29.10.14

 

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Sempre a desaprender

 

Há quase vinte e um séculos, entre salvar o assassino Barrabás e salvar o Messias Jesus, gente da terra de ambos que os conhecia bem preferiu salvar Barrabás. Em 1933, o partido de Hitler foi eleito em escrutínio livre e limpo.

 

Os desígnios de Deus são insondáveis (se Jesus não houvesse sido crucificado não teria havido cristianismo) mas os factos permanecem, nus e crus como a verdade. A voz do povo nem sempre é a voz de Deus ou, em versão adaptada aos nossos costumes políticos, a democracia pode dar para o torto. Mas dá para o torto muito menos vezes do que as tiranias, teocracias e cleptocracias que vemos à nossa roda. Como em tantas outras coisas, foi Churchill quem encontrou a fórmula certa, muito lembrada agora que condenações da decência do nosso viver se afirmam de novo, banha da cobra lembrando a dos fascistas dos anos 30 do século passado: “A democracia é a pior forma de governo que há, tirando todas as outras”.

 

Em Portugal não há ameaços de criação de uma extrema-direita significativa, a meu ver porque a enorme popularidade de Cavaco Silva, no seu primeiro mandato de Primeiro-Ministro, absorveu como uma espécie de mata-borrão cívico os pingos neo-fascistas mais radicais que haviam tentado confrontar o PREC e haviam persistido depois, aqui e além, sob os primeiros governos constitucionais. Tudo isso entrou de cambulhada, até hoje, no grande leque da direita parlamentar, bentinha pelo regime e, por aí, não há quem ponha em risco a Terceira República. Não porque nós, os portugueses, sejamos menos egoístas, menos racistas ou mais morais do que os nossos vizinhos e comparsas europeus. Remontamos todos, nós e eles, ao pecado original ou, se não quisermos presumir sobre começos, somos todos talhados em madeira tão torcida que não há um que tenha saído direito. O problema é que o como e o porquê dos portugueses interessam pouca gente porque Portugal pouco pode. Mas em lugares de mais consequência — não na Alemanha, hoje um monumento inabalável de democracia, mas em França, Reino Unido, Países Baixos, Suécia, Finlândia — direitas pouco salubres crescem como bambus e obtêm apoios de alto-a-baixo nas sociedades, (incluindo, em França, entre antigos eleitores comunistas). Os chefes dessas direitas querem expulsar os imigrantes, sobretudo muçulmanos; ‘proteger’ as economias nacionais no mundo globalizado para lá de todo o bom senso; descriminar contra minorias; alguns disfarçam mal antissemitismo renascente que chega a pôr em dúvida o Holocausto. Sondagens mostram subida constante de popularidade, confirmada em eleições parciais, prenunciando mesmo possibilidade de conquista da Presidência da República em França. As semelhanças com o que se passou na Europa dos anos trinta deviam meter medo e mobilizar os defensores da democracia na Europa de hoje.

 

Não é luta fácil. Mesmo os dois casos acima podem ser virados do avesso: os alemães mataram os judeus; os judeus mataram Jesus Cristo. A luta continua.

 

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22.10.14

 

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Deutschland über alles?

 

 

As duas grandes guerras da primeira metade do século XX foram manifestações trágicas da impossibilidade de fazer conviver Alemanha unida e forte com as outras grandes potências do Velho Mundo. A chamada construção europeia começada com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço — destinada a impedir que Alemanha e França se fossem armando uma contra a outra — a seguir à rendição incondicional de Berlim em 1945 foi congeminada por democratas franceses e antinazis alemães (mormente Robert Schuman e Jean Monnet, do lado de cá do Reno, e Konrad Adenauer, do lado de lá) longe das disposições draconianas da paz de Versailles de 1919 que haviam ajudado Hitler a subir ao poder. Durante meio século fez caminho seguro e chegámos à União Europeia.

 

Na Europa Ocidental, o progresso parecia imparável. As circunstâncias eram propícias. Medo salutar de Estaline provocara a invenção das Comunidades Europeias e da OTAN e, depois dele morto, a União Soviética continuara a meter respeito; os Estados Unidos garantiam guarda-chuva nuclear e, primus inter pares na Aliança Atlântica, desimaginavam os aliados das suas brigas históricas. A Alemanha, primeiro de rastos e ocupada militarmente e a seguir dividida (De Gaulle dizia gostar tanto dela que preferia que houvesse duas) não tinha poder político mesmo depois da República Federal — folgada por limitação de despesas militares e por perdão de dívidas de guerra — ter construído grande poder económico (o milagre alemão).

 

A reunificação conseguida por Kohl com licença de Gorbachev, apadrinhamento de Bush e susto de Mitterrand e Thatcher, mudou as coisas. Tornou a haver poder político alemão. Pela primeira vez, famosamente no fim de 1991 durante a crise jugoslava, impondo reconhecimento prematuro da independência da Croácia aos seus onze parceiros da CEE. E desde então, sem tréguas, até ao beco onde a zona euro está metida. A crise começada em 2008, exacerbada em 2010 pela constatação do estado calamitoso das finanças gregas, acordou veia moralista implacável em Berlim. Desde os anos 20 do século XX, para os alemães, a inflação é pecado mortal. Para os franceses, uma pitada dela é o sal da economia. Como a Alemanha é mais forte — apesar de infraestruturas em péssimo estado, burocracia paralisante e defesa pelas ruas da amargura — tem vindo a impor austeridade aos seus parceiros do sul, empobrecendo toda a zona euro e empurrando-nos para a deflação. Se Merkel for iluminada pela visão de Bismark, de Kohl ou de Schmidt dará guinada para o crescimento. Se não for, pela terceira vez em 100 anos a Alemanha, mesmo em paz, terá sido incapaz de dar bom viver aos vizinhos.

 

NB – Amiga cujo saber prezo acha que o mal é outro. As nações são ovos cozidos e com ovos cozidos não se fazem omeletes (De Gaulle dixit). Fazem-se bons pratos; muitos se cozinharam desde 1957. Mas o euro, tal como concebido e imposto, foi conto do vigário que lesou muita gente e espevitou forças centrífugas na União. Quiçá.

 

 

 

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18.10.14

 

Rita Barros regista desde 1987 a vida no Hotel Chelsea, em Nova Iorque, e vem registando a sua agonia desde que em 2011 o hotel foi vendido, encerrado ao turismo, esventrado por obras e os residentes de longa data se viram confrontados com muitas incertezas pessoais e a morte anunciada da sua casa comum.

 

Negação, zanga, negociação, depressão, aceitação — as etapas do luto são cinco, não necessariamente por esta ordem mas fica a ideia.

 

Embora centrada no trabalho de Rita Barros no Chelsea, a exposição comissariada por Jorge Calado dá a ver todo o universo da artista, dos seus primeiros trabalhos a preto e branco às suas imagens mais emblemáticas [o sapato e a chávena de café da série Presença na Ausência] e incluídos estão também outros temas [11 de Setembro] e uma bonita colecção dos seus photobooks artesanais. 

 

Nesta exposição um engenhoso biombo vermelho separa o antes do depois: à entrada somos naturalmente conduzidos para o Chelsea e os seus habitantes nos bons tempos [reunidos no livro Chelsea Hotel Fifteen Years] e para três auto-retratos de Rita Barros no seu apartamento, cuidadosamente encenados, coloridos, solares.

 

À saída, após as imagens fúnebres e irónicas [de Displacement] e uma deambulação melancólica pelos belíssimos interiores do Chelsea despovoado e semi destruído [a série mais recente] encerram o percurso, nas costas do biombo, duas imagens intimistas que convido o Leitor a descobrir . 

 

 

 

 

 Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia /UNLCampus da Caparica 

 

 

 

 

Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia /UNL

 

Campus da Caparica

 

2ª a 6ª feira | 09:00h - 20:00h

 

Sábados | 18 e 25 de Outubro, 15 Novembro | 15h - 18h

 

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15.10.14

 

 

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Quislings?

 

 

Em 1640, Miguel de Vasconcellos, valido da Duquesa de Mântua, regente do Reino, morreu atirado de uma janela. Em 1945, Philippe Pétain, herói da guerra de catorze, viu a sua pena de morte comutada por De Gaulle e veio a finar-se em prisão perpétua (todos os anos Mitterand, já no Eliseu, mandava pôr um ramo de flores na sua campa no dia do armistício de 1918). Também em 1945, Vidkun Quisling — que, ao governar a sua Noruega natal por conta do ocupante nazi, deu nome genérico a esses traidores ambíguos — foi fuzilado numa prisão de Oslo. Guerras de independência desapareceram da Europa de hoje. Agora, fronteiras e soberanias esfumam-se e o domínio de Berlim sobre as decisões fiscais de outras capitais, impondo políticas de austeridade que estão a estalar pelas costuras e quase a matar o cavalo do inglês, é tão grande que amigo sábio chama à zona euro Alemanha Magna. Até quando?

 

Há dias Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano, rapaz quase sempre pimpão demais para meu gosto, acertou em cheio no alvo. Acossado, como outros governantes do sul, por visão teutónica paranoide que faz da inflação pecado mortal — disposta a correr o risco, presumivelmente virtuoso, de deflação — disse: “Prefiro uma França com 4% de défice a uma França com Marine Le Pen presidente.” A questão é essa e é isso que a Alemanha parece incapaz de perceber. Convicta da bondade dos seus valores; de que, no seu seio, nazismo, fascismo, nacionalismo agressivo não brotarão de novo e incapaz de perceber outros povos, insiste em considerar diferenças entre o norte e o sul como combate entre o bem e o mal que será ganho quando nós, meridionais, reconhecermos o nosso erro. Entretanto a deflação está à porta, a crise morde a própria Alemanha e, com coro que vai da Casa Branca ao FMI e ao Papa a pedir estímulos à economia e não só prestações para o tonel das Danaides de dívidas impagáveis talvez Merkel e Schäuble se desimaginem da cruzada moralizante antes que esta arruíne de vez a Europa.

 

Não foram eles que desregularam demais o sistema financeiro nem foram eles que fizeram do euro nossa moeda sem o cuidado devido. A culpa da crise foi doutros — mas é culpa deles que o remédio escolhido agrave a doença em vez de a curar. Será que, por fim, se juntarão a Mario Draghi do Banco Central Europeu, dispostos a “fazer o que for preciso” para salvar o euro (e os europeus)? Provavelmente tarde e a más horas.

 

E por agora? Os Quislings de hoje? Os que seguem regras ditadas por Berlim via Bruxelas porque senão não há agiota que empreste dinheiro em conta aos países que governam? Poder-se-iam inspirar em Mitterand que começou por servir Vichy, quando sentiu no ar um perfume de vitória aliada se mudou para a resistência e acabou por chegar à Presidência da quinta República, onde ficou catorze anos? Duvido. A História não se repete. Não há génios políticos tortos em todas as gerações nem, quando a austeridade acabar, os povos irão pedir as cabeças dos capatazes de Berlim.

 

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8.10.14

 

 

 

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O passado é um país estrangeiro

 

Já sabíamos e descobrimos agora que o futuro também o é. Não o futuro que havia dantes, oculto ou fantasiado por visionários. Mas o futuro que há hoje ao lado dos lares de terceira idade onde os protagonistas do passado agonizam (“em suma, somos os velhos, cheios de cuspo e de conselhos”), praticado por gente nova, homens e mulheres que falam outra língua, têm outros modos, fazem outras contas, tecem a revolução numérica, colonizam o país estrangeiro armado à nossa volta e, sem a gente entender bem como eles e elas sejam, única esperança que nos resta da Pátria vir a ter melhores dias — desde que dons e virtudes diferentes dos nossos, neles e nelas afinados, cheguem para as encomendas.

 

“E com muitas Avé-Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo”, rematou Fernão Mendes Pinto o relato da abordagem do junco do pirata Similau nos mares da China. (Ao tempo não havia Nações Unidas, nem Comissão dos Direitos do Homem, nem Tribunal Criminal Internacional). “Fartar, vilanagem!” gritou Álvaro Vaz de Almada, amigo de D. Pedro, aos áulicos do Rei que o acabavam à espadeirada em Alfarrobeira - em vez de, como fariam pimpões de agora, ameaçar mandá-los para a Haia. Durante pelo menos dois mil anos os europeus matavam e morriam de alma-e-coração; hoje, depois de meio século de Pax Atomica e de room service, não nos sentimos tentados a fazê-lo.

 

Juntamente com os americanos começámos a bombardear do ar os homens sanguinários e vestidos de preto que estão a devastar outra vez Síria e Iraque, assassinam barbaramente gente de outras seitas, querem massacrar todos os infiéis, tentam impor ao mundo o Islão mais fanático, estreito e cruel de que há notícia (pior ainda do que os outros monoteísmos) e, de vez em quando, degolam um dos nossos na televisão porque precisam de se convencer de que são homens e não rapazes. Ora os entendidos sabem que só com bombardeamentos aéreos não se conseguirá acabar com o Califado e se corre mesmo o risco de reforçar o seu prestígio e a sua atracção perante uma juventude muçulmana europeia alienada, que se sente cada vez mais excluída. Seria preciso mandar infantaria - “boots on the ground”, diz-se expressivamente em inglês – mas não há país ocidental que o queira fazer. Como, além disso, o moral e a competência das tropas locais deixam muito a desejar (à excepção das dos Kurdos, a quem o Tratado de Versailles de 1919 não concedeu pátria e nunca ninguém deu mimos) a aniquilação rápida do Estado Islâmico do Iraque e da Síria que seria higiénica e pedagógica para o futuro do mundo inteiro parece, no mínimo, muito improvável.

 

Se a História fosse uma corrida de estafetas regulada pelo Comité Olímpico Internacional não nos deixariam passar testemunho assim às gerações seguintes. Mas não é, o mal está feito e só nos resta esperar, como do jovem guerreiro cantado por Homero: “Que se possa dizer dele quando voltar da guerra: mas este é muito melhor do que era o pai.”

 

 


1.10.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O antigo regime e a revolução

 

 

Poucos anos antes ou poucos anos depois do 25 de Abril, num bar no Cais de Sodré onde o Albaninho Costa Lobo me levara a tomar um copo ao fim da tarde, entre fregueses compinchas do Albaninho, gente de negócios de barcos, havia um, devoto da memória de Salazar, que contou ter em casa discos com discursos dele que muitas vezes punha na grafonola e ouvia, a chorar.  

 

Tinha o falar franco e confiante dos praticantes de desporto (no caso, andebol no Sporting) e contava a sua história sem pompa nem pretensão. Lembrei-me hoje dessa passagem que me impressionara na altura. Nado e criado em casa de tradição republicana, que por Salazar nutria uma mistura de desprezo, desgosto e zanga; tendo por assim dizer posto entre parêntesis avô materno salazarista; dando-me com filhos de amigos dos pais de inclinação parecida e fazendo eu próprio amizades laicas e esquerdistas — nem eu nem os meus irmãos tínhamos sido baptizados — vivi a universidade, a morte do pai, a ida para Inglaterra, numa bolha oposicionista que não se desfez até à queda do regime. Vindo de Londres a Lisboa no começo de Maio de 1974, ao passar o controle de fonteira no aeroporto da Portela — “Seja bem-vindo a este país livre” disse o jovem guarda-fiscal ao devolver-me o passaporte — senti o que continua a ser a maior alegria da minha vida fora do foro privado.

 

Depois da revolução ter derrubado o antigo regime, porém, aprendi a ver Portugal de outra maneira. Episódios curiosos chegavam do mundo universitário: estudantes maoistas foram a Sintra convidar MS Lourenço para professor de filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, onde o regime anterior não o deixara ensinar. Acordo feito, até que à saída um dos maoistas perguntou “O Senhor Professor conhece o trabalho do camarada Estaline sobre lógica?” “Não, não conheço”. “Mas vai com certeza ler?” “Nem pouco mais ou menos”. Acordo desfeito. Alguns anos depois, numa aula prática com dez alunos, um deles contou a Mena Mónica de argumento espectacular num livro que vários deles tinham lido. “Num livro de quem?” perguntou a Mena. “Aqui da Joana”. Doutro mundo que eu também conhecera, o da agricultura alentejana, vinham notícias piores ainda e o que lá fui ver em 1976 mais me desencorajou. Portugal fora destapado, como dizia o meu chorado Horácio Menano. E dentro do tacho havia de tudo (incluindo alguns patriotas impolutos). Espartilhada pela Guerra Fria, a Revolução dos Cravos acabou em democracia (tal como a Primavera de Praga acabara em Inverno) e depressa me convenci de duas coisas. Primeira: não havia país mais parecido com Portugal depois do 25 de Abril do que Portugal antes do 25 de Abril. Segunda: ao contrário do que aprendera em casa dos pais, Salazar não tinha sido causa dos nossos males mas sim sua consequência.

 

5 de Outubro; 28 de Maio; 25 de Abril. Hoje, na União Europeia, com a tropa limitada aos seus deveres constitucionais, deixará de haver datas dessas e não teremos mais desculpas.

 

 

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