28.5.14

 

 

 

 Soldados alemães encaminhando judeus para a morte, 1943

 

 

 

 

 

Antissemitismo

 

 

Sábado passado, um casal israelita, uma senhora francesa e um rapaz belga foram assassinados a tiro de kalashnikov no átrio do Museu Judeu de Bruxelas; o assassino e cúmplice que lá o levara sumiram-se de automóvel. No mesmo dia, à saída da sinagoga de Créteil, perto de Paris, dois irmãos judeus ortodoxos foram brutalmente sovados. Ataques físicos a judeus estão a aumentar na Europa desde há três anos. Tinham sido precedidos por anos de ataques verbais em panfletos, espectáculos e intervenções de um ou outro político.

 

O antissemitismo é uma das culpas pesadas da história da Europa: pogroms  na Rússia e na Europa Oriental a partir do século XIII; a Inquisição, expulsões e opressão de cristãos-novos em Portugal e em Espanha, do século XV ao liberalismo; em toda a parte menoridade cívica a que só a Revolução Francesa pôs cobro; nos anos 30 do século XX e durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler e o extermínio dos judeus, praticado na Alemanha nazi e em países por esta ocupada (crueldade inaudita na Roménia; zelo burocrático inexcedível nos Países Baixos). Depois do fim da guerra, dos julgamentos de Nuremberga, da criação de Israel, da definição de genocídio como crime contra a humanidade, o antissemitismo deixou de vigorar como norma ou costume aceitável em países europeus mas não foi completamente extirpado, continua lá, dormente ou, sobretudo à esquerda, metamorfoseado em oposição à acção — quando não à própria existência — do estado de Israel.

 

É difícil de extirpar por uma razão simples: aquilo que condenamos hoje por antissemitismo era a maneira habitual de tratar os judeus em toda a cristandade. E quando, a pretexto de defender interesses e direitos dos palestinos, gente protesta contra Israel e os sionistas, fá-lo muitas vezes recorrendo a mentiras inventadas pela polícia secreta do Czar Nicolau II, compiladas no chamado (e apócrifo) Protocolo dos Sábios do Sião, de que Hitler se serviu para convencer os seus compatriotas da existência de uma conspiração judaica que queria tomar o comando económico do mundo. As televisões dos países árabes — mesmo do Egipto e da Jordânia que reconhecem Israel — estão cheias de telenovelas que atribuem aos judeus esse propósito (e propósitos piores, como o rapto de crianças árabes para lhes beber o sangue). Em muita escola da região, o Estado de Israel não consta dos mapas. A opinião pública é sistematicamente alimentada por mentiras que impeçam ambiente propício à solução política do problema israelo-palestino. E a Europa vai pagando.

 

O antissemitismo europeu é mais subtil. Por exemplo, evoca o Muro de Berlim (que impedia alemães de Leste de fugirem do estado policial onde viviam) a propósito do muro que Israel constrói à sua volta (para impedir que terroristas lá venham assassinar homens, mulheres e crianças).

                

Austeridade, erradamente aplicada para tentar debelar a crise, faz vir à tona os nossos demónios. Vamos levar tempo a metê-los outra vez no fundo.

 

 

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21.5.14

 

 

 

Anúncio do cognac feito pela família de Jean Monnet, inventor da Europa moderna

 

 

 

 

 

Votos, omeletes e ovos cozidos

 

 

De Gaulle menosprezava a construção europeia: as nações eram ovos cozidos e com ovos cozidos não se faziam omeletes.

 

Salvador da França juntamente com os comunistas contra o governo de Vichy, tratando depois da vitória a Alemanha de Bona com magnanimidade (gostava tanto da Alemanha que dizia preferir que houvesse duas), deixou o poder sobre quezílias da paz em 1946, atravessou o deserto em Colombey-les-Deux-Églises de onde o foram buscar em 1958 para presidir à República e salvar segunda vez a Pátria. Em 1969 voltou para Colombey e, morrendo a fazer uma paciência de cartas em 1970, foi poupado à reunificação alemã.

 

Quando Mitterand, inquilino do Eliseu da altura, se deu conta do risco desta já não havia nada a fazer – no Kremlin, Gorbachev fora persuadido por um Kohl determinado como Bismark e pródigo como o Emir do Qatar; de Washington, Bush pai forçara a mão a Londres e Paris. Chirac, sucessor de Mitterand, percebera que tinha acabado a papa doce e começara tentativas de reintegração da França na estrutura militar da OTAN que Sarkozy finalizaria enquanto, colando-se a Angela Merkel, fingia que ainda mandava na Europa. François Hollande tentou entrada de leão mas terá saída de sendeiro.

 

A União que vai a votos esta semana para o Parlamento Europeu não é a do tratado de Maastricht. Não por termos passado de 12 a 28 países mas por duas outras razões. A União Soviética colapsou e acabou o medo dela que unia o Ocidente (Putin é incómodo mas não mete medo comparável porque, por um lado, não prega ideologia subversiva e, por outro, conta com quinta coluna de industriais alemães, banqueiros ingleses e vendedores de armamento franceses ao pé dos quais os partidos comunistas mais estalinistas do Ocidente durante a Guerra Fria eram brincadeiras de criança). E à nossa Alemanha Ocidental com a capital em Bona, discreta para se fazer perdoar pelo Holocausto e mais crimes, sucedeu país da Europa Central com capital em Berlim que retomou alento, herdou tiques geoestratégicos (do reconhecimento da Croácia em 1992 até ao moralismo luterano/calvinista com que sufocou os países do Sul 20 anos depois), manda mais na União do que qualquer outro mas continua uma democracia exemplar.

 

Hoje, em autocarros de Bruxelas, anúncios exortam-nos a votar para escolher “o governo da Europa”. É propaganda mentirosa (o governo da Europa está nas capitais dos países e não nas instituições de Bruxelas) mas não é só propaganda. Na selva da globalização nós, os europeus, só nos safaremos unidos. E contra nacionalismos populistas a União só terá força se os povos sentirem que precisam dela. O caminho passa também pelo Parlamento Europeu por pouco votado, frívolo, irresponsável e distante que nos pareça hoje.

 

Perante concorrência desenfreada e impiedosa do resto do Mundo está-se a descobrir que os ovos afinal talvez não estivessem tão cozidos como isso tudo. A omelete não será baveuse mas, se não a quisermos comer, morreremos de fome.

 

 

 

 


18.5.14

 

 

  Alix de Saint-André

 

La puerta se abre a todos,

enfermos y sanos

no sólo a católicos,

sino aun a paganos, a judíos, herejes,

ociosos y vanos;

y más brevemente, a buenos y profanos.

 

                                                     Poema del siglo XIII

 

 

 

On peut se croiser, mais on n'habite plus dans le même monde que les automobilistes. Pendant qu'on tournicote sans fin sur nos sentiers, de village en village, ils foncent tout droit d'une ville à l'autre. Si j'avais voulu ne pas me perdre et gagner du temps, j'aurais pu aussi longer les routes nationales. Il y en a toujours une pas loin, les panneaux sont sans mystère, cela va plus vite et c'est plus court. Mais le raccourci se paye cher: on s'explose les articulations et les pieds à marcher sur la chaussée, on respire le parfum des pots d'échappement, et l'on passe à côté de l'essentiel. Des lieux et des gens. Le chemin n'est pas fait pour aller vite d'un point A à un point B, il est fait pour se perdre, et perdre du temps.  Ou prendre  son  temps,  si l'on veut. Retrouver un monde à taille humaine et ses humains habitants. Ses animaux et ses végétaux. Chaque nouvelle erreur est une nouvelle ren­contre, chaque pas sur un sentier en creuse davantage l'existence sur la croûte terrestre, et l'on zigzague autour de la modernité à quatre kilomètres à l'heure. A la vitesse (si l'on peut dire!) du pas humain. Dans un autre espace-temps.

 

Le chemin nous fait vivre dans un monde parallèle. A la fois tout près des villes, et au milieu de nulle part. Un monde de petits sen­tiers et de hameaux qui festonne les grandes routes. Un monde de maisons d'hôtes et de gîtes ruraux, où évolue aussi une population paral­lèle, qui a plaisir à être là où elle est. A vous montrer combien c'est beau chez elle. Et qu'il n'y a rien de meilleur que sa cuisine... Car si le chemin ne pousse pas au mysticisme, il ne passe pas davantage par l'ascèse, Dieu merci! Jésus a commencé sa carrière miraculeuse en changeant l'eau en vin aux noces de Cana. Et non seule­ment sa mère était là, mais c'est elle qui l'y a poussé... L'avantage parfois douloureux de redé­couvrir la faim et la soif donne aussi l'occasion de se mettre à table chaque fois avec grand appétit, et sans aucun souci de régime : un vrai miracle!

 

Alix de Saint-André

in  En avant, route!

©Éditions Gallimard, 2010

 

 

 

 

 

 

 

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14.5.14

 

 

 

Domingo Ortega

 

 

 

 

 

 

O saber dos antigos

 

 

“Os velhos mestres estabeleceram as regras” lembrou o professor, irritado com modernices do caloiro. “Quando eram novos” disparou o caloiro e pensou com os seus botões: Game, set and match. Era numa escola de belas-artes de Londres, passou-se há mais de meio século e o professor já era anacrónico.

 

Nas artes plásticas, a boa-vai-ela tinha começado em França, com “O Salão dos Recusados” dos impressionistas em 1863. Pintura, escultura, desenho não pararam desde aí de viver em sobressalto; arquitectura e artes decorativas entraram também na voragem (incluindo a fantasia de Gaudi em Barcelona, inimitável à época porque em Paris ou Londres ou Berlim a mão de obra era muito mais cara do que na Catalunha). Na música e artes conexas, na literatura, o vendaval começara um pouco mais tarde mas o vento também não caiu ainda.

 

Antes, tudo fora diferente. Numa conferência pronunciada no Ateneo de Madrid, em 1950, sob o título “El Arte del Toreo” (desculpando-se por ter ousado saltar de espontâneo para arena tão sábia) o grande matador Domingo Ortega definiu génio como a acção de uma personalidade excepcional dentro de normas que são eternas. Desde o começo do toureio a pé – prática plebeia libertada no século XVIII do toureio equestre dos fidalgos – segundo Ortega, as normas da arte eram quatro: parar, templar, cargar y mandar. E dizem-me que continuam a sê-lo nos nossos dias. (Ao contrário do que acontece noutras artes, em tauromaquia há limites impostos pela realidade ao sucesso, até à própria viabilidade do experimentalismo. Como lembrou Jacques Lacan num momento raro de lucidez: “Le réel c’est quando on se cogne”).

 

O que aconteceu às artes aconteceu à educação. Durante milénios educar crianças consistia em tentar fazer com que os filhos ficassem iguais aos pais e as filhas iguais às mães. Na Europa e nos Estados Unidos da América, a revolução industrial inglesa e a revolução política francesa acabaram com essa simplicidade. A complexidade que lhe sucedeu e a pouco-e-pouco se espalhou por todo o mundo foi-se tornando mais variada, alargando-se agora às virtualidades do mundo digital. Toca a todos, premeia algumas originalidades e quando a Áustria, que perdeu o império na Primeira Guerra Mundial e os judeus na Segunda — isto é, que ficou sem corpo nem alma — se reencontra num transsexual com voz de soprano e barba de Capitão Haddock, talvez “normas eternas” tenham ido parar às urtigas — ou talvez os austríacos estejam enfim em paz uns com os outros e com o mundo.

 

Mas aprendi muito com a velhice: com a dos outros, em novo, mais do que com a minha, agora. Até coisas práticas. Quando o PREC nacionalizou Pancada & Moraes e o meu chorado Albaninho Costa Lobo levou grande rombo financeiro não lhe ouvi queixas mas notei uma mudança sensata. Antes de almoço no Belcanto passou a mandar pôr no copo whisky Red Label e não, como antes, Black Label (quer um quer outro com água lisa natural). Talvez gente nova não fosse tão avisada.

 

 

 

Imagem: aqui

 

 

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10.5.14

 

 

 Julian Barnes

 

 

First Nietzsche, then Nadar. God is dead, and no longer there to see us. So we must see us. And Nadar gave us the distance, the height, to do so. He gave us Gods distance, the Gods-eye view. And where it ended (for the moment) was with Earthrise and those photographs taken from lunar orbit, in which our planet looks more or less like any other planet (except to an astronomer): silent, revolving, beautiful, dead, irrelevant. Which may have been how God saw us, and why He absented himself. Of course I don't believe in the Absenting God, but such a story makes a nice pattern.

 

When we killed — or exiled — God, we also killed ourselves. Did we notice that sufficiently at the time? No God, no afterlife, no us. We were right to kill Him, of course, this long-standing imaginary friend of ours. And we weren't going to get an afterlife anyway. But we sawed off the branch we were sitting on. And the view from there, from that height — even if it was only the illusion of a view wasn't so bad.

 

We have lost God's height, and gained Nadar's; but we have also lost depth. Once, a long time ago, we could go down into the Underworld, where the dead still lived. Now, that metaphor is lost to us, and we can only go down literally: potholing, drilling for minerals, and so on. Instead of the Underworld, the Underground. Some of us will go down into the earth at the end of it all. Not very far, just six feet down; except that the scale of depth is lost as you stand there and throw flowers down on to a coffin lid, whose brass nameplate winks back at you. Then, it looks and feels a long way down, six feet.

 

 

Julian Barnes

in Levels of Life

Jonathan Cape 2013

© Julian Barnes

 

*

 

 

 

Primeiro Nietzsche, depois Nadar. Deus morreu e já não está lá a ver-nos. Por isso temos nós de nos ver. E Nadar deu-nos a distância, a altitude para o fazermos. Deu-nos a distância de Deus, a visão do olhar de Deus. E onde chegou (até agora) foi ao Nascer da Terra e àque­las fotografias tiradas da órbita lunar, nas quais o nosso planeta parece praticamente igual a outro planeta qual­quer (exceto para um astrónomo): silencioso, rotativo, lindo, morto, irrelevante. Que pode ter sido como Deus nos viu e a razão pela qual se ausentou. E claro que não acredito no Deus Ausente, mas uma história assim é um belo paradigma.

 

Quando matámos (ou exilámos) Deus, matámo-nos também. Demos realmente por isso, na altura? Nem Deus, nem vida depois da morte, nem nós. Fizemos bem em matá-lo, é claro, ao nosso amigo imaginário de longa data. Também não íamos ter vida nenhuma depois da morte. Mas serrámos o ramo onde estávamos sentados. E a vista de lá, daquela altura — ainda que fosse uma vis­ta ilusória — não era assim tão má.

 

Perdemos a altitude de Deus e ganhámos a de Na­dar; mas também perdemos profundidade. Outrora, há muito tempo, podíamos descer ao Submundo, onde os mortos continuavam a viver. Hoje, para nós, essa metá­fora perdeu-se e só podemos descer literalmente: espe­leologia, extração de minério e assim por diante. Em vez do Submundo, o Metropolitano. Alguns de nós des­cem à terra, quando tudo acaba. Não é muito, só um me­tro e tal; mas a escala de profundidade perde-se, quando estamos ali de pé a atirar flores lá para baixo, para a tampa de um caixão, e o nome na placa de latão nos res­ponde com um piscar de olho. Então parece-nos e senti­mos que é muito fundo, um metro e tal.

 

 

Julian Barnes

in Os Níveis da Vida

© 2013 Quetzal Editores/ Julian Barnes

 

tradução de Helena Cardoso

 

 

 

 

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7.5.14

 

 

 

 Jardim-Escola João de Deus aqui

 

 

 

 

 

Óleo de fígado de bacalhau

 

 

História de crianças de que me lembro às vezes, quando vem a propósito. Talvez seja o caso agora — ou talvez não — mas se o for, o menino chamar-se-ia Portugal e estaria num infantário chamado “Jardim-Escola Europa do Sul” onde todos eram obrigados a tomar óleo de fígado de bacalhau de manhã. Rabiavam, mordiam a colher, cuspiam, barafustavam, salvo o menino Portugal que engolia o óleo sem caretas nem protestos. Sempre e com tanta compostura que um dia os outros meninos lhe perguntaram porquê.

 

“Cada colher que tomo, a minha mãe dá-me cinco tostões”.

“E o que é que fazes com os cinco tostões?”

“Junto e quando há dinheiro que chegue a minha mãe compra outra garrafa de óleo de fígado de bacalhau”.

 

Deixado pelos métodos heroicos de tratamento preconizados pela troika com dívida muito maior do que a que tinha antes de começar a ser tratado, desenha-se no futuro de Portugal outra grande garrafa de óleo de fígado de bacalhau. Para usar imagem de Vaclav Havel, começa a ver-se o túnel ao fundo da luz. E, para usar pergunta de Lenine, o que é que se tem de fazer?

 

Antes porém de, embalados por metáforas, nos pormos à procura de soluções, é preciso saudar o povo português. Há nele uma capacidade de bom-senso que sacrifica impulsos do presente a benefícios no futuro e se manifesta quando menos se espera. Nos últimos 40 anos aconteceu-nos duas vezes: pouco depois do 25 de Abril, no acolhimento aos retornados das antigas colónias africanas — certamente o feito colectivo mais notával do país depois do das descobertas do século XV — e agora na aceitação estoica dos rigores da austeridade imposta pela Alemanha, condição moralista sine qua non de deitar uma corda que ajudasse a rebocar a nossa jangada. (E saudar também as autoridades portuguesas que aplicaram à população as medidas mais duras de que há memória ou notícia, nem sempre com habilidade política mas convencidas, a meu ver bem, de que, sem elas, os grandes e as instituições internacionais nos teriam deixado afogar).

 

Para o menino não ter de encetar outra garrafa seria preciso que grande parte da dívida fosse, para efeitos práticos, perdoada. Numa altura em que economistas de diferentes seitas passaram a aplicar os seus intelectos à desigualdade cada vez maior de ricos e pobres em todo o mundo, considerada enorme problema (se bem que, até agora, não haja prova que tal torne sociedades mais agressivas ou conduza a revoluções) é provável que se crie ambiente para isso. Com “O capital no século XXI” do francês Thomas Piketty — grande trabalho de investigação mas fraco guia de acção política, chamou-lhe The Economist — a atravancar imaginações de académicos e de governantes, a visão egoísta e, para além do curto prazo, nociva para todos, da Alemanha de Ângela Merkel perderá o domínio da cena.

 

Historiadores futuros hão de explicar melhor do que nós porque é que os governantes da União Europeia seguiram cegamente a Alemanha no rumo desastroso da austeridade.

 

 

 

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5.5.14

 

 

O partido exigia não apenas todo o nosso tempo, como sentia que a nossa entrega só era total se também puséssemos à sua disposição os nossos bens. «É forçoso dizer que grande numero de camaradas (...) procuram modos de vida cómodos; estabelecem por vezes para a sua vida privada padrões de existência abastada e não se importam, nalguns casos, de esbanjar dinheiro inutilmente», escrevia-se numa resolução do comité central. Pior, pecado maior: «alguns camaradas não prescindem e até esperam ansiosamente as férias, não se preocupando com o cumprimento das suas tarefas partidárias e revolucionárias» algo inaceitável, pois «a luta de classes e a revolução jamais poderão ir de férias». A simples ideia de ter férias tinha assim «natureza burguesa e não proletária» e o seu efeito seria semelhante «ao causado pela introdução de droga, ou pela corrupção moral num exército em guerra». Era pois necessário ser muito rigoroso, em nome da «robustez revolucionária», com coisas como «as esquisitices com a comida e com o dormir» ou o «vício de viajar comodamente». Tudo porque «ser comunista não é só um comprometimento, é, antes e acima de tudo, uma transformação real e constante». Ser comunista também implicava «montar a sua vida de acordo com os interesses do Partido e da Revolução», subordinar «incondicional­mente os interesses individuais aos superiores interesses do Partido» de forma a realizar a «condição de fiel ser­vidor do povo pobre». Ser comunista é «sê-lo em todos os momentos, em todas as tarefas e para a vida inteira». Por isso, «o egoísmo pessoal, a vida privada, o tempo li­vre, o aconchego familiar são umas vezes obstáculos, ou­tras vezes desculpas para não se dar ao partido aquilo de que precisa».

 

Exigia-se assim uma espécie de renúncia absoluta ao mundo exterior, uma renúncia que não era imposta pe­las condições concretas da luta política — em ditadura, quando era necessário passar à clandestinidade para fu­gir à perseguição da polícia, a renúncia à vida normal era inevitável —, mas por opção tomada para a vida. Entre­tanto, reforçavam-se os mecanismos destinados a impor o «centralismo democrático» com um objectivo que seria assumido por alturas do II Congresso, em 1977: «conse­guir a homogeneização das ideias e práticas proletário-revolucionárias, marxistas-leninistas», e «romper com resistências que subsistem na aplicação da linha táctica». Ou seja, para uniformizar o pensamento dos militantes, calando todas as vozes internas dissonantes.

 

 

*

 

Ainda hoje, quando olho para a forma muitas vezes arrogante como a esquerda jacobina olha para todos os demais, quando sinto como no debate público todos os que não se filiam, de uma maneira ou doutra, na tradição estatista e dirigista da esquerda sofrem uma espécie de capitis deminutio por, supostamente, não se preocuparem também com o bem da sociedade, recordo a lógica mistificadora da "superioridade moral".

 

 

José Manuel Fernandes

in Era uma vez...a revolução

© 2012 José Manuel Fernandes e Alêtheia Edições

 

 

 

 

 

 

 

 

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3.5.14

 

 

 

 

Ministério dos Negócios Estrangeiros

Foto: Marlene Oliveira

 

 

 

No plano internacional, o poder político saído do movimento militar do 25 de Abril de 1974 foi rapidamente reconhecido pelos principais aliados e países amigos de Portugal, assim como por outras potências com as quais o país não mantinha relações diplomáticas.

 

Os primeiros contactos para dar a conhecer as grandes linhas do Programa do MFA e as intenções da Junta da Salvação Nacional foram em boa medida conduzidos por Mário Soares (recentemente regressado do exílio), em breve nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Provisório. A diversificação das relações exteriores de Portugal, o estreitamento dos laços com os países europeus, e o apoio ao dossier da descolonização foram algumas das principais prioridades das novas autoridades nos meses seguintes.

 

Para além das novas perspectivas geradas pela mudança de regime (das quais se destacaria a aproximação às Comunidades Europeias a partir de 1977), o 25 de Abril constituiu igualmente um momento de abertura no tocante à própria actividade diplomática, com os novos concursos de admissão ao MNE a tornarem possível o ingresso das mulheres na profissão.

 

No site da Associação dos Amigos do Arquivo Historico-Diplomático dão-se a conhecer alguns documentos relativos a este período, bem como uma tabela que dá conta da expansão das relações diplomáticas do país após 1974.

 

 

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