao sexo em geral, à castidade ou à moralidade do recato feminino em particular, e, por isso, negativamente conotado com o resultado de uma repressão ou como obstáculo à livre expressão do desejo. Numa sociedade tolhida por diversas superstições democráticas e que adora ver-se a si mesma como não admitindo constrangimentos, o pudor é muito desvalorizado como sinónimo de escrúpulo ou pejo moral. Como sinónimo de delicadeza, virtude de pudibundos. Dir-se-ia que existe, hoje, um certo pudor de ter pudor. Veja-se, em negativo, e a título de exemplo, a falta de pudor dos governantes e dos candidatos a governantes, os despudores da exibição de figuras públicas, semi-públicas e privadas; o despudor da distribuição de sinecuras e conezias; o despudor da autopromoção, da desonestidade intelectual, das conversas (incluindo as telefónicas) em público, da ignorância, e até da autoflagelação; o impudor dos que, pondo-se nas pontas dos pés, apontam para si próprios; a impudicícia dos que colocam no cartão-de-visita a lista das suas supostas virtudes; enfim, as juras despudoradas do falso pudor.

 

 

 

 

 

 

 

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3.2.16

 

 

 

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Luís Sttau Monteiro  1926-1993 

 

 

 

 

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Austeridade

 

 

 

Better nouveau-riche than no rich at all, como eles diziam em Palm Beach. Diziam e hão de dizer ainda, que a espécie por lá não está em vias de extinção. Por cá a história é outra: o primeiro de que me lembro a declarar-se nouveau pauvre foi o Luís Sttau Monteiro no tempo do Almanaque, há um ror de anos - estavam as guerras coloniais a começar.

 

Era um percursor até porque, no geral, havia pouco dinheiro (o Luís um dia, irritado com Joaquim Figueiredo Magalhães, o excelente editor libertino que dirigia a revista, disse-me “Se este gajo continuar a chatear-me despeço-me e o dinheiro que ganho aqui vou prá praia e poupo-o” - Deus tenha as almas dos dois em descanso); a primavera marcelista trouxe algum; o 25 de Abril, reavivando medo salutar da União Soviética, fez os nossos aliados ocidentais abrirem os cordões à bolsa e trouxe mais; pré-adesão e adesão às Comunidades Europeias vieram cobrir o bolo de cerejas. O forrobodó continuou até a aldrabice das ‘subprimes’ e a falência de Lehmann Brothers inaugurarem a grande a crise de 2008 por mor da qual Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, a cujas portas batemos quando reparámos que os cofres estavam vazios, resolveram, por inspiração alemã aceite por todos os governos da União, aplicar-nos o remédio da austeridade.

 

Sempre achei essa receita péssima mas nunca se deve subestimar um povo. Talvez não sejamos descendentes dos que foram à Índia e sejamos, sim, descendentes dos que cá ficaram: pouco importa. No começo do quarto quartel do século XX, em meia dúzia de meses absorvemos mais de meio milhão de refugiados das antigas colónias, sem que houvesse mortos nem feridos, sem gerar uma extrema direita raivosa e com aumento do PIB. Feito colectivo notável, capacidade de encaixe a revelar o estoicismo brando que austeridade e troika trouxeram outra vez para a ribalta nos últimos anos - e estava a fazer-nos sair da crise. Estava. A ânsia de mostrar diferença junta-se a preconceitos ignorantes e à convicção ingénua de que os outros europeus nos querem ajudar.

 

Entretanto, as pessoas que em Portugal consideramos da classe média (sem as quais não há economia que cresça nem cultura que não embote) passaram quatro anos a ver os proventos mirrarem e, pelo andar da carruagem, vão passar assim mais alguns, em vez de recuperarem o gosto do cheirinho a desafogo. Mostraram até agora compostura exemplar mas governo novo, com sangue na guelra, convicto de que o mundo há de querer tratar-nos bem (porque carga de água? Já não há quem se lembre do Syrisa?), excitado por bandarilhas de fogo cravadas pela esquerda apressada que diz apoiá-lo, poderá meter-nos por atalhos inviáveis, esgotar a paciência de quem nos pudesse ajudar e atirar a retoma para as calendas gregas.

 

E nouveaux pauvres cada vez há mais. O que é que se diria deles em Palm Beach? Que seriam melhores do que quê? Do que os pobres sem lembrança de melhores dias que houve sempre? Fraco consolo.

 

 

 

 


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