8.12.08

 

Ao receber esta manhã a notícia da morte de António Alçada Baptista, fui reler Peregrinação Interior à procura de um excerto para aqui publicar. Recordava acima de tudo a simplicidade e o sentido de humor com que o autor descreve episódios da sua infância na Covilhã. Ficou para mim como um livro de memórias, um dos meus favoritos de sempre de um escritor português.

 

António Alçada Baptista é um dos escritores que cito em “Retrovisor, um Álbum de Família”. Reencontrei hoje aquelas qualidades intactas, assim como os sorrisos e risos que muitas passagens inevitavelmente convocam. Esquecera por completo as interrogações mais profundas destas “Reflexões sobre Deus” e mesmo o subtítulo deste memorial interior, como lhe chama o autor.

 

 

 

Às vezes penso numa coisa que havia ali na feira popular, em Palhavã, e que era o Poço da Morte. Pagavam-se quinze tostões e os voluntários eram submetidos à força de um vórtice que os fazia subir colados às paredes. Eu nunca tive coragem para me meter naquilo, mas ficava espectador interessado daquela minoria audaz que se entregava livremente à força que a fazia subir. Depois a máquina parava e as pessoas continuavam normalmente coladas ao chão, passeando a sua banalidade somente interrompida.

 

Sinto que um imenso surto vital irrompe na grande comunidade de espaço e de tempo em que estamos imersos. Que ele é feito do esforço dos criadores, santos, poetas e sábios, nomeados ou não, que ao longo dos tempos fizeram dum pequeno sopro interior a epopeia da conquista da verdade e da liberdade que paira ao longo da história como sua e nossa justificação. Sei que para a maioria das pessoas coisas destas nada significam, mas que há outras que fizeram da sua integração nesta epopeia a sua razão de viver. Julgo que Deus estará em mim e eu nele enquanto for capaz de manter esta vontade vital de permanecer na força do seu vórtice criador.

 

 

 

António Alçada Baptista

in Peregrinação Interior I

© Editorial Presença

 

 

link do postPor VF, às 23:45  comentar

De VF a 20 de Abril de 2015 às 21:09
Que bom Vera relembrares nosso Querido Amigo...Li pela 1 vez a Peregrinação Interior quando da Argélia vim a Portugal- clandestina !- para colar folhetos sobre a Frente de Libertação Nacional . O Piteira Santos pediu-me para tentar comprar o livro Peregrinação Interior. Comprei-o mas ao lê-lo apaixonei-me de tal forma por todo aquele mundo de afeto ( que era a matéria prima de que era feito o nosso querido António!!) que quando cheguei disse-lhe que emprestava o livro mas que já não conseguia separar-me dele......tenho-o até hoje como uma das peças da biblioteca que estou a organizar para o meu neto Sasha..Saudades dele, da Cristina, de ti.....Beijinho
Ana Filgueiras
(comentário deixado no facebook)

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