28.10.15

 

 

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Jacob van Ruisdael 

 

 

 

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E agora, José?

 

 

 

“Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há” respondeu-me há meio século grande proprietário de aldeia alentejana minúscula – peixe grande em redoma pequena – a quem eu perguntara como eram as relações com o poder - com o Governo Civil de Évora; com os ministérios em Lisboa – no tempo da República (nessa altura o Estado Novo apodrecia no marcelismo e não era preciso dizer Primeira porque só tinha havido uma). Homem letrado para o seu tempo, o seu lugar e a sua condição - mesmo que o modo conjuntivo lhe escapasse às vezes - deixou-me essa pérola de sabedoria cartesiana: quem não estivesse bem sob uma ditadura (ou não estivesse bem numa democracia…) tinha obrigação de saber que se agisse em consequência o faria por sua conta e risco. Era por assim dizer a tábua rasa onde se jogava. Valeu até à semana passada.

 

Acabado este parágrafo, copio para a leitora o que velho amigo acaba de me escrever. “O País que é o nosso perdeu mesmo a vergonha. Depois de 4 anos abúlicos perante uma violência estúpida e destrutiva de pessoas, bens, património e instituições a noviciada esquerda unida prepara-se para nos servir de bandeja dentro de meia dúzia de meses mais 4 ou 8 anos de coligação PAF que acabará definitivamente com o que temos para terminar honradamente as nossas vidas. Se isto não é o finis Patria do G. Junqueiro não sei o que será”.

 

Carradas de razão: a seguir aos desmandos da obsessão neo-liberal, iremos sofrer golpadas populistas do pior oportunismo e nos próximos votos, que depressa nos irão pedir, a direita ganhará forte e feio, deixando o PS Pasokificado, como agora se diz (não esquecer que durante esta campanha eleitoral o único partido que propunha a união das esquerdas não elegeu um único deputado). Mas eu talvez acrescentasse que, com Guerra Junqueiro ou sem ele, a Pátria ganhou o costume, desde há uns 150 anos para cá, de ser vista de vez em quando a chegar ao fim por alguns dos seus filhos mais insignes. Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill - e agora cabeças pensantes que escrevem para jornais e receiam que a crise de estima e de confiança nos partidos políticos se agrave mais, a seguir às faltas de tento, de patriotismo e de maneiras exibidas por quase todas as chefias nacionais e partidárias desde as eleições de 4 de Outubro, e ponha em perigo a democracia. (Tem sido um espectáculo triste, de que somos todos responsáveis. No tempo do Dr. Salazar, quando as coisas iam mal, achava-se que a culpa era dele – ou, para os salazaristas, do reviralho e de Moscovo. Passou a ser nossa).

 

Mas os portugueses hão de ser sempre os mesmos porque não há outros, como dizia o primeiro Duque de Palmela, a quem chamavam em Lisboa o Inglês-Mor – ou, pelo menos, assim me contou um dia o Vasco Pulido Valente. O que não torna cada finis Patria menos desagradável. Pelo contrário. No que atravessamos agora sinto-me, pela primeira vez na vida, sem saber qual é a lei que há. Muito grave.

 

 

 

 

 

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25.10.15

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A primeira série dos “Cadernos” (1940-42) foi organizada pelos três poetas referidos e engloba cinco números antológicos; a segunda (1951) foi concretizada por Jorge de Sena, Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José-Augusto França com sete fascículos. A terceira teve três números (1952-53).

 

 

 

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21.10.15

 

 

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Sala de Actos do Colégio do Espírito Santo, Évora

 

 

 

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Aldeia da roupa branca

 

 

 

Amiga do coração, voltando de sessão solene universitária, passada algures em sala bonita na província deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio – assim escreveria o meu chorado A.B. Kotter, da Várzea de Colares - saíra dela tão bem impressionada que me disse “[H]oje senti-me muito feliz e orgulhosa de Portugal”.

 

Conto isto aqui à leitora metendo A.B. Kotter pelo meio porque há muitas maneiras de se ser do país de onde se é e há também diferenças marcadas de país para país. Num dos Diários do Marcello Mathias, não me lembro qual deles e é de memória que arrisco, Marcello está de visita a uma catedral inglesa (Salisbury?) quando o espaço da igreja e inscrições várias nas suas paredes, algumas sobre mortos pela Pátria em guerras contra estrangeiros, o levam de repente a perceber que ser inglês is a full time job.

 

Ser português nem sempre parece tal. Nós somos menos intensos; dá-nos a coisa nalguns dias, noutros não tanto. Por exemplo, na derrocada de honra e de bom senso que, desde a noite do passado dia 4, no rescaldo das eleições legislativas, alguns insistem em nos apresentar como construção do futuro – de um futuro cheio de amanhãs que cantam – é só em oásis de tempo ou de espaço que muita gente portuguesa se poderá agora sentir bem com Portugal.

 

O avesso – como na roupa – da apregoada brandura dos nossos costumes, refractária a guerras civis, revoluções e motins por tudo e por nada, que, sem alarde ou vanglória, cometeu o maior feito histórico do país desde 25 de Abril de 1974 – a absorção pacífica de centenas de milhares de retornados de África, muitos dos quais nunca cá tinham posto pé - revela-se no bom modo com que o país sustentou quatro anos de austeridade sem tugir nem mugir. É o reverso da medalha.

 

Ora longos períodos de apatia cívica definham a fibra do respeito por si próprio, da mesma maneira que, mutatis mutandis, longos períodos de imobilidade física vão definhando as fibras do tecido muscular e chegam, por vezes, a fazer desaparecer os músculos. Assim enfraquecida, incapaz de perceber bem quem é, atordoada pelo rumor da vida a dar socos na porta cada vez mais ensurdecedor de há século e meio para cá, desde que telégrafo, e depois telefone, telefonia, televisão, internet, redes sociais e o mais que virá, se verá, ouvirá e sentirá, mudaram de alto abaixo a nossa residência na Terra – nos foram dilacerando da tribo sem nos armar em cidadãos do mundo – a gente tenta agarrar-se à aldeia, enterrar a cabeça como as avestruzes. Na aldeia de cada um às vezes tudo parece possível: o novo primeiro ministro do Canadá vai deixar de bombardear o Estado Islâmico; os trabalhistas britânicos escolheram Corbyn para chefe; em Portugal uma suposta ‘esquerda unida’, apesar de diferenças de crença que tornam tal união impossível, entende que o povo a quer para governo, apesar dos resultados do voto de 4 de Outubro não indicarem isso de todo. Terá a nossa aldeia perdido a vergonha?

 

 

 

 

 


14.10.15

 

 

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 O Rei Jorge V de Inglaterra e um mendigo no Derby

 

 

 

 

 

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Broncalina do camandro?

 

 

 

“De resto, cá vamos andando – agora observando este impasse da política portuguesa, com um misto de incredulidade e apreensão. Vamos lá ver como é que o António Costa faz o seu jogo – francamente não gostava de estar no lugar dele. A Social-Democracia está numa situação impossível um pouco por todo lado, não é? Como diria o seu amigo designer de quem fez o obituário há uns meses, é uma broncalina do camandro…” desabafou correspondente lisboeta, em e-mail sobre outro assunto.

 

Está, sim senhor – desde o fim da União Soviética, embora nem toda a gente tenha dado por isso. Os regimes comunistas foram logo ao ar (tirando a Coreia do Norte e Cuba) mas quase só Tony Blair percebeu que a social-democracia também estava condenada. Ela existira como mal menor – os dirigentes sindicais vendiam metade da alma ao Diabo para serem aceites pelo patronato mas a outra metade chegava para lhes dar credibilidade junto dos seus e toda gente vivia em paz e sossego na prosperidade ocidental – mas, com o mal maior extinto, o mal menor deixou de ter razão de ser. Blair, Brown (e Mendelson, a cabeça pensante do partido) adoptaram a “terceira via” (a arte de cortar pensões a velhinhas com boa consciência, chamava-lhe um cínico); não tivesse havido a desastrosa guerra do Iraque talvez ainda hoje governassem o Reino Unido. De resto sociais-democratas só se aguentam na Alemanha como parceiros menores, em coligação com Merkel e, na Suécia, depois de quase meio século de poder, desapareceram há anos do governo.

 

A partir da “terceira via”, terá de se inventar melhor senão está o caldo entornado, porque as desigualdades económicas hoje são excessivas. Os ricos estão cada vez mais ricos: nos Estados Unidos, por exemplo, enquanto os rendimentos de operários estagnaram ou diminuíram, entre 1978 e 2012 o pagamento dos CEO das grandes companhias aumentou 876%! Como Marx lembrou, alterações quantitativas acabam por levar a alterações qualitativas e se a tendência continuar não é preciso perspicácia de Papa ou de trotskista para prever balbúrdia.

 

O desabafo do meu amigo lisboeta também se preocupa com o jogo que fará o Secretário-Geral do Partido Socialista português. Para isso, 1974 devia ser exemplo. A URSS era forte, os amanhãs que cantam pareciam evidentes a muitos, havia no PS muita gente à esquerda de Mário Soares e o marxista-leninista Manuel Serra disputou-lhe o lugar. Acordados com Soares, alguns militantes (entre eles Victor Cunha Rego, Vasco Pulido Valente) apresentaram moção social-democrata, colocando ao centro Soares que derrotou Serra e manteve rumo sensato, decente e patriótico, ganhando eleições em 1975 e 1976 e, de caminho, salvando o país. Bem para lá do talento táctico o que deu força a Soares foi a sua crença inabalável na democracia parlamentar e na Europa (a cuja porta bateu logo que primeiro-ministro). Quem tiver crença menos forte quer numa quer noutra, se alcançar por fim poder político fará muito mal a Portugal.

 

 

 

 

 

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7.10.15

 

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Não há de ser nada…

 

 

 

Melhor: talvez até possa ser tudo. A crise da imigração, encarada ao gosto de cada um, de Helsínquia a Bucareste, de Londres a Paris, pelos políticos mais demagógicos das nossas praças – a Hungria que arrancara arame farpado cortante da sua fronteira para pessoas poderem fugir dela para o Ocidente em 1989, repô-lo agora para impedir outras pessoas de entrarem nela a caminho da Alemanha, que as quer acolher – estimula políticos que agitam espantalhos julgados de efeito seguro junto de eleitores assustados. A Europa é cristã, dizem eles, a mourama está à porta e, se a deixarmos entrar, o Estado Islâmico vai, pelo menos, encher isto tudo de terroristas, ou talvez até tomar conta do governo de um ou outro dos nossos países (como o escritor francês Michel Houllebecq imaginou para a França num romance de ficção histórica de sucesso). No Médio Oriente há quem sonhe com tais triunfos: em 1992 o Chico Quevedo, nosso embaixador em Ancara, viu numa manifestação de apoio aos muçulmanos dos Balcãs cartaz que rezava: “Não deixaremos que a Bósnia se transforme numa segunda Andaluzia”.

 

Mas o sonho não passa disso, do sonho de escassos entusiastas, e a ideia de que se poderão ressuscitar guerras religiosas na Europa - espantalho plantado por muitos desses demagogos - é profundamente disparatada. O que caracteriza a Europa – a União Europeia e os seus Estados Membros – não é ser cristã, embora o tenha sido durante séculos, a sua cultura esteja impregnada de cristianismo e parte considerável dos seus habitantes pertençam a igrejas cristãs: católicas, ortodoxas, protestantes. O que caracteriza a Europa é ninguém nela poder ser preso ou perseguido em justiça devido às suas crenças ou práticas religiosas. A separação entre estado e igreja é radical – mesmo quando haja uma igreja oficial e o chefe do estado seja também o chefe dessa igreja como acontece em Inglaterra (conhecida, além disso, por ser considerada o berço da democracia e nos ter dado a Magna Carta). Quem poderá ter problemas aqui não serão os europeus mas alguns dos recém vindos do Islão que abracem variedades deste intolerantes de outras crenças: esses, se não se adaptarem, terão de se ir embora. Guerras religiosas já as corremos do nosso seio há muito tempo.

 

Quanto à questão de fundo: os imigrantes precisam da Europa e a Europa precisa dos imigrantes. Para manter o equilíbrio de hoje entre população activa e o resto, a Alemanha necessita 500.000 migrantes por ano até 2050. Há demografias menos atrapalhadas mas, com diferenças de grau, o problema é de todos. Cabe aos políticos encaminharem as coisas de maneiras que nos convenham e, guiando-me pelo passado, julgo que tal acontecerá. Por duas razões: 1 Na Europa, quando as coisas vão bater no fundo aparecem chefes à altura (Churchill; De Gaulle; Soares em 1975). 2 Desde o começo, a construção europeia progrediu de zaragata em zaragata - e a crise da imigração vai obrigá-la a dimensão política que lhe tem faltado.

 

 

 

 

 

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3.10.15

 

 

 

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   Garrett - Columbano (detalhe)

 

 

 

 

 

 

Carta de Almeida Garrett ao político e amigo Rodrigo da Fonseca Magalhães

 

"Pensa", escreve Garrett em 1846 ou 1847 ao seu amigo, nesta carta inédita que pertence à Biblioteca Nacional. "E se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secreto, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver." Estava-se em plena Guerra da Patuleia, que dividiu o país entre liberalistas e miguelistas, e Garrett oferece-se para ajudar. O "acordo", se existiu, manteve-se mesmo secreto. Não se sabe qual foi — se algum — o envolvimento de Garrett nos bastidores.

 

 

5a feira

 

[...]

Meu Rodrigo, aproveito esta ocasião para te pedir que estejas bem em guarda para te não deixares comprometer com certos sujeitos que nós sabemos. Olha que eles nada te podem dar, e se te pudes­sem dar alguma coisa, não ta davam. Se se chegam para ti é porque sabem que nada têm, e fazem de vampiros para vi­ver do teu sangue. E depois uma de duas, ou te hás-de desfazer deles, e chamam-te traidor, ou os aturas e alienas de ti os verdadeiros valores. No meio destas ruínas em que está Portugal tu podes ter uma bela missão.

 

Isto é como o terramoto de 55: nós não o fizemos, tu não o fizeste. E o que se incarregar de levantar a cidade caída não é responsável pelo que a deitou abaixo. Esta opinião e modo de ver não é meu, é de muita gente, e pode­remos fazê-lo ser do maior número se se for com tento e firmeza.

 

Tu bem sabes que eu não cos­tumo oferecer-me para nada; mas também sabes que sou amigo verdadeiro e eficaz quando a consciência da razão e da alma se juntam às minhas simpatias pessoais. Eu digo a todos que não sou de políticas, e que abdiquei, mas a ti digo-te que escolhi de propósito e de longamão esta posição insuspeita porque vi do princípio que por bastante tempo outra era impossível com proveito público. Creio que me não inganei. Assim vejo todos, e com todos falo em negócios que de outro modo não são tratáveis.

 

Se vires que podemos falar sério e com proveito nestas coisas, e que convém, dize e  falaremos. Os patuleus estão com mais senso do que os eu supunha.

 

Se se tenta alguma coisa, é preciso tentá-lo já, isto é, prepará-lo; e parece-me a mim que posso ajudar-te nal­guma coisa, especialmente porque cuidam que o não pretendo.

 

Ora eu realmente para mim aqui nada quero.

 

Adeus. Pensa, e se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secre­to, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver. E tu bem deves saber que eu não sou poeta em prosa, e que todos valem mais que eu, menos em lealdade e certeza que ninguém mais que eu vale. Teu dedicado amigo

 

JBAG

 

 

*

 

 

A 4 de Março de 1852, ao apresentar o texto do primeiro Acto Adicional à Carta Constitucional, por si redigido, Almeida Garrett proferiu o último discurso na Câmara dos Deputados. Este é um verdadeiro testamento político (a que deve juntar-se a alocução, também derradeira, na Câmara dos Pares, em 10 de Fevereiro de 1854), e nele se inclui este enigma de decifração de profundas convicções:

 

Eu também já perdi as minhas ilusões; também já não creio na maior parte das cousas em que acreditava; mas há uma única crença, é a crença na minha Pátria é na liberdade dela [...]. Mas quando a per­desse, sumia-a no fundo de minha alma para que ma não suspeitasse a Nação Portuguesa.

 

Das bancadas parlamentares que o aplaudiram (no registo dos taquígrafos, emotiva e efusivamen­te o fizeram), não podem contar-se aqueles que terão penetrado o sentido dissimulador, tão do agrado do escritor, que essas palavras contêm.

 

Ora, descrente das soluções e dos oportunismos que enchem páginas na história do nosso liberalis­mo, Garrett aprendeu a dissimular as mais fundas crenças, cobrindo-as sob um manto (ou jogo) irónico de "ilusões" e "crenças" com que manteve incólume uma postura de independência dos partidos e inte­resses particulares de então. Daí a fórmula, que não deixa de ser perturbadora e que podemos traduzir deste outro modo: se hoje deixei de pensar o que ontem posso ter pensado, não afirmo nem desminto tanto o que ontem posso ter pensado como, hoje, o ter deixado de pensá-lo.

 

Fórmula especiosa... e perturbadora! Afinal de contas, fórmula geral de uma "intimidade cons­trangida", que, com o tempo (sobretudo, por força de um tempo histórico vivido), aprendeu a escamo­tear em público as convicções mais íntimas, sem as apagar de todo. Mas quais terão sido estas?

 

Creio que, de um juvenil ponto de partida repu­blicano (de que o federalismo norte-americano foi "a pedra filosofal" dos sistemas políticos) e jacobino (de que as revoluções servem para "colocar os homens no seu lugar"), permaneceu uma dissimulada posição de defesa do que, no primeiro liberalis­mo português, podemos considerar os difusos interesses populares.

 

E, de forma irruptiva e mais ou menos velada, conforme as circunstâncias — nessa "posição in­suspeita" de quem já vira "que por bastante tempo outra era impossível com proveito público" (ver carta inédita junto) — , Garrett surgiu nos picos de maior radicalidade ao lado do partido popular e contra o oportunismo das facções.

 

No geral, manteve o princípio de conservação das liberdades e de estabilidade política que se não confunde com conservadorismo e não pode esconder as crenças subtilmente veladas pelas "endiabradas políticas" que "tudo absorve[ra]m" no nosso longo século XIX.

 

 

 

 

Luís Augusto Costa Dias

in Jornal Público, Caderno "150 anos da morte de Almeida Garrett ", 9 de Dezembro 2004

 

 


 

 

 

* Imagem: Óleo sobre tela de Columbano Bordalo Pinheiro concluido em 1926 [pormenor] . Passos Perdidos, Assembleia da República, Lisboa

 

 

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