29.4.10

 

Em finais de Abril de 2009 saiu o livro “Retrovisor, um álbum de família” e nesse momento mudei de assunto neste blog, admitindo regressar mais tarde ao arquivo familiar para partilhar mais algumas curiosidades. Aos leitores interessados que não acompanham o blog desde o princípio sugiro a leitura dos posts “Um álbum de família” aqui e “Kill all your darlings” aqui.

 

 

Regresso pois ao livro “Retrovisor” neste aniversário, com a apresentação da resenha de José Cutileiro, que me honra e faz sentir feliz com a(s) história(s) que conta.

 

 

 

 

 

 

 

 

Serra do Marão, 1946

 

 

 

 

 

 

A thing of love is a joy forever

 

 

 

 

RETROVISOR

UM ÁLBUM DE FAMÍLIA

de Vera Futscher Pereira

Editora: Rui Costa Pinto Edições

Lisboa, 2009

 

 

 

 

 

 

O QUE SENTI quando acabei de ler e ver "Retrovisor" chegou-me numa paráfrase do primeiro verso do Endymion de Keats (1), de que me sirvo agora para dar nome a esta resenha do livro. Da capa à contracapa é amor de filha, de irmã, de neta, de tia, de sobrinha, de viajante em vários mundos, que dá coração à aventura em que a autora se meteu, ajudada por legados de Pai e Mãe, escravos desde pequenos do tão certo secretário com quem a pena desafogavam e meticulosos na guarda de escritos assim feitos e de mais papelada.

 

Sobre esse espólio muito variado — de poesia lírica intimista a telegramas diplomáticos, passando por 'O livro do bebé' —, um acervo de fotografias e mais documentos coevos, o livro acompanha por algumas gerações uma família burguesa de Lisboa -, ou melhor, porque o nosso sistema de parentesco é cognático, várias famílias vindas do século XIX que em duas gerações afunilam até ao casal Margarida-Vasco e alargam depois noutras duas chegando às novas famílias dos seus filhos e netos. Margarida e Vasco são por assim dizer o epicentro, os heróis principais do livro, mas este demora-se também em mais gente que com eles teve a ver, da família chegada a amigos de passagem, em Portugal, no Brasil e noutras partidas do mundo. A autora entremeia na narrativa informações sintéticas datadas que nos recordam o que se ia entretanto passando, em paz ou em guerra, na história de Portugal e do mundo.

 

O livro está muito bem escrito, é graficamente bem-sucedido, folheia-se com gosto e como acontece com fotobiografias, a cujo género pertence, presta-se a ser lido de várias maneiras, desde ir olhando para os bonecos como se de um 'coffee table book' se tratasse — assim comecei eu — a escrutínio atento de fio a pavio, que me entreteve um serão em seus enredos romanescos. Embora me pareça que, para quem goste de História e de histórias bem contadas, o livro possa interessar mesmo quem não tenha conhecido qualquer dos seus personagens, enriquece com certeza a leitura ter privado com alguns deles, sobretudo com os principais. Por mim, não conheci Margarida, pessoa quasi inteiramente privada, de quem Ruy Cinatti me falou às vezes com grande ternura e cujos versos só agora li mas conheci um pouco Vasco, de quem fui colega, que em 1982 e 1983 foi meu ministro e que é de longe a figura pública mais importante entre as capas do volume (outra é o pai de Margarida, colaborador chegado de António Ferro quando este dirigia o Secretariado de Propaganda Nacional).

 

Encontramo-nos pela primeira vez num almoço al fresco na Gôndola, organizado para o efeito pelo Vasco Valente e o Fernando Andresen, estava eu em posto em Estrasburgo e Futscher em Nova Iorque. Chegou atrasado, como era seu costume, e contou-nos que na véspera à noite não conseguira falar ao telefone com a Malu, que ficara em Manhattan, devido a impossibilidade da Marconi estabelecer a ligação. Nas conversas que pela noite fora, em sucessivas tentativas, tivera com a operadora — de quem fora fazendo amiga e aliada - julgara identificar problemas de pessoal e de organização que levavam à insuficiência de serviço de que fora vítima. A seguir ao último ensaio vão de atingir Nova Iorque, metera pena ao tinteiro (era assim que gostava de escrever) e passara o resto da madrugada e a manhã a compor uma carta sugerindo soluções ao director da Marconi, que acabara de ir entregar na sede da companhia, já não me lembro em que rua da Baixa pombalina. Era um português transitivo.

 

A esse primeiro encontro seguiram-se outros, ao acaso de circunstâncias. Vindo do Conselho de Segurança, ficou em minha casa em Estrasburgo numa visita ao Conselho da Europa. E, ministro dos estrangeiros quando Francisco Balsemão era Primeiro-Ministro veio com ele numa viagem oficial a Maputo ao fim da qual negociou com Chissano, seu homólogo moçambicano, o comunicado de imprensa. Eu participara antes na negociação de outro comunicado de visita oficial a Moçambique, dessa vez do Presidente da República, sempre com Chissano do lado de lá, mas com outro ministro dos estrangeiros do nosso lado. Ambas as sessões foram correctas e eficazes mas na segunda, mal se sentara à mesa e haviam sido trocadas as cortesias de circunstância, Chissano tinha já, por assim dizer, absorvido dois valiums que o charme de Vasco infiltrara nele e passamos todos a seguir uma hora feliz.

 

Esse charme legendário, ao serviço de considerável intelecto e de uma curiosidade voraz, ajudou muitas vezes Vasco Futscher a levar a água ao seu moinho mas havia quem lhe fosse insensível. Nessas ocasiões o meu amigo ficava, como o desertor do poema de Desnos, a parlamentar com sentinelas que não compreendiam o que ele lhes queria dizer. Mas, do começo ao fim da vida, tal aconteceu-lhe muito raramente. Quando ele morreu dei por mim, que sou ateu tal como ele era, a imaginar a conversa com S. Pedro em que o Santo, seduzido, lhe abria as portas do céu.

 

Comunicações diplomáticas suas em momentos complexos da história portuguesa, páginas do seu diário, testemunhos de colegas e amigos nutrem a narrativa, recordando o diplomata excepcional que ele foi (e pondo muito justamente em relevo ter sido ele quem, em ocasião crítica, mantivera viva a causa de Timor-Leste nas Nações Unidas, tornando assim possível a independência negociada do país anos depois). Toda a gente que com ele - ou contra ele - trabalhou sentiu o cunho da sua personalidade invulgar na aplicação das regras intemporais da arte diplomática. O poder de uma pequena potência pode ser aumentado pelo talento eficaz de quem a represente e o exemplo de Vasco Futscher afinou a minha capacidade de avaliar o desempenho dos diplomatas. Desde então tenho para mim que um embaixador mau não representa o seu país, que um embaixador razoável representa o seu país – e que um embaixador bom disfarça o seu país.

 

O encanto e interesse de "Retrovisor" não se esgotam no que nos diz ou sugere sobre os dois personagens principais. Amor filial não impede a autora de contar feitos e mostrar caras de muitas outras pessoas, situando nos seus lugares e no seu tempo os múltiplos actores e actrizes desta saga, desde os que já morreram há muito tempo aos que agora começam as suas vidas. E aprendem-se coisas. Eu, por exemplo, não sabia que o Bernardo, meu antigo chefe de gabinete na União da Europa Ocidental, tinha sido campeão nacional de florete dos menos de 20 anos - e descobri que o primeiro Futscher chegado a Portugal, no século XIX, fora um austero suíço alemão protestante - e não, como eu imaginara do convívio com Vasco, um judeu céptico e bon vivant do Império Austro-Húngaro.

 

 

 

José Cutileiro*

in Negócios Estrangeiros . Nº 15 - Dezembro de 2009.  pp. 179-181

 

 

1. A thing of beauty is a joy forever.

 

* Embaixador

 

 

 

Na fotografia, da direita para a esquerda:

Vasco Futscher Pereira, Mª Helena Brion Pinto, Mª Madalena Brion de Vasconcelos, Margarida Futscher Pereira, Amândio Pinto, António Teixeira de Vasconcelos, Maria do Carmo Brion Sanches.

 

 

 


20.4.10

 

 

Vieux dépliants touristiques, magazines démodés, notes de téléphone obsolètes, je fourrais allègrement tout ce qui me tombait sous la main dans de grands sacs-poubelle. C’était un jour faste. Aucune peine, nulle culpabilité n’entravait mon action. Les rayonnages du grenier se vidaient enfin. J’éprouvais une joie sans mélange. Une grande boîte aux motifs rouge et vert suspendit mon enthousiasme. J’y découvris soigneusement entreposées des dizaines de serviettes en papier venues de cafés et de restaurants du monde entier. Je voulus les jeter tout aussitôt, hésitai un instant puis les examinai plus attentivement. Au bas de chacune d’elles, la fine écriture de ma mère, ferme et déliée, se détachait clairement, imprimant à ces papiers anodins une émotion inattendue, véritable, légère et persistante. Vacillante, enfermée dans le petit grenier obscur, alors qu’un soleil éblouissant rayonnait à l'extérieur, je me représentai l’étrangeté de cette collection, l’absurdité de ma situation. Par quelles puissances infernales étais-je retenue comme Perséphone sous terre, à l'écart de toute vie, de toute lumière ? C’est à cet instant que l’idée d'écrire ces pages m’est venue.

 

 

Lydia Flem

in  Comment j’ai vidé la maison de mes parents pp. 128-129

© Éditions du Seuil, 2004

 

 


 

 

 

 


12.4.10

 

 

Montreuil 1963

foto Robert Doisneau

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cet enfant-là, que sa mère emporte, serré dans ses bras parmi les ombres des périls du monde, l'ai-je été un jour ?

 

J'ai beau vouloir me souvenir, rien ne vient, si ce n'est le manque. Il y eut certainement quelque chose de ces images des autres dans notre histoire, quelque chose que je cherche à travers elles sans parvenir à le nommer ; et qui fut certainement trop bref, ou que je ne sus percevoir parce que j'étais déjà trop exigeant, trop silencieux ; à moins que j'eusse été trop petit encore. Quelque chose... puisqu'aujourd'hui, infirme et violent, tout de même l'amour demeure.

 

 

Frédéric Mitterrand

in Tous Désirs Confondus

© RAPHO/TOP - ACTES SUD, 1988

 

Outro post sobre a mesma obra neste blog aqui

 

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5.4.10

 

It is tempting to quote authors when they express our very own thoughts but with a clarity and psychological accuracy we cannot match. They know us better than we know ourselves. What is shy and confused in us is succinctly and elegantly phrased in them, our pencil lines and annotations in the margins of their books and our borrowings from them indicating where we find a piece of ourselves, a sentence or two built of the very substance of which our own minds are made - a congruence all the more striking if the work was written in an age of togas and animal sacrifices. We invite these words into our books as a homage for reminding us of who we are. But rather than illuminating our experiences and goading us on to our own discoveries, great books may come to cast a problematic shadow. They may lead us to dismiss aspects of our lives of which there is no printed testimony. Far from expanding our horizons, they may unjustly come to mark their limits.Montaigne knew one man who seemed to have bought his bibliophilia too dearly:

 

 

 

Whenever I ask [this] acquaintance of mine to tell me what he knows about something, he wants to show me a book: he would not venture to tell me that he has scabs on his arse without studying his lexicon to find out the meanings of scab and arse.

 

 

Such reluctance to trust our own, extra-literary, experiences might not be grievous if books could be relied upon to express all our potentialities, if they knew all our scabs. But as Montaigne recognized, the great books are silent on too many themes, so that if we allow them to define the boundaries of our curiosity, they will hold back the development of our minds.

[…] However modest our stories, we can derive greater insights from ourselves than from all the books of old:

 

 

Were I a good scholar, I would find enough in my own experience to make me wise. Whoever recalls to mind his last bout of anger... sees the ugliness of this passion better than in Aristotle. Anyone who recalls the ills he has undergone, those which have threatened him and the trivial incidents which have moved him from one condition to another, makes himself thereby ready for future mutations and the exploring of his condition. Even the life of Caesar is less exemplary for us than our own; a life whether imperial or plebeian is always a life affected by everything that can happen to a man.

 

[…] There is no need to be discouraged if, from the outside, we look nothing like those who have ruminated in the past. In Montaigne's redrawn portrait of the adequate, semi-rational human being, it is possible to speak no Greek, fart, change one's mind after a meal, get bored with books, know none of the ancient philosophers and mistake Scipios.

 

A virtuous, ordinary life, striving for wisdom but never far from folly, is achievement enough.

 

 

 

 

 

Alain De Botton

in The Consolations of Philosophy (Consolation for Inadequacy) pp.161-168

© Alain De Botton, 2000

 

 

 

em português aqui

 

 

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2.4.10

 

 

 

 

 

  

Lenda S.15

 

 

ROMANCE DOS PADRES NO LIMBO

 

 

Vozes davam prisioneiros,

Longo tempo estão chorando,

Em triste cárcere escuro

Padecendo e suspirando,

Com palavras dolorosas

Suas prisões quebrantando:

 

-"Que é de ti ó Virgem mãe?

A ti estamos clamando,

Desperta o senhor do mundo,

Não estamos mais penando ?"

 

Ouvindo estas vozes tristes

A Virgem estava orando,

Quando veio a embaixada

Pelo Anjo, saudando

Avé rosa gracia-plena

Sua prenhez anunciando.

 

"Solta os encarcerados

Que por ti estão suspirando,

Pela morte de teu Filho

Ao Padre estão rogando:

 

Cresça o menino glorioso

Que a cruz está esperando:

Sua morte será cutelo

A tua alma trespassando

Sofre a sua morte, senhora

Nossa vida desejando!"

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Imagem: Giotto -   Descida de Cristo ao limbo aqui

 

um artigo sobre a "geografia do além" no Ocidente medieval aqui

 

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