26.11.14

 

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 Nuba, 1962-77 © Leni Riefensthal

 

 

 

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Contas às vidas

 

 

Leitora atenta acha que reflexão sobre os ricos e os pobres tem muito que se lhe diga e é bastante complicada aos seus olhos. “É que para mim os ricos somos nós todos aqui no Ocidente, brancos, a quem não falta água quente para tomar banho e comidinha no prato, assediados por aqueles que se metem em barcaças e morrem à média de 5 por dia para tentar cá chegar (números de 2007, hoje devem ser mais). Assim, aos meus olhos, é tudo relativo em termos de desigualdade aqui por estas nossas bandas”.

 

Nem de propósito. Estudo apresentado quinta-feira passada por um grande banco suíço e uma agência de conselho a afortunados mostra que os cerca de 211.000 “ultra-ricos” deste mundo continuaram a prosperar em 2014 e detêm hoje 13% da riqueza mundial. O seu número aumentou de 6% e o seu património de 7%, chegando ao equivalente do dobro do PIB dos EUA. Estes ricos-ricos — patrimónios superiores a 30 milhões de dólares por bico — representam só 0,004% da população adulta mundial e compraram 19% dos produtos de luxo vendidos o ano passado. Enriqueceram ainda mais graças à boa saúde das bolsas — apesar de conflitos geo-políticos, tensões sócio-económicas, volatilidade dos mercados financeiros. Embora na Ásia vivam 46.635 deles — e tenham este ano aumentado em África mais do que noutra partes do mundo — concentram-se nos Estados Unidos (74.865) e na Europa (61.820).

 

Como, graças ao Estado providência, o fosso entre pobres e ricos na Europa é e será por muito tempo muito menos fundo do que noutros continentes, a minha amiga parece ter razão e os europeus deveriam ter vergonha e deixarem de se lamuriar.

 

Só que, como ela diz, a reflexão é complicada. Há quase 50 anos, tinha Portugal um Império Colonial e a Guerra Fria pautava o mundo, já a destruição criadora fazia das suas ao ponto do Luís Monteiro se gabar de ser um “nouveau-pauvre”. (Se estava convencido disso ou não, não sei. O Luís - de “Um homem não chora” e de “Felizmente há luar” - era mitómano, o que emaranhava a conversa: “A verdade, Zé, é uma água muito quente onde eu de vez em quando meto um dedo a ver se ainda queima, e ainda”). Seja como for, riqueza e pobreza extremas assustam à primeira vista mas depois a gente habitua-se; números como os que vão acima são difíceis de entender, como seriam os da fome e do analfabetismo — não é da leitura de estatísticas que bem estar ou mal estar vem. Os termos de comparação são o ano passado e o vizinho do lado. Os europeus veem que os seus vizinhos estão todos tão mal ou pior do que eles e percebem que — pela primeira vez há um par de séculos — os filhos vão passar pior do que os pais (sem sequer, ao contrário do que acontece noutros cantos do Mundo, fé descabelada em Deus que lhes engane a fome).

 

Uma achega mais à complicada reflexão. Enquanto, desde 2008-10, a Europa se atasca, roçando agora a deflação, milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro passaram a comer todos os dias e para elas o século XXI é cornucópia de abundância.

 

 

 

 

   

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19.11.14

 

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Ricos e pobres? Outra vez?

 

 

You never actually own a Patek Philippe. You merely look after it for the next generation — “Nunca se é de facto dono de um Patek Philippe. Olha-se meramente por ele até à geração seguinte”. Anúncio reconfortante de marca suíça de relógios de luxo, fundada em 1851, posto em jornais e revistas de língua inglesa. Nem sempre acontece mas é boa lembrança.

 

La propriété c’est le vol — “A propriedade é o roubo” sentença alarmante do agitador francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) que, diz o Dicionário Prático Ilustrado de Lello & Irmão – Editores, “preconizava revolução social que salvaguardasse a igualdade dos indivíduos e a sua liberdade; este socialismo libertário e antiestadístico opõe-se ao marxismo”. Verdades como punhos. Os marxistas do meu tempo de estudante em Lisboa consideravam Proudhon um pateta perigoso – não havia o próprio Marx chamado às ideias dele ‘A Miséria da Filosofia’? — mas, na santa simplicidade dos seus verdes anos, gostavam de achar que a propriedade (salvo a deles) era mesmo roubo. Tique fundo que muitos guardaram toda a vida. Há poucos anos, grande figura do socialismo espanhol, génio político estimado em todo o mundo, a quem perguntei se novo ministro conservador do seu país fizera a fortuna ou a herdara, respondeu: “É igual; se não foi ele a roubar foi o avô!”

 

Na Europa Ocidental da Guerra Fria, rica, cheia de bazófia moral, protegida de males interiores pela prudência de patrões, sindicatos e governos — não fosse o urso soviético inspirar bicharada local — e de males exteriores pelo escudo invisível do arsenal nuclear americano — não fosse o urso soviético perder a cabeça e pisar terreno proibido — nessa Europa Ocidental as famílias clientes do relojoeiro de Genebra e os igualitários de pacotilha tocados pelo filósofo de Besançon, coincidiam contentes e arranjava-se sempre um resto de petisco para quem tivesse chegado atrasado à mesa.

 

Bons tempos que já lá vão — amigos bálticos, polacos, checos, eslovacos e húngaros me perdoem — e não se vê jeito de poderem voltar, mesmo quando as leitoras mais novas já forem velhinhas. Sem Mal contra o qual se medir, o nosso Bem vacila e desconcentra-se. A União Soviética deu cabo de si própria e, por muito que Putin barafuste, agrida e ofenda não consegue meter-nos o medo que deveríamos ter dele. Acabou o inimigo comum e com ele de nós se foi o que faz a alma poder ser de herói (para roubar linhas ao homem da Abel Pereira da Fonseca). Quanto aos americanos — dizia Churchill — encontram sempre a solução boa de um problema depois de terem tentado todas as outras. Desta vez ainda vão nessas.

 

O colapso do comunismo não foi a erradicação de uma doença, foi o fracasso de um remédio. Por não termos percebido isso entrámos numa voragem que alarga o fosso entre ricos e pobres e nos volta uns contra os outros como não havia acontecido desde os anos que levaram à subida de Mussolini e Hitler ao poder e, mais perto de cá, à Guerra de Espanha.

 

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12.11.14

 

Mother-and-Child-with-Orange-1951.jpgMother and Child with orange, Picasso 1951

 

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Tiago, 4 anos; Europa, 2.500 desde o Século de

 

Péricles.

 

 

 

Garantem-nos que desta vez é mesmo a decadência do Ocidente e a passagem da Europa de cavalo a burro. Em tempo real, sem anestesia. E com rol de queixas: aquecimento global; envelhecimento debilitante; deflação; Ébola e outras pandemias; Rússia que quanto mais come mais vontade tem de comer; sarracenos matando-se uns aos outros em nome de Deus com sanha que tínhamos esquecido (e a decapitar alguns de nós para nos avivar a memória); China – Perigo Amarelo! - a dar má vizinhança marítima e a despejar sobre nós cada vez mais bugigangas que fabrica; zaragatas que dantes não havia ou de que não nos dávamos conta; os bárbaros às portas da cidade — tudo afogado no saber digital como pêssego em calda. Que mundo vamos nós deixar aos nossos filhos? — afligem-se pais e mães.

 

O pai do Tiago fez a pergunta contrária: “Que filhos vamos nós deixar ao mundo?”. Estavam a passar uns dias connosco e nisto de pais com filhos pequenos ficou-me de exemplo a resposta recebida há 20 anos da mulher do meu chefe de gabinete. Era domingo, ainda não havia telefones portáteis, eu precisava de falar com ele, liguei o número de casa e inqueri quando ela atendeu: “Como vai a mãe feliz de duas crianças extraordinárias?” “Desculpe, Senhor Embaixador. A mãe extraordinária de duas crianças felizes.”

 

Tiago é uma criança feliz e a felicidade é contagiosa. O restaurante onde os levámos na sexta-feira tem três salas e a certa altura parlamentou com o pai licença de ir espreitar a que não se via bem da nossa, perto da cozinha. Voltou de olho a brilhar - “Há uma festa!” anunciou, disse que lhe tinham dado um beijinho e quis lá tornar com a mãe. Foram, voltaram, o jantar continuou e de repente, pelas minhas costas chegou à nossa mesa redonda grande fatia de bolo de chocolate, trazida ao Tiago num prato de sobremesa por mulher bonita, alta, de longos cabelos louros, confiante, rendida ao sedutor de 4 anos, e que a seguir voltou, alegre, para a sua festa de anos.

 

E a decadência do Ocidente? Há cada vez mais velhos na Europa e, como Helmut Wohl me disse já há muitos anos, os violinos e os vinhos melhoram com a idade; os pianos e as pessoas pioram. Por muito que se queira contentar a terceira idade, o contentamento não é natural nela. Infelizmente, como em quase todos os países europeus — com saudável excepção da França — todos os anos morrem mais pessoas do que nascem, o velho continente ocupa lugar cada vez mais pequeno no mundo. Mas, enquanto houver mães e pais admiráveis de crianças felizes, que não perguntem que mundo vão deixar aos filhos mas que filhos vão deixar ao mundo, crianças contentes na descoberta da vida desmentirão a decadência do Ocidente.

 

Em Portugal há mais. Tiago e os pais ficaram cá em casa por eu ser padrinho da mãe dele. Amigo que os trouxe do aeroporto não pôde depois levá-los por ir a Lisboa ao baptismo de um sobrinho. Retornados em 75, austeridade agora, férias — a família cobre tudo.

 

 

 

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5.11.14

 

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Raio de vizinho!

 

 

Vladimir Putin insiste em provocar o Ocidente. Para ele o colapso da União Soviética foi a maior-catástrofe geopolítica do século XX. Oficial da antiga KGB, disfarçara esse ressabiamento durante muitos anos e Yeltsin que, de seu livre alvedrio, dissolvera a União Soviética de cima para baixo sem derramamento de sangue, designara-o seu sucessor. Fê-lo como quem, para escolher um melão, o provasse primeiro. Nos seus últimos anos de Kremlin, preocupado com o futuro da democracia na Rússia – Yeltsin era instintivamente um libertário - e com o futuro da família, enleada em negócios com grandes zonas de sombra que sucessor mal inspirado poderia querer investigar e punir, foi nomeando primeiros-ministros a ritmo acelerado, descartando depressa o primeiro, pouco tempo depois o segundo, e ungindo o terceiro seu herdeiro presuntivo. Assim Putin chegou ao Kremlin e, quer ainda em vida de Boris Nicolaievich quer depois da sua morte, a família Yeltsin – parentes e afins - nunca foi inquietada. Quanto à democracia, como se sabe, a conversa tem sido outra.

 

Movido por ambição de restaurar grandezas passadas – para o efeito, Rússia e U.R.S.S. são a mesma coisa (De Gaulle, que percebia a História, nunca dizia l’Union Soviétique; dizia sempre la Russie) – o apetite de Putin foi confortado pelos egoísmos moles dos europeus e pela falta abananada de chefia dos Estados Unidos que está a deixar o mundo sem rei nem roque. E passou das palavras aos actos (mirando al tendido: no dia seguinte ao inquilino da Casa Branca, dando o dito por não dito, desistir de bombardear a Síria, o inquilino do Kremlin publicou artigo de fundo no New York Times a explicar-lhe benevolamente como se devia mandar no mundo). Depois, sem estados de alma, ocupou ilegalmente a Crimeia, organizou referendo a mostrar que era o que os indígenas queriam e alimenta a dissidência na Ucrânia Oriental, reconhecendo voto ilegal lá efectuado Domingo, negando sempre (ele e acólitos, incluindo o MNE Lavrov, apparatchik todo-o-terreno) a participação de soldados russos; mentindo tanto que até Angela Merkel perdeu a paciência.

 

Há dias apertou mais a tenaz. Aviões militares russos, alguns capazes de transportarem bombas atómicas (a que pulverizou Nagazaqui, era de 21 kilotões; as russas de hoje são de 200) violaram espaço aéreo europeu do Mar Báltico ao Mar Negro. Não submeteram planos de voo e iam de transponders desligados – isto é, além de querer acobardar os Aliados perante ataque eventual a um dos Bálticos, a fanfarronada teve riscos próprios – lembre-se a morte de Christophe de Margerie num aeródromo de Moscovo, por bebedeira e inépcia do pessoal de terra.

 

O novo secretário-geral da OTAN, norueguês temperado por curta fronteira com o Urso, talvez ajude a endireitar as espinhas vergadas de Bruxelas e de Washington. Valha-nos isso ou milagre de S. Jorge – senão o dragão moscovita pintará a manta enquanto lhe der na real gana. 

 

 

                                        

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