27.3.15

 

 

My Years in Angola (1950-1970) 

Andries Peter van der Graaf

 

Other posts:

My Years in Angola (1950-1970)

My Years in Angola (3)

My Years in Angola (4)

My Years in Angola (5)

 

 

nestles-milk-banner

 

 

 

 

In the '50s, business with Nestlé was developing very well, for which we held the monopoly. At first condensed milk was the main product, then milk powder replaced it, as well as all sorts of baby food. We were not able to remain sole agent, in part as a result of pressure exerted by C.U.F. (Companhia União Fabril) on S.P.L. (Sociedade Produtos Lacteos).

 

 

 

 

 

 

 

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S.P.L. (Sociedade Produtos Lacteos)

 

 

For many years it was only possible to import milk products from Portugal (significantly more expensive than Dutch milk powder, for example) as no import licenses were issued for foreign milk. Later on, this situation changed. Only in later years was fresh milk available in the cities, and also sterilized milk, mainly from Cela.

 

 

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Cela, Angola c. 1960

 

Cela is a colony for white Portuguese settlers, situated in a highly fertile area of Central Angola, along the Cuvo River, most probably formerly a river bed.

 

 

12 Colonization project at Cela

 

 

Cela c.1960

 

 

A lot of money was squandered in Cela because things were done in a disorganized fashion (land planning took place when work had been on-going for over ten years, thousands of head of cattle were imported from Denmark and which were unable to adapt to the climate, colonists were recruited in Portugal more on the basis of connections than suitability). Still, it was an interesting project, to which we also contributed a good deal. One big client was the colonists' Cooperative, though unfortunately they were always short of cash, and couldn't pay their debts.

 

 


10 House of a colonist at Cela

 

Cela c.1960

 

Cooperation is not a strong point in the Portuguese. They are too individualistic for that, they say so themselves. The only Cooperative with which we had no financial problems was one in which the members were mostly Germans. Here and there in Angola there were some groups of Germans, among them the Mannhardt brothers, for example in Calulu, where they very successfully grew coffee.

 

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A.P. van der Graaf visiting a coffee plantation

 

8 With Dutch padre

 Kees, Betty and Joyce with Dutch Padre

 

Sometimes missionaries came to buy goods from us and I was invited by them to come and have a look at their mission services. These were at Dondi, some 80 miles from Nova Lisboa. It was a Protestant mission, "Congregational", American and Canadian. This was a big mission, providing teaching in a number of subjects including agriculture and other trades, as well as providing medical care, including a leper colony. It covered a large area, many brick buildings in which the various services, hospitals and workshops were housed. 

 

 

 

 

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Dondi Mission, Angola

 

Means School, 1950's

 Means School, Dondi, 1950's

 

 

 

What I remember best is the choir singing led by one of the American missionaries. The Bantu have an exceptional sensitivity to sound and rhythm, and the choir master had, I thought, brought them to a high level of performance.

 

Listen here to Angolan Umbundu music 

 

See here ruins of Dondi mission (Images of Angola - Noel Henderson-James, 2011)

 
 

 

... to be continued...

 

 

 

Andries Pieter van der Graaf

Jan/Feb 1974
Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

Album "Vintage Angola" on Flickr 

 

 

 

Notes:

 

Read post # 1:  My Years in Angola (1950-1970) here

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e disponibilizaram fotografias do espólio do autor.

 

Images and Photos:

NestléLeite Condensado

S.P.L.: Restos de Colecção

Means School, Dondi: Nancy Henderson-James

Music:

Angolan Umbundu Music: Nancy Henderson-James

 

 

 

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25.3.15

 

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Mapa da batalha de Waterloo 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Waterloo

 

 

 

De imprevisto, a palavra poderia significar retrete em estância termal, na fala de algum condado do centro de Inglaterra, por exemplo, mas não - era nome de aldeia, então no sul da Holanda, que saiu da insignificância porque Wellington lá pernoitou e estabelecera quartel-general na véspera da última batalha que Napoleão travou, a 18 de Junho de 1815. Napoleão pernoitara a alguns quilómetros, na Ferme du Caillou, perto da aldeia de Plancenoit, onde estabelecera o seu quartel-general. (A cama de campanha ainda lá está e mostra que o Imperador nascido na Córsega era realmente pequenino). Se Napoleão tivesse ganho – e como dizia sem domínio do português idiomático, sueca que conheci: “Foi pela unha de um preto…” - a história dir-nos-ia da batalha de Plancenoit e a União Europeia haveria sido fundada século e meio mais cedo. 124 anos depois desse fiasco, foi a vez de alemão nascido na Áustria tentar a sua sorte mas tampouco se saiu bem. Como, entre a primeira e a segunda tentativa, a revolução industrial florescera, mortandade e prejuízo material na Europa foram incomparavelmente maiores nos 6 anos da Segunda Guerra Mundial do que na década das campanhas napoleónicas. De maneira que, com cidades e campos arruinados, ajuda material americana voluntariosa e terror salutar de Tio Zé Estaline & Herdeiros, os europeus para cá da Cortina de Ferro meteram-se à terceira tentativa, ainda em curso, de União Europeia. Três diferenças graúdas - e ligadas entre si - a separam das duas tentativas anteriores: está a ser feita a bem e não a mal, com votos e não com balas; hoje, nenhuma potência europeia tem poder que, sozinho, contasse no mundo; França e Alemanha, inimigos históricos, juntaram-se para serem “o motor da Europa”. Nem sempre tudo vai de vento em popa: tanta paz torna-se irritante sobretudo para quem, macho ou fêmea, seja novo e esteja desempregado. Desenvolveu-se indústria, assim uma espécie de app, para culpar Bruxelas de todas as nossas desgraças e querer extrair das pátrias - como um minério - bem-aventuranças de que a União nos privou. Se a economia recuperar ao ponto de criar empregos – e é um grande Se - não há de ser nada. Se não recuperar…

 

A Bélgica que na altura da batalha não existia ainda mas que hoje dela recolhe fama e proveito, prepara festejos de arromba, incluindo restituição de partes da batalha. A seguir à vitória, o Príncipe de Orange fez erguer a colina cónica com o leão em cima que desfeou para sempre a paisagem e passou a ser emblema do lugar. Desde o começo o sítio foi adaptado para celebrar e festejar. O curioso é que celebra Napoleão. Wellington era muito alto mas o grande homem era o outro.

 

O primeiro centenário caiu durante a Grande Guerra e mal se deu por ele. O terceiro terá porventura a batalha revivida por robots. E lá mais para diante, viajando-se para traz no tempo, talvez Napoleão, Wellington, o cavalo Copenhague e o resto do pessoal tornem a dar um ar da sua graça à morne plaine .

 

 

Imagem: aqui

 

 

 

 

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20.3.15

 

 

A.P. van der Graaf

 

 

Andries Pieter van der Graaf (1909-1996) spent almost his entire professional career (1928-1970) with the Dutch company Zuid Afrikaans Handelshuis (ZAH). In 1950 he was posted to Angola to act as managing director of the Luanda Office. He served as Dutch Honorary Consul from 1952 till 1971.

 

It is with great pleasure that we present in Retrovisor excerpts from a memoir in which he tells about his experiences learning to run a Dutch trading company in Angola in colonial times and his fascination with the country and its peoples.

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

 

 * * *

 

 

I visited Angola for the first time in 1950. ZAH (Zuid Afrikaans Handelshuis) had two offices there, one in Luanda, the other in Nova Lisboa. The area covered by the Nova Lisboa office was mostly that along the Benguela Railway: a section from the coast to the border with the Belgian Congo (Katanga). The purpose of my stay in Nova Lisboa was to familiarize myself with the activities that the business had in Africa. Luanda always brought in good year-end results, but paid very little attention to the advice and instructions coming from Head Office, causing continued conflict.

 

 

 

Untitled

Zuid Afrikaans Handelshuis, Luanda c. 1960

 

 

 

The ZUID building in Nova Lisboa was a warehouse, mostly. Trade was mainly in foodstuffs, textile, construction materials, paint, small agricultural tools, general merchandise, and so on.

 

Massive square piles of cotton cloth were the first thing you saw. The cotton prints that attracted the greatest interest were the ones that had just arrived: "novidades". In the area around Nova Lisboa, "pintados" ("blue print"), originally from Germany (Fritz Becker), were still in general use, and worn by both men and women. It was dark blue material with white lines or spotted patterns.

 

Casa Holandesa

 

 

Casa Holandesa

 

 

Sometimes business contacts arrived from the interior with elephant tusks. Their weight varied from 10 to 40 kg, sometimes even more. Consignments were made up and eventually shipped to Holland, where there was always a great deal of interest in these tusks. The tusks were mainly used to make billiard balls. Other products from the upper plateau which were exported by ZUID were beans, castor seed, manioc (cassava, Portuguese: crueira) and sesame seed; and from the river basins: palm nuts, palm oil; also Arabica coffee, as opposed to Robusta, which was practically the only kind of coffee grown in the north of Angola.

 

 

 

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 Map of Angola c. 1960

 

 

 

During the eight months I spent in Nova Lisboa, I made a number of trips to the coast. In the rainy season, these trips often had to be postponed, as the road was poor, and very little was done about this, as the Railways, who had a great say in the matter, felt that good road connections would harm the railway's interests.

 

7 Ferry across the Quanza

 

Ferry across the Cuanza

 

 

On the road from Sá da Bandeira (formerly "Lubango") to Moçamedes, I saw groups of zebra grazing near the road, and further off, herds of springbok, leaping to get out of the way. There are very few springbok left nowadays. The Portuguese name for them is "cabra de leque." "Leque" means "fan," and when alarmed, the hair on their backs stands up on end.

 

 

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 Cabra de Leque

 

 

Benguela itself still had the appearance of an old slave town, with the old walled enclosures still there, where the slaves were kept after their arrival from the interior until being shipped away. Other than that, the most striking things were the red-colored earth and the orange blossoms of the acacia rubra (flame tree).

 

 

Nova Lisboa, Angola 1960

 Nova Lisboa c. 1960

 

 

 

 

 

Benguela

 Benguela, c. 1960

 

 

I remember that one morning, a young native man who always travelled with us to help with the bags, told me that "the rain had rained during the night." This was the first time I had come across the typically Bantu personification of natural phenomena.

 

 ... to be continued... 

 

 

Andries Pieter van der Graaf

Jan/Feb 1974

Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

Other posts:

My Years in Angola (2)

My Years in Angola (3)

My Years in Angola (4)

My Years in Angola (5)

 

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

 

Album "Vintage Angola" on Flickr 

 

 

Notes:

Map of Angola: Veteranos da Guerra do Ultramar

Nova Lisboa and Benguela: Tempo Caminhado 

 

 


18.3.15

 

 

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 O rapto de Europa, Ticiano, 1628-1629

 

 

 

  

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In real time e sem anestesia

 

 

Coube-nos na roda da sorte assistir à decadência da Europa e, se não tomarmos juízo depressa, caberá pior aos nossos filhos, filhas, netas e netos. Claro que denunciar decadência da civilização ocidental é prática tão antiga quanto a própria civilização, começando na Grécia clássica, continuando em Roma, tocando teólogos medievais, enciclopedistas, monárquicos chocados pela presunção de Saint-Just (“de agora em diante, a felicidade é possível”), anti-darwinistas no século XIX e - no Bible Belt do Sul dos Estados Unidos - no século XXI. De Doutores da Igreja a doutores da mula ruça, passando por amigos de Fräu Tichbein em Emílio e os Detectives, convencidos de que no tempo deles “o céu era mais azul e as cabeças dos bois eram maiores”, toda a gente molhou a sopa. E a ascensão continuou.

 

Desta vez é diferente. Se a malta não se põe a pau (traduzo livremente, do grego demótico, exortação de um ministro do Syriza) a decadência corre o risco de ser definitiva. Mais de meio século seguido de paz, duração inédita na história da Europa, convenceu-nos de que não precisamos de nos armar. Ora tal só aconteceu porque a confrontação entre duas superpotências nucleares responsáveis, os Estados Unidos e a União Soviética, mantinha franceses e alemães e outros antigos inimigos com o freio nos dentes e, se alguém de fora quisesse atacar, Washington, deste lado, e Moscovo, do outro, saberiam mete-los na ordem.

 

Mas a União Soviética acabou. Os Estados Unidos acharam que deveriam olhar menos pelo mundo e a União Europeia foi apanhada nessa volta. Nós, os europeus, estamos convencidos de que, por querermos paz, ninguém quererá atacar-nos. Ora, primeiro, nós não queremos paz – queremos é que nos deixem em paz. E, segundo se, durante a Guerra Fria, a protecção americana fez com que ninguém se metesse connosco, nos tempos que correm as coisas não serão certamente tão simples.

 

Em custos de defesa, a partilha do fardo transatlântico tornou-se ainda mais desigual: os Estados Unidos arcam agora com 70% dos seus custos. Em Setembro passado, em cimeira no País de Gales, os aliados europeus comprometeram-se solenemente a dedicarem - como deveriam – 2% do seu PIB a despesas de defesa. Vários deles estão muito abaixo; o único que lá chegou foi a Estónia. Pior: enquanto França e Reino Unido, os dois grandes poderes militares da União Europeia, se mantinham há anos muito perto dos 2% (por boas e más razões, a Alemanha gasta muito menos e muito mal), Londres anunciou agora reduções substanciais, alarmando os seus militares e Washington.

 

A decisão no País de Gales fora tomada porque Putin, que invadira a Geórgia em 2008, dava mais sinais de perigo. Entretanto, anexou a Crimeia, acicata a guerra civil na Ucrânia – e, vendo que a fibra da Europa em vez de enrijar continua bamba, olha para nós à espera. O pai do meu amigo Henrique, grande caçador, dizia: “A gente, quando vê o coelho, não o mata logo”. Nessa está Vladimir Vladimirovitch.

 

 

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11.3.15

 

 

 

Bentiu, UNMISS Camp.jpg

 Bentiu, UNMISS camp

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Em terras do Preste João

 

 

Sexta-feira passada, em Adis Abeba, sede da União Africana, capital da Etiópia (onde há muitos séculos reinou Preste João, rei cristão que os nossos navegadores esperaram em vão encontrar) conversações de paz entre governo e rebeldes do Sudão do Sul, o mais jovem país independente do mundo, acabaram sem acordo, apesar de terem sido prorrogadas de um dia – declarou num comunicado o primeiro-ministro etíope, Hailemariam Desalegn, lamentando não ter sido possível tirar as duas partes do desentendimento onde se tinham metido quanto a: justiça durante a transição, partilha do poder e segurança. Três dias antes, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adoptara por unanimidade resolução impondo sanções a qualquer das partes que prejudicasse esforços de restauração da paz no Sudão do Sul mas não fora ao ponto de proibir compra de armas pelas facções em guerra: a tribo Dinka, leal ao presidente Salva Kir e a tribo Nuer, fiel ao antigo vice-presidente Riek Machar, que juntas fazem mais de 50% da população do país. (Percebe-se que o Conselho de Segurança não tenha tocado no comércio de armas: os seus cinco membros permanentes – China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia – são grandes exportadores de armamento e já têm razões de sobra para se desentenderem).

 

Muito antes das achegas tecnológicas e cosmopolitas – armas automáticas; assento na Assembleia Geral das Nações Unidas – Dinkas e Nuers, andavam nus, não sabiam ler, pastoreavam bois e batiam-se muitas vezes uns contra aos outros à lançada. Assim os encontraram os ingleses que trouxeram administradores, negociantes, missionários e mais espingardas (as primeiras tinham chegado com os árabes); continuaram a bater-se sob governo de Cartum no Sudão independente e agora, que o feitiço do petróleo e teimosia metafísica cristã ou animista levaram o sul à independência, depois de mais de 20 anos de guerra civil – o Sudão “do norte” é muçulmano – à bulha permanecem. Até agora colonização e globalização não tocaram muito em valores e crenças (a religião Nuer, de resto, não fica atrás dos Evangelhos e dos doutores da Igreja em profundidade e sofisticação) mas morre muito mais gente dum lado e doutro. E há milhares e milhares refugiados.

 

O Sudão do Sul é longe da Europa mas pelo meio não há muitos oásis de paz. Não é só porque da paz não veem notícias. Se se pintarem num mapa lugares de conflito aberto ver-se-á como estes abundam e persistem ou, quando acabam, deixam chagas ruins de sarar (para eles não há, como houve para a Europa ocidental a seguir a 1945, nem Plano Marshall nem OTAN, a seguir a resultado indiscutível).

 

Alguns são perto demais para ficarmos no nosso conforto irresponsável (Ucrânia malferida por Putin; atrocidades do Califado no Médio Oriente). Os europeus têm de passar a gastar mais em defesa, de se reforçar na OTAN e, até terem uma política de defesa comum, de reestabelecerem, todos eles, serviço militar obrigatório. Para começar.

 

 

Imagem aqui 

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4.3.15

 

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José Cutileiro.jpg

 

 

 

Duas citações ao almoço e três ao jantar

 

 

 

O pai tinha ido passar um par de semanas a Madrid, na clínica do Dr. Lopez Ibor, psiquiatra reputado (e membro do Conselho Privado do Conde de Barcelona); a mãe fora com ele não sei se por conveniência clínica se por estratégia matrimonial; não me lembro do que fizeram os meus irmãos nem se a casa de Lisboa foi fechada (a idade não perdoa…); eu fiquei aboletado em casa de amigos.

 

Nesse tempo comia-se em casa. Dois dias depois da minha chegada o tio Clarimundo, pater famílias que presidia a mesa, proibiu-me de fazer mais de duas citações ao almoço e três ao jantar. Nunca mais me esqueci porque, até nesta idade — que dantes se considerava avançada — a tentação de citar continua a ser grande. Não, como às vezes supõem os desmemoriados, por pedantismo de bom aluno a querer fazer boa figura mas para facilitar conversa e discussão. O recurso à memória é muito tentador porque, ao longo dos séculos, houve gente que disse, numa das línguas que eu conheço, muito melhor do que eu alguma vez seria capaz, coisas que me apetece dizer por virem a propósito e acertarem em cheio no alvo visado — e as suas formulações grudaram-se-me à cabeça.

 

Nasci com memória como nasci canhoto e de olhos castanhos: é dom sem mérito moral (se tivesse nascido nas classes menos favorecidas talvez tivesse arranjado trabalho num circo), se não faz de mim um Apolo tampouco de mim faz um Quasimodo, mas reconheço duas razões que recomendam limites ao seu abuso público. Uma é pôr limites a caracter maníaco que às vezes tome. Eça de Queiroz contou de amigo tão escrupuloso na atribuição de fontes que chegava a dizer: “Na frase de Carlos Valbom: Estou triste”. A outra é tentar manter boas maneiras. É mal-educado querer parecer mais culto, mais inteligente, mais lido do que os outros ou as outras com quem se esteja a conversar, quer cara a cara e bafo a bafo, como era a prática, quer ao telefone ou das muitas outras maneiras que a modernidade vem pondo ao nosso alcance (uma das razões que torna às vezes tão difícil convívio com a gente muito competitiva que abunda no nosso mundo pós-moderno).

 

Seja como for, isto da memória tem que se lhe diga. A velho amigo meu, colega perguntara na Faculdade: “Tu estudas Medicina Legal compreendendo ou empinando?” A dicotomia não é tão tonta quanto possa parecer. As pessoas mais inteligentes com quem privo são quase todas, como uma delas gosta de dizer, “Alzeimerizadas de nascença”. Se essa maciça falta de memória lhes trouxe esforços suplementares quando as meteram na linha de montagem da educação – o Sistema Galaico-Duriense, os Reis de Portugal, etc., etc. – trouxe-lhes também enormes benefícios de agilidade mental pois não lhes sendo dado, como diria o colega do meu amigo, “empinar raciocínios”, foi em exercícios permanentes que desenvolveram a gramática intelectual precisa para confrontar o mundo.

 

NB  Chamara-lhe “O Bey de Tunis”, não me lembro porquê. Fui escrevendo, saiu isto e mudei o nome.

 

 

 

 

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