29.11.13

 

 

 

 


A avaliar pelas aparências dir-se-ia que Aristides de Sousa Mendes era o próprio anti-herói. Senhor beirão, brasonado, proprietário, conservador, católico devoto com uma família extensa, nada parecia separá-lo dos seus pares. Como diplomata, a sua carreira, mesmo nos baixos, permaneceu perfeitamente dentro dos cânones até à aposentação compulsiva em 1940, aos 55 anos. Um homem maduro, com mundo, politicamente atento, avisado pela burocracia de Lisboa, estava agudamente consciente da retribuição que as suas acções iriam provocar.

De facto, diante dos milhares de refugiados apinhados junto ao Consulado Geral de Portugal em Bordéus, deu voz a essas preocupações:


Como informei toda a gente, o meu Governo recusou terminantemente todos os pedidos para concessão de vistos a todos e quaisquer refugiados. [...] Todos eles são seres humanos, e o seu estatuto na vida, religião ou côr são totalmente irrelevantes para mim. [...] Sei que a minha mulher concorda com a minha opinião e estou certo que os meus filhos compreenderão e não me acusarão se, por dar vistos a todos e cada um dos refugiados, eu fôr amanhã destituído do meu cargo por ter agido [...] {contra} ordens que em meu entender, são vis e injustas. E assim declaro que darei, sem encargos, um visto a quem quer que o peça. […]


 

                


Ao agir no plano do real, acudindo na medida das suas possibilidades à situação dramática dos milhares de pessoas em perigo, sabendo que teria de enfrentar uma hierarquia que considerava o diplomata um militar à paisana, Aristides de Sousa Mendes gritava para Lisboa que a liberdade de consciência não é assunto de conveniência. O crime de Sousa Mendes fora tornar claro ao regime que as arquitecturas políticas sobre que assentava o seu perfil internacional e as suas linhas de defesa burocrática eram, realmente, apenas, construções.

O diplomata foi punido mas o “crime” foi abafado. E a maior parte das pessoas que se apresentaram às fronteiras portuguesas foram admitidas, na certeza de que a Espanha não as aceitaria de volta. Pretender que nada acontecera era a maneira mais expedita de reduzir o impacto do precedente e de lidar com a situação tida por desprestigiante de nem o Ministério do Interior nem o Ministério dos Negócios Estrangeiros terem sabido evitar o acontecido. E a habilidade do regime em transformar o vício em virtude ressalta de um Editorial do Diário de Notícias de 14 de Agosto, uma lauda ao humanismo português, que Aristides de Sousa Mendes recortou e enviou ao MNE para juntar à sua defesa...

 

Manuela Franco

in "Razões e Humanidade" [texto na íntegra aqui]


Fotos  aqui  e Documentos aqui



 



 

 

Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial 

Exposição documental

 

Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 


site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

© 2013 Governo da República Portuguesa 

 

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25.11.13


Portugal participou na II Guerra Mundial como neutro. A lúcida apreciação das condicionantes internas e internacionais, especialmente a experiência da recente guerra civil espanhola, a posição geoestratégica da península ibérica, aconselhavam-no. E, em 1939, a neutralidade era ainda um conceito político-jurídico de aplicação relativamente simples. Mas, para além do soez plano de conquistas territoriais e de esferas de influência, a Alemanha movia uma guerra ideológica, total. Perante a aplicação dos mandamentos do movimento totalitário, o estabelecer em terras conquistadas da vassalagem à mundivisão nazi, a destruição segura dos valores em que a civilização ocidental até então tinha funcionado, a semântica da neutralidade foi-se alterando. Tornou-se uma posição de difícil gestão, tanto mais quanto Portugal era governado em regime autoritário, por um ditador que operava sobre certezas, no caso um conjunto de princípios feitos à medida de um Mundo que a própria guerra se encarregava de destruir.


As certezas são inimigas da verdade. No caso português, escondida pela auto-satisfação de nos termos poupado ao conflito, quem sabe até termos ganho algum dinheiro com ele, a verdade ficou por captar até ao fim da guerra, com o luto oficial por Hitler e, até aos nossos dias, com a apreciação legalista, apolítica e amoral que ainda prevalece sobre a neutralidade portuguesa. Na equidistância perante os dois lados, no não ter compreendido que vencedores e vencidos não se equivaleriam, que o Estado nazi não comportava regeneração, em suma, no fugir a tomar partido no conflito político e moral postulado na II Guerra Mundial, Salazar remeteu a nação portuguesa para a periferia da modernidade e para fora da história da Europa. A democracia demoraria mais trinta anos a chegar a Portugal que, só então, reencontraria o caminho político de regresso à Europa.


Sabe-se que durante os anos da II Guerra Mundial passaram por Portugal dezenas de milhares de refugiados, sobretudo judeus. Muitas vidas foram poupadas pela actuação decidida de três diplomatas portugueses documentada na presente exposição: Aristides de Sousa Mendes, Cônsul de Portugal em Bordéus, Carlos de Sampaio Garrido, Ministro de Portugal na Hungria e Alberto Teixeira Branquinho, Encarregado de Negócios de Portugal em Budapeste. O primeiro, em Junho de 1940, elevou-se pela força do seu carácter acima do pânico dominante e, agindo por decisão e risco individual, no momento certo, abriu as portas de Portugal aos fugidos de França. Seria esmagado pelas certezas de um Salazar vencido pela criação de um facto político cuja reversão arrastaria questões complicadas de enquadrar nos parâmetros escolhidos para a neutralidade portuguesa. Os segundos, em 1944, confrontados com a ocupação alemã da Hungria e o programa acelerado de eliminação dos húngaros judeus, empenharam o seu sentido de valores e a sua coragem na concretização de uma operação de salvamento programada pelos representantes dos países neutros em Budapeste, e que contou com a aprovação e o envolvimento activo de Lisboa. Humana e politicamente de natureza e dimensão muito diferentes, estes dois episódios ilustram bem o evoluir da política portuguesa quanto aos refugiados do nazismo: uma atitude inicial muito restritiva, que se foi flexibilizando progressivamente com o andar da guerra, chegando mesmo a assumir formas de acção positiva quando o regime começou a ter por certa a derrota alemã e a imaginar que a neutralidade proporcionaria uma plataforma de protagonismo político no pós-guerra.

 

Manuela Franco

in "Moral e Política" [o texto na íntegra aqui ]

     " Politics and Morals" [text  here]




 



Vidas Poupadas: Três Diplomatas Portugueses na II Guerra Mundial

Exposição Documental 

Documentary Exhibition


Na escolha dos documentos patentes nesta exposição sobre a acção de três diplomatas portugueses guiamo-nos principalmente pela possibilidade de proporcionar um máximo de leitura directa de dois momentos reveladores da administração da neutralidade portuguesa.

No caso de Aristides de Sousa Mendes, os acontecimentos foram rápidos, as posições extremadas, e o material do processo que lhe foi movido mostra, mesmo ao leitor mais desprevenido, o quadro moral e político em que o drama se desenrolou. Limitamo-nos aqui a juntar alguns documentos que contribuem para contextuar o caso, tanto quanto às atitudes – antecedentes – das autoridades portuguesas perante a questão dos refugiados, como em conclusão, nos pareceu interessante mostrar o ponto de vista crítico da política de vistos de Lisboa que o Cônsul em Marselha, um diplomata completamente alheio ao processo Sousa Mendes, comunicava a Lisboa no final de 1940.

No caso da Hungria, a correspondência trocada entre Lisboa e as Legações de Portugal em Budapeste, em Berlim, e em Berna – onde Sampaio Garrido, saído da Hungria, passou quase todo o Verão de 1944 – permite seguir, às vezes dia a dia, um processo onde o empenho pessoal de dois diplomatas galvanizados pela arrogância do ocupante alemão e pelo terror das perseguições movidas aos judeus de Budapeste, encontrou eco numa Administração politicamente orientada para transformar em créditos na paz, uma neutralidade que entretanto se tornara incómoda.

Esperamos que a presente exposição possa ser uma achega para o concretizar da profecia feita por Salazar, a 18 de Maio de 1945, perante a Assembleia Nacional, no seu discurso “Portugal, a Guerra e a Paz”: “A História, serena e imparcial, como os literatos dizem que é, há-de um dia catalogar os nossos actos desta guerra e classificar a nossa neutralidade”.

 

 


 

 

 Artigo censurado (versão integral aqui)

 

 

 

 

 

Foto: Refugiados em Lisboa durante a II Guerra Mundial aqui  

 

 

Exposição e Textos aqui


Spared Lives, the actions of three Portuguese diplomats in World War II 

Documentary Exhibition

 




site e blog do Instituto Diplomático aqui e aqui

© 2013 Governo da República Portuguesa 

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15.11.13

 

 

 

 

desenho de Roz Chast (The New Yorker)



Muito obrigada a todos os que me têm acompanhado!





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