29.6.14

 

 

A visita do Governador Geral Dr. Jaime Alberto de Castro Morais a Damão, Novembro de 1923

 

Fotografia gentilmente cedida por Laura Castro Caldas a quem muito agradeço

 

 

 

 

 

 

 

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25.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um murro na mesa das voltas da História

 

 

Amigo meu (e dele) disse-me há dias que José Manuel Barroso deveria ter dado um murro na mesa para impedir o descalabro causado pelas políticas europeias de austeridade. A imagem é tentadora para quem ache, como nós, que Barroso vale muito mais do que poderá às vezes ter parecido ao longo da crise — e que o ramalhete de medidas que dá pelo nome de austeridade, em vez de tirar a Europa do buraco onde o carro-adiante -dos- bois dos apóstolos da moeda única a metera, a afundou ainda mais. (Só evangelistas de Goldman Sachs e nem todos — Mario Draghi, por exemplo, escapou ao sortilégio — acham que tudo vai pelo melhor, pelo melhor dos caminhos possíveis).

 

Infelizmente, se num momento de insensatez Barroso tivesse dado tal murro na mesa, além de provavelmente ter partido o punho não haveria mudado de um grau o rumo decidido pelos governos nacionais que são os patrões da União Europeia. A austeridade, nos termos em que foi concebida e aplicada a seguir à descoberta do estado calamitoso das contas gregas, correspondeu à vontade da Alemanha (que entrançou defesa dos seus próprios bancos com pregação de cruzada calvinista) e nenhum outro estado da União se lhe opôs. (A maioria dos governos era de centro-direita mas havia-os também de centro-esquerda). O que Barroso fez, com determinação e eficácia, foi pôr os meios e poderes de que a Comissão dispõe a trabalharem para ajuda dos países da eurozona que tinham de se entender sobre medidas comuns necessárias à salvação do euro e à  imunização deste a crises futuras semelhantes. Sem descurar o mercado interno, de todos. Não houve um dia de folga, um segundo de distracção e os resultados estão à vista.

 

Em tudo há modas; de vez em quando visionários encalham na realidade e a moda muda. Há três anos, quando se descobriu que havia erros fatais no estudo (de dois professores de Harvard) que inspirara os aiatolas da austeridade, o edifício estremeceu e já teria caído sem a teimosia prepotente da Alemanha. Barroso lembrou então que há limites políticos e sociais ao que teóricos advoguem e que sem solidariedade não haveria União Europeia; Berlim agastou-se (vários eurocratas também). Mas o pêndulo começara a ir em sentido inverso e assim continuará por algum tempo. Traduzido para inglês, o economista francês Thomas Piketty, focando a atenção na desigualdade, está a ser ouvido em lugares inesperados. Um condottiere chamado Matteo Renzi começa a meter respeito à Alemanha. O Papa jesuíta virou franciscano. A Europa está a mudar.

 

Mas quem sabe o futuro? Escrevo a uma légua da planura de Waterloo onde, fez na quarta-feira passada 199 anos, um projecto de união europeia capotou, desterrando o tenente corso que se guindara a Imperador para o exílio de Santa Helena. O lugar está sempre cheio de peregrinos, desde generais russos a freiras sicilianas. Tabuletas de restaurantes, inscrições em monumentos, sinais de estrada prestam homenagem a Napoleão Bonaparte.   

 

   

 

Imagem aqui

 

 

 

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22.6.14

 

 

Panorama, Revista de Arte e Turismo (1948)
Ilustração de Eduardo Anahory

 

 

 

 

 

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18.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem rei nem roque

 

 

Senhor antigo, dos verões de Sintra, indignava-se com a maneira como nos vestiam: “Filho meu, aos quinze anos, calça comprida, chapéu e gravata!”

 

Lembrei-me dele por causa da sucessão do meu amigo Zé Manel na Comissão de Bruxelas. Como está hoje quase esquecido, a União Europeia foi inventada para acabar de vez com guerras entre alemães e franceses que fizeram milhões de mortos. Tarefa difícil porque a guerra está-nos na massa do sangue (21 anos depois do “Nunca Mais!” jurado a seguir à Primeira Guerra Mundial, começou entusiasticamente a Segunda) mas facilitada em 1945 por duas razões. A Alemanha, rendida sem condições e dividida, deixaria por muitos anos de poder apoquentar fosse quem fosse. E terror salutar de Estaline fazia europeus ocidentais entenderem-se como nunca se tinham entendido antes (nem depois: se não houvesse União Europeia não a teríamos inventado agora). Plano Marshall e guarda-sol nuclear ajudavam a firmar a construção; Washington nessa altura sabia o que queria.

 

De caminho, criou-se o Parlamento Europeu que, desde 1979, passou a ser eleito por sufrágio universal. O que se passou a seguir não tem pés nem cabeça. Como, de 5 em 5 anos, a percentagem de votantes nele ia descendo sempre, os governos nacionais — eleitos, esses sim, com participações significativas de votantes — outorgavam-lhe cada vez mais poderes, na esperança de ganharem eleitores. Mas 9 eleições em 45 anos só os foram perdendo. E, por fim, o paradoxo deu nó-cego. O Parlamento — de calça comprida, chapéu e gravata como os crescidos — alegando, de má-fé, mais legitimidade democrática do que os governos, arroga-se o direito de designar o novo presidente da Comissão. Muitos governos, desta vez cheios de bom senso, não irão nisso. O ambiente é de cortar à faca. A decisão final será de Ângela Merkel (as coisas são o que são: o domínio da Europa que Berlim não ganhou em 11 anos de duas guerras mundiais conquistou-o desde a reunificação em 15 anos de paz). Se ela pender para os governos o Parlamento chumbará o candidato e abrirá crise constitucional que durará muito tempo. Se pender para o Parlamento não haverá crise constitucional mas o crédito das instituições europeias nos mundos dos negócios e da política levará rombo irreparável (sem falar da provável saída do Reino Unido, privando-nos da sua sensatez e deixando-nos à mercê de rigidezes alemãs e fantasias francesas).

 

Briga de comadres num canto do mundo apostado em perder o poder que ainda tenha? Talvez. Mas tudo seria menos grave se os Estados Unidos continuassem convencidos de que a sua hegemonia era boa, não só para americanos e seus amigos mas também para o mundo em geral. Duas presidências catastróficas seguidas talvez levem os yankees a recolherem a penates — embora separações assim sejam como divórcios quando há filhos pequenos. Certas obrigações perduram, diz-me amiga perspicaz que a vida moderna doutorou em fraldas antes de doutorar em filosofia. Deus a ouça.

 

 

 

   

  

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11.6.14

 

 

Yalta, 1945

A Crimeia era a sala de visitas do Kremlin

 

 

 

 

 

 

Olivença sur mer?

 

 

Pedro Monjardino (pai do João e do Carlos) era homem sábio que usava regras simples para primeira abordagem de problemas complicados. Por exemplo, quando no hospital, no consultório, na clínica, alguém espavorido o avisava “Ai Senhor Doutor vem aí um maluco!”, Pedro que era alto e forte, pegava numa cadeira, levantava-a no braço direito e esperava. Das vezes que tal aconteceu, o tresloucado acalmou e deixou-se levar a bem.

 

O Ocidente – a que os alemães ainda pertencem – embora mais lento e menos decidido do que o meu chorado Pedro, conseguiu fazer o homem do Kremlin vislumbrar a bordoada que levaria se não ganhasse juízo. De há semanas para cá Putin começou a emendar a mão; as relações entre Kiev e Moscovo irão melhorar — Países Bálticos e Moldova darão suspiros de alívio — porque entendimento entre os dois é inevitável (e benéfico quer para eles, quer para nós). Mas levará o seu tempo porque ambos vêm de muito longe. Ministro ucraniano explicou-me um dia: “Na universidade estudávamos materialismo dialéctico, marxismo-leninismo, planificação económica, história dos regimes comunistas, Marx, Engels, Lenine, em suma, sabíamos tudo sobre como transformar um regime capitalista num regime comunista. Mas não sabíamos nada sobre o contrário”.

 

Não se irá, porém, a caminho de paz perpétua de Kant enquanto durar a ocupação da Crimeia pela Rússia. Nem é sarilho fácil de resolver. Por um lado, com desplante pré-moderno, a Rússia quebrou compromissos internacionais solenes que tinha assumido quando da independência da Ucrânia após o colapso da União Soviética e a comunidade internacional não pode senão condená-la. Foi golpe dado à legalidade nas relações entre estados que se procura promover desde a fundação das Nações Unidas — com ânimo novo depois do colapso da União Soviética — para bem de toda a gente e de todos os países. Por outro lado, a vasta maioria dos habitantes da Crimeia (salvo cerca de 10%, tátaros que Estaline perseguiu, deportou e entretanto voltaram) sente-se russa. A Crimeia faz parte do imaginário da Mãe Rússia. Não lhes passará pela cabeça voltar à Ucrânia.

 

A Crimeia não fora conquistada pela Ucrânia, fora-lhe oferecida pela Rússia em 1954 e houve casos no mundo mais ou menos comparáveis, como Macau. Quando Robin Cook disse a Madeleine Allbright que os advogados dele pensavam que o bombardeamento da Sérvia em 1999 era ilegal ela respondeu-lhe que arranjasse outros advogados. Assim, na Crimeia, se Putin indemnizasse pelos estragos e não se tornasse a portar mal (dois grandes ses), dever-se-ia encontrar saída airosa para a crise: talvez outro Krutschef ucraniano pudesse oferecer agora a Crimeia à Rússia, recebendo parte da sua riqueza energética em contrapartida. Talvez advogados pudessem negociar arranjo viável que salvasse faces e enchesse bolsos.

 

A Crimeia é grande e rica demais para ficar num limbo, espécie de Olivença à beira do Mar Negro, de que Moscovo e Kiev pudessem fingir que se esqueciam.

 

 

 

 

 

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10.6.14

 

 

10 de Junho: dia de Portugal — dia de São Camões ... Depois de muitos anos e de alguns regimes que trou­xeram cambiantes ao calendário cívico e suas combi­nações com o litúrgico, a Nação canonizou civicamente o seu épico fixando no dia da sua morte o da comuni­dade nacional. Por acaso, três dias antes do dia onomás­tico de António, o santo português por excelência, paralelamente tornado dia festivo de Lisboa, embora superado no calendário municipal pelo do mártir Vicente e seus corvos domésticos.

 

Porquê a data da morte do poeta piedosamente embrulhado num lençol de esmola, diz a lenda? Porque é a única data certa do seu bilhete de identidade, tão falho de dados firmes como abundante em desgraças e aventuras. Isto significa simbolicamente que uma glória a tal nível se paga a preço de sangue. O fanal humano de um povo tira a sua luz das cinzas de quem o encarnou: Que não é prémio vil ser conhecido, etc.

 

Mas, apesar de tudo, Camões não é uma glória popular. Ou, se o chega a ser, é indirectamente. O povo, sem acesso ao estilo grandíloquo e corrente de Os Lusíadas, só reteve o perfil sofredor e aventureiro do autor. Teve de o assimilar à escala dos seus heróis de terreiro,  dos que  com  ele  compartilham a  sorte mofina e a existência bulhenta em feiras e procissões. Por isso o verdadeiro altar cívico de Camões, embora nem de longe florido como o altar de Santo António nas escadinhas da Alfama, é o tabuleiro de faianças em que verdeja o busto de barro do épico, barbado e de pálpebra descida. Em vez do resplendor dos santos — a coroa de loiros dos poetas.

 

A ingénua, terrível profanação vai mesmo muito mais longe. Tenho diante de mim, sempre que escrevo, uma caneca de loiça — a verde, branco e castanho—, uma caneca de vinho que em vez de um frade glutão representa Camões naquele preparo. Bigode e barba parecem acabados de cofiar, nos ritos do beber das tabernas. Oferta que devo a António Duarte, que se documenta no povo para esculpir os nossos maiores com verdade e com força.

 

Mas a irreverência resulta afinal num símbolo profundo e ousado. O oleiro imaginário converte o cantor de Baco em Baco mesmo. Camões, soldado de África,  náufrago na China, com uma pobre mulher indígena por amparo, tendo acutilado um homem dos arreios do Paço numa procissão da Corte e sido por ele perdoado (como fazem os pobres uns aos outros nas suas fáceis brigas);  Camões, que Diogo do Couto conheceu «vivendo de amigos» na ilha de Moçambique, como tanto inadaptado a repatriar de esmola — acaba naturalmente em caraça de caneca ao alcance de fei­rantes e turistas.

 

[...] Promovendo Camões ao absoluto biográfico da encarnação dos seus valores, o povo português como que oculta a si mesmo uma culpa ancestral. O que nos contemporâneos do poeta foi displicência ou incúria, fraca atenção a uma luz que tentava fazer de nós farol do Mundo, tornou-se, na posterioridade, um zelo repentino em sublimar o homem tratado pessoalmente como mesquinho. É certo que ele mesmo se requintou numa conduta precária, ele mesmo desdenhou o bom comportamento: Erros meus, má fortuna, amor ardente / Em minha perdição se conjugaram. A alquimia da grandeza humana por representação pessoal da grandeza de todos tem esse preço de sangue.

 

No fim de contas o que é, que significa Camões?

 

Pois é o «lugar onde» da consciência de missão de um povo à porta dos Tempos Modernos, criador de cami­nhos, de universalidade, de comunhão humana à escala do Globo Mundo, como diz Fernando Pessoa. Através de um programa de interesses e estímulos materiais, de «dilatação de império»? Sem dúvida. E como não? Deus escreve direito por linhas tortas, diz-se. O «direito», o justo, o generoso da humanização pelo enlace dos conti­nentes estanques durante milénios, fechados historica­mente em si mesmos, sem trato nem troca, teve de passar por algumas vias duras. São as «linhas tortas» da história. Descrevê-las, endireitá-las na boa intenção que tudo justifica e resgata, fazer do farol de Santelmo a pequena luz moral que prevalecerá no fim — foi o segredo  de Camões.  Na voz de Os Lusíadas tudo é «sublime», «sublimado», «excelente», «supremo». As estâncias do poema são uma oficina verbal de transfor­mações prodigiosas. Mas os sofrimentos do poeta, que andou nas toldas dos navios como os seus heróis do mar, autentica-as. Sendo sábias demais, o povo povinho mal as sente. Mas adopta o poeta quase cego, pobre como ele mesmo, e basta. E até quando traz a sua triste verónica a uma caneca de vinho o venera a seu modo.

 

[11.6.1971]

 

Vitorino Nemésio

in  Jornal do Observador

© Editorial Verbo e Vitorino Nemésio, 1974

 

 

 

 


6.6.14

 

 

  1942-2014

 

 

 

Agora que a poeira começa a assentar sobre o desaparecimento de Vasco Graça Moura, sobre tudo o que se tem dito e escrito acerca desta personalidade, há duas ou três coisas que apetece remoer.

 

Ao amplo e merecido consenso público que em volta desta figura maior da cultura portuguesa se suscitou, num primeiro momento justificado pela óbvia proximidade da sua morte, sucederam-se as declarações, os artigos, as crónicas, os comentários de louvor póstumo. E foi aí que começaram a aparecer as frases condicionais e as conjunções adversativas. Os ses e os mas.

 

Um sortido rico de colunistas encartados tratou de vir a terreiro tirar o chapéu, que decerto não usa, e curvar-se em vénias de amplitude igualmente variada.

 

Mas, porém, contudo, todavia, no entanto, não obstante.

 

Uma grande figura apesar de não ser de esquerda. Incompreensível.

 

E essa incompreensão é já uma reticência, uma sombra, uma prevenção. Uma nódoa na iminência de alastrar.

 

Pior do que isso, alguns vieram ensinar às crianças e ao povo que o homem foi realmente uma grande figura, muito embora dado ao exagero. Veja-se o que defendeu em política. Veja-se esta coisa do acordo ortográfico. Fúria demasiado grande e sonorosa para assunto tão pouco merecedor. Se era razão para tanto empolamento. Uma vocação de cavaleiro andante perdida em damas de pouca categoria. Mas, claro, isso não tira que foi uma figura importante, então não, poeta e etecetera.

 

Irra!

 

A menorização deliberada da intervenção pública de VGM, quer na vertente da acção política, quer sobretudo na oposição ao acordo ortográfico, é um mau serviço prestado à memória do escritor.

 

Mau serviço porque em ambos os casos, VGM colocou empenhamento e seriedade no que apoiou e no que contrariou. E essas suas posições, ainda que por vezes conjunturais, esses seus combates, são parte inalienável do seu legado intelectual.

 

A desvalorização da questão do acordo ortográfico como questiúncula irrelevante, como caturrice contrária aos ventos da História e do Progresso, e até como toleima, é um «branqueamento» da sua natureza eminentemente política, e não linguística, e significa o triunfo — mais um — do novo-riquismo nonchalant, que se crê muito moderno e se supõe terrivelmente sofisticado.

 

Como queria, e cria, o escritor, jornalista e panfletário austríaco, Karl Kraus, talvez seja mesmo verdade que a decadência dos povos se evidencie em primeiro lugar no descaso da língua: nos seus usos, abusos e desusos. João de Araújo Correia, escritor menos obscuro do que muitos que por aí se pavoneiam, escreveu: «Sim, o povo é que faz as línguas. Mas quem as desfaz é a canalha». E, por isso, a resistência, porventura vã, de Vasco Graça Moura ganha um significado maior, político e cultural. Resistência, cuja derradeira linha de defesa é a sua própria obra poética, romanesca e ensaística que brota de amor ciente e paciente por esta tão desconsiderada língua — «no teu próprio país te contaminas/ e é dele essa miséria que te roça./ mas com o que te resta me iluminas».

 

 

Jorge Colaço

 

 

 

 

Nota:

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Conteúdos em Português e Retentiva. Sinto-me honrada e feliz pelo facto de ter escolhido publicar este texto aqui.

 

 

 

 

 

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4.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

E agora, José?

 

 

Verso de Carlos Drummond de Andrade, que às vezes me vem à cabeça depois de chatices. Desta vez, das eleições europeias. Conhecido meu de Oxford receia que historiadores futuros lhes chamem o toque de alvorada que não acordou a Europa (“wake up call” poder-se-ia traduzir por “campainha de despertador” mas seria pouco solene e muito individualista). A avaliar por recriminações, hesitações e ausência de decisões dos chefes europeus reunidos em Bruxelas a 27 de Maio, dois dias depois da divulgação dos resultados, o receio do homem de Oxford é capaz de ser fundado.

 

Ou talvez não seja. Com história 30 vezes mais curta do que a da Santa Sé, o “processo europeu” começa a assemelhar-se-lhe na capacidade de resistir quer a golpes dados de fora — por exemplo, a agressividade russa na sua vizinhança próxima e no fornecimento de energia — quer a golpes dados de dentro — por exemplo, ‘não’ em referendos na Holanda e na França em 2005; instauração precipitada da moeda única e, a partir de 2010, uso moralista e contraproducente de austeridade para acudir ao estrago daí resultante. Palpita-me que a minoria eurofóbica agora instalada em Estrasburgo, com brigas internas e propostas de medidas nocivas para os países, não será, por definição, cavalo de Troia, e dará mais incómodo do que prejuízo.

 

Mas exame de consciência ou autocrítica ou catarse de quem dirige a Europa política (28 governações de potências pequenas e médias, três das quais infelizmente convencidas de que ainda são grandes, mais a intendência semi-politizada de Bruxelas) é urgente. Desde que o colapso da União Soviética lhes tirou dos ossos o medo de Deus e, do mesmo passo, a Alemanha geopolítica ressuscitou, reunificada, têm dado muito má conta do recado. O voto populista de Maio, à direita e à esquerda, meteu-lhes um susto mas — tal como, na primavera de 1914, os governantes das grandes potências europeias julgavam que, saídos em paz de várias crises graves na última década, dessa vez também não haveria de ser nada — arriscam-se a não fazer o preciso, já e bem.

 

Nós, os da União, somos 7% da população mundial e criamos 25% da riqueza. Mercado de 500 milhões de habitantes, com comércio externo florescente, ditamos também ao resto do mundo as regras de concorrência. E procuramos fortalecer-nos mais ainda, metendo economia digital e energia no mercado interno. O futuro deveria ser nosso.

 

Mas o gigante económico é anão político, cheio de desentendimentos, sem uma voz única para o exterior. Quanto a defesa, se fossemos atacados e ninguém nos acudisse ou nos rendíamos logo ou nos matavam todos num Credo.

 

Não apareceu ainda quem desse o tom certo. Merkel é sinónimo de austeridade. Cameron quer tanto agradar aos seus que não se dá ao respeito. Hollande, nem os seus o querem. Renzi? E, antes de escolherem o novo feitor, deveriam explicar o que cada um de nós perderia sem o poder económico da União e o que ganharia se visionários da Europa ideal metessem a viola no saco.

 

 

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