12.5.12

 

 

 

 

Paquito 

Vila Franca, Portugal, 1949

 

 

 

[Nos anos 30 do século XX] A salvação da festa vai provir duma outra evolução decisiva da lide [...]. Trata-se da revolução da arte de tourear, criada pelo célebre diestro Juan Belmonte. Pode dizer-se que antes des­te, e mesmo quando praticada por verdadeiras figu­ras da época como o famoso Guerrita ou como o malogrado Joselito, afinal o maior rival de Belmonte, toda a lide do touro se baseava no princípio tauromáquico pitorescamente descrito por Lagartijo: «Viene el toro; se no te quitas, te quita el». Isto é, na interpretação pre-belmontina o toureio fazia-se, à custa da velocidade de execução, da agilidade de per­nas, da esquiva hábil à investida do animal. Belmonte, diz-se que por insuficiência física, optou pelo cami­nho inverso. A posição do toureiro passa a ser predo­minantemente estática e a forma de manejar capa ou muleta é que obriga o touro a circular em volta da figura de pés fincados na areia. Com este princípio a técnica e o domínio sobre o touro terão que ser abso­lutos e capas e muletas deverão deslocar-se tão lenta­mente quanto possível, como se estivéssemos peran­te uma inusitada forma de ballet. Assim nasce uma nova arte, melhor dizendo assim o toureio passa a poder plasmar-se numa estética de tal forma dimensionada que se vai revelar quase obsessiva numa plêiade de poetas e artistas. Aliás, nem os românticos se irão afastar. Manolete, outra figura de época, vai elevar esse toureio agora hierático aos seus mais al­tos níveis com toda a carga de tragédia que aparecia já implícita na sua arrepiante expressão artística. Mas muitos hão de ser os toureiros que na definição de Garcia Lorca virão a ser tocados pelo mágico Duende desenhando em instantes fugazes verdadeiras obras primas que perduram uma eternidade em quem tem a felicidade de os contemplar (1)

 

Fernando Teixeira (aqui)

in "Tauromaquia"

Dicionário de História de Portugal- IX

Coordenadores: António Barreto e Maria Filomena Mónica

© Livraria Figueirinhas

 

 

 

 

1. Remeto o leitor que queira aprofundar o tema para Hemingway, Morte ao entardecer, ou para José Bergamin, La musica callada del toreo, Madrid, 1981, Turner, ou para o autor em O touro e o destino, Lisboa, 1994, Instituto de Sociologia e Etnologia, Uni­versidade Nova de Lisboa.

 

 

 

 

 

Paquito

aqui 

 

 

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9.5.12

 

 

 

 

  

 


 

 

 

Portugal, 1994

Fotos: Rineke Dijkstra

 

Retrospectiva até 28 de Maio de 2012 aqui 

e de 29 de Junho a 3 de Outubro 2012 aqui

 




A fotógrafa holandesa Rineke Dijkstra (1959, Sittard, Holanda) retrata crianças, adolescentes ou jovens adultos desde o início dos anos de 1990. As suas séries fotográficas parecem pertencer ao âmbito do registo documental, marcado pela observação sociológica e antropológica, mas rapidamente assumem uma leitura estética ou de cariz formal.  Este texto continua aqui

 


 

Em 1993 decidimos visitar Lisboa. Num domingo fui a Vila Franca de Xira com alguns alunos. Chegámos justamente no momento em que os forcados saíam da arena, cobertos de sangue. Tirei algumas fotos com uma simples máquina Polaroid e acontece que as fotos eram tão interessantes que decidi voltar no ano seguinte para fotografar estes rapazes com a minha máquina fotográfica 4x5 polegadas. Entrevista com Rineke Dijkstra aqui

 

 

 

I didn’t stay in touch with the bullfighters. At that time, when I made [these photographs], there was no email. There are different groups; they fight in a village one week, and then the next week, they go somewhere else. So it’s very difficult to track them down. Interview with Rineke Dijkstra here.

 

 

 

 

 

A Pega e os Novos Elementos aqui 

 

A origem dos forcados aqui

 


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6.5.12

 

 

 

 

 

 

Brinquedos populares inspirados na arte de tourear 

 

 

 

Fotos: Horácio Novaes
Revista Panorama (1945)

 

 

 

Grotescos toureiros farpeando, movimentam-se pelo afrouxar e retesar de cordéis, accionados por uma esfera de barro que se faz oscilar em movimento de pêndulo. Em muitos desses objectos recreativos, fabricados a trouxe-mouxe para divertimento das crianças de parcos recursos, as duas placas independentes, em que assentam o touro e o toureiro, são forçadas a giro circulatório, impulsionadas pelo rodar de uma simples carreta que os petizes puxam numa plenitude de entusiasmo. E os bonifrates azougados — como peças de fogo preso em arraial minhoto — bandarilham com fúria, mexendo exaustivamente os braços e a cabeça, enquanto o touro, circungirando, distribui chavelhadas a esmo...

 

 

 

Guilherme Felgueiras

In “Os Touros na Arte Popular” 

Revista Panorama Números 25 e 26, Ano de 1945, Volume 5º  aqui 

 

 

 

 

 


Estúdio Horácio Novais 

aqui

 

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2.5.12

 

 

encontrado aqui

 

 

Esta escultura em cerâmica recuperada no sítio arqueológico Cinco Reis 8, zona intervencionada no âmbito da empreitada do Troço de Ligação Pisão-Beja do Subsistema de Rega do Alqueva, pode ser vista até ao próximo dia 29 de Junho na sala de exposições da Empresa de Desenvolvimento e Infraestruturas do Alqueva, S.A., em Beja.  A peça, representando um touro, em posição natural de repouso, deitado sobre o ventre e com a parte traseira ligeiramente recostada sobre a perna esquerda, tem uma altura de 23 cm, 17 cm de largura e 45 cm de comprimento. 

O sítio arqueológico de Cinco Reis 8, uma necrópole da 1ª Idade do Ferro, constitui uma das intervenções arqueológicas realizadas pela EDIA no âmbito da minimização de impactos da implantação do Empreendimento de Fins Múltiplos de Alqueva.

 


29.4.12

 

 

 João Branco Núncio

Vila Franca, Portugal 1949

 

 

À portuguesa tradição do toureio a cavalo se referem já crónicas de Strabão, citando os antigos lusitanos como amigos dos jogos hípicos, com touros, e outras que dão notícia de D. Sancho II alanceando touros ao estilo da época, e as de Fernão Lopes em relação a D. Fernando, e as de Garcia de Rezende que descrevem el-rei D. João II no gosto pelas touradas e fazendo frente e matando à espada um touro que em Alcochete lhe saiu ao caminho quando ia com a rainha. Outras crónicas descrevem façanhas do rei D. Sebastião como toureiro a cavalo, e dizem que o neto de Carlos V rojoneou em Cadiz, de abalada para o sonho de Alcácer. E muitos monarcas foram toureiros a cavalo, até D. Miguel que farpeou em Salvaterra, e na praça de Xabregas desta cidade de Lisboa, que teve redondéis no Rossio, no Terreiro do Paço, na Junqueira, no Largo da Anunciada, no local onde está o jardim da Estrela, no Salitre, no Campo de Santana e agora no Campo Pequeno. D. Carlos criou touros e D. Luís e D. Miguel entraram em tourinhas. E quantos fidalgos lanceando e rojoneando nas festas dos nascimentos de príncipes e das suas bodas e nos torneios peninsulares com os continuadores del Cid e de Villamediana, nas Praças Maiores de Espanha, em nobre competência, por sua dama, em alardes de valentia e de pompa pela gente de cada bando, a cavalo e a pé, com as armas e as cores de cada qual! Em Portugal manteve-se e aperfeiçoou-se a Arte de Marialva, tomando o nome do grande senhor e cavaleiro a quem mestre Andrade  dedicou o seu famoso tratado de equitação. Desde aqueles tempos, e até aos nossos dias, têm sido sucessivas as gerações de cavaleiros tauromáquicos. Estes e os forcados são os representantes do toureio português, uma vez que os bandarilheiros, e os antigos «capinhas», quási se limitam a imitar, até na indumentária, os seus iguais de Espanha.

Os cavaleiros  tauromáquicos têm indumentária própria: a casaca bordada e o tricórnio de plumas, e botas altas à Relvas — outro bom cavaleiro, do século XIX, em que brilharam também Mourisca, Tinoco, Castelo Melhor e outros. E os forcados, que, como os campinos, são do Ribatejo, terra dos touros, também vestem de forma característica, e também têm sua arte, porque não é apenas função de força o pegar um touro de cara, de costas ou de cernelha. Há que saber cair na cabeça da fera, evitando a violência do choque quando, para colher, humilha, e depois aguentar-se, «embarbelando» bem, ou, na melhor ajuda, torcendo bem a «pombinha», vértebra da cauda. E para se julgar da arte que pode caber em sorte tão rude, basta ver os últimos grupos de forcados-amadores, como os de Santarém e de Montemor, tão elegantes e pundonorosos, e até alguns profissionais que sabem dar terreno, com ritmo, com graça, como Edmundo e Garrett e os seus valentes conterrâneos do Ribatejo.

E tem ritual a sua aparição com a azémola das farpas, estas em duas arcas cobertas com pano rico, de veludo, que eles desdobram cuidadosamente ante a presidência, que manda recolher as caixas com os ferros para o uso da lide. Depois retiram-se os forcados para saltarem à arena quando o «inteligente» entende que o touro mete bem a cabeça e as hastes permitem a sorte. Os cavaleiros surgem, então, para as cortezias, outrora feitas ao som do hino real, caminhando passo a passo até sob o camarote da presidência, que saúdam em vénia de cabeça descoberta, depois recuando cerimoniosamente, voltando a avançar para se separarem nos cumprimentos ás quatro partes da assistência, ladeando e cruzando-se no meio do redondel, e sempre no cuidado dos cavalos bem ensinados, e na praxe dos movimentos.

 

 

 

Pepe Anastasio (aqui)
Algés, Portugal, 1949

 

 

 

Assenta o toureio equestre em três princípios básicos: cravar de alto a baixo, ao estribo e sem deixar tocar a montada. E, de uma maneira geral, além do mérito de equitador, necessita o cavaleiro de ser toureiro, isto é, de conhecer os touros e saber medir os terrenos. Carece o cavaleiro de firmeza de joelhos para as reacções do cavalo, que o deve temer mais a ele que ao touro, boa mão esquerda para mandar rápido, e boa direita para cravar, com pulso para aguentar a resistência, e certeza para encontrar o sítio próprio, com precisão. E o cavalo deve estar ensinado para todo o toureio, especialmente para entrar e sair nas quatro sortes clássicas: de cara, à tira, à meia volta e à garupa. E quando tudo corre bem, em tarde quente de verão, e o público, entusiasmado, aplaude cavaleiros e forcados, estes agradecem juntos, abraçando-se num gesto simbólico do seu convívio nos campos de Portugal — que a ambos dá o pão, o azeite, o vinho, e a alegria de viver ao sol.

 


El Terrible Perez

in  "Tauromaquia Portuguesa, Cavaleiros e Forcados"

Revista Panorama Números 25 e 26, Ano de 1945, Volume 5º

 

 

 


 capa de Panorama 

Nºs 25 e 26, 1945, Vol. 5º

 

 índice aqui 


Excerto do livro ABC da Tauromaquia de El Terrible Pérez, Edições VIC, 1944, aqui

 

 

Excerto do artigo Touradas em Portugal  de Conde de Sabugosa aqui 

 

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27.4.12

 

 

 

Portugal, anos 40

 

 

 

Corrida de touros à portuguesa aqui 


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24.4.12

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Portugal, anos 40

 

 

 

 

 

Tenta, s.f. (de tentar)

Corrida de novilhos logo depois da ferra e da enchocalhação, para diversão ou para lhes experimentar a disposição para as lides tauromáquicas: "Um e outro, no entanto,... dos que aparecem nas tentas do Ribatejo e nas touradas de caridade lá poderiam, posto de banda de que picar touros é modo de vida humilhante... entrar francamente na vida do trasteio...", Fialho de Almeida, À Esquina, 54. // Taur. Operação que tem por fim verificar a bravura das bezerras que hão de ser escolhidas para a reprodução; faz-se em pátio fechado e com um picador que as castiga, para verificar a sua reacção.

 

Grande Dicionário da Língua Portuguesa António de Morais Silva

Vol. X

Editorial Confluência

 

 


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20.4.12

 

 

 

 
Golegã, Portugal
Foto: Margarida Relvas (finais século XIX)

 

 

 

verso


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17.4.12

 

 

da esqª para a dtª:
Matilde Deslandes, Judite? Deslandes, Eugénia Relvas, Margarida Relvas, c. 1885
Foto: Carlos Relvas

Margarida Augusta Azevedo Relvas Navarro (1862- ?) foi uma das primeiras mulheres a fotografar em Portugal. Consegui descobrir a sua data de nascimento na fotobiografia de seu irmão, José Relvas (1858-1929), aqui

 

 


Mais sobre Margarida Relvas aqui .Neste blog, fotografias de Margarida Relvas aqui e aqui ou na tag "Relvas".

 

Casa dos Patudos, Museu de Alpiarça aqui 

 

 


 

 

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12.4.12

 

 

 


Untitled Film Still #33, 1979

até 11 de Junho de 2012  aqui.

 

 

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9.4.12

 

 

 

 

 

Gerhard Richter 

Tulpen (1995)

 

até 13 de Maio de 2012 aqui...

veja também aqui

 

 

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6.4.12

 

 


 

 

Gerhard Richter

Cloud (1976)

 aqui

 

 


Évangile selon saint Marc

Mc 5, 33-37

 

A la sixième heure, l'obscurité se fit sur toute la terre, jusqu'à la neuvième heure. Et, à la neuvième heure, Jésus poussa un grand cri : « Eloï, Eloï, Lamma sabacthani? » Ce qui veut dire : « Mon Dieu, mon Dieu, pour­quoi m'as-tu abandonné? » Certains de ceux qui étaient là dirent, en l'entendant : «Tiens, il appelle Élie.» Quelqu'un courut imbiber une éponge de vinaigre et, l'ayant mise au bout d'un roseau, lui donna à boire en disant : «Attendez, voyons si Élie va venir pour le descendre à terre ! »

Mais Jésus, ayant jeté un grand cri, expira.

 

 

[...]


G.S. : Après cet appel sans réponse de Dieu qui n'éveille que moquerie ou pitié des hommes, Jésus gémit sa soif comme un homme, comme un être de besoins qu'il était...

 

 

F.D. : Mais c'est à ce moment-là qu'il se montre autre, et venu d'ailleurs: ce moribond pousse alors, dans un dernier effort, au son d'un grand cri, le souffle venu d'ail­leurs. Par ce souffle il a respiré, il a vécu, il a parlé, par ce souffle rendu il quitte ce passage dans la chair.

Ce long cri du Christ abandonné des hommes, aban­donné de Dieu son Père, ce cri qui appelle, sans réponse audible, ce cri n'est-il pas le modèle des mots d'amour, d'amour et de désir, aux limites de l'articulé et du son?

C'est par le cri que le nouveau-né en appelle à sa mère pour s'y blottir, se calmer, apaiser sa soif et sa faim.

C'est par le cri que tout enfant en appelle à son père pour être protégé des méchants.

C'est par le cri que tout humain fait appel pour préserver son droit à l'intégrité quand une part de son corps, trahie par la douleur, se dérobe à la cohésion de l'ensemble et se disloque. Ce cri alors en appelle au secours d'un autre, à son aide.

Cri du besoin, cri du désir, cri de l'amour trahi, cri d'un fils d'homme, cri de tous les hommes. En son cri, ils peuvent tous se reconnaître.

Ce cri, entendu par tous les témoins, ce cri étrange, mystérieux, insolite et inépuisable, n'est-il pas le mes­sage où déchiffrer la résurrection assumée de la chair, audible en ses prémisses, là, au moment de sa mort en croix, par Jésus de Nazareth?

Ce cri de Jésus exposé entre terre et ciel s'est répandu dans l'espace. Il résonne toujours.

 

 

Francoise Dolto e Gérard Sévérin

in L'Évangile au risque de la psychanalyse (Au pied de la Croix , Tome I )

Éditions du Seuil

© Éditions Universitaires, S.A., 1977, J.-P. Delarge, éditeur



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26.3.12

 

Ninguém duvide de que lembra este ano um grande escritor e um grande português. Cuidado, porém, não pretenda encandear com a luz brilhante alguns focos bem mais espirituais que, mesmo depois da morte de Garrett, se acenderam por cá.

VITORINO NEMÉSIO  (1)

 

Respeitemos Almeida Garrett, homem admirável. Mas saibamos, por amor da poesia e de nós próprios, quem são os nossos grandes poetas.

JORGE DE SENA (2)

 

 

 

 

[...] Na altura da publicação das Folhas Caídas (1853), Garrett está com cinquenta e quatro anos, bem próximo daquele episódio que todos tememos e que nunca ninguém pôde cantar ou contar, a não ser por interpostas experiências. Mas se ele não pôde cantar ou contar a sua morte, o mesmo não se poderá dizer, com as devidas cautelas hermenêuticas, da sua vida — da que efectivamente viveu e, sobretudo, da (ou das...) que foi laboriosamente construindo em benefício próprio e dos outros, a ponto de se tornar muito difícil separar com nitidez a primeira das segundas. Nem sei mesmo se ele o conseguiria, no caso, duplamente improvável, de cá volver aferrado ao princípio de que os grandes criadores são fiáveis em questões de posteridade. Com efeito, de quem falam os professores-críticos Nemésio e Sena nos excertos aqui escolhidos para epígrafe? Do «divino» Garrett, por ocasião do primeiro centenário da sua morte, ou dos grandes poetas que ambos, não sem razão, julgam ser? Provavelmente de uma coisa e outra, na senda, aliás, do ilustre homenageado, que não consta haver alguma vez pecado por acanhamento em matéria de glória pessoal e artística. Garrett sempre foi uma obsessão de Garrett, como é sabido e logo ressai da Advertência — habitual expediente seu, sob este nome ou nomes afins — que precede as Folhas Caídas. Escrita em Janeiro para a primeira edição, e deixada intacta na segunda (provavelmente de Abril), essa Advertência materializa mais uma das suas múltiplas auto-encenações de teor lúdico-cognitivo. Na circunstância, pondo o «autor» a discorrer sobre o «poeta», visto este como inconfundível protagonista do que aquele chama a sua «vida poética» — «vida» teatralmente dada por conclusa no limiar das Flores sem Fruto (1843), mas que agora se retoma, depois da inevitável palinódia («Enganei o público, mas de boa-fé, porque me enganei primeiro a mim»). Repare-se, porque me parece importante: embora cúmplices, o «autor» e o «poeta», tal como as respectivas «vidas», interseccionam-se, porém não se confundem. O «autor» é o escritor prestigiado, figura conhecida do público burguês em expansão, partícipe de uma actividade socialmente relevante e com bastas provas dadas ao nível de vários tipos de discurso escrito, com relevo para o discurso literário. O «poeta», esse é outra coisa; é, por assim dizer, aquela parte do escritor que os outros toleram mal, mas que ele privilegia e acarinha — de modo envergonhado e reticente nos verdes anos, de modo desinibido e frontal nos anos crepusculares. Ou então, por palavras que o narrador das Viagens talvez se não importasse de secundar: o poeta e a «poesia» subsistem no escritor para, em momentos cruciais, o redimirem da «prosa» a que o século o obriga. Ora, as Folhas Caídas corresponderão, para Garrett, ao mais crucial desses momentos: o da iminência do fim, dos balanços inadiáveis. Ele sabe que não pode protelar mais a ocasião de sensibilizar o leitor para aquilo em que sempre acreditou e estas «folhas» mostram bem: o indiscutível e perene primado da dupla poeta/poesia num tempo votado à imanência, embora nostálgico da antiga transcendência. Em meu entender, é fundamentalmente por essa dupla que passa a compreensão do que estas «folhas de poesia» representam, quando observadas na perspectiva da tradição e da modernidade. Correndo porventura o risco de me tornar polémico, adiantarei mesmo mais: na derradeira obra de Garrett, a modernidade emana do poeta; a tradição, da poesia. Vejamos como, partindo da Advertência, e a ela volvendo quando se justifique. Não olvidemos que estamos perante um mestre da contradição — instrumento da maior fecundidade nos modernos, como ele próprio nunca se cansou de ensinar...

 

 

F. J. Vieira Pimentel

in "A Modernidade, a Tradição e Garrett: tópicos para uma releitura das Folhas Caídas" (capítulo 2/pp.194-195) 

Colóquio Letras nº 153/154 no segundo centenário de Almeida Garrett/ Julho-Dezembro 1999 aqui

 

 

Notas: 

1. Vitorino Nemésio, Conhecimento de Poesia, Lisboa, Editorial Verbo, 1970, p.79

2. Jorge de Sena, Estudos de Literatura Portuguesa-1, Lisboa, Edições 70, 1981, p.111

 

 

 

 

 

 

Folha de rosto da 1ª edição

 

 


 


20.3.12

 

 


 

 


 

Voici quel est l'unique privilège des poètes: jusqu'à leur mort ils peuvent être amoureux. Il est vrai que je ne leur en connais pas d'autre. La plupart des gens ont leurs périodes dans la vie en dehors desquelles il ne leur est pas permis de connaître de pas­sion. Les philosophes prétendirent à la même faveur, mais elle ne leur fut pas concédée par la reine Opinion, qui est souveraine absolue et juge suprême contre qui personne ne peut faire appel ni porter plainte.

Anacréon chanta ses amours alors qu'il avait des cheveux blancs, et personne ne s'en étonna. Aristote devait avoir la barbe grisonnante quand il eut sa dernière aventure car aujourd'hui encore on lui en fait grief.

Or, philosophe, je ne le suis certes pas, je l'ai déjà dit: quant à être poète, j'y ai quelques prétentions, et, à vrai dire, j'ai connu des accès assez aigus de cette maladie, et je pourrais bien m'en prévaloir pour me faire pardonner certaines fragilités du cœur... Pourtant il n'en est pas question, je ne veux pas présenter d'excuses comme si j'étais coupable, mais me défendre comme ayant la raison et le bon droit pour moi.

Je suis d'accord avec mon ami Yorick, le très sensé bouffon du roi de Danemark, celui qui ressuscita par la suite chez Sterne sous une si élégante plume; je suis tout à fait d'accord avec lui. — Toute ma vie — dit-il — j'ai été amoureux soit de cette prin­cesse soit d'une autre, et il en sera ainsi, je l'espère, jusqu'à ma mort, fermement persuadé que, si un jour je commets une action vile, mesquine, cela ne se fera qu'entre deux passions; dans ces intervalles je sens mon cœur se fermer, mes sentiments se refroi­dissent, je ne trouve pas deux sous à donner à un pauvre... C'est pourquoi j'évite de toutes mes forces d'être dans un état pareil; et dès que je m'enflamme à nouveau je redeviens la générosité et la bienveillance mêmes.

Yorick a raison, il avait bien plus de raison et de bon sens que son auguste maître, le roi du Danemark. Pour peu que se généralise le principe, il est à tout jamais et en toute chose indis­cutable, et ne saurait supporter la moindre exception. Le cœur humain est comme l'estomac humain, il ne saurait rester vide, il a toujours besoin d'aliments: sain et généreux, seules les affec­tions peuvent lui en procurer; la haine, l'envie et toute autre mauvaise passion sont des stimulants qui ne font qu'irriter et ne sustentent pas. Si la raison et la morale nous recommandent d'éviter les passions, si les chimères philosophiques, ou d'autres, nous les interdisent, quel aliment donnerez-vous au cœur, que devra-t-il faire? Se nourrir de sa propre substance, se consu­mer... La vie s'altère, la dissolution morale de l'existence s'accé­lère, la santé de l'âme est impossible.

Celui qui peut vivre ainsi vit pour faire le mal ou pour ne rien faire.

Or, celui qui n'aime pas, qui n'aime pas passionnément, son enfant s'il en a un, sa mère si elle est encore en vie, ou la femme qu'il préfère à toute autre, cet homme-là est celui que j'ai dit, et Dieu me préserve de le rencontrer.

Et surtout qu'il n'écrive pas: il doit être terriblement ennuyeux.   

 

Almeida Garrett

in Voyages dans mon pays (Chapitre XI, p. 67-68)

Traduit du Portugais par Michelle Giudicelli

© La Boite à Documents/Éditions UNESCO 1997

 

 


 

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13.3.12

 

 

 

Yorick and the Grisette

Gilbert Stuart Newton (1797-1835) 

 

 

«Estou, com o meu Yorick, o ajuizadíssimo bobo de el-rei da Dinamarca, o que alguns anos depois ressuscitou em Sterne com tão elegante pena, estou sim. ‘Toda a minha vida’ – diz ele – ‘tenho andado apaixonado já por esta já por aquela princesa, e assim hei-de ir, espero, até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca há-de ser senão no intervalo de uma paixão à outra: nesses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o sentimento, não acho dez réis que dar a um pobre... por isso fujo às carreiras de semelhante estado; e mal me sinto aceso de novo, sou todo generosidade e benevolência outra vez.’

 Yorick tem razão, tinha muito mais razão e juízo que seu augusto amo, el-rei de Dinamarca. Por pouco que se generalize o princípio, fica indisputável, inexcepcionável para sempre e para tudo. O coração humano é como o estômago humano, não pode estar vazio, precisa de alimento sempre: são e generoso só as afeições lho podem dar; o ódio, a inveja e toda a outra paixão má é estímulo que só irrita mas não sustenta. Se a razão e a moral nos mandam abster destas paixões, se as quimeras filosóficas, ou outras, nos vedarem aquelas, que alimento dareis ao coração, que há-de ele fazer? Gastar-se sobre si mesmo, consumir-se... Altera-se a vida, apressa-se a dissolução moral da existência, a saúde da alma é impossível.

 O que pode viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada. 

Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, e Deus nos livre dele.

 Sobretudo que não escreva: há-de ser um maçador terrível. (...)»



Garrett, Viagens na Minha Terra

 

Duas razões me levam a pôr em evidência o trecho original citado em tradução por Garrett.
 Em primeiro lugar, deixar aqui sublinhada a importância de Sterne na obra narrativa de Garrett. As Viagens de Garrett estabelecem relações, visíveis e invisíveis, quer com A Sentimental Journey quer com Tristram Shandy, da estrutura digressiva às referências ao Quixote. 
Em segundo lugar, para chamar a atenção para a tradução do nosso Autor, capaz de transpor escorreitamente o inglês de Sterne para o bom português garrettiano, de modo simultaneamente fiel e criador.

 

«...having been in love, with one princess or other, almost all my life, and I hope I shall go on till I die, being firmly persuaded, that if I ever do a mean action, it must be in some interval betwixt one passion and another: whilst this interregnum lasts, I always perceive my heart locked up -- I can scarce find in it to give Misery a six-pence; and therefore I always get out of it as fast as I can, and the moment I am rekindled, I am all generosity and good-will again;...»

Laurence Sterne, A Sentimental Journey through France and Italy by Mr. Yorick (1768)

 

 

Jorge Colaço

blog o divino (2005)

 

 

 

Jorge Colaço escreve aqui 

  

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7.3.12

 

 

 

 

Alfredo Keil (1850-1907)

Paisagem. Entardecer nos Vales, 1898


© IMC/DDF aqui

 

 

 

These interesting travels of mine shall be a masterpiece, erudite, sparkling with new ideas, something worthy of our century. I need to inform the reader of this, so that he may be forewarned and not think that they are just another batch of these fashionable scribblings entitled Travel Notes or something similar, which weary the printing presses of Europe without the slightest benefit for science or for the advancement of the species.

First of all my book is a symbol ... a myth, a Greek word, and a Germanic fashion, that is put into everything nowadays and used to explain everything that... can't be explained.

It is a myth because... because... Without further ado I shall lift the veil and state openly to my benevolent reader the profound idea that is concealed beneath this frivolous appearance of a brief trip seemingly taken in play, while all the time it is a serious, sober, thoughtful business like a new tome from the Leipzig fair, not one of your penny dreadfuls from the boulevards of Paris.

Some years ago there was a deep, abstruse philosopher from over the Rhine who wrote a work on the march of civilization, of the intellect - what we might call, to be better understood, Progress. He discovered that there are two principles in the world: spiritualism, which marches on heedless of the material, earthy side of this life, eyes fixed on its great, abstract theories, a stiff, spare, hard, inflexible belief which can be suitably embodied, symbolized by the famous myth of the Knight of La Mancha, Don Quixote; and materialism, which, taking not the slightest heed of these theories, in which it does not believe and whose impossible applications it declares to be Utopias each and every one, can be properly represented by the rotund and well-fed person of our old friend Sancho Panza.

But, as in witty Cervantes's story, these two completely opposed and contradictory principles nevertheless are always together, the one some way behind, the other going on ahead, often getting in each other's way, rarely helping one another, but always progressing.

And this is what is possible for human progress.

And here is the chronicle of the past, the history of the present, the programme for the future.

Our present-day world is a vast Barataria governed by King Sancho.

Don Quixote's turn will be next.

Common sense shall come with the millennium: the kingdom of the children of God! It is guaranteed in the divine promises... like the constitution promised by the King of Prussia; and he has not failed yet, because - because the contract has no fixed date: he promised, but he did not say for when.

Now this journey of mine up the Tagus symbolizes the march of our social progress: I hope the reader has understood this by now. I shall be careful to remind him from time to time, for I very much fear he will forget.


 

Almeida Garrett

in Travels in My Homeland (II) p.27-28

Translated from the Portuguese by John M. Parker

© Peter Owen Publishers/UNESCO collection of Representative Works

 

 

 

 

Santarém hoje  aqui e no facebook aqui

 


3.3.12

 

 

 

 

Ninguém (a partir de Frei Luís de Sousa)*

Teatro da Trindade, Lisboa 1978-79

 

Foto (Detalhe): António Lagarto 


 

De onde vem o meu interesse por Garrett? Sempre foi, em primeiro lugar, literário. As coisas não começaram bem. A primeira recordação que tenho é a de ter lido o Frei Luís de Sousa no liceu. Sou do tempo dos liceus. Nessa altura, tive um professor de português que me disse que o FLS era uma «lufada de ar fresco no teatro português». A peça não era uma novidade, já tinha visto várias produções televisivas que, nessa época, eram ciclicamente transmitidas. Umas melhores, outras piores, eram geralmente medíocres. Do alto da minha insolência adolescente decidi que o FLS era exactamente o contrário: uma coisa doentia.

O tempo que mediou entre esse momento e a descoberta de que o tal professor estava coberto de razão constituiu verdadeiramente o meu percurso de descoberta de Garrett. O meu deslumbramento seria total.

O teatro português é pobre e só tem dois autores grandes (perdoe-se-me o radicalismo): Gil Vicente e Garrett. O resto são inexistências, miudezas, tentativas, ou obras avulsas. Apesar de muito conhecida, não se tem sublinhado suficientemente a natureza da concepção trágica enunciada por Garrett na Memória ao Conservatório Real. Talvez um dia possamos abordar isso aqui. Além do mais, o FLS podia ter dado, se tivéssemos tradição musical, uma grande ópera. A grande ópera portuguesa.

Nesse caminho de descoberta e conversão, as Viagens constituem um momento fundamental. Primeiro, em leitura desconcertada. Mais tarde, ajustadas as peças do puzzle, penetrei o seu mundo e amei-as até hoje. Elas permitiram a descoberta de toda uma família literária e espiritual, a que julgo, modestamente, pertencer.

Para ler as Viagens (percebi-o ainda mais perfeitamente quando as ensinei) é preciso – toda a leitura é assim – «acertar» primeiro com o tom em que devem ser lidas. Depois, é preciso saber mover-se na infinidade de referências de que é feita. Isso é também parte da sua modernidade.

É preciso ter aprendido a ler uma página de um livro apenas pelo prazer da sua leitura. É preciso também ter passado por muitos outros autores e muitos outros livros. É preciso descobrir a sua desenvoltura e compreender a sua novidade.

Por tudo isso, as Viagens acumularam gerações de equívocos e inimizades feitas na escola: é uma obra que precisa de um certo grau de maturidade para ser bem lida. Para ser saboreada. Eis outro tema que, por si só, mereceria reflexão.

Um outro momento fulcral foi o texto admirável de David Mourão-Ferreira (que falta faz David) sobre As Folhas Caídas (primeiro publicado num opúsculo da Seara Nova, depois incluído na colectânea Hospital das Letras). Por aí se podem descobrir proximidades e distâncias entre a vida vivida e a vida escrita, entre o impulso confessional e os caminhos do engenho, entre os sobressaltos reais e o artifício literário.

Fui também descobrindo, como é evidente, outras coisas sobre o homem e as suas circunstâncias, as suas contradições, os seus dilemas.

Garrett: o soldado liberal capaz de apontar os vícios do liberalismo. O romântico (como hoje o entendemos) que, romanticamente, recusava o romantismo (como então se entendia). O escritor cuja glória literária não fez apagar o drama pessoal. O homem de espírito. O pesquisador das raízes do nosso imaginário poético. O autor cujo nacionalismo não era provinciano e tinha, sem paradoxo, um cunho europeu. E também o realizador, o homem de acção. O congregador de vontades. O político, o orador. O crítico impiedoso da negligência portuguesa. E também o civilizado, o mundano, o autor de O Toucador, jornal para damas, o dandy, o elegante cheio de souci de soi, o sedutor. O visconde.

E, claro, de novo o infinito sabor da sua prosa, o donaire, para usar a expressão de outro tempo, tão deliciosa, que o meu querido amigo João Bigotte Chorão gosta de usar a propósito da escrita garrettiana (cf. o prefácio à edição das Viagens da Lello).

Porque a admiração pela obra também se faz da descoberta dos outros admiradores de Garrett, o escritor que tantos escritores bem diferentes admiraram sem reservas, desde logo Camilo e Eça. E ainda há uma pequena mas sólida «confraria» garrettiana que reúne gente muito diferente entre si, irmanada nessa admiração.

 

Jorge Colaço

in blog o divino** , 9 Janeiro de 2005

 

Jorge Colaço escreve aqui 

 

 

 

 

 aqui

 

 


 

 


 

* Ninguém (Frei Luís de Sousa):

Encenação de Ricardo Pais

Texto de Almeida Garrett, Maria Velho da Costa, Alexandre O'Neill

Música de Carlos Zíngaro

veja o cartaz do espectáculo aqui

 

** O blog garrettiano o divino foi recentemente desactivado no blogs.sapo.pt

 

 

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26.2.12



 

 

 Na estreia da peça O Fidalgo Aprendiz de D. Francisco Manuel de Melo,

encenada por Osório Mateus (ao centro)

Sarau dos Finalistas do Liceu de Viseu (66/67), 21 de Janeiro de 1967  

aqui


 

 

Osório Mateus (1940-1996), investigador, homem de teatro e professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi uma personalidade marcante pelos métodos inovadores que usou em todos os domínios da sua actividade. Aliou sempre a investigação académica e o trabalho desenvolvido com os seus alunos à prática teatral, fundando companhias — Os Cómicos (1974) e Produções Teatrais (1978) — e encenando espectáculos — O Fatalista de Diderot (1978), Tragédia Infantil (1979), Garrettismos (1984), entre outros — a par da construção de um importante corpus teórico sobre a prática e o estudo do teatro, e a investigação da história do teatro. Os Cadernos Vicente que dirigiu (1988-1993), definindo-os como "programa de análise monográfica da produção artística do autor dos autos", revelam o seu método de trabalho de edição: revisão exaustiva dos textos por autor e leitores.

Osório Mateus doou à Faculdade de Letras um dos maiores acervos bibliográficos e iconográficos de Teatro e Artes do Espectáculo do país, que integra actualmente outros espólios doados pelos seus proprietários, além de ofertas de autores, editores e companhias. O tratamento do fundo documental e bibliográfico tem sido feito pelo Centro de Estudos de Teatro, responsável pela organização do livro de teatro e outras escritas apresentado aqui, bem como exposições (Papéis de Teatro, 2000, Vicentina, 2002) e leituras encenadas. 

 


  

Centro de Estudos de Teatro aqui 

 

Espólio Osório Mateus aqui 

 

Cadernos Vicente aqui 

 

Outro post dedicado a Osório Mateus aqui 


23.2.12

 

Em 1838, Almeida Garrett escreve, ensaia e produz Um Auto de Gil Vicente, drama histórico em torno da partida da infanta e da representação de Cortes de Júpiter, o auto a que o título se refere. O drama foi escrito entre 11 de Junho e 10 de Julho.

estreado 15.08.1838.

Edição romântica de Hamburgo. Por ela, em 1838, Garrett faz Um Auto de Gil Vicente.

 

A estreia, no Teatro da Rua dos Condes na noite de 15 de Agosto, num espectáculo ensaiado por Emile Doux, com cenários de Palluci, é o primeiro acto público do romantismo em Portugal. [...] 

É a primeira vez, depois de séculos de interrupção, que palavras compostas por Gil Vicente são ditas no teatro. O projecto de fazer de novo representar Gil Vicente só tem continuidade sessenta anos depois (1898), final do século XIX, à aproximação do IV Centenário (1902).

 

Grande parte dos versos de Cortes de Júpiter é incluída no texto de Um Auto de Gil Vicente, com novos recortes e nova montagem, muito diferentes da sequência original. Garrett parece intuir que fazer ressurgir Vicente não é trabalho fácil, que não pode haver a veleidade mecanicista de querer representar tal e qual aqueles autos, como se fossem peças de repertório.

 

 

A ficção de Garrett implica mostrar o auto a ser ensaiado (Actos I e II) e a fazer-se (Acto II).

A representação é acidentada e incompleta: Bernardim Ribeiro, apaixonado infeliz da infanta, que tem de o abandonar pelas razões de estado e partir, executa, sem ensaio, a figura da moura Tais, para se aproximar de Beatriz, dizer outros versos e lhe meter no dedo um anel devolvido. Gil Vicente e sua filha Paula representam Júpiter e a Providência.

 

eu não quis só fazer um drama, sim um drama de outro drama, e ressuscitar Gil Vicente a ver se ressuscitava o teatro 


Representar representação é um jeito que Almeida Garrett já tinha ensaiado em 1821 n'O Impromptu de Sintra. Nos anos 30, o teatro no teatro é modernidade romântica.


 

Osório Mateus

in de teatro e outras escritas * 

“Garrett leitor de Vicente / Garrett e Vicente” [3] pp.271-272

© José Camões e Quimera Editores 

 

 

 

 

 aqui


 

 

* da Nota Editorial:

[de teatro e outras escritas] reúne uma centena de textos escritos e quase todos publicados entre 1971 e 1995. [...] Gil Vicente é objecto de eleição e, sem dúvida, a contribuição mais fértil do trabalho crítico de Osório Mateus. Os estudos sobre os autos são hoje incontornáveis e realizam, na segunda metade do século XX, uma proposta de restauro das condições primeiras da sua existência teatral. Esta perspectiva preside, aliás, desde cedo ao modo de entender o estudo dos textos a que chamamos dramáticos, e muitos dos ensaios apresentam-se hoje como lugar de teorização sobre o teatro nas suas múltiplas formas. [...] A seu modo, cada um deles consegue ser um certeiro gesto para uma história do teatro por fazer, tornando visíveis lugares-comuns ou inexac­tidões que importa identificar, abrindo outros lugares de interrogação, convocando os instrumentos adequados para o trabalho imenso que espe­ra por ser feito.



 

 

 

 

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22.2.12



Almeida Garrett, a figura mais avançada de entre os artistas românticos de raiz burguesa e liberal, é dos primeiros leitores modernos de Gil Vicente. Aos 23 anos, em O Toucador (periódico sem política, dedicado às senhoras portuguesas, 1822), apresenta um resumo e fragmentos de Mofina Mendes. Em 1822, em Portugal, Gil Vicente é um autor caído no esquecimento, ou conhecido de muito poucos. As duas últimas edições completas dos textos datam do século XVI (1562 e 1586) e já não há muitos exemplares de nenhuma delas.[...]

 

1826, no prefácio do Parnaso Lusitano, Garrett escreve: 

O próprio Gil Vicente não deixa de ter seu cómico sal, e entre muita extravagância muita coisa boa; Bouterwek e Sismondi parece que escolheram o pior para citar; muito melhores coisas tem, particularmente nos autos, superiores sem comparação às comédias. A soltura da frase e a falta de gosto são os defeitos do século: o engenho que daí transparece é do homem grande e de todas as épocas. Em nota, acrescenta: Reservo-me para uma edição que pretendo publicar do nosso Plauto, fruto de longo e penoso trabalho, para examinar melhor este ponto e demonstrar o que aqui enuncio. Bosquejo da História da Poesia e Língua Portuguesa

Paris: Aillaud (VII-XVI:XIII).


Não realizou o seu projecto, mas é possível que seja ele o instigador da edição de Hamburgo.

A edição romântica que inaugura a época moderna de Gil Vicente e o torna o primeiro autor clássico do século de ouro.

 

 

Osório Mateus

in de teatro e outras escritas

“Garrett leitor de Vicente / Garrett e Vicente” (1 e 2) pp.269-270

© José Camões e Quimera Editores

 


 

 

 


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21.2.12

 

 

 


Gonçalo Luiz Maravilhas Caldeira Coelho
 Foto/Bilhete-Postal : Furtado & Reis, Lisboa 1928

 

 

 

 

 

Fotografia publicada no livro "Retrovisor, Um Álbum de Família" aqui 

 



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17.2.12

 

 

Garrett é mais do que Garrett. Quer dizer que a sua obra, por admirável que seja no teatro, no romance, na poesia, em títulos como Frei Luís de Sousa, Viagens na Minha Terra, Folhas Caídas, não é uma obra fechada, mas uma obra aberta. Obra aberta porque não se encerrando na sua acabada perfeição como um fim em si mesma, rasgou uma estrada na literatura portuguesa. Há na história literária como na história política fundadores de dinastia. E na literatura portuguesa é, sem dúvida, Garrett um desses fundadores. Depois de Garrett há toda uma literatura que dele deriva - uma literatura que por isso mesmo se chama neogarrettiana ou neogarretista (e, se designou também, mas com menor fortuna, por novilusista).[...] Àquela “geração de 90” pertenciam, entre outros, Trindade Coelho (1861-1908) e Manuel da Silva Gaio (1860-1934), nomes representativos do neogarrettismo ou do nacionalismo literário. No artigo de apresentação da Revista Nova (Nov. de 1893)  —  e novo não seria só o título da publicação como o seu espírito — , Trindade Coelho aponta em Garrett um exemplo de banho lustral, qual é o de mergulhar “no fecundo veio” da província portuguesa e das tradições populares.[...] Na peugada de Ramalho, que explorou aquele “fecundo veio” aberto por Garrett, outros vieram que viajando pelo vasto mundo, regressavam sempre ao ninho. É o caso desse espectador cosmopolita, de clara prosa e poder evocativo, que foi Augusto de Castro (1883-1970), homem do mundo que gostava também de viajar no seu jardim. É o caso ainda de António Ferro (1895-1956), igualmente grande jornalista, mas de prosa mais dinâmica (ou não fosse ele um protagonista da aventura futurista), e homem de acção – um poeta de acção, diria, por esse toque estético que punha em todas as suas realizações. Uma vida sem beleza, toda material e vazia de alma, é uma vida que não vale a pena viver. Uma equilibrada dosagem de inovação e tradição, de europeísmo e de nacionalismo, de alta cultura e de cultura popular, determina a acção de António Ferro, para quem vale o que disse Afonso Lopes Vieira de Garrett: mais notável ainda “pelo que descobriu e indicou do que pelo que realizou”
[...] escritor da família garrettiana é ainda Luís Forjaz Trigueiros (1915-2000) por esse espírito liberal sem demagogia, por essa curiosidade cosmopolita sem divórcio das raízes. Das “paisagens portuguesas” – título de uma sua colectânea de páginas de geografia literária, aquelas que parece exercerem maior fascínio sobre Luís Forjaz Trigueiros são as do Minho (1) , “campos elísios” também para este moderno autor de viagens na nossa terra.

 


João Bigotte Chorão

in “Garrett, Clássico do Romantismo”

Revista “O Tripeiro” 7ª série – Ano XVIII – Nº 2, Fevereiro de 1999. aqui

 

 

Notas:

1. Leia neste blog o texto A Écloga e a Epopeia de Luís Forjaz Trigueiros aqui e aqui

2. Este post é retirado do texto publicado no blog O Divino (28 de Março de 2005) aqui

 

 


14.2.12

 

 

C'est à Londres, en 1822, que fut écrite, d'un seul jet et à la suite, la plus longue partie de ce qui sera plus tard les Mémoires d'outre-tombe. Le voyage en Amérique, le retour en France, le mariage, le passage à Paris, l'émigration, la guerre dans l'armée des princes, le séjour en Angleterre et les sept années terribles de 1793 à 1800, avec l'intermède lumineux et tragique de Charlotte à Bungay, furent rédigés sous les ors du somptueux hôtel de Portland Place qui faisait un contraste romanesque et enchanteur avec les récits des temps obscurs.

Peut-être est-il temps de dire ici, avec les mots les plus simples, que les Mémoires d'outre-tombe constituent un des cinq ou six monuments majeurs de la littérature française. Si notre langue est ce qu'elle est, les Mémoires d'outre-tombe y sont pour quelque chose.  Ils  se  situent quelque part,  en beaucoup plus amusant, entre l'Iliade et l'Odyssée, la Divine Comédie, Don Quichotte de la Manche, le Paradis perdu, les Souffrances du jeune Werther et Guerre et Paix de Tolstoï. Dans la prodigieuse lignée qui va de la Chanson de Roland, des quatre grands chroniqueurs, de Rabelais et Montaigne jusqu'à Hugo, Balzac et Proust, en passant par Saint-Simon et Jean-Jacques Rousseau, Chateaubriand tient sa place d'abord parce qu'il a écrit les Mémoires d'outre-tombe. Rien de ce qui est raconté dans ces pages sur ses amours infidèles n'aurait le moindre intérêt si tous ces visages de femmes n'étaient, à la fois, dissimulés et révélés par les Mémoires d'outre-tombe. On aurait tort de s'imaginer que la vie des grands hommes offre quelque modèle que ce soit à ceux qui les admirent. Il ne suffit pas de boire comme Verlaine, de faire la révolution comme Malraux, d'être homosexuel comme Proust,  ou couvert de femmes, monarchiste et chrétien comme René de Chateaubriand pour avoir du génie. Il faut d'abord avoir du génie; ensuite, on se débrouille comme on peut avec une vie quotidienne dont rien ne demeure négligeable à partir du moment où tout y est soutenu par le talent et la passion. Alors, le moindre détail se révèle incomparable; le moindre secret, irrésistible. C'est quand il y a quelque chose au-dessus de la vie que la vie devient belle.

 

 

Jean D'Ormesson

in Mon Dernier Rêve Sera pour Vous.

Une biographie sentimentale de Chateaubriand

© 1982, Éditions Jean Claude-Lattès

 

 

 

 

 

 

 

 

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10.2.12

 

 

 
Luísa Gabriela Deslandes Blanck c. 1900
Foto: Camacho

 

Da casa onde ficaram guardados e esquecidos durante cem anos os manuscritos do romanceiro garrettiano, sabia-se que fora adquirida por Luísa Gabriela Deslandes Blanck em 1923. Por isso sempre pensámos que Luísa e o marido se tivessem instalado no Bairro Alto nos anos vinte do século XX. Mas eis que a investigadora Sandra Boto descobriu agora uma coincidência deveras curiosa: a Sociedade Literária Almeida Garrett, entidade criada em 1902, mantinha “reuniões regulares, que tinham lugar no nº 7 da Rua dos Caetanos, em Lisboa, [...] onde apareceram os manuscritos autógrafos do romanceiro” (1). Era membro desta sociedade, entre outros, o escritor Xavier da Cunha, amigo do Conselheiro Deslandes e autor da obra Impressões Deslandesianas (2).

Uma hipótese é que, embora só tendo comprado a casa em 1923, a filha e o genro de Venâncio Augusto Deslandes residissem nela desde o seu casamento, em 1899. 

 

 

Notas:


1Sandra Cristina de Jesus Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica', p.186

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

2. Impressões deslandesianas: divagações bibliographicas. Lisboa: Imprensa Nacional, 1895. A investigadora remete na sua tese para o Arquivo de Xavier da Cunha aqui 

 

 

Leia mais neste blog sobre o assunto clicando na tag garrett  

 

 

 

 

 

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9.2.12

 

 

 

 
Matilde Rebello Deslandes c. 1880
Foto: Carlos Relvas

 

 

 

Uma das muitas fotografias que conservo de Matilde Rebello Borges de Castro Deslandes (1854-1931), mulher de Venâncio Augusto. São quase todas da autoria de Carlos Relvas. O "fotógrafo amador", como ele próprio se intitulava, e sua filha, Margarida Relvas, retrataram Venâncio e a família ao longo de toda a vida. Veja outras fotografias de Venâncio e Matilde neste blog, aqui. 

 

8.2.12

 

 

 

Venâncio Augusto Deslandes c. 1880 

Foto: Marguerite Relvas

 

 

 

A propósito dos manuscritos do Romanceiro garrettiano redescobertos em 2004, já aqui apresentei aos leitores a figura do Conselheiro Venâncio Augusto Deslandes(1829-1909), a quem pertenceu, não se sabe como, a agora chamada ‘Colecção Futscher Pereira’ (ver post anterior). Recordo que o espólio garrettiano foi identificado pelo Professor Artur Anselmo ao examinar um conjunto de papéis e curiosidades bibliográficas que haviam pertencido a V. A. Deslandes.

A aturada investigação levada a cabo por Sandra Boto sobre o percurso deste espólio não permitiu (ainda) determinar de que forma ele chegou à biblioteca do Conselheiro Deslandes mas veio revelar alguns dados novos e surpreendentes, além de nos oferecer um panorama sugestivo da classe letrada e intelectual da Lisboa de finais do século XIX, princípios do século XX, “confinada a uma pequena casta onde todos se conheciam e relacionavam”. [1]   

 

 

 

 

1. Sandra Cristina de Jesus Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica', p. 180

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

 

 

 
Verso da fotografia


4.2.12

 

 

As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’, tese de doutoramento que Sandra Cristina de Jesus Boto defendeu ontem na Universidade Nova de Lisboa, representa para a minha família a conclusão feliz dum percurso iniciado em 2004 pela descoberta duma importante colecção de autógrafos garrettianos em nossa casa. Ao apresentar com esta colecção perspectivas inteiramente novas sobre o romanceiro garrettiano, o trabalho de Sandra Boto confere pleno sentido ao enorme esforço que a minha irmã dedicou à divulgação deste espólio, em grande parte inédito. Hoje penso que foi sorte estes papéis serem redescobertos por uma estrangeirada, que nunca tinha lido as Viagens na Minha Terra, mas de Garrett sabia pelo menos que “main street is named after him!” (Cristina Futscher Pereira dixit). Quantos portugueses de gema se teriam dado ao trabalho?

 

Diz Sandra Boto na introdução:

 

Sabia-se, por fontes externas, que a colecção continha novos temas tradicionais. A publicação, na edição de 9 de Dezembro de 2004 do jornal Público, de um tema religioso de base tradicional, Fonte da Cruz, fazia suspeitar da importância destes materiais para o estudo do romanceiro tradicional garrettiano. Sabia-se também que entre estes autógrafos se encontrariam igualmente temas de origem não tradicional. Aliás, um romance criado pela pena garrettiana, A moira encantada, constituíra, a 29 de Dezembro de 2004, o verdadeiro cartão de visita desta colecção, num infelizmente pouco valorizado suplemento do Diário de Notícias. (1)

 

 

 

 


  

 

 

 

 

 A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

 

 

Do nosso ponto de vista, a edição de A Moira Encantada foi um pequeno "milagre", só tornado possível por circunstâncias muito favoráveis como o apoio essencial que recebemos de Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana e o facto de termos encontrado patrocinadores - Diário de NotíciasPortugal Telecom - que gostaram do projecto e nos deram autonomia total para o realizar.

Uns meses depois, as duas especialistas chamavam a atenção para a riqueza do espólio agora encontrado, concluindo que dar a conhecer este romanceiro inédito seria prosseguir a tarefa que o próprio Garrett definiu como um “grande serviço ao seu País” [2]. Mas (quase) ninguém estava interessado, como sintetizou mais tarde Jorge Colaço [3] ao contar a história na Carta a Garrett.

 

No entanto, sete anos volvidos sobre a descoberta da 'Colecção Futscher Pereira' [4], a Proposta de ‘Edição Crítica’  de Sandra Boto vem contrariar o pessimismo e convidar-nos a revisitar o nosso Autor e o seu apaixonante Romanceiro:   

 

[...] no que concerne ao Romanceiro, a elaboração de um plano editorial patente na “Introducção” ao tomo II da obra, cujos preparativos e rascunhos textuais se prova estarem documentalmente contidos na Colecção Futscher Pereira em autógrafos garrettianos, só nos anima a levar a cabo a tarefa de prosseguir editorialmente com esse mesmo plano, que a morte do poeta impediu de se cumprir. A não destruição intencional destes materiais em vida de Garrett conjugada com o manifesto de intenções que é o mencionado plano editorial, o qual por seu turno entendemos como uma vontade expressa autoral de vir a publicar futuramente esses materiais, é garante de que é uma missão estudá-los e editá-los, mesmo com mais de 150 anos de atraso.[1]

 

 

 

 

 

 

Autógrafo de Almeida Garrett:

Romanceiro

Colecções de xácaras, estudos e apontamentos para a confecção do Romanceiro

Manuscrito do Autor

 

 

 

Notas:


1 Sandra Cristina de Jesus Boto in As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de 'Edição Crítica' (introdução)

Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

2 Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana in No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro. Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. pp.235-239

3 o blog de Jorge Colaço aqui

4 Colecção Futscher Pereira (CFP), assim designada por Sandra Boto. São também as iniciais de Cristina Futscher Pereira, coincidência feliz.

 

O blog garrettiano de Cristina Futscher Pereira deixou de estar acessível no blogs.sapo.pt


Texto integral de A Moira Encantada aqui

 

Mais neste blog na tag "garrett" 

 

 


31.1.12

 

 

 

 

Sophie Le Berre, Hotel Chelsea, New York c. 1996
Foto: Rita Barros aqui

 

 

Mais sobre o Hotel Chelsea aqui e a notícia do seu encerramento recente aos turistas aqui

 

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26.1.12

 

 

 

António Júdice Bustorff Silva (de pé), Lisboa c. 1950

 

 

 

 

Obituário de The Times,  3 de Janeiro de 1980:

 

The distinguished lawyer, Dr Antonio Judice Bustorff Silva, who died in Lisbon on Dec­ember 17, aged 84, will be affec­tionately remembered by many of the older generation of British entrepreneurs in Portu­gal.

 

He was at one time or another chairman, director or legal adviser of many important British enterprises, including the Tramways of Lisbon and the Telephones of Lisbon and Oporto, both of which until a few years ago were operated by British Concessionary Com­panies.

 

Born in 1895 on the island of Sao Tome, where his father had big plantations, Dr Bustorff, as he was always known, took his law degree at Coimbra Uni­versity. His youth was spent in the turbulent times of the end of the monarchy and the birth of the First Republic. He was an ardent monarchist, and it must have been with a sense of relief that he saw the Generals take over in 1926, after a suc­cession of more than 40 Repub­lican Governments in 16 years.

 

Bustorff was the legal repre­sentative of the Royal Family, and when the Generals called in Dr Salazar (himself a crypto-monarchist) it was in dealing with the affairs of the Royal Family that the friendship and confidence between the two men began and later became of such value to his clients, Portu­guese or foreign.

 

Bustorff was a steadfast admirer of Salazar and his general policies, but he was never a toady and his advice to the Prime Minister, on behalf of his clients, was invariably what he thought to be compat­ible with the interests of the client and of the Portuguese State.

 

One of the most important services rendered by Bustorff to his own country and to the Allied cause during the Second World War concerned the ex­ploitation of uranium. The Portuguese Government was approached by Britain, and Salazar decided that Bustorff would represent the Portuguese Government in the company which was to carry out the work.

 

He was also legal adviser to the British-owned Panasqueira Mines, the largest source of wolfram available to the West and a constant source of dispute between the economic warriors of each side. After the war Bustorff was made honorary CBE, a decoration of which he was immensely proud.

 

A man of enormous energy Bustorff frequently represented Portugal at international con­ferences. He had great devotion to his Church and a true sense of humour. His Germanic name is from a Swiss ancestor who came to Portugal in the 17th century to escape the persecu­tion of Roman Catholics.

 

He spoke several languages fluently but, in his bubbling enthusiasm, not always cor­rectly. «Come and see my Charolais veals», he would say to an English guest at his estate near Setubal, «they are beau­ties". He entertained lavishly and the food and wines were always Portuguese and usually produced by him.

 

The passion of his leisure time was building, especially restoring old houses. He built or restored one for each of his five children and for each pair of his 24 grandchildren.

 

When the Second Republic came in 1974 Bustorff was already virtually retired, but he was summoned to Brazil, where more legal work awaited him and he went in 1975, aged 80. He suffered a stroke there and was brought home. Lucid and able to speak, he struggled bravely for two years, as presi­dent of the Bragança Founda­tion and supervising proper­ties which had not been seques­trated.

 

It can be postulated that the «Blue Monkey» Marques de Soveral, of Edward Vll's time, and Bustorff Silva, were the most steadfast and most influ­ential Portuguese friends of Britain in the 20th century.

 

 

 

Sir Peter Norton-Griffiths

in "The Times"  3 January 1980

 

 

Notas:

 

 

António Júdice Bustorff Silva formou-se em Direito em Lisboa e não em Coimbra como afirma o autor do artigo.

 

 

Foto e perfil do Marquês de Soveral aqui 



 

 

 

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21.1.12

 

 

  

Véra Obolensky, São Petersburgo, 2010

  Foto: Jean-François Blézot

 

 

 

uma entrevista com Véra Obolensky aqui

 

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