23.7.14

 

 

 

 Destroços do voo 17 da Malaysia Airlines próximo de Hrabove, leste da Ucrânia, manhã de 19 de Julho de 2014.

(AP Photo/Evgeniy Maloletka)

 

 

 

 

 

A Cereja no Bolo

 

 

“Primeiro julguei que tivesse sido o Mossad, para distrair a nossa atenção de Gaza” disse a rapariga, sentada de Ipad ao colo. “Mas o que se foi sabendo não dava para isso. Entre russos e ucranianos…”

 

Conversa em Bruxelas, quando não restavam dúvidas quanto à origem do míssil terra-ar que deitara abaixo um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo sobre o leste da Ucrânia. Mas para muitos europeus dos nossos dias, criados no soft power e na correcção política, a maldade de Israel não tem limites e Vladimir Putin até nem é mau de todo, dada “a sobranceria com que os Estados Unidos trataram a Rússia a seguir ao fim da União Soviética”. Santa simplicidade.

 

Nesse fim de semana, em Paris e noutras cidades de França, numerosos manifestantes solidários com o povo da Palestina, enquanto partiam montras e ameaçavam sinagogas, gritavam palavras de ordem antissemitas — “Mort au juif!” — como não se via e ouvia em França já há muitos anos. (Coincidência de datas: o primeiro-ministro presidiu a cerimónia de desagravo comemorativa da concentração de 13.152 judeus, incluindo 5.051 crianças, num velódromo parisiense — o Vel d’Hiv — a 16 e 17 de Julho de 1942 antes de serem despachados para extermínio em Auschwitz). O antissemitismo francês tem tido altos e baixos.

 

Quanto ao avião da Malásia e a Putin, a verdade veio depressa ao de cima. Entre gabarolices e aldrabices, os rufias da República de Donesk, locais ou mercenários russos, deixaram poucas dúvidas sobre a selvajaria da sua proeza, e meios nacionais americanos de observação (NSA, etc.) revelaram com precisão cirúrgica o que se passara. Em muitas capitais do mundo, o patrão do Kremlin, cuja fanfarronice nacionalista inspirara a desordem armada no leste da Ucrânia — e cuja intendência lhe fornecera logística — é visto como corresponsável pela criação de ambiente propício à prática da atrocidade. Na União Europeia, até alemães e italianos concordaram no endurecimento de sanções à Rússia.

 

Quanto a Gaza, o horror de civis mortos e feridos por fogo israelita continua e continua também a incompreensão do que se está a passar. Gaza, com uma das mais altas densidades de população do mundo, é gigantesco e trágico escudo humano da armadilha onde Israel tem caído desde que se retirou do território em 1994. O Hamas dispara de lá todos os dias foguetões sobre Israel e cava túneis para por eles fazer mais ataques. Quando Israel pretende atingir rampas de lançamento ou quer escavacar túneis mata e fere inevitavelmente civis. A tática do Hamas não é original (em 1992, muçulmanos da Bósnia mandavam morteiros contra sérvios de pátios de hospitais) mas a escala desta vez é épica. E, lembrava Marx, alterações quantitativas conduzem a alterações qualitativas.

 

O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, tem agora muito menos apoios no mundo árabe. Mas a direita israelita de hoje está como Abba Eban disse um dia dos árabes: não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:28  comentar

21.7.14

 

Em tempo de Verão regresso aos álbuns de família e colecções privadas que aqui tenho explorado. Sobre este livro de recordações de Alda Rosa, “para os filhos, netos e bisnetos”,  editado em 2011 em apenas 3 exemplares, leia também neste blog o post Festas e Mascaradas.

 

À excepção da fotografia do chalet, as imagens deste post foram encontradas na blogosfera portuguesa. Não encontrei ainda fotografias de fandangueiros, saltimbancos, mulheres dos bolos e banheiros nas praias de Portugal do princípio do século XX. 

 

Agradecimentos especiais a Alda Rosa Bernardo de Sousa, Maria do Rosário Sousa Machado e blogs Restos de ColecçãoTeatro e MarionetasAmérico e Galafanha.  

 

 

 

 

Chalet Alda , S. João do Estoril c. 1900

 

 

No meu tempo de menina, as horas em que se ia à praia eram totalmente diferentes das de hoje. íamos de manhã, e á tarde ficávamos no jardim. Só em dia de pic-nic é que ficávamos na praia até mais tarde. Estes almoços eram de "garfo e faca" e toalha posta na mesa. De casa vinham salada russa e um prato quente trazidos pelas criadas. Os banheiros emprestavam-nos uns banquinhos e umas tábuas que serviam de mesa e as cadeiras eram também deles. Claro que com tanta mordomia estes pic-nics não podiam repetir-se muitas vezes.

 

Mesmo para se comer na praia só havia barquilhos e bolas de Berlim. O homem dos barquilhos apregoava: Barquilheiro!!! Trazia uma lata alta com uma roleta, o comprador fazia girar a roleta que ditava a sorte de comer pelo mesmo preço mais ou menos barquilhos. O homem das bolas de Berlim apregoava: bolas de Berlim, perlim pimpim! Assim andavam pela praia estes vendedores. A senhora Ana dos bolos só apareceu mais tarde...

 

 

 

 

 

 

             
Barquilheiro, Roleta de Barquilhos

 

 

 

 

Para divertir as crianças aparecia o "Fandangueiro". Trazia um pequeno estrado, e fazia o seu número de sapateado (com a música do fandango). Também para nos entreter havia o homem dos cães. Trazia 4 ou 5 cães e com cães fazia o seu número. A um dos cães ele mandava «morrer à moda da China com três cartuchos...!» e o cãozinho deitava-se fingir que tinha morrido.

 

O "Catitinha" aparecia na praia todo vestido de preto pois tinha perdido uma filha. Protegia e gostava de crianças: apertava a mão a cada criança e apitava. Os miúdos corriam para ele, apesar de ser uma figura sinistra, com um grande cabelo branco...

 

Os "Robertos" apareciam com a sua voz de flauta e o número de pancadaria a que nos habituaram. No fim pediam dinheiro pelas "actuações" que tinham feito!

 

 

 

 

Robertos na Foz do Douro, início do século XX

 

 

 

 

Para os banhos de sol os banheiros também forneciam encostos e os toldos eram ao mês. Os banheiros tinham "chatas" que levávamos até fora de pé, para aí tomar banho. Muitas vezes atirávamos água uns aos outros e ali se fazia uma guerra com água, que muito nos divertia. As "chatas" eram cada uma do seu banheiro, e não havia rivalidade, era só brincadeira.

 

Também íamos ao Rádio Clube Português patinar...

 

Com tantos programas, as férias em S. João do Estoril eram muito apreciadas...

 

 

Alda Rosa Bandeira de Lima Osório Bernardo de Sousa

in  Memórias e Saudades

2011

 

 

 

link do postPor VF, às 10:43  comentar

19.7.14

 

 

 

Portugal c. 1930

 

 

Fotografia gentilmente cedida por Luísa Feijó a quem muito agradeço

 

 

 

 

link do postPor VF, às 16:20  comentar

16.7.14

 

 

 

 Gustave Doré

 

 

 

 

Terra Santa

 

 

As coisas vão de mal a pior do lado de Bethlehem, a Belém original onde nasceu Jesus Cristo, sagrada para os três grandes monoteísmos do mundo, agarrados ao mesmo Deus. Apesar – ou por causa – disso o lugar não é pacífico. Há anos, amiga minha que passou o Natal em casa de belenenses, no sossego relativo de entre-duas-intifadas, logo no primeiro serão assustou-se com sirenes de ambulância na praça da Igreja da Natividade, mas o anfitrião disse-lhe para não ligar. “São os coptas e os ortodoxos”, explicou. “Estão sempre à briga. Não se matam mas partem cabeças”.

 

Sem a importância, o renome e os rastos de desgraça de xiitas e sunitas (nos nossos dias só partem cabeças), cada um insiste não só em que Deus há só um mas também que só a sua maneira de O amar é boa: todos os outros cristãos são hereges. Talvez, mas na Europa e nos demais Continentes já muito raramente cristãos partem cabeças uns dos outros por isso. (Falta de fé? Progresso moral?). Quantos aos monoteístas detentores da patente original, séculos de diáspora, de pogrons, de autos de fé, de antissemitismo, culminando na eficácia germânica do Holocausto e a criação de Estado próprio, mal aceite pela vizinhança, ensinaram-nos a defenderem-se primeiro de terceiros. (Embora não haja país com debates sectários mais vibrantes do que Israel).

 

É entre os mais novos da turma, os maometanos, que pendências internas fazem hoje mais estragos. O conflito ente xiitas e sunitas começou logo a seguir à morte de Profeta, no século VII da nossa era e, ao longo da História, teve altos e baixos de importância, segundo peripécias da força de outros poderes. A partir do século XIII o Islão viveu uma “contra-Renascença” que, a arrepio das suas melhores tradições, o afastou do progresso científico e do esclarecimento humanista que triunfaram na Europa. Colonizados por europeus e pelo Império Otomano, os povos do Norte de África e da Arábia viram-se distribuídos por novos estados, delineados por um francês e um inglês a seguir à Guerra de 14-18. O arranjo manteve-se até ao estabelecimento de “Califado” sunita, que rouba terra a Iraque e Síria, e renovadas aspirações curdas de independência. Em 1948, estabelecera-se o Estado de Israel, facilitado por culpa europeia e norte-americana, que expulsou populações. Israel foi bode expiatório para os potentados xiita (Irão) e sunita (Arábia Saudita) e seus vassalos, que içavam perante o mundo a bandeira do sofrimento palestino.

 

Está tudo a mudar. Riade e Teerão temem-se mais um ao outro do que temem Telavive. Os dois abominam o Califado, cuja crueldade consegue ofender padrões locais. A extrema-direita israelita é insuportável mas o Cairo espera ferventemente que Israel destrua o Hamas (compinchas dos seus Irmãos Muçulmanos). Salvo na Tunísia, as Primaveras Árabes acabaram. Vista de Telavive, a Europa é um vasto cemitério. Os EUA de Obama metem pouco respeito.

 

Em Bethlehem, brigas de ortodoxos e coptas continuarão a ser oásis num deserto ardente.

 

 

 

 

Imagem aqui

 

 

link do postPor VF, às 09:22  comentar

9.7.14

 

 

 

 

 

João e o Papa

 

 

“Só quando estiverem cumpridas as condições” respondeu-me João, emigrado a seguir ao 25 de Abril, daí a um par de verões no Algarve, à pergunta voltaste à Pátria? “Salazar no poder, Marcelo Caetano na oposição, Freitas do Amaral na clandestinidade!”. (Para leitoras novas: nesses dias Freitas do Amaral era um político de direita).

 

As pessoas e os pianos pioram com a idade. Não tenho visto o João mas consta-me que a sua visão das desigualdades do mundo se agravou e é hoje igual à da gente do Tea Party nos Estados Unidos (ou da falecida Margaret Thatcher, nos dias em que a fúria contra os sindicatos a cegava): a culpa de haver pobres é dos pobres porque Deus assim quis. É disparate quase tão estúpido quanto a culpa de haver pobres ser dos ricos mas pouco lhe fica atrás. A crise veio açular opiniões extremas de ambos os lados — quando as coisas azedam procura-se inspiração na tradição revolucionária europeia e passa a falar-se do “outro lado da barricada”.

 

Na Europa onde, para quem a imagine do Sudão do Sul, só há ricos, o tempo das vacas gordas — quando se sabia que o dia de amanhã seria melhor do que o dia de hoje tal como o dia de hoje fora melhor do que o dia de ontem — não era tempo propício a invejas nem rancores. Mas campeiam agora no tempo das vacas magras em que entrámos circa 2010 e que entendidos garantem ser para a vida como eram dantes os fatos feitos em bons alfaiates e os automóveis Rolls Royce.

 

A direita pré-industrial e pré-cristã de João e dos Tea-Parties que odeiam os pobres assusta mas a exaltação franciscana da pobreza traz riscos próprios. Bernard Shaw escreveu que o primeiro pecado era ser pobre — se alguém lhe dizia que era inculto porque era pobre estava a desculpar um mal com outro pior, assim como se dissesse: sou coxo mas é da sífilis.

 

O Papa Francisco sente os pobres e quer ajudá-los mais do que fizeram os seus dois últimos predecessores, obcecados por comunismo e por sexo, condenando diferenças abissais entre pobres e ricos que se têm acentuado nos últimos decénios — aumento de desigualdades que, pensa o Papa, pensa gente de outras fés e pensam agnósticos e ateus, está a tornar o mundo mais injusto e mais perigoso. Francisco tem verberado a tirania da autonomia dos mercados e condenado proezas do capitalismo, com carradas de razão. Desde o colapso da União Soviética e o fim da ameaça comunista o capitalismo tomou o freio nos dentes em muitos momentos e lugares causando grande dano a milhões de pessoas e, salvo em raros casos nos Estados Unidos, ninguém foi preso e condenado por isso até agora. Continuou, porém, a ser, como tinha sido antes, o maior diminuidor de pobreza e criador de liberdade jamais inventado desde que o mundo é mundo.

 

Em 1323, um século depois da morte de S. Francisco de Assis, o Papa declarou herético quem pretendesse que Jesus vivera em pobreza absoluta e fez executar alguns franciscanos mais entusiastas. A alma humana é um abismo e estas coisas nunca são simples.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 07:21  comentar

5.7.14

 

 

 

Uma visita do Governador-Geral da Índia Portuguesa Capitão de Fragata José Freitas Ribeiro

em começo de 1918

 

 

Fotografia gentilmente cedida por Laura Castro Caldas a quem muito agradeço

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 18:09  comentar

2.7.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A decadência do Ocidente? A sério, desta vez?

 

 

“Voltei para Genève ontem à noite de Basel. A Suíça alemã é a distopia que nos faz medo. Mas é um proverbial relógio a funcionar… tudo impecável, limpo, a horas e sobretudo reliable!!! Um pesadelo, enfim” — desabafou amigo em viagem. E é esse o padrão a que Berlim nos quer obrigar, como réguas de metro ou cilindros de quilo a aferir no Museu dos Pesos e Medidas. Entre Norte e Sul, os europeus nunca se desentenderam tanto.

 

Bons tempos, quando Helmut Kohl dizia que o Chanceler alemão, antes de falar com o Presidente francês, devia fazer três reverências — porque era sinal de que ainda havia França. E bons tempos, também, quando Jean-François Revel escrevia “o anti-americanismo é o socialismo dos imbecis”. Porque ainda havia socialismo, não para governar a seu gosto mas para meter respeito a capitalistas gananciosos que, uma vez largados em roda livre, ajudaram a cavar o lindo buraco onde estamos. E porque ainda havia Estados Unidos da América a libertarem e policiarem o mundo em vez de se fecharem em copas, entre Tea Party descerebrado e presidente tão cerebral que, por querer sempre ver os dois lados de cada questão, acaba por não ver nenhum e ficar quieto. 8 anos das simplicidades da cabeça de Bush, mais 8 anos das complexidades da cabeça de Obama arriscam-se a virar o Novo Mundo para dentro e deixar os europeus ó tio, ó tio.

 

Grave para nós e para toda a gente. Decência entre governantes e governados e tratamento das mulheres como seres humanos e não como bichos de espécie zoológica inferior, começaram nesta parte do mundo, a que chamamos Ocidente, e daí têm tentado medrar in partibus infidelium. Mas exigem atenção constante porque, como tudo, desaprendem-se depressa quando não são praticados. E a obra está sempre inacabada. Desde o século de Péricles, evocado como berço da democracia, aos sistemas políticos das monarquias do noroeste da Europa, considerados os mais user friendly do mundo de hoje, houve progresso. Na realidade, o lugar onde vivi politicamente mais parecido com a democracia ateniense do século V a.C. era a Africa do Sul do apartheid, com uma diferença a favor desta: as mulheres (se fossem brancas) podiam votar e ser eleitas.

 

Se, europeus e norte-americanos, continuarmos a perder o respeito que o resto do mundo fora ganhando por nós entre o século XVI e a segunda metade do século XX – mesmo que muitas vezes de mau modo, de má fé ou sob coacção — e estando reduzido a caricaturas grotescas como a Coreia do Norte ou Cuba o que sobrou da falência da grande ilusão inventada por Marx e afinada por Lenine, Estaline e Mao-Tse-Tung, a hora é dos gladiadores, dos leigos de todas as fés — e dos fanáticos de cismas do Islão que aliam destreza em tecnologias de ponta a zelo pelas tradições mais sanguinárias dos monoteísmos da Terra Santa.

 

Todo o cuidado é pouco.

 

 

 

 

     

                                                                                                              

 

link do postPor VF, às 06:59  comentar

29.6.14

 

 

A visita do Governador Geral Dr. Jaime Alberto de Castro Morais a Damão, Novembro de 1923

 

Fotografia gentilmente cedida por Laura Castro Caldas a quem muito agradeço

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 11:45  comentar

25.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um murro na mesa das voltas da História

 

 

Amigo meu (e dele) disse-me há dias que José Manuel Barroso deveria ter dado um murro na mesa para impedir o descalabro causado pelas políticas europeias de austeridade. A imagem é tentadora para quem ache, como nós, que Barroso vale muito mais do que poderá às vezes ter parecido ao longo da crise — e que o ramalhete de medidas que dá pelo nome de austeridade, em vez de tirar a Europa do buraco onde o carro-adiante -dos- bois dos apóstolos da moeda única a metera, a afundou ainda mais. (Só evangelistas de Goldman Sachs e nem todos — Mario Draghi, por exemplo, escapou ao sortilégio — acham que tudo vai pelo melhor, pelo melhor dos caminhos possíveis).

 

Infelizmente, se num momento de insensatez Barroso tivesse dado tal murro na mesa, além de provavelmente ter partido o punho não haveria mudado de um grau o rumo decidido pelos governos nacionais que são os patrões da União Europeia. A austeridade, nos termos em que foi concebida e aplicada a seguir à descoberta do estado calamitoso das contas gregas, correspondeu à vontade da Alemanha (que entrançou defesa dos seus próprios bancos com pregação de cruzada calvinista) e nenhum outro estado da União se lhe opôs. (A maioria dos governos era de centro-direita mas havia-os também de centro-esquerda). O que Barroso fez, com determinação e eficácia, foi pôr os meios e poderes de que a Comissão dispõe a trabalharem para ajuda dos países da eurozona que tinham de se entender sobre medidas comuns necessárias à salvação do euro e à  imunização deste a crises futuras semelhantes. Sem descurar o mercado interno, de todos. Não houve um dia de folga, um segundo de distracção e os resultados estão à vista.

 

Em tudo há modas; de vez em quando visionários encalham na realidade e a moda muda. Há três anos, quando se descobriu que havia erros fatais no estudo (de dois professores de Harvard) que inspirara os aiatolas da austeridade, o edifício estremeceu e já teria caído sem a teimosia prepotente da Alemanha. Barroso lembrou então que há limites políticos e sociais ao que teóricos advoguem e que sem solidariedade não haveria União Europeia; Berlim agastou-se (vários eurocratas também). Mas o pêndulo começara a ir em sentido inverso e assim continuará por algum tempo. Traduzido para inglês, o economista francês Thomas Piketty, focando a atenção na desigualdade, está a ser ouvido em lugares inesperados. Um condottiere chamado Matteo Renzi começa a meter respeito à Alemanha. O Papa jesuíta virou franciscano. A Europa está a mudar.

 

Mas quem sabe o futuro? Escrevo a uma légua da planura de Waterloo onde, fez na quarta-feira passada 199 anos, um projecto de união europeia capotou, desterrando o tenente corso que se guindara a Imperador para o exílio de Santa Helena. O lugar está sempre cheio de peregrinos, desde generais russos a freiras sicilianas. Tabuletas de restaurantes, inscrições em monumentos, sinais de estrada prestam homenagem a Napoleão Bonaparte.   

 

   

 

Imagem aqui

 

 

 

link do postPor VF, às 08:10  comentar

22.6.14

 

 

Panorama, Revista de Arte e Turismo (1948)
Ilustração de Eduardo Anahory

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 12:32  comentar

18.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem rei nem roque

 

 

Senhor antigo, dos verões de Sintra, indignava-se com a maneira como nos vestiam: “Filho meu, aos quinze anos, calça comprida, chapéu e gravata!”

 

Lembrei-me dele por causa da sucessão do meu amigo Zé Manel na Comissão de Bruxelas. Como está hoje quase esquecido, a União Europeia foi inventada para acabar de vez com guerras entre alemães e franceses que fizeram milhões de mortos. Tarefa difícil porque a guerra está-nos na massa do sangue (21 anos depois do “Nunca Mais!” jurado a seguir à Primeira Guerra Mundial, começou entusiasticamente a Segunda) mas facilitada em 1945 por duas razões. A Alemanha, rendida sem condições e dividida, deixaria por muitos anos de poder apoquentar fosse quem fosse. E terror salutar de Estaline fazia europeus ocidentais entenderem-se como nunca se tinham entendido antes (nem depois: se não houvesse União Europeia não a teríamos inventado agora). Plano Marshall e guarda-sol nuclear ajudavam a firmar a construção; Washington nessa altura sabia o que queria.

 

De caminho, criou-se o Parlamento Europeu que, desde 1979, passou a ser eleito por sufrágio universal. O que se passou a seguir não tem pés nem cabeça. Como, de 5 em 5 anos, a percentagem de votantes nele ia descendo sempre, os governos nacionais — eleitos, esses sim, com participações significativas de votantes — outorgavam-lhe cada vez mais poderes, na esperança de ganharem eleitores. Mas 9 eleições em 45 anos só os foram perdendo. E, por fim, o paradoxo deu nó-cego. O Parlamento — de calça comprida, chapéu e gravata como os crescidos — alegando, de má-fé, mais legitimidade democrática do que os governos, arroga-se o direito de designar o novo presidente da Comissão. Muitos governos, desta vez cheios de bom senso, não irão nisso. O ambiente é de cortar à faca. A decisão final será de Ângela Merkel (as coisas são o que são: o domínio da Europa que Berlim não ganhou em 11 anos de duas guerras mundiais conquistou-o desde a reunificação em 15 anos de paz). Se ela pender para os governos o Parlamento chumbará o candidato e abrirá crise constitucional que durará muito tempo. Se pender para o Parlamento não haverá crise constitucional mas o crédito das instituições europeias nos mundos dos negócios e da política levará rombo irreparável (sem falar da provável saída do Reino Unido, privando-nos da sua sensatez e deixando-nos à mercê de rigidezes alemãs e fantasias francesas).

 

Briga de comadres num canto do mundo apostado em perder o poder que ainda tenha? Talvez. Mas tudo seria menos grave se os Estados Unidos continuassem convencidos de que a sua hegemonia era boa, não só para americanos e seus amigos mas também para o mundo em geral. Duas presidências catastróficas seguidas talvez levem os yankees a recolherem a penates — embora separações assim sejam como divórcios quando há filhos pequenos. Certas obrigações perduram, diz-me amiga perspicaz que a vida moderna doutorou em fraldas antes de doutorar em filosofia. Deus a ouça.

 

 

 

   

  

link do postPor VF, às 09:52  comentar

11.6.14

 

 

Yalta, 1945

A Crimeia era a sala de visitas do Kremlin

 

 

 

 

 

 

Olivença sur mer?

 

 

Pedro Monjardino (pai do João e do Carlos) era homem sábio que usava regras simples para primeira abordagem de problemas complicados. Por exemplo, quando no hospital, no consultório, na clínica, alguém espavorido o avisava “Ai Senhor Doutor vem aí um maluco!”, Pedro que era alto e forte, pegava numa cadeira, levantava-a no braço direito e esperava. Das vezes que tal aconteceu, o tresloucado acalmou e deixou-se levar a bem.

 

O Ocidente – a que os alemães ainda pertencem – embora mais lento e menos decidido do que o meu chorado Pedro, conseguiu fazer o homem do Kremlin vislumbrar a bordoada que levaria se não ganhasse juízo. De há semanas para cá Putin começou a emendar a mão; as relações entre Kiev e Moscovo irão melhorar — Países Bálticos e Moldova darão suspiros de alívio — porque entendimento entre os dois é inevitável (e benéfico quer para eles, quer para nós). Mas levará o seu tempo porque ambos vêm de muito longe. Ministro ucraniano explicou-me um dia: “Na universidade estudávamos materialismo dialéctico, marxismo-leninismo, planificação económica, história dos regimes comunistas, Marx, Engels, Lenine, em suma, sabíamos tudo sobre como transformar um regime capitalista num regime comunista. Mas não sabíamos nada sobre o contrário”.

 

Não se irá, porém, a caminho de paz perpétua de Kant enquanto durar a ocupação da Crimeia pela Rússia. Nem é sarilho fácil de resolver. Por um lado, com desplante pré-moderno, a Rússia quebrou compromissos internacionais solenes que tinha assumido quando da independência da Ucrânia após o colapso da União Soviética e a comunidade internacional não pode senão condená-la. Foi golpe dado à legalidade nas relações entre estados que se procura promover desde a fundação das Nações Unidas — com ânimo novo depois do colapso da União Soviética — para bem de toda a gente e de todos os países. Por outro lado, a vasta maioria dos habitantes da Crimeia (salvo cerca de 10%, tátaros que Estaline perseguiu, deportou e entretanto voltaram) sente-se russa. A Crimeia faz parte do imaginário da Mãe Rússia. Não lhes passará pela cabeça voltar à Ucrânia.

 

A Crimeia não fora conquistada pela Ucrânia, fora-lhe oferecida pela Rússia em 1954 e houve casos no mundo mais ou menos comparáveis, como Macau. Quando Robin Cook disse a Madeleine Allbright que os advogados dele pensavam que o bombardeamento da Sérvia em 1999 era ilegal ela respondeu-lhe que arranjasse outros advogados. Assim, na Crimeia, se Putin indemnizasse pelos estragos e não se tornasse a portar mal (dois grandes ses), dever-se-ia encontrar saída airosa para a crise: talvez outro Krutschef ucraniano pudesse oferecer agora a Crimeia à Rússia, recebendo parte da sua riqueza energética em contrapartida. Talvez advogados pudessem negociar arranjo viável que salvasse faces e enchesse bolsos.

 

A Crimeia é grande e rica demais para ficar num limbo, espécie de Olivença à beira do Mar Negro, de que Moscovo e Kiev pudessem fingir que se esqueciam.

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 06:40  comentar

10.6.14

 

 

10 de Junho: dia de Portugal — dia de São Camões ... Depois de muitos anos e de alguns regimes que trou­xeram cambiantes ao calendário cívico e suas combi­nações com o litúrgico, a Nação canonizou civicamente o seu épico fixando no dia da sua morte o da comuni­dade nacional. Por acaso, três dias antes do dia onomás­tico de António, o santo português por excelência, paralelamente tornado dia festivo de Lisboa, embora superado no calendário municipal pelo do mártir Vicente e seus corvos domésticos.

 

Porquê a data da morte do poeta piedosamente embrulhado num lençol de esmola, diz a lenda? Porque é a única data certa do seu bilhete de identidade, tão falho de dados firmes como abundante em desgraças e aventuras. Isto significa simbolicamente que uma glória a tal nível se paga a preço de sangue. O fanal humano de um povo tira a sua luz das cinzas de quem o encarnou: Que não é prémio vil ser conhecido, etc.

 

Mas, apesar de tudo, Camões não é uma glória popular. Ou, se o chega a ser, é indirectamente. O povo, sem acesso ao estilo grandíloquo e corrente de Os Lusíadas, só reteve o perfil sofredor e aventureiro do autor. Teve de o assimilar à escala dos seus heróis de terreiro,  dos que  com  ele  compartilham a  sorte mofina e a existência bulhenta em feiras e procissões. Por isso o verdadeiro altar cívico de Camões, embora nem de longe florido como o altar de Santo António nas escadinhas da Alfama, é o tabuleiro de faianças em que verdeja o busto de barro do épico, barbado e de pálpebra descida. Em vez do resplendor dos santos — a coroa de loiros dos poetas.

 

A ingénua, terrível profanação vai mesmo muito mais longe. Tenho diante de mim, sempre que escrevo, uma caneca de loiça — a verde, branco e castanho—, uma caneca de vinho que em vez de um frade glutão representa Camões naquele preparo. Bigode e barba parecem acabados de cofiar, nos ritos do beber das tabernas. Oferta que devo a António Duarte, que se documenta no povo para esculpir os nossos maiores com verdade e com força.

 

Mas a irreverência resulta afinal num símbolo profundo e ousado. O oleiro imaginário converte o cantor de Baco em Baco mesmo. Camões, soldado de África,  náufrago na China, com uma pobre mulher indígena por amparo, tendo acutilado um homem dos arreios do Paço numa procissão da Corte e sido por ele perdoado (como fazem os pobres uns aos outros nas suas fáceis brigas);  Camões, que Diogo do Couto conheceu «vivendo de amigos» na ilha de Moçambique, como tanto inadaptado a repatriar de esmola — acaba naturalmente em caraça de caneca ao alcance de fei­rantes e turistas.

 

[...] Promovendo Camões ao absoluto biográfico da encarnação dos seus valores, o povo português como que oculta a si mesmo uma culpa ancestral. O que nos contemporâneos do poeta foi displicência ou incúria, fraca atenção a uma luz que tentava fazer de nós farol do Mundo, tornou-se, na posterioridade, um zelo repentino em sublimar o homem tratado pessoalmente como mesquinho. É certo que ele mesmo se requintou numa conduta precária, ele mesmo desdenhou o bom comportamento: Erros meus, má fortuna, amor ardente / Em minha perdição se conjugaram. A alquimia da grandeza humana por representação pessoal da grandeza de todos tem esse preço de sangue.

 

No fim de contas o que é, que significa Camões?

 

Pois é o «lugar onde» da consciência de missão de um povo à porta dos Tempos Modernos, criador de cami­nhos, de universalidade, de comunhão humana à escala do Globo Mundo, como diz Fernando Pessoa. Através de um programa de interesses e estímulos materiais, de «dilatação de império»? Sem dúvida. E como não? Deus escreve direito por linhas tortas, diz-se. O «direito», o justo, o generoso da humanização pelo enlace dos conti­nentes estanques durante milénios, fechados historica­mente em si mesmos, sem trato nem troca, teve de passar por algumas vias duras. São as «linhas tortas» da história. Descrevê-las, endireitá-las na boa intenção que tudo justifica e resgata, fazer do farol de Santelmo a pequena luz moral que prevalecerá no fim — foi o segredo  de Camões.  Na voz de Os Lusíadas tudo é «sublime», «sublimado», «excelente», «supremo». As estâncias do poema são uma oficina verbal de transfor­mações prodigiosas. Mas os sofrimentos do poeta, que andou nas toldas dos navios como os seus heróis do mar, autentica-as. Sendo sábias demais, o povo povinho mal as sente. Mas adopta o poeta quase cego, pobre como ele mesmo, e basta. E até quando traz a sua triste verónica a uma caneca de vinho o venera a seu modo.

 

[11.6.1971]

 

Vitorino Nemésio

in  Jornal do Observador

© Editorial Verbo e Vitorino Nemésio, 1974

 

 

 

 


6.6.14

 

 

  1942-2014

 

 

 

Agora que a poeira começa a assentar sobre o desaparecimento de Vasco Graça Moura, sobre tudo o que se tem dito e escrito acerca desta personalidade, há duas ou três coisas que apetece remoer.

 

Ao amplo e merecido consenso público que em volta desta figura maior da cultura portuguesa se suscitou, num primeiro momento justificado pela óbvia proximidade da sua morte, sucederam-se as declarações, os artigos, as crónicas, os comentários de louvor póstumo. E foi aí que começaram a aparecer as frases condicionais e as conjunções adversativas. Os ses e os mas.

 

Um sortido rico de colunistas encartados tratou de vir a terreiro tirar o chapéu, que decerto não usa, e curvar-se em vénias de amplitude igualmente variada.

 

Mas, porém, contudo, todavia, no entanto, não obstante.

 

Uma grande figura apesar de não ser de esquerda. Incompreensível.

 

E essa incompreensão é já uma reticência, uma sombra, uma prevenção. Uma nódoa na iminência de alastrar.

 

Pior do que isso, alguns vieram ensinar às crianças e ao povo que o homem foi realmente uma grande figura, muito embora dado ao exagero. Veja-se o que defendeu em política. Veja-se esta coisa do acordo ortográfico. Fúria demasiado grande e sonorosa para assunto tão pouco merecedor. Se era razão para tanto empolamento. Uma vocação de cavaleiro andante perdida em damas de pouca categoria. Mas, claro, isso não tira que foi uma figura importante, então não, poeta e etecetera.

 

Irra!

 

A menorização deliberada da intervenção pública de VGM, quer na vertente da acção política, quer sobretudo na oposição ao acordo ortográfico, é um mau serviço prestado à memória do escritor.

 

Mau serviço porque em ambos os casos, VGM colocou empenhamento e seriedade no que apoiou e no que contrariou. E essas suas posições, ainda que por vezes conjunturais, esses seus combates, são parte inalienável do seu legado intelectual.

 

A desvalorização da questão do acordo ortográfico como questiúncula irrelevante, como caturrice contrária aos ventos da História e do Progresso, e até como toleima, é um «branqueamento» da sua natureza eminentemente política, e não linguística, e significa o triunfo — mais um — do novo-riquismo nonchalant, que se crê muito moderno e se supõe terrivelmente sofisticado.

 

Como queria, e cria, o escritor, jornalista e panfletário austríaco, Karl Kraus, talvez seja mesmo verdade que a decadência dos povos se evidencie em primeiro lugar no descaso da língua: nos seus usos, abusos e desusos. João de Araújo Correia, escritor menos obscuro do que muitos que por aí se pavoneiam, escreveu: «Sim, o povo é que faz as línguas. Mas quem as desfaz é a canalha». E, por isso, a resistência, porventura vã, de Vasco Graça Moura ganha um significado maior, político e cultural. Resistência, cuja derradeira linha de defesa é a sua própria obra poética, romanesca e ensaística que brota de amor ciente e paciente por esta tão desconsiderada língua — «no teu próprio país te contaminas/ e é dele essa miséria que te roça./ mas com o que te resta me iluminas».

 

 

Jorge Colaço

 

 

 

 

Nota:

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Conteúdos em Português e Retentiva. Sinto-me honrada e feliz pelo facto de ter escolhido publicar este texto aqui.

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 12:31  comentar

4.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

E agora, José?

 

 

Verso de Carlos Drummond de Andrade, que às vezes me vem à cabeça depois de chatices. Desta vez, das eleições europeias. Conhecido meu de Oxford receia que historiadores futuros lhes chamem o toque de alvorada que não acordou a Europa (“wake up call” poder-se-ia traduzir por “campainha de despertador” mas seria pouco solene e muito individualista). A avaliar por recriminações, hesitações e ausência de decisões dos chefes europeus reunidos em Bruxelas a 27 de Maio, dois dias depois da divulgação dos resultados, o receio do homem de Oxford é capaz de ser fundado.

 

Ou talvez não seja. Com história 30 vezes mais curta do que a da Santa Sé, o “processo europeu” começa a assemelhar-se-lhe na capacidade de resistir quer a golpes dados de fora — por exemplo, a agressividade russa na sua vizinhança próxima e no fornecimento de energia — quer a golpes dados de dentro — por exemplo, ‘não’ em referendos na Holanda e na França em 2005; instauração precipitada da moeda única e, a partir de 2010, uso moralista e contraproducente de austeridade para acudir ao estrago daí resultante. Palpita-me que a minoria eurofóbica agora instalada em Estrasburgo, com brigas internas e propostas de medidas nocivas para os países, não será, por definição, cavalo de Troia, e dará mais incómodo do que prejuízo.

 

Mas exame de consciência ou autocrítica ou catarse de quem dirige a Europa política (28 governações de potências pequenas e médias, três das quais infelizmente convencidas de que ainda são grandes, mais a intendência semi-politizada de Bruxelas) é urgente. Desde que o colapso da União Soviética lhes tirou dos ossos o medo de Deus e, do mesmo passo, a Alemanha geopolítica ressuscitou, reunificada, têm dado muito má conta do recado. O voto populista de Maio, à direita e à esquerda, meteu-lhes um susto mas — tal como, na primavera de 1914, os governantes das grandes potências europeias julgavam que, saídos em paz de várias crises graves na última década, dessa vez também não haveria de ser nada — arriscam-se a não fazer o preciso, já e bem.

 

Nós, os da União, somos 7% da população mundial e criamos 25% da riqueza. Mercado de 500 milhões de habitantes, com comércio externo florescente, ditamos também ao resto do mundo as regras de concorrência. E procuramos fortalecer-nos mais ainda, metendo economia digital e energia no mercado interno. O futuro deveria ser nosso.

 

Mas o gigante económico é anão político, cheio de desentendimentos, sem uma voz única para o exterior. Quanto a defesa, se fossemos atacados e ninguém nos acudisse ou nos rendíamos logo ou nos matavam todos num Credo.

 

Não apareceu ainda quem desse o tom certo. Merkel é sinónimo de austeridade. Cameron quer tanto agradar aos seus que não se dá ao respeito. Hollande, nem os seus o querem. Renzi? E, antes de escolherem o novo feitor, deveriam explicar o que cada um de nós perderia sem o poder económico da União e o que ganharia se visionários da Europa ideal metessem a viola no saco.

 

 

link do postPor VF, às 10:06  comentar

28.5.14

 

 

 

 Soldados alemães encaminhando judeus para a morte, 1943

 

 

 

 

 

Antissemitismo

 

 

Sábado passado, um casal israelita, uma senhora francesa e um rapaz belga foram assassinados a tiro de kalashnikov no átrio do Museu Judeu de Bruxelas; o assassino e cúmplice que lá o levara sumiram-se de automóvel. No mesmo dia, à saída da sinagoga de Créteil, perto de Paris, dois irmãos judeus ortodoxos foram brutalmente sovados. Ataques físicos a judeus estão a aumentar na Europa desde há três anos. Tinham sido precedidos por anos de ataques verbais em panfletos, espectáculos e intervenções de um ou outro político.

 

O antissemitismo é uma das culpas pesadas da história da Europa: pogroms  na Rússia e na Europa Oriental a partir do século XIII; a Inquisição, expulsões e opressão de cristãos-novos em Portugal e em Espanha, do século XV ao liberalismo; em toda a parte menoridade cívica a que só a Revolução Francesa pôs cobro; nos anos 30 do século XX e durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler e o extermínio dos judeus, praticado na Alemanha nazi e em países por esta ocupada (crueldade inaudita na Roménia; zelo burocrático inexcedível nos Países Baixos). Depois do fim da guerra, dos julgamentos de Nuremberga, da criação de Israel, da definição de genocídio como crime contra a humanidade, o antissemitismo deixou de vigorar como norma ou costume aceitável em países europeus mas não foi completamente extirpado, continua lá, dormente ou, sobretudo à esquerda, metamorfoseado em oposição à acção — quando não à própria existência — do estado de Israel.

 

É difícil de extirpar por uma razão simples: aquilo que condenamos hoje por antissemitismo era a maneira habitual de tratar os judeus em toda a cristandade. E quando, a pretexto de defender interesses e direitos dos palestinos, gente protesta contra Israel e os sionistas, fá-lo muitas vezes recorrendo a mentiras inventadas pela polícia secreta do Czar Nicolau II, compiladas no chamado (e apócrifo) Protocolo dos Sábios do Sião, de que Hitler se serviu para convencer os seus compatriotas da existência de uma conspiração judaica que queria tomar o comando económico do mundo. As televisões dos países árabes — mesmo do Egipto e da Jordânia que reconhecem Israel — estão cheias de telenovelas que atribuem aos judeus esse propósito (e propósitos piores, como o rapto de crianças árabes para lhes beber o sangue). Em muita escola da região, o Estado de Israel não consta dos mapas. A opinião pública é sistematicamente alimentada por mentiras que impeçam ambiente propício à solução política do problema israelo-palestino. E a Europa vai pagando.

 

O antissemitismo europeu é mais subtil. Por exemplo, evoca o Muro de Berlim (que impedia alemães de Leste de fugirem do estado policial onde viviam) a propósito do muro que Israel constrói à sua volta (para impedir que terroristas lá venham assassinar homens, mulheres e crianças).

                

Austeridade, erradamente aplicada para tentar debelar a crise, faz vir à tona os nossos demónios. Vamos levar tempo a metê-los outra vez no fundo.

 

 

Imagem aqui    

 

 

link do postPor VF, às 09:37  comentar

21.5.14

 

 

 

Anúncio do cognac feito pela família de Jean Monnet, inventor da Europa moderna

 

 

 

 

 

Votos, omeletes e ovos cozidos

 

 

De Gaulle menosprezava a construção europeia: as nações eram ovos cozidos e com ovos cozidos não se faziam omeletes.

 

Salvador da França juntamente com os comunistas contra o governo de Vichy, tratando depois da vitória a Alemanha de Bona com magnanimidade (gostava tanto da Alemanha que dizia preferir que houvesse duas), deixou o poder sobre quezílias da paz em 1946, atravessou o deserto em Colombey-les-Deux-Églises de onde o foram buscar em 1958 para presidir à República e salvar segunda vez a Pátria. Em 1969 voltou para Colombey e, morrendo a fazer uma paciência de cartas em 1970, foi poupado à reunificação alemã.

 

Quando Mitterand, inquilino do Eliseu da altura, se deu conta do risco desta já não havia nada a fazer – no Kremlin, Gorbachev fora persuadido por um Kohl determinado como Bismark e pródigo como o Emir do Qatar; de Washington, Bush pai forçara a mão a Londres e Paris. Chirac, sucessor de Mitterand, percebera que tinha acabado a papa doce e começara tentativas de reintegração da França na estrutura militar da OTAN que Sarkozy finalizaria enquanto, colando-se a Angela Merkel, fingia que ainda mandava na Europa. François Hollande tentou entrada de leão mas terá saída de sendeiro.

 

A União que vai a votos esta semana para o Parlamento Europeu não é a do tratado de Maastricht. Não por termos passado de 12 a 28 países mas por duas outras razões. A União Soviética colapsou e acabou o medo dela que unia o Ocidente (Putin é incómodo mas não mete medo comparável porque, por um lado, não prega ideologia subversiva e, por outro, conta com quinta coluna de industriais alemães, banqueiros ingleses e vendedores de armamento franceses ao pé dos quais os partidos comunistas mais estalinistas do Ocidente durante a Guerra Fria eram brincadeiras de criança). E à nossa Alemanha Ocidental com a capital em Bona, discreta para se fazer perdoar pelo Holocausto e mais crimes, sucedeu país da Europa Central com capital em Berlim que retomou alento, herdou tiques geoestratégicos (do reconhecimento da Croácia em 1992 até ao moralismo luterano/calvinista com que sufocou os países do Sul 20 anos depois), manda mais na União do que qualquer outro mas continua uma democracia exemplar.

 

Hoje, em autocarros de Bruxelas, anúncios exortam-nos a votar para escolher “o governo da Europa”. É propaganda mentirosa (o governo da Europa está nas capitais dos países e não nas instituições de Bruxelas) mas não é só propaganda. Na selva da globalização nós, os europeus, só nos safaremos unidos. E contra nacionalismos populistas a União só terá força se os povos sentirem que precisam dela. O caminho passa também pelo Parlamento Europeu por pouco votado, frívolo, irresponsável e distante que nos pareça hoje.

 

Perante concorrência desenfreada e impiedosa do resto do Mundo está-se a descobrir que os ovos afinal talvez não estivessem tão cozidos como isso tudo. A omelete não será baveuse mas, se não a quisermos comer, morreremos de fome.

 

 

 

 


18.5.14

 

 

  Alix de Saint-André

 

La puerta se abre a todos,

enfermos y sanos

no sólo a católicos,

sino aun a paganos, a judíos, herejes,

ociosos y vanos;

y más brevemente, a buenos y profanos.

 

                                                     Poema del siglo XIII

 

 

 

On peut se croiser, mais on n'habite plus dans le même monde que les automobilistes. Pendant qu'on tournicote sans fin sur nos sentiers, de village en village, ils foncent tout droit d'une ville à l'autre. Si j'avais voulu ne pas me perdre et gagner du temps, j'aurais pu aussi longer les routes nationales. Il y en a toujours une pas loin, les panneaux sont sans mystère, cela va plus vite et c'est plus court. Mais le raccourci se paye cher: on s'explose les articulations et les pieds à marcher sur la chaussée, on respire le parfum des pots d'échappement, et l'on passe à côté de l'essentiel. Des lieux et des gens. Le chemin n'est pas fait pour aller vite d'un point A à un point B, il est fait pour se perdre, et perdre du temps.  Ou prendre  son  temps,  si l'on veut. Retrouver un monde à taille humaine et ses humains habitants. Ses animaux et ses végétaux. Chaque nouvelle erreur est une nouvelle ren­contre, chaque pas sur un sentier en creuse davantage l'existence sur la croûte terrestre, et l'on zigzague autour de la modernité à quatre kilomètres à l'heure. A la vitesse (si l'on peut dire!) du pas humain. Dans un autre espace-temps.

 

Le chemin nous fait vivre dans un monde parallèle. A la fois tout près des villes, et au milieu de nulle part. Un monde de petits sen­tiers et de hameaux qui festonne les grandes routes. Un monde de maisons d'hôtes et de gîtes ruraux, où évolue aussi une population paral­lèle, qui a plaisir à être là où elle est. A vous montrer combien c'est beau chez elle. Et qu'il n'y a rien de meilleur que sa cuisine... Car si le chemin ne pousse pas au mysticisme, il ne passe pas davantage par l'ascèse, Dieu merci! Jésus a commencé sa carrière miraculeuse en changeant l'eau en vin aux noces de Cana. Et non seule­ment sa mère était là, mais c'est elle qui l'y a poussé... L'avantage parfois douloureux de redé­couvrir la faim et la soif donne aussi l'occasion de se mettre à table chaque fois avec grand appétit, et sans aucun souci de régime : un vrai miracle!

 

Alix de Saint-André

in  En avant, route!

©Éditions Gallimard, 2010

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 17:51  comentar

14.5.14

 

 

 

Domingo Ortega

 

 

 

 

 

 

O saber dos antigos

 

 

“Os velhos mestres estabeleceram as regras” lembrou o professor, irritado com modernices do caloiro. “Quando eram novos” disparou o caloiro e pensou com os seus botões: Game, set and match. Era numa escola de belas-artes de Londres, passou-se há mais de meio século e o professor já era anacrónico.

 

Nas artes plásticas, a boa-vai-ela tinha começado em França, com “O Salão dos Recusados” dos impressionistas em 1863. Pintura, escultura, desenho não pararam desde aí de viver em sobressalto; arquitectura e artes decorativas entraram também na voragem (incluindo a fantasia de Gaudi em Barcelona, inimitável à época porque em Paris ou Londres ou Berlim a mão de obra era muito mais cara do que na Catalunha). Na música e artes conexas, na literatura, o vendaval começara um pouco mais tarde mas o vento também não caiu ainda.

 

Antes, tudo fora diferente. Numa conferência pronunciada no Ateneo de Madrid, em 1950, sob o título “El Arte del Toreo” (desculpando-se por ter ousado saltar de espontâneo para arena tão sábia) o grande matador Domingo Ortega definiu génio como a acção de uma personalidade excepcional dentro de normas que são eternas. Desde o começo do toureio a pé – prática plebeia libertada no século XVIII do toureio equestre dos fidalgos – segundo Ortega, as normas da arte eram quatro: parar, templar, cargar y mandar. E dizem-me que continuam a sê-lo nos nossos dias. (Ao contrário do que acontece noutras artes, em tauromaquia há limites impostos pela realidade ao sucesso, até à própria viabilidade do experimentalismo. Como lembrou Jacques Lacan num momento raro de lucidez: “Le réel c’est quando on se cogne”).

 

O que aconteceu às artes aconteceu à educação. Durante milénios educar crianças consistia em tentar fazer com que os filhos ficassem iguais aos pais e as filhas iguais às mães. Na Europa e nos Estados Unidos da América, a revolução industrial inglesa e a revolução política francesa acabaram com essa simplicidade. A complexidade que lhe sucedeu e a pouco-e-pouco se espalhou por todo o mundo foi-se tornando mais variada, alargando-se agora às virtualidades do mundo digital. Toca a todos, premeia algumas originalidades e quando a Áustria, que perdeu o império na Primeira Guerra Mundial e os judeus na Segunda — isto é, que ficou sem corpo nem alma — se reencontra num transsexual com voz de soprano e barba de Capitão Haddock, talvez “normas eternas” tenham ido parar às urtigas — ou talvez os austríacos estejam enfim em paz uns com os outros e com o mundo.

 

Mas aprendi muito com a velhice: com a dos outros, em novo, mais do que com a minha, agora. Até coisas práticas. Quando o PREC nacionalizou Pancada & Moraes e o meu chorado Albaninho Costa Lobo levou grande rombo financeiro não lhe ouvi queixas mas notei uma mudança sensata. Antes de almoço no Belcanto passou a mandar pôr no copo whisky Red Label e não, como antes, Black Label (quer um quer outro com água lisa natural). Talvez gente nova não fosse tão avisada.

 

 

 

Imagem: aqui

 

 

link do postPor VF, às 10:05  comentar

10.5.14

 

 

 Julian Barnes

 

 

First Nietzsche, then Nadar. God is dead, and no longer there to see us. So we must see us. And Nadar gave us the distance, the height, to do so. He gave us Gods distance, the Gods-eye view. And where it ended (for the moment) was with Earthrise and those photographs taken from lunar orbit, in which our planet looks more or less like any other planet (except to an astronomer): silent, revolving, beautiful, dead, irrelevant. Which may have been how God saw us, and why He absented himself. Of course I don't believe in the Absenting God, but such a story makes a nice pattern.

 

When we killed — or exiled — God, we also killed ourselves. Did we notice that sufficiently at the time? No God, no afterlife, no us. We were right to kill Him, of course, this long-standing imaginary friend of ours. And we weren't going to get an afterlife anyway. But we sawed off the branch we were sitting on. And the view from there, from that height — even if it was only the illusion of a view wasn't so bad.

 

We have lost God's height, and gained Nadar's; but we have also lost depth. Once, a long time ago, we could go down into the Underworld, where the dead still lived. Now, that metaphor is lost to us, and we can only go down literally: potholing, drilling for minerals, and so on. Instead of the Underworld, the Underground. Some of us will go down into the earth at the end of it all. Not very far, just six feet down; except that the scale of depth is lost as you stand there and throw flowers down on to a coffin lid, whose brass nameplate winks back at you. Then, it looks and feels a long way down, six feet.

 

 

Julian Barnes

in Levels of Life

Jonathan Cape 2013

© Julian Barnes

 

*

 

 

 

Primeiro Nietzsche, depois Nadar. Deus morreu e já não está lá a ver-nos. Por isso temos nós de nos ver. E Nadar deu-nos a distância, a altitude para o fazermos. Deu-nos a distância de Deus, a visão do olhar de Deus. E onde chegou (até agora) foi ao Nascer da Terra e àque­las fotografias tiradas da órbita lunar, nas quais o nosso planeta parece praticamente igual a outro planeta qual­quer (exceto para um astrónomo): silencioso, rotativo, lindo, morto, irrelevante. Que pode ter sido como Deus nos viu e a razão pela qual se ausentou. E claro que não acredito no Deus Ausente, mas uma história assim é um belo paradigma.

 

Quando matámos (ou exilámos) Deus, matámo-nos também. Demos realmente por isso, na altura? Nem Deus, nem vida depois da morte, nem nós. Fizemos bem em matá-lo, é claro, ao nosso amigo imaginário de longa data. Também não íamos ter vida nenhuma depois da morte. Mas serrámos o ramo onde estávamos sentados. E a vista de lá, daquela altura — ainda que fosse uma vis­ta ilusória — não era assim tão má.

 

Perdemos a altitude de Deus e ganhámos a de Na­dar; mas também perdemos profundidade. Outrora, há muito tempo, podíamos descer ao Submundo, onde os mortos continuavam a viver. Hoje, para nós, essa metá­fora perdeu-se e só podemos descer literalmente: espe­leologia, extração de minério e assim por diante. Em vez do Submundo, o Metropolitano. Alguns de nós des­cem à terra, quando tudo acaba. Não é muito, só um me­tro e tal; mas a escala de profundidade perde-se, quando estamos ali de pé a atirar flores lá para baixo, para a tampa de um caixão, e o nome na placa de latão nos res­ponde com um piscar de olho. Então parece-nos e senti­mos que é muito fundo, um metro e tal.

 

 

Julian Barnes

in Os Níveis da Vida

© 2013 Quetzal Editores/ Julian Barnes

 

tradução de Helena Cardoso

 

 

 

 

link do postPor VF, às 12:03  comentar

7.5.14

 

 

 

 Jardim-Escola João de Deus aqui

 

 

 

 

 

Óleo de fígado de bacalhau

 

 

História de crianças de que me lembro às vezes, quando vem a propósito. Talvez seja o caso agora — ou talvez não — mas se o for, o menino chamar-se-ia Portugal e estaria num infantário chamado “Jardim-Escola Europa do Sul” onde todos eram obrigados a tomar óleo de fígado de bacalhau de manhã. Rabiavam, mordiam a colher, cuspiam, barafustavam, salvo o menino Portugal que engolia o óleo sem caretas nem protestos. Sempre e com tanta compostura que um dia os outros meninos lhe perguntaram porquê.

 

“Cada colher que tomo, a minha mãe dá-me cinco tostões”.

“E o que é que fazes com os cinco tostões?”

“Junto e quando há dinheiro que chegue a minha mãe compra outra garrafa de óleo de fígado de bacalhau”.

 

Deixado pelos métodos heroicos de tratamento preconizados pela troika com dívida muito maior do que a que tinha antes de começar a ser tratado, desenha-se no futuro de Portugal outra grande garrafa de óleo de fígado de bacalhau. Para usar imagem de Vaclav Havel, começa a ver-se o túnel ao fundo da luz. E, para usar pergunta de Lenine, o que é que se tem de fazer?

 

Antes porém de, embalados por metáforas, nos pormos à procura de soluções, é preciso saudar o povo português. Há nele uma capacidade de bom-senso que sacrifica impulsos do presente a benefícios no futuro e se manifesta quando menos se espera. Nos últimos 40 anos aconteceu-nos duas vezes: pouco depois do 25 de Abril, no acolhimento aos retornados das antigas colónias africanas — certamente o feito colectivo mais notával do país depois do das descobertas do século XV — e agora na aceitação estoica dos rigores da austeridade imposta pela Alemanha, condição moralista sine qua non de deitar uma corda que ajudasse a rebocar a nossa jangada. (E saudar também as autoridades portuguesas que aplicaram à população as medidas mais duras de que há memória ou notícia, nem sempre com habilidade política mas convencidas, a meu ver bem, de que, sem elas, os grandes e as instituições internacionais nos teriam deixado afogar).

 

Para o menino não ter de encetar outra garrafa seria preciso que grande parte da dívida fosse, para efeitos práticos, perdoada. Numa altura em que economistas de diferentes seitas passaram a aplicar os seus intelectos à desigualdade cada vez maior de ricos e pobres em todo o mundo, considerada enorme problema (se bem que, até agora, não haja prova que tal torne sociedades mais agressivas ou conduza a revoluções) é provável que se crie ambiente para isso. Com “O capital no século XXI” do francês Thomas Piketty — grande trabalho de investigação mas fraco guia de acção política, chamou-lhe The Economist — a atravancar imaginações de académicos e de governantes, a visão egoísta e, para além do curto prazo, nociva para todos, da Alemanha de Ângela Merkel perderá o domínio da cena.

 

Historiadores futuros hão de explicar melhor do que nós porque é que os governantes da União Europeia seguiram cegamente a Alemanha no rumo desastroso da austeridade.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:24  comentar

5.5.14

 

 

O partido exigia não apenas todo o nosso tempo, como sentia que a nossa entrega só era total se também puséssemos à sua disposição os nossos bens. «É forçoso dizer que grande numero de camaradas (...) procuram modos de vida cómodos; estabelecem por vezes para a sua vida privada padrões de existência abastada e não se importam, nalguns casos, de esbanjar dinheiro inutilmente», escrevia-se numa resolução do comité central. Pior, pecado maior: «alguns camaradas não prescindem e até esperam ansiosamente as férias, não se preocupando com o cumprimento das suas tarefas partidárias e revolucionárias» algo inaceitável, pois «a luta de classes e a revolução jamais poderão ir de férias». A simples ideia de ter férias tinha assim «natureza burguesa e não proletária» e o seu efeito seria semelhante «ao causado pela introdução de droga, ou pela corrupção moral num exército em guerra». Era pois necessário ser muito rigoroso, em nome da «robustez revolucionária», com coisas como «as esquisitices com a comida e com o dormir» ou o «vício de viajar comodamente». Tudo porque «ser comunista não é só um comprometimento, é, antes e acima de tudo, uma transformação real e constante». Ser comunista também implicava «montar a sua vida de acordo com os interesses do Partido e da Revolução», subordinar «incondicional­mente os interesses individuais aos superiores interesses do Partido» de forma a realizar a «condição de fiel ser­vidor do povo pobre». Ser comunista é «sê-lo em todos os momentos, em todas as tarefas e para a vida inteira». Por isso, «o egoísmo pessoal, a vida privada, o tempo li­vre, o aconchego familiar são umas vezes obstáculos, ou­tras vezes desculpas para não se dar ao partido aquilo de que precisa».

 

Exigia-se assim uma espécie de renúncia absoluta ao mundo exterior, uma renúncia que não era imposta pe­las condições concretas da luta política — em ditadura, quando era necessário passar à clandestinidade para fu­gir à perseguição da polícia, a renúncia à vida normal era inevitável —, mas por opção tomada para a vida. Entre­tanto, reforçavam-se os mecanismos destinados a impor o «centralismo democrático» com um objectivo que seria assumido por alturas do II Congresso, em 1977: «conse­guir a homogeneização das ideias e práticas proletário-revolucionárias, marxistas-leninistas», e «romper com resistências que subsistem na aplicação da linha táctica». Ou seja, para uniformizar o pensamento dos militantes, calando todas as vozes internas dissonantes.

 

 

*

 

Ainda hoje, quando olho para a forma muitas vezes arrogante como a esquerda jacobina olha para todos os demais, quando sinto como no debate público todos os que não se filiam, de uma maneira ou doutra, na tradição estatista e dirigista da esquerda sofrem uma espécie de capitis deminutio por, supostamente, não se preocuparem também com o bem da sociedade, recordo a lógica mistificadora da "superioridade moral".

 

 

José Manuel Fernandes

in Era uma vez...a revolução

© 2012 José Manuel Fernandes e Alêtheia Edições

 

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 12:41  comentar

3.5.14

 

 

 

 

Ministério dos Negócios Estrangeiros

Foto: Marlene Oliveira

 

 

 

No plano internacional, o poder político saído do movimento militar do 25 de Abril de 1974 foi rapidamente reconhecido pelos principais aliados e países amigos de Portugal, assim como por outras potências com as quais o país não mantinha relações diplomáticas.

 

Os primeiros contactos para dar a conhecer as grandes linhas do Programa do MFA e as intenções da Junta da Salvação Nacional foram em boa medida conduzidos por Mário Soares (recentemente regressado do exílio), em breve nomeado ministro dos Negócios Estrangeiros do I Governo Provisório. A diversificação das relações exteriores de Portugal, o estreitamento dos laços com os países europeus, e o apoio ao dossier da descolonização foram algumas das principais prioridades das novas autoridades nos meses seguintes.

 

Para além das novas perspectivas geradas pela mudança de regime (das quais se destacaria a aproximação às Comunidades Europeias a partir de 1977), o 25 de Abril constituiu igualmente um momento de abertura no tocante à própria actividade diplomática, com os novos concursos de admissão ao MNE a tornarem possível o ingresso das mulheres na profissão.

 

No site da Associação dos Amigos do Arquivo Historico-Diplomático dão-se a conhecer alguns documentos relativos a este período, bem como uma tabela que dá conta da expansão das relações diplomáticas do país após 1974.

 

 

link do postPor VF, às 11:33  comentar

30.4.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais uma Guerra Mundial?

 

 

As comemorações de 1914 (ano do começo da Guerra que pôs Fim à Paz, como lhe chama Margaret MacMillan num livro magistral sobre as suas causas) em televisões, telefonias, editoras, revistas, e o à vontade pré-modernista de Vladimir Putin, cujo apetite russo de território evoca o Lebensraum nazi, levam-me a sentir que a nossa paz, o caldo de cultura da construção europeia, ficou de repente muito menos garantida.

 

Até ao fim da Guerra Fria, medo salutar da União Soviética fizera os europeus gastarem dinheiro em defesa (sempre menos do que deviam mas os Estados Unidos, embora queixosos, cobriam a diferença). Quando a União Soviética colapsou inventou-se o “dividendo da paz”. Governantes de quase todos os países europeus — menos Reino Unido e França — ignorantes ou esquecidos da história reduziram orçamentos de defesa a proporções ridículas com a justificação de que o colapso soviético eliminara o inimigo e não havia outro à vista. Agora há — mas há também quem não o queira ver.

 

A questão não é de meios — é de falta de vontade. 1945 foi há 69 anos, 1991 há 23 e, a quem não faça regime, a paz engorda. A Guerra Fria acabou sem tratado que ajustasse regras: essa ambiguidade ajuda Putin a pintar a manta, jogando na curteza de vistas cobarde dos europeus. Grandes patrões têm ido a Moscovo garantir-lhe pessoalmente ‘business as usual’. Apesar disso, os governantes da União Europeia (e todos os do G7), perante o desplante reafirmado do patrão do Kremlin e exortados por Washington têm alinhavado sanções contra a Rússia — começando pelos cortesãos do Czar — a pouco e pouco mais consequentes mas muito longe de causarem a dor precisa para parar provocações com que Putin nos põe à prova.

 

Se impusermos mais sanções económicas e se, simultaneamente, tornarmos bem visível por exercícios militares, patrulhas aéreas, etc., conduzidos na Polónia e nos países bálticos, a capacidade bélica da OTAN e a nossa disposição de recorrermos a ela se um dos Aliados for atacado, ganharemos. Sanções económicas trar-nos-iam prejuízos de curto prazo, exigindo explicação a eleitores mas seriam tão gravosas para a Rússia que Putin teria de encolher as garras. A capacidade de sofrimento do povo russo é grande (nenhum outro teve tantos mortos nas duas guerras mundiais) e a propaganda do Kremlin dissemina catadupas de aldrabices mas no nosso tempo tudo se conhece, se compara e o regime iria mudando. Depois, à Ucrânia e seus demónios daríamos o jeito possível, até com ajuda da Rússia.

 

Se não dermos um murro na mesa já, será depois difícil parar Putin sem guerra. E entretanto o nosso poder no mundo vai levando rombos. Quando votámos agora contra a Rússia na ONU, Brasil, India, África do Sul abstiveram-se. Os nossos valores em direito internacional e direitos do homem não serão universais mas que ao menos sejamos capazes de lutar por eles, com menos retórica e mais acção. Como disse um presidente americano: falar baixinho e trazer um grande cacete.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:55  comentar

27.4.14

 

 

variação

 

                                                                            obscurent eum tenebrae et umbra mortis;

                                                                            occupet eum caligo,

                                                                            et involvatur amaritudine.

 

                                                                                                                       Job, I, 5

 

 

um verso envolto de amargura, "eclipse

nesse passo o sol padeça".

nas suas aliterações surdamente torturadas,

na sua imprecação contra o destino: à voz

 

 

das desventuras já pouco tempo resta no

ofício das trevas ciciado.

obscuramente a morte está na alma

do mundo. cinzas, cinzas

 

 

para a inquietação da vida, para o pardo avesso do tempo

medido a velas de cera, cinzas para a desolação,

silêncio para os silêncios. a terra erma

 

 

e dissonante, lá, onde a luz cala e a memória

se apaga, fulgor negro, adversidade, eclipse

nesse passo o sol padeça.

 

 

 

Vasco Graça Moura

in laocoonte

Poesia 2001-2005

Quetzal Editores/Bertrand Editora Lda, 2006

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 15:20  comentar

25.4.14

 

 

 

Foto: Eduardo Gageiro

 

 

 

 

 

 

Aurora Clara de Abril

 

 

Assim chamaram à menina recém-nascida encontrada na roda dos expostos da Vila de Monsaraz por homens saídos para o trabalho em madrugada luminosa desse mês, em ano do terceiro quartel do século XIX — não me lembro qual. Nem o ano nem o dia, mencionado na acta duma sessão da Câmara. Há uma probabilidade em trinta de ser 25 e como quando li a acta não reparei (faltava ainda essa achega à nossa leitura do passado), pode ser que tenha sido mesmo.

 

Tal coincidência daria alegria à elevada percentagem de portugueses que acha o 25 de Abril a data mais importante da nossa história e que, como quase toda a gente, é supersticiosa. Eu não sei remontar tanto e na celebração do dia fico-me por três vinhetas, com as suas luzes próprias. Cada uma vale o que vale.

 

Por ordem cronológica.

 

Em 1975, poucos dias antes das eleições para a Assembleia Constituinte, amigo meu, minhoto, estava de passagem na casa de Ponte da Barca quando três criadas velhas da mãe — tão velhas que ainda eram naturalmente analfabetas e, por isso, mais sagazes e reflectidas do que muito doutor moderno — lhe vieram falar. Queriam perguntar ao Menino: “Como é que se vota na lei antiga?”.

 

Na Primavera de 1978, eu era primeiro representante permanente português no Conselho da Europa em Estrasburgo – lá chegado no ano anterior porque antes de viver em democracia Portugal não podia ser admitido (durante o regime dos Coronéis, a Grécia tivera de sair) — Victor Cunha Rego era nosso embaixador em Madrid, falávamos ao telefone e eu disse-lhe que tinha aprendido do pai que Portugal era um país maravilhoso, habitado por uma maioria de gente boa e generosa, do qual uma minoria de gente má e mal formada tomara conta, chefiada pelo pior deles todos, o ditador Salazar. “Pois é” respondeu o Victor. “Eu também fui educado por um pai assim. E é grave, aos 50 anos, um homem descobrir que o pai era parvo”. Com o 25 de Abril, Victor e eu tínhamos passado de vítimas a cúmplices; da oposição ilegal à máquina do novo poder. E quem tivesse a mão na massa começava a descobrir que Salazar não era só causa dos nossos males; era também, e sobretudo, sua consequência.

 

Em 2008, Sofia Pinto Coelho convidou-me para programa de televisão dela que, de cada vez, tinha o mesmo fio condutor. A Sofia pegava numa pessoa e confrontava-a com passagem do seu passado. A mim coube-me ser levado a vila alentejana onde há quase 40 anos trabalhara como antropólogo e a que chamara Vila Velha em livro que publiquei. Fui filmado a falar com pessoas amigas que não via há muito tempo, entre elas a Ema, analfabeta e ainda muito bonita. A Sofia pediu-me para eu lhe perguntar se a vida agora era melhor ou pior do que quando eu lá estivera. A Ema olhou-me espantada e respondeu: “Não passamos fome!”

 

As velhas de Ponte da Barca, o Victor e a Ema já morreram. Não me cabe adjudicar mas, quando começa a haver outra vez gente com fome em Portugal, talvez a resposta da Ema capture o mais importante do 25 de Abril.

 

 

 


 

 

Foto: Alfredo Cunha
mais aqui

 

 

No largo do Carmo, estava a força de Santarém e estava sobretudo Salgueiro Maia. Nas longas horas que com ele ali vivi e confraternizei, pude apreciar a tranquila audácia dum homem que, com duas autometralhadoras e centena e meia de recrutas, estava a destruir cinquenta anos de história, de farroncas de força e de poder, mantendo em respeito uma força profissional e adestrada como era a Guarda Nacional Republicana. Salgueiro Maia estava cercado; pelo Rossio quase até ao alto da Calçada do Carmo, pela Rua da Trindade e Largo da Misericórdia, onde se encontravam entrincheiradas as forças da GNR. No Chiado, até aos largos, os blindados hostis da Cavalaria 7, e julgo recordar que também da Cavalaria 2 e Metralhadoras 1. Mas nem sequer um sentimento de dúvida ou de incerteza pairou na praça. Levada pelo sopro da liberdade, a multidão acorria e o quadro do povo expressava ali a vontade da nação contra qualquer veleidade de repressão sangrenta.

 

 

Francisco de Sousa Tavares in "O Meu 25 de Abril"

artigo do jornal “Público”  27/04/91 aqui

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 10:12  comentar

23.4.14

 

 

Proles Wall, 1984 (detalhe)

Paula Rego 

 

 

 

 

 

Abriu a caça ao Barroso

 

 

O falecido A.B. Kotter — dos Bilhetes de Colares — distinguia-se dos colunistas portugueses porque se sentia bem em Portugal e eles não. Tal desgosto da Pátria há de ser o pano de fundo das maledicências com que, entra o ano, sai o ano, os “fazedores de opinião” da imprensa lisboeta — e notáveis em geral — se mimoseiam uns aos outros dentro e fora de portas. A 25 de Abril de 1974 o português fora destapado: o fim da Censura Prévia trouxera animação inédita; ultimamente redes sociais, blogosfera e outras invenções oferecem-lhe virtualidades novas. Egos e ids zumbem à solta, tal pragas de gafanhotos. Como se tudo isto não chegasse, hipocrisias calvinista e luterana do Norte da Europa descarregaram-nos em cima a mania da ‘transparência’ e o lado mais escuteiro dos Estados Unidos exportou a correcção política.

 

Há 25 anos, em Estrasburgo, na véspera de uma sessão da Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, António Vaz Pereira e eu lembrámos a Diogo Freitas do Amaral que não podia no discurso do dia seguinte dizer mal do Presidente do país de que era ministro dos estrangeiros (como vinha no texto que mandara de Lisboa para traduzir). Eanes e Aliança Democrática não se davam bem mas seria infeliz badalar a desavença no estrangeiro.  Diogo, homem inteligente e bem formado, mudou o discurso.

 

Num quarto de século o ambiente geral deteriorou-se muito o que me leva à abertura da caça ao meu amigo Zé Manel. Tem feito correr rios de tinta mas serei curto e simples. Há duas razões principais que enraivam os portugueses contra ele. Ter trocado o seu lugar de primeiro ministro de Portugal pelo lugar de presidente da Comissão Europeia. Ter aplicado a Portugal programas de austeridade que, segundo muita gente, prejudicarão o país durante gerações. Quanto à primeira: presidentes anteriores da Comissão Europeia honraram os seus países (até Roy Jenkins na eurocéptica Inglaterra) e o ex-primeiro ministro belga, escolhido para primeiro presidente permanente do Conselho Europeu, diz que, entre os seus, é como se tivesse sido beatificado. Em Portugal, inveja e o sentimento de que qualquer bem alheio me faz mal a mim toldam o entendimento. É como se ter um português presidente da Comissão Europeia fosse uma vergonha para Portugal.

 

Quanto à austeridade (a meu ver, haveria melhores remédios) foi primeiro alvitrada no G20 e depois aprovada sem uma voz contra no Conselho Europeu. A Comissão contribuiu a pô-la em prática no que lhe competia, juntamente com o Banco Central Europeu e o FMI. Durante estes anos difíceis, a Comissão Barroso ajudou Grécia, Irlanda e Portugal a desenvencilharem-se o melhor possível. No nosso caso, Sócrates e Passos Coelho o atestarão.

 

Em 1943, ministro de Churchill louvava-lhe os méritos de De Gaulle até Churchill lhe dizer que não valia a pena insistir: “You like the man and I don’t”. Há sempre opiniões contrárias de cada homem político; Durão Barroso tem amigos e inimigos. Mas factos são factos.

  

 


18.4.14

 

 

 

Goa? séc. XVII
Museu Nacional Machado de Castro, Coimbra
Arquivo Nacional de Fotografia / Carlos Pombo da Cruz Monteiro

 

link do postPor VF, às 00:14  comentar

16.4.14

 

 

 

 

 

 

 

Cem anos depois

 

 

A Primeira Guerra Mundial começou vai fazer cem anos no princípio de Agosto. Livros e televisões evocam o cheiro pungente de milhões de mortos — desde 7.000 para Portugal até 1 milhão e 600.000 para a Rússia — ruínas de cidades e descampados. Os horrores que foram filmados, aqueles sobre os quais se lê e os que se adivinham são muitíssimos. E o horror maior é que menos de 21 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial a Segunda havia começado.

 

Durou de 1939  a 1945, matou mais gente ainda (portugueses, só em Timor) e acabou, tal como a Primeira, pela derrota da Alemanha e seus aliados. A Alemanha ficou arrasada e dividida; em vez de a fazerem pagar pela guerra, perdoaram-lhe dívida e houve o Plano Marshall, foi-se recompondo sem revanchismos que levassem a outro Hitler e à tentação de nova guerra. Reunificada, democrática, cívica e próspera (até 2010, a única das grandes potências europeias invariavelmente decente com os pequenos) os incómodos que, nos últimos anos, a sua fobia patológica da inflação tem causado a vizinhos pequenos e pobres são graves mas não se comparam com a anexação nazi dos sudetas.

 

Os sudetas têm sido lembrados agora não por causa da Alemanha mas por causa da Rússia. O ex-KGB Vladimir Putin anda a armar aos czares e resolveu anexar a Crimeia (dito e feito), perturbar a parte oriental da Ucrânia e não se sabe que mais ainda. Outras terras europeias com minorias russas — Estónia, Letónia, Lituânia (três estados-membros da União Europeia, aliados na OTAN) — sentem-se ameaçadas pela retórica expansionista e revanchista do Kremlin. Juntamente com Polónia e Suécia — e E. U. A — querem que a Rússia seja avisada em termos inequívocos. Além das sanções aprovadas depois da anexação da Crimeia, deveriam explicitar-se sanções mais graves a serem aplicadas se a Rússia tornar a pôr pé em ramo verde. Apesar de Putin insistir em exercícios militares perto de fronteiras, fomento de rebelião na Ucrânia e retórica perigosamente ambígua, membros da União do sul, entre eles Portugal e às vezes Alemanha, estão relutantes a elevar o tom e recomendam “prudência e diplomacia”.

 

Atenção. O Kremlin sabe que nenhum poder ocidental mandará rapazes e raparigas matarem e morrerem pela Crimeia (e presume que pela Ucrânia também não). No mundo pre -1945 que Putin parece imaginar à sua volta, europeus e americanos devem figurar como poltrões anafados e sem chefe, incapazes de resistirem ao quero, posso e mando do Senhor de todas as Rússias.

 

Mesmo sem comemorar a Primeira Guerra Mundial com o começo da Terceira poderíamos sair vitoriosos desta embrulhada. O poder económico conjunto de Europa e Estados Unidos é tão superior ao da Rússia que sanções inteligentes levariam o Kremlin à glória. Mas seria preciso que alemães, britânicos, franceses, todos, fizéssemos pequenos sacrifícios a curto prazo.

 

Sem a coragem de conter Estaline não teria havido OTAN nem União Europeia. Esperemos que Putin chegue para nos endireitar outra vez a espinha.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:15  comentar


pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
pesquisar neste blog
 
contador sapo