28.9.16

 

 

 

trabalhadores_de_uma_fabrica_de_bombas_na_inglater

 

Fábrica de armamentos em Inglaterra durante a Primeira Guerra Mundial 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Pátrias

 

 

 

“O patriotismo é o último refúgio do bandalho” proclamou o Dr. Samuel Johnson, lexicógrafo inglês do século XVIII - na Europa, pátrias começavam a ganhar mais importância do que fés e dinastias - cujo humor cáustico continua a ser apreciado. Reforçadas por revoluções europeias de meados do século XIX, pátrias mostrariam a sua força crescente contra outras lealdades na Primeira Guerra Mundial: as classes operárias alemã e francesa, marimbando-se para exortações a que proletários de todo o mundo se unissem, mataram-se zelosamente uma à outra nas trincheiras da Flandres. “Patriotismo é amor dos nossos; nacionalismo é ódio aos outros” lembrou por seu lado Roman Gary, nascido judeu polaco, morto – por suicídio – cidadão francês, cuja origem estrangeira levara a baixarem-lhe a Note d’amour na academia aeronáutica, se juntara aos aviadores da França Livre de De Gaulle e foi, até hoje, o único escritor a ganhar o Prémio Goncourt duas vezes – a segunda sob pseudónimo, a mangar com o júri - publicando também romances em inglês e casado algum tempo com Jean Seberg de quem se separou e que se suicidou antes dele. Na sua vida e à sua volta desenrolaram-se muitas das barbaridades do fim da primeira metade do século XX no centro da Europa.

 

Nós portugueses, a irmos para nove séculos de história dentro das mesmas fronteiras – que os Amigos de Olivença me perdoem a pequena inexactidão – oito se quisermos contar com Tavira, não damos valor ao sossego ontológico desta periferia com vista para o mar. Devíamos dar. Javier Solana contou-me ter conhecido em Bratislava senhor muito velho que ao longo da vida mudara sete vezes de nacionalidade sem nunca ter mudado de casa. A mim explicou-me há meio século proprietário alentejano, para me contar da vida sob a Primeira República (1910-1926): “Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há”. Para nós, as leis mudaram poucas vezes e, sobretudo, nunca nos mandaram dizer que eramos outros. Logo a seguir aos anos do fim do Império, anos em que tinham realmente querido dar-nos cabo do juízo (diante de mim, no Clube de Évora, um deputado à Assembleia Nacional e dois grandes lavradores do distrito disseram a jornalista francês de Le Monde, vindo por haver ‘eleições’: “Portugal é uno do Minho a Timor” em uníssono sem sombra de ironia na voz), amigo meu que ensinava em Genebra recebia compatriotas incessantemente preocupados com a “identidade nacional” - o que o deixava perplexo porque, dizia, não havia país mais idêntico que Portugal.

 

Talvez por isso, cá o Dr. Johnson não vigore: os bandalhos terão de encontrar outro refúgio. Lá fora, estão ultimamente na maior: patrioteiros como Marine Le Pen em França, Trump nos E.U.A., Putin na Rússia, Orban na Hungria, Duterte nas Filipinas, etc., etc. trazem à superfície o pior na sua gente, voltam-na contra outras gentes e aceleram o mundo para novo desastre.

 

As luzes que em 1914 se apagaram na Europa apagam-se agora pelo mundo inteiro.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

24.9.16

 

 

 

G letter.png

 

 

 

gerúndio
ge.rún.di.o
forma nominal do verbo, invariável, terminada em -ndo.
(do latim gerundium)

 

 

Os matizes do gerúndio em português prendem-se com o seu uso na forma simples ou na forma composta, dependendo (cá está) da sua posição relativa na frase. Algumas gramáticas, ao descreverem (ou descrevendo…) o emprego desta forma, falam até de «construções afectivas», motivo pelo qual a coisa deveria até estar muito na moda. Mas não. Parece haver uma tendência para preterir o gerúndio em favor de outras soluções que o não contemplem, por exemplo a sua substuição pelo infinitivo antecedido de preposição (exemplo «a cantar»), recuperando (cá está de novo) a ideia de que é uma coisa um pouco provinciana, rústica, ou ainda como forma de desvinculação do português do Brasil, o que só pode ser pura ignorância. Como se a região de Lisboa não constituísse, também ela, uma variante dialectal do português e não a língua sem rebarbas, rebrilhante de tão polida, que alguns dos seus falantes imaginam. Variante em que as noções de progressão indefinida ou de duração estão menos presentes de um modo tão expressivo. Felizmente que à pergunta sobre como vai a nossa vida, podemos responder: cá vai indo.

 

 

 

 

 


21.9.16

 

 

 

 

 

nato.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Defesa europeia, Brexit e bom senso

 

 

 

 

Alguns entusiastas vêm na saída anunciada do Reino Unido da União Europeia não um desastre mas uma oportunidade. O seu argumento é que, ao longo dos anos, o Reino Unido várias vezes impediu com o seu veto projectos de defesa europeia propostos por outros estados membros (na União Europeia, questões de defesa são decididas por unanimidade) como, por exemplo, a criação em Bruxelas de um quartel-general europeu. Deixando os ingleses a União, outros poderão levar os seus projectos avante, aumentando assim, segundo eles, a capacidade defensiva da União Europeia.

 

Hão de poder, com certeza. Mas espero que o bom senso prevaleça e isso não venha a acontecer. Os vetos dos ingleses a tais iniciativas não eram birras, eram resultado de duas condições necessárias para que defesa europeia eficaz possa existir: uma, que a Organização do Tratado do Atlântico Norte (vulgo NATO) esteja pronta a intervir 24 horas por dia, 365 dias (6 em anos bissextos) por ano em caso de ataque a qualquer membro da Aliança (não aconteceu até agora e só esteve para acontecer uma vez: a 12 de Setembro de 2001, evocando o Artigo V do Tratado, todos os outros Aliados se disponibilizaram para ajudarem os Estados Unidos mas estes agradeceram e recusaram); outra, que os países Aliados elaborem os seus orçamentos nacionais de maneira a poderem arcar com as despesas que lhes caibam na partilha do fardo fiscal colectivo da defesa da Europa, em que os Estados Unidos também participam.

 

Enquanto a União Soviética existiu, medo saudável dela ajudou a arrumar as ideias nas cabeças de ministros, parlamentares e contribuintes na Europa Ocidental, e foram feitos esforços sérios de cumprimento das metas orçamentais acordadas para cada Aliado. Depois do colapso da União Soviética e do fim da Guerra Fria as coisas mudaram. Nenhum Aliado europeu gasta o que devia – e como devia - em defesa, sendo, de longe, o Reino Unido e a França os que mais se aproximam do cumprimento dessas obrigações. Juntamente com dimensão, arsenal nuclear e história (incluindo assentos permanentes no Conselho de Segurança da ONU), tal faz deles os únicos Aliados membros da União que são potências militares mundiais.

 

Na área da defesa, a saída do Reino Unido em nada enfraquece a União Europeia nem prejudica iniciativas Franco-Britânicas. Por uma razão: a defesa dos países membros da União Europeia contra eventuais ataques de terceiros cabe, não à União, mas à OTAN (directamente, para a maioria porque são também Aliados; indirectamente - tradição vinda da Guerra Fria -, para Irlanda, Áustria, Finlândia e Suécia que o não são).

 

O risco de “iniciativas europeias” (bem intencionadas ou/e antiamericanas), por exemplo, a de um quartel-general em Bruxelas seria, por um lado, prejudicarem unidade ocidental, condição sine qua non de bom funcionamento da defesa europeia e, por outro, competirem irracionalmente por fundos escassíssimos dando azo a ainda mais desculpas de mau pagador.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

17.9.16

 

A.png

 

 

 

algo
al.go
pronome indefinido
advérbio
(do latim aliquod, «alguma coisa»)

 

O étimo de «algo» é a forma neutra de aliquis, de onde se originou a palavra «alguém». A muito antiga palavra fidalgo constitui uma reminiscência dessa genealogia: resulta de fi(lho) + de + algo, sendo «algo» aqui equivalente a «alguém», como quando se diz aos filhos para estudarem para serem «alguém», ainda que desprovidos de fidalguia. Como pronome indefinido, significando «alguma coisa», o termo tem tido um incremento notável. O seu uso faz mesmo parecer que as formas «alguma coisa» ou «qualquer coisa» estão contaminadas de um plebeísmo a evitar; faz figura de linguagem elevada. Há mesmo quem adopte o termo em regime de exclusividade. A marca de chocolates Ferrero Rocher tem culpas no cartório. Todos se lembram daquele anúncio em que uma senhora diz ao motorista «Ambrósio, apetecia-me tomar algo», frase que tem aliás dado azo às mais descabeladas versões. Com ajuda da patroa do Ambrósio ou não, o certo é que «algo» parece ter caído no goto das massas falantes: «aconteceu algo» ou «tenho algo a dizer» ou «ele fez algo de bom». Os próprios dicionários impam, repletos de «algos». Não se tratando de obscenidade, modismo, ou incorrecção, é apenas causa de prurido ou caso de irritação, agravada quando alastra, como nódoa, à escrita e aos seus práticos. Menor favor dos utentes da língua parece merecer o uso do termo como advérbio – como na frase «Caro senhor, achei o seu texto algo insosso» –, no sentido de «um pouco» ou «um tanto». Enfim, é das tais coisas para as quais não se vê saída, ao contrário da Lanalgo, que tinha cinco entradas para uma saída feliz.

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

14.9.16

 

 

 

Olympians.jpg

 

@ Percy Jackson 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Deuses

 

 

 

 

Em igreja desafectada num lugarejo da Beira profunda, pedindo-se a vizinha chave para a abrir, amigos dos Pais descobriram estatueta magnífica de S. Sebastião do século XVII. Um ano depois, estando por perto, pediram outra vez à vizinha para lhes abrir a igreja – e não viram o S. Sebastião. Perguntaram se alguém o teria levado (passava-se isto há uns 80 anos e começara já a compra por dez reis de mel coado de obras de arte achadas na província portuguesa por citadinos astutos - pilhagem comparável às das Invasões Francesas do começo do século XIX, com a vantagem de as obras assim preservadas terem ficado em Portugal) mas nada da igreja fora entretanto vendido. De entrada, a vizinha nem percebia bem de que é que eles estavam a falar até, de repente, se fazer luz no seu espírito: “A gente capemo-lo e fizemos uma Santa Teresinha!”

 

O catolicismo cultivou os Santos e as Santas, alguns plasmados de anteriores figuras pagãs, amortecendo assim o choque brutal do monoteísmo - a invenção mais traumática e funesta da humanidade - na vida de cada um (e cada uma) de nós que com ele tivesse de lidar. Santos e Santas são cortesãos celestes, com acesso directo a Deus menos ou mais facilitado, desde Santos e Santas modernas sem cultos enraizados nas mentes dos fiéis às hipóstases mais celebradas da Senhora sua Mãe. Beatas (e beatos) estabelecem as suas intimidades. Uma de Reguengos, a quem mãe aflita com doença de filho viera pedir intervenção de Nossa Senhora de Fátima (de que a beata possuía imagem a que rezava), respondeu-lhe: “Deixa estar filha que eu, em chegando a casa, caio-me lá com a minha Periquita!”. Às vezes, como entre humanos, as coisas dão para o torto: o meu amigo Fernando viu numa igreja de Luanda mulher de pé em cima de um banco insultando em kiluanda imagem de Nossa Senhora do Carmo, por esta não ter cumprido a sua parte de um acordo.

 

As coisas passavam-se assim com Deuses e Deusas quando toda a gente tinha vários. Era o caso - para escolher sociedade evoluída - da civilização romana com quem os cristãos tiveram problemas, não por terem Deus diferente, tal não aquecia nem arrefecia os romanos, mas por não admitirem existência de Deuses dos outros. A intolerância não foi inventada pelos monoteístas mas foi dotada por eles de superioridade moral. Desde as origens no Próximo Oriente as chacinas não pararam. Mas salvo em casos especiais – judeus ortodoxos, Tea Partiers americanos, waabistas - as três grandes religiões reveladas parecem hoje menos viradas para o proselitismo, mormente a Hebraica quiçá por ter sido mais maltratada do que as outras duas. A Cristã chega a roçar o agnosticismo. Mais novo, o Islão dá fiéis cheios de sangue na guelra. Se algum dos seus entusiastas, fanático do chamado Estado Islâmico, nos perguntar o que fizemos do Deus a quem chamam Alá, em cujo nome matam e esfolam, devemos responder que o capámos e fizemos um Nosso Senhor Jesus Cristo, user-friendly para crentes e descrentes.

 

 

 


10.9.16

 

 

O rose petals.jpg

 

 

 

omissão
o.mis.são
nome feminino
(do latim omissio, -onis)

 

 

O que se deixa de fazer ou de dizer. Esquecimento, voluntário ou involuntário. Silenciamento com que se modela a realidade e, por tal razão, recurso gramatical e estilístico muito presente na resposta a perguntas do tipo «O que fizeste hoje?» ou «Em que estás a pensar?». Lacuna. Falta. Ocultação. Apagamento. Técnica narrativa que consiste numa aceleração ou salto no tempo; exemplo clássico é, entre muitos outros, o início do terceiro capítulo de Os Maias: «Mas esse ano passou, outros anos passaram. Por uma manhã de Abril, nas vésperas da Páscoa, Vilaça chegava de novo a Santa Olávia.» Na economia da construção da verdade opera por supressão, que é uma forma de selecção. Mentira politicamente mais subtil ou juridicamente menos gravosa. Forma de cobardia.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

7.9.16

 

 

angela_merkel.jpg

 

Angela Merkel

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

A questão alemã

 

 

 

 

 

No Domingo passado - a leitora terá dado por isso - partido da extrema-direita alemã passou à frente da CDU, vindo com 21% dos votos em segundo lugar, a seguir aos 30% dos Sociais Democratas vencedores e relegando para terceiro lugar, com 19%, o partido da Senhora Merkel, em eleições regionais no mais pequeno dos Länder, Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, entalado entre o resto da Alemanha a Polónia e o Mar Báltico, que não conta mais do que 2% do eleitorado do país, fazia parte da República Democrática Alemã antes de reunificação e é o Land onde a Chanceler vota e é eleita. Esta coincidência, a seguir a três desempenhos notáveis em eleições regionais na Primavera da Alternativa para a Alemanha (24,3% em Saxe-Anhalt; 15,1% em Bade-Wurtemberg; 12,6% em Renânia-Palatinado) levou Frauke Petry, porta-voz do partido, a cantar “vitória” e a declarar que “os cidadãos perderam a confiança nos velhos partidos” (que, para ela, são todos menos a Alternativa).

 

Até às reacções hostis de muitos alemães à generosidade voluntarista e unilateral de Angela Merkel no acolhimento de imigrantes do próximo Oriente, sobretudo de imigrantes fugidos do horror sírio, a Alemanha fora, desde as grandes crises começadas em 2010 - a crise das dívidas soberanas e, mais tarde, a crise da imigração – ou, melhor ainda, desde o fim da segunda guerra mundial em 1945, o país europeu menos provável para berço de novo regime fascista, depois do surto triunfalista dos antigos na década de 30 e do seu esmagamento implacável na de 40, do século passado. Mais do que isso. Entre a derrota de 1945 e a reunificação de 1991 a Alemanha Ocidental, primeiro de rastos e depois, a pouco e pouco, levantando-se do chão por determinação tenaz (com ajudas de fora: estar proibida de se meter em grandes despesas militares; ver perdoado o grosso das dívidas de guerra incorridas na paz de Versailles de 1919 e a seguir à rendição incondicional de 1945 porque Washington, Londres e Paris precisavam dela forte contra a Rússia Soviética) tornara-se, de longe, a grande potência que melhor tratava potências médias e pequenas.

 

E era também a nação europeia que levava mais a sério a Europa (primeiro as Comunidades Europeias e, mesmo depois da reunificação lhe devolver Pátria própria, a União Europeia).

 

Helmut Kohl avisava: “Quem vier a seguir a nós [governar a Alemanha] não se lembrará da guerra”. Felizmente apareceu Merkel, que se lembrava da Alemanha de Leste. Mas a sua austeridade pôs a economia europeia na cauda do crescimento económico do mundo (e mostrou urbi et orbi que a dívida afinal ainda não estava paga).

 

A Alternativa assusta mas é cereja para bolo que não foi cozido. Julgo que o enxerto democrático continue a vingar no tronco teutónico. Que quanto a imigração a Alemanha ajude a civilizar os países do Leste europeu em vez de ceder à barbaridade destes. Que os alemães se convençam de que meio século sem lhes darem ouvidos não lhes dá direito a não ouvirem os outros.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

3.9.16

 

 

shield-with-police-p-letter.jpg

 

 

 

 

 

participação
par.ti.ci.pa.ção
nome feminino
(de participatio, -onis)

 

 

Como acção cívica ou expressão de cidadania designa o dever de intervir, de ajudar, de colaborar, de contribuir, de cooperar. Como exigência contemporânea significa falar, comentar, seguir, configurando uma espécie de obrigação de comunicar, muito para além do âmbito jurídico da participação, como a queixa ou a denúncia, ou do âmbito social, como a participação do nascimento, do casamento ou do óbito. A participação, como a comunicação, de que é causa e consequência, está na ordem do dia, na ordem de serviço da ordem geral. Dizem que faz bem à saúde. De pequeninas, as crianças aprendem os seus fundamentos e as escolas requerem impiedosamente a sua prática; as famílias reclamam-na, as empresas exigem-na e até a premeiam, os artistas praticam-na ou servem-na, os governos administram-na. Ficar calado e quieto a um canto pode ser interpretado como disfunção com direito a acompanhamento de psicólogo e subsequente reeducação. É preciso ter um certo cuidado.

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

31.8.16

 

 

Carta de Guia de Casados.jpg

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Gemeinschaft

 

 

 

 

Quando eu era novo, Gemeinschaft era bom. Lembrava o tempo em que palavra de homem valia mais do que papelada oficial de burocratas sem cara e sem alma. Em que costumes seculares de aldeia, validados por gerações seguidas de analfabetos norteados por curas, prevaleciam sobre códigos escritos alheios, impostos pelo estado moderno, que os roubava para seu sustento e lhes levava os filhos para a guerra. Um tempo que provavelmente já não se vivia em parte nenhuma e que a saudade da gente imaginava. Mas o passado não pára de mudar e agora, segundo aprendi num ensaio de Henrique Raposo na revista do Expresso que trazia os Duques de Windsor na capa (“The Windsors were here alright. The bed is still cold”), Gemeinschaft afinal é mau e as nossas saudades dele também. Isto por razões longas de enumerar mas de que se pode dar o tom numa penada: se nesse tempo se falava com respeito de palavra de homem não se falava nunca de palavra de mulher. Era, aparentemente, coisa que não existia ou, se existia, não contava. Só fidalgas ricas, viúvas de jure ou de facto, se podiam dar a tal luxo, como D. Felipa de Vilhena armando os filhos cavaleiros.

 

Marx, sempre a puxar a brasa à sua sardinha, escreveu que não havia uma moral dos senhores e uma moral dos escravos: havia uma moral feita pelos senhores para os escravos. Julian Pitt-Rivers, antropólogo inglês que morreu há quinze anos, entre as três mulheres com quem foi casado contou uma duquesa espanhola, viveu uns tempos numa vilória do sul do país e observou-a bem (“The town begins and ends as abruptly as the Spanish day”) explicava que, em Espanha, os muito pobres – e nessa altura havia muitos - não tinham meios que chegassem para se poderem portar bem, os muito ricos, incluindo então muitas Grandezas de Espanha, tinham meios demais para precisarem de se portar bem, e eram as vastas classes médias que passavam por este mundo permanentemente atormentadas por rosário de penas que temor a Deus ou falatório de vizinhos lhes quisessem causar.

 

Voltando às mulheres, D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) que comandara a pacificação de Évora depois da revolta do Manuelinho em 1637 fora claro numa passagem capital da sua Carta de Guia de Casados: “Que o marido sofra da mulher tudo menos ofensas e a mulher ofensas e tudo”. Lido hoje, tal não se enquadra bem no espírito do tempo.

 

Assim nos vamos entretendo por Lisboa, capital do Porto, enquanto a Europa (ou melhor, a União Europeia, invenção política que tem dado aos europeus de hoje peso e força no mundo, isto é, seguro de vida) se vai destricotando em protecionismos protofascistas. Cercada por um mundo onde os valores do Iluminismo e da Democracia Representativa são arvorados em inimigos do povo. Onde Putin, Erdogan, teocratas sauditas e teocratas iranianos praticam com desenvoltura guerras pequenas, preparando-se para grandes guerras. Onde Trump quer privar a OTAN do arsenal nuclear americano e se arrisca a ser eleito em Novembro.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 15:20  comentar

30.8.16

 

 

Untitled-1.jpgFernando Guedes (1929-2016)

 

 

 

 

Ignoro se têm sido muito ou pouco estudadas eventuais afinidades do nosso modernismo com o dos Britânicos, para além da comum recusa do sentimentalismo (mas talvez não a procura radical da despersonalização e do distanciamento, que quase só encontramos em Pessoa; a estética imagista só terá verdadeira expressão portuguesa com Alberto de Lacerda, mas esta poderá ser uma opinião controversa), mas não resisto a chamar a vossa atenção para os conselhos que William Carlos Williams, um outro americano que foi figura de proa do Imagismo, dava à poeta inglesa Denise Levertov, em 1954, repercutindo ainda nesse momento, de forma bastante fiel, o ideário imagista de Pound e Eliot em 1914. Dizia ele: «Corte, e corte de novo, tudo o que escrever — ao mesmo tempo que por obra da sua arte não deixa vestígios dos cortes — e o resultado final ficará repleto do que tem para dizer».

 

O crítico britânico Harold Monro, num livro intitulado Some Contemporary Poets, publicado em 1920, conta a história de um jovem poeta americano recém-chegado dos Estados Unidos que procurou Eliot a fim de lhe mostrar os seus trabalhos. Este, ponderou longamente em silêncio um poema e, erguendo finalmente os olhos, terá dito: «Precisou de 97 palavras para o fazer; eu acho que poderia tê-lo feito em 56». Mas nada disto era novo e os próprios imagistas não se cansavam de o afirmar: «Estes princípios não são uma novidade; caíram em desuso. Eles são o essencial de toda a grande poesia».

 

É claro que estamos no plano estilístico da precisão. Mas creio que poderíamos articular isto, independentemente dos particulares relativos à diferença de contextos, com o que António Ferro — fundador e referência desta Casa — escrevia, em 1919, em Leviana (publicado em 1921):

 

«O excesso de pormenores embrulha a concepção, a intenção. Já que não podemos simplificar a vida, simplifiquemos a literatura. A literatura, como a vida, está atravancada. Há que descongestioná-la: um só quadro numa parede, dois ou três móveis em cada sala. Simplifiquemos! Simplifiquemos! A falta de espaço é cada vez maior. Há que fazer peças com poucas personagens, romances com poucas páginas, telas com poucas tintas. Seleccionar! Seleccionar! Escrever muito é fácil. Escrever pouco é heróico, muitas vezes. Poucos escritores têm essa coragem».

 

Como é sabido, The Waste Land, o poema de Eliot que Fernando Guedes considera o mais visionário do século xx, foi drasticamente reduzido na sua dimensão pela mão de Pound, que na dedicatória de Eliot é justamente designado como il miglior fabbro.

 

***

 

Há muito que Fernando Guedes se interessa por estes dois autores, Eliot e Pound. Poeta, ligado à Távola Redonda, nessas «folhas de poesia», cuja publicação se iniciou em Janeiro de 1950, apresentou e traduziu ambos (possivelmente pela primeira vez entre nós, como ele próprio notou na sessão de apresentação do livro). Eliot fora distinguido com o Nobel em 1948; Pound, internado num hospital psiquiátrico, recebera o Prémio Bollingen, em 1949. Posteriormente, no final da década, Fernando Guedes haveria de dirigir uma outra revista que logo no título – Tempo Presente – evocava Eliot (O tempo presente e o tempo passado/ São ambos presentes talvez no tempo futuro/E o tempo futuro contido no tempo passado) e que no segundo número apresentava traduções de Pound e saudava a sua libertação, ocorrida no ano anterior.

 

Deste modo, o que Fernando Guedes faz nestas quatro comunicações é arrumar de forma condensada o seu próprio percurso de leitor de Eliot e Pound ao longo de décadas e apresentar a sua visão sobre o lugar de cada um deles na poesia do século xx. Partindo de uma perspectiva, que foi antes de mais geracional, de reavaliação da modernidade face à tradição, de indagação estética (o tal percurso partilhado em fraterna amizade com Fernando Lanhas), mas também ideológica na marcação das suas distâncias, Fernando Guedes engloba no seu interesse por estes poetas a dinâmica concisa e complexa da estética imagista, a relação com as artes plásticas, e, muito particularmente, a sua ressonância mítica e religiosa.

 

 

Jorge Colaço

 

Excerto de um texto lido no Círculo Eça de Queirós no dia 4 de Setembro de 2014 a propósito do livro de Fernando Guedes T. S. Eliot e Ezra Pound – uma tentativa de aproximação às suas vidas e às suas obras, publicado nesse mesmo ano.

 

 

O artigo de Jorge Colaço  Na morte de Fernando Guedes (1929-2016)  aqui.

 

Algumas obras de Fernando Guedes disponíveis na Wook aqui

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 15:24  comentar

29.8.16

 

Designers Portugueses.jpg

 

na loja do Público aqui 

 

 

Mais uma óptima colecção a preço acessível sobre a história do design em Portugal. A descobrir.

 

Colecção Designers Portugueses, constituída por 13 volumes, coordenada por José Bártolo, retrata a vida e obra de 13 grandes designers. 


COLECÇÃO DESIGNERS PORTUGUESES

Coordenação de José Bártolo

© 2016 Cardume Editores e Autores

 

 

1 João Machado  

2 Daciano da Costa

3 Sebastião Rodrigues  

4 João Abel Manta 

5 José Brandão  

6 Pedro Silva Dias 

7 Jorge Silva  

8 José Albergaria  

9 João Nunes 

10 Francisco Providência 

11 Ana Salazar  

12 Toni Grilo  

13 Bernardo Marques  

 

 

 
link do postPor VF, às 18:13  comentar

27.8.16

 

 

 

letter-b_lg.gif

 

 

 

borra-botas
bor.ra-bo.tas
nome com dois géneros e 2 números
(de borrar + bota)

 

Mesmo que tenha um dia designado o engraxador desastrado ou incompetente, o termo terá acabado por se aplicar à generalidade dos lustradores de calçado. Porém, a expressão «borra-botas» passou, em momento que não se consegue descortinar, a designar o indivíduo insignificante, miserável, sem valor, sem categoria nem dinheiro. Um desgraçado. Terá esta acepção sido originada a partir da profissão de engraxador em geral ou especificamente do mau engraxador? Não sabemos. Sabemos que, na escala social, o engraxador integrou sempre um escalão muito baixo, para mais tratando-se de um trabalho sujo que se realiza curvado sobre pés do cliente. Mas a ideia de que se tivesse originado uma expressão pejorativa para designar um mau profissional não deixa de ser uma ideia curiosa. Embora também perigosa, pois seríamos obrigados a reconhecer que, em certos momentos, ou em certas áreas, se vive rodeado de borra-botas. Por outro lado, o desaparecimento dos engraxadores, outrora numerosos e indispensáveis, deu maior relevo aos graxistas, também designados manteigueiros, uma outra classe de indivíduos que partilha com os borra-botas a acepção moderna de desprezível.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

24.8.16

 

 

 

transatlantic phone call 1927.jpg

Telefonema transatlântico (1927)  

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Escrita em dia

 

 

 

“Senhoras analfabetas a porem a escrita em dia” disse para mim mesmo, numa de Alexandre O’Neill, quando as vi as duas ao fundo da Comida de Santo, raparigas do meu tempo, exercitando as mandíbulas mais na conversa do que no feijão preto. Passou-se isto antes do Facebook e da restante variedade das chamadas redes sociais – antes do skype, embora já houvesse telefones (modernice que o Marechal Foch, comandante das forças francesas na Primeira Guerra Mundial, detestava, delegando sempre que possível num ajudante de campo e desejando vivamente o seu desaparecimento em tempo de paz) telefones que permitiam e permitem, valha-nos isso, namorar horas a fio, com fios ou sem fios através do éter, emitindo ou recebendo sopros delicados nas orelhas quando tenha de se julgar em vez de se poder experimentar.

 

Esta estranheza com o que é novo e algum medo dele existiu sempre mas é muito pior do que alguma vez foi (isto é, passou a haver muito mais gente assustada com o progresso do que encantada com o progresso, pelo menos no Velho Mundo) porque, por um lado, o ritmo das mudanças técnicas nunca acelerou tanto quanto agora e, por outro lado, também graças a esse ritmo, tudo se sabe in real time (como há quem goste de dizer nestes nossos dias em vez de dizer ‘no mesmo momento’ ou ‘na mesma altura’). Dantes não era assim: a batalha de Waterloo que fixou por quase um século o destino da Europa, derrotando Napoleão e reforçando o poder da Inglaterra e dos alemães, foi travada um pouco ao sul de Bruxelas entre o nascer e o pôr-do-sol do dia 18 de Junho de 1815 mas o resultado dela, levado por estafeta que ia mudando de cavalos – com o Canal da Mancha de permeio - só foi conhecido em Londres quatro dias depois. Washington Irving, romancista americano do século XIX escreveu um conto que ficou célebre, apareceu em antologias, foi ensinado em cursos de literatura, traduzido em dezenas de línguas e se chamava O homem que dormiu vinte anos. O herói, para lhe chamar assim, dormira efectivamente duas décadas e, depois de acordar na mesma cama, encontrara ao levantar-se, no dia-a-dia restabelecido, muitas coisas novas que nunca conhecera antes e muito o perturbavam. Tenho-me lembrado dele mas pensando que, pelo andar da carruagem, daqui a quinze ou vinte anos, outro ficcionista americano dotado poderá publicar novo best-seller sob o nome “O homem que dormiu vinte minutos”.

 

Muito do que se passa agora nas tecnologias de ponta é inédito: entra na categoria das novidades absolutas mas mudanças vertiginosas de outra natureza já várias vezes assustaram gente. Por exemplo, inflações galopantes, de que a alemã dos anos 20 por ajudar à subida de Hitler ao poder ficou célebre, deram quotidianos bizarros. Amiga exilada no Brasil em 1975, no supermercado punha-se à frente do empregado que ia aumentado os preços de uma ponta à outra da loja e teve uma criada que comprava cuecas pagando em dez prestações porque assim lhe saíam muito mais baratas. 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 18:15  comentar

21.8.16

 

 

Penguin-1248 Salinger Catcher on the Rye-rc.jpg

 

 

 

Seymour'd told me to shine my shoes just as I was going out the door with Waker. I was furious. The studio audience were all morons, the announcer was a moron, the sponsors were morons, and I just damn well wasn't going to shine my shoes for them, I told Seymour. I said they couldn't see them anyway, where we sat. He said to shine them anyway. He said to shine them for the Fat Lady. I didn't know what the hell he was talking about, but he had a very Seymour look on his face, and so I did it. He never did tell me who the Fat Lady was, but I shined my shoes for the Fat Lady every time I ever went on the air again — all the years you and I were on the program together, if you remember. I don't think I missed more than just a couple of times. This terribly clear, clear picture of the Fat Lady formed in my mind. I had her sitting on this porch all day, swatting flies, with her radio going full-blast from morning till night. I figured the heat was terrible, and she probably had cancer, and — I don't know. Anyway, it seemed goddam clear why Seymour wanted me to shine my shoes when I went on the air. It made sense.

 

J.D. Salinger in Zooey (1957)

 

 

*

 

 

What stays to me the most from your books is the Fat Lady from Franny and Zooey. I remember Seymour telling his siblings to polish their shoes for the fat lady [...] I remember Zooey explaining years later to Franny that there wasn’t really a Fat Lady, that the Fat Lady is God, or that faceless unknown person in the audience for whom a performer must always do his or her best, even when we don’t feel like it, or when we’re confronted with a cold, unresponsive, audience.

 

Stephen Collins in Letters to J.D. Salinger, edited by Chris Kubica, Will Hochman

 

 

 

Letters to J.D.S..jpeg

 

 

 

 

 Leia também neste blog o post Everyone is the Fat Lady 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 11:35  comentar

20.8.16

 

 

A-16th-Century-letter-a-q85-468x500.jpg

 

 

 

acrimónia
a.cri.mó.ni.a
nome feminino
(do latim acrimonia, «acidez», «amargor»)

 

 

A acrimónia distingue-se do amargor, que é a experiência pessoal do que é amarescente, do que tem um certo travo adstringente. Do seu prolongamento na alma resulta, por exemplo, o gosto deixado pelo desgosto (o qual sendo uma experiência pessoal é muitas vezes também intransmissível), que aplicado a gente se diz amargura. A acrimónia, ao invés, embora decorrendo também do que é acre, azedo, usa-se para designar a atitude relacional marcada por maus humores, ressentimentos, ou ressabiamentos (ver ressabiamento), e se traduz em azedume, em aspereza, em má vontade, em irritação permanente.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

17.8.16

 

 

Aniki-Bobó-1942.jpg

Aniki-Bóbó, 1942

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Contas do Porto

 

 

 

A primeira vez que fui ao Porto estranhei que me aceitassem o dinheiro. Ia em trabalho e ao fim de meio dia na cidade parecia-me evidente que um escudo de Famalicão ou de Ponte da Barca incorporava muito mais capital e trabalho do que um escudo de Almodôvar ou de Vendas Novas. Eu tinha quase trinta anos, isto é, foi há muito tempo: antes da adopção do euro como moeda nacional ter atirado os escudos para museus de numismática onde já se mostravam réis e cruzados e maravedis; antes de, a seguir ao 25 de Abril, se terem mudado nomes às coisas pensando-se que assim se mudava a natureza destas (mas a Ponte 25 de Abril é a mesmíssima ponte que a Ponte Salazar e o país que adiante e atrás dela se vê não pertence nem mais nem menos ao povo do que pertencia no dia 24 de Abril de 1974); antes da morte do Doutor Salazar por mor de ter caído da cadeira de lona onde gostava de se sentar no forte de Santo António do Estoril - por ordem cronológica invertida destes acontecimentos.

 

Mais atrás ainda. Eu era elitista, sulista e arrogante. Aos 15 anos fora aprender a pintar no atelier de António Pedro, em Campo de Ourique, onde pintores do primeiro grupo surrealista português, a que ele pertencia, elaboravam um cadavre exquis (quadro colectivo de que cada autor só ia vendo a sua parte). Pedro era sábio: não me meteu em cavalarias tão altas; mandou-me fazer retrato a óleo de um boi de loiça das Caldas. Passados meses desisti de vir a ser pintor; depois Pedro foi para o Porto onde fundou e dirigiu durante anos o Teatro Experimental. Num fim de tarde de inverno chuviscoso encalhámos os dois um no outro numa paragem de autocarro na Praça dos Restauradores, em Lisboa. Depois de saudações efusivas, “Mestre” perguntei-lhe eu “Como é que se pode viver no Porto?”. António Pedro era alto, de traços finos, óculos e barbicha bem aparada. Lá de cima respondeu-me com bonomia: “Oh filho: o Porto é uma cidade de província da Europa. E Lisboa não é nada”.

 

Depois de longa ausência, entrecortada por visitas curtas com fito certo, passei o último fim da semana a flanar no Porto e o efeito desta vez foi fulgurante. Lança autoestradas para fora como os polvos lançam tentáculos, por cada uma delas se entra na cidade e se deita até à Ribeira, sem léguas de subúrbios pelo meio. E a actividade permanente que já há mais de meio século me parecera de outro mundo, acentuou-se ainda mais e varia nas muitas novas coisas que se vão fazendo. Estamos, diz-se agora, todos ligados pela internet mas haverá lugares mais intensos na ligação do que outros. O dinheiro, a moeda, hoje não me dá problemas, porque já nem é deles nem é nossa. Mas há outra coisa, mais funda. O Porto, pensei, é Portugal acordado. E que o tripeiro ainda ature o alfacinha talvez devesse espantar muita gente (escrevo à vontade por não ser nem um nem outro).

 

Mário Cesariny de Vasconcelos pôs o dedo na ferida de maneira incómoda: “Lisboa, capital do Porto”. Injusto? Talvez mas por aqui me fico.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 21:46  comentar

15.8.16

 

Wartime Lies L. Begley.jpg

 

 

 

 

… upon rereading my book, it is clearer to me than ever, that it is quintessentially a work of fiction and not an autobiography or memoir, and that I had to write the story of Maciek and Tania in the form of a novel. The form was no less necessary than the emotional distance from the events I was going to evoke conferred by exile and the passage of time.

 

Perhaps I should briefly explain what I mean when I refer to the form of the novel. I understand the convention of the realist novel — a tradition in which I place myself — to require the novelist to write avowedly invented stories that so engage the reader's interest and sympathy that, while the spell lasts, he believes they are true or, at least, suspends disbelief. Novelistic invention does not, of course, preclude use of the novelist's own experiences and observations — of himself and others — in addition to material whose connection to his actual experience may be tenuous or indiscernible as he puts words down on paper. That is because the act of writing has the power to release thoughts and images of which one has had no premonition; one did not know they were within one's ability to summon up. Of course, when the novel has at last been finished, none of the material included in it has conserved its nature, whether it be personal experience, make believe, or serendipitous dis­covery; all of it has been transformed, as though the writer were a silkworm, and the bits and pieces of memory, associations, and knowledge leaves of a mulberry bush. These characteristics of the novel as form have an importance for me that I cannot overstate. They give the freedom to invent, consistent with the profound moral and psychological truth of the story being told, that treasure as my essential prerogative, and, like the passage of time and exile, they provide a psychic screen that has permitted me to approach matters, including the annihilation of Jews in Poland, that would otherwise seem intractable, even forbidden.

 

It should by now be clear that my insistence on the fictional nature of Wartime Lies is not a form of coquetry, and has nothing to do with some bizarre need on my part to avoid embarrassment to my mother or me. Neither of us has any more cause to apologize for or be ashamed of our lies or degradation during those war years than did Tania or Maciek — if I exclude the profound shame and disgrace of belonging to the same animal species as the men and women whose cruel and vile deeds I describe.

 

 

Louis Begley

in Wartime Lies [Afterword]

© Louis Begley, 1991 Afterword © Louis Begley, 2004

 

link do postPor VF, às 00:10  comentar

13.8.16

 

 

E classic.png

 

 

 

epopeia
e.po.pei.a
nome feminino
(Do grego epopoía, de epos «palavra» + poíeo «compor»)


A epopeia clássica é um poema narrativo, composto em hexâmetro dactílico (formado por seis dáctilos, uma unidade métrica de versificação constituída por uma sílaba longa seguida de duas sílabas breves), cujo assunto são os feitos praticados por heróis, superiores em força e coragem, engenho e astúcia, mas que dependem dos deuses, os quais intervêm na orientação das suas acções.
É, porém, no mais doloroso verso lírico camoniano —«Errei todo o discurso dos meus anos»— que encontramos a única epopeia que o homem moderno ainda pode/ poderá/ poderia ser capaz de compreender. 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

10.8.16

 

img053 Estádio Nacional.jpg

 Inauguração do Estádio Nacional, 1944

Fotos: João D'Korth

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Vergonha na cara

 

 

 

 

Nuno Bragança tinha tido uma nanny de maneira que quando foi a Londres pela primeira vez, já com mais de trinta anos, os nativos com quem falava não percebiam que ele era estrangeiro. Passou lá um mês; a jantarmos na véspera de se ir embora perguntei-lhe o que achara. “Levaria muito tempo a habituar-me a viver aqui mas a Portugal sei que nunca hei de me habituar.”

 

Com efeito assim foi e o problema não era só do Nuno; o sentimento também assalta muitos que não acabam matando-se. Para Alexandre O’Neill era uma moinha permanente: “Portugal, questão que tenho comigo mesmo”. No meu caso, o incómodo deve vir do Pai que tive. Nos meus primeiros anos de liceu, era director do Centro de Saúde de Lisboa; todas as manhãs um automóvel o vinha buscar, que o trazia à noite (e muitos dias também para almoço que nessa altura comia-se mais em casa do que hoje). A Escola Valsassina, onde o João e eu andávamos, era a caminho do Centro mas nunca pusemos o rabo naquele carro porque um carro de serviço não servia para levar meninos ao liceu. O civismo ia mais longe. A CUF convidou o Pai para dirigir a parte de saúde pública dos seus serviços médicos. Era um lugar novo e aliciante mas havia uma condição: que ele prescindisse de intervenções políticas (não tinham passado da assinatura de alguns abaixo assinados contra o regime; nem sequer era comunista). Quando ele recusou, o médico que lhe transmitira o convite tentou demovê-lo, perguntando-lhe se ele não se lembrava de que tinha filhos. “É exactamente por me lembrar de que tenho filhos” respondeu o Pai.

 

Só comecei a dar-me conta daquilo a que alguns gostam de chamar o “país real” e outros o “Portugal profundo” já na universidade, alguns anos depois do Pai ter morrido. Mandara fazer um sobretudo e o alfaiate teve de mudar a data de uma prova para ir ao Minho testemunhar num julgamento. Contou-me depois: “O Senhor Doutor está a ver, o Juiz queria que eu dissesse a verdade mas eu…”.

 

Outros anos passaram. Virei antropólogo, veio o 25 de Abril, o PREC, a descolonização mas um ano depois disso tudo já se tinha percebido que o país mais parecido com Portugal antes do 25 de Abril era Portugal depois do 25 de Abril. Um dia disse ao Vitor Cunha Rego que meu pai me ensinara serem os portugueses um povo maravilhoso, oprimido por uma cáfila na qual o bandido-mor era Salazar. “Pois é” respondeu o Vitor “eu também tive um pai assim. E é grave um homem aos cinquenta anos descobrir que o pai era parvo”.

 

A identidade entre o país da Exposição do Mundo Português e o país da CPLP parece hoje quase completa. Pelo menos do ponto de vista moral. Em 1944, quando foi inaugurado o Estádio Nacional, avionette lançou sobre o público milhares de panfletos dizendo “O que nós queremos é futebol!” e explicando porquê.

 

Havia censura prévia e a imprensa – jornais e rádio – não podia contar de viagens duvidosas de secretários de estado. Agora pode e conta mas ganhamos as mesmas. Já ninguém terá vergonha na cara?

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

9.8.16

 

 

simone-biles-gymnast-olympics-usa-team.jpg

 

Simone Biles fotografada por Norman Jean Roy para a Teen Vogue, Abril 2016

 

 

“Simone trains hard, but she also has uncanny air awareness. She can judge where she is in relation to the ground, even when she’s upside down. Some things you just can’t teach.”

 

o artigo The Full Revolution na revista The New Yorker aqui

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar

6.8.16

 

 

P for Pamela Pinterest.jpg

 

 

 

 

palinódia
pa.li.nó.di.a
nome feminino
(do grego palinodía, canto diferente)

 

 

Como género literário da Grécia antiga era uma retractação, que servia ao autor para desdizer ou desmentir o que dissera num canto anterior. Nem sempre é fácil perceber se tais retractações eram sinceras, mas é um facto que a palinódia se tornou uma forma poética que teve a sua fortuna. Estesícoro, no século VII-VI a.C., terá sido o primeiro a usá-la. Leopardi, já no século XIX, retomou o género na «Palinodia al marchese Gino Capponi», que a certa altura diz assim: «Vendo isto/ e meditando profundamente sobre as largas/ folhas, de minhas graves, antigas/ ilusões e de mim próprio senti vergonha.»* (tradução de Albano Martins). Em português, tanto na variante brasileira como na europeia, o termo designou, pelo menos a partir do século XIX, a mudança de opinião, sobretudo política, sem rasto da retractação original. Isto é, sem vergonha.

 

 

*Così vedendo,/ e meditando sovra i largui fogli/ profondamente, del mio grave, antico/ errore, e di me stesso, ebbi vergogna.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

3.8.16

 

 

Bad-war.jpg

 

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Fim de festa

 

 

 

 

Saiu o ano, entrou o ano. No topo do Estado dois chatos tristonhos deram lugar a dois faroleiros alegres e parece que o povo gosta assim. Ao menos anda a gente distraída, Senhor Doutor. Não ficámos menos pobres mas passámos a viver com mais gosto, dizem-me médicos de Lisboa e mestres d’obras de província. E nesta aventura inédita a que chamamos Europa – já lá vai mais de meio século sem andarmos à estalada uns aos outros (e sem batermos em pretos) – há muitos que nos invejam por esse mundo fora, apesar do mal que gostamos de dizer de nós próprios. Mas será preciso acordarmos e ganharmos juízo porque a papa doce está a acabar.

 

Não acabaria nunca enquanto a União Soviética existisse e a Alemanha estivesse dividida. (Gosto tanto da Alemanha que prefiro que haja duas – lembrava o General De Gaulle). O medo que o Camarada Estaline e os seus herdeiros nos metiam nos ossos tinha efeito salutar nas nossas decisões de europeus do Ocidente: dava força e razão ao que nos unia, punha de lado o que nos afastava e a construção europeia não parava. Se idade e doença não tivessem levado tão depressa desta para melhor os dois predecessores imediatos de Gorbachev, a perestroika e o colapso da União Soviética só teriam chegado dez anos depois, com a União Europeia já pronta para entrega aos europeus, chave na mão, pelo empreiteiro Delors ao serviço do casal franco-alemão (gravado para todo o sempre na sabedoria das nações por Mitterrand e Kohl de mão dada em Verdun).

 

A reunificação alemã deu cabo desse casal. Como no drama de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa, que dantes se estudava no liceu, o primeiro marido afinal ainda estava vivo. “Perdida, desonrada, infame” grita da filha inocente a bígama involuntária quando tal descobre, antes de se fechar num convento a expiar a culpa até ao fim da vida. Para a Alemanha Reunida, o centro da Europa passou a ser a Leste. Tem algum respeito ainda pelo Noroeste protestante, à cabeça os holandeses, heróis de Srebrenica e gente de contas certas; Inglaterra indispensável para equilibrar França que não só descobriu que não manda na Europa (tempo foi em que Kohl dizia que o Chanceler alemão, quando ia ver o Presidente francês, devia começar por fazer três reverências) mas também que nem sequer em si própria manda - com os ingleses a irem-se embora, como é que vai ser? – e os de Sul e Sueste que se arranjem, punidos com cegueira analfabeta, norteada por calendários eleitorais teutónicos. Até à reunificação, a Alemanha Ocidental expiara exemplarmente a sua gigantesca culpa (ajudada por perdão de dívida que afastava fantasias de ir para Leste) mas, depois de reunida, a tentação de ser alemã e não cidadã europeia cruza cada vez mais cabeças, deixando mais nódoas negras nos vizinhos.

 

Enquanto a Europa se afunda. Quando agora o Sultão de Istanbul acusa as potências ocidentais de conspirarem contra ele, as potências em vez de mandarem canhoneiras para o Bósforo desfazem-se em desculpas de mau pagador.

 

 

link do postPor VF, às 14:04  comentar

30.7.16

 

 

 

B van Bibliotheek den Haag.jpg

 

 

 

 

bambúrrio
bam.búr.ri.o
nome masculino
(possivelmente do baixo latim bamburrus)

 

 

Sorte inesperada; acaso feliz ou maré de acasos felizes – não procurados, nem planeados – que tilintam (de forma real ou simbólica) como o jackpot de uma máquina onde não se tinha introduzido qualquer ficha. Oportunidade caída do céu. Casualidade; ganho inexplicável. Bafejo do destino. Golpe favorável que intimamente se conhece, mas não se reconhece publicamente, pois isso seria admitir a parca, ou nula, contribuição do bafejado no processo que conduz a tão benigno resultado.

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

27.7.16

 

 

Marie_Eléonore_Godefroid_-_Portrait_of_Mme_de_Sta

Germaine de Staël

(Marie Eléonore Godefroid segundo François Gérard)

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

O passado e o futuro

 

 

 

 

 

Cosimo de Medici, o mais sábio e ponderado de ninhada de irmãos florentinos de que o mais vaidoso era Lourenço, o Magnífico, banqueiro respeitadíssimo e homem de trato exemplar - dava sempre a parede a pessoas mais velhas (no seu tempo as ruas de Florença não tinham passeios e quando nelas se andasse “dar a parede” , fosse à direita ou à esquerda, era sinal de deferência) – dominava práticas financeiras novas que no seu tempo animavam o comércio internacional europeu e era, nesse sentido, um homem virado para o futuro. Mas, por outro lado, detestava a invenção da imprensa por Gutenberg, não porque esta tivesse tirado valor à sua biblioteca de incunábulos mas porque leitura era exercício requintado que não se compadecia com a vulgaridade dos paralelepípedos de papel a que chamamos livros, saídos em quantidades industriais das prensas tipográficas. Para Cosimo, a Renascença fora manchada pelo aviltamento de uma das mais refinadas experiências humanas e, nesse sentido, era um homem do passado. Lembro-me dele às vezes, escrevendo onde escrevo agora: penas (plumas) propriamente ditas já tinham desaparecido quando aprendi a redigir mas canetas de molhar o aparo na tinta, canetas de tinta permanente, máquinas de escrever – comecei por uma Olivetti lettera 22 – que passaram a eléctricas, vi um dia no Diário de Notícias que Jimmy Carter estava a escrever as memórias dele num “word-processor”, até ao computador que uso agora e me obriga de vez em quando a pedir ajuda ao Cipriano que, sem sair do escritório dele, entra no meu écran e, enquanto o diabo esfrega um olho, em série de cliques que obedecem a gramática que não conheço, acaba com o impedimento ou corrige o desvio que me levara a telefonar-lhe. (Isto, na escrita. Quanto à leitura, enquerenço como Cosimo embora não em incunábulos mas sim em livros impressos em papel - assim fazem touros em Praças que não saem de um lugar por muitas capas que lhes metam pela frente. Não julgo que alguma vez me meta a ler um livro electrónico – é assim que se diz? – nem mesmo em leituras de verão, onde a modernice poupa imenso espaço dentro das malas de bagagem que se levem para férias.

 

A propósito, não só nisso os antigos eram diferentes dos modernos. Hoje, chegado o Verão, os europeus vão para férias. Antigamente iam para a guerra. Deixando memórias vivas, mesmo em país neutro aonde havia férias (agradeciam as mães portuguesas ao Dr. Salazar, a despropósito, pois fora Franco que travara qualquer apetite de Hitler para invasão da Península Ibérica). Lembro-me como se fosse hoje do Pai chegar ao Estoril ao fim da tarde e dizer que a guerra tinha começado.

 

Com a Europa a esfrangalhar-se, Trump na maior, o Czar e o Sultão sem ganharem tino, gente nova cheia de sangue na guelra, correcção política que não deixa pôr nomes aos bois e divórcio entre elites e povos parecido com o que alarmou Madame de Staël durante a Revolução Francesa, talvez os nossos verões tornem a pegar fogo.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

23.7.16

 

 

C Celtic.jpg

 

 

contubérnio
con.tu.bér.ni.o
nome masculino
(do latim contubernium, «camaradagem ou comunidade de tenda»)

 

 

Na Roma antiga designava a união conjugal entre escravos ou mesmo entre escravos e pessoas livres. Por extensão passou também a designar o concubinato ou a mancebia em geral, fazendo a ponte com uma certa ideia de vida dissoluta ou espúria (ver espúrio). Restringido à vida boémia, o contubérnio refere-se sobretudo à camaradagem, não implicando a vida em comum. Porém, na realidade, o tipo de convivência implícita no contubérnio é uma ideia de comunidade familiar. O termo, hoje geralmente caído em desuso, poderia designar, com vantagem, certos casos espúrios de aliança política ou certos alinhamentos do que habitualmente se chama coabitação.

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

20.7.16

 

 

donald-trump-nigel-farage-1.jpg

 Donald Trump e Nigel Farage

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Mundo novo

 

 

 


Pedro Pires de Miranda, com quem tive a honra de trabalhar quando ele era ministro dos negócios estrangeiros (“A política externa é óptima: só se tem inimigos!” disse-me uma vez - e outra vez, quando eu o informava que com três pessoas não conseguiria levar a cabo tarefa de que me encarregara, perguntou-me “Já experimentou com duas?”) pediu-me ao jantar em que o conheci que eu lhe pusesse, para o dia seguinte, em meia página, as diferenças entre as posições da OTAN e do Pacto de Varsóvia na Conferência Europeia de Segurança, em Estocolmo, onde ele viera acompanhar Mário Soares, Presidente da República, ao funeral de Olaf Palme (primeiro ministro sueco assassinado) e onde eu vivia, chefiando a delegação portuguesa à Conferência. No papel que lhe entreguei quando ele ia apanhar o avião escrevera meia dúzia de frases. A primeira, em inglês (língua franca da diplomacia, onde eu estava, e dos negócios, donde ele vinha), tocava no nó do problema: “We are right and they are wrong” (Nós temos razão e eles não). O mundo era menos complicado do que é agora.


Pedro foi-se embora há pouco tempo, eu ainda por cá ando mas nos trinta anos desde esse enterro nórdico especial (o assassino de Palme andava a monte, não se sabia quem era nem se havia cúmplices, desabaram sobre a cidade num fim de semana chefes políticos do mundo inteiro e, para preocupação suplementar dos serviços de segurança suecos, Shimon Peres, PM de Israel, no sábado, em vez de ir como os outros em carros mais ou menos blindados, foi a pé aos lugares onde tinha de se ir) desde esse enterro, dizia, os que tínhamos razão, ganhámos a guerra fria – e a Rússia perdeu-a - sem termos de dar um tiro. Éramos os melhores, os mais fortes, os mais ricos e ainda por cima, para algumas almas optimistas a História tinha acabado. Só que, como escreveu Nelson Mandela, quando se chega ao cimo da montanha que se está a subir descobre-se que há outra montanha que tem de se subir também, depois dessa mais outra ainda e por aí fora.


Ora para as montanhas que se seguiram e para a cordilheira que se vislumbra até onde a vista alcança nem nós nem os americanos - Atenas e Roma do mundo de hoje, houve quem gostasse de pensar - temos mostrado grande jeito. Perante a decadência do Ocidente (será finalmente desta?) avultam novos poderes – China, Índia; menos grandes mas incomodamente perto, a Rússia de Putin, segunda potência nuclear do mundo, batoteira das Olímpiadas, invasora de vizinhos e a Turquia, onde o islamista Erdogan venceu golpe militar pondo o povo na rua pelo FaceTime do seu iPhone – mas o podre vem de dentro.


Na pátria da Magna Carta, políticos encartados mentiram escandalosamente a eleitores que mostraram ignorância abissal e fartura sem remédio das “elites” - como se chama agora a quem saiba ler e escrever e tenha onde cair morto. Do outro lado do Atlântico, “Nós, o povo” reduziu a duas as pessoas entre quem escolher para suceder a Barack Obama e uma delas é Donald Trump. 

 

 

 

   

link do postPor VF, às 08:00  comentar

16.7.16

 

 

 

E modern.jpg

 

 

 

 

eclectismo
e.clec.tis.mo
nome masculino
(do francês éclectisme)


Na história das ideias corresponde à formação de um corpo doutrinário composto por elementos colhidos em, ou aproveitados de, diversos, e por vezes contraditórios, sistemas de pensamento. Equivalente a manta de retalhos. Modernamente é muitas vezes assimilado ao sincretismo, de que é uma forma. Nos tempos que passam, é, geralmente, reflexo da atitude relativista reinante, da construção de um sistema em que todas as coisas se equivalem (há quem diga que tudo é bom — sobretudo nas artes, mas não só — desde que — cláusula misteriosa — seja «de qualidade»). Aplicado mais habitualmente ao pensamento e ao gosto, em política pode assumir facetas particularmente sinistras. Com a decadência das verdades únicas e absolutas, e apresentado como virtude, o eclectismo confunde-se, na maior parte dos casos, erradamente, com heterodoxia, de que não é sinónimo, pois esta configura um entendimento do mundo não conforme a uma visão ou regra dominantes, claramente assente na liberdade de espírito (sendo que a liberdade é a mais severa disciplina do espírito).

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:00  comentar

13.7.16

 

 

trading-floor-1.jpg

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Barroso, Goldman Sachs e bom senso

 

 

 

De há uma dúzia de anos para cá, no calendário cinegético deste maravilhoso país que tão generosamente nos acolhe no seu seio – assim chamava a Portugal amigo inglês que cá vivia e já esticou o pernil – abre de vez em quando a caça ao Barroso. (Os nossos compatriotas atiradores à espécie folgam quando franceses rompem também o defeso. Franceses a cuja visão marxista primária do mundo se junta nessas alturas indignação escandalizada pelo triunfo do filho da concierge. Michel Rocard disse uma vez a Barroso que mesmo que ele cantasse a Marselhesa e erguesse ao alto o estandarte tricolor a esquerda francesa nunca o toleraria).

 

A pulsão condenatória nacional tem raízes mais variadas do que a estrangeira, nutrida por todos os horrores da alma humana. Inveja, empertigamento moral e ignorância fazem má mistura, da qual saem comentários nos jornais, nas telefonias, nas televisões, nas “redes sociais” e nas conversas. Num caldo de cultura de má-fé e má-vontade.

 

No cargo que Barroso vai agora ocupar em Londres – Presidente não executivo de Goldman Sachs International – esteve durante uma década, até ao ano passado, o irlandês Peter Sutherland  (o melhor Presidente que a Comissão Europeia não teve: política interna irlandesa impediu o que haveria sido escolha unânime) que foi Comissário Europeu e criou o programa Erasmus, Representante do Secretário-Geral da ONU para Migração, pilotou a transição de GATT para OMC, presidiu à BP, preside à Comissão Católica Internacional sobre Migração, tem vários outros encargos e a mais alta das reputações no mundo em que política e economia internacionais se entrecruzam. Encontrar sucessor à altura não terá sido fácil até Goldman Sachs decidir convidar Durão Barroso.

 

Ouviu-se e leu-se logo um coro de protestos, de entrada esperançados numa ilegalidade. Como esta não existe procuraram, também em vão, conflito de interesses. Por fim trataram Barroso como se fosse um traidor que se tivesse posto ao serviço do inimigo. Tal é, evidentemente, absurdo mas, como essa evidência parece escapar a muitos, vale a pana recordar algumas coisas elementares.

 

Durão Barroso, que foi presidente incansável da Comissão Europeia, vai agora presidir a Goldman Sachs. Mesmo a mais eurocéptica das cidadãs terá de reconhecer que é dever da Comissão - que nos próximos anos não terá mãos a medir na definição das novas relações entre o Reino Unido e a União Europeia - obrar pelo bem dos europeus. Por sua vez Goldman Sachs tem todo o interesse em que essa definição garanta a melhor articulação possível entre a praça financeira de Londres e a Europa Continental, como terá de reconhecer mesmo o mais eurofílico dos cidadãos europeus. A escolha de Durão Barroso faz assim o maior sentido e merece parabéns.

 

Salvo, claro, para quem ache que banqueiros – homens de negócios em geral - são cambada de gatunos apostada em esbulhar o povo e o alto funcionalismo internacional um bando de lacaios do capitalismo.

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar

9.7.16

c_16767_md

 

 

contemporizar
con.tem.po.ri.zar
verbo transitivo e intransitivo
(de con + temporizar)

 

Ceder aos tempos e às circunstâncias. Deixar-se torcer, ou torcer-se, para não quebrar. Acomodar-se. Fingir que se gosta do que na realidade não se gosta. Transigir. Consentir. Resignar-se. Desistir. Confunde-se por vezes, na prática, erradamente, com manifestação de tolerância (ver tolerância). Em certos enunciados poderá aparecer com o sentido de «dar tempo» ou «ganhar tempo», o que pode ter carácter benigno nalguns casos e ser fatal em muitos mais. Raras vezes significa estar à altura das circunstâncias; na maior parte dos casos adquire mesmo um sentido oposto.

 

 

 

link do postPor VF, às 13:14  comentar

6.7.16

Xarope_de_Capile.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Errata

 

 

 

Sempre tive dificuldades com a ortografia de nomes. De gentes e de sítios. Escrevi uma vez Camões com z no fim, abaixo de O homem que for sisudo/Numa tão grande questão/Terá de tomar por escudo/A justiça e a razão/Que estas armas vencem tudo, versos que escolhera para citação de abertura em apontamento douto e terso sobre política europeia  -  mas dei por isso e emendei antes de o mandar por e-mail ao seu ilustre destinatário. Outra vez, há muito mais tempo, numa série de textos publicitários curtos, encomendados por Eduardo Calvet de Magalhães, escrevi várias vezes Carcave-los, como se carcaver fosse um verbo, mas também dei por isso antes de os entregar, comentando o percalço com Calvet. (Lembrando-me dele agora, ressinto a injustiça do seu esquecimento. O mano Manuel, pedagogo, tal renome teve que lhe deram nome de rua e tudo. O nome do mano José, embaixador, é venerado no Palácio das Necessidades como uma das sumidades diplomáticas da segunda metade do nosso século XX. Do Eduardo ninguém fala, embora tenha introduzido a publicidade moderna em Lisboa e no Porto e, entre a chegada da Canada Dry e a chegada da Coca Cola, ter imaginado o refrigerante que mais conviria a Portugal - capilé gaseificado - para publicidade do qual até inventara slogan: “A bebida que lhe corre nas veias”).

 

Na semana passada tornei a disparatar: chamei a Louise de Vilmorin, Louise de Villemorin. Quando dei por isso, avisei a Vera que corrigiu logo no blog e, por conseguinte, o bloco que anda no éter (é assim que se deve dizer?) está como deveria estar mas as poucas amigas e amigos a quem todas as semanas mando directamente o pdf  – ces êtres malhereux, aimables, charmants, point hypocrites, point “moraux”, assim lhes poderia haver chamado Stendhal, ou We few, we happy few, we band of brothers proclamaria talvez, imune a correcção política, Shakespeare quando estava em ‘mode’ heroico  ficaram com o erro por corrigir. A todas e a todos, quer tenham lido esse Bloco-Notas quer não e, se o leram, quer tenham dado pelo disparate quer lhes tenha escapado, aqui e agora deixo o nome bem soletrado da amante principal de Duff Cooper em Paris (mais tarde amante de André Malraux que depois da morte dela herdou no leito sua sobrinha Sophie, também de Vilmorin, conta esta num livro).

 

Assobios para o lado, tudo quanto escrevi acima. André Gide dizia, no Paris dos anos 20 do século passado –“ les années folles” – que às vezes lhe parecia haver mais artistas do que obras de arte. Em Portugal - na Europa - de 2016, às vezes parece haver mais comentadores do que factos a comentar. Sou suspeito por ser eu próprio comentador mas ao acordar de manhã já o mundo está a ser batido em gigantesca montanha de claras em castelo, perfumadas com o aroma do dia. Omnipresente mas efémera conversa de treinadores de bancada, lembra o mano João, com Schadenfreude de quem arranca ternas figuras à brutidão dos calcários e nelas deixa os seus estados de alma per omnia secula seculoram. Amen.

 

 

 

link do postPor VF, às 08:00  comentar


pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo