23.2.13

 

 

 

Elisa Silva Santos, Alice Ribeiro, Eduardo Silva Santos e Estolano Dias Ribeiro

Anos 20 do séc. XX

 

 

Vivi sempre com o desgosto de não ter conhecido este avô (nem o outro),e contavam-me pessoas que com ele privaram que era uma pessoa irresistivelmente encantadora. [...] Muito jovem foi trabalhar para Moçambique. Terá sido aí que estabeleceu uma amizade muito forte com Estolano Ribeiro, e trabalhado com ele, na Companhia do Boror de que também viria a ser accionista. A amizade com Estolano Ribeiro esteve na origem de uma relação de uma enorme familiaridade, madrinhas e afilhados para cá e para lá, e que ao fim de três gerações se mantém viva. Os dois amigos e as suas mulheres formaram um eixo que sustentou e relacionou afectos, entreajudas, o afirmar de um certo estilo/ espírito, mitologias – de que eu próprio fui herdeiro, como se fosse possível comungar de património genético por afinidade. [...]

 

 

Update 001

Não tropecei propriamente no registo de nascimento do meu avô. Andei laboriosamente à procura dele. Sabia que era escorpião, e a partir do registo de nascimento da minha mãe, que refere a idade dele, e da minha avó, determinei que ele tinha muito provavelmente nascido entre Outubro e Novembro de 1879. E ela em 9 de Setembro de 1894. Ouf! Seguiu-se uma segunda ida para a Torre do Tombo. A Torre do Tombo é uma experiência. A escala, os materiais, o silêncio. A função. Alguém na portaria dirigiu-se a mim como Sr. Investigador Shiii! Durante duas horas literalmente "lambi" não papel mas microfilme, dando à manivela nos registos paroquiais da Freguesia do Santíssimo Coração de Jesus. Rolo 1.538. Nada. Rolo 2.642. Outras freguesias. Rezei o responso a São Tomás de Vila Nova. E mesmo, mesmo, no fim dos registos, próximo da "data extrema", na margem do livro aparece um simples Eduardo. A próxima coisa em que os meus olhos pousaram, curiosamente, foi o nome Rozebel. Invadiu-me um sentimento de calma enorme, e de exaltação também. Agradeci ao Altíssimo ter-me finalmente levado aos meus.[…]

Preciso do casamento, e já agora do óbito. Seguiram-se 24 horas de alta voltagem. Estas descobertas deixam-me num estado quase febril, é o encontro com a verdade, os registos contam-me a verdadeira história, muito mais nítida e útil do que as minhas memórias e a tradição oral que carregava comigo há anos.

Logo de manhã: Conservatória. De uma assentada a transcrição do registo que já tinha visto, e logo a seguir o de casamento e o de óbito. Um manancial de informação e muitos recantos da minha história - e da deles - iluminados.

 

Joaquim Martinho

in 1912 um superalbum

Edição Súbita, Associação de Desenho e Cinema

©2012 Joaquim Martinho

aqui

 

 

 

Este livro dedicado a um neto, para um dia ele “saber de onde vem este avô”, reúne cerca de trinta membros da família do autor num mosaico de histórias dos últimos cem anos em Portugal. Alguns retratos e paisagens recordaram-me pessoas e ambientes do meu próprio passado e, a par do importante trabalho de transmissão às gerações seguintes, é neste reconhecimento que reside a meu ver o grande encanto dos álbuns de família dos outros*. Neste "superalbum" também apreciei particularmente o modo como o autor vai partilhando o seu work in progress e as reflexões que o mesmo lhe vai suscitando. 

 

 

* Mais sobre a fotografia vernacular aqui

 

 

 

 

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14.2.13

 

 

Handpaar einer Doppelstatue des Echnaton und der Nofretete
Neues Reich, 18. Dynastie, um 1350 v. Chr.  Amarna; Quarzit
Inv. - Nr. 20494 Foto: Jürgen Liepe
Staatliche Museen zu Berlin - Ägyptisches Museum



9.2.13

 

 

 

Portugal c. 1935

 

 

A minha Mãe tinha muito gosto e paciência para nos mascarar no Carnaval. No castelo de S. Jorge houve uma festa comemorativa das Guerras Peninsulares, (século XIX) um grupo de jovens oficiais e soldados foram vestidos à época das tropas de D. Pedro e D. Miguel, e nesse ano o meu irmão foi vestido a «rigor» como oficial de Caçadores 7.

Eu que só tinha quatro anos, levava um vestido império azulão, uma touca com paradis verdadeiros, tudo no mesmo tom. Como o vestido era comprido, não era fácil brincar, sem descoser e por vezes rasgar. A Mãe à noite cosia e remediava os "estragos".

Nos dias de Carnaval íamos às matinés ou então à "amostra" a casa dos Tios, Avós e outras pessoas amigas. O meu Irmão tinha um porte impecável, nada saía do lugar, era um oficial verdadeiro, com a sua cartola muito alta e a "canana" para os apontamentos (que eram feitos com um lápis pequenino). Quase sempre ganhava o 1o prémio nos cinemas S. Luís, Capitólio, e outras salas de espectáculo. Éramos um par muito bem mascarado mas eu desmanchava-me sempre, e no fim da tarde a diferença entre o aprumo do Luiz e o meu desalinho era bem visível.

 

 

Alda Rosa Bandeira de Lima Osório Bernardo de Sousa

in Memórias e Saudades

Publicado em 2011

 

Um bonito álbum, muito bem escrito e ilustrado, de uma Senhora que ao fazer oitenta anos reuniu recordações do antigamente para os filhos, netos e bisnetos. Publicaram-se apenas três exemplares neste formato. 

 

 


Nota:
O álbum Memórias e Saudades foi-me gentilmente cedido por Maria do Rosário Sousa Machado, a quem muito agradeço. 
 
 
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3.2.13

 

 François Mauriac



Ce qui longtemps m'a surtout frappé dans une vie, c'est le divertissement, tel que Pascal l'a défini: ce que nous inventons pour ne pas penser à nous-même et à l'horreur de notre condition, depuis la balle qui se pousse du pied jusqu'au lièvre que nous forçons, depuis les peuples qu'il faut asservir, si nous sommes César, jusqu'aux êtres qu'il faut posséder, si nous sommes Don Juan.

Aujourd'hui, ayant observé tant de destins, à travers les confidences et les livres, ou parce que j'y suis moi-même intervenu, je vois mieux que beaucoup parmi nous ne se divertissent que pour donner le change, qu'ils gardent au contraire les yeux sans cesse ouverts sur leur sort, celui de toute créature qui, même comblée, est mena­cée de partout à la fois: dans sa chair où la mort, bien longtemps avant de frapper, a planté ses petits drapeaux, dans son appartenance à une espèce très proche de celle des poissons et qui s'entre-dévore, « s'entre-torture » — et non pas seulement, comme dans les autres espèces, autour des femelles ou parce que l'animal est carnassier et a faim, mais parce qu'il est né assassin et bourreau de ses frères.

Non, pour la plupart, nous ne cherchons pas à nous divertir, nous nous interdisons de détourner notre regard, même quand nous feignons de jouer. Un seul moment d'inattention et la bête féroce peut d'un bond être sur nous.

Je connais mes défenses. Il m'arrive de m'interroger sur celles des autres — celles des vieillards surtout. La jeunesse trouve son refuge dans son propre tumulte. L'amour, l'ambition, ce qui s'appelle le plaisir, y entre­tiennent des remous qui se détruisent l'un l'autre. Non que l'angoisse ne soit là déjà. Elle était là dès l'enfance: nos yeux grands ouverts dans la chambre sans lumière, lorsqu'il nous semblait entendre un pas furtif dans l'esca­lier, une respiration derrière la porte, exprimaient sans doute le même effroi que nous avons appris plus tard à dissimuler, que nous avons dominé mais non détruit. Ou plutôt ce qui n'était qu'instinct est devenu raison. Les pas dans l'escalier, c'est en nous-mêmes que nous avons appris à les entendre et non dans un seul escalier: combien débouchent de partout sur une seule vie ! Il en est qui montent des profondeurs de la race et de notre propre chair, et d'autres d'une créature aimée. La condi­tion humaine, ce titre de Malraux, pose l'unique question et il y faut répondre, non par une nécessité logique, mais pour notre propre défense. Comment font les autres? Qu'y a-t-il au secret de ces vies?



François Mauriac

in Mémoires intérieurs

© Flammarion, 1959



 

 

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