30.10.13

 

 

 

Limites dos domínios portugueses e neerlandeses em conformidade com o projecto de Tratado estipulado pela Comissão Mista em 28 de Agosto de 1852

Documento do espólio de meu tio-avô António Caldeira Coelho



História-Antropologia TIMOR LESTE  aqui



CARTOGRAFIA  aqui



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25.10.13

 

Quarta Semana:

 

As acácias vermelhas estão a voltar. Nos tempos da colónia as ruas eram cheias de acácias vermelhas, diz quem ainda se lembra. Depois os indonésios arrancaram-nas todas. Porquê? Maldade pura, não há outra explicação. Não se pense que alguém exagerou nas descrições da crueldade dos indonésios em Timor. Foi o padre Felgueiras que me contou os piores horrores. 86 anos quase todos passados aqui, jesuita. Em Santa Cruz morreram duzentos jovens abatidos a tiro e muitos outros “desapareceram” como toda a gente sabe. Mas o que eu não sabia é que aos feridos, levados para o hospital militar, foi-lhes deitado ácido sulfúrico pela goela abaixo. É só um pequeno exemplo.

 

 

 

 

Timor-Leste é verde, tropical húmido e no entanto nas montanhas à volta de Dili praticamente não há árvores, num fenómeno de desertificação marcado e estranho. Com tanta chuva está a desertificar? É certo que a população empobrecida dá cabo de muitas árvores para lenha e que as cabras não ajudam, mas também não há assim tanta gente nem tantas cabras. Então? O exército indonésio durante 24 anos destruiu sistematicamente a floresta que abrigava as ferozes FALINTIL. Sem raízes que agarrem a terra, as chuvas torrenciais arrastam-na. Se acaso for reversível, vai demorar muitos anos e custar muito dinheiro para reflorestar. A propósito, quando depuseram as armas, as ditas ferozes FALINTIL eram uns 120 homens descalços e famintos com, por junto e a retalho, talvez 29 balas e umas espingardas enferrujadas. Mas davam conta da cabeça de um exército bem armado, bem vestido e bem alimentado. Fica sempre bem recordar os heróis.

 

 

 

 

 

Não sei se é porque nos gramam mesmo ou se é só porque abominam profundamente indonésios e australianos. Hoje um taxista pergunta-me “Australian?”, não, portuguesa. “Ah, desculpe” como se me tivesse insultado.

 

Pantai Kalapa, a praia dos coqueiros, a minha. Muitos esgotos a correr para o mar, impensável tomar banho. As marés vivas arrancaram grandes pedaços de coral que lançaram na areia; hoje ao passear apetecia-me apanhar não conchinhas mas enormes pedregulhos. Fica para a próxima maré viva.

 

... and I reluctantly say farewell to bloomy Dili...

 

 

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003.

 

Uma entrevista com Isabel Feijó sobre o seu trabalho em Timor aqui

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui

 

Fotos de Pedro Martins

 

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18.10.13

 

Quarta Semana:

 

Esta semana chegou finalmente a oportunidade de assistir a um discurso do presidente. Full treatment.

Presidente feliz com lágrimas, de acordo com o Público. De 2a a 5a decorrreu na “Comissão de Acolhimento Verdade e Reconciliação” a primeira audiência pública sobre a guerra civil de 75 em que andaram todos a matar-se uns aos outros. Para quem não leu o Adelino Gomes, já várias vezes tinha sido marcada e outras tantas adiada. É um assunto do mais sensível já que muitos responsáveis políticos de hoje (tanto governo como oposição) foram responsáveis por grandes matanças na época. Desta vez fez-se mesmo. Era aguardado com enorme expectativa e durante as sessões Dili andou colada aos rádios para ouvir os depoimentos; os motoristas aqui do PNUD não saíam dos carros o dia inteiro, sintonizados na Rádio Timor-Leste, e quando saíam era para se juntarem em volta dum transistor. 

 

Note-se bem que isto na altura era Portugal. As nossas maravilhosas RTP, RDP e Lusa têm correspondentes em Dili. Adivinha quantos jornalistas portugueses estavam nas audiências? Quantos passaram por lá, nem que seja 5 minutos? Resposta – Um. Quem? Adelino Gomes que veio de propósito de Lisboa (no voo mais barato que encontrou e pagando do bolso dele as despesas em Dili...). Timor não é notícia. Como não estão a matar ninguém, não interessa para nada. Foram mortos uns milhares em 75 e nunca se falou disso? As feridas são fundas e a gente também teve responsabilidade. Mas o que é que isso interessa agora? Os jornalistas portugueses em Dili foram para a praia.

 

 

 

 

Aconselho vivamente a leitura dos artigos do Adelino Gomes, não posso acrescentar nada. Resta-me a minha própria comoção ao ver toda a gente a chorar com o discurso do Xanana (a começar pelo próprio, voz quebrada, olhos e nariz vermelhos, assoando-se, limpando a cara com o lenço, no meio das suas longas pausas habituais, desta vez mais longas ainda). Nem as moscas (abundantes) se ouviam.

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Foto de Pedro Martins

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui 

 

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10.10.13

Terceira Semana:

 

Esta semana a minha vida melhorou consideravelmente. Pantai Kalapa. Frase mágica, tipo abre-te sésamo! Entro num taxi, qualquer taxi, vocifero pantai kalapa e trazem-me direitinha ao hotel. Tornei-me uma mulher independente! Posso ir para qualquer lugar que, quais pedrinhas do polegarzinho, sei sempre voltar a casa. Claro que militantemente na defesa da língua portuguesa começo por dizer avenida de Portugal, passo em seguida a praia dos coqueiros mas na ausência absoluta de reacção, vergo-me ao peso da evidência e atiro-lhes com pantai kalapa. Há dias o taxista era um velho, disse hotel Esplanada. Reacção zero. Avenida de Portugal. Idem. Pantai Kalapa. “Ah...”. Passado mais um bocado. “Que horas são, por favor?” Mais um bocado. “E em Portugal que horas são?” Mais uma pausa. “Em Portugal está frio? Lá têm 4 estações?”. Riu-se como um perdido quando lhe disse que em Portugal estava um frio de rachar e ficou muito interessado em saber que as estações se chamam Primavera, Verão, Outono e Inverno.  Depois deve ter esgotado a sua memória do português porque não disse mais nada. Coitado e estava comovido. Eu também fiquei como é obvio. 

Os taxistas dão sempre pano para mangas em qualquer parte do mundo e Dili não é excepção. Um dia desta semana resolvi ir almoçar a um japonês no centro (o PNUD é um bocado fora, não é longe, mas andar na rua com sol a pino é impensável). Apanho um taxi cheio de penduricalhos de terços e santinhos. O motorista estava a ouvir música tipo igreja mas ao perceber que eu era portuguesa resolveu ser simpático e pôr uma cassette especial para mim. Quim Barreiros. Mais tarde vim a saber que a rádio da igreja transmitia abundantemente música pimba. O bispo foi alertado para o perigo de ter pessoas com uma grande boa-vontade em relação à língua portuguesa mas um total desconhecimento da dita e apressou-se a corrigir. Agora é mais música delicodoce ultrapirosa brasileira e portuga e canções de emigrantes género Linda de Susa.

 

 

 

 

Quanto à língua portuguesa, claro que não se pode dizer que aqui se fale muito, mas ainda assim fala-se muito mais do que esperava e sobretudo é verdade que fazem um enorme esforço para aprender. As empregadas do hotel, onde a língua de trabalho é o inglês, no princípio parecia que não falavam uma palavra lusa para além de bom dia e boa noite e obrigada, que de resto se diz também assim em tétum. Hoje, de repente ouço – boa noite senhora, como está? quer fazer já o seu pedido? já terminou, posso retirar? mais alguma coisa? Não sei o que se passou. Suponho que tivessem vergonha de falar tuga. Há um ano, os ministérios e o parlamento tinham dificuldades de entendimento medonhas porque uns falavam ou escreviam em indonésio, outros em inglês, outros em português outros em tétum. Hoje toda a legislação e documentos oficiais é escrita em português excepto a que sai do ministério das finanças que vem em inglês. Única excepção. 

 

Acontecimentos relevantes na semana? Dia dos Direitos Humanos no Estádio Nacional e passagem de testemunho da polícia ONU para a polícia de Dili. Nunca tinha visto um Presidente da República passar revista às tropas em t’shirt, mãos nos bolsos, sem saber o que fazer aos óculos escuros. Nem nunca vi nenhum PR em cerimónia oficial a subir as escadas aproveitando para ajeitar o tapete vermelho que estava perigosamente descomposto. 

 

E para acabar – o mercado. Um mercado no terceiro mundo tropical é sempre um fascínio de cores e cheiros e apetece logo ter uma casa para levar as frutas todas e experimentar ervas e legumes estranhíssimos e comer tomates com sabor e coisas dessas. Carne não, santo deus, as moscas!... abençoados supermercados com frigoríficos. Nem peixe, que o vendem na praia acabado de pescar.

 

 

 

 

E antes de ir para a cama, fiquem sabendo que aqui as osgas cantam e há uns lagartos vermelhos que falam. Não estou a brincar, pensei que eram passarinhos. Deve ser por estarmos perto de Darwin...

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Fotos de Isabel Feijó e Pedro Martins

 

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2.10.13

 

Segunda Semana:

 

Pois não, não é fácil. Eu sabia que não ia ser fácil e não é. Timor? Os timorenses? O clima? Não!!! Tudo isso é de caras. A terra é simpática, as pessoas acolhedoras, totalmente incompetentes mas sempre com um sorriso tímido. O pior são os taxistas. Será que existe uma recomendação internacional para que qualquer pessoa que não perceba uma palavra de língua nenhuma a não ser a própria (mais ainda numa terra onde praticamente só os estrangeiros apanham taxis...) e não conheça a cidade, tenha justamente que ser taxista? E custa sempre um dólar. Um norueguês a puxar pró arrogante lá do PNUD diz que os “locals” só pagam meio dólar e que portanto se recusa a pagar mais. Diz ele que não se pode pactuar com a terrível exploração do pobre estrangeiro (a ganhar 10 ou 20 vezes o que ganha um ministro, note-se...). Santa paciência!...  Os “locals” não só pagam 50 cêntimos como andam aos 8 e 9 num taxi. Não quererá ele impor o número máximo permitido num veículo automóvel de quatro portas aos timorenses? Os “internationals” às vezes têm destas coisas.

 

A semana de trabalho foi tão preenchida que de repente parece que passou um mês inteiro. Tive reuniões com o Ministro dos Negócios Estrangeiros, do Interior, da Educação, o Procurador-Geral, o Chefe do Estado Maior, isto para só mencionar os postos mais elevados da hierarquia. Mas não se pense que já corri a Administração timorense porque para a semana há mais... Presidente do Parlamento, do Conselho Superior da Magistratura mais alguns ministros e secretários de estado...

 

 

 

 

E depois tive um fim de semana inteiro para mim. Ufff! Ontem fui ao mercado de artesanato – umas 10 bancas, todas rigorosamente com os mesmos panos (de resto lindíssimos) no meio dos quais lá consegui encontrar um chapéu de palha. Que alívio! Temo ter dado um bocadinho nas vistas. A única cobertura de moleirinha aparentemente admitida nestas bandas é o boné de baseball e só os rapazes usam. Algumas senhoras usam guarda-chuvas, ou melhor, sombrinhas. Mas não me dá jeito nenhum. Depressa esgotei o comércio disponível naquela rua. Resolvi então ir até à Areia Branca, a tal praia onde se encontram pedaços de coral azul. E era isso mesmo que me apetecia fazer. Passear à beira mar e apanhar conchinhas.

 

 

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Fotos de Pedro Martins

 

Uma entrevista com Isabel Feijó sobre o seu trabalho em Timor aqui

 

 

 

 


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