25.10.13

 

Quarta Semana:

 

As acácias vermelhas estão a voltar. Nos tempos da colónia as ruas eram cheias de acácias vermelhas, diz quem ainda se lembra. Depois os indonésios arrancaram-nas todas. Porquê? Maldade pura, não há outra explicação. Não se pense que alguém exagerou nas descrições da crueldade dos indonésios em Timor. Foi o padre Felgueiras que me contou os piores horrores. 86 anos quase todos passados aqui, jesuita. Em Santa Cruz morreram duzentos jovens abatidos a tiro e muitos outros “desapareceram” como toda a gente sabe. Mas o que eu não sabia é que aos feridos, levados para o hospital militar, foi-lhes deitado ácido sulfúrico pela goela abaixo. É só um pequeno exemplo.

 

 

 

 

Timor-Leste é verde, tropical húmido e no entanto nas montanhas à volta de Dili praticamente não há árvores, num fenómeno de desertificação marcado e estranho. Com tanta chuva está a desertificar? É certo que a população empobrecida dá cabo de muitas árvores para lenha e que as cabras não ajudam, mas também não há assim tanta gente nem tantas cabras. Então? O exército indonésio durante 24 anos destruiu sistematicamente a floresta que abrigava as ferozes FALINTIL. Sem raízes que agarrem a terra, as chuvas torrenciais arrastam-na. Se acaso for reversível, vai demorar muitos anos e custar muito dinheiro para reflorestar. A propósito, quando depuseram as armas, as ditas ferozes FALINTIL eram uns 120 homens descalços e famintos com, por junto e a retalho, talvez 29 balas e umas espingardas enferrujadas. Mas davam conta da cabeça de um exército bem armado, bem vestido e bem alimentado. Fica sempre bem recordar os heróis.

 

 

 

 

 

Não sei se é porque nos gramam mesmo ou se é só porque abominam profundamente indonésios e australianos. Hoje um taxista pergunta-me “Australian?”, não, portuguesa. “Ah, desculpe” como se me tivesse insultado.

 

Pantai Kalapa, a praia dos coqueiros, a minha. Muitos esgotos a correr para o mar, impensável tomar banho. As marés vivas arrancaram grandes pedaços de coral que lançaram na areia; hoje ao passear apetecia-me apanhar não conchinhas mas enormes pedregulhos. Fica para a próxima maré viva.

 

... and I reluctantly say farewell to bloomy Dili...

 

 

 

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003.

 

Uma entrevista com Isabel Feijó sobre o seu trabalho em Timor aqui

 

Arquivo & Museu da Resistência Timorense aqui

 

Fotos de Pedro Martins

 

link do postPor VF, às 16:40  comentar

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