13.3.09

 

O Agostinho da Silva foi homem mais culto, mais lido, com uma sólida base de grego e latim, que da conversa fazia um permanente diálogo. O obscuro e o nebuloso – tão bem explicado pelos meus professores de liceu – encontrava nele um filtro de transparência, cuja contribuição para a clareza se tornava um verdadeiro dom, sobretudo num país de gente complicada. Ensinava-nos a não perder tempo, a completar iniciativas que se discutiam. Ouvia as nossas asneiras como quem lê o Discurso do Método em voz alta. Sentia o meio donde vínhamos, um meio onde todos estão contentíssimos com a sua ignorância, como tão bem dizia a Sophia, uma sociedade em que é preciso trabalhar pouco para ganhar dinheiro e se encontra uma falta de respeito pelo trabalho intelectual dos outros. (...) O Agostinho lia-me um diálogo de Platão como quem está ali em baixo, na taberna da esquina que dá para a Academia das Ciências, entra e ouve uma conversa. Lia, olhava para nós, e vendo que percebíamos continuava para a frente. Depois dialogava. Com o escopro e o martelo ia abrindo brechas na minha cabeça, modelando, não à sua maneira  – e esta a sua enorme mensagem – , mas sim ia abrindo lenhos cá por dentro, ranhuras que só os meus olhos pudessem ver (...) Trazia livros, não nos obrigava a comprar nada. A Filosofia, a História, a Literatura, a Arte tinham um denominador comum – o Homem. Era o exemplo como homem que ele queria apresentar quando nos vinha dar aulas.

 

 

 

Ruben A.

in O Mundo à Minha Procura, Autobiografia II

Parceria A.M. Pereira, 1966

 

Leia outro excerto da mesma obra aqui

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