30.11.10

 

 

“Salut les copains” era a revista que as francesas liam no liceu francês. Embora algumas estrêlas da “geração yéyé” tenham alcançado popularidade além fronteiras, e tiveram-na sem dúvida nenhuma em Portugal, a sua projecção foi restrita à excepção do caso de Serge Gainsbourg, cujo “Je t’aime moi non plus” esteve no topo dos “charts” britânicos, conquista lendária celebrada no recente biopic do compositor.

 

Eu era fã de Françoise Hardy, Sylvie Vartan, Adamo, Polnareff, para nomear apenas alguns, mas a música vinda de Inglaterra e da América já exercia uma atracção irresistível. Com a chegada do programa “Em Órbita”, transmitido pelo Rádio Clube Português, a pop francesa desapareceu aos poucos do meu radar, mas não as canções, a moda, os filmes e os livros que vinham de França.

 

 

sobre o programa "Em órbita" leia aqui

 

 

 

 

 

 

L'interjection yéyé est, au départ, la transcription française du yeah, une déformation de «ye», qui ponctue les chansons de rock et de twist américaines. Les paroliers ont préféré « yé » à une traduction plus littérale en ouais. De là , « yéyé » désigna le courant musical.

Le 22 juin 1963, entre 150 000 et 200 000 jeunes se retrouvent place de la Nation à Paris, pour fêter le premier anniversaire du magazine Salut les copains. A l'exception de Johnny Hallyday, aucune idole ne va pouvoir atteindre le podium. Il y a trop de monde et la sécurité n'est pas garantie.

Quelques jours plus tard, dans une chronique publiée dans le journal Le Monde, le sociologue Edgar Morin baptise ces jeunes les yéyé. Par extension yéyé désigne donc aussi un phénomène de mode des années 1960.

 

Les artistes du Yé-yé:

 

* Claude François * César et les Romains * Christophe * Dalida * Françoise Hardy * France Gall * Sheila * Sylvie Vartan * Chantal Goya * Frank Alamo * Eddy Mitchell * Johnny Hallyday *Jacques Dutronc * Michel Polnareff * Liz Brady * Cosette * Dani * Gillian Hills * Jacqueline Taïeb * Jocelyne * Michèle Richard * Pierre Lalonde * Ronnie Bird * Les Surfs * Richard Anthony * Serge Gainsbourg.

 

Leia a história da revista "Salut les copains" aqui

 


26.11.10

 

 

 

 

Revista ELLE, 5 Outubro 1967

 

 

 

Devo muito aos jornais e às revistas e a "Elle" francesa é de longe a publicação que me acompanha há mais tempo, e com maior regularidade. Leio-a desde o início dos anos 60, desde que fui morar para o Saldanha, onde o correio a entregava pontualmente todas as semanas, oferta de Pierre e Helène Lazareff ao meu avô.

A "Elle" continua igual ao que era há 50 anos, o que parece um milagre mas é verdade. Apenas desapareceram das suas páginas Marcelle Ségal e Francesco Waldner, infelizmente. Em tudo o mais, a edição francesa, que continua a ser semanal, manteve intacta a qualidade da sua redacção, dos seus colaboradores, do seu design gráfico e do seu conjunto de rubricas. É simplesmente perfeita. Espero que nunca mude.

 

Leia a história da "Elle" aqui

 

Sobre Marcelle Ségal e o seu "Courrier du Coeur" leia aqui

 


22.11.10

 

 

 

 

Lisbon Courier - Le Courrier de Lisbonne

Terceiro Ano, Nº 30 - 1 Setembro 1948

(foto de Ruy Cinatti)

 

 

 

 

 

História de uma ilha

 

Quando, antes da guerra, o português ido do ocidente. depois de muitas semanas por mar até o oriente, e após caminhar dias e dias ao longo de Sumatra e de Java e ter serpenteado por entre pequenas ilhas misteriosas. cheias de perfume e de cor, desembarcava em Dili, não encontrava decerto, nem a «metrópole», de tipo mais ou menos europeu, com que o europeu inadaptado se procura iludir, nem a "cidade misteriosa do Oriente» que o europeu sem experiência julga ir encontrar a cada passo. Díli era acolhedora, sem dúvida, com a sua população variada, constituída por europeus, por árabes, por chineses, por negros e enfim, pelos indígenas, com o seu comércio de capital dum território de 450.000 habitantes, com os seus bazares onde tudo se comprava, desde o «best-seller» americano até o amendoim, desde o equipamento desportivo até à linha de coser. Mas era, apesar de acolhedora, uma cidade pequena e modesta, sem grandes pretensões.

Os encantos que a cidade não possuía, possuía-os porém, de sobra, a ilha misteriosa e verde que para lá dela se estendia e sob cujo sortilégio, adivinhado do largo, antes do barco fundear na baía, o europeu desembarcava.

Para lá de Díli era a Natureza. Uma Natureza pujante e viçosa—sob cuja magia ficou sempre quem algum dia a percorreu. As estradas a meia encosta dos montes, por vezes atravessadas pela água cantante que cai em cascatas frescas dos cerros altos, as ribeiras das montanhas onde se colhe um camarão tão saboroso como o do mar, grande e bonito, as matas frondosas de madeiras raras, como a teca, o tamarindo ou o sândalo...

Perante uma Natureza como a de Timor, não há obra humana que resista ao interesse dos homens. E o caminho para quem tem de falar da obra humana, mais exactamente: da obra portuguesa nesta colónia que dista de Lisboa mais de 13.000 milhas, terá de ser o de não falar na Natureza...

Como escreveu o Capitão Pinto Correia, «certos aspectos há em que Timor se torna documento excelente de colonização portuguesa».

O primacial, de entre estes aspectos, é o da "política de ocupação ter cedido o lugar à política de administração e de fomento». Por isso acentuava, antes da guerra, o mesmo notável colonialista português, que Timor se renovava e progredia mercê dum escasso punhado de portugueses, corajosos e activos, que, isolados no interior da colónia, desenvolviam um esforço notável de criadores de riqueza agrária e de reformadores da mentalidade indígena.

Foi esse esforço, que ininterruptamente, ao longo de quatrocentos anos, a administração portuguesa veio dispendendo, que a guerra e a ocupação estrangeira fizeram duramente interromper.

Quando, ao terminar a guerra no oriente, teve o seu termo a ocupação estrangeira, não era só a capital da ilha— Díli — que se encontrava arruinada. Se a cidade, e com ela todos os outros grandes aglomerados urbanos, era um monte de ruínas, através dos quais o mato crescera por tal modo que tornava difícil reconstituir a linha dos antigos arruamentos, a verdade é que toda a ilha estava em ruínas, quer na sua rede de comunicações, quer agrícola e economicamente.

Com a destruição dos principais aglomerados urbanos, e em particular de Díli, destruíra-se a base do comércio que a colónia mantivera até à invasão, com a Austrália e com as índias Holandesas, Por outro lado, as pequenas indústrias locais dos couros, da ourivesaria e dos panos perdiam a base da sua laboração, que era, evidentemente, a paz e o comércio.


 

 

Bazar de Díli, 1948

 

 

 

A riqueza pecuária, uma das mais importantes bases da vida do indígena, era entretanto consumida pelos exércitos que ocupavam a ilha, podendo calcular-se, a despeito de faltarem índices seguros, que, finda a ocupação, estava reduzida a um terço do que o fora antes da guerra.

 

Se a este quadro acrescentarmos a situação da agricultura— arruinada em parte pela devastação dos campos, em parte pelo abandono das culturas pelos indígenas atemorizados com a ocupação e, ainda, o estado da rede de estradas, que ao findar da guerra se encontravam quase completamente intransitáveis, teremos traçado as linhas gerais da situação em que se encontrava a colónia de Timor em 5 de Setembro de 1945, quando de novo as autoridades portuguesas, passado o período da ocupação estrangeira, voltaram a exercer as suas funções de chefia e administração.

Tudo era urgente, tudo era necessário fazer, e se o prestigio português só se robustecera aos olhos dos indígenas durante o período da ocupação, — como o atesta de uma forma inequívoca a paz social que tem rodeado a administração e a obra da reconstrução levada a cabo pelo Governo da colónia de Timor — a verdade é que o que havia a fazer excedia largamente as possibilidades do momento.

O que já se fez atesta, porém, já hoje, honrosamente, o valor e o esforço do punhado de homens de quem se exige tudo e que se tem de contentar com muito pouco. E se a obra de restauração não está ainda terminada, isso deve-se, porventura, sobretudo, à circunstância de não se ter querido reconstruir apenas, mas também emendar e alargar o que, feito ao longo dos anos que precederam a guerra, sem plano nem perspectivas, precisava agora de ser desenvolvido e modificado com vista ao futuro desenvolvimento económico da colónia.

Assim, em menos de 3 anos, o governo da colónia, não só aproveitando a antiga rede de comunicações mas também alargando-a e alterando-a, pôde reconstruir toda a rede de estradas que liga já hoje todas as povoações mais importantes de Timor. A par das comunicações terrestres, entendeu o governo da colónia garantir também uma rede de comunicações aéreas; foi assim que, enquanto se construía em Baucau um aeródromo com características internacionais — que é hoje o maior de Timor — onde pode aterrar qualquer avião moderno, se construíam junto das povoações mais importantes pistas de aterragem cuja importância sob o ponto de vista da saúde pública, é enorme, dado o uso, corrente hoje na colónia, de aviões sanitários para o transporte de doentes.

A par da reconstrução do sistema de comunicações, e em breve estarão também asseguradas as comunicações telefónicas e telegráficas através de toda a ilha — o problema mais importante a resolver, era, naturalmente, o da reorganização da vida agrícola e da riqueza pecuária, bases do sustento da população indígena. Se, pelo que respeita à vida agrícola, a paz social de que acima se falou foi o elemento essencial que levou os indígenas a regressar ao trabalho da terra, já o problema da pecuária requereu medidas do governo. Assim, compraram-se na Austrália exemplares de gados diversos, enquanto a colónia era dotada de técnicos e de todo o apetrechamento necessário à fecundação artificial. Não é de resto estranho ao problema do rendimento agrícola de certas culturas, o problema da existência do gado bufalino, sabido como é que, desconhecendo a charrua, o indígena utiliza o búfalo para preparar a terra; é o que acontece sobretudo com as plantações de arroz.

A par destas medidas, o governo da colónia tem trabalhado no repovoamento das matas de sândalo e de teca, enquanto por outro lado construiu campos experimentais para entregar aos colonos e que são constituídos por terras destinadas a todas as culturas, pomares, uma residência de alvenaria e abundante água corrente.

A grande obra, porém, que há que levar a cabo, é a da reedificação de todos os edifícios que a ocupação estrangeira deixou em escombros ou ao abandono. E foram todos os que, através duma administração quatro vezes centenária, os portugueses haviam construído: casas de habitação, hospitais, edifícios públicos, escolas, igrejas...

Esta obra em via de realização por toda a ilha, será coroada com a construção da nova capital—Nova Díli— num planalto que se eleva a 800 metros sobre o nível do mar, sobranceiro à zona da antiga cidade de Díli. O local onde esta estava construída fora realmente escolhido por razões de ordem militar que, há cento e cinquenta anos, se sobrepuseram à circunstância da falta de salubridade não aconselhar nessa zona qualquer construção, devido à proximidade de pântanos.

Aí, nesse planalto, se construirá a nova cidade capital, com o palácio do governo, os demais edifícios públicos, a residência do Bispo, os consulados da Austrália, Holanda e China, e a zona comercial de europeus e indígenas. Entretanto, no local da antiga capital, o plano prevê a reconstrução da zona portuária de modo a assegurar o seu interesse comercial local.

Por toda a ilha haverá que construir igrejas, escolas, postos sanitários, campos para feiras francas, bazares...e, a par destes edifícios, casas para habitação de funcionários, de colonos, de comerciantes.

Toda esta obra, que levará decerto anos, atestará quando estiver realizada, que a obra de colonização dos portugueses não é uma obra do passado de que o presente se aproveite, mas sim uma obra do presente para benefício dos vindouros e atestará ainda que se, ao cabo das 13.000 milhas que separam Lisboa de Timor, o mundo é outro e novo, continua a ser mundo português.

 

 

 

Vasco Futscher Pereira

"Lisbon Courier"  Nº 30- 1 de Setembro de 1948

 

Fotografias de Ruy Cinatti

 

 

 

Mais fotos de Timor de Ruy Cinatti aqui 


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17.11.10

 

 

 

Os meus avós maternos "na casa da avenida"

Lisboa, 1927

 

 

A Grande Guerra e o pós-guerra provocaram a maior desestabilização da sociedade portuguesa desde a época das guerras civis, na primeira metade do século XIX. [...] Depois de 1918, os preços enlouqueceram: deram-se aumentos gigantescos de um dia para o outro, segundo um ritmo irregular e violento. O valor do dinheiro tornou-se incerto.[...] Mas nem toda a gente passou por estes transes da mesma maneira. Nem a prosperidade nem as dificuldades foram gerais. [...] A inflação destruiu o modo de vida daqueles que dependiam de rendimentos fixos, como juros de títulos ou de montepios. Não só os pôs quase na miséria, como de qualquer modo lhes degradou o estatuto social, sobretudo quando este passou cada vez mais a ser julgado em função de determinados consumos: possuir automóvel, telefone, etc. No funcionalismo do Estado a inflação prejudicou os ordenados médios e altos, que subiram menos do que os ordenados inferiores: amanuenses, sargentos, praças passaram a ganhar melhor, enquanto directores-gerais e oficiais superiores viram o seu poder de compra reduzido a metade. [...] Subitamente, a sociedade não era a mesma. Mais igualitária, cheia de caras novas: os “ricos” não eram os mesmos, os “pobres” também não.

 

 


 

 

© Rui Ramos

in A Segunda Fundação (1890-1926)

Volume VI da História de Portugal, dirigida por José Mattoso, 1994. (2ª edição em 2001)

 

 

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14.11.10

 

 

 

 

Desenho

de Américo da Silva Amarelhe (1892-1946)

(aqui)

 

 

Despedida de Guilherme Pereira de Carvalho do cargo de administrador da revista “De Teatro”, para assumir funções no SPN. Entre os convivas, fixados pelo lápis de Amarelhe, estão Lino Ferreira, António Ferro, Alexandre de Azevedo, José Paulo da Câmara, Silva Tavares, Feliciano Santos, Artur Portela, José Galhardo, Pedro Bordalo Pinheiro, Norberto de Araújo, Pinheiro Correia, Álvaro Lima, Nogueira de Brito, João Bastos, Mário Duarte, Albino Abranches, Lopo Lauer, Álvaro Raio de Carvalho, Leitão de Barros, Álvaro de Andrade, etc. Ao centro alto, Guilherme Pereira de Carvalho e, ao centro baixo, Amarelhe.

 

 

Visite o Centro de Estudos de Teatro aqui

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13.11.10

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Revista de Teatro e Música”, ou simplesmente "de Teatro", foi uma revista portuguesa editada em Lisboa em 1922, por Mario Duarte e Guilherme Pereira de Carvalho Junior.

 

*

 

 

Publicado ininterruptamente entre Setembro de 1922 e Agosto de 1927, sempre sob a direcção de Mário Duarte, este periódico mensal dedicado a todos os que de uma forma ou de outra se interessavam por teatro, destacou-se pela sua longevidade e por um conjunto de características que o individualizaram. Entre elas contam-se as seguintes: publicou peças de autores portugueses (excertos de peças inéditas, ou peças completas), muitas delas já representadas em Portugal, o que leva a direcção da revista a orgulhar-se em 1926 (1926: 40), de ser a segunda publicação mundial a conseguir tal proeza; desencadeou um debate de ideias sobre o estado do teatro da época para o qual contribuíram inúmeros colaboradores de que destaco Henrique Lopes de Mendonça, André Brun, Carlos Selvagem e Santos Tavares; publicou críticas a cerca de quatrocentos espectáculos levados à cena em Portugal por companhias quer nacionais, quer estrangeiras; noticiou regularmente o que de mais relevante se ia passando nos palcos portugueses; registou com regularidade publicações de teatro; incluiu nas suas páginas fotografias e caricaturas – muitas destas saídas da pena de Amarelhe, mas também da autoria de Almada Negreiros e de outros – de conhecidas figuras do teatro de então; foi peça fundamental para a fundação da Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, sob o impulso de Mário Duarte, em 1925; criou a Empresa De Teatro Editora a partir de Dezembro de 1924 que, para além da revista, publicou algumas obras importantes para a história do teatro português.

 

 

Ana Campos

A REVISTA DE TEATRO

Uma visão parcial da dramaturgia portuguesa dos anos 20 (aqui)

(in Sinais de cena n.º 7, Junho de 2007, pp. 122-129)

 

Revista De Teatro e Música na Wikipédia aqui

 

 

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8.11.10

 

 

 

Guilherme Pereira de Carvalho (1891-1966)

óleo s/tela de Arpad Szenes (aqui)

 

 

 

 

Em casa dos meus avós no Saldanha havia uma salinha com as paredes forradas de fotografias, de personalidades estrangeiras que visitaram Portugal no tempo em que o meu avô trabalhava no SPN/SNI (Secretariado Nacional de Informação) e de artistas portugueses e estrangeiros de teatro e variedades, o universo que mais o fascinava.

Arpad Szenes ofereceu-lhe este retrato em 1940.

 

Guilherme Pereira de Carvalho foi um dos colaboradores directos de António Ferro desde a criação do Secretariado de Propaganda Nacional, em 1933, e permaneceu no Palácio Foz até se reformar, em finais dos anos 50. Foi também director de uma revista, a "Lisbon Courier", que já evoquei aqui e a que regressarei em breve para mostrar mais algumas curiosidades, agora que um primo me emprestou gentilmente os vários volumes encadernados da sua colecção.

 

 

 

 

 

 

 

 

Walt Disney com António Ferro e Guilherme Pereira de Carvalho

Brasil, 1942?

 

 

 

sobre a casa do Saldanha leia aqui

 

Uma foto do Saldanha nos anos 60 aqui

 

 


4.11.10

 

 

 

 

 

Grifo (1987)

 

 

 

A estrutura solta, a abertura e sensualidade da cor numa matriz de espaço e luz, por meio das quais Willing atrai o observador, são estratégias dos pintores barrocos do séc. XVII que, desse modo, criaram imagens coerentes de temas religiosos, históricos ou mitológicos. Nas pinturas da última fase, Willing adoptou estratégias semelhantes para servir a realização pictórica de imagens simbólicas e fragmentárias, enraizadas no inconsciente. Dado que elas são executadas num estilo directo, desprovido de ambiguidade, o observador não é distraído pela especulação sobre o seu significado, mas fica livre para se concentrar no que lá está. "Acho que são cenários [scenarios]", disse Willing em 1985, "em que algo aconteceu ou vai acontecer, mas não está a acontecer nessa altura".

 

 

Hellmut Wohl

in Victor Willing - uma retrospectiva, aqui

© Fundação Paula Rego

 

 

Leia também aqui

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1.11.10

 

 

 

 

A Ilha dos Mortos (1880)

Arnold Böcklin

 

 

Il n'est pas prouvé, mais peu m'importe, qu'Arnold Böcklin se soit inspiré de l'île San Michele pour peindre sa fameuse île des morts dont il a donné, tant elle eut rapidement de succès, cinq versions (entre 1880 et 1886). Freud en avait une reproduction dans son bureau, Clemenceau aussi, ai-je lu quelque part, et Lénine dans sa chambre à Zurich. Il semble bien qu’Hitler ait acheté une de ces versions, ce qui m'ennuie fort, tant ce tableau depuis longtemps me fascine. Ses longs cyprès, ses deux volumineux blocs de pierre où résident peut-être les gardiens des morts prisonniers et cette barque qui s'approche lentement du débarcadère pour y livrer son chargement ; un personnage vu de dos, sans visage, revêtu d'un suaire blanc. Le batelier, lui, s'apprête déjà à effectuer la traversée dans l'autre sens.


Qu’avaient-ils en commun, ceux que je viens de citer, pour subir ainsi la force d'attraction du tableau de Böcklin ? Qu' y voyaient-ils ? La figuration de leur propre mort ? de celle des autres ? Quel vœu était le leur ? Expédier à tout jamais dans l'île des morts ceux qu'ils haïssaient ou y débarquer eux- mêmes pour enfin y connaître la paix des cimetières ? Je crois plutôt qu'ils cherchaient ainsi à se séparer de la mort sans pourtant méconnaître son inéluctable survenue.


L'île San Michele - quelques centaines de mètres suffisent - est séparée par la lagune de la cité des vivants. L'île est là, à portée de regard, mais de l'autre côté de ce quai où je marche au soleil, à bonne distance de l'ombre des cyprès et des redoutables falaises de pierre.


J'ignore si Böcklin, adulé de son vivant, puis déprécié avant d'être redécouvert il y a quelque temps, est ce qu'on appelle un grand peintre. Mais je lui suis reconnaissant d'avoir su donner à la mort informe la forme d'un tableau et de nous permettre de croire que ce n'est pas la vie mais la mort qui est un songe.

 

 

J.-B. Pontalis

in Le Dormeur éveillé

© Mercure de France 2004



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