12.4.09

 

 

 

 

"Barca Nova"

manuscrito autógrafo de Almeida Garrett

 

 

 

 

BARCA NOVA

 

 

Quem quer ver a barca nova

Que se vai deitar ao mar ?

San João é marinheiro

Os anjinhos a remar

 

Por bandeira as Cinco Chagas

São o estandarte real;

Dentro vai Nossa Senhora,

Agulha de marear.

 

As três Marias à proa

Sentadas vão a cantar,

Seus manteos pela cabeça

A gemer e a chorar:

 

- “Oh vós todos que passais

Pela terra e pelo mar,

Vinde ver a minha dor

Se há dor que a possa igualar !”

 

Ali vai Nosso Senhor

Ali vai a enterrar,

Nos braços da Virgem Santa

Que o está a amortalhar

 

Vai José e Nicodemus

Para o  ungir e imbalsemar;

Chegou ao Santo Sepulchro

Lá o vão depositar.

 

Venham guardas e soldados

Este sepulchro a guardar !
Mas no cabo de  três dias

Vê-lo hão ressuscitar

 

À mão direita do Padre

Na glória se há de ir sentar;

E no cabo desta vida

Ele vos virá julgar

 

Pecadores, pecadores

Não vos deixais afogar:

Acolher à barca nova

Os que se querem salvar

 

 

 

 

manuscrito autógrafo de Almeida Garrett

Introdução a "Barca Nova"

 

 

 

Nestas trovas — que não sei se lhes chame romance, lenda, loa ou o quê — há um ar de semelhança tão visível com a “Barca dos Anjos” de Gil Vicente, há um sabor tão forte àquela alusão poética e apaixonada da meia-idade, que me não fica a mínima dúvida de que nasceu por esses tempos. Daí se viria traduzindo, pela tradição oral que a conservou, até ao presente estado em que se acha.

 

Hoje, Quinta-feira santa de Abril de 1843, a copiei do que estava ensinando a minha filha Maria Adelaide, a nossa cozinheira Joaquina, mulher de cinquenta anos à volta, natural de Torres Vedras.

 

Já notei noutra parte que este nome de Barca significava dantes o que quer que fosse de representações musicais misturando o canto na declamação.

 

Seria isto composto para alguma procissão do enterro do Senhor que noutro tempo, especialmente nas províncias do Norte, era uma espécie de auto ou representação daquele último passo da paixão do cristo ?

 

É também para notar — e nem é imprópria a ocasião — quanto os portugueses nação marítima e marinheira, gostavam de dar à última viagem que se faz no féretro todo o aparelho de uma viagem de mar. “Esquife” que em muitas línguas, e também na nossa, significa uma pequena embarcação – em português igualmente quer dizer a tumba em que se leva os mortos a enterrar.

 

Lembro-me de ver, em pequeno, na Igreja que fora dos jesuítas, em Angra, um esquife com a forma e jeito de barco, que servia para levarem na procissão do enterro em Sexta-feira Santa a imagem do Senhor morto.

 

 

Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

conheça a história dos manuscritos aqui (blog "O Divino", post de 7-12- 2004)

link do postPor VF, às 11:42  comentar

De annualia a 13 de Abril de 2009 às 12:03
OLá Vera, parabéns pelo blog. Acabei de colocar uma justa referência ao Retrovisor no blog Annualia. Abraço. JC

De VF a 13 de Abril de 2009 às 19:57
Jorge,
Muito obrigada!
abraço
Vera

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