8.3.09

 

 

… mencionemos Alberto Osório de Castro (…) O «poeta simbolista / de facunda compleção», foi também um dos que, a par de Alain Gerbault, mais provocaram a minha ida para Timor, depois da leitura do seu livro A Ilha Vermelha e Verde de Timor, a que se seguiu a de O Sinal da Sombra e Flores de Coral, este impresso cm Díli em 1910, em papel de arroz, e com um esmero gráfico, que deixa a desejar o que hoje lá se faz. Sobre o primeiro livro escrevi, em 1950 (Explorações Botânicas em Timor):

«Quando, nos primeiros tempos da minha chegada a Timor, olhava de relance as árvores e procurava notar-lhes as diferenças ou — estranhas analogias, pude observar, desde logo, como graças a qualquer singular particularidade, algumas se fixavam na memória, enquanto outras recordavam, por semelhança, imagens conhecidas anteriormente.

De entre elas, lembro uma que se assemelhava pela cor e disposição dos ramos e das folhas à forma do alianto, exótica há multo aclimatada a Portugal e que se encontra com frequência no Ribatejo e na região de Coimbra (serra da Lousã), além de ser cultivada como ornamental em muitos jardins particulares.

Não tardei em indagar o nome por que era identificada a árvore em questão, mas infelizmente, as respostas eram nulas ou vagas demais para que pudesse conseguir o propósito desejado. Os indígenas, esses sim, conheciam-lhe o nome chamavam-lhe Ai-Feu.

Foi então que por amabilidade do Bispo de Díli, D. Jaime Garcia Goulart, obtive a titulo de empréstimo o livro de Alberto Osório de Castro, A Ilha verde e vermelha de Timor, que eu já conhecia através de uma leitura superficial, feita ainda em Lisboa.

Ao folhear as páginas deste livro deparei com a seguinte passagem: «... as Garuga pinnata rubescentes, de um primeiro aspecto de aliantos, mas duma arquitectura de ramos tão fina, em forma de candelabro».

A surpresa foi notável. Não só encontrara a nota associativa de uma imagem comum a dois espíritos de épocas e formação diferentes, como a via precisar-se através de outra imagem mais sugestiva: «... em forma de candelabro».

Desde então o livro de Alberto Osório de Castro foi lido e relido tantas vezes quantas o progresso do meu conhecimento de Timor e o convívio com as suas formas naturais o permitirem. Foi na leitura deste preciosíssimo livro — modelo de todos os que podem ser escritos por leigos sobre as possessões ultramarinas — que eu pude encontrar o pormenor saliente, a striking feature inicial de muitas espécies botânicas e de outras visões paisagísticas do mundo físico e humano de Timor. Não se pode ir mais longe na descrição, ao mesmo tempo poética e exacta, cientifica e literária, provando-se, uma vez mais, que o conhecimento poético supera o conhecimento cientifico quando aquele afina pelo tom da verdade objectiva. O livro de Osório de Castro, além de ser exemplar único da história literária e de se assemelhar por este e outros motivos à obra de Fernão Mendes Pinto, há-de ficar na literatura da especialidade como sendo a primeira contribuição moderna da fitografla timorense.... O amadorismo cientifico e a falta de elementos informativos, longe de prejudicar a estrutura da obra, estimulou todas as faculdades da Inteligência do autor, obrigando-o a aplicar a um mundo ignoto as várias facetas do seu poderoso talento descritivo. Qualquer coisa que se lhe depare é descrita com aquela frescura e novidade de quem inventa palavras certas para um conjunto de imagens que se experimentam pela primeira vez, sendo para considerar, sob um aspecto filosófico e político, que em 1909 tenha sido escrita por um poeta a seguinte afirmação: «Hoje a obra de colonização ou é científica ou não é nada...».

Não obstante o acervo de obras científicas que, entretanto, se foram acumulando sobre Timor, pouco ou nada se fez para que o mesmo servisse de base a qualquer empreendimento digno desse nome, mormente no plano infra-estrutural, que é o da própria Natureza, em si.

Em 1909, escrevia ainda Osório de Castro.

«A arborização das montanhas timorenses, a criação de grandes florestas do Estado, é hoje um imperioso, inadiável dever».

De 1909 até hoje, passados que foram 65 anos, não só não se arborizaram as montanhas timorenses, como se destruíram as florestas que ainda restavam. Para tal concorreu não poucas vezes a Administração, sob o pretexto «desenrascado» de que os terrenos de montanha recobertos pela floresta eram excelentes... para batatas (que até o são, mas sem que o facto justifique economicamente o argumento)!

Será que os poetas, por amor de Deus e do próximo (e também da sua musa) terão sempre que lutar contra iníquos, ridículos e imbecis? Ora batatas!

 

Ruy Cinatti

in Paisagens Timorenses com Vultos

Editora Pax, Braga, 1974

 

 

 

 

 

Mais sobre Ruy Cinatti e Timor aqui

 

 

 

 

 

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