25.9.13

 

Primeira Semana:

 

Por muito que tenha seguido o drama de 99 pela TSF e visto montanhas de imagens do day after, confesso que não estava preparada para isto. Não ficou mesmo um edifício inteiro. Não se vê um telhado que não brilhe sem sequer um átomo de musgo. Com este calor e esta humidade quer mesmo dizer que estão acabadinhos de fazer. Mas muitas casas e edifícios publicos não têm telhado nenhum. Normalmente quando não têm telhado também não têm interior. Com pelo menos uma excepção – o palácio da Presidência da República, apropriadamente intitulado Palácio das Cinzas. Não tem telhado. Tem rés do chão e primeiro andar, mas só o rés do chão funciona, com umas placas de zinco a servir de tecto. Claro que já podia ter instalações decentes mas suponho que o PR queira dar o exemplo e só terá um palácio digno quando a população que ficou sem casa tiver onde morar. Mas digno é uma coisa, um telhadinho, não seria talvez um luxo excessivo... enfim... por estas e por outras é que não se pode deixar de ter uma imensa admiração por estes malucos. Pelo menos eu tenho, senão também não estava aqui.

 

 

 

 

 

 

E era pena, porque se está aqui muito bem. Para meu grande espanto em Dili há tudo. Não haverá muito queijo francês, mas há massa italiana, vinho português (e australiano), azeite de diversas proveniências, carne brasileira e mais o que se quiser de produtos chineses, tailandeses e etc., desta zona do mundo. Restaurantes dos mais diversos – timorenses, chineses, indianos, tailandeses, birmaneses, japoneses, australianos e portugueses - muitos e muito apreciados. Portugal do Minho a Timor não foi o Salazar que fez, foi a paixão timorense pelo bolinho de bacalhau. 

 

Mas e Dili, como é?...  A bem dizer ainda não percebi bem. Tem uma rua com comércio, sobretudo de chineses, tipo loja dos 300 e dezenas de timorenses a vender CDs e DVDs pirata. Mas parece-me que o comércio está muito espalhado. Não há construção em altura. O edifício mais alto deve ser a catedral. Muitas árvores. Casas dentro de muros com jardins. Muitas Nações Unidas (que gastam fortunas em pré-fabricados em vez de reconstruirem como os timorenses desejariam) com muitas medidas de segurança, muito arame farpado e muitos sacos de areia em volta. Compounds com muitos circuitos de video interno e muitas parabólicas. Muitas embaixadas e muitas residências de embaixadores. Bastantes ONGs. Quantidade de restaurantes do mais a armar ao pingarelho ao mais mixuruca. E os timorenses, onde vivem? Em barracas, na sua esmagadora maioria. Os bairros de barracas, embora tenham sofisticados esgotos construidos a céu aberto (brilhantes indonésios, bastava pôr uma tampa e talvez se diminuisse o número de mosquitos e respectiva malária e dengue!...), são normalmente os mais limpos. As mulheres, ou melhor, os seres do sexo feminino (a partir dos 3 anos) passam uma boa parte dos seus dias a varrer meticulosamente o seu espaço privado e envolvente. Para uma cidade que não tem serviços municipais (não tem sequer município), Dili é surpreendentemente limpa.

 

 

 

 

 

E para terminar, finalmente ontem confirmei que existe coral azul. Tinha há anos lido uma crónica da Sophia em que falava das maravilhosas ilhas de coral azul na Indochina. Desde então procurei por todo o lado (sobretudo guias turísticos da região) onde ficariam as tais ilhas de coral azul. Cheguei a concluir que era liberdade poética. Coral azul só existe na cabeça da senhora. Mas não. Existe. Na Praia da Areia Branca, a 10 km do centro de Dili, junto com búzios e beijinhos encontram-se abundantes pedaços de coral branco, vermelho e AZUL!!! Afinal era verdade! Grande Sophia!

 

Isabel Feijó

excertos de carta enviada a alguns amigos durante a sua primeira missão em Timor ao serviço do PNUD, em Novembro de 2003

 

Fotos de Pedro Martins

  

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