29.3.14

 

 

 

Le Métis de Dieu

Ficção/ Drama

 

Domingo, 30 de Março 2014 às 17h30

 Cinema S. Jorge, Sala Manoel de Oliveira 

 

 

A surpreendente história de Jean-Marie Lustiger, filho de emigrantes judeus polacos, em França, que manteve a sua identidade cultural judaica mesmo depois de se converter, ainda jovem, ao catolicismo e de ser ordenado padre. Subindo rapidamente na hierarquia da Igreja, Lustiger foi nomeado Arcebispo de Paris pelo Papa João Paulo II, em 1981, e estabeleceu uma nova postura que respeitasse a sua dupla identidade enquanto judeu católico, o que lhe granjeou amigos e inimigos de ambas as facções.

 

Após a exibição do filme haverá um debate com a participação de Padre José Tolentino de Mendonça e Rabino Eliezer di Martino moderado por António Marujo.  

 

 

Entrevista com o realizador Ilan Duran Cohen aqui

 

 

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28.3.14

 

 

Documentário de Lewis Cohen

Sábado, 29 de Março 2014 às 16h30

Cinema S. Jorge, Sala Manoel de Oliveira

 

 

The kidnapping and brutal murder of a young French Jew, Ilan Halimi, kicks off a roller coaster quest to bring his tormenters and killers to justice, along with an enlightening search through history to discover the origins and reasons for perpetuation of the age-old myth of Jews as the world’s financial purse string holders. Jews & Money is a probe into the myth about Jews, and where and when it took root. Why is the Jew so often cast as the banker or trader, pawnbroker or movie mogul? Of all the medieval moneylenders, why is only Shylock remembered? How did the Rothschilds become the symbols of international capitalism? And why does a simple cell phone salesman get pegged as rich, and die for it?

 

A debate with the participation of Richard Zimler, Manuela Franco, Jorge Martins and Marina Pignatelli will follow the screening.​

  

 

Ilan Halimi

1982-2006

 

 

Em 2006, um jovem vendedor judeu é raptado nos arredores de Paris por um bando de criminosos, que exigem um resgate de meio milhão de euros convencidos de que “todos os judeus são ricos”. Não era o caso.

 

Este documentário investiga quando e onde estarão as raízes desse mito, por que razão o banqueiro, o comerciante, o dono da loja de penhores ou o grande empresário da indústria cinematográfica são tantas vezes representados por judeus? Entre tantos agiotas medievais, por que motivo é Shylock o único que ainda hoje é recordado? Como é que os Rothschild se tornaram os símbolos do capitalismo internacional? E porque é que um modesto vendedor de telemóveis passa por rico, morrendo por causa disso?

 

Após a exibição haverá um debate com a participação de Richard Zimler, Manuela Franco e Jorge Martins moderado por Marina Pignatelli.   

 

 

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26.3.14

 

 

 

 

 

 

 

Uma invenção recente

 

Há guerras desde que há homens; a paz é uma invenção recente — escreveu jurista inglês do século XIX. Até ao aborrecimento da Crimeia, o pessoal governante dos países da União Europeia e os Democratas de Obama nos Estados Unidos pareciam convencidos de que a invenção chegara para ficar. Mesmo Ângela Merkel, filha de pastor luterano e com juventude passada de Stasi à coca, teria dito a Obama que Putin vivia “noutro mundo” — subentendendo que o “mundo real” era aquele em que o presidente dos Estados Unidos e ela própria viviam.

 

Não perceberam nada — tal como o alto funcionário da Comissão de Bruxelas que me disse há anos, discutindo o lugar da Europa no mundo, que a ideia da União Europeia entrar em guerra era inconcebível para ele. Muitos falavam então no “dividendo da paz” — desde o fim da Guerra Fria não era preciso gastar dinheiro em defesa — esquecendo a exortação romana “se queres paz prepara a guerra” (ou Duff Cooper, ministro de Churchill, quando escreveu que desarmar para evitar a guerra seria como fechar as esquadras de polícia para acabar com o crime). Muita gente caricaturou o académico americano que depois da derrota do comunismo anunciou o fim da história — íamos todos, no mundo inteiro, viver para sempre em democracia+economia de mercado — mas os governos europeus portaram-se como se tivessem levado a caricatura a sério.

 

Arruaceiros de países pequenos e mais ou menos distantes foram metidos na ordem sem grandes custos (com ajuda de Washington). Países maiores que, por exemplo, nos vendam petróleo, podem pintar a manta dentro de casa que a gente não os apoquenta. Regras simples. A hipótese de mau comportamento egrégio, contra os nossos interesses e a nossa bazófia moral, da parte de um dos grandes, terá levado estados-maiores a planos secretos mas não se esperava que tornasse a acontecer mesmo, pelo menos no nosso tempo. Toda a gente acha que governantes como os da Segunda Guerra Mundial — De Gaulle, Churchill, Roosevelt — já não há: até Putin, por incómodo que seja, não chega aos calcanhares de Estaline.

 

Além disso, desde Jack Kennedy em 1960, passou a estar na moda escolher chefes políticos muito novos. A União Europeia está cheia deles e tal acrescenta à impopularidade da classe política numa altura em que esta é acusada de não ter sido capaz de prever a crise económica, de lhe ter acudido de maneira nociva e (se Putin não tomar juízo) de ter deixado a Europa indefesa.

 

Ora o juízo de Putin não é o nosso. Deu-se por missão fazer com que a Rússia torne a meter medo ao mundo, os russos estão com ele — pelo menos até ao preço do petróleo baixar — e a impopularidade dos políticos ocidentais é notória.

 

Para manter paz e honra será preciso vencê-lo pela economia. Começando por fazer do tratado comercial que europeus e americanos estão a negociar, e aumentaria os PIBs respectivos, um objectivo estratégico. A URSS perdeu a Guerra Fria por não ser capaz de competir economicamente com o Ocidente.

 

 

 

Imagem aqui

 

  

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22.3.14

 

 

 

 

De 27 a 30 De Março de 2014 serão apresentados em Lisboa, no cinema S. Jorge, filmes e documentários recentes, na sua maioria em estreia absoluta. Desde dramas históricos até comédias comoventes e sessões para escolas e famílias, a programação é pautada por debates, propostas de literatura, experiências gastronómicas e, a fechar o evento, a participação especial de um DJ Klezmer.

 

A escolha dos filmes desta segunda Mostra leva-nos numa viagem por diversos países, épocas e facetas não exploradas da Grande História, da Bielorrússia à Patagónia. Uma Grande História que talvez se exprima com a maior eloquência nos breves 16 minutos mudos da curta-metragem Sapatos. Encontramos também Mengele, retratado em O Médico Alemão, de Lucía Puenzo, e deparamo-nos com rapazes e raparigas palestinianos e israelitas a Dançar em Jaffa, que nos ensinam que é possível amar o inimigo. Rosinha tece o seu enredo à volta dos trágicos acontecimentos de Março de 1968 na Polónia, num argumento interpretado pelos mais talentosos actores e actrizes polacos da actualidade. Já numa Berlim mais contemporânea, Os Mortos e os Vivos lança-nos no encalço de Sita, uma jovem que é confrontada com um terrível segredo de família. Paixão e traição são também os temas fortes que marcam o filme alemão Fim de Temporada.

 

Seguem-se duas grandes obras de produção israelita, O Casamenteiro num tom de humor muito especial, e A Vida é Engraçada, um filme que surpreende pela humanidade e imperfeição das suas personagens, em que todos nos poderemos rever.

 

Encerra o cartaz O Cardeal Judeu, filme baseado na extraordinária vida do cardeal francês Jean-Marie Lustiger. A projecção será seguida de uma troca de ideias entre o Padre José Tolentino de Mendonça e o Rabino Eliezer di Martino.

 

Para completar, ao longo da Mostra decorrerá uma feira do livro, onde poderemos encontrar os mais variados títulos de autores judeus e/ou temáticas judaicas, uma sessão dedicada à Rede de Judiarias de Portugal, e ainda provas de vinhos, degustação de chocolates e diversos produtos Kosher.

 

Consulte o programa completo aqui

 

 

 

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19.3.14

 

 

Cerco do Porto: desembarque dos Bravos do Mindelo aqui

 

 

 

 

 

As coisas são o que são

 

 

Há muitos anos, a almoçar com o Luís Sttau Monteiro numa tasca em Algés, mandámos vir bacalhau à Braz e favas com chouriço mouro. O bacalhau estava óptimo; as favas bastava vê-las para duvidar. O Luís provou-as e disse: “Ná, não é isto. Mas a verdade é que nós também não somos”.

 

Desde que vivemos em democracia — não era o caso quando o Luís e eu íamos à tasca de Algés — sempre que me indigno com qualquer coisa feita ou desfeita pelo governo português lembro-me dessa pérola de sabedoria.

 

A democracia veio com a Europa que nos mimou não fôssemos, perdido o Império, cair no comunismo. Quando chegou o euro ficámos com o rei na barriga. Dinheiro de fora, barato, gasto durante década em que a economia não cresceu, deu o “milagre português”: toda a gente se achava melhor do que as favas de Algés. Depois veio a troika - alternativa politicamente correcta a ocupação estrangeira, ditada por países do Norte (que inocentaram os seus bancos de tropelias aqui feitas) – para nos ajudar a sair do buraco. De maneiras lembrando a inabalável fé dos comunistas que sabiam como nos salvar, entre Março e Novembro de 1975. Queres Paraíso na Terra? Só depois de Inferno intermédio.

 

Para o resto do mundo a Europa não é modelo, é incómodo. A globalização assusta-nos por já não a comandarmos, ao contrário do que aconteceu em globalizações anteriores — desde Vasco da Gama até às décadas de progresso que precederam a Grande Guerra foram 400 anos a mandar vir. Agora, depois de meio século de paz, os europeus estão azedos uns com os outros: países ricos do Norte contra países remediados do Sul; nenhum disposto a mandar soldados reforçarem soldados franceses na República Centro-Africana (depois de alguns o terem prometido); os que percebem que Putin é um perigo universal contra os que acham que bálticos, polacos e suecos deviam era ter juízo e não provocarem o Czar de todas as Rússias. Se já sabia que atrasava a recuperação económica do mundo por inépcia própria, a União Europeia sabe agora que andou a pregar o direito e o bem acima das suas posses morais.

 

Cada um tem as suas fezes. Em Portugal a imposição de costumes luterano/calvinistas de gente habituada a tratar directamente com Deus a gente calhada na mediação de Santos e de hipóstases de Nossa Senhora é obra. Não há precedente na nossa história, salvo talvez nas leis de Mouzinho da Silveira que, cercado no Porto, fez do Portugal medieval um estado moderno. A legislação só foi aplicada depois do fim da guerra civil em 1834 - mas nem tudo mudou. Por 1900 a dívida externa era tal que, sem a Grande Guerra, Alemanha e Inglaterra teriam partilhado as nossas colónias.

 

Os portugueses hão de ser sempre os mesmos porque não há outros dizia o primeiro Duque de Palmela. Colega de Mouzinho, não só se bateu de armas na mão como convenceu banqueiros de fora a emprestarem dinheiro para os liberais ganharem a guerra.

 

Deplorável situação permanente, diria Jorge de Sena. Ou vigor do Sebastianismo?

 

 


12.3.14

 

 

 

 

 

 

 

Prepotências, roubalheiras, aldrabices

 

 

Em 2008, corriam os Jogos Olímpicos de Pequim, a Rússia capturou militarmente à Geórgia duas partes do seu território — a Ossétia do Sul e a Abkhásia — de estatuto autónomo e muitos habitantes russófonos. Bush, em Washington, protestou menos do que Obama agora perante Ucrânia e Crimeia. Nós, os da União Europeia, com Sarkozy à frente, inventámos uma “mediação” que nada devolveu à Geórgia, sossegou a Rússia e nos deixou de consciência tranquila. Para o conforto ensimesmado dos europeus (5%, 25% e 50% da população, do produto e da despesa social mundiais, respectivamente) foi como se a crise da Geórgia não passasse de tempestade num copo d’água.

 

Com o Kremlin, continuou-se business as usual. A França vendeu à Rússia navios de guerra que a ajudaram no emprego e na balança de pagamentos; a Alemanha, a Itália e a Holanda pouco fizeram para diminuírem a sua dependência energética da Rússia; Londres e os paraísos fiscais cobertos pelo Reino Unido —  das Ilhas do Canal às Ilhas Cayman — continuaram a gerir e a lavar bem os milhões dos oligarcas (e preços de casas em Londres chegaram à estratosfera). Do outro lado do Atlântico, Barack Obama — que tal como Jimmy Carter com Brejnev, parece convencido de que no fundo, no fundo, Putin reconhece que ele tem razão — meteu-se há anos a tentar pôr no são as relações com a Rússia e com tal inépcia o fez que, em vez de ganhar lealdade de um novo amigo levou o Kremlin a perder o respeito que, antes dele, ainda tinha pela Casa Branca. Entretanto, com a Geórgia no papo, Vladimir Vladimirovich sente-se seguro na sua missão histórica de recuperar a grandeza russo-soviética. Como se diz por lá: comer abre o apetite.

 

E agora, por causa de zaragatas na Ucrânia e na Crimeia, lugares longínquos sobre os quais quase todos os europeus — ainda não refeitos de Lehman Brothers / dívidas soberanas / banca à nora — sabem pouco e mal, porque muito do que nos chega é propaganda russa, espera-se que os nossos governos e o americano se unam e façam recuar o Kremlin. Há de ter que ver. Sem chefia americana e com vendilhões a encherem os nossos templos, receio que as medidas que forem tomadas fiquem aquém do  preciso para fazer a Rússia largar a Crimeia.

 

Na Guerra Fria confrontavam-se capitalismo e comunismo. Hoje de um lado estão estados de direito com sufrágio universal e do outro o feixe de brutalidades, roubos e mentiras que dá pelo nome de capitalismo de Estado. Os europeus que sabem na carne dessa poda — Bálticos; ex-Pacto de Varsóvia — procuram que combatamos por todos os meios ao nosso alcance a opressão asfixiante e corrupta que a Rússia quer impor à Ucrânia, com sanções imediatas que doessem mesmo ao Kremlin e promessa a Kiev de adesão à União Europeia. Alemães, britânicos, franceses, outros, arrastam os pés.

 

Nem Estados Unidos nem União Europeia mandarão os seus morrer pela Ucrânia. Mas com visão, coragem e determinação poder-se-ia travar Putin sem guerra — por enquanto.

 

 

 


8.3.14

 

 Thérèse Delpech

 

 

Chaque époque a l'épidémie qu'elle mérite. Au temps de Freud, ce sont les maladies de l'âme qui font une entrée spectaculaire. Elles avaient certes une histoire aussi longue que celle de l'humanité, mais au moment où la psychanalyse voit le jour des bouleversements historiques inédits multi­plient les risques de déséquilibre psychique. Dès l'Antiquité, Thucydide et Euripide, évoquant respectivement la guerre du Péloponnèse et la guerre de Troie (1), décrivent les ravages qu'exer­cent sur la psyché les grandes transformations de l'histoire. Au XIXe siècle cependant, la tourmente a quelque chose d'incommensurable avec tout ce qui l'a précédée, car il s'agit d'une perte irrépa­rable du passé, décrite par Chateaubriand dans les Mémoires d'outre-tombe. Un abîme sépare désormais l'ancien monde et le nouveau. L'esprit, tourmenté par cet abîme, s'engage dans des aven­tures intérieures dont témoignent les portraits romantiques, avec leur regard sombre tourné vers le dedans. Ce qu'ils y voient, Freud pense l'avoir découvert près d'un siècle plus tard, au terme d'une odyssée personnelle aussi longue et péril­leuse que celle d'Ulysse, où il se retrouve non à Ithaque, l'île de l'heureux retour chez soi, mais à Thèbes, lieu de meurtre, de suicide et de culpabi­lité, où règne l'« inquiétante étrangeté » décrite par le romantisme allemand. Que s'est-il donc produit ?

 

Le rapport que l'époque entretient avec le passé fournit précisément une réponse. Au XIXe siècle, celui-ci subit de tels coups de boutoirs - poli­tiques, familiaux, religieux - qu'il explose littéra­lement, faisant voler en éclats tous les repères de la tradition. Balzac dira que l'on se trouve désormais au milieu des débris d'une grande tempête. Rien n'avait préparé le psychisme à de tels bouleversements, car la conjonction de la tabula rasa de la Révolution, de la remise en cause de l'autorité du pater familias, et de l'apparition d'un monde laïcisé n'avait pas de précédent. Les névroses que traite Freud sont souvent l'expres­sion du vertige qui en résulte : l'intériorité est comme perdue dans un labyrinthe (2). L'inventeur de la psychanalyse n'aurait donc pas imposé à l'humanité sa névrose personnelle, comme le prétendent ses détracteurs. Il n'aurait pas davantage fourni une explication universelle du psychisme humain avec le thème du parricide, comme le voudraient ses fidèles. En créant une nouvelle science de l'âme il aurait simplement exprimé la tragédie intime de son temps.

 

Thérèse Delpech

in L'Homme Sans Passé, Freud et la Tragédie Historique

(Prologue - La Grande Rupture)

© Éditions Grasset & Fasquelle, 2011

 

 

 

1. Raymond Aron a souligné les analogies entre les bouleversements introduits par les grandes guerres euro­péennes et ceux de la guerre du Péloponnèse.

 

2. Voir le thème du labyrinthe chez Chamisso, où le diable joue le rôle du guide.

 

 

 

 

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5.3.14

 

 

 

 

 

 

Prolegómenos a qualquer Europa futura que possa apresentar-se como potência

 

 

Ao anunciar sanções contra o (antigo) regime ucraniano a União Europeia mostrou que afinal existia. Vários dos seus membros tinham, até aí, sido contra pois receavam que tal fosse provocar a Rússia (e provocou mas, como dizia o outro, quem não tem competência não se estabelece).

 

As sanções foram anunciadas em Bruxelas. Em Kiev os MNEs de Alemanha, França e Polónia mediaram acordo que diminuía os poderes do presidente e antecipava eleições — mas os manifestantes não desarmaram e o parlamento, com muitos deputados da maioria presidencial a juntarem-se aos da oposição, depôs o presidente, substituiu-o, até às eleições, pelo presidente do parlamento, e nomeou um governo provisório.

 

Apoiando o novo regime, a Europa agiu escudada nos seus valores. Putin de entrada ficou calado; Medvedev disse que o novo poder em Kiev era ilegal; houve manobras militares. A seguir Putin fez rufar tambores na Crimeia (doada à Ucrânia em 1954, muita gente lá acha que estaria melhor entregue a Moscovo do que a Kiev), ameaçando integridade territorial que considerara sagrada no caso da Síria — “a lei é a lei e temos de a cumprir, gostemos dela ou não” dissera na altura. Entre ecos de ópera bufa e avisos de tragédia, o homem para quem o colapso da União Soviética foi a maior catástrofe geopolítica do século XX está a obrigar Europa e Estados Unidos a encontrarem maneiras de o conter. Não é fácil. A nostalgia post-imperial russa assusta; a Ucrânia não é uma pera doce. Obama parece às vezes julgar que a razão, irmã do amor e da justiça, levará sempre a melhor; moles, muitos europeus acham que não é com eles. Mesmo assim, graças sobretudo à Alemanha (mesmo a Alemanha da prudente Merkel) o cerco vai apertando. Se a União Europeia não perder cabeça e coragem e abrir a porta à Ucrânia — e se a Ucrânia perceber que sem estado de direito não sairá da cepa torta — a nossa segurança terá dado um salto em frente.

 

A União Europeia tem fronteiras seguras a Norte, Ocidente e Sul. A Sudeste menos: o Médio-Oriente é viveiro de conflitos (a adesão da Turquia, prometida há décadas mas negociada com vagares de lesma, deve ser acelerada; será melhor tê-la dentro da barbacã, virada para fora, do que fora, virada contra a barbacã). Por fim, a Oriente: Ucrânia significa fronteira. O acordo com a União Europeia que à última hora o presidente deposto se recusara a assinar seria mais um passo para a pôr do nosso lado dessa fronteira. É do nosso maior interesse dá-lo e impedir que a Rússia faça o que sempre fez: mude os marcos da propriedade para ir ganhando terreno.

 

A União Europeia não é empresa multinacional ou ONG filantrópica. É uma ambição política, entrançada com vontades nacionais centenárias. Se quer o seu lugar de grande potência no mundo terá de falar com uma só voz e dar-se ao respeito por toda a parte. Como acontece hoje na Ucrânia, com a Alemanha à frente ou, com a França à frente, no Mali.

 

 

 

imagem aqui

 

 


3.3.14

 

 

Lisboa, Fotografia Vasques, 1937
Fotografia gentilmente cedida por Maria Teresa Blanco Camilo, a quem muito agradeço
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