31.12.14

 

 

 

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A noite europeia

 

 

 

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Bom 2015

 

 

Quando um pobre come galinha um dos dois está doente – sabedoria do Alentejo nos tempos do meu pai e do pai dele. No meu tempo apareceram os frangos de aviário, tão prezados no começo que depois de cozinhados as estalajadeiras os vendiam mais caros do que se fossem criação do campo. No tempo do meu filho, ciência com ardores impiedosos de fé havia ganho as almas e os frangos de ar livre tornaram outra vez a ser manjar de rico, ficando os de aviário para a arraia-miúda – no Alentejo como em toda a parte. (Frangos doentes passaram a ser destruídos na origem.)

 

Entretanto, nos Estados Unidos e na Europa, desregulamento progressivo da finança permitiu a esta ir-se apoderando da indústria, valorizando cada vez mais o lucro e valorizando cada vez menos o trabalho; em 2008 o cântaro que tantas vezes tinha ido à fonte partiu-se e o Ocidente entrou em crise; para o tirar do buraco, do lado de lá do Atlântico Norte estimulou-se a economia, o banco central levou a peito baixar o desemprego e hoje, em prosperidade, os Estados Unidos (tendo-se de caminho metido a produzir gás de xisto) vão à frente dos outros poderes do mundo como a lebre de uma corrida de galgos. Na Europa escolheu-se a austeridade e o banco central europeu tem como único encargo estatutário a inflação (apesar de Mario Draghi, mesmo aporrinhado pelos alemães, ter dito que faria o que fosse preciso – what it takes – para salvar o euro). A emenda foi pior do que o soneto. Não há meio de se sair do buraco e, entretanto, talvez empresa de private equity, bem alavancada, veja futuro na venda ao desbarato de frangos doentes aos pobres.

 

A recuperação económica do mundo é atrasada pela inépcia da Europa – que não tem outra força para se impor de maneira diferente. Cresceu em paz no casulo da Guerra Fria, profilaticamente protegida do mal de fora pelo arsenal nuclear americano e do mal de dentro por medo salutar de Estaline. Depois do colapso da União Soviética passou a gastar muito menos em defesa do que o pouco que já gastava e europeus convictos julgaram que iam pregar ao mundo a paz perfeita. Chão que nem uvas deu. O que hoje se vê à roda, em estepes da Ucrânia, oásis da Mesopotâmia, deltas da Birmânia, é, sim, guerra perpétua, só dominável com guerra ou ameaça de guerra. Ora na Europa só França e Reino Unido têm capacidade militar que não envergonhe patriotas e, se as armas são fracas, os corações são mais fracos ainda. Diz directora de escola internacional em Bruxelas: “O nosso propósito deveria ser instilar nas crianças adaptabilidade e flexibilidade”. Em tal bolha de relativismo, a coragem, a integridade, a capacidade de topar quem fale barato, parecem ter valor menor.

 

Guerras – hoje coisas más – eram populares. Bisavó de amiga minha alentejana dizia que de vez em quando era preciso uma “para desquintar o pessoal”. Se não formos capazes de impedir que as façam contra nós, ao menos que as saibamos ganhar. Senão a papa doce acaba mesmo.

 

Ano Novo Feliz.

 

 

Imagem aqui

 

 

 

 

 


29.12.14

 

Romanceiro Capa 1.jpg

 

Romanceiro

Manuscrito do Autor

[autógrafo de Almeida Garrett]

 

 

 

A compra pelo Estado Português do espólio garrettiano designado por “Colecção Futscher Pereira” [1], anunciada pelo Secretário de Estado da Cultura no dia 18 de Dezembro, fecha um ciclo iniciado há dez anos pela descoberta, por minha irmã Cristina Futscher Pereira (1948-2005), de manuscritos inéditos de Almeida Garrett que contribuem de forma decisiva para o estudo do Romanceiro português.

 

Fica deste modo assegurada a ampla divulgação deste espólio, o maior desejo de Cristina, além da permanência dos autógrafos em Portugal, nas melhores condições [2]. Por fim, e também importante, com esta aquisição a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas valoriza aos olhos do público a recolha pioneira de Garrett de temas da nossa tradição oral. São relatos de eventos históricos e histórias de amor, transgressão e violência, de grande suspense e final incerto, que mantêm plena actualidade no século XXI.

 

Para a família, a colecção permanecerá ligada à memória de Cristina, de Venâncio Augusto Deslandes e de iniciativas e amizades inspiradas pelo Autor [3]. Entregamos estes papéis com muita satisfação e um bocadinho de nostalgia.

 

 

 

*

 

 

 

 Notas: 

 

1.  A Colecção engloba mais de 400 páginas manuscritas, grande parte delas inéditas, compreendidas no período de 1839 a 1853/54.

Artigo de Luís Miguel Queirós no Público sobre a aquisição da colecção pelo Estado Português. 

 

2.  “O espólio agora adquirido será objecto de um contrato de depósito na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, enriquecendo, desta forma, o já importante espólio garrettiano de que [a instituição] dispõe”, de acordo com o comunicado divulgado pelo Gabinete do Secretário de Estado da Cultura citado pela Agência Lusa.

Espólio Garrettiano da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra [Youtube] 

 

3.

-  Blog garrettiano O Divino , 2004-2005

 

-  A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

Edição oferecida pelo "Diário de Notícias" aos leitores no 140º aniversário do jornal, a 29 de Dezembro de 2004

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

- No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro [Ermitão] 

Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana

Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. 

 

- As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’ [Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários]

Sandra Boto

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

  

 

 

 

Sobre a Colecção Futscher Pereira e Venâncio Augusto Deslandes leia também aqui 

 

 

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25.12.14

 

 

Natal Anunciador.jpg  Anunciador simbólico da missa do galo

 

 

País de tão poéticas tradições natalícias como o nosso, em verdade, nada precisa de ir buscar à casa alheia, nem sequer o maçudo e empanturrante Bolo-Rei — o francês Gâteau des Rois  — nem de incutir na imaginação da infância, agora dotada de precoce discernimento, o mito dos saptinhos na chaminé. Dêm brinquedos às crianças, muitos brinquedos, mas eduquem-nas na compreensão de que só pelas graças do Menino Jesus é que os pais conseguiram os meios de lhos oferecer.

 

E depois de tudo isto, ainda um apelo final é de fazer. Não haverá por aí alguém que se disponha a cometer o belo crime de atacar a serrote a Árvore de Natal e a estafar de uma vez para sempre esse intruso e barbaçudo Pai-Natal da floresta germânica, de blusão e botifarras?

 

Que belos dias passados na prisão para expiar esse delito!

 

 

Francisco Lage

in "O Natal Português na Igreja, no Teatro, na Tradição, na Rua e na Família"

Panorama, nº 4, III série , Dezembro 1956

 

Foto: Mário Novais

 

 

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24.12.14

 

flight-into-egypt-1.jpg

 Fuga para o Egipto, Giotto 1311

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

Boas Festas

 

 

 

A quadra de presentes é propícia ao calibrar das posses de cada um e sente-se no ar um perfume de luta de classes de que não me lembrava há muito tempo (“consciência de classe que parecia adormecida”, escreve-me amiga em Portugal). Apesar de distracções na televisão, na telefonia, nos jornais, na internet, nas redes sociais - guerra sem quartel entre sunitas e xiitas; tropelias de Putin; aquecimento global provocado pelo homem (brinca, brincando, crescemos de dois mil para sete mil milhões em pouco mais de meio século: europeus, porém, somos cada vez menos); epidemias que resistem a remédios - mau viver insidioso alastra em cada vizinhança.

 

Como só más notícias se vendem – e compram – entram-nos desgraças pela casa dentro amanhadas “de cinco maneiras diferentes”, como os linguados do restaurante Sua Excelência quando o Queiroz recitava o menu. Contra mim falo, mas parece às vezes haver hoje mais comentadores do que coisas a comentar. Entretanto, espreguiçando-se estremunhada, a luta de classes que ninguém é capaz de definir mas em que muitos gostam de acreditar – um bocadinho assim como a Graça de Deus – arreganha os dentes. Já tínhamos passado por isso e eu julgava que o assunto estivesse arrumado. Nem pouco mais ou menos.

 

Os muito ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Muita gente na finança – banqueiros e para-banqueiros, grandes, médios e pequenos – tomou o freio nos dentes desde que a União Soviética colapsou e deixou de ter medo fosse do que fosse. Sem perceber que o fim do comunismo não fora a irradicação de uma doença mas sim o fracasso de um remédio – nunca é demais repeti-lo – abandonou o cuidado dos outros. Mas enquanto os Estados Unidos, arrancando com um programa de estímulo, saíram da crise que lá começara em 2008, a Europa, com a grilheta da austeridade a arrastar-lhe os pés, abeira-se da deflação. Irlanda, Grécia e Portugal devem mais do que deviam quando os programas de ajuda começaram - e nunca poderão pagar. Uma falsa convicção germânica de virtude obnubila responsáveis políticos e fá-los insistir no mau caminho.

 

Quando a economia, em vez de crescer, mirra, e os filhos vivem pior do que viveram os pais, os europeus, desabituados há muito tempo de tais desconfortos, tornam-se agressivos. Xenofobia pavoneia-se em França, na Alemanha, na Grã-Bretanha; protecionismo empobrece as nações. Quando não haja estrangeiros nem infiéis para bode expiatório avança a “luta de classes” - exemplo da tentação universal de fazer passar inveja por virtude - com tradição em Portugal, primeiro às escondidas da PIDE, depois posta ao léu pela Revolução dos Cravos. Esquecida a seguir – e lembrada agora.

 

A menos que os políticos entendam, percam medo da Alemanha, esqueçam austeridade e se metam a ajudar a economia com bom senso e coragem precisos, o que espera a Europa é - com vénia a Mestre António Garcia - uma broncalina do camandro ou uma Bernardette do caboz.

 

Boas Festas, mesmo assim.

 

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23.12.14

 

Natal consoada Panorama.jpg

 

 Aparador da Consoada

Composição do natural, de Francisco Lage*

 

 

Rabanadas da consoada  (Douro)

 

 

Pão de forma                          1

Ovos                                         6  a  8

Manteiga                                50  gramas

Açúcar                                    1  quilo

Canela                                    q.b.

 

 

Põe-se o açúcar a ferver com água suficiente e deixa-se tomar ponto de espadana.

 

Corta-se o pão às fatias finas, não se utilizando as dos topos. Batem-se os ovos e neles se mergulham as fatias até ficarem bem repassadas. Fritam-se logo a seguir na calda, a que se juntou a manteiga, até que os ovos que as emvolvem fiquem bem cozidos. Com uma escumadeira vão-se retirando as fatias e colocando numa travessa funda. Polvilham-se de canela e regam-se com o resto da calda em que se fritaram.

 

 

 

 *

 

 

Sonhos fofos

 

 

Ovos                                        6

Farinha                                  1  chávena

Manteiga                              60  gramas

Açúcar                                   90  gramas

Canela                                   q.b.

Sal                                          q.b.

Fermento em pó                1  colher de chá

Calda de açúcar                  q.b.

 

 

Põem-se a ferver o leite, a manteiga, o açúcar, a canela e o sal; levantando fervura vaza-se-lhe para dentro, de repente, a farinha e mexe-se até que fique enxuta e cozida.

 

Deixa-se então esfriar um pouco e juntam-se o fermento e os ovos, um a um, ligando-os muito bem com a massa. Amassa-se com a mão até ficar uma massa leve. Fritam-se colheradas desta massa em bastante óleo ou azeite fervente. As colheres devem ser de sobremesa e pequenas pois os sonhos crescem bastante enquanto se fritam.

 

Cobrem-se depois os sonhos com calda de açúcar não muito espessa e aromatizada com baunilha e servem-se frios.

 

 

 

M.A.M. [pseud. colectivo de Maria Adelina Monteiro Grillo e Margarida Futscher Pereira]

in Cozinha do mundo português [p. 661 e p.664] 

Porto: Livr. Tavares Martins, 1962

 

* Imagem: Foto Mário Novais

Revista Panorama, Número 4, III Série, Dezembro de 1956

in Caderno "O Natal Português" de Francisco Lage

 

 

 

 

FELIZ  NATAL 

 

 

 


22.12.14

 

Presépio Popular de Barcelos .jpg

 

Presépio popular de Barcelos

Panorama nº 24 - III Série - Dezembro de 1961

 

 

 

 

Associação Portugal à Mão aqui 

 

 

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21.12.14

 

Natal 1930 img912 - Version 2

Arminda D'Korth Brandão

Lisboa, Dezembro de 1930

Foto: M. Dinis

 

 

 

Foto gentilmente cedida por Henrique D'Korth Brandão, a quem muito agradecemos.

 

 

Em 2015 visitaremos o espólio fotográfico de João Christiano D'Korth (1893 - 1974) [irmão de Arminda D' Korth Brandão, na foto].

 

 

Nota:

para ampliar foto visite os meus álbuns no FLICKR aqui

 

  


19.12.14

 

 

 

Garrett desenho Júlio Gil.jpg

 

 

 

Protagonista e espectador de acon­tecimentos fundamentais na cul­tura, na política e na sociedade por­tuguesas, Garrett (1799-1854) viveu a transição do século XVIII para o século XIX, a viragem do Portugal velho para o Portugal novo. O exí­lio, o desempenho de funções diplo­máticas e outras actividades obrigaram-no a residir alguns anos na Inglaterra, na França e na Bélgica. Teve contacto directo com a vida social e política daqueles países e dos movimentos culturais de van­guarda.

 

Foi um dos principais colabora­dores de Mouzinho da Silveira na redacção e elaboração dos decretos para a reorganização das finanças públicas, da justiça, da divisão ad­ministrativa e que modificaram o sistema governativo. Pertence-lhe, também, uma das leis para a definição da propriedade literária e o direito de autor, contribuindo para a dignificação e independência da criação intelectual.

 

A modernidade começou, entre nós, com Garrett. As raízes da mo­derna poesia portuguesa, no enten­der de José Régio e depois de Óscar Lopes e António José Saraiva na História da Literatura Portuguesa, derivam da obra de Garrett. Prolongou-se até às gerações do Orpheu e da Presença. Sem o Gar­rett das Folhas Caídas não tería­mos João de Deus, nem António Nobre, nem Pascoais, toda a gran­de corrente lírica dos séculos XIX e XX , que retrata muito do comportamento do homem português.

 

Desde sempre o teatro ocupou lugar de relevo nas suas preocupa­ções. Quando Passos Manuel este­ve à frente do Governo (1836-1837) solicitou a intervenção de Garrett para renovar o teatro. Dois exem­plos: a colaboração para organizar o Conservatório e para construir um Teatro Nacional. Integraram-se nesta política cultural as peças que Garrett escreveu e onde recriou grandes ciclos da História de Por­tugal: a revolução de 1385, que res­tituiu a independência e levou ao trono o Mestre de Avis ( O Alfageme de Santarém ); a época dos Desco­brimentos, contemporânea do nas­cimento do teatro português ( Um Auto de Gil Vicente ); a perda da in­dependência em 1580, com 60 anos de ocupação espanhola ( Frei Luís de Sousa); e a governação pombali­na (A Sobrinha do Marquês).

 

Criou, igualmente, uma nova escrita nas Viagens na Minha Ter­ra. Atribuiu à palavra a nitidez do pensamento, a variedade do ritmo, uma arquitectura verbal em que a construção lógica se concilia numa expressão original. As Viagens na Minha Terra abriram caminho à língua e estilo de Eça de Queiroz. Do Carlos das Viagens resultou o Carlos de Uma Família Inglesa, de Júlio Diniz, e o Carlos d' Os Maias, de Eça de Queiroz, qualquer deles elegante, volúvel, sedutor. E não será difícil aproximar o Carlos das Viagens de outro Carlos também de Eça de Queiroz e da sua geração: Carlos Fradique Mendes, exemplo do homem requintado, medularmente europeu.

 

Entre nós, Garrett foi o primeiro a recolher o tesouro poético do povo português. Recuperou da tra­dição oral numerosas composições do Romanceiro, muitas das quais inéditas, conforme revela o DN, hoje, a propósito do espólio de Ve­nâncio Deslandes. Mas ainda lhe cabe um papel precursor nas áreas da etnografia, do folclore, dos estu­dos de antropologia. O que é preciso - salientou - é estudar as nossas pri­mitivas fontes poéticas, os romances em verso e as legendas em prosa, as fábulas e crenças velhas (...) no grande livro nacional, que é o Povo.

 

Lançou um movimento que se reflectiu até aos nossos dias. Cha­mou a atenção para os atentados à paisagem, aos monumentos, às bi­bliotecas e arquivos. Apesar dos aproveitamentos políticos, para al­gumas orientações do Integralismo Lusitano e do Salazarismo, Garrett iniciou a reabilitação e classifica­ção do património articulando as necessidades e interesses locais com a história, a geografia e o quotidiano, a fim de assegurar os fun­damentos da identidade do País.

 

Em tudo quanto fez Garrett, sem deixar de ser português, aproximou-se da Europa numa perspec­tiva aberta, dinâmica e plural, de sentido humanista.

 

 

António Valdemar

in [Garrett] "Um dos Precursores da Modernidade" 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

*

 

Imagem:

Desenho de Julio Gil  

Ilustração de Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett

Diário de Notícias, 24 de Janeiro de 1955

 

 

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17.12.14

 

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O cambista e sua mulher, Quentin Metsys 1514 

 

  

José Cutileiro.jpg

 

 

Coisas do bem e do mal

 

 

“A caricatura é o tributo que a mediocridade paga ao génio”. Assim abriu Oscar Wilde conferência a estudantes de Harvard que o esperavam, todos de fraque azul e girassol na lapela porque o repentista de Dublin tinha fama de se apresentar dessa maneira. Mas alguém o prevenira, viera de cinzento e sem girassol, e quem enfiou a carapuça foram os estudantes de Harvard.

 

Lembrei-me hoje do aforismo por ter sabido que os banqueiros holandeses, alarmados com a má reputação do ramo desde a crise de 2008 — má reputação reforçada por escândalos seguidos, alguns implicando cumplicidades de grandes bancos internacionais a fim de manipularem criminosamente taxas de câmbio, outros revelando desprezo completo de banqueiros e bancários pelos interesses de clientes e de accionistas, e todos pondo ganância de lucro à frente de obrigações morais ou deontológicas — decidiram submeter os praticantes da profissão (ou ofício, ou arte) à obrigação de prestarem juramento pelo qual se obrigam a não lesar clientes e accionistas por acção ou omissão (um pouco assim como o juramento hipocrático dos médicos): “Que Deus me ajude a manter e promover confiança no sector financeiro”, reza a certa altura. Por enquanto só prestaram juramento — perante Deus ou dando a palavra de honra — administradores e empregados de alto nível mas a partir do ano que vem será obrigatório para todo o pessoal. Na Holanda, os proponentes da medida estão convencidos de que esta terá efeito moralizante e ajudará a recuperar a confiança perdida na banca.(Pelo sim pelo não, o governo limitou bónus a 20% dos salários).

 

Nos principais centros financeiros da Europa — Frankfurt, Paris, Milão e, sobretudo, Londres — não há tanta fé no remédio receitado pelos bons prestamistas de Amsterdão. Nesses restantes lugares o protestantismo está diluído, muito misturado com outras confissões religiosas — ou com nenhumas — e é, ele próprio, menos rigoroso. A veia calvinista pura é mais exigente (em Genebra, um monumento soturno a Calvino — “homenagem dos seus concidadãos” — ilustra, para quem tivesse dúvidas, que não estamos neste mundo para nos divertirmos. Genebra não é nos Países Baixos mas foi lá que Calvino pontificou). Seremos salvos — ou não — pela Graça de Deus e não por obras. E não se sabe quem é predestinado: neste mundo, o mais que cada um pode fazer é tentar portar-se tão bem quanto se o fosse, ganhando de caminho respeito dos vizinhos. Sobrado a luzir de se poder lamber mas lixo varrido para debaixo dos tapetes. Virtude pregada no templo mas alcaloide à vontade e prostituta bonita para a gente namorar. Alguns banqueiros holandeses respeitados estão cheios de fé na cruzada porque acham que moralização só poderá vir de dentro. Outros contam com estímulos mais terra a terra: medo da cadeia, por exemplo.

 

Mas uma luta do bem contra o mal foi aberta e algum jeito há de dar. Como diria Oscar Wilde — e La Rochefoucauld tinha dito —: “A hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude”.

 

 

 

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13.12.14

 

APV still 378 blog

Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça gravam mulheres da Beira a cantar.

Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP 1968] 

 

 

[... ] Reco­lhendo a letra dos Romances desa­companhada da respectiva música, o autor das Viagens na minha terra fez obra incompleta, truncada. Não o culpemos muito por isso. Pode­ria ele ter procedido diferente­mente ? Garrett era, antes de mais nada, um poeta, um escritor, cer­tamente pouco familiarizado com o fenómeno musical. Não era fol­clorista (a disciplina do folclore achava-se então ainda nos limbos) para poder proceder à sua reco­lha (aliás feita indirectamente, através de comunicações de ter­ceiros) com verdadeiro método científico.

 

Lembremo-nos, ademais, que, nos países que de certo modo o impulsionaram no estudo da lite­ratura popular e que lhe minis­traram as ideias interpretativas desta, a Inglaterra e a Alemanha, ou, antes, o movimento romântico naquelas duas nações, também as coisas não principiaram doutro jeito e que só mais tarde ali se começou a. prestar a devida aten­ção às melodias populares e a con­siderar em conjunto o binómio poesia-música.

 

No entanto, ao próprio Garrett. não passou acaso despercebida a deficiência do seu trabalho e o quanto importaria, sob o ponto de vista prático, isto é, para o apro­veitamento artístico dos materiais fornecidos pela nossa poesia tra­dicional, associar esta às melodias que com ela nasceram ou que com ela fraternamente andam de par. Comentando, no mesmo 2.° volume do Romanceiro, o Romance da «Bela Infanta» (que classifica de chá­cara), diz que o introduziu, com algumas alterações indispensáveis, no 5.º acto d' O Alfageme de Santarém, fazendo-o «cantar por um coro de mulheres do povo, à hora do trabalho». E relata, entre satisfeito e pesaroso: «...observei o sensível prazer que tinha o pú­blico em ver recordar as suas anti­guidades populares, que nem ainda agora deixaram de lhe ser caras, Mas por mais que fizesse, não consegui que as cantassem a uma toada própria e imitante, quanto hoje pode ser, da melopeia antiga com que há séculos andam casa­das essas trovas. Ainda em cima, os cantores desafinavam e iam fora de tempo na música italiana e com­plicada que lhe puseram. Apesar de tudo, os espectadores avaliaram a intenção e a aplaudiram.»

 

Dos Romances compendiados por Garrett conhecemos nós hoje tão só as toadas da Bela Infanta, do Bernal- Francês, do Conde Yano (ou Conde Alberto), do Conde de Ale­manha, da Silvaninha, do Reginaldo, do Conde Nilo, da Donzela que vai à guerra (também conhe­cido por D. Martinho), da Nau Catrineta, de O cego, de Linda-a-pastora (ou O príncipe e a pastori­nha), do D. João e de A morena. (E possível que ainda um que outro deles haja por aí recolhido por algum curioso ou folclorista benemérito de que não temos no­tícia). Mas o ponto é saber-se se tais toadas são de facto as que, à altura da colação garrettiana, se cantavam com as letras que ali se referem. Não terá havido em muitas delas permutas e transposições? Já se verificaria então o fenómeno, hoje corrente, de a uma determi­nada toada se poderem atribuir vários romances ou de um destes ser cantado com melodias diferen­tes ? Que alterações ou transfor­mações se terão produzido nessas toadas no decurso de um século?

 

A coisa seria importante de sa­ber-se para a organização e estudo quanto possível documentado do nosso Romanceiro no ponto de vista poético-musical; mas crêmo-la já agora impossível de apurar-se.

 

A tarefa sistemática da recolha da poesia e música dos Romances nunca chegou a ser empreendida entre nós, e talvez já seja tarde para a tentar. E que prejuízo daí não resultou, a avaliar pelos belos mas desgarrados espécimes com que se consegue topar numa que outra publicação ou ouvir ainda (cada vez menos, infelizmente) da boca do próprio povo! (*)

 

O cometimento de Garrett ficou incompleto; mas saibamos fazer jus ao grande escritor, hoje, no ano do seu Centenário, por haver dado o sinal de partida, ao menos num aspecto do conhecimento, res­guardo e apreço do rico tesouro da nossa arte popular.

 

Fernando Lopes Graça

in  A propósito do Romanceiro de Garrett

Vol. III de Gazeta Musical (Academia de Amadores de Música) nr 51 Dezembro de 1954 

 

 

(*) Nota do Autor: — Já agora, consignemos aqui os Romances (na maior parte incompletos, outros com interpolações várias) que, acom­panhados de música, andam dispersos por várias publicações de que temos conheci­mento, fazendo, para algumas das toadas recolhidas, a prudente reserva da fideli­dade da transcrição musical (por exemplo, para os das colecções de Pedro Fernandes Tomás, a quem muito se deve neste capí­tulo, mas cujo rigor musical é frequente­mente duvidoso), e formulando votos por que a presente lista possa vir a ser acres­centada com comunicações dos nossos es­tudiosos da matéria.

I. O Conde de Alemanha, Reginaldo, O Capitão da Armada, Nau Catrineta, O Cego, Frei João, Jesus pobrezinho, in Pedro Fernandes Tomás: Velhas Canções e Romances Populares Por­tugueses (França Amado, Coimbra, 1913).

II. O duque de Alba, A noiva enganada, in Pedro Fernandes Tomás : Cantares do Povo (França Amado, Coimbra, 1913)

III. O Caçador, Pastora, Sta, Catarina, Milagre da Virgem, in Pedro Fernan­des Tomás: Canções Portuguesas do século XVIII à actualidade (Coim­bra, Imprensa da Universidade, 1934).

IV. D. João, D. Fernando, D. Angela, Deus te guarde pastorinha, Mineta, A menina cativa (?), in P.e Firmino A. Martins: Folklore do Concelho de Vinhais, 2º vol. (Lisboa, Imprensa Nacional, 1939).

V. O lavrador da arada, O homem rico, Conde Alardo, Santa Iria, in António Avelino Joyce: Revista Ocidente, IV.

VI. Lavrador da Airada, D. Silvana, Santa Iria, O príncipe e a pastorinha, Ora, valha-me Deus, Morena, O rei e a pastora, D. Martinho, in J. Diogo Correia: Cantares de Malpica (Livra­ria Enciclopédica de João Bernardo, Lisboa> 1938).

VII. O cego, Conde Nino, Conde Albano, Rosa, a pastorinha, Nau Catrineta, Dona Silvanas Irene (sem letra), Bernal Francês (sem letra), Lamenta­ções da freira (sem letra), Dona In­fanta, Gerinaldo, O lavrador da arada, in Gonçalo Sampaio: Cancioneiro Mi­nhoto, 2,a edição (Livraria Educação Nacional, Porto, 1944).

VIII. O lavrador da arada (três versões), Romance ("sem titulo), in Edmundo Arménio Correia Lopes: Cancioneirinho de Fozcoa (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926).

IX. Santa Iria, A nau Catrineta, in Fran­cisco de Lacerda: Cancioneiro Musi­cal Português   (Junta de Educação Nacional, Lisboa, 1935).

X. Rosa, a pastorinha, Confissão da Vir­gem, in Sales Viana: Cancioneiro Monsantino (Edições SNI, Lisboa).

XI. A bela Infanta, in Rodney Gallop: Portugal, a book of Folk-ways (Cam­bridge, at University Press, 1936),

XII. Silvaninha (var.), Bela Infanta, in Ro­dney Gallop: Cantares do Povo Por­tuguês (Livraria Ferin, Lisboa, 1937).

XIII. Reginaldo (ou Gerinaldo), O homem rico, in Fernando Lopes Graça: A Can­ção Popular Portuguesa (Publicações Europa-América, Lisboa).

 

Deve observar-se que certos destes Ro­mances se acham repetidos ou constituem lições diferentes do mesmo tema; estão neste caso, por exemplo, Mineta (O cego), Rosa, a pastorinha (O príncipe e a pastora, Pastora), Frei João (Morena), Jesus pobre­zinho (O lavrador da arada). Isto apenas quanto às letras, porquanto as melodias não se repetem.

 

 *

 

Notas:

 

1. Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP, 1968] de excerto reproduzido no documentário Uma visita aos afectos do compositor  [Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça © Sílvia Camilo 2014] 

Imagem gentilmente cedida por Sílvia Camilo a quem muito agradeço. 

 

2. O romance popular Linda-a Pastora com introdução de Garrett neste blog aqui

 

3. Artigo de Gonçalo Frota no Público O cante ouve-se com o corpo, diante das vozesaqui

 

4. Mais neste blog nas tags Lopes Graça e Garrett

 

 

 

 

 

 

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12.12.14

 

A descoberta de inéditos do Romanceiro de Almeida Garrett foi anunciada a 7 de Dezembro de 2004 pelo Diário de Notícias [1]. No dia 9 de Dezembro do mesmo ano, integrado num caderno dedicado ao Autor por ocasião dos 150 anos da sua morte, saiu no Público [2] o romance popular “Fonte da Cruz”. 

 

 

Fonte da Cruz título.jpg

 autógrafo de Almeida Garrett

 

 

As primeiras e últimas coplas deste romance são uma das mais antigas reminiscências de minha infância. Estou daqui vendo ainda o grupo de crianças que nos sentávamos no chão para o ouvir contar a uma certa pequena pouco mais velha que nós, filha de uma boa mulher que fora ama de leite de minha mãe. Isto é dizer que eu teria quatro anos, os mais velhos de entre nós seis ou sete, e a nossa cantora os seus oito ou nove anos. Era uma santa gente que morava para o Bom Jardim, no Porto, e vivia de pequeno mas honesto tráfico, protegidos por meus pais. A filha ia passar oito ou quinze dias no “Castelo”, pequena quinta nossa, situada daquém Douro. E era um dia de alegria o em que ela chegava, era choro que não acabava quando se partia. Porque ela sabia, além destes cantares ao divino, todas as xácaras da Silvana, da Bela Infanta, e mil outras histórias em prosa e verso, como as da «Maria Cortiço», da «Maria Sabida» do «Rei dos Ratos», «Gata Borralheira», «Rei Ramiro» além de infinitas aventuras de bruxos, lobisomens, moiras incantadas [3] , duendes, etc, cujos títulos individuais me não lembram; era um romanceiro vivo, uma segunda e mais completa edição daquela erudita e copiosa Brígida velha que, em outros lugares de minhas escrevinhaduras, tenho celebrado e citado.

 

Estas primeiras e últimas coplas eram as que só me lembravam quando a nossa lavadeira, que é uma boa mulher de Loures, aqui veio hoje, 15 de Abril de 1843, e a ouvi cantando a trova na cozinha donde a chamei e, sem grande dificuldade — coisa rara ! — pude obter que ma deixasse copiar, o que fielmente fiz, emendando apenas algum verso demasiado esticado ou curto demais: que poucos foram.

 

Fonte da Cruz

 

Deixa-me ir à fonte nova

Que nasceu ao pé da Cruz:

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

Um cego, que abriu a fonte

O cego já achou luz,

Que lhe deu água nos olhos

Da fonte da vera Cruz.

 

Fonte nova, fonte santa,

Fonte de amor que reluz!

Santa Maria ao pé dela,

San’ João com seu capuz.

 

Outra fonte fazem ambos

A chorar o seu Jesus.

—“ Minha mãe, esse é teu filho”

Diz o Salvador da Cruz,

 

“João, essa é tua mãe,

Que assim o quero e dispus

À hora da minha morte;

E cá vos fique esta luz:

 

Que o meu amor não tem fim,

E que entre vós dois o pus

Para se lavar o mundo

Na fonte da vera Cruz.”

 

Quem quer vir à fonte nova

Que se fez ao pé da Cruz?

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

 Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Notas

 

1. Almeida Garrett foi «o primeiro compilador do nosso Romanceiro, ou seja, de narrativas diversificadas, de vária índole, da nossa tradição oral popular, destinadas a serem meio recitadas, meio cantadas» explica a investigadora Ofélia Paiva Monteiro. O autor terá dedica­do grande parte da sua vida a esta recolha. «Entre 1843 e 1851, Garrett editou os três tomos do "seu" Romanceiro, dizendo na Introdução do segundo que a sua colecção viria a ser consti­tuída por cinco livros», lembra esta professora. Mas o elenco publicado só corresponde aos li­vros I e II. «Os manuscritos ago­ra achados parecem comportar o material compilado para os to­mos que não chegaram a vir a lume; e complementam mate­rial que já tinha sido dado a co­nhecer por um Cancioneiro, au­tógrafo garrettiano (que traz a indicação de ter sido começado em 1824)».

 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

 

2. "Fonte da Cruz", um poema recitado por uma lavadeira saloia de Loures, foi descoberto em Março [2004] pela família Futscher Pereira num espólio herdado, e mantém-se inédito. Este poema (também chamado "romance" ou "cancioneiro") da tradição oral popular tem origem medieval e Almeida Garrett reuniu-o no Livro III das "Lendas e Profecias", todo ele inédito. Começa com uma introdução, do próprio Garrett.

 

Público, 9 Dezembro 2004

 

3. Na transcrição dos manuscritos para o Público, desdobraram-se abreviaturas e pontuou-se raramente para compreensão dos textos, mantendo embora a redacção de palavras peculiares na ortografia garrettiana (como "incarregar" ou "incantadas". [Luís Augusto Costa Dias]

 

 

4. Sobre a divulgação dos manuscritos achados em 2004 leia também neste blog o post Long Live Garrett 

 

 

 

 

 

 

 

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10.12.14

 

 

kohl.jpg

Helmut Kohl

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

E se o povo ordena mal?

 

 

Na Baviera a CSU, irmã da CDU do resto da Alemanha, causou sensação há dias. Estudo apresentado à direcção do partido propunha que imigrantes fossem obrigados a falar alemão – mesmo em casa, quando estivessem só entre si. Até alguns bávaros ficaram perplexos e no resto do país houve indignação — salvo em partidos, pré-partidos, associações, confrarias de uma extrema-direita nacionalista e xenófoba, que pululam de há uns anos a esta parte, mais no que dantes fora a Alemanha Oriental. (“O patriotismo é o amor dos seus; o nacionalismo é o ódio aos outros” escreveu luminosamente Romain Gary).

 

A Baviera é próspera e tem outras boas coisas – automóveis BMW; braços abertos no acolhimento a Ingmar Bergman que lá pôs em cena teatro e ópera sete anos, expatriado até o fisco sueco lhe pedir desculpa por o ter feito escandalosamente prender sem razão – mas a aliança da sua direita com o resto da direita alemã nem sempre é fácil. Uma vez, num almoço de fim de Wehrkunde em Munique, ouvi Helmut Kohl, ainda Chanceler, somando aos convivas da sua mesa os anos que levava de vida política, enumerar a certa altura: “sete anos com Franz-Joseph Strauss como Vice-Chanceler — contam por catorze”.

 

Depois de algumas décadas a seguir à guerra (de 39-45) sem vestígios disso, o populismo começa a morder a Alemanha, agora reunida, não ainda com o sangue na guelra que mostra em França, na Hungria ou no norte de Itália, mas Berlim tem responsabilidade especial e se o borbulhar fascizante continuar talvez Angela Merkel dê uma guinada ao leme do seu (nosso) barco. Levando a sua chefia sem distracções causadas por “essa coisa da visão”, como diria o pai Bush, munida de antenas que captam ondas emitidas pelo povo e imune a sobressaltos que traíssem pulsões ou sentimento, deu nos últimos anos duas grandes guinadas, uma disparatada mas demagogicamente fácil, outra sábia mas politicamente complicada. A disparatada foi aproveitar desastre nuclear no Japão para decretar, à beira de eleições, o fim da energia nuclear na Alemanha. A sábia – e corajosa – foi opor-se ao gangsterismo aventureiro de Putin, que em má hora cometera o erro de lhe mentir, contra a opinião maioritária da sua gente, propensa a achar que o lugar dela é entre o Ocidente e a Rússia, e de industriais famintos de “business as usual”. A sua firmeza, desta vez, deu coluna vertebral à Europa no confronto com Moscovo.

 

Se populismo xenófobo continuar a grassar na Alemanha — e se Angela Merkel perceber que o marasmo económico o anima — talvez a Chanceler dê mais uma guinada. Resolva espaldar o Banco Central Europeu na sua missão de subir a inflação até quase 2%, permitindo-lhe comprar dívida pública, apesar dos tratados — outra vez contra os instintos do povo.

 

Se assim for, diz-me entendido nestas matérias, poder-se-á sair da crise com União e países viáveis. Se assim não for, depois de ter falhado a mal em 1918 e em 1945, a Alemanha agora terá conseguido dar cabo da Europa a bem.

 

 

 

 

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9.12.14

 

garrettiana1_g.jpg

 Foto: Júlio Novais (1904)

 

Nos 160 anos da morte de Garrett a BNP revisita a Exposição Garrettiana de 1904

aqui

 

No ano do cinquentenário da morte de Almeida Garrett, a Biblioteca Nacional promoveu uma exposição comemorativa, era então seu director o erudito e bibliófilo Xavier da Cunha (além de crítico e poeta, também sob o pseudónimo de Olímpio Freitas), ao tempo fundador da Sociedade Literária Almeida Garrett e membro dos seus corpos dirigentes.

 

Admirador de Almeida Garrett, Xavier da Cunha esteve no centro das comemorações, antes de mais no centenário do nascimento, em 1899, propondo à Academia das Ciências de Lisboa a edição de um «livro áureo» do autor de Viagens na Minha Terra, iniciativa que não vingou. Nos anos subsequentes, porém, sobretudo a partir de 1903, a proposta para a trasladação dos restos mortais de Garrett para o Panteão dos Jerónimos, a cargo da Sociedade Literária Almeida Garrett e ocorrida a 3 de maio, foi amplamente difundida pela imprensa portuguesa, com destaque para o Diário de Notícias, de que era então redactor principal o escritor Brito Aranha.

 

No ano seguinte, ao mesmo tempo que Teófilo Braga coordenava as Obras Completas de Almeida Garrett, em diversos volumes de uma «Edição ilustrada» de pequeno formato e em dois tomos de uma «Grande edição popular», a Biblioteca Nacional chamou a si a organização de uma exposição de «homenagem simples e modestíssima» ao escritor romântico, segundo descrição no Boletim da Sociedade Literária Almeida Garrett . Inaugurada a 9 de dezembro de 1904 pelo príncipe real D. Luís Filipe e seu irmão e futuro rei D. Manuel, com assinaturas inscritas em Livro de Visitantes, desta exposição não chegou a ser impresso catálogo (cujo original manuscrito consta existir na Sala Ferreira Lima, FLUC), porém o seu registo fotográfico foi deixado por Júlio Novais e reunidos numa miscelânea os jornais diários que noticiaram o evento.

 

 

 

 

Nota:

Sobre a Sociedade Literária Almeida Garrett e o escritor Xavier da Cunha leia neste blog o post Impressões Deslandesianas.

 

Mais neste blog na tag Garrett

 

 

 

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7.12.14

 

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 Fernando Lopes Graça, Horta, Açores 1983 

 

 

 

Cumpriu-se faz agora dois anos a primeira etapa do projecto ambicioso dum grupo de amigos de Fernando Lopes Graça (1906-1994): trazer a público uma colecção de peças para piano que o compositor dedicou a amigos e eventos – as “Músicas Festivas” – e registá-la em múltiplos suportes, permitindo a criação de conteúdo não efémero.

 

Das 23 peças, 13 nunca tinham sido tocadas em público e 18 nunca tinham sido gravadas. A colecção inédita foi apresentada a 16 de Dezembro de 2012 num concerto do pianista António Rosado no Centro Cultural de Belém. Na mesma data saíram os CD "Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça", os quatro volumes das partituras (em suporte papel) e foram criados um sítio Web multilingue* e um álbum de fotografias e documentos no facebook.

 

Um duplo DVD agora lançado [o concerto no CCB, com introdução do musicólogo Rui Vieira Nery, e o documentário "Uma visita aos afectos do compositor"] completa este projecto multimédia, a vários títulos exemplar, constituído por cinco iniciativas produzidas e financiadas por um grupo muito pequeno de pessoas com apoios quase nulos.

 

O documentário "Uma visita aos afectos do compositor" — retrato intimista e muito cativante de Lopes Graça construído a partir de depoimentos, excertos musicais, fotografias, imagens em movimento e documentos reunidos ao longo da pesquisa — revela-nos com simplicidade e saber toda a riqueza da sua música (1), do seu legado intelectual e da sua personalidade, à luz do presente.

 

E nem de propósito, a coincidir com a recente consagração mundial do Cante Alentejano, este documentário vem recordar o papel pioneiro de Lopes Graça na música coral portuguesa e na recolha da nossa música tradicional (2), e inclui mesmo um apontamento extra sobre a digressão pelos Estados Unidos, pela mão do compositor, do grupo coral alentejano da Aldeia Nova de São Bento, a convite da Smithsonian Institution, por ocasião do bicentenário do país, em 1976.

 

Bem vindo às “Músicas Festivas” de Fernando Lopes Graça, disponível em DVD numa loja perto de si.

 

 

 

Notas:

 

 1. “Muita da sua reflexão vem de um trabalho de desconstrução dessas músicas tradicionais e de transposição de elementos que ele encontra nessa linguagem popular para uma esfera erudita em que depois cruza esses elementos com as referências cosmopolitas das vanguardas modernistas em que se integrou”. [Rui Vieira Nery na introdução]

 

2. Lopes Graça cria nos anos 40 o Coro da Academia de Amadores de Música. As suas harmonizações das Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas serão cantadas pelo Coro por todo o país. O interesse de Lopes Graça por este património tradicional e o trabalho que desenvolveu nesta área é comparável ao de Garrett com o Romanceiro, acerca do qual o compositor escreveu na revista Gazeta Musical um artigo que será abordado em futuro post.

 

 

 

 

separador_20DVD copy.jpg

 

*Na web em português aqui e EN-FRA-RU-ESP-HUN

 

trailer do documentário aqui

 

facebook aqui

 

 

 

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3.12.14

 

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 Adriaen van Utrecht, Vanitas: still life with bouquet and skull c.1642

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Diques e barba rija

 

 

O meu filho holandês diz-me que na sua terra começaram este ano a nascer bebés cuja média de vida se prevê venha a ser de 120 anos e que — palpita-me — medirão, também em média, 2 metros de altura. A pátria dos heróis de Srebrenica dá pelo nome de Países Baixos não devido à estatura dos seus habitantes mas ao facto de um terço do território ter sido conquistado ao mar, estar abaixo do nível deste e ser protegido de inundações fatais por laboriosa teia de diques mantida em ordem por vigilância constante. Deus fez o mundo e os holandeses a Holanda.

 

Viver sob tal espada de Dâmocles estimula prudência e o sentimento de que pode ser preciso partir o mealheiro de um momento para o outro; com o dinheiro não se brinca. Fantasias arriscadas evitam-se: na Primeira Grande Guerra o país conseguiu ficar neutro; no fim dela acolheu o Kaiser deposto que em 1941 lá morreu feliz, convencido de que Hitler triunfaria. Na Segunda, invadido pela Alemanha, foi de todos os países europeus ocupados aquele cujas autoridades colaboraram mais eficazmente com os nazis no plano de exterminação dos judeus. Depois da vitória de 1945, a Rainha voltou para a Haia do exílio em Londres e o país foi um dos fundadores da OTAN e do que é hoje a União Europeia. Tornou-se, por comparação com os vizinhos, um paraíso para minorias —  desde transsexuais a sírios maltratados. Modelo de democracia e protecção dos direitos humanos, defende com unhas e dentes os seus interesses comerciais, seja onde for no mundo. Perante Israel, na Europa só os alemães os batem em culpa. Há uns 20 anos, o ministro dos estrangeiros anunciou-me que o lema da política externa holandesa era: “Paz e lucros”.

 

Foi feixe de contradições assim que levou Jaime Gama a dizer-me um dia “Você sabe? A política externa holandesa faz-me nojo”. Simon Schama, com visão de historiador, encontrou melhor fórmula para a inquietação das almas naquele canto da Europa: “O embaraço da riqueza”. A mim “Paz e Lucros” como lema para quem queira prosperar no mundo sem fazer muito mal aos outros, parece honesto e sensato.

 

Quanto a longevidade, não sei se há prospecções feitas para Portugal e, se as há, que números dão. Palpita-me que não deitaremos tão longe na idade (como me palpita que não seremos tão altos). Antes assim, dado que, a menos que se decretem eutanásias etárias — impopulares em princípio e conflituosas na aplicação — o comer dos velhos custará cada vez mais ao trabalho dos novos. Teremos, em todo o caso, de temperar a vontade (tomar o país ao mar é tarefa de todas as gerações; tomá-lo aos mouros foi de duas ou três) - ou de desfeitear as estatísticas, como o meu amigo Zé, hospitalizado com coisa má, a quem telefonei outra vez.

 

Vai na terceira sessão de quimioterapia. “E então?” “Disseram-me que ia perder o cabelo todo mas não me caiu nem um”. Riu-se e acrescentou: “A barba é que se pôs a crescer, rija como nunca antes”. Ah grande Zé! Fossemos todos como tu e a Pátria estaria salva.

 

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