31.1.14

 

 

 

Burkina Faso (s/data)

© Bastin & Evrard

Plaizier Bruxelles

 

 

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29.1.14

 

 

 

 Albrecht Dürer

 

 

 

 

 

 

Rodas da Fortuna

 

 

Por não ter podido ir às cerimónias fúnebres na África do Sul, a Raínha de Inglaterra mandou celebrar em Março, na Abadia de Westminster, um serviço religioso em memória do seu amigo Nelson Mandela, o único político que lhe telefonava directamente: “Olá Elizabeth. Como está o Duque?” 

 

Quando recebi a notícia tinha acabado de ler entrevista com Winnie Mandela, contando 9 meses de prisão em Joanesburgo in illo tempore, durante os quais a torturaram. Em Robben Island, lembra-nos a revolucionária, ex-segunda mulher de Mandela, os presos nunca foram torturados e tantos anos lá fechados sem jornais, sem telefonia, sem televisão, sem visitas, haviam-nos cortado do mundo. Quando o marido fora solto não percebia o que se passava cá fora. Por isso embarcara na reconciliação com os brancos, mal tocando nas desigualdades económicas e deixando a África da Sul com enormes problemas por resolver. Quem percebera fora ela e considera-se “avó espiritual” de Julius Malema, ex-chefe dos Jotas do ANC, expulso do partido por extremismo, que formou o seu próprio movimento, quer luta de classes a sério e ressuscitou canção revolucionária, popular no auge do apartheid, que incita a matar os boers à metralhadora.

 

Nelson Mandela era um génio político e um modelo moral mas não teria sido solto para acabar com o apartheid se o Muro de Berlim não tivesse caído. O desaparecimento da inspiração e do apoio soviéticos abriu caminho à transição pacífica que ele (com ajuda de De Klerk) conduziu magistralmente. O ANC, porém, ficou sem bússola política. Na África do Sul a maioria negra, oprimida e humilhada, pudera arrimar-se a três espaldares: racismo, cristianismo (quase todas as variedades locais) e marxismo-leninismo. O racismo conseguiu alguns aderentes que fundaram o PanAfrican Congress mas cedo se apagou perante marxistas e cristãos. Estes coalesceram no ANC que, fundado em 1912, sonhava, desde o estabelecimento do apartheid em 1948, levar o país ao socialismo. Com a dissolução da União Soviética esse sonho acabou. Mandela percebera tudo. Quem não percebera fora Winnie e, agora, o seu “neto espiritual”.

 

A gente não se deve espantar porque estavam em boa companhia: só há dias François Hollande anunciou sem rir — nem chorar — que se convertera à social-democracia: isto é, que deixaria de tentar arruinar o capitalismo e passaria a negociar para os seus fatia cada vez maior do bolo. Que o Presidente da França tenha levado tanto tempo a perceber, dá que pensar.

 

Tudo isto seria menos importante se capitalistas europeus e americanos tivessem — ao menos eles — percebido. Mas não. Também há poucos dias, um dos maiores bancos mundiais, multado milhões de dólares por falcatruas escandalosas que lesaram milhões de pessoas, aumentou de milhões o bonus anual do seu presidente. Casos assim enchem a gente de fé.

 

Na Europa das vacas magras avisam-nos que vacas gordas, gordas, nunca mais voltarão. E os Malemas deste mundo vão oleando as metralhadoras. 

 

    


26.1.14

 

 

 Borama Girls Photo Club, Somalia, 2013

 

View Slideshow

 

 

 

In March 2013, UNICEF and ARETE STORIES launched a pilot project which trained 400 children along with 10 of their teachers how to use a camera and portray their everyday lives. The children themselves chose the various topics – water, food, friends and family and animals – that they wanted to capture. These photographs depict the rarely glimpsed, everyday lives of Somali children as seen through their own eyes.

 

Somalia is one of the worst places in the world to be a child. While conditions vary in the regions, the years of conflict, famine, displacement, lack of health facilities or schools have taken their toll on Somalia’s children. More than 200,000 children are still malnourished – mostly in the south – and more than a million children of primary school age are out of school. 

 

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22.1.14

 

 

Pax Americana, 1988, Winston Smith 

 

 

 

 

 

 

 

Adeus Pax Americana

 

 

A “capacidade inimaginável de mentir sem pejo” dos nossos políticos alarma amiga minha (e devia alarmar toda a gente: se os valores em que assenta a decência de viver forem esquecidos teremos vendido a alma ao Diabo). Mas será o fim da raça — anunciado prematuramente em 1934 por  Pessoa, em 1875 por Eça e, alguns séculos atrás, pelo Velho do Restelo? A minha amiga receia que sim. Eu tenho dúvidas. A Espanha, a partir-se aos bocados, não tem queixada para nos abocanhar e à Europa de Bruxelas falta vocação de Pátria. Para o mal e para o bem, não há de ser nada.   

 

Seja o que for que por aqui medre, porém, terá, mais o resto da Europa e os outros 4 Continentes, de aprender a viver sem os Estados Unidos como Senhores do Mundo. Haviam passado a sê-lo desde o colapso da União Soviética. A 11 de Setembro de 2001 levaram grande bordoada – pior do que o bombardeamento japonês de Pearl Harbour em 1941 porque o Havai é um arquipélago no Pacífico e Nova Iorque e Washington são o coração do país – outras bordoadas, pequenas e não tão pequenas, externas e internas, se foram seguindo. O mundo está-lhes a escapar das mãos e eles já não sentem tantas ganas de o agarrar. Ora, se de vez em quando a Pax Americana importunou muitos de nós, o incómodo de viver com ela não era nada comparado com o incómodo de sem ela viver.

 

Patrão fora, dia santo na loja –  ou, mais a propósito, guerras sem fim. Sem Washington a meter-se decisivamente nas questões, desavenças agravam-se, feridas em vez de sararem infectam. Sofrimento indescritível — e evitável — aflige cada vez mais gente. A tragédia humanitária da Síria que indecisões americanas deixaram avolumar à nossa beira para lá de remédio programável e plausível é a que dá mais nas vistas. Mas não faltam outras pelo mundo fora.

 

Não existe potência capaz de desempenhar papel comparável ao que fora até há pouco o da América. A China, de que às vezes alguns se lembram, vem carregada de dificuldades de sua própria invenção. Capitalismo desenfreado em regime de partido único criou classe média — e milhares de milionários — exigindo voz na coisa pública e prenunciando grandes sobressaltos. Desenvolvimento selvagem criou desastres ecológicos duradouros. A política “um filho só” criou distorções demográficas que levarão gerações a corrigir. E a capacidade militar chinesa não dará para Pequim distrair mal-estar em casa com aventuras fora.

 

A Rússia continua a ser “O Alto-Volta com bombas atómicas” (Helmut Schmidt dixit). A Índia é uma democracia mas desigualdades abissais – até entre homens e mulheres – atrasam-lhe ambição de bem-estar geral, quanto mais de hegemonia. O Brasil do rolezinho está longe de poder ajudar a pôr o mundo em ordem. E a Europa, com a História, zangada, a voltar a galope sobre a desunião cavada pela austeridade, perdeu a vez.

 

Em mundo sem rei nem roque teremos de olhar melhor por nós. Começando — talvez dissesse a minha amiga — por dar crédito e autoridade à virtude.

 

 

Imagem: aqui

 

 

    

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20.1.14

 

A special theme also has its place here, that of slavery. It is special in that it does not feature in traditional images of reverse-glass painting. In the 1980s, on the initiative of Y. Dupre, administrator of the Regards Croises association, Gora Mbengue produced a series of works relating to slavery. Then in 1989-90 Mor Gueye took over and created a series inspired by the same theme. Here, for the first time, we are presented with a dramatic subject handled gravely. This is unusual, for reverse-glass paintings tend to tackle all themes positively, if not always with humour. Whether the subject is Islam, where we en­counter religious propaganda or a cult of the saints, history, in which the praise of national heroes is sung, or tales and proverbs, where the oral tradition is itself celebrated, there is not one reverse-glass painting that is not optimistic. Even in scenes of daily life, humour, sometimes mixed with cynicism, is brought to bear on theft, adultery, domestic conflict and other problems, large and small. After all, the end justifies the means: the moral message asserts itself almost by accident, with ease and never sententiously. We receive constant lessons in good spirits; then, sud­denly, in a commissioned work on slavery we encounter drama. Reverse-glass paintings bluntly confront us with the brutal reality: torture, chains, babies thrown to crocodiles in front of their mothers, distress, the house of the slaves at Goree, whose 'door of no return' requires no comment. It is, of course, impossible to handle the issue of slavery with detachment. Attemps to generate laughter in order to avoid crying would be inexcusable. The fact, therefore, that traditional reverse-glass painting never alludes to this episode in Senegal's history is in no way surprising, for it would be a departure from the fundamentally optimistic inclination of this art. Interesting as further attempts to portray the history of slavery might be, this particular commission was intended to teach a lesson in tolerance in schools and cultural centres, and slavery remains a marginal trend. Further, one must not forget that reverse-glass paintings were originally intended exclusively for Senegalese people - to define their religious af­filiation, for example, or to educate, or to supply decorative scenes that would give an aesthetic touch to a home. What Senegalese would want to awaken such painful memories when, thanks to reverse-glass paint­ing, he can instead proclaim his deepest beliefs, both religious and intel­lectual?

 

Senegal and Gambia were the first regions in western Africa from whence slaves were exported. This commerce, at its height in the 18th century, was encouraged by the kings of Kayor and Baol, who traded human merchandise for various products, especially guns.Wolof aristocrats and leading citizens did not need the impetus of this commerce to create their own reserves of slaves, who were already to hand under the caste system. They did not have any scruples about systematically seizing individuals or groups that they could use for bar­tering. As for the French, their insatiable demand for African labour sanctioned this state of affairs. The lure of profit did the rest, establishing a foul triangular system of commerce that was to prove to be difficult to abolish.

 

 

Anne-Marie Bouttiaux-Ndiaye 

in Senegal Behind Glass, Images of Religious and Daily Life

(Profane genres and subjects)

© 1994 Prestel-Verlag, Munich and New York and the Royal Museum for Central Africa

 

 

 

 

Mor Gueye  The House of Slaves at Goree, 1992

 

33x48 cm 

Private collection

 

A black and white composition, both in theme and tone. The white officer in his uni­form, conceited and haughty, dominates the scene by his height as well as by his position in the organization of the image. The black slaves are crushed, small, crumpled and separated, with the women on one side and the men on the other, just as the house of slaves was actually arranged. At the 'door of no return', a gaping black hole, is a slave squatting in front of the inescapable fate that awaits him. There are a few contemp­orary 'scholarly' artists who work in black and white, but Mor Gueye is the only tradi­tional one who does so.

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18.1.14

 

Moral tales and proverbs have generated a whole spectrum of paintings, often dealt with humorously, and with certain characters treated with derision. There is no doubt that these pictures follow the same pedagogic purpose as the tales, sayings, riddles and other stories that are told at home by the fireside in the evening. When the women were out buying reverse-glass paintings to decorate their homes, they not only sought out examples that articulated their religious beliefs, but also ones that would show examples of good and bad behaviour to their children.

 

 

 

 

Alexis Ngom The Torment of the Bad Master, 1995

55x48 cm

Private collection

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

This painting illustrates a widely held belief according to which a master who mistreated his animals will be punished after his death by the ones he mistreated.

 

 

 

 

Babacar Lo (Lô Ba)  The Baobab-Women, 1994

48 x 33 cm

© Royal Museum for Central Africa, Tervuren

A tale from Casamance: two young women are turned into baobab trees for mocking an elderly hunchback. The moral of the story is a reminder of the strong respect in which the elderly are held in African societies.

 

 

 

Anne-Marie Bouttiaux-Ndiaye 

in Senegal Behind Glass, Images of Religious and Daily Life

(Profane genres and subjects) 

© 1994 Prestel-Verlag, Munich and New York and the Royal Museum for Central Africa

 

 

 

 

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15.1.14

 

 

 

 

 

 

 

Azar dos Távoras

 

 

A minha amiga Graça correu muito mundo. Quando nos vimos depois da passagem de ano disse-me: “Kung hei fatchoi”, acrescentando que assim lhe desejavam bom ano novo (chinês) quando ela por lá vivia e que a resposta a dar era “Laisi tai loi”, em tradução livre —  sentimentalmente conforme com o original — “passa p’ra cá o dinheiro”. Os chineses que conheceu só pensavam em duas coisas: na família (pai, mãe, marido, mulher, filho ou filha. A chamada “família extensa” — empecilho à iniciativa privada em África, na América Latina, no sul da Europa — desaparecera do seu universo) e no dinheiro.

 

O Partido Comunista Chinês governa sem estados de alma quanto a estado de direito, direitos do homem e outras predilecções ocidentais, e favorece liberdades e tropelias que levem à criação de riqueza. Milionários medram como cogumelos e bilionário é o estatuto mais apetecido pelos milhões de rapazes e raparigas denodados que constroem o futuro. Essa ganância antiga, desde Confúcio mais ou menos enquadrada por tentativas de a apertar num colete de forças moral, permitiu à China resistir a tentativas europeias de colonialismo, às guerras do ópio, ao marxismo-leninismo e à selvajaria de Mao Tse Tung.

 

O Presidente Xi, Imperador do nosso tempo, começa a virar a China outra vez para fora, depois de 500 anos ensimesmados dentro da Grande Muralha. Nos mares, a sul e a leste, crescem tensões sino-nipónicas. A Academia Chinesa de Turismo anunciou que, em 2012, 82 milhões de chineses tinham visitado o estrangeiro, que o número continuará a crescer e  que em 2020 serão 200 milhões. A propensão ocidental à culpabilização não será a melhor arma contra a ignorância chinesa do arrependimento.

 

Século XX comparável ao que a China teve deixou a Rússia pelas ruas da amargura: alcoolismo a aumentar, esperança de vida a diminuir e economia incapaz de aproveitar riqueza natural em gás e petróleo para se diversificar. Talento rufião de Putin para enrolar Obama na Síria e para assediar vizinhos pequenos — com os chineses não se mete — obrigam-nos a prestar atenção à Rússia.

 

Além disso, entre 1990 e 2010 o número de gente vivendo em extrema pobreza (menos de US $1,25 por dia) no mundo inteiro diminuiu de metade. Nunca tanta gente viveu tão bem quanto vive agora. Em muitos outros países além da China — Brasil, India, Indonésia, África do Sul, México, por aí fora – mais e mais pessoas estão a passar à classe média, achando-se com direito a conforto cada vez maior e a levantar a voz na coisa pública. Nunca as mulheres estiveram menos dependentes da vontade dos homens das suas famílas — até em muitos países islâmicos e em pequenas bolsas de cristianismo misógino.

 

Entretanto os europeus queixam-se. A austeridade agravou as perspectivas de recuperação económica e deu uma machadada na solidariedade europeia. Desde 1957 nunca sofremos concorrência tão forte do resto do mundo nem, azar dos Távoras, tivemos chefes políticos tão medrosos e curtos de vista.

 

 

Imagem aqui 


12.1.14

 

 

 

Anonymous

A Young Woman, no date

photograph, with a painted decorative background, 45 x 47 cm

 

 

 

Anonymous

Seated Man, no date

photograph, with a painted decorative background, 50 x 60 cm

 

Following German and Dutch precedent, where paintings made on the back of glass are called Hinterglasmalerei and achterglasschilderij re­spectively, we have coined the term 'reverse-glass painting'. To speak of 'behind-glass' painting generates ambiguity, and it hardly conveys an idea of the basic technique, which involves work performed on the back of a sheet of glass. (Although 'back-of-glass' removes all ambiguities, it is dreadfully cumbersome.) The term eglomise, widely used by histor­ians of the decorative arts, refers specifically to a technique that involves decorating glass by means of gilding, while the expression 'fixed under glass' refers, of course, to pictures pasted behind or framed under glass.The word 'fixed' is, none the less, frequently encountered in the liter­ature on Senegalese art, and, if its application is often incorrect, it is sometimes partially appropriate in a few early examples where both techniques — painting and pasting — are combined: these examples are chromolithographs or photographs that have been placed behind painted glass. Finally, in Senegal, glass paintings are called suwer, a Wolof word directly borrowed from the French sous-verre (behind or under glass). By extension, suwer is the term that is also used to emphasize the qualities of culinary dishes made with a great variety of ingredients: a ceebu jen (rice with fish) is called ceeb suwer when it is richly decorated and colourful.

 

 

Anne-Marie Bouttiaux-Ndiaye

in Senegal Behind Glass, Images of Religious and Daily Life 

© 1994 Prestel-Verlag, Munich and New York and the Royal Museum for Central Africa, Tervuren

 

 

 

 

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10.1.14

 

 

 

Luanda, Angola 

© Royal Museum for Central Africa

 

This staged picture was shot in a studio on the African West Coast, and shows Henry M. Stanley describing his travels to the Portuguese Expedition (Ivens, Capelo, Serpa Pinto) at Luanda, [August or September 1877].

 
This oval-framed photograph, mounted on cardboard, with pencil inscription, is kept in the Henry M. Stanley Archives (King Baudouin Foundation Collection held in trust at the RMCA).

 

 

veja aqui o livro "Exploradores Portugueses e Reis Africanos"

 

 

 

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8.1.14
 

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 Charlie Chaplin

 
 

 

 

 
 
Sempre houve ricos e pobres
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Assim suspirava a Avó Berta quando eu, adolescente, primeiro me intrigara e depois me indignara com a vinda regular de alguns mendigos à porta de sua casa. Eram os pobres dela. As senhoras do seu tempo tinham cada uma os seus mas acontecia às vezes que os netos delas, encandeados pelo faróis de Marx e Lenine, achavam que a assistência competia ao estado e que esmolas dadas por donas de casa burguesas a pedintes proletários atrasavam a Revolução e a chegada da sociedade sem classes.

 

Visto de agora, tudo isto não passa de uma ninhada ou duas de asneiras. Mas o que realmente espantaria a Avó Berta se ainda estivesse connosco é que a distância entre a riqueza dos ricos e a pobreza dos pobres seja hoje não só maior do que era no tempo dela mas também maior do que alguma vez foi desde que o mundo é mundo. Quer entre países ricos e países pobres – quer, com raríssimas excepções, dentro de cada país.

 

 

O aumento da distância entre a riqueza dos países disparara dramaticamente a partir do século XVIII com a revolução industrial na Europa, acentuara-se com a emergência dos Estados Unidos como potência económica; começara a diminuir em tempos mais recentes, com a ascensão industrial do Japão, da China, dos chamados “Tigres Asiáticos”, mas ainda hoje a desigualdade entre países continua a ser maior do que a desigualdade entre os habitantes de cada país.

 

 

Nos países desenvolvidos as desigualdades internas têm-se acentuado. Os números dos Estados Unidos são instrutivos. O PIB quadruplicou nos últimos 40 anos (e quase duplicou nos últimos 25) mas quem ganhou com isso foi quem estava na mó de cima e, muito mais ainda, no cimo da mó de cima. Em 2012, 1% da população recebeu 22% do rendimento do país; 0,1% recebeu 11%. Estatísticas mostram que, desde 2009, só se verificaram melhorias de rendimento nesse 1% dos contribuintes. Como hoje se mede tudo, sabe-se também que, desde há quase um quarto de século, o rendimento médio no país não mudou mas que o americano médio leva hoje menos dinheiro para casa do que levava há 45 anos.

 

 

A fractura social, chamemos-lhe assim, começou no tempo de Reagan com cortes nos impostos dos ricos e regulação cada vez menos rigorosa do sector financeiro, foi alargada pelos seus sucessores e conforta preconceito norte-americano: a culpa de ser pobre é do pobre. Preconceito da esquerda europeia igualmente absurdo – a culpa de ser pobre é dos ricos – levou bordoada fatal com a queda da União Soviética. Na grande rebaldaria que se instalou, o liberalismo teve mais olhos do que barriga. Por fim, sem sentido nem visão da história e fundados em ciência errada, os promotores da austeridade envenenaram os europeus com o remédio que lhes estão a dar.

 

 

O susto espalha-se para lá dos suspeitos do costume. O Papa indigna-se com o capitalismo. E eu percebo o alentejano que dizia de uma comadre que ela era boa rapariga mas tinha “aquela coisa do lucro”.

 

 

A cruzada contra os pobres está a fazer mal ao mundo.

 

 

 

 

 

 

 

 

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5.1.14

 

 

 

Sport Lisboa e Benfica 1966/1967

 

 

Postal reproduzido no livro Retrovisor, um Álbum de Família. Texto e outra foto neste blog aqui.

 

A crónica de Ferreira Fernandes Nunca passei por ele sem dizer "obrigado" aqui

 

O ensaio de Nuno Domingos As lutas pela memória de Eusébio aqui

 

Alexandre O'Neill sobre Eusébio aqui

 

Perfil de Eusébio aqui

 

 

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4.1.14

 

Maître SYMS

"Article 15"*, 1992

Courtesy: Gallery Lucien Bilinelli, Brussels

© Plazier, Brussels 

 

 

Écoutez mes bêtes,

la conjoncture de la 2ème République

ne permet pas de vous héberger!

Allez vous débrouiller

 

Snif... Maitre nous sommes ici pour vous!

Pourquoi tu nous abandonnes comme ça?

Où pouvons nous aller

 

 

 

Visitei recentemente o Musée Royal de l'Afrique Centrale, em Bruxelas, agora fechado durante 4 anos para obras de remodelação. Queria ver pela última vez as colecções na versão século XIX. A crónica de José Cutileiro no primeiro dia do ano — Nuers e Dinkas — serve-me agora de pretexto para regressar a África com mais umas curiosidades (ver tag Congo).

 

O artigo e o breve documentário recomendados abaixo são antigos mas permanecem actuais.

 

 

*Article 15:

 

After a series of deflationary measures announced by the Zairean government in September 1983, prices for basic commodities rose by 30 to 40 percent while salaries remained unchanged. This further reduced the standard of living of the average Zairean. A schoolteacher in Kinshasa, for example, makes $13 per month. A civil servant with a university diploma, earns $25 per month.

 

''With such salaries,'' a Western diplomat explains, ''you can't make both ends meet. To survive most Zaireans make ample use of what is known here as Article 15.'' In clearer terms this means many Zaireans give way to corruption: teachers sell diplomas. No official form is available from a civil servant without a tip.

 

O artigo Zaire, An African Nation rich in natural resources but plagued by political instability and economic stagnation na íntegra aqui 

 

Defined as 'Manage by Yourself', the mythical article 15 founded an 'informal' economy in Zaire. Squatting in the grey mud of the market Place, black 'Mamas' barter for survival, singing as they prepare their wares. They manage to supplement their husbands' earnings by running a 'black market'.

 

O documentário The Definition of Poverty - DRC  April 1996 aqui

 

 

 

 

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1.1.14

 

 Gerhard Richter, Neger (Nuba), 1964, 145 x 200 cm, Oil on Canvas, Courtesy of Gagosian Gallery © Gerhard Richter, 2012

 

 

 

 

 

 

 

Nuers e Dinkas

 

 

Do Sudão do Sul, 193° membro da ONU, chegam más notícias. O novo país, paupérrimo sobre ricas reservas de petróleo, de população dantes dada a religiões não-reveladas, mas mais ou menos cristianizada por missionários europeus e americanos durante o Condomínio Anglo-Egípcio, ficando integrado no Sudão desde a descolonização de 1956, entrara em guerras sangrentas com o governo muçulmano de Cartum durando mais de 20 anos para conseguir independência que o libertasse das tribos islamizadas e esclavagistas do norte. Guerras por fim ganhas pelo sul, tendo causado 2 milhões de mortos, esperava-se que houvessem cimentado sentimento nacional entre as duas grandes tribos pastoralista e guerreiras do país, os Nuers e os Dinkas (que há menos de um século andavam nus, viviam do gado, se administravam sem governo e combatiam à lança).

 

Esperança vã. Eleições deram maioria à tribo maior, os Dinkas; o Presidente eleito convidou um Nuer, para vice-presidente - mas correu com ele em Julho e a curta paz acabou. Em 9 dos 10 estados federados do país grassam guerrilhas, reprimidas com tortura e massacre de civis. Dinkas e Nuers resvalam para guerra com 50.000 civis a pedirem protecção à ONU (que dobrou para 12.500 a força que lá colocara). A conselheira de segurança do Presidente dos Estados Unidos fez às partes as exortações piedosas do costume – renúncia à violência; diálogo – mas Washington, sobretudo desde o show de Obama na Síria, não mete o respeito que metia.

 

O Sudão do Sul é ao lado da Republica Centro-Africana, à beira de guerra civil entre maioria cristã e minoria muçulmana que começaram a matar-se uns aos outros. Como a expedição ao Mali foi a coisa que menos mal lhe correu desde que é presidente de França, Hollande mandou logo tropa para Bangui, onde estão também forças da União Africana. Soldados do Chade, muçulmanos, já foram assassinados por cristãos locais. Perante o descalabro, Samantha Power, embaixadora americana na ONU, fez uma visita relâmpago a Bangui onde exortou toda a gente a portar-se bem prevenindo que os Estados Unidos “estavam atentos”. Autora premiada de livro sobre genocídio (que enferma da pecha americana de ver o mal e o bem a preto e branco), conselheira de Obama, sumida enquanto Hillary Clinton foi Secretário de Estado (dissera, julgando que um microfone estava desligado, que Hillary era “um monstro”) voltou à cena sem ter aprendido nada.

 

Se os Estados Unidos perderam de vez o jeito de agarrar o mundo pela pele do pescoço, como se agarra um gato – jeito que lhes ganhou duas guerras mundiais e a guerra fria - a megalomania de Putin, a convicção de superioridade dos chineses, agitar-se-ão para ocupar o lugar vazio. Nenhuma delas o conseguirá mas para os europeus vão ser tempos duros. Sem América forte e decidida não haverá ordem no mundo. E sem ajuda americana os europeus nem terão o preciso – reabastecimento aéreo, munições de precisão, espionagem – para mandar fazer pazes em brigas africanas.

 

 

Ano Novo feliz!

 

 

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