30.9.15

 

 

 

Rui Ochoa.jpeg

Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:57  comentar

28.9.15

 

 

fotografias de João D' Korth

 

Álbum Vintage Maroc no Flickr

 

 

 

 

continua...

 

 

 

link do postPor VF, às 16:39  comentar

27.9.15

 

 

 

 

Cristina-2002.jpg

 

 

 Cristina de Carvalho Futscher Pereira

17 de Abril 1948 - 27 de Setembro 2005

 

 

 

 

 

 

 

 

O Ramo de Oiro

 

 

 

Estando eu à minha porta

Com três horas de serão

Vi passar Nossa Senhora

Com um ramo de oiro na mão.

 

 

Eu pedi-lhe uma folhinha

Ela disse-me que não;

Pedi, tornei-lhe a pedir,

Ela deu-me o seu cordão,

 

 

Que me dava sete voltas

À roda do coração.

Sete voltas não são nada

Ó Virgem da Conceição

 

 

Prendei vós esta alma toda

Prendei-ma com vossa mão

Que a metade inda é do mundo

Metade, que a outra não.

 

 

 

Plantai-me esse ramo de oiro

No meio do coração

Ficarei no vosso altar

Como vaso de eleição.

 

 

 

 

Romance popular incluído nos manuscritos garrettianos descobertos pela Cristina em 2004. O poema foi lido no seu funeral e editado numa pagela oferecida aos amigos.

 

 

 

Veja também os posts:

 

 

Efeméride

 

 

LFCL (desde 1952)

 

 

Carta a Garrett

 

 

Fado

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 00:02  comentar

25.9.15

 

 

 

 

 

fotografias de João D' Korth

 

Álbum Vintage Maroc no Flickr

 

Álbuns de João D'Korth no Flickr:

 

Exposição do Mundo Português

França Anos 30

Marrocos Anos 40

 

 

 

 

 

continua....

 

 

 

link do postPor VF, às 14:30  comentar

23.9.15

 

Doctor Faustus 1.jpg

 Doctor Faustus

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

De mal a pior

 

 

“Não compre um Junker, que já são feitos cá! Compre um Vaillant”, disse o homem dos electrodomésticos na Lapa há 30 anos porque a fé lisboeta no Made in Germany era inabalável, apesar de duas guerras mundiais perdidas por Berlim, na primeira com Portugal inimigo, na segunda com Portugal neutro – embora, estando a sorte da guerra a virar depois das derrotas alemãs no areal de El-Alamein e na estepe de Estalinegrado, o Dr. Salazar tivesse acedido a deixar instalar a base aérea das Lajes na Ilha Terceira dos Açores por ingleses e americanos. Mesmo assim, sua administração viria a receber com compunção a rendição internacional dos nazis aos aliados. No Palácio das Necessidades, o Secretário-Geral, quando o embaixador alemão se veio despedir, em lugar de, como fizera sempre que por ele fora visitado, vir com ele à porta do gabinete, acompanhou-o pelo corredor até ao cimo da escadaria.

 

Como toda a gente sabe – de médico, de louco e de comentador político todos temos um pouco (vem à ideia André Gide, nos anos vinte, assarapantado com o que via à sua volta, a dizer que em Paris as coisa tinham chegado ao ponto de haver mais artistas do que obras de arte) - durante o século XX, a Alemanha foi o Sempre-em-Pé da Europa. A narrativa –como dizem agora - corre assim. Os alemães quiseram mandar em nós pela força duas vezes, a primeira em 1914 e a segunda em 1939; das duas acabaram por levar no coco depois de tropelias criminosas, inéditas na Europa. As mais conhecidas aconteceram durante a segunda guerra mundial, tendo destaque incomparável com tudo o resto a tentativa de exterminação dos judeus – Holocausto, Shoa, os nomes são vários mas a atrocidade é a mesma – radicada em teorias criminosas e dementes, abraçadas por Hitler e seus sequazes, (mas calando fundo também em almas não-germânicas, sobretudo na Europa de Leste: por exemplo, algumas das matanças mais cruentas foram levadas a cabo na Letónia e na Roménia). Mas a primeira, aquela a que se chamava a Grande Guerra, teve também a sua quota de barbaridades logo desde o princípio: a destruição e incêndio da preciosa biblioteca da Universidade de Louvain, na Bélgica, pelos invasores alemães que nos primeiros dias da guerra se assustaram sem ninguém os ter provocado, deu o tom a muito do que se seguiu. A narrativa costuma além disso lembrar que a Paz de Versailles exagerou no castigo e tornou os alemães mais belicosos. E conta também que, depois de 1945, a Alemanha aprendera a lição e a pouco-e-pouco, sempre a bem, se fora transformando na maior potência europeia. Estava quase desculpada do passado mas a crise grega começara a empurrá-la para a mó (moral) debaixo quando, de surpresa, Angela Merkel abriu as portas aos refugiados. O Bem, afinal, sempre era alemão.

 

E agora o escândalo Volkswagen, o Carro do Povo, Das Auto que, com crime gigantesco e metódico, põe vidas em risco, ludibria administrações e retira autoridade às pregações morais de Berlim. Sempre-em-Pé ou Sísifo?

 

 

link do postPor VF, às 17:23  comentar

19.9.15

 

 

fotografias de João D' Korth

 

 

Maroc 3.6.1

Maroc 3.6.2

Marrocos 5.1

img728 copy

img728

img729 copy

img705 copy

 

 

Maroc 236

 

 

  

 

Maroc 234

 

 

 álbum Vintage Maroc no Flickr

 continua....

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 16:02  comentar

16.9.15

 

 

berlim 45.jpg

 

Berlim, 1945 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

E se afinal não fossemos tão bons?

 

 

 

“Dê um beijinho a este Senhor, que era muito amigo do seu bisavô”. Quinze anos - doze a parecerem quinze que a gente nova agora deita muito corpo? - a miúda obedeceu à mãe e estendeu-me bochecha salpicada por grãos de areia pois vinha de fazer surf no Guincho.

 

Longevidade e caldeirada de classes, sexos, ocupações e idades estão a esvaziar de autoridade aforismos do século passado. “O passado é outro país. Lá, fazem as coisas de maneira diferente” – lá e cá também, na manta de retalhos fruta cores a que chamamos presente. “A longo prazo, estaremos todos mortos” – era bom, era: agora, a longo prazo, muitos de nós estarão ainda por cá, meio cegos e meio surdos, a vermos passar a banda.

 

Tudo isto em União Europeia rasgada nos últimos anos por querelas de dinheiro entre a formiga Norte e a cigarra Sul e agora, perante maré de refugiados, entre Oeste generoso de vistas largas e Leste egoísta de vistas curtas. Tão entretidos nisto andamos que parecemos esquecidos de que o milagre que nos aconteceu (mais de meio século de paz; abandono de costumes milenários de provocar, enganar e atacar vizinhos) foi fruto de circunstâncias. Em 1945, nenhum de nós podia com uma gata pelo rabo; tínhamos medo salutar de um inimigo comum, a URSS; amigo comum grande, os EUA, deu-nos dinheiro do Plano Marshall e protecção militar. As circunstâncias agora são outras: somos uma parte próspera do mundo; Putin é velhaco mas não mete medo que se compare ao que metia Estaline; os EUA – a hiperpotência, chamou-lhe Hubert Védrine – já não precisam tanto da Europa quanto precisavam durante a Guerra Fria, ajudam-na menos e esperam mais dela.

 

Escrevi milagre avisadamente. Há dias, numa excelente conferência internacional (daquelas que há quase vinte anos a Fundação Oriente promove no Convento da Arrábida, muito tempo presididas por Peter Carrington e agora por Chris Patten) ouvi três oradores do Japão, da China e da Índia (um diplomata, um académico e um homem de negócios respeitado no circuito das relações internacionais) dissertarem sobre as relações dos respectivos países. Ouvi-os fascinado – foi, para um europeu, viajar para trás no tempo. Governos, oposições formais ou não e as populações em geral, mais ou menos manipuladas pelos governos, vivem em desconfiança dos vizinhos e medo de guerra (há sempre um Belzebu de estimação. Para os indianos é o Paquistão – e ambos têm bombas atómicas). Questões de fronteiras, terrestres (India/China) e marítimas (China/Japão e alguns outros) são regularmente levantadas, mesmo quando não haja tensões. No dia em que o Presidente chinês começou visita de estado à India, avião militar chinês violou o espaço aéreo indiano. A 8.000 metros de altitude, ninguém deu por isso salvo quem trate dessas coisas, mas Nova Deli foi lembrada de que o assunto não está esquecido.

 

Nós dantes também éramos assim, com cláusulas secretas em tratados e tudo, e se não tomarmos juízo, depressa o voltaremos a ser.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 11:36  comentar

13.9.15

 

Tomaz Kim 1961.jpg

  Tomaz Kim / Joaquim Monteiro-Grillo

 

 

Nascido há cem anos, em 1915, e desaparecido em 1967, foi poeta*, professor da Faculdade de Letras de Lisboa, ensaísta, tradutor. Deu a conhecer ao público português muitos escritores da literatura inglesa e americana.

 

É justamente recordado este mês no Jornal de Letras num extenso artigo ilustrado com uma fotografia que aqui publiquei em 2009. Foi aliás a fotografia que me conduziu à descoberta do excelente texto de Fernando J. B. Martinho, de que reproduzo este pequeno excerto, a acompanhar uma tradução de Tomaz Kim que encontrei junto de recordações dele que os meus pais guardaram, neste caso uma simples folha de bom papel, bem impressa em frente e verso.

 

*  

 

Os dois volumes do que consideramos ser a segunda fase da sua obra situam-se num período em que a carreira académica do poeta iniciada em 1947 alcança justíssimo reconhecimento institucional, que a morte precoce, em 24 de Janeiro de 1967, pouco antes de atingir os 52 anos, veio, lamentavelmente, interromper. É este um período em que o poeta, fiel continuador do que há já de uma sólida tradição modernista em termos nacionais e internacionais, faz acompanhar a sua prática poética da tradução de poetas ingleses e americanos (com maior incidência na 2ª metade dos anos 40, no Diário Popular), e de textos de doutrina crítica, de Shelley e T.S. Eliot, e de ampla produção crítica e ensaística própria, que assina com o seu nome civil, Joaquim Monteiro-Grillo ou J. Monteiro-Grillo.

[Fernando J. B. Martinho in "Tomaz Kim Um poeta de tempos dramáticos" - Jornal de Letras, Artes e Ideias, Número 1172 – 2-15 Setembro de 2015] 

 

 

 

Minster Lovell tradução Tomaz Kim.jpeg

Minster Lovell, de David Wright, tradução de Tomaz Kim

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL 

 

 

Now I a ghost ascend a broken stair

where no more the cold fingers of the rain

comb, or the winds caress my long brown hair;

I move among the populous passages

peopled with brown leaves and the sluggish weed,

and the wind's mutterings and memories

of sere wolds and the dark Atlantic seas.

 

 

Remembering now the dancing. O my lover

break down the cold embraces of the grave:

murder the time, recover

the lost words, the lost glances.

 

 

Remembering now the dancing. I remember

voice of the harp, the tender

not of the flute, the tremble

of the low-toned clavichord;

the whisper of the dresses

as the dancers turned and parted

as the music paused and started.

The dancers are departed.

 

 

 

Now I a virgin ghost, under the cold

and lunatic moon, forsaken. Whom these walls

already have forgotten. Whom they hold

in the dark rain of spring, in the cascade

of the clear pool that will not wet my feet.

 

 

 

O find me whom I fled

before the leaden pressure of the lid

weighs down the thin white arms and bended head.

Who only hears the voices on the stair

who cannot hear the dry grate of the lock.

 

 

 

I am bound in with darkness. In the iron

strong womb of time. The lover

clasped by a stronger, more enduring arm;

in a more proud embrace.

 

 

 

O find me. Find, recover.

Break down the cold embraces of the grave:

shatter these hasps, and scatter

eternal walls, and batter

with a white leap of light the night. Discover

the bright horizons.

 

 

 

I heard a footstep on an outer stair:

I heard a voice call once, and call my name.

I blinded in the tangle of my hair,

pressed in with darkness. Who will not recapture

the sunlight or the crocus, who will wander

in the moon's error and the winds, forgotten.

Virgin of the spring rains, among these walls.

 

 

 

Now I the ghost of a delighted bride

brought to a dark unrobing, and a bed

celibate, to surrender

a living virginity for a dead;

O this my pride to tender

to the malicious worm my slender head.

Brown hair and white limbs, who will not remember?

 

 

 

I not await him. I await no lover;

who overtakes the still feet of the years?

And I have mouldered in the dust too long,

too long my being in the. darkness fed.

Under the sallow moon I must await,

tenant of hollow winds and bitter rain,

the new birth of the crocus. Non deliver.

 

 

 

And none return. The constellations wheel

westward; and westward the reluctant moon.

None shall burst down the indurate barriers;

none open wide the doors: and none return.

Westward the moon. Inhabitant of the springs,

the short grass and the broken palaces,

I meditate the winds and the cold rain.

 

DAVID WRIGHT *

 

 

 

 

 

MINSTER LOVELL (tradução de TOMAZ KIM)

 

 

Ora, eu, um espírito, ascendo a escada carcomida

Onde não mais os álgidos dedos da chuva penteiam,

Ou o vento acaricia, a minha longa cabeleira fulva.

Caminho por entre populosas veredas

Povoadas de folhas secas e erva daninha inerme

E murmúrios do vento

E lembrança

De tantos plainos e sombrios mares atlânticos.

 

 

 

Lembro, agora, a dança... Ó, meu amado!

Desenlaça o gélido abraço da tumba:

Assassina o tempo,

Retoma as palavras perdidas, o perdido olhar...

 

 

 

Lembro, agora, a dança.,.

Lembro a voz da harpa,

O terno trinar da flauta,

O trémulo grave do clavicórdio,

O sussurro das vestes,

enquanto os bailarinos rodopiam e se separam,

Quando a música se detém e recomeça.

 

 

 

Foram-se os bailarinos.

 

 

 

Ora, eu , espírito de uma virgem,

Abandonada sob a lua fria e tonta,

A quem estes muros já esqueceram,

A quem eles retêm na chuva escura da Primavera,

Na cascata da límpida lagoa que não molhará meus pés...

 

 

 

Oh, encontra-me, a mim, de quem eu fugi,

Antes que o plúmbeo peso da tampa

Comprima os alvos braços esguios e a cabeça tombada,

Aquela que ouve apenas as vozes na escada

Aquela que não pode ouvir do ferrolho o áspero arranhar.

 

 

 

Envolta estou em treva

No fero útero férreo do tempo.

O amado,

Enlaçado por um braço mais firme e duradouro

Num mais soberbo abraço.

 

 

 

Oh, encontra-me,a mim. Busca, retoma.

Desenlaça o gélido abraço da tumba,

Despedaça estas ferragens

E dispersa os muros eternos

E desfaz a noite com um alvo arranco de luz.

Descobre os rútilos horizontes ...

 

 

 

Ouvi passos numa escada, lá fora,

Ouvi uma voz a chamar uma vez, a chamar pelo meu nome.

Eu fiquei cega no emaranhado do meu cabelo,

Confundida com a escuridão,

Eu, aquela

Que não virá acolher a luz do sol ou a flor do açafrão,

Aquela que vagueará, esquecida,

Nos enganos da lua e do vento,

Virgem das chuvas da primavera,

Entre estes muros...

 

 

 

Ora, eu, espírito de uma noiva deslumbrada,

Levada a um tenebroso desvelar

E a um leito solitário

Para render

Uma virgindade viva a uma virgindade morta...

Oh, este, o meu orgulho:

Ofertar ao verme malévolo a minha cabeça donairosa!

Cabeleira fulva e alvos membros, Quem os não lembrará?

 

 

 

Não espero por ele. Não espero nenhum amante;

Quem ultrapassará as quietas passadas dos anos?

E eu me desfiz em pó, no pó, há muito, já...

Há muito, já, meu ser das trevas se alimentou.

 

 

 

Hóspede do vento cavo e amarga chuva,

Sob a lívida lua, eu tenho de aguardar

O novo natal da flor de açafrão.

 

 

 

Ninguém o fará.

 

 

 

E ninguém regressará.

As constelações rodam para ocidente

E para ocidente, a lua relutante.

Ninguém derrubará as barreiras firmes,

Ninguém escancarará as portas

E ninguém regressará.

Para ocidente, a lua.

 

 

 

Habitante das fontes,

Da erva núbil e dos palácios em ruínas,

Eu pondero os ventos e a chuva fria!

 

 

 

 

*

 

 

Notas: 

 

Obra Poética de Tomaz Kim aqui

 

Cadernos de Poesia aqui

 

Fundada por Tomaz Kim, José Blanc de Portugal e Ruy Cinatti, a revista “Cadernos de Poesia” teve publicação intermitente, em três séries e quinze números, nos anos 1940-42, 1951 e 1952-53, revelando alguns dos poetas portugueses mais marcantes da segunda metade do século XX: além dos fundadores, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen e Eugénio de Andrade.

 

 

David Wright aqui 

 

 

 

Veja também neste blog os posts:

 

 

Exercícios Temporais

 

Tempo de Amor

 

Amigos (1950)

  

Cozinha do mundo português

 

 

 

 

 


12.9.15

 

 

fotografias de João D' Korth

 

 

 

 

img057 - Version 2

img344 copy

img058 - Version 2

img714 copy

img724 copy

img706

img707 copy

img708 copy

img392

 

 

 

img064 - Version 2

 

 

 

Álbum Vintage Maroc no Flickr

 

 

continua...

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 12:13  comentar

11.9.15

 

 

fotografias de João D' Korth

 

img052

 

 

 

img051

 

 

img049

 

 

 

img052 - Version 2

 

 

 

 

img053 - Version 2

 

 

 

Maroc img 232

 

 

 

img048

 

 

 

 

img046

 

 

Álbum Vintage Maroc no Flickr

 

 

continua... 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 16:42  comentar

9.9.15

 

syria_battlelines.jpg

 

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

O bom e o bonito

 

 

 

Amigo entendido em política e em Europa mandou-me dizer que, sem desculpar o egoísmo de alguns governos europeus, “convém lembrar as declarações xenófobas e racistas do leader das sondagens do partido republicano na grande democracia norte americana (o “nosso” Orban nunca disse dos refugiados ou dos ciganos o que aquele palhaço diz dos mexicanos…) ou as valas comuns para onde na Malásia foram atirados e escondidos os imigrantes ilegais que ao chegarem a terra firme foram sumariamente assassinados. Como diria o outro: as coisas são o que são. Mas isso não é desculpa para que não tentemos mudá-las”.

 

De acordo mas, antes de lá voltar, a Malásia lembrou-me a Birmânia (agora Myanmar onde resiste, hoje em liberdade, a Senhora Aung San Suu Kyi, comparada a Mandela como símbolo de resistência democrática) onde a maioria budista atormenta pequena minoria muçulmana, maltratada e impedida de emigrar, vítima de constantes sevícias, infligidas por gente que nos habituamos de pequenos a ouvir descrever como pacífica e serena, numa espécie de superioridade espiritual que o budismo daria. Para aprenderem a ser bons, hippies europeus e americanos iam passar temporadas por essas bandas. Tempo foi. Vinte e cinco anos depois do fim da Guerra Fria, talvez tenhamos percebido que, logo a seguir ao bom senso, a maldade é a coisa mais bem partilhada do mundo.

 

Na Europa, há sobressalto geral perante, por um lado, a fotografia do menino curdo morto que deu à costa na Turquia, publicada nas primeiras páginas da imprensa europeia (mas em França, entre os grandes jornais, só em Le Monde – a maioria dos franceses acha que os refugiados não precisam de mais ajuda) e a decisão de Angela Merkel de exercer a chefia que se lhe pedia, com coração e cabeça melhores do que muitos julgavam que ela tivesse – e, por outro lado, o escandaloso tratamento dado aos refugiados na Hungria, onde, entre outras gentilezas, o governo de Vitor Orban os impede de apanhar comboios para a Alemanha. Alguns políticos europeus querem ostracizar a Hungria; outros não.

 

Europeus e norte-americanos têm enorme culpa desta desgraça. O grosso da tragédia vem da Síria onde o Ocidente, há anos incapaz quer de derrubar Assad quer de negociar com ele, deixou o Estado Islâmico medrar, prometeu ajudas e faltou, deu o dito por não dito, perdeu a face, suspendeu ajuda humanitária. Antes, com pretexto mentiroso que enganara muita gente e execução de incompetência abissal, lançara desordem mortífera no Iraque cujas consequências duram. E atacou a Líbia que, sem Khadafi, se transformou num entreposto de emigração clandestina.

 

Há quem se assuste por o Estado Islâmico ir metendo gente na Europa. O problema é mais grave. Sunismo salafita promovido e apoiado pela Arábia Saudita torna entendimento entre muçulmanos e o resto muito difícil em estados laicos como os nossos que ofendem intolerância islâmica. (Até na monarquia britânica, onde a Rainha é também chefe da Igreja Anglicana). 

 

 

   

link do postPor VF, às 10:09  comentar

2.9.15

 

 

AM Picture Getty.jpg

Angela Merkel (Getty)

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Deutschland über Alles (a bem)

 

  

 

Na Islândia - país com pouco mais de 300.000 habitantes que já quis candidatar-se à União Europeia e depois mudou de ideias - o governo anunciara estar pronto a receber 50 migrantes, dos milhares que este verão demandam a Europa, mas onda de indignação generosa organizou o povo on line enquanto o Diabo esfrega um olho e há lá agora 10.000 ofertas de acolhimento. Há também muitas da Noruega e, dentro da União, a Suécia, apesar de renitência vistosa da sua nova direita, vem logo a seguir à Alemanha em disponibilidade – a grande distância, devido à escala: a Alemanha é o país mais populoso da Europa; os suecos são menos do que os portugueses.

 

No fundo da tabela da solidariedade estão alguns dos países dantes do lado da lá da Cortina de Ferro, dando a Hungria, proverbialmente xenófoba, mais nas vistas do que os outros por ter erguido muro de arame farpado na fronteira com a Sérvia e ter vedado nos últimos dias o acesso à estação central de caminho de ferro de Budapeste. Um mar de migrantes, famílias inteiras que, uma vez na Hungria, se preparavam para apanhar comboio para a Alemanha, pronta a receber quase um milhão e a não os devolver ao país pelo qual tenham entrado na União Europeia, confrontou a polícia na praça em frente da estação. Quando escrevo (terça-feira) por lá estão ainda. Imagens fortes nas televisões de todo o mundo, espelhando o egoísmo escandaloso dos europeus (Mauriac, mais uma vez: “Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a das pessoas sérias e é um horror”), egoísmo confortado pelos que sustentam, pimpões, que os europeus não têm obrigação de tratar de todos os males do mundo. (Creio que o primeiro a dizê-lo foi Michel Rocard). Também acho que não mas o problema não é esse. O problema é que a União Europeia não é, nem deveria ser, uma O.N.G. caritativa – é, ou deveria ser, um poder político.

 

Entretanto, o silêncio de Angela Merkel começava a ser ensurdecedor (pediam-lhe que mandasse na Europa mas como mandar, a seguir ao castigo da Grécia, sem evocar passo de ganso, cruzes gamadas, saudação nazi? Como ser Führer sem ser Hitler? Pediam-lhe também que mandasse nos seus mas era preciso sentir muito bem o vento para saber navegar com ele ou bolinar). Finalmente a Senhora decidiu-se, com bom coração e com boa cabeça - para além do que pareceria possível, deu à Europa a noção de que havia nesta um chefe. À evocação dos valores europeus - que explicita ou implicitamente incluem estado de direito, direitos do homem, decência cívica, solidariedade – juntou lembrança dos benefícios materiais trazidos pelos imigrantes aos países onde chegam (no caso do Velho Continente, mão de obra jovem que permita pagar pensões aos reformados).

 

É projecto político sine qua non para a Europa prosperar no mundo globalizado, meter respeito à Rússia, derrotar o Estado Islâmico e a sua insidiosa quinta coluna.

 

E para tornar a meter Montesquieu na calha. Ou Antero: “Razão, irmã do amor e da justiça”.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 18:39  comentar

pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
posts recentes
Blogs Portugal
contador sapo