25.8.13


Eu vi um corvo coxo numa taberna de Santos e uma caravela em relevo no mármore de um chafariz e disseram-me que era Lisboa. Acreditei. As ruas escusas cheiram a gato e a manjerico; as artérias, a coiro da Rússia e a sangue azul, um poucochinho corado. Oh! que horizontes, do Castelo! e que betesgas, da Graça! Já lá vai Palmela com seus adarves no azul do Sul, e a Arrábida redonda e perdida no céu. Voici Sr. Neves retroseiro (on parle français a refugiados) e o inefável Poço do Borratém ainda com um olho encarnado ao luzir da noite alfacinha. Lisboa está florida de bandeiras, frutificada de nêsperas, semeada de cláxones de táxi. Ó ver a lista!, eh!, tás tu...e lá lhe foram sete paus àquele, a quinze 'stões a bandeirada!...Se me vejo em Alcântara enterneço-me.


Os marinheiros comem tremoço saloio; as meninas da Promotora assomam de permanente às sacadas. Uma abada de glicínias — e é um palacete à Junqueira; um martelo-pilão — e é a massa compacta e gris do Porto de Lisboa. Chamo Cesário Verde, mas só vejo um retrato de adolescente numa sala fechada; ainda oiço a tesoura de podar guiando a videira diagalves. Mas já não há Liverpool na caligrafia dos escritórios do Cais do Sodré, nem encontro no Martinho da Arcada a luneta cristalizada de Álvaro de Campos, engenheiro. Da Ribeira Nova foram-se as naus e os galeões. Agora só Leontina lá bate sua tairoca de varina e manda-me dizer pela amiguinha feia se lhe eu compro um oleado para o fundo da sua canastra. Os pintores do meu país pintam o peixe e a flor no paninho adorado de Leontina, e a ferradura e a cabeça de cavalo no peitoral da égua do Aterro.


Se abro o batente ao bar da Rua Nova do Carvalho é tal qual a Cannebière: merci Marseille, quai des Belges... Além disso bebemos ginger-beer como qualquer inglês; capilé-copo-com-água. E ginjinha... No coração de Lisboa há um frémito dourado e um centilitro de sangue moiro, de má fama. Estes olhos pretos da Mouraria quem são? Que ardor é este que trago no peito e que levo pela Calçada dos Cavaleiros acima como um amolador leva a carreta e os panos do guarda-sol? De bombazina é que era! e uma mecha de cabelo furando pelo buraco da boina! Oh manhãs douradas de azeitona a tanto o selamin, com centelhas de prata tiradas pelo sol das clarabóias!

 

Só me falta morar às Escolas Gerais e passar os serões do meu último inverno numa farmácia ao pé. Quem quer avenidas e bairros bonitos — pois também tem ! Há desde o azul ao diplomático, e do pátio às casas económicas é tudo roupinha lavada e cheirinho a café, graças a Deus! Mas eu quisera ardor mavioso e solidó! Uma violeta é pouco se o jornal da tarde trás a bola... Ao Domingo iríamos ambos ao Campo Grande andar de bicicleta e, pelo Arco de Cego, com flechas de Cupido, juraríamos eterna comunhão. Tenho um tio que mora na Parada dos Prazeres, um amigo na Praça da Alegria. Que mais queres? Com o fado da Triste-Feia era uma tarde bem passada... Mas já não querem dar valor e apreço às coisas sérias! Um homem não pode estar sempre a fingir que é só aquilo que come e o chapéu que tira às pessoas, pois também há o desejo, o dia de domingo, a estufa fria, o viaduto da auto-estrada — e a alma que quer e nada encontra... Lisboa é boa. Tem torres, garages, ardinas; tem tudo o que é preciso para se chegar no paquete e se partir de avião. Nossa Senhora do Monte vê a neblina no Tejo e o fumo no Cata-que-Farás. Às 8 da manhã o destroyer entrou a barra. Cheira a goivos! Cheira a goivos no Alto de S. João!

 


Vitorino Nemésio

Panorama, Revista Portugesa de Arte e Turismo

Número 32 e 33, Ano V, 1947

Edição do Secretariado nacional da Informação, Cultura Popular e Turismo


 

 

 

Vitorino Nemésio

Retrato de António Dacosta



link do postPor VF, às 12:25  comentar

De helena cardoso a 9 de Setembro de 2013 às 00:33
leve e torrencial :)

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