24.8.12

 

 

 

desenho de Paulo Ferreira



[...] No traje português actual reconhecem-se caracteres primitivos em que a influência geográfica dominou, e verificam-se também, dentro de certos limites e com justificada interpretação, variedades e diferenciações em estádios sucessivos ou meras sobreposições. O homem do mar, sempre com a mesma faina e sempre nas ondas, exige o traje que lhe não tolha os movimentos, a um tempo leve e agasalhador, e facilmente substituído. O mesmo princípio se aplica a todas as mulheres, que trabalham no mar, na praia e nas lides relacionadas com o mar.  O pastor, na planície alentejana ou por vales e lameiras, pastagens das serras, tanto nas verandas — as "brandas" — como nas inverneiras, do Centro e Norte de Portugal, tem vestuário protector das intempéries e dos acidentes do solo. As partes, que o constituem, obedecem a especial adaptação, e têm por matéria prima fundamental a pele e a lã dos rebanhos.  Na planície do Ribatejo, estendida a um e outro lado do Tejo, larga, uniforme, colorida, o campino a cavalo percorre as lezírias e os salgados, persegue ou atrai o gado bravio em correrias repetidas; é o que Fialho de Almeida chamou "emanação da paisagem" (1). O traje apropria-se ao movimento, violento e livre, do cavaleiro ágil nos gestos e nas atitudes. É leve, articulado, solto: jaqueta curta, colete, faixa à cinta, calção e meia com sapato de espora, carapuça na cabeça; ordinariamente em mangas de camisa, equilibra no ombro a jaqueta. Se o traje deste centauro é simbólico, por certo não o é menos o "pampilho", que, empunhado na carreira, lhe marca sinal heráldico de cavaleiro armado nas regras da cavalaria. A cor, onde os olhos poisam e vai embelezar-se de sensações excitantes a alma do habitante de uma região, reflecte no traje o carácter dominante da sua psicologia. As lãs dos picotes, riscadilhos, xergas ou burelas, buréis, estamenhas, saragoças, churras ou tingidas, dão tons de monótona grandeza aos trajes serranos. Quando misturam fios de lã, e os tingem para atavio do traje ou da casa, fazem-no em combinações vibrantes de cor. À medida que se desce para a planície, a cor alegra os trajes, que manifestam a pouco e pouco a subida para a policromia rica. Assim, as mulheres policromizam e complicam o vestuário, quanto mais se aproximam das baixas e sobretudo mais se achegam do mar. Aí as matizações são perfeitas, vivas no colorido e movimentadas no jogo dos tons. A mulher da zona litoral é a mais colorida e a de maior composição indumentária. E de entre todas a mais rica é a do recanto de Noroeste, na região de Viana-do-Castelo. Esta gradação do traje, das alturas para as baixas, e do interior para a orla marítima, condiz com as outras manifestações espirituais e utilitárias do homem na mesma direcção.[...]

 

Luís Chaves

in Vida e Arte do Povo Português p. 8

Secretariado da Propaganda Nacional, Edição da Secção de Propaganda e Recepção da Comissão Nacional dos Centenários, Lisboa, 1940


 

 

 

 

Nota:  Fialho de Almeida, O Paiz das Uvas, 3ª ed. Lisboa, 1915, pág. 37




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