4.1.13



 

 

 

Ruy Cinatti (1915-1986)




Ruy Cinatti Vaz Monteiro Gomes", leu o escriturário por detrás do balcão do consulado de Portugal em Londres. Mui­to novo, era poeta ainda por publicar: acometeu-o uma aura de deslumbramen­to. Levantou os olhos do pas­saporte e fitou o homem do outro lado.

"O senhor é o Ruy Ci­natti?"

"Sou, sou" respondeu o outro. "Não é por mal..."

Nada foi por mal, na vida do Ruy. Havia rigores desa­piedados: "Eu, com o Antigo Testamento entendo-me. Mas depois veio aquele gajo, glú-glú, fló-fló — estragou tudo!" Esta dureza mais do que calvinista atravessava sem confrontos mortais a ti­bieza moral dos nossos costu­mes por vir entrecortada pe­las interjeições onomatopaicas e outras idiossincracias verbais que faziam parte per­manente da fala do Ruy. Quem tratava com ele apren­dia a dar-lhes sentido (para o Senhor Moreira, há meio sé­culo dentro do quiosque do Príncipe Real, entra o ano sai o ano, do nascer do sol à meia noite, "glú-glú e fló-fló" queria sempre e somente di­zer "um maço de Porto e uma carteira de fósforos"). Impediam que ele degeneras­se de moral em moralista e agasalhavam numa capa de pudor a sua carência afectiva essencial.

Em "O Livro do Nómada meu Amigo" lê-se este verso:

"Quem não me deu amor não me deu nada."

A poesia é uma coisa, a vida outra: entre a palavra escrita e a conversa desconjunta-se um universo; além disso, mais ainda do que em outros grandes poetas, a maneira do Ruy falar de si era muito diferente da sua maneira de escrever. O sentimento que levara ao verso acima, poderia, de viva voz, chegar-nos assim:

"Gadulha, eu quero ir ao cinema..."

Ditos deste — e o jeito de os dizer — irritavam de sobremaneira muita gente que os tomava por exibição oportunista e ridícula de mimo. Mas não irritava quem encontrara em Ruy Cinatti qualquer coi­sa de inefável, um milagre fugaz e inter­mitente que nos fora dado testemunhar. Por dentro do casulo de maneirismos lu­zia um cristal indestrutível. No nosso mundo relativo vingara uma exigência de absoluto.

Nos últimos anos, deambulava pelas ruas de Lisboa, distribuindo fotocópias de poemas seus sobre Timor, espécie de Catitinha literário, figura de escárnio e com­paixão. A tragédia de Timor, onde fora agrónomo e etnógrafo, tornara-se para ele uma obsessão moral mas os poderes que havia não o compreendiam nem o consi­deravam. A esquerda republicana — ma­çónica e machista — sempre o achara um diletante efemi­nado. Com os comunistas, em 1974, talvez se pudesse ter entendido mas, do lado de lá de um nevoeiro filosófico, eles eram, afinal de contas, tão brutais como os ocupan­tes indonésios da terra que ele amara sobre todas as ou­tras. Os amigos de direita ti­nham desaparecido da políti­ca no 25 de Abril e a nova di­reita desconfiava do seu pen­dor igualitário. Da nova es­querda estava longe: "Eu fui criado à direita mas foge-me o corpo para a esquerda — e o que vejo por aí é o contrá­rio". Isto no tempo da expan­são marcelista, quando ga­nhar muito dinheiro passara a ser 'de rigueur' para o escol da gente nova, mesmo daque­la que fizera nome no anti­fascismo universitário.

Uma das últimas vezes que estivemos juntos contou da sua ida ao Ballet Gulben­kian perguntar se o aceita­vam (aos sessenta e cinco anos). Pôs um disco no gra­mofone e demonstrou. De­pois dele sair, minha mu­lher, que é coreógrafa, disse-me que nunca vira nada as­sim: quem tenta dançar bal­let sem ser bailarino procura sempre imitar a maneira de dançar dos bailari­nos. Ruy Cinatti não imitara ninguém: entrara inteiro na música e, sem técni­ca, dançara com expressão lírica inultra­passável. Foi-se embora tarde, muito bêbedo e esqueceu-se lá em casa da bo­quilha que nunca cheguei a devolver-lhe. Guardo-a agora como uma relíquia. Nasceu no exílio em Londres em 1915 e morreu no exílio em Lisboa em 1986. 

 

José Cutileiro 

in Publico 9.6.1991

 

Imagem (e cinco poemas): aqui


link do postPor VF, às 13:08  comentar

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