10.4.09

 

 

 

 

 

Em tempo de Ressurreição veio-me à memória, como vem muitas vezes a propósito de tudo e a propósito de nada, a minha mãe.

Tenho dela uma vaga ideia, quando ela morreu tinha três anos e meio, mas tenho do seu enterro uma impressiva visão centrada no fecho do caixão onde ela estava depositada tendo um manto azul a cobrir-lhe a cabeça. Muita gente a chorar, muitos afagos na minha cabeça e o Laribau a um canto a olhar ensimesmado todo o tropel das pessoas e, a dizer-me palavras amigas. Nada mais. Morria-se muito naquele tempo, a assistência sanitária deficiente, a carestia alimentícia, as epidemias consubstanciadas na disenteria, na difteria e na tuberculose davam imenso que fazer à megera da gadanha – a MORTE. As comunidades viviam o drama da perda respeitando um código arreigado em regras e deveres ao qual só escapavam os tontos, os pedintes e as crianças mais pequenas. Mesmo estes tinham de respeitar os rituais fúnebres, sob pena de sofrerem adequada sanção. Porque assim era, cedo percebi o significado dos lutos, das suas diferentes gradações. A morte de um filho impunha determinado tempo de luto pesado à mãe, a morte do marido representava frequentemente luto perpétuo, a morte de um primo era encarada de forma mais ligeira. No entanto, nunca por nunca deixei de ir a enterros, porque: “era uma obrigação”, assim o determinava a minha avó. A ida aos enterros envolvia uma adequada representação formal, não podia rir, muito menos gargalhar, só acabando a obrigação após sairmos do cemitério. Os enterros de gente importante, de Vinhais, ou a quem a família devia obrigações mais apertavam o torniquete de modo a minha irrequietude estar devidamente controlada. Uma vez, num sufocante dia de se pedir a intercessão de Santa Bárbara, comecei a ficar possuído por bichos-carpinteiros, enquanto muitos padres cantavam uma missa, que hoje sei ter sido de Requiem. O incenso, o calor, a duração do acto levavam-me a retorcer-me a todo o momento, tendo os meus sucessivos movimentos sido sustidos após ter levado um valente beliscão num dos braços, acompanhado de um carregado olhar debaixo de sobrancelhas franzidas. Nos enterros os homens raramente choravam, as mulheres choravam muito, algumas gritavam enquanto arrepelavam os cabelos e soltavam palavras doridas devido à morte do familiar. A morte de um rapaz ou rapariga na “flor da idade” gerava uma grande emoção em toda a aldeia. Guardo violentas imagens dos momentos dessas despedidas finais. Nessa altura já percebia a importância da morte da minha mãe, muito mais tarde percebi em toda a sua amplitude o significado da sua perda em termos de segurança, protecção, cuidados e afectos. Ela tinha uma função única, ímpar. A adaptação à morte da Mãe, no meu caso, centrou-se na minha avó materna. Na altura nada sabia sobre vinculação e separação, mas este artigo prova a ligação simbólica que nutro e me apazigua, quando evoco as minhas duas mães. Naquele tempo não existia a vergonha pela morte dos parentes, os lutos estavam rigorosamente pré-determinados, sendo alvo de censura quem se atrevia a levantar o luto antes de tempo. O luto assumia uma função de sagrado, que nestes tempos de globalidade e desafectação de sentimentos é desrespeitado de uma forma generalizada. A morte era admitida no seio da comunidade como elemento natural, daí que o corpo fosse lavado por um parente próximo, sendo depois colocado em casa a fim de ser velado durante a noite inteira. O cadáver ali estava a ouvir histórias e murmurações sobre a sua vida, ninguém tinha medo de ser contaminado, ninguém entendia o morto como coisa anormal na casa, daí não se recorrer a agente funerário para se encarregar das tarefas de o colocar em condições de ser enterrado. O luto podia ser antecipado, caso de pessoa muito idosa e a “morrer aos poucos”. A família aguardava o desenlace com naturalidade e, quando o sino começava a soltar notas preguiçosas logo as mulheres se encaminhavam para casa do falecido, a fim de ajudarem nos preparativos da sua encomendação. A família exibia sinais de conformidade e resignação, mesmo tratando-se de viúva ou viúvo. Os anjinhos, crianças pequenas, iam direitinhos para o céu nos esquifes debruados a cetim. Não me custava nada imaginar tais viagens. Custava-me mais ver dias, meses, anos a fio homens a exibirem sobre as camisas peitilhos pretos, as mulheres mesmo no pino do verão de preto todas vestidas mais o lenço negro na cabeça. Agora, os lutos não são evidentes, raramente se vê um fumo preto na manga de um casaco, mas o problema dos lutos mal resolvidos subsiste, os lutos não reconhecidos estão em queda, os lutos patológicos ou para sempre, manifestam-se nos consultórios dos psiquiatras, especialmente quando a perda é inesperada. Não é propósito deste artigo tratar aqui desses lutos é, isso sim, uma homenagem às minhas Mães, apesar de: “Mãe há só uma, a nossa e mais nenhuma”. Mas a minha avó foi uma mãe formidável. Podem acreditar. Neste período de Páscoa, sabe-me bem escrever sobre elas, porque me deram a imprescindível segurança naqueles primeiros anos.

 

Armando Fernandes

 

PS. 1. A bibliografia sobre as atitudes perante a morte é imensa. Sobre o efeito da morte de parentes queridos nas crianças, sugiro: A Child’s Parent Dies: Studies in Childhood Bereavement. Yale University Press.

2. A viuvez e, especialmente as viúvas, merecem conveniente artigo. Vou ver se não me esqueço.

 

 

© Armando Fernandes

NORDESTE, Semanário Regional de Informação

Edição de 05-04-2005

 

Imagem: fotograma do filme A Palavra de Carl Theodor Dreyer

 

link do postPor VF, às 10:44  comentar

De Henrique a 15 de Abril de 2009 às 22:28
Não tem fundo, a tua arca de tesouros.

De VF a 15 de Abril de 2009 às 23:53
Obrigada pelo comentário. Este texto merecia, e cá está ele!
beijo
Vera

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