25.2.15

 

 

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L'inverno (1569), Giuseppe Arcimboldo

 

 

 

 

 

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O fim da picada?

 

 

Angela Merkel, levando à ilharga François Hollande – o eixo franco-alemão redime Berlim de crimes imperdoáveis – viu as coisas mais de cima do que os seus contabilistas, pôs a mão por baixo de Tsipras, a Grécia não saiu do euro e ainda não foi agora que a construção europeia se desmoronou.

 

Por um triz. Nacionalismos antigos estalaram o verniz fresco da Casa Europeia. Para os alemães, a Grécia reduziu-se a dois séculos de aldrabices (em meados do século XIX desconfiava-se na Europa do teor de moedas de ouro cunhadas por Atenas); para os gregos, a Alemanha reduziu-se ao horror nazi (na Primavera de 1944, escritor berlinense foi denunciado, julgado e decapitado por ‘propósitos derrotistas’ e a viúva recebeu conta de 585 marcos para pagamento das despesas). Agora, inexperiência, má criação e má-fé do novo governo grego, e inabalável curteza de vistas dos burocratas financeiros alemães (recusando-se a perceber que a dívida grega explodiu devido a medidas mal pensadas impostas pela troika; que sem o fim da austeridade não haverá recuperação – para sair de um buraco a primeira coisa a fazer é parar de cavar – e que a dívida grega deverá ipso facto ser revista) animam falso combate entre Norte virtuoso e Sul pecador da Europa. Esperemos que nos próximos meses a obstinação insensata alemã se atenue e os gregos provem que passaram a ser de fiar.

 

Infelizmente esta bulha não é confortada por qualquer visão estratégica da União, porque tal visão não existe. A vontade de defender a Pátria e os orçamentos de defesa mirram de ano para ano. A Sudeste, as barbaridades do Califado – ou estado islâmico do Iraque e da Síria – alarmam os europeus por medo de terrorismo praticado por cá, levam a alguma coordenação policial mas não a medidas de uma Europa que quisesse e soubesse defender os seus interesses e gerir zangas internas sem se enfraquecer.

 

E a Leste é pior ainda. Desde o fim da União Soviética, o Ocidente esqueceu-se da Rússia, esperando que os russos quisessem vir a ser como nós – estado de direito, direitos humanos, respeito pelos vizinhos. Não o quiseram e hoje, sob a égide ávida de grandeza Imperial de Putin (que alguns entre nós admiram) a Rússia ameaça a nossa segurança. A Ucrânia está ser despedaçada: o eixo franco-alemão insiste em Minsk que só pode haver solução política e entretanto a Rússia estabelece militarmente as partes dessa solução que lhe convêm. Em 2008, Geórgia; no ano passado, Crimeia; uma vez o resto da Ucrânia fatiado sem que ninguém lhe trave o passo, talvez a Rússia se vire contra um dos bálticos (a pretexto de proteger minoria russa), apostada em que a OTAN não lhe bata de volta. Os Aliados, com Washington, Londres, Paris, Berlim e Varsóvia à frente, deveriam lembrar ao Kremlin que o artigo 5 do Tratado de Washington (ataque a um é ataque a todos) não foi abrogado.

 

Havia mais sagacidade nos antigos do que na nossa correcção política bem pensante. Se queres paz, prepara guerra, diziam.

 

 

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18.2.15

 

 

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 Foto Sonda Cassini

 

 

 

 

 

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Agora e na hora da nossa morte

 

 

António Alçada Baptista travou-me o braço e disse-me enquanto atravessávamos o foyer do teatro Maria Matos onde nessa tarde havia uma recepção: “Estou a escrever um livro porreirinho sobre Deus”. Eu chegara de Oxford uma hora antes para meia dúzia de dias na Pátria, não nos víamos há meses e assim recebi anúncio da Peregrinação Interior. Da boca do cavalo, dir-se-ia em inglês.

 

Tempo mais simples do que o nosso de hoje. Três séculos intensos de zaragatas europeias tinham acabado em muitos lugares por separar a Igreja do Estado; blasfémia era pecado mas deixara de ser crime. A fé de cada um - como os gostos de cada um - não se discutia. O nazismo fora derrotado e destruído; o comunismo estava cantonado até que o seu próprio peso o fizesse desmoronar. Na Europa Ocidental vingavam decência entre governantes e governados e comedimento na partilha do latifúndio, inéditos na história.

 

O Portugal de O Tempo e o Modo esperava pelo 25 de Abril e o Deus do António era o Deus hebraico de Abraão, Isaac e Jacob, mais tarde também de Jesus Cristo e, mais tarde ainda, de Abu Al Cassem Ben Abdalá Ben Al Mutalibe (Maomé significaria O Glorificado). Os estragos feitos ao longo da história pelo monoteísmo começavam a ser esquecidos em ambiente que André Malraux apreendera bem: “Somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem”.

 

Éramos. Talvez ainda se escrevam livros porreirinhos sobre Deus, nos quais a leitora encontre apreciação da vida, benevolência e tolerância, longe de polémicas teológicas – longe, na aparência, de qualquer teologia. Mas onde hoje mais ouvimos falar de Deus, é nos feitos do Estado Islâmico do Iraque e da Síria ou de Boko Haram na Nigéria, um Deus antropomórfico, primitivo, cruel, sangrento, cujos fiéis oferecem à outra gente conversão ou morte – ou começam matando, se mais jeito der. Nova Iorque, Washington, Londres, Madrid, Paris, Copenhague – a procissão ainda vai no adro. E, em partes da cristandade – por exemplo, na Rússia – igrejas opressivas recuperam poder temporal.

 

Entretanto, a ciência vai mudando o conhecimento do mundo de maneiras tão inesperadas e com tal rapidez que o presente – e não apenas o passado – às vezes é como se fosse país estrangeiro, com língua e hábitos diferentes dos nossos. Mudanças de paradigma sucedem-se em cascata. E a passagem de novas teorias, intuições, palpites, de mentes científicas para entusiasmos leigos faz-se num momento e sem filtro, devido à panóplia de meios de comunicação hoje ao dispor de cada um.

 

Nesta mistura adúltera de tudo, diz-me amigo entendido em coisas americanas, lá quase todos os movimentos feministas debatem o género da divindade, ao ponto de usarem o feminino nas orações. E que Deus seja um robot, nem macho nem fêmea, dados os progressos em inteligência artificial, etc., será decerto sugerido um dia destes. Separando de uma penada o físico do moral; o que é do que deveria ser. Até à guinada seguinte…

 

 

 

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11.2.15

 

baptismo de Kiev 1.jpg S. Vladimiro baptizando os russos em Kiev

 

 

 

 

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Nem paz nem guerra

 

 

Houvesse a União Soviética durado mais dez anos, a viagem da construção europeia teria continuado sem os equívocos do euro (posto em marcha antes de tempo por visionários seguros dos bois alcançarem depois o carro – por não perceberem que, acabado o medo de Moscovo, deixara de haver espora no flanco do esforço comum); sem explosão de nacionalismos centrífugos e sem termos de pagar excesso de bagagem pela reunificação alemã (quando esta por fim chegasse, a Europa seria já tão forte que quase nem daria por isso).

 

Mas a U. R. S. S. não durou. Tornámos a dar connosco confrontados com a questão do lugar da Alemanha na Europa (tão incómoda desde a primeira reunificação alemã que, no século passado, deu duas guerras mundiais; que, no fim da segunda, conselheiro do presidente americano Roosevelt propusera que se transformasse a Alemanha em país apenas agrícola; e que hoje, encaroçada com fé de aiatola em austeridade ruinosa para a economia e a política europeias, Berlim acelera a diminuição do poder europeu no mundo).

 

Sem inimigo exterior forte e decidido (como foi a União Soviética durante a Guerra Fria),os europeus da União — com mais de mil e duzentos anos de guerras e más vontades desde a coroação de Carlos Magno em Aix-La-Chapelle (Aachen em alemão) em 800 A.D. — parecem, muitos deles, mais inclinados a irem cada um para seu lado do que a meterem ombro à roda de todos. Recomeçaram a reparar nas maldades dos parceiros e parecem ter esquecido as dos antigos inimigos. Para vários partidos de extrema-direita na Europa, Putin dá exemplo a seguir e não desmando a evitar: o Front National de Marine Le Pen tem preferido bancos russos a franceses; o húngaro Victor Orban faz a apologia de regimes autoritários como o russo e o turco; na Grécia o partido de extrema-esquerda Siriza foi buscar à direita nacionalista e xenófoba parceiro para governar. Não se trata de quintas colunas; a Guerra Fria não vai voltar porque era uma guerra santa, entre duas crenças, e uma das crenças deixou de ter fiéis. Mas o tripé onde assenta a nossa democracia – separação da igreja do estado, estado de direito, respeito pelos direitos humanos – está a ser atacado de vários lados e, os nossos filhos e netos, habituados, no seu mundo sem fome e sem guerra, a considerarem esse tripé parte da ordem natural das coisas (e não o que ele é: invenção humana recente, constantemente ameaçada) se não dobrarem vigilância, arriscam-se a perder o luxo de civismo e decência ganho na Europa ocidental desde 1945 e em toda a Europa para cá da Rússia desde 1990.

 

Tirando em fundamentos que não são para aqui chamados — Há ou não há Deus? Que fazemos por cá? — sabe-se hoje mais de tudo, na hora e em toda a parte, do que alguma vez se soube. Mas não ajuda. Do Kremlin, Vladimir Vladimirovic vai fazendo Anchlüss, tomando Sudetas, qualquer dia invade um Báltico — e nós continuaremos a dizer que o problema só terá solução política e Deus nos livre de dar armas a Kiev.

 

 

 

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4.2.15

 

 

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Évora-Monte, berço do Portugal moderno

 

 

 

 

 

 

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Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico

 

 

Numa taberna grega, o ambiente é tenso e competitivo, com zaragatas à flor da pele. Numa taberna portuguesa vigora camaradagem: se dois fregueses brigam, os outros, em vez de tomarem partido, metem-se a separá-los.

 

A Grécia moderna começou em 1830, arrancando-se ao Império Otomano com ajuda de brigada romântica internacional (Lord Byron morreu lá); importou para rei um príncipe alemão (cujo descendente foi corrido do trono com a junta dos coronéis em 1974); a seguir à Primeira Guerra Mundial más relações com a Turquia deram limpeza étnica; a seguir à Segunda, guerra civil violenta — ganha à justa e ainda hoje razão de ódios — fê-la entrar para a OTAN e não para o Pacto de Varsóvia.

 

O Portugal moderno começou em 1834, na Convenção de Évora Monte (mas com 7 séculos atrás, lembrados de mãe para filha) que pôs termo a guerra civil, vivida à portuguesa. Em Lamego as forças vivas houveram-se de maneira a que nem liberais nem miguelistas locais fossem mal tratados, estivesse quem estivesse na mó de cima no país. Em Monsaraz, miguelista até ao fim, a seguir à Convenção a Câmara escreveu à Rainha D. Maria II protestando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fieis”. Em 1965, proprietário alentejano a quem perguntei como eram as relações com o governo de Lisboa durante a República respondeu-me: “Isto, senhor doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. Só depois de democrata, em 1976, Portugal foi autorizado a candidatar-se às Comunidades Europeias mas assinámos o Pacto do Atlântico em 1949. Com coisas sérias não se brinca.

 

Ao contrário dos gregos — e talvez dos espanhóis que armaram, entre 1936 e 1939, guerra civil assanhada — não vamos eleger demagogos de extrema-esquerda para governo. Nem de extrema-direita: escapámos-lhes agora apesar de austeridade e muito estrangeiro por cá e, há quarenta anos, apesar de mais de meio milhão de retornados. O acolhimento aos retornados foi momento alto da nossa história; a aceitação da austeridade imposta pela Alemanha, um dos mais baixos. A sua moralidade é um embuste e, se Berlim não der por isso a tempo, a Alemanha conseguirá o que não lograra duas vezes no século XX: destruir a Europa.

 

Com Aliado na OTAN em apuros, Barrack Obama deu aviso à navegação. A Grécia tem de mudar muita coisa mas é difícil quando o nível de vida baixou 25%. A longo prazo sociedade e sistema político não aguentarão. A melhor maneira de reduzir défices é obter crescimento.

 

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro há mais de meio século ajudou-me a perceber o país, bem como Ensaios Etnológicos de Jorge Dias e Structure and Growth of the Portuguese Economy de Xavier Pintado. Muitas coisas mudaram mas muitas mais estão na mesma.

 

A Grécia clássica inventou a filosofia. Certo. E há muitos anos, numa taberna de Campo de Ourique, ouvi um bêbado perguntar a outro: “Eu só quero que você me diga uma coisa: merda é verbo?”

 

 

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