11.3.09

 

 

 

 

 

 

 

 

Rio de Janeiro

Rua Farani 61 apt.514

 

4.2.62

 

Meu caro Futscher

 

Com diplomatas tudo pode acontecer, até que se lembrem dos Amigos; de qualquer modo os Amigos se lembram deles - até Pedro, que está no segundo ano de História, se lembra dos soldados que recebeu de presente. E os Amigos gostariam de saber dos diplomatas, como estão na carreira e se a Vida os tem tratado bem. Afinal, quando nos encontrámos foi para andarmos à volta do Cícero; hoje andamos os dois às voltas com política externa, coisa talvez ligeiramente mais interessante do que o Cícero; até o Cícero seria da mesma opinião se não fosse o vaidoso que era.

Aguardo uma linha sua, ouviu?

 

Afectuoso abraço

Agostinho

 

 

 

 

Vasco fez parte do grupo de jovens a quem, no princípio dos anos 40, Agostinho da Silva deu aulas particulares de latim, após ter sido afastado do ensino oficial.

Conheci bem o Professor Agostinho e esta carta fez-me recordar com nitidez a sua voz, e a sua personalidade afável e irreverente.

 

 

 

Agostinho da Silva

1906-1994

 

Excerto de uma biografia recente:

 

 

Regressa [de Paris] a Portugal em 1933, sendo colocado no Liceu de Aveiro como professor. Entusiasta, cria uma "caixa de apoio" aos estudantes mais pobres e promove outras acções incómodas para o Estado Novo. Ao fim de dois anos é exonerado, por se recusar a assinar a Lei Cabral: um documento que todos os funcionários públicos eram obrigados a subscrever, jurando não pertencerem a nenhuma sociedade secreta (leia-se: ao Partido Comunista ou à Maçonaria). Para além dele, só Fernando Pessoa e Norton de Matos ousariam contestar o diploma legal aprovado pela Assembleia Nacional.(...)

Desempregado, Agostinho começa a dar aulas no ensino privado e explicações particulares. Mestre Lagoa Henriques, Jorge de Melo, Manuel Vinhas e os irmãos Lima de Faria, serão alguns dos seus alunos. (...) Simultaneamente empenha-se em diversas actividades de produção e divulgação culturais: dá palestras públicas de Norte a Sul do país, cria o Núcleo Pedagógico Antero de Quental apostando em novos métodos pedagógicos (...), organiza exposições, escreve um sem número de biografias, colabora em jornais, organiza sessões culturais na rádio para  jovens e inicia a publicação dos famosos Cadernos de Informação Cultural sobre áreas tão diversas como religião ou arquitectura. Esses Cadernos - sobretudo dois deles, "O Cristianismo" e "Doutrina Cristã", (...) levam a que a sua biblioteca seja confiscada e inventariada pela PIDE e que conheça como destino a Prisão do Aljube. Ironicamente, a própria polícia política reconhece: "intransigente adversário do Estado Novo, com pronunciadas  tendências extremistas, embora tido como bom professor e honesto" (PIDE, folio 398, p.20)

Acusado de "comunista" por defender o regresso ao cristianismo primitivo e por se insurreccionar contra a deturpação que a Igreja fez dos ensinamentos de Cristo, simultaneamente desiludido com o governo do país e ansioso por liberdade, parte em 1944 para a América do Sul. Passa pelo Rio de Janeiro e São Paulo, instala-se no Uruguai, vive na Argentina, até regressar definitivamente ao Brasil onde permanecerá durante 22 anos, e onde ganhará fama pela sua personalidade e erudição.

 

Paulo Marques

in Agostinho da Silva, Servo dos Servos (1906-1994)

Cadernos Biográficos de Personalidades Portuguesas do Século XX

© Parceria A.M.Pereira e Público

 

mais sobre Agostinho da Silva aqui

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