30.1.16

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O Retrovisor vai ter uma nova rubrica semanal, da autoria de Jorge Colaço, que tenho o prazer de apresentar aos Leitores, não porque se trate de um novo convidado, já que vários textos seus figuram neste espaço, mas para saudar a sua renovada presença aqui e dar-lhe as boas vindas.

  

Amigo de Garrett

 

Jorge Colaço começou por ser o desconhecido que, em finais de 2004, depois de ler notícias da descoberta, numa casa particular em Lisboa, duma importante colecção de inéditos do romanceiro garrettiano, tomou a iniciativa de escrever a minha irmã Cristina para a felicitar pelo achado e, perante o seu entusiasmo com a riqueza do material encontrado, adverti-la gentilmente a não esperar muito. Começou aí uma correspondência que deu lugar à amizade que eu herdei. Jorge Colaço acabaria por participar em todos os esforços de divulgação dos manuscritos e por ter nessa divulgação um papel fundamental. Modéstia à parte, a forma como este espólio foi tratado merecia ser um caso de estudo em Portugal. 

 

Retrovisor

 

No meio do esforço algo solitário que representou para mim nos anos mais recentes alimentar este blog, a chegada do Bloco-Notas foi um autêntico balão de oxigénio. Quando há dois anos José Cutileiro me propôs alojar aqui a sua crónica semanal, perguntei a mim mesma se teria sido o chamamento de gente como Cinatti, O'Neill, Nemésio ou Garrett. No caso de Jorge Colaço é simples, na minha família sempre lhe chamámos o Amigo de Garrett.

 

 

Stay tuned, o Dicionário Pessoal  de Jorge Colaço começa dia 6 de Fevereiro. Sai ao sábado.

 

 

 

 

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27.1.16

 

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Execução de Giordano Bruno 

 

 

 

 

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Velhice do velho continente

 

 

 

Nunca houve tanta gente quanta a que há agora. Somos hoje mais do que a soma de todos os homens e mulheres que viveram e morreram no planeta, desde que o Homo sapiens apareceu até ao fim do século XIX.

 

A maioria da população da Terra é gente nova mas, quando se vai por continentes há uma excepção: a nossa. Há hoje na Europa mais gente velha do que gente nova; diz quem percebe destas coisas que a tendência vai reforçar-se no futuro previsível. A nossa gente nova sobrevive, às aranhas, desanimada, eviscerada por desemprego altíssimo (embora haja casos a contrapelo, até em Portugal: conta The Economist da semana passada, num estudo especial sobre a juventude no mundo, que cá vive e trabalha uma rapariga, génio da informática, que criou empresa inovadora sua e tem clientes por toda a parte do mundo). A Europa, cujos dirigentes políticos passaram gerações a dá-la como exemplo de maneira de viver às outras nações, esquecendo que o milagre europeu assentava, por um lado, em medo salutar de Estaline e dos seus sucessores enquanto a União Soviética durou, medo que aconselhava as pessoas a terem juizinho em casa não fosse o caldo entornar-se (quem se lembre ou conte com quem lho saiba contar, traga à mente três datas emblemáticas lusitanas do século XX - 25 de Abril, 11de Março, 25 de Novembro - e medite sobre o bom-senso) e assentava também, por outro lado, na apólice do seguro de vida garantido pela aliança militar com os Estados Unidos chamada vulgarmente NATO, contra eventuais agressores exteriores, isto é, a dita União Soviética, seguro que dissuadiu o Kremlin de tais maus pensamentos, sendo a Guerra Fria ganha sem ter de se dar um tiro.

 

Tudo isso já lá vai. Em 2008 a doença financeira trouxe para tratamento a austeridade. Emenda pior do que o soneto mas é pior ainda quando xicos-espertos, animados pelo grego da moto, bancam num jeitinho a dar que eles saberão explicar aos alemães. Dessa, nós por cá ainda não estamos livres.

 

Entretanto inépcia do poder americano e cobardia dos confortos europeus deixaram à solta a atrocidade síria cujos fugitivos estão a escavacar pretensões morais europeias, acordando o pior em muitos corações: da brutalidade da Hungria à hipocrisia da Dinamarca. Quando Angela Merkel abriu a porta aos infelizes que não se tivessem afogado pelo caminho, esqueceu-se que a alma das pessoas de bem é um horror.

 

Há pior, por toda a parte. A grande ilusão comunista foi remédio que falhou. A julgar pelos feitos do Estado Islâmico, pelos budistas a irem ao pelo aos muçulmanos na Birmânia, pelo apoio dos evangélicos americanos a Donald Trump, a fé religiosa não nos tirará de apuros.

 

Montesquieu, Voltaire, a razão? Tem-se tentado, sem ela não teríamos chegado a separar a igreja do estado, ingrediente sine qua non de decência de vida. Está a ser agora muito atacada (exactamente por causa disso). Talvez gente nova, europeia ou outra, entre robots e inteligência artificial, encontre outra vez rumo.

 

 

 

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20.1.16

 

 

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 O Nascimento de Vénus - Sandro Botticelli (c. 1485)

 

 

 

 

 

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Depois da Cissiparidade

 

 

 

 

Quando os humanos apareceram sobre a face da Terra a sexualidade já vigorava há muito. O primeiro homo sapiens não surgiu porque homo, menos sapiens e mais amacacado que nós, se tivesse dividido em duas (ou dois). Nasceu como se nasce agora, menino ou menina (em lugares decentes onde se cuida dos outros – algumas florescências da civilização ocidental – estabeleceram-se ultimamente arranjos que burocracias formalizam para não desamparar gays, lésbicas, bis e transsexuais no seu trânsito mortal mas a norma estatística de menina e menino é geral à nascença, desde abismos misóginos da Arábia Saudita a expoentes exaltados de correção política sueca).

 

O jeito que famílias, tribos, polis, derem ao que venha a seguir varia segundo as culturas. Ser culto é ser de um sítio; sítios não faltam e muitos sítios estão a mudar a ritmo cada vez mais acelerado, às vezes confusamente. Mas uma coisa é certa: desde tempo imemorial, em todas as tradições conhecidas, os homens estão na mó de cima e as mulheres na mó de baixo. Há quem pense que houve dantes, aqui e além, sociedades matriarcais mas trata-se da fantasia de inventores de lendas antigas - ou de ingenuidade feminista de hoje. O que houve e há ainda são sociedades matrilineares nas quais estatuto e riqueza passam de uma geração para a geração seguinte só por linha feminina: tal não significa que sejam as mulheres a mandarem e que as mães passem o poder às filhas. Quem manda é sempre o homem, que recebeu a herança do irmão da mãe e a passará por sua vez ao filho da irmã.

 

Outro indicador do longo caminho a percorrer pela emancipação feminina é a mitologia. Desde as últimas décadas do século XIX, europeus e norte-americanos meteram-se a estudar os costumes de tribos chamadas primitivas, gentes sem Deus revelado nem escrita própria, que algumas nem sabiam do resto do mundo, portadoras de religiões e sistemas simbólicos muitas vezes de grande sofisticação. Destes, os muitos que se estudaram arrumam o mundo natural e o sobrenatural de maneiras diferentes mas separando sempre o Bem do Mal. Ora - salvo numa obscura tribo do Uganda - o Homem, como o dia e a mão direita, está sempre do lado do Bem e a Mulher, como a noite e a mão esquerda, sempre do lado do Mal.

 

Ciência, técnica, a força ganha pelo mental sobre o físico, as Grandes Guerras, a pílula anticoncepcional substituíram em sociedades modernas o que se considerava dantes a ordem natural das coisas. Mulheres governam países, chefiam empresas, deitam-se com quem lhes dá na real gana. Nos meus anos de ensino nunca dei porque houvesse maneira masculina ou feminina de pensar. Há, nos dois sexos, quem pense mal e há quem pense bem. Ponto final.

 

Alentejano destribalizado julga que algo terá ficado do tempo que passou. Quadra-se de maneira diferente ao conhecer um homem ou uma mulher e só encontra razões para isso no fundo da pré-história: o homem, poderia um dia ter de o matar; a mulher, poderia ter de lhe fazer um filho.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:45  comentar

13.1.16

 

 

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 Foto: Catherine Boutaud

 

 

 

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Mouros

 

 

Há anos, amigo tripeiro assistia a jogo de futebol entre Boavista e Salgueiros quando o árbitro alfacinha apitou para mandar marcar um livre. A claque castigada não gostou e um entusiasta gritou, furioso contra o árbitro: “Ah mouro, se num fossemos nós ainda andavas de lençol à cabeça!”

 

O brasão de Évora ostenta cavaleiro medieval a galope, na mão direita um montante levantado, na esquerda, agarradas pelos cabelos, duas cabeças - de homem velho e mulher nova - degoladas de fresco. Celebra o feito de Geraldo Geraldes, por alcunha O Sem Pavor, fidalgo expulso da corte de D. Afonso Henriques que para voltar às boas graças do Rei decidira ajudá-lo a tomar Évora aos mouros. De torre no campo que se via da muralha, vigia fazia sinais de fogo diferentes conforme hostes que se aproximassem à noite fossem amigas ou inimigas. Geraldo meteu-se a namorar a filha do vigia, ganhou a confiança do pai, uma noite combinou com compinchas henriquinos que viessem preparados para conquista e saque, quando eles se aproximaram matou o pai e a filha, deu sinal de fogo de chegada de amigos, a porta da cidade foi escancarada e os cristãos tomaram Évora enquanto o Diabo esfrega um olho. (É o que a lenda diz. Reparei outro dia que hoje, no brasão, as cabeças aparecem em baixo, separadas uma da outra, nada indicando ter sido o cavaleiro a cortá-las. Esboço de correcção política?).

 

Durante alguns dos anos da República (1910 – 1926), o jornal O Eco de Reguengos publicava as actas das sessões da Câmara Municipal da (então) vila. Numa delas a discussão sobre já não sei que questão animara de tal maneira que a certa altura o Presidente deu um murro na mesa, exclamando: “Irra, meus Senhores. Isto não é Marrocos!”

 

O que me traz memória menos antiga. Em 1987, era eu director político no MNE, a minha secretária veio dizer-me que o embaixador de Marrocos me queria ver urgentemente. Pedi-lhe para transmitir que se fosse muito urgente eu o poderia receber às quatro e meia; se não fosse, agradecia-lhe que viesse no dia seguinte. Era mesmo muito urgente e às quatro e meia lá estava. Homem inteligente, bem-educado, bom conversador, foi falando até que às cinco horas eu lhe perguntei qual era o assunto urgente. Não havia nenhum: tinha-lhe apetecido conversar comigo porque em Lisboa não sentia a falta de Marrocos, ao contrário do que sempre lhe acontecera noutros postos (incluindo Marselha, onde fora cônsul). Estava entre nós como na terra dele; trocar impressões comigo acentuava esse sentir-se em casa.

 

Evocações trazidas pelo réveillon de Colónia. Não se poderia ter passado aqui nem portugueses constam dos suspeitos de lá. Lembro-me de Paula Rego, aos 20 anos, vinda de Londres, contar em casa da minha mãe dos olhares malcriadamente ostensivos que os homens em Lisboa deitavam sempre na rua a partes do seu corpo. Tempo foi. Uma das maiores mudanças a que assisti na minha vida foi as mulheres terem passado a ser tratadas quase como seres humanos em Portugal. Quase.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 15:02  comentar

6.1.16

 

 

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Vontade nacional

 

 

 

“… parecer-me-ia muito interessante que escrevesse sobre um dos mais difíceis factores mensuráveis (?) do poder de um Estado - a vontade nacional. Onde está a nossa vontade nacional? Existe? Para onde caminha? O que se espera da nação? Ainda somos um estado-nação?”

 

Bom conselho de politóloga, se nos quisermos pôr a pau perante o que são Mundo, Europa, euro, democracia, desemprego, temperaturas, Maomé, Cristo, Buda, terroristas, velhos, refugiados, mulheres veladas e sem véu, passado, futuro. Embora eu olhe para o assunto de outro jeito por achar que a ciência política não ajuda muito a entendê-lo (nem a entendermo-nos a nós por via dele). Já a História ajuda, se for bem contada como foi, por exemplo, a da guerra do Peloponeso; histórias ajudam também, tal a de Anna Karenina ou as de outras infelicidades; versos; frescos; estátuas; música – e fica um ror sem fim por entender. Não é só coisa de hoje e de aqui. “Mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução” escreveu o brasileiro Carlos Drummond de Andrade no dia de Natal de 1928.

 

Seremos ainda um estado-nação? Duas vezes na vida julguei entender do que é que essa questão trata. Primeira. Quando fui embaixador em Moçambique, cinco anos depois da independência, tinha na residência três criados moçambicanos. Lourenço, Jacinto e Salomão garantiam-me o serviço da casa; eu mantinha-os livres da sua liberdade. Um estado fizera reverência à boca de cena e retirara-se para deixar outro estado tomar conta do palco. Uma nação esboroara-se. Mas, quanto a nós os quatro, o ritual que nos regia continuava a ordenar o nosso mundo. (But to the four of us the center/ Holds escrevi eu então, a rematar versos de circunstância).

 

Segunda. O massacre islamita de 13 de Novembro passado, em Paris, foi planeado ao pormenor por residentes, alguns deles franco-árabes, do bairro bruxelense de Molenbeeck, lugar com tradição jiadista antiga – de lá saíram os assassinos do comandante Massoud do Afeganistão em 2001 – e ruas onde a polícia há décadas não põe pé. As polícias secretas europeias passam constantemente informações umas às outras e a investigação do massacre de Novembro mostrou que as autoridades belgas não tinham usado, ou tinham usado pateticamente mal, informação recebida; bem aproveitada poderia provavelmente ter impedido o massacre. Porque não há na Bélgica vontade nacional: flamengos e valões detestam-se; de alto abaixo, múltiplos níveis de decisão comunicam pouco e mal entre si; a disfunção do estado é permanente.

 

Em Maputo percebi que, em transições, anseio de ordem protegida encontrará maneira de se satisfazer, mesmo à custa de incongruências, porque de dentro para fora - do lugar onde dói – estas contam pouco.

 

Em Bruxelas percebi que boa-vai-ela tolerante de antijacobinos como eu não sabe defender-se de quem queira dar cabo dela. Caricatura premonitória de Europa sem estados-nação?

 

Entretanto, e como dantes, nós por cá todos bem.

 

 

 

 

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