23.3.09

 

 

Os bragançanos viviam, nesse tempo, suspensos da rotina burocrática desde o governador civil ao amanuense, quando a televisão chegou à cidade. Ela já se mostrara em documentários no Cine-Camões, mas a valer, foi na altura em que os principais cafés da cidade colocaram aparelhos em local estratégico de forma a os espaços se transformarem em salas de espectáculos ruidosas, acaloradas pelo bafo mais ou menos de boa extracção estomacal e os comentários propícios à quebra de solidão do mais sisudo.
As festas comemorativas dos cinquenta anos da RTP, no referente a Bragança têm de ser adiadas, mas valia a pena tentar-se perceber o impacto que na altura ela provocou, para além da luta por um lugar em dia de transmissão de um jogo europeu em pleno auge benfiquista, dos comentários do refinado e lembrado Verbo, ou da irritação do Sr. Roque devido a os estudantes e outros farsolas estarem uma noite inteira alapados em frente à pantalha e só consumirem um café ou um galão. É verdade, na altura pediam-se muitos galões, o dinheiro estava no bolso dos que o possuíam, por isso no Moderno a maioria dos clientes gastava muito pouco, razão suficiente para o pai do Roquito exibir um carão de poucos amigos. Aí por 1961, aparecem as camisas TV. Um reboliço, só sendo vendidas nos comércios mais finos – Tozé, Queiroz, Poças, Casa das Malhas, Lopes&Pires e Castro –, Bragança ao tempo em matéria de moda não passava destas casas, refira-se o facto de todas venderem uma multitude de tecidos e adjuvantes, sem esquecer urnas, coroas de flores, máquinas de costura e óleos caso do estabelecimento dos sócios Sr. Lopes e Sr. Pires, o primeiro sempre na garagem, o segundo vegetariano. As tais camisas eram assumidamente bonitas, lisas em tons clássicos mais a cor cinzenta, às riscas, agora estilo jogador de futebol, e aos quadradinhos com botões metálicos. A primeira aparição dessas camisas nos corpos dos rapazes, pertenceu, como sempre, aos filhos-família, não eram assim tantos, muito invejados por comprarem sem pejo ou receio de falta de notas, pois limitavam-se a escolher e dizerem:”Sr. Tozé, Sr. Queiroz, Sr. Poças ponham na conta.” Um regalo para eles, uma forte e enviesada irritação para nós, pois tinhamos de nos contentar com camisas estilo Limpope, Limpó-pé, gracejávamos ao vê-las em coluna na montra do Sr. Monteiro, ou baratuxas “mercadas” pelas mães no Sr. Pousa, no Tem-Tudo, daí também venderem mercearias, sabões e piaçabas, ou ainda feitas pela vizinha costureira. As camisas, vinham em caixas pretas, de um design fabuloso, mas tinham um contra – o preço alto, de tão soberbo, só mesmo os empregados dos bancos – Banco de Portugal e BNU, os da Caixa ganhavam menos, os magistrados e pouco mais, talvez meia-dúzia de professores e comerciantes de outros ramos rodeavam os pescoços com colarinhos sem esticadores por fora e em nylon TV. O estilo propagou-se, em poucos meses começaram a aparecer imitações – AV, RN, FI, CA – escrevo siglas ao acaso, pois nessa matéria a “cousa” era à vontade do freguês. Ainda que assim hoje não seja, valia a pena correr o risco de empatar todas as parcas economias numa camisa TV, pensávamos nós os desprovidos de fundos a condizer, por isso paguei 180$00 por uma camisa aos quadrados azuis. Num domingo soalheiro levei-a a olhares na Praça da Sé, por altura da missa das onze e meia. Volteei-me a modo dos cavalos em praça de touros, os circunstantes do meu grupo olharam de revés, rosnaram defeitos devido ao tom do azul e do tamanho dos botões de metal. Não me importei, também tinha uma camisa TV. Era o que interessava. Após a primeira aparição, passados uns dias, uma queimadela de cigarro provocou-lhe um buraco impossível de resgatar. Ficou maculada, fiquei desgostoso e recordei a quantia gasta. Pesares os meus, risos altos dos amigos!


 

Armando Fernandes

 

 

P.S. A firma das camisas TV acabou a seguir ao “25 de Abril” devido a conflitos laborais. Inovadora, impedia os vendedores de fazerem descontos. Em Bragança todos incumpriram, excepto o Sr. Tiago.

 

© Armando Fernandes

NORDESTE, semanário regional de informação
Edição de 20-03-2007

 

 

Leia outras crónicas de Armando Fernandes aqui

 

 

 

 

Embalagens para a marca TV, design de Manuel Rodrigues, 1961

Camisas TV

 


Imagem:

Design Português 1960/1979 . Victor M. Almeida - 4

© 2015 Verso da História e autores

Colecção exclusiva do jornal Público

 

 

 

 

 

 

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