24.6.17

 

 

Montras c. 1960 

Montra-1

O tesouro!... 

 

Montra 3

A mensagem 

 

Montra 2

Páscoa Feliz

 

 

 

montra 4

 

Para onde for leve sempre consigo a sua PARKER

 

 

 

Papelaria da Moda papel

 

Mais sobre as Papelarias Progresso e da Moda AQUI  e AQUI 

 

 

 

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21.6.17

 

Statue_of_Liberty,_NY

Estátua da Liberdade, Nova Iorque

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

100 milhões de emigrantes

 

 

 

Na União Europeia, cada reformado, como eu, é sustentado pelo trabalho de 4 pessoas activas. Prevê-se que em 2050, no mesmo grupo de países, cada reformado seja sustentado pelo trabalho de duas pessoas activas. Expressão daquilo a que se chama a crise demográfica europeia. Por outras palavras, por muito que se racionalizem os métodos de produção incluindo robots e inteligência artificial - ajudas que seriam preciosas se robots pagassem impostos e consumissem bens e serviços; mas nem os pagam nem consomem – precisamos na Europa de muito mais mão de obra do que a que temos. As empresas que no mundo moderno fazem o que nas ruas do Portugal tradicional costumavam fazer as ciganas, isto é, prever o futuro, estimam que, em meados do século XXI, precisaremos de mais cem milhões de emigrantes dos que já cá temos, senão estará o caldo entornado. (A menos que, entretanto, se haja decidido que velhas e velhos, chegados a certa idade, sejam postos de parte por meios não violentos, com se faz com animais domésticos. Julga-se improvável tão cedo mas o progresso nos nossos dias é veloz como o pensamento).

 

Ora os europeus, por mais cristãos que sejam, não parecem às vezes amar a Deus sobre todas as coisas e, muito menos ainda, amar o próximo como a si mesmos. Sobretudo se esse próximo (chamemos-lhe retoricamente assim) não for nem cristão nem branco, o que é o caso de muitos emigrantes que cá arribam – ou morrem no Mediterrâneo em tentativa dispendiosa e vã de cá chegarem. Vai haver mais agora porque é Verão.

 

Vivendo em lugares confortáveis, dando-nos com gente bem educada, lendo jornais com correccão política suficiente mas não ridiculamente exagerada (como na América) com anos de boa educação formal a defenderem-nos, sem termos de pensar nisso, das nuvens por Juno contadas às crianças e explicadas ao povo, agora espalhadas pelo uso ganancioso e nocivo de algoritmos, a maior parte do tempo não percebemos bem em que mundo vivemos nem os seus riscos – e espantamo-nos quando a realidade nos dói. Uma noite destas, inglês das classes trabalhadoras atropelou deliberadamente fieis muçulmanos, que disse odiar, à saída de mesquita em Londres, naquilo que, da Senhora May à BBC, chamaram um incidente, só depois corrigindo para terrorismo. E homem de letras português meu amigo, lamentou o fogo por má construção, também em Londres, que matou “aquela pretalhada toda”.

 

Mais 100 milhões de emigrantes até 2050? Não creio. Nos Estados Unidos, apesar do alarido de Trump contra o Islão, é diferente. Todo o país, salvo Comanches & Cia, é emigrante. Em Princeton, o António Tabucchi e a Zé perguntaram-me o que eu achava de pedido de desculpa aos negros por causa da escravatura, causa querida de Susan Sontag, em casa de quem tinham estado em Nova Iorque. Respondi que, a haver desculpas a pedir, não seria aos descendentes dos africanos trazidos de África para a América como escravos, mas aos descendentes dos africanos deixados em África.

 

 

 

 

 

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14.6.17

 

 

saint-John Perse

 Saint-John Perse

José Cutileiro

 

 

  

Ir ver o Sr. Terry

 

 

 

Há cinco anos, depois de eu me esquecer às vezes de coisas de que costumava lembrar-me sempre, minha mulher sugeriu que eu deveria ir consultar um técnico, especialista que me examinasse e pudesse verificar se eu mostrava sintomas de Alzheimer.

 

“Pagar e morrer, o mais tarde que possa ser!” afirmava, didático, milionário meu conhecido que, a meio da assinatura de um cheque, depois da caneta ter já traçado parte do gatafunho, parava uma fracção de segundo, como se a mão lhe doesse, antes de rematar diminuição irrevogável de liquidez. Por razões longas de enumerar, assisti há muitos anos a sessão em que guarda-livros lhe ia pondo cheques em frente para assinar, cada um deles sobre páginas que justificavam o dispêndio, e foi preciso sempre vencer a hesitação final.

 

Eu sou assim com médicos, sobretudo médicos que não conheça, e vou adiando o mais que possa. Depois habituo-me, mas mesmo os raros por quem ganho devoção – sem ela, consultas não servem de nada – visito espaçadamente. (Em parte, porque tenho a impressão de estar a tirar-lhes tempo com o meu moi haïssable).

 

Procurei ganhar tempo, como funcionário público sorna, mas sem perder de vista que o propósito da busca era encontrar o melhor especialista, cinco léguas em redondo. O meu endireita – na tabuleta diz osteopata e tem, a seguir ao nome, iniciais equivalentes, na arte dele, a óptima região de origem controlada – formou-se e trabalhou anos num centro reputado de neurologia, de maneira que comecei por lhe perguntar a ele. Comecei e acabei. Deu-me o nome e as coordenadas do especialista que deveria ir consultar.

 

Não era médico, tendo só direito a Senhor, e tinha agenda carregada mas, devido, segundo a secretária, a desistência, recebeu-me mês e meio depois do meu primeiro telefonema. O exame passava-se em duas sessões de duas horas, em dias diferentes. Acabado o primeiro dia perguntei-lhe o que achava. “Digo-lhe no fim” respondeu.

 

“O Senhor Terry é casado?”

“Sou, porquê?”

“O que é que eu digo à minha mulher?”

“Que não esteja preocupada” respondeu o especialista e sorriu, cúmplice.

 

Estou agora noutra de esquecimentos e a minha mulher acha que devo ir ver o Sr. Terry outra vez. Eu acho que não vale a pena porque continuo a saber de cor grosas de versos. “Tudo coisas que aprendeu quando era novo”. É verdade, mas fixei outro dia um poema de Saint-John Perse. Aqui vai, também para a leitora.

 

 

J'honore les vivants, j'ai face parmi vous.

Et l'un parle à ma droite dans le bruit de son âme

et l'autre monte les vaisseaux,

le Cavalier s'appuie de sa lance pour boire.

(Tirez à l'ombre, sur son seuil, la chaise peinte du vieillard.)

 

 

J’honore les vivants, j’ai grâce parmis vous.                                                                        

Dites aux femmes qu’elles nourrissent                                                                                      

qu’elles nourrissent sur la terre ce filet mince de fumée…                                                      

Et l’homme marche dans les songes et s’achemine vers la mer                                            

et la fumée s’élève au bout des promontoires.

 

 

J’honore les vivants, j’ai hâte parmis vous.                                                                        

Chiens ho! mes chiens, nous vous sifflons…                                                                            

Et la maison chargée d’honneurs, et l’année jaune entre les feuilles                                  

sont peu de chose au coeur de l’homme s’il y songe:                                                      

tous les chemins du monde nous mangent dans la main.

 

 

 

“My name is Zheimer, Al Zheimer” diz sempre o mano João quando se fala destas coisas. 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                        

 

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7.6.17

 

 

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Berlim, 1989

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Birras ou guerra?

 

 

Poucos ricos, muito ricos; muitos pobres, muito pobres; fosso entre os dois a crescer: assim vai o nosso mundo. É receita para grande desastre, estimulada pela ganância de Wall Street e de outras praças financeiras – em toda a parte, cada vez mais PDGs são premiados por lucros a curto prazo. A diferença entre o que ganham os administradores executivos de grandes companhias e o que ganham os empregados menos bem pagos destas duplicou várias vezes desde o tempo há quarenta anos em que toda a gente parecia estar mais feliz do que alguma vez estivera (e do que está agora), nos Estados Unidos da América e na Europa Ocidental (e a tendência não dá sinais de abrandar, pelo contrário).

 

Tempo houve em que na Áustria políticos cristãos-democratas e sociais-democratas se alternavam no poder e distribuíam pelas clientelas respectivas benesses e prebendas financiadas pelo contribuinte. Com toda a gente, ou quase, sentada à mesa do orçamento, não havia revolucionários, ou sequer conspiradores. A Áustria viveu sob acordo entre a União Soviética e os três grandes do Ocidente, também vencedores da segunda guerra mundial e, se só ela estava proibida, por tratado, de aderir à Aliança Atlântica, aos outros neutros da Europa – Irlanda, Suécia, Finlândia – a União Soviética metia respeito igual ao que metia aos membros europeus da Aliança. Para cá da cortina de ferro e do arranjo sui generis da Jugoslávia, todos nos íamos governando – ou sendo governados – de maneira parecida.

 

Agora temos saudades – ninguém, por enquanto, inventou e pôs em prática coisa melhor, pelo contrário. À geração já matura mas ainda activa dos nossos dias, cabe o duvidoso privilégio – contrariando a experiência de três gerações anteriores consecutivas – de deixar os filhos mais pobres do que os pais tinham sido (excepto, mais uma vez, entre os muito ricos). A chamada terceira via de Tony Blair e do professor da London School of Economics que o inspirou – a arte de diminuir as pensões de velhinhas pobres com boa consciência, chamava-lhe cínico na nossa praça – acabou por não convencer ninguém. A social-democracia alemã – e a sueca – cansaram os eleitores. Transformado em poder por François Mitterrand, que não era socialista mas era artista, o socialismo francês deu cabo do comunismo estalinista francês, apoderou-se da noção de estado-jiboia que tudo come à sua volta e acabou por rebentar: nas eleições legislativas deste mês nem chegará a dez por cento dos votos. Simultaneamente, a direita francesa desconjuntou-se. Os americanos elegeram Trump. Os povos mais ricos e bem tratados do mundo, como meninos mimados, fazem birras.

 

O homo sapiens, também conhecido por bicho homem, gosta do mal e precisa dele dizia, salvo erro, George Orwell e, certamente, algum Doutor da Igreja. Como se meio século de paz não chegasse, vieram demãos de correcção política e a besta zangou-se.

 

Esperemos que cheguem dois ou três grandes sustos para a meterem nos eixos – sem guerra.

 

 

 

 

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31.5.17

 

Jean-Michel-Basquiat-50-cent-Piece.-1983

 Jean-Michel Basquiat, 1983 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

 

Não há de ser nada

 

 

Leitora querida, duas gerações abaixo da minha, jurista – o que ainda me impressiona sempre, é uma espécie de microtraumatismo para a minha mente moldada em fôrma alentejana anarquista na qual o pai proíbe o filho de em crescido ser padre, soldado ou advogado - metida num desses programas europeus para a educação superior que vão sob o nome geral de Erasmo, levam gente nova de um lado para o outro a encontrar outra gente e, logo por isso, não teriam desagradado ao sábio de Roterdão do Elogio da Loucura, mandou-me dizer o seguinte:

 

A marcha da tecnologia é um problema bicudo, mas não há de ser o fim do mundo. Admito que me irrita um pouco a jovialidade com que os jornais gostam de proclamar semana sim, semana não, o antecipado fim da profissão X ou Y (às vezes incluindo o da minha-a-partir-do-ano-que-vem-com-sorte). Mas se nos conseguimos – mais ao menos e depois de muita tareia – adaptar às mudanças da revolução industrial, não vejo porque estas serão diferentes. O ritmo assusta, é certo, e não digo que nos esperam rosas, mas alguma coisa se haverá de arranjar.”

 

That’s the spirit!” teria eu reagido, nos meus anos ingleses, tão diferentes dos anos de hoje em Inglaterra ou seja onde for. O ritmo realmente assusta. Em A Cidade e as Serras, Zé Fernandes, vê fita de papel sair de máquina em casa do seu amigo Jacinto (que tinha nascido com cento e nove contos de renda em fartas terras de semeadura, de vinhedo, de cortiça e de olival – e cento e nove contos no fim do século XIX eram muitíssimo dinheiro) no número 202 dos Campos Elísios, fita onde está escrito que a fragata russa Azoff entrara no porto de Marselha com avaria e pergunta a Jacinto porque é que aquilo lhe interessa. “É uma notícia” responde o anfitrião e hoje estamos todos como ele. Smartphones, tablets, computadores, emails, twitts, Facebook, Skipe, WhatsApp, etc., etc., etc., deixam-nos ao fim de cada dia – que a rotação da terra, tirando ou pondo um minuto por século, essa ainda é a mesma - com milhares de fragatas russas avariadas em centenas de portos dentro da cabeça. Eu sei que o saber não ocupa lugar (houve a certa altura colecção de livros de divulgação chamada assim) mas o que entra todos os dias parece incomensurável - e, de qualquer maneira, serão precisos instrumentos inéditos de medição no bravo mundo novo da post-verdade.

 

Cada homem é uma ilha, escreveu o poeta. Em 1968, em Oxford, ainda assim parecia ser. M.S. Lourenço e eu inventámos poeta escocês romântico esquecido, redescoberto e analisado pelos filólogos oxonianos Marks, judeu, e Spencer, goyim, de cujo nome já me não lembro mas de quem sei ainda de cor a tradução – feita por nós do original inglês – de um verso: “Já do teu sentimento conhecimento não tinha.” Graças à mania inveterada de fazer partidas de M. S. estivemos quase a mandar curto artigo sobre ele a uma das nossas revistas literárias, seguros de que os nomes dos filólogos não poriam de fora o rabo do gato. Bons tempos.

 

 

 

 

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24.5.17

 

Domingo Ortega 1

Domingo Ortega

 

 

José Cutileiro

 

 

Hidrogénio ou Hydrogénio?

 

 

 

O Dr. Miranda de Lemos, professor de ciências naturais na Escola Valsassina, muito velhinho aos meus olhos de gaiato, marcava-nos erro em pontos e redacções se escrevêssemos hidrogénio sem ypsilon, como se devia escrever segundo a ortografia oficial da altura, que não era sequer nova em folha. Em 1911, logo a seguir ao derrube da monarquia – o galicismo mais pesado em consequências cometido pelo peito ilustre lusitano a quem Neptuno e Marte obedeceram – e à implantação da primeira República, reforma ortográfica fizera desaparecer do alfabeto que se aprendia na escola o k, o w, e o y. Mas, impecável no jaquetão caseiro de gola de veludo com que vinha dar aulas, cabeleira quase branca e olhos a faiscarem por detrás dos óculos de tartaruga, Miranda de Lemos não ia nisso – resistência de já 33 anos, quando os nossos destinos se cruzaram. Ao fio dos dias fui-me esquecendo dele mas voltou-me de repente à ideia, flamejante, muitos anos depois – e já há muitos anos – em intervalo do Rigoleto, numa frisa de S. Carlos para a qual a Teresa Gouveia convidara Vasco Graça Moura, eu e as mulheres que nos tinham na altura. O acordo ortográfico veio à baila e aí o meu chorado Vasco foi exemplar, dando cabo dele como Domingo Ortega despachava touros sem nobreza, rematando por baixo a lide de muleta – parar, cargar, templar y mandar, ordenava o Maestro – e acabando-os com meia estocada, que não mereciam mais.

 

Na primeira República, no Estado Novo, até na Revolução dos Cravos, as coisas eram assim. Havia mudanças – os três nomes acima davam de resto eles próprios sinais de mudança funda, com um antes e um depois (mesmo que nem sempre, em cada um dos dois lados, estivesse toda a gente de acordo sobre tudo. O poeta Guerra Junqueiro, por exemplo, republicano, autor de A Velhice do Padre Eterno, herói dos anticlericais quase até ao fim da vida, e da Santa Madre Igreja no fim mesmo, quando voltou ao seio dela e quis ser confortado com todos os seus sacramentos, ficou furioso quando se decidiu mudar da bandeira azul e branca da monarquia liberal para a bandeira de hoje. “Encarnado e verde são cores de preto!” tonitruou numa polémica) – mas mudanças levavam décadas e a gente ia-se habituando. Agora as mudanças são tantas em tão pouco tempo, que há quem pense que não se poderá continuar a viver assim, que num mundo em que robots façam tudo por nós, a palavra se arrisque a servir só para falarmos sozinhos. A guerrilha contra esse futuro aterrador já começou. Ontem, médico disse-me que nos dias em que a mulher o manda ao supermercado nunca paga nas caixas automáticas. Prefere esperar em bichas e tratar com as criaturas que restem (duas em doze caixas, no seu supermercado).

 

Combate inglório? Esta semana, nos Estados Unidos, a Ford despediu o seu PDG por a companhia estar a vender menos carros do que a Tesla cujos automóveis são eléctricos – e cujo serviço de investigação está inteiramente virado paras automóveis sem condutor. 

 

 

 

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17.5.17

 

 

portugal bandeira

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

Portugal: bom ou mau ?

 

 

Quando, há mais de 40 anos, o PREC (Processo Revolucionário Em Curso) acabou e, depois de eleições, deixámos de ter governos provisórios e passámos a ter governos constitucionais, chegando o primeiro destes em 1976, ocorreu-me que o país mais parecido com Portugal depois do 25 de Abril era Portugal antes do 25 de Abril. Na altura, esta constatação irritou amigas de esquerda, cheias de sangue progressivo na guelra, que acharam ser eu um reacionário não recuperável – como o puto de Les Mains Sales, depois de quadro sabichão do PC lhe ter comido a pequena – por não me ter dado conta de quanto a luz do dia era diferente passada a noite negra do fascismo. E irritou também amigas de direita que se agastavam com tudo, desde ter sido mudado o nome da ponte sobre o Tejo até haver cada vez menos educação em escolas, cafés e transportes públicos, sem que eu, esquerdista inveterado, parecesse dar por isso ou, se dava, sem me incomodar. (Falso: lembro-me numa esplanada de Lisboa ter dito a rapaz que nos atendia de mau modo que poderia ser eu a servi-lo às segundas, quartas e sextas, e ele a servir-me a mim às terças, quintas e sábados, mas cada um no seu lugar, sem falta de respeito pelo outro. Olhou para mim com boi para palácio e eu concluí que é inútil tentar postular igualdade quando esta não exista).

 

O que se ache de Portugal, vai muito da disposição com que se esteja e da experiência que se tenha tido. Em 1879, Eça rematou O Crime do Padre Amaro, evocando “pátria para sempre passada, memória quase perdida” – depois de descrição lúgubre da nova pátria, no Largo do Loreto, acabada assim. “Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praça onde brilhavam três tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de tabernas, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituição e de crime”.

 

Em 1900, ano em que morreu, ocorreu-lhe falar de Portugal de outra maneira. No fim de A Ilustre Casa de Ramires um dos personagens diz a outros quem Gonçalo Mendes Ramires lhe lembra. “A franqueza, a doçura, a bondade … Os fogachos e entusiasmos que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência… A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos quase pueris… A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil… A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique que sanará todas as dificuldades… Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa (…) Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

 

- Portugal.

 

(Um bocadinho como aquele que não admitia que não se fosse socialista antes dos 40 anos ou que se fosse depois).

 

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10.5.17

 

 

 

FRANCE POLITICS ELECTIONS MACRON

Emmanuel Macron

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O desbravar do caminho

 

 

 

 

Emmanuel Macron ganhou folgadamente a eleição presidencial em França mas os 34% de votos em Marine Le Pen mostraram mais de um terço da França virada para o país pétainista que fora no começo dos anos quarenta do século passado, contente por Hitler a ter salvo do comunismo – e tanto pior para os judeus. Que em 1945 a França não só tenha escapado ao opróbrio da derrota mas também sido dada por um dos cinco grandes vencedores da segunda guerra mundial – juntamente com Rússia, Inglaterra, América e China – com assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, deve-se ao génio do general De Gaulle que, de Londres onde se refugiara, apelara à resistência aos alemães pelas forças francesas livres, uma pequena minoria de civis e militares (a que os comunistas se aliaram mas só depois de Hitler ter invadido a União Soviética, rompendo brutalmente o pacto germano-sovético contra as democracias europeias) e, a despeito da sobranceria norte-americana , comandara a sua luta com tal eficácia militar e política que, em 1944, descera os Campos Elísios à frente dos seus como libertador de Paris.

 

A França (e a fortiori a União Europeia) precisa também agora de quem a salve e talvez tenha encontrado o salvador em Emmanuel Macron. É trabalho de Hércules mas poderá ser feito e Macron parece estar disso convencido, tal como parecem estar os milhões que foi juntando à sua volta desde que, há um ano, lançou o movimento En marche! quando ninguém o conhecia para lá do mundo político parisiense onde se sabia haver aparecido rapaz inteligentíssimo com quem toda a gente simpatizava , casado com Senhora muito mais velha do que ele que fora sua professora no liceu. Se Macron der conta do recado, é preciso ir mais atrás na história de França do que De Gaulle para encontrar figura comparável: Napoleão Bonaparte. Os tempos e as técnicas são outros e a guerra não é militar mas em tenacidade de propósito, clareza no rumo à vitória, planeamento a longo prazo de estruturas e pormenores necessários ao projecto sem por isso perder comando e controle da luta diária, as semelhanças são sugestivas.

 

Muitos comentadores franceses e alguns estrangeiros lembram em tom magistral que não há homens providenciais. (Argumento conhecido contra a história contada por feitos de Reis, por praticantes da história contada por variações do preço do centeio). Infelizmente para os comentadores, “providencial” assenta como uma luva em De Gaulle e Napoleão (até o mando lhe subir à cabeça e o desterrar para Santa Helena). Sem homens providenciais – e uma mulher, Joana d’Arc – a França não seria a França.

 

Macron terá maioria na Assembleia Nacional. As piores dificuldades vêm de fora: austeridade, imposta pelos seus amigos alemães; vandalização da verdade, desde a teoria da evolução ao aquecimento global e a tudo o resto, exemplificada pelo 45º presidente dos Estados Unidos, que disse já quase 500 mentiras provadas desde que tomou posse a 20 de Janeiro.

 

 

 

 

 

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3.5.17

 

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Paris

 

 

 

José Cutileiro

 

 

A eleição francesa

 

 

Na primeira volta da eleição presidencial francesa, as empresas que fazem sondagens em França portaram-se muito melhor dos que as suas congéneres no Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda no Norte e nos Estados Unidos da América se tinham portado (isto é, acertaram em quem viria a ganhar e a perder e com os números certos). No primeiro caso, quando do referendo sobre permanecer ou não membro da União Europeia em Junho do ano passado em que as ditas congéneres do lado de lá do Canal da Mancha, como um só homem, previram que quem queria ficar na União ganharia sem sombra de dúvida e, no segundo caso, sobre a eleição presidencial que opôs Donald Trump a Hillary Clinton (outros candidatos não contavam embora complicassem: por exemplo, candidata à esquerda de Clinton, a quem fora pedido, em vão, que desistisse antes da ida às urnas, ganhou em Michigan, Pensilvânia e Wisconsin votos que, se tivessem sido contados para Clinton, lhe teriam dado vitória no Colégio Eleitoral, isto é, na eleição) em que as congéneres transatlânticas, também com certeza absoluta, previram Clinton como o 45º Presidente, a entronizar em Janeiro. (O Clinton macho avisara que era preciso prestar atenção aos brancos pobres da ‘cintura da ferrugem’; não considerar os votos deles adquiridos sem sequer os ir ver e falar com eles mas a rapaziada – e raparigada – que mandava na campanha mandou o velho ir dar uma volta).

 

Com esse precedente, os especialistas franceses destas coisas ganharam crédito e a gente agora espera que o que nos apresentarem desta vez como resultado mais provável esteja outra vez certo. Os últimos palpites desses especialistas de que tive notícia dão 59% dos votos expressos a Emmanuel Marcron e 41% a Marine Le Pen. Como o medo de abstenção por muita gente de direita, apesar da recomendação de votar Macron dos seus chefes – Fillon, Sarkozy, Juppé – bem como por muita gente de extrema-esquerda, sem recomendação de votar Macron do candidato Jean-Luc Mélenchon, em quarto lugar na primeira volta, estava a generalizar-se, começa a sentir-se alívio por parecer muito provável que o 7º Presidente da 5ª República francesa venha a ser Emmanuel Macron. Pessoalmente, estou convencido de que Macron tem qualidades de chefia excepcionais que lhe permitirão, nas eleições legislativas de Junho, ganhar maioria presidencial na Assembleia Nacional e levar depois a França a bom porto. Ao mesmo tempo, felicito-me por não irmos ter Marine Le Pen no Palácio do Eliseu.

 

Mas além disso não haverá grande motivo para exultação. Muito pelo contrário. Quase 40% dos franceses prefeririam ser governados por gente com provas dadas de nacionalismo brutal (patriotismo é amar os nossos; nacionalismo é odiar os outros, disse Romain Gary); nostalgia de regimes nazis ou fascistas que mandaram em partes da Europa nas décadas de 30 e 40 (e na Península Ibérica até aos anos 70) do século passado; antissemitismo; racismo em geral. E 40% dos franceses é muita gente.

 

 

 

 

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2.5.17
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26.4.17

 

 

france 2017

França, 2017 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

A caça aos pobres

 

 

 

Nos Estados Unidos, os brancos (e brancas, o machismo do homem não as apoquentou) pobres, desempregados, adoentados, alcoolizados, suicidários dos Estados, antigamente industriais, que votaram Trump em Novembro passado quando 8 e 4 anos antes tinham votado Obama e que o aldrabão mal formado dos reality shows e dos concursos Miss Universo vai tornar mais desesperados ainda, sabotando o programa de assistência na saúde de Obama em vigor (não conseguiu substitui-lo por programa melhor contra o que prometera na campanha eleitoral: o núcleo duro do Partido Republicano entende que a culpa dos pobres serem pobres é dos pobres, que se adoecerem e não tiverem dinheiro para se tratarem, paciência, e que quando morrerem Deus saberá para onde mandar as suas almas) e cortando no orçamento federal inúmeras verbas destinadas a ajudarem pessoas a reintegrarem-se no mundo do trabalho - toda essa gente que esperava até de madrugada se Trump chegava atrasado aos comícios, continua a achar que só ele a entende e se bate por ela em Washington.

 

Lembrei-me deles (e delas) no Domingo à noite quando uma das cadeias de televisão francesas que cobria as eleições passou mais uma vez, já tarde, pelo feudo de Marine Le Pen nos Hauts de France (departamento que se chamava dantes Nord – Pas de Calais mas há anos reforma administrativa libertou o poeta que dormita na alma de cada burocrata francês, dando-lhe nome mais subido) e entrevistou dois apoiantes dela, homens novos da classe operária que não estavam exuberantes porque tinham esperado que ela ganhasse a primeira volta mas ficara em segundo lugar o que dá para passar à volta final mas não é tão glorioso. “Só ela é que entende o povo”; “Só ela sabe falar connosco” disseram. “Os outros são todos liberais”. (Não teriam dado ainda pela subida fulgurante de Jean-Luc Mélenchon, que chegou em quarto lugar muito perto do terceiro, orador entusiasmante, sensato sobre o meio ambiente, que tiraria a França da União Europeia e a associaria a Cuba e à Venezuela numa grande frente de esquerda. Douce France…). Filmado mais cedo na sua horta, viu-se homem de meia-idade, triste mas sorridente, que tinha sempre votado comunista mas há duas eleições votava Le Pen. “Na segunda volta tudo pode acontecer.”  

 

(Como dizia o meu professor de matemática na Valsassina, quando se irritava com incompreensão de equações simples por aluno chamado ao quadro: “Oh senhor! É bom ser burro mas não tanto!”)

 

Mas, indo ao cerne da questão: o fim do comunismo não foi a irradicação de uma doença – foi o falhanço de um remédio. E o colapso da União Soviética bem como a ética peculiar da China fizeram o capitalismo tomar escandalosamente o freio dos dentes. Não será pela terceira via de Blair nem pelo Bonapartismo aggiornato de Macron mas se não se descobrir maneira de corrigir - a bem - diferenças entre muito poucos muito ricos e muitos muito pobres, vamo-nos meter numa broncalina do camandro - ou numa Bernardette do caboz.

 

 

 

 

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19.4.17

 

 

aspirina

 

 

 

José Cutileiro

 

 

O fim das Luzes?

 

 

Em 2005, por altura da tentação de uma Constituição europeia, tinha havido dois avisos, dois “nãos” a referendos – um vindo de país onde não fica bem gastar dinheiro com mulheres e vinho e não se gosta de inflação (a Holanda); outro vindo de país onde fica bem gastar dinheiro com mulheres e vinho e uma pitada de inflação é o sal da economia (a França) – mas quem mandava nessa altura na Europa (que é mais ou menos quem agora nela manda) usou de falcatrua a que ninguém se opôs: tiraram dois ou três pratos da ementa proposta mas deixaram ficar os outros todos, apagando os nomes que lhes tinham dado e escrevendo no cardápio nomes diferentes. A malta (como o Zeca Afonso chamava à gente) esteve-se nas tintas porque se vivia ainda na tradição das trente glorieuses: o ano corrente fora melhor do que o ano anterior e o ano que viria a seguir seria melhor ainda do que o ano corrente, de maneira que, se a minha mulher-a-dias podia trocar de Toyota em segunda mão, não a aquecia nem arrefecia que eu trocasse de BMW ou o Rockefeller local – nessa altura era o Ricardo Salgado, agora ainda há menos quem se assemelhe à tribo americana – trocasse de Bentley.

 

A seguir vieram as crises começadas em 2008 e, na peugada delas, a austeridade. E a gente sem aprender. Não surpreende muito: quando se toma uma aspirina e a cabeça deixa de doer; quando, se se for preso, se pode chamar um advogado que consegue tirar-nos da cadeia ou, se a lei obrigar a que lá fiquemos, garante a nossa defesa ao abrigo de leis, até ao tribunal se se vier a chegar lá; quando, se se adoece, se tem direito a médico, tratamento e hospitalização; quando, se se perde o emprego, se tem direito a subsídio de desemprego, etc., etc., é difícil imaginar que neste baixo mundo se possa viver muito melhor do que assim.

 

De aspirina a subsídio de desemprego tudo se deve a evolução especial da humanidade na pequena península da Eurásia a que se chama Europa, durante os últimos quatro séculos. (O século de Péricles e Jesus Cristo também contaram mas, embora tenham sido conhecidos de civilizações orientais e médio-orientais, não levaram nelas milagres como os do desenvolvimento das ciências e do humanismo na Europa). Habituadas a viver com room service permanente, numa espécie de upgrading da condição humana tomado tão naturalmente como as estações do ano ou as marés, as nossas gentes não querem perceber que, como no filme de Tati Mon Oncle, “tudo comunica” e que, quem apoie o Brexit, Le Pen em França (amigo experiente aposta, dobrado contra singelo, que ela vai ganhar à primeira volta), Orban na Hungria, o gémeo sobrevivente na Polónia e também Erdogan na Turquia, Trump nos Estados Unidos, Putin na Rússia, vai apagando uma a uma as lâmpadas que nos alumiam; talvez mal e pouco mas não há outras. Fundamentalistas Corânicos ou Bíblicos (que negam a teoria da evolução) ou budistas (que limpam etnicamente a Birmânia) deixados à rédea solta darão cabo de tudo. Até da aspirina.

 

 

 

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12.4.17

 

Patrie

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Pátria

 

 

 

Em Novembro de 1994 fui escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental, em Bruxelas. Havia quatro candidatos: um belga que desistiu quando outro belga, Willie Claes, foi escolhido para Secretário-Geral da OTAN; um político italiano substituído a certa altura por um diplomata italiano, fidalgo competente muito bem-educado – foi dele que recebi o primeiro telefonema de parabéns depois de ser eleito – e um espanhol, Enrique Barón Crespo, ex-ministro de Felipe Gonzalez, ex-Presidente do Parlamento Europeu, que a França tomara de ponta quando ele quisera mudar o Parlamento Europeu de Estrasburgo para Bruxelas (crime de lesa-majestade para qualquer alto funcionário francês, cujo lema é: L’État c’est (aussi) moi).

 

Um mês depois recebi uma carta manuscrita com estampilha francesa, remetida por Joaquín Romero Maura. Estivéramos juntos em St. Antony’s, eu antropólogo, ele historiador. Anos depois de Oxford, fui convidado para seminário sobre religião e política no Mediterrâneo, organizado em Roma por universidade americana. Numa manhã radiosa de Maio, o professor americano que presidia à reunião, careca como Mussolini, antes de começar os trabalhos anunciou gravemente que Martin Heidegger tinha morrido. “Should we do something?” Éramos uns vinte sentados a mesa quadrada e vi Joaquín, do outro lado, escrever num pequeno papel, dobrá-lo, passá-lo a vizinho do lado que o passou a vizinho do lado, até mim a quem vinha endereçado. Desdobrei-o e li: La classe obrera tiene un inimigo menos!

 

Abri o sobrescrito. A carta vinha em inglês, datada de Darkest Périgord e começava assim:      

 

Dear José,

The joy of seeing Enrique Barón loose the job almost made me forget to congratulate you on getting it. (A alegria de ver Barón Crespo perder o lugar quase me fez esquecer de te dar os parabéns por o teres ganho.)

 

Agradeci-lhe e nunca mais soube dele. Não sei se continuará historiador ou se   terá virado banqueiro; se Goody (dinamarquesa que em Oxford se recusara a viver em Summertown House, bloco de apartamentos da Universidade, porque a ideia de duzentas teses a serem escritas debaixo do mesmo teto a deixava deprimida) e ele continuam vivos, casados e felizes.

 

Gosto desta história – e mais ainda nos dias incertos que atravessamos – porque mostra o disparate sem nome dos patriotismos anti-europeus que agora vicejam e ganham raízes por vários cantos da Europa. Em França é com sentimentos assim que Marine Le Pen, na extrema direita, e Jean-Luc Mélenchon, na extrema esquerda, animam a malta – onde pululam, de um lado, beatos integristas e, do outro, devotos de Estaline e de Trotsky. Se qualquer deles os dois for eleito Presidente, a União Europeia acabou. Édouard Macron sabe isso, sabe muito mais coisas ainda e julgo que seria capaz de meter a França nos eixos sem dar cabo dela. Mas talvez lhe falte o jeito de um Bill Clinton ou de um Mário Soares para convencer pessoas burras a quererem coisas inteligentes. Carisma, chamam-lhe alguns.

 

 

 

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10.4.17

 

F Hay-font-letter-F

 

 

 

fezada
fe.za.da
nome feminino
(de + z + sufixo ada)

 

Crença, convicção, grande fé. Porém, ao contrário da fé, cuja relação com a razão foi vasta e fundamentadamente explicada por Bento XVI, o «papa mau», ao tempo explicado assim às crianças e ao povo por certos sectores eclesiais, a fezada não carece de um fundamento absolutamente racional. Carece de vontade e de esperança, é certo, e em grandes quantidades; de wishful thinking, que o patriotismo linguístico tem limites, mas não se baseia em argumentos irrefutáveis, antes em sinais de leitura intransmissível. Radica no «palpite», na convicção íntima, inalienável e intimamente construída, na intuição -- mesmo certeza -- inexplicável. Ter fezada porque sim. No fundo, uma aposta contra as leis da probabilidade. Ter uma fezada no Euromilhões em dia de prémios grandes, ter fezada na vitória do Benfica em maré baixa contra um clube dado como inultrapassável. Há quem viva sem fé, não parece plausível que se consiga viver sem fezadas.

 

 

 

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5.4.17

 

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José Cutileiro

 

 

 

Primavera

 

 

 

Só me dei verdadeiramente conta da Primavera quando ela irrompeu em Oxford, no meu primeiro ano lá. Em Portugal havia uma estação cinzenta, chuvosa e fria de meio de Outubro a meio de Março e uma estação luminosa, quente e seca do fim de Março ao começo de Outubro. (E a Primavera de Cabul, em 1952, entrara e saíra também sem eu dar por ela). Com muitas árvores de folhagem permanente e pouquíssimas de folhagem caduca (ou, em Cabul, quase sem árvores), a natureza não parece morrer e ressuscitar todos os anos como acontece em partes mais temperadas da crosta terrestre do que a Lisboa e o Cabul dos meus liceus, francês em Cabul, Lycée français de Kaboul chamado da Independência, fundado em 1922, destruído pelos talibãs e reaberto em 2002; traduzido do francês em Lisboa, Escola Valsassina seguida de ano lectivo no Pedro Nunes. Nessa altura, o nosso curso dos liceus estava para o curso dos liceus em França como o Dicionário Prático Ilustrado da Lello está para o Petit Larousse: só mudava o vernáculo (e acrescentavam-se pessoas, lugares e feitos da nossa geografia e da nossa história).

 

A Primavera de Oxford foi um triunfo da vida sobre a morte para este meridional. Era ano particularmente trabalhoso para mim, a ler ou a escrever (com caneta) sentado em maples, raramente à mesa, sozinho no meu quarto de estudante de manhã à noite e pela noite fora ou ensimesmado no refeitório do colégio. De repente, a redoma estilhaçou: chegara a Primavera. As cidades portuguesas onde eu vivera tinham raízes árabes e depois da cabra o árabe é o mais implacável fazedor de desertos do mundo; intramuros, casas brancas apinhavam-se em ruas estreitas – da minha janela à tua vai o salto de uma cobra – fora de portas o baldio começava. Oxford, pelo contrário, mistura constantemente a cidade e o campo, no espaço de cada um e nos espaços de todos. Sem que eu me tivesse dado conta do que estivera a germinar, ao levantar um dia os olhos da leitura, tudo tinha mudado. Havia sol entre os ramos das árvores, entre as árvores e os telhados, nos papéis da minha mesa. As árvores, de todas as quais todas as inglesas e ingleses sabiam os nomes e que eu tratava por igual (franceses e italianos são também de ignorância penosa na matéria) tinham outra vez todas folhas e muitas das que se viam perto das casas davam também flores, brancas, encarnadas, amarelas, azuis. Do ar do dia ao sol nascente milhares de pássaros cantavam, namorando. Na minha rua, velhas que o frio escuro do Inverno guardara em casa, singravam de bicicleta a frescura da manhã, vestidas de algodões mais coloridos do que as flores das árvores - que naquela terra a viuvez não era negra.

 

Tudo isto já lá vai há mais de meio século. Entretanto Lisboa, Évora e Oxford mudaram como nunca tinham mudado em qualquer meio século anterior. E, mau agoiro, o clima está a pregar-nos cada vez mais partidas. Vou para a semana a Portugal. Dizem-me que vai chover enquanto no Brabante Valão se espera que faça Sol.

 

 

 

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29.3.17

 

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José Cutileiro

 

 

 

A Utilidade do Saber Inútil

 

 

 

The Usefulness of  Useless Knowledge” foi o título de um seminário que teve lugar há poucas semanas no Institute for Advanced Study, em Princeton, New Jersey, em que o director do Instituto participou – um holandês cheio de imaginação; ainda no meu tempo havia sido a vez de um inglês que fora precedido pelo americano que eu lá encontrara à chegada, na sucessão de outros americanos até ao escolhido para ser o primeiro director, quando da fundação do Instituto em 1930. Instituição das mais venerandas – senão a mais veneranda – do alto saber nos Estados Unidos da América, o seu endereço postal diz tudo: 1 Einstein Drive, Princeton, New Jersey (ignoro o nome da alameda antes de a crismarem depois da morte do grande sábio). Os directores, passado pedagogo inicial, quase todos físicos ou matemáticos, com um economista tresmalhado. Os professores, Einstein um deles, são e sempre foram de nacionalidades variadas (dantes fugia-se para os Estados Unidos da América); os “membros”, geralmente professores em universidades americanas ou de outros países que durante um ano académico estudam ou escrevem, sem responsabilidades de ensino e nobilitando o curriculum, vêm também de todo o mundo. A anglófono ou anglófona que queira conversa muito inteligente ao almoço, não sei recomendar melhor mesa que a do restaurante do Instituto. (A comida também não é má).

 

O que é uma educação útil e o que é uma educação, digamos, ornamental pode parecer simples mas não o é a não ser em casos extremos. Ler  “Hamlet” será provavelmente sempre ornamental (salvo, escreveu Bertrand Russell, no caso de alguém que esteja a planear assassinar um tio). E a ascensão do saber de experiência feito acima do saber só aprendido em livros acontece na nossa civilização com o Renascimento, primavera de que os primeiros rebentos se anunciam no Século XIV, como a regra a que se chama “Occam’s razor” – entre as várias alternativas de solução de um problema a mais simples é a mais provável – ligada a frade franciscano do mesmo nome, não estando ainda a guerra ganha em meados do século XVII quando Sir William Harvey, que descobriu a circulação do sangue tal como a conhecemos, recomendava aos alunos: “Não penses, experimenta” – “Don’t think, try”.

 

Depois chegou o século das luzes e, escarranchada nessas luzes, a Revolução Francesa. Em pano de fundo, rugindo antes e depois, a revolução industrial. A seguir, duas guerras mundiais; armas nucleares; robots; inteligência artificial. Ciência (de Silicon Valley ou de alhures) agora sempre com precedência sobre humanidades. Apetece às vezes dizer: “Não experimentes, pensa”.

 

A quantidade de coisas utilíssimas vindas de pensamentos julgados inúteis é imensa. Quem pergunte ‘O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba?’  não percebe a diferença entre o saber comum – que é vago, contraditório e gabarola – e o saber filosófico – que é preciso, coerente e humilde (outra vez Bertrand Russell).  

 

 

 

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28.3.17

 

 

B LIGHT-VINTAGE-LETTER-

 

 

 

 

bimbo
bim.bo
nome e adjectivo com 2 géneros
(origem incerta; talvez do italiano bimbo, criança)

 

Esta é uma daquelas palavras de invenção urbana e significado volátil que se usa como categoria de desclassificação. Originalmente «pacóvio», «parolo», «provinciano», «rústico», «ingénuo», por extensão passou a indicar rudeza, falta de maneiras, mau gosto e, de um modo geral, uma inadequação aos valores e representações sociais e estéticos do locutor, que assim se exclui e distancia da categoria apontada e desdenhada. Um marcador social. Por tal razão, bimbo designa com frequência o matarruano, o labroste ou lapuz, o simplório; mais raramente aponta o ignorante, o estupor, o pedante, o pretensioso, o inculto e o idiota encartado nas suas múltiplas e ramalhudas derivações modernas. O tempo fez, porém, estragos neste cenário, e a rudeza, a falta de maneiras e o mau gosto revivem em glória nos ademanes e costumes de urbanos e suburbanos, de diversa extracção e notoriedade, que se arrogam o direito de também se diferenciarem dos «bimbos». Sinal dos tempos. Mas é terreno resvaladiço, quando o significado, com tanta e sucessiva extensão, se desprende ou perde das palavras. E do juízo de quem as usa.

 

 

 

 

 

 

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22.3.17

Philips 1964

 gravador Philips, 1964

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

As coisas são o que são. 

 O que é ser? O que são coisas?

 

Quando perguntei ao Tio Zé Peidinho, pastor reformado (de gado, não de almas) como é que achava que o mundo tinha começado, analfabeto com melhor cabeça que muitos doutores que eu conheci – nesse tempo, doutores eram pelo menos licenciados em matérias estudadas em universidades e não técnicos enfeitados com o título no afã de serem promovidos a portugueses de primeira pelo tratamento que lhes passava a dar o comércio - respondeu: “Há de ter começado como tudo: de pequenino”.

 

O Tio Zé Peidinho tinha 82 anos, era muita idade nesse tempo, eu 32, e estávamos à conversa numa manhã de sol, só com barulhos de campo e de sinos da igreja da Vila às horas, meias e quartos de hora, porque escribas, acocorados ou não, precisam de saber às quantas o mundo anda. Pontualidade mais rigorosa só chegou com máquinas que exigiam disciplina no trabalho, começando no Noroeste da Europa com o que se chamou a revolução industrial. No lugar onde o Tio Zé Peidinho e eu estávamos tal revolução nunca tinha realmente chegado mas produtos e subprodutos seus tinham já feito mudar muita coisa: antes da fábrica de cartão construída na margem do Guadiana, antecipada com desconfiança (“Como se eu acreditasse que aquela merda serve para fazer papel” rosnou o secretário do tribunal da sua cadeira de lona na esplanada do Café Central à passagem lenta de um reboque carregado de maquinaria) mas que, pela primeira vez na história local, deu trabalho a operários entra o ano, sai o ano (até albufeira da barragem de Alqueva a ter deliberadamente submergido) encontravam-se na freguesia sinais claros de dependência do mundo exterior. Em casinhoto no sopé da colina havia há décadas uma bomba fabricada - e assinada - em Inglaterra para levar água do rio à cisterna intramuros lá em cima.

 

Registei a nossa conversa no gravador Philips e perguntei-lhe se queria ouvir. Ouviu atento e depois disse: “Olha que mánicazinha tã esperta!” Concordei, os dois embevecidos com aquela maravilha do progresso. Pouco tempo depois, em St.Antony’s College, Oxford, eu e um economista de turbante chamado Montek Sing que de lá foi para o Banco Mundial, ficávamos fascinados com grande fotocopiadora xerox na administração do colégio que além de nos fazer ouvir espécie de deglutição mecânica própria de tais engenhos, chispava luzes verdes. Talvez Montek e eu, o Punjab e o Alentejo, estivéssemos menos longe do campo original da espécie do que ingleses, americanos, alemães, judeus e outros que também viviam no Colégio e não me lembro de encontrar na contemplação da copiadora.

 

Remanso que acabou. Exponenciações da lei de Moore aceleram inexoravelmente o mundo digital. Física quântica tem aplicações práticas inesperadas e surpreendentes. O resto da natureza sofre ainda mais do que nós. Políticos desorientados querem diminuir trocas comerciais e produzir mais armamentos. Estamos a ficar analfabetos e não somos tão espertos como o Tio Zé Peidinho.

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20.3.17

 

J wooden letter birch

 

 

 

 

já-agora
já.a.go.ra
advérbio + advérbio
(do latim: jam + hac hora, nesta hora)

 

Bem sei que o dicionário regista palavras, unidades lexicais, e esta entrada é formada por duas, dois advérbios de tempo de significado similar, usados em conjunto em muitíssimas situações. Como noutros casos, aqui o resultado não é igual à soma das partes, o que torna ainda mais difícil explicar de forma lógica o sentido do seu uso. É uma das expressões do português mais difíceis de traduzir e de explicar, por exemplo a um estrangeiro. A saudade tem fama de não ter equivalentes, mas o «já agora» é um caso bem bicudo. Nem sequer é fácil substituir este par por outra expressão equivalente. A sinonímia que alguns dicionários propõem não é completamente convincente. Talvez a expressão «visto isto» se aproxime, mas é isso mesmo, uma aproximação. Só com uma perífrase se consegue explicitar o sentido oportunístico da expressão: «já que aqui estou», «já que é assim», «já que pergunta», etc. A expressão traduz um sentido de oportunidade em que o locutor procura tirar partido de uma dada situação. Vejamos as diferenças e as semelhanças de uso nos seguintes contextos:
1.
- Quer beber alguma coisa enquanto espera?
- Já agora bebo um café, obrigado.

2.

- Vou levar o carro à revisão e já agora mando arranjar o espelho partido.

3.
- O maioral agarra, viril, a moçoila e com a outra mão desabotoa a berguilha, quando ela escapa com um safanão. Vendo-se de mãos a abanar e de berguilha aberta, o maioral diz para si, «já agora mijo».

 

 

 

 

 

 

 

 

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15.3.17

 

Turquia, 2017

 Turquia, 2017

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Patriotas

 

 

 

Recep Tyyip Erdogän (devia haver uma espécie de v, em vez de trema, sobre o a mas falta no meu teclado embora só um tonto ou um fanático se queixaria disso: há quase um século Mustafá Kemal, depois conhecido por Kemal Ataturk – pai dos turcos – mudou o alfabeto em que se escrevia a língua turca do árabe para o nosso e ninguém se lembrou ainda de voltar para trás; conta-se de resto que o grupo de sábios encarregado da tarefa não atava nem desatava há mais de um ano quando Kemal mandou um dia vir a papelada, trabalhou sobre ela a noite inteira e de manhã fez entregar o alfabeto novo aos sábios), Recep Tyyip Erdogän, dizia eu, é déspota oriental obrigado por um século de ocidentalização da Turquia a dotar-se de constituição, parlamento e outras modernices que nunca se deveriam dar ao povo - até porque, depois de dadas, é muito difícil tirar-lhas – de maneira que procura ajeitá-las o mais possível às exigências de uma monarquia absoluta. Primeiro-ministro de 2004 a 2014 e Presidente da República desde 2014, tudo ao longo dos anos como deveria ser, em eleições livres e limpas, vai em Maio fazer um referendo para aprovar nova Constituição que torne a governação muito mais presidencial do que parlamentar. Ao contrário do que Erdogän esperara, animado não só pelos triunfos eleitorais anteriores mas também por aumento da sua popularidade a seguir a tentativa falhada de golpe de estado que tencionara matá-lo e colocou brevemente ao seu lado até oposicionistas tradicionais, sondagens agora não o deixam achar que sejam favas contadas e a campanha pelo sim não pode desleixar-se. Ora em 2014 Erdogän e o AKP, seu partido, perceberam melhor que os outros partidos turcos que os votos da diáspora eram importantes e passaram a fazer campanha no estrangeiro, o que se prepararam para repetir desta vez.

 

Entretanto, porém, aconteceram duas coisas: por um lado, políticos populistas na Europa estimulam entusiasticamente o ódio aos muçulmanos; por outro lado, traços autoritários com toques paranoides foram-se acentuando em Erdogän, envenenando também as perspectivas de adesão da Turquia à União Europeia. Por fim, arranjo manigânciado entre a União e a Turquia permite à primeira mandar emigrantes de países terceiros à segunda e à segunda receber dinheiro e vistos. Alemanha, Áustria, Suécia e Suissa, também fecharam agora a porta a ministros turcos mas os holandeses foram mais brutos, os turcos lembraram o nazismo – muito eficaz na Holanda durante a ocupação alemã – e hoje as relações políticas entre Haia e Ancara viram Clausewitz do avesso: guerra por outros meios. (Erdogän chamou à Holanda e à Alemanha “estados bandidos”). Dá jeito a uns e a outros por agradar aos mais renhidos dos seus patriotas.

 

A França mistura a República mais monárquica do mundo com Liberté, Égalité, Fraternité e autorizou o MNE turco a ir lá falar, sendo hipocritamente condenada por outros europeus e (também tem eleições à porta) pela sua própria extrema-direita.  

 

 

 


12.3.17

 

E-black-paint-splatter-icon

 

 

 

 

eles
e.les
pronome pessoal masc. pl.
(do latim ille)

 

O contexto de utilização deste pronome que interessa aqui evidenciar é o da referência a uma entidade ao mesmo tempo indefinida e abstracta, embora de natureza colectiva, da qual o locutor se separa e distancia ao referir-se a «eles». Um trabalhador de uma empresa, digamos, por exemplo, caixa do supermercado, referir-se-á ao conjunto de regras que tem de cumprir e à cadeia hierárquica a que tem de obedecer – isto é, referir-se-á à empresa que integra – como «eles». Num outro exemplo, um professor referir-se-á ao Ministério a cujos quadros pertence como «eles». Em ambos os casos, o locutor exclui-se da pertença às entidades que menciona. E neste «eles» há um travo a ressentimento e a hostilidade. É toda uma visão do mundo. «Eles» são o «sistema», a autoridade, a organização. O «eu» não faz parte dessa pandilha, que olha com desconfiança (não raro justificada, diga-se). Nesse caso, constitui um enunciado de desresponsabilização: «eles» é que têm a culpa, «eles» é que disseram para fazer assim. «Eles» são, por exemplo, o hospital ou o centro de saúde, o banco, a escola, as finanças, a administração pública, a meteorologia (eles dizem que vai chover), o corpo director da empresa, a polícia, os transportes, e, mais recentemente, a internet, o Google e similares. E, no repúdio e na indignação, dir-se-á, na versão suave, «quero que eles se lixem!». O que comporta sempre um certo risco, porque «eles» estão em toda a parte e têm ouvidos de tísico. O que vale é que a gente não tem medo deles.

 

 

 

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8.3.17

 

affiche Chagall

 Marc Chagall

 

José Cutileiro

 

 

Na caixa do supermercado

 

 

No sábado à tarde, quando, com a minha mulher, empurrando num carrinho o que ia comprar, cheguei junto das caixas só estava aberta a última das três – a do velho pequeno, calvo, irritadiço e rabugento. Chamo-lhe velho, embora ele tenha com certeza mais de vinte c cinco anos menos do que eu, assim como posso chamar a antigo condiscípulo na Valsassina um rapaz da minha idade: manhas de sobrevivência que querem dar vestígio de doçura à vida e não se inventam por mal. Chamo-lhe rabugento porque, entre o ano saia o ano, faça chuva ou faça sol, no calor dos verões bons ou no frio dos invernos maus, foi sempre assim que o vi, agastado por a máquina se recusar a ler etiquetas de preço, por frutos não terem sido pesados, por não ter chegado ainda à caixa outro empregado que tivesse chamado pelo telefone, por causas de mim desconhecidas que o levem a murmurar sombriamente consigo mesmo palavras indistintas. Funambulista das relações humanas, nunca cai: não chega a ser malcriado com a clientela e nem tampouco a ser acolhedor.

 

La Grande Épicerie onde passamos depois do golf da Myriam antes de seguirmos para casa é a última escala contra mundo dos rituais da semana e quando vejo o velho na sua caixa, sempre a mesma, procuro se possível sair por uma das outras, onde as mesmas raparigas belgas, magrebinas ou ucranianas, que vão variando com as semanas, se ocupam de nós sem imposição lúgubre de personalidade. Neste sábado tal não foi possível e ainda bem porque aconteceu, inesperadamente coisa extraordinária. Enquanto passávamos as compras do carrinho para o tabuleiro rolante que vai dar à caixa o velho que falava com o cliente anterior, já despachado, deu uma gargalhada e, não me tinha eu refeito do espanto, porque não fora sequer sarcástica, mais outra e outra ainda, de riso aberto e generoso. O cliente ria também, contente, em frente dele e saiu a seguir para o parque de estacionamento. O velho voltou-se para nós e eu disse-lhe:

 

 

“O Senhor vai desculpar-me o que eu lhe vou dizer mas nunca o vi tão feliz”.

 

“Devo tomar as suas palavras como um cumprimento?”

 

“Com certeza.”

 

 

“É que nunca estive tão feliz. Nem julguei que me pudesse alguma vez acontecer. Mas aconteceu, há umas semanas. E na minha idade. Encontrei a mulher dos meus sonhos” (falávamos na sua língua, o francês da Walónia, e o que ele disse foi J’ai trouvé la perle rare que é uma das imagens conhecidas da língua francesa para referir momento assim) “Nunca pensei que me aconteceria a mim” repetiu e ria, olhando-me nos olhos, contente de estar feliz.

 

Paguei, pusemos os sacos no carrinho e saímos para o parque de estacionamento. Tinha parado de chover e pensei que se eu acreditasse em espíritos e mesas de pé de galo procuraria quem pudesse conjurar Maupassant ou Tchecov ou O. Henry para eu lhe contar a história e ele fazer dela o que quisesse. Assim, pensei que só é pessimista quem quer. E que – longe vá o agoiro – é capaz de haver Deus.

 

 

 

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5.3.17

 

Carnival_L_250

 

 

ludíbrio
lu.dí.bri.o
nome masculino
(do latim ludibrium)

Embuste, engano; habilidade ou manha conducentes ao logro. A primitiva acepção de escárnio incorporou-se no significado que vingou na língua actual, envolvendo a menorização ou o desprezo pelo ludibriado, que, não sendo propriamente néscio, faz figura de otário. Engano ou ilusão obtidos com acinte e malícia premeditados. Intrujice. Por extensão, significa também cilada, emboscada. Por analogia com o futebol, diz-se que fulano foi «fintado» com o significado de «enganado com habilidade»; ou «toureado» se a analogia for de natureza tauromáquica. Logro astucioso da percepção elevado, por vezes, à categoria de arte: com minúscula ou mesmo com maiúscula.

 

 

 

 

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1.3.17

 

 

José Cutileiro

 

Duas na ferradura

 

Ia começar a escrever mais este Bloco (chamo-lhes Bloco-Notas e a Vera consente-me tal liberdade poética por ter um grande coração; ao se referir a eles ela própria chama-lhes Blocos de Notas que é como se deve dizer) quando tive o meu filho ao telefone que, entre outras coisas, me contou haver recebido de presente a História da Segunda Guerra Mundial de Winston Churchill (versão abreviada, só com cerca de mil páginas) e estar a antecipar o gosto de a ler. Churchill dizia que a História o iria certamente tratar bem porque tencionava ser ele a escrevê-la e assim foi; embora ajudantes eminentes, eles próprios historiadores, tenham molhado a sopa como também era inevitável e costumeiro noutras artes – Miguel Ângelo não deu todas as pinceladas precisas para acabar o teto da Capela Sistina, nem tampouco foi Wolfgang Amadeus a lançar no papel todas as notas das suas partituras. O Zézinho – a graça do meu filho é José, como é a minha e como fora a do meu Pai; o nosso sistema de parentesco é cognático com forte pendor patrilinear mesmo depois da extinção dos morgadios; o diminutivo resulta de inclinação linguística portuguesa e senioridade nas famílias – é, como o pai, grande apreciador de Churchill e perguntou-me se eu sabia o que é que Winston considerava o mais forte argumento contra a democracia? Não. Eu só conhecia o mais forte a favor (o pior sistema de governo tirando todos os outros). O mais forte argumento contra era conversa de dez minutos com um eleitor médio. Em qualquer dos nossos países.

 

O que durante as décadas a seguir a guerra (1939-1945) cujo resultado permitira a sobrevivência das democracias parlamentares ocidentais (e, como moda nova, também em outras partes do mundo) fora tomado por graça elitista travessa de que a gente se ria e de que se esquecia a seguir, dói agora até ao osso…. depois da eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e da escolha dos cidadãos do Reino Unido de saírem da União Europeia, no ano passado; da desfaçatez de Geert Wilders nos Países Baixos e de Marine Le Pen em França, um e outra à beira de eleições nos seus países e aparecendo muito altos nas preferências dos eleitores em sondagens de opinião – espuma fumegante sobre caldo a ferver de ódio a estrangeiros, de preferência da força sobre a razão para dirimir questões com outra gente – Trump a querer estar sempre à frente na corrida aos armamentos o que é prudente mas não devia ser badalado assim e a cortar dinheiro que faria baixar tensões e tornar guerras menos prováveis; para não falar de países de Leste na Europa em que demãos apressadas de democracia estão a estalar depressa e a deixarem à vista indecências de poder e de vida que eram o pão nosso de cada dia nas sociedades criadas e sustentadas pela União Soviética.

 

As duas na ferradura? É que o ferreiro não acerta: para lá do que vemos não percebemos nada. Sabemos que os remédios populistas receitados fazem a emenda pior do que o soneto, mas qual é o bom caminho? 

 

 

 

 

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26.2.17

 

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ventriloquismo
ven.tri.lo.quis.mo
nome masculino
(de ventríloquo, latim ventriloquus + suf. ismo)
 
 
Coisa antiga, esta da loquacidade, quando não eloquência, ventral. Trata-se de uma técnica de dissimulação articulatória destinada a fazer crer que as palavras ouvidas não são emitidas pelo locutor. Coisa de sibilas e adivinhos, posteriormente listada como bruxedo e devidamente perseguida. Aplicar o discurso «ventral» a uma segunda personagem, também presente, é um artifício mais moderno, tornado número de circo em que o ventríloquo dialoga com um boneco que assim parece ganhar vida. Uma espécie de Galateia sem intervenção divina, mas onde a vida é um simulacro. A fala não é do boneco, mas sim de quem o manipula e lhe empresta a voz e as palavras. Por analogia, é o que acontece quando certas eminências falam por interposta inexistência, isto é, por intermédio de algum boneco vivo disposto a dar expressão à paixão desses Pigmaliões por si próprios. Entre políticos faz figura de artimanha e, como no circo, todos fingem que não se dá por ela. Ainda por cima, não raras vezes, o subterfúgio passa por sinal de inteligência.
 
 
 
 
 
 
 
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22.2.17

 

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José Cutileiro

 

 

Uma Europa alemã?

 

 

 

Os Deuses estão outra vez zangados connosco, pensariam Reis e Pontífices olhando à volta e talvez mandassem sacrificar vacas ou virgens se os tempos fossem para tais estratagemas. Mas não são: já não é por aí que o gato vai às filhoses. Na Europa, o Vaticano resistiu enquanto pôde mas Angelo Roncalli, mais conhecido por João XXIII, a cuja memória Pasolini dedicou o filme O Evangelho segundo S. Mateus, convocou o Concílio Vaticano II e começou uma grande mudança, tão grande que sobreviveu aos rigores do Papa polaco e ganha ânimo novo com as larguezas do papa Francisco. O meu chorado Nuno Bragança, católico progressista como se dizia na altura mas entusiasta lúcido desse progresso, achava que se João XXIII houvesse vivido mais dez anos “tinha dado cabo de tudo”.

 

Mas o Vaticano não é membro da União Europeia e é por causa do estado desta que tanta gente hoje dorme mal. Ataques a “união cada vez mais chegada” dos europeus, prometida fará sessenta anos no mês que vem no preâmbulo de tratado assinado em Roma, têm sido bem-sucedidos e outros estão na calha. Primeiro, o chamado Brexit, em que aldrabões sem vergonha convenceram populações inglesas ignorantes e (pela primeira vez há um século) mais pobres do que os pais tinham sido, de que seriam mais ricas e poderosas fora da União Europeia do que dentro dela. Mentira patética mas, com determinação de manada de bisontes trotando para se afogar no mar, políticos e burocratas meteram mãos à obra e não se vê marcha atrás. Segundo, o chamado Presidente Trump, maluco com mau fundo, que baixou para abismos inéditos os níveis - moral e intelectual - exigidos pela função sem que tal pareça ofender a sua base eleitoral, considera a Alemanha perigo maior do que a Rússia, e está constitucionalmente ao abrigo de junta médico-psiquiátrica. Terceiro, no futuro próximo, eleição provável de populistas na Europa. Em Março o partido de Geert Wilders deverá vir à cabeça na Holanda. Como a hipocrisia holandesa – que deveria ser património cultural distinguido pela UNESCO – não o deixará governar, coligação de outros se encarregará de ir aplicando o seu programa à socapa. A seguir em França Marine Le Pen poderá ser Presidente e, querendo proteger a produção nacional e sair do Euro, fará o descabello do touro europeu, malferido pela estocada do Brexit.

 

A esperança está na Alemanha onde há eleições em Setembro. A insistência desta na manutenção indevida de enorme superavit e a sua cegueira luterana diante das dívidas que a austeridade, em lugar de aliviar, vai aumentando não deveriam animar ninguém a vê-la como base de sustentação do que restar da Europa. Mas quer Merkel quer Schulz são europeístas convictos e Senhora que ousou abrir os braços a todos os desgraçados do Médio Oriente saberá explicar aos seus que poderão deixar reestruturar a dívida grega sem sequer darem por isso.

 

Ao princípio a ideia fora europeizar a Alemanha. À vista está a germanização do que resta da Europa. É a vida.

 

 

 

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19.2.17

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locupletar
lo.cu.ple.tar
verbo transitivo e pronominal
(do latim locupletare, «enriquecer»)

 

O termo latino tende a desaparecer em favor da palavra bárbara («rico» tem etimologia gótica) com que se explica o significado do primeiro. Ainda utilizada no vocabulário jurídico brasileiro, no português europeu parece por vezes ultrapassar o significado de «ficar rico», «encher-se», «abarrotar-se» para significar também «abarbatar» ou «abarbatar-se», o que se abeira já de terrenos escorregadios. E, como é sabido, o locupletamento levanta demasiadas vezes um rol de interrogações sobre a sua origem. Como este dicionário pessoal é também um dicionário de autoridades, quem melhor do que Camilo para nos interpelar sobre temas pungentes em bom português: «No abatimento da minha pobreza estúpida ainda me resta o olho penetrante da consciência para ver e admirar a perspicácia dos homens que se locupletam, e mais ainda dos locupletados que conservam, com aplauso público, o rótulo da sua honestidade. Isto é que é saber, isto é que é a prova do grande alcance do intelecto humano!» (Vinte Horas de Liteira, 1864).

 

 

 

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15.2.17

 

 

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José Cutileiro

 

 

Dores de cotovelo

 

 

Quando eu era novo, dor de cotovelo queria dizer dor de corno mas de maneira bem-educada. Se noivo ou namorado (ou noiva ou namorada) de repente suspeitava ou confirmava suspeita de traição da bem-amada (ou do bem-amado) o incómodo moral e físico que tal provocava: um sei bem quê que nasce sei bem onde, vem sei bem como e doe sei bem porquê (viro do avesso farrapo de Camões, em vez de procurar palavras minhas, porque o tempo não está para extravagâncias e, se não pouparmos em tudo, os guardas alemães e holandeses, gabarolas do superavit, que há meia dúzia de anos nos obrigam a fingirmos que somos como eles mais ainda se darão ao gosto de nos atormentar. Há quase um século e quase ao fundo do Hemisfério Sul, apanhado em apuros quejandos, o chileno Pablo Neruda escreveu “De outro, será de otro, como antes de mis besos/ Su voz, su cuerpo claro, sus ojos infinitos.” Pablito, chamavam lhe as criadas de casa dos pais, não estava obrigado por critérios de Maastricht e, antes de se meter a compor Odes compridas e apatetadas ao camarada Estaline, tinha talento a rodos. “Ya no la quiero es cierto pero talvez la quiero/Es tan corto el amor y es tan largo el olvido.”

 

Dores de cotovelo. Não sei se o termo ainda se usa no português falado pela gente nova: não vivo cá e o meu neto é holandês. Sem ser por mal, dou por mim agora a passar mais tempo com gente velha e aí descobri rudimentos de nova forma de correcção política. Parece que, para velhas e velhos se sentirem ainda integrados, se lhes deva falar – e falar deles – como se faz com as crianças, mas adaptando. “Ai, está a mirrar tão bem! Um dia destes está mais baixo que a avó.” “Então já lhe caíram mais dentinhos?” “Desde o Natal anda a esquecer-se de quase dez palavras por dia”, etc.  Adiante – se é esta a palavra indicada – e voltemos ao cotovelo.

 

Alentejano arguto, há muito amigo do coração – e, ao contrário de tantos conterrâneos seus, despachado, viajado e poliglota – embrenhado agora em vida de Cristo bem narrada por erudito sábio, encontra paralelos entre a Jerusalém que os romanos acabariam por arrasar e onde Jesus foi executado (para aclamação dos seus compatriotas que preferiram salvar Barrabás a salvá-lo a ele) e os sobressaltos violentas do nosso tempo, a chocarem fascismos. (Cesário Verde percebera: “A dor humana busca amplos horizontes/E tem maré de fel como um sinistro mar”). Segundo o meu amigo, e eu estou de acordo com ele, quando nós eramos novos – eu sou mais velho uma década e picos mas nessa altura a diferença parecia muito mais pequena do que parece agora: daí a dez anos o mais novo seria como o mais velho. A vida abria-se diante nós, estrada direita até onde a vista alcançasse. Agora, daqui a dez anos o mais novo será como nada que se já conheça hoje. Fecha-se diante de nós um cotovelo que, até lá chegarmos, não percebemos para onde se irá abrir.

 

Uma broncalina do camandro, diria o meu chorado António Garcia. Ou então: uma Bernardette do caboz.  

 

 

 

 

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12.2.17

 

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tento
ten.to
nome masculino
(do latim tentus, part. pass. de tenere, ter, segurar)

 

Cuidado, cautela, precaução, sentido, atenção, mas também, por extensão, tino, juízo, contenção. Palavra que tende a cair em desuso, como outras, cilindrada pelo estreitamento lexical que caracteriza o «português contemporâneo». Subsiste, apesar de tudo, na expressão «ter tento», ter cuidado ou juízo, e em particular na expressão idiomática «ter tento na língua», ter cuidado com o que se diz. Porém, a expressão subsiste largamente pela mesma razão que o «sim» supõe a existência do «não», isto é, o que justifica o uso é a ausência de tento. Por isso se usa sobretudo em contextos de advertência (tem tento na língua, para não dizeres disparates ou tem tento na língua para não falares de mais ou para não seres deselegante) ou de observação a posteriori (aquele não se safou porque não teve tento na língua). O termo subsiste porque o cuidado e o tino vão desaparecendo e o sinal disso é a incontinência verbal, observável desde logo no discurso público (o microfone é uma das formas modernas da tentação; o telemóvel parece que também). O «tento» dos comentadores desportivos, com o significado de «golo», tem um étimo diferente (talentum), embora também nesta área haja pouco tento, na outra acepção.

 

 

 

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8.2.17

balcas

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro

 

 

 

Guerras dos Balcãs

 

 

 

Agosto de 1992 no bar do White’s. Peter Carrington fizera as apresentações. “Lord King: British Airways. José Cutileiro: ele e eu destruímos a Jugoslávia juntos”. King mediu-nos de sobrolho carregado e respondeu: “Tiveram alguma ajuda.” Muitos anos antes, outro inglês inventara fórmula lapidar, evidente nos tumultos e confrontações do nosso tempo naquela parte do mundo que Lord Carrington fora mandatado pelas Comunidades Europeias a resolver (encarregando-me a mim da Bósnia). Escrevera Churchill: os Balcãs produzem mais História do que aquela que são capazes de consumir. A ocasião mais célebre, assassinato em Sarajevo do herdeiro do Império Austro-Húngaro por estudante sérvio em Junho de 1914 levara à primeira guerra mundial – a Grande Guerra.

 

Em 1991 Mitterrand dissera a próximos seus que, se as Comunidades Europeias não existissem, as tensões com a Alemanha teriam sido ingeríveis – mas a gestão foi mais questão de maneiras do que de equilíbrio de interesses. A Alemanha impôs reconhecimento prematuro da Croácia aos franceses e aos outros parceiros (em 1945, a Croácia rendera-se aos aliados uma semana depois de Berlim), tirando força à Conferência Carrington. Depois disso, porém, salvo alguma ajuda dada aos kosovares (inimigos dos sérvios meus amigos são) portou-se outra vez com decência rara em grandes países.

 

Depois da morte de Tito em 1981 a Federação Jugoslava era construção frágil. Dominada por ele que, saído do lado vencedor da guerra, soltando-se do jugo de Estaline e sendo ajudado em troca pelas potências ocidentais declarou ter inventado regime novo, uma espécie de ‘terceira via’. Na realidade, era como se meretriz num bordel tivesse decidido sair, estabelecer-se por contra própria e chamar à nova empresa colégio de freiras. Sobreviveu à morte do fundador mas, dez anos depois, não resistiu ao fim da Guerra Fria. As guerras que se seguiram, na Croácia, na Bósnia, no Kosovo atingiram cumes de crueldade semelhantes aos das Guerras Balcânicas de 1912 e 13 – muito distantes da papelada moralista emitida por Nações Unidas e União Europeia. 

 

Já no século XX, à beira de extinção, Império Otomano e Império Austro-Húngaro digladiaram-se nos Balcãs; medram por lá memórias de ambos e uma Sérvia independente tão marcada pelas peripécias da História que o lugar mais sagrado do seu território é no Kosovo, onde a grande batalha patriótica – a Aljubarrota deles, também travada no século XIV – foi uma batalha perdida. E nhurros como touros enquerençados.

 

Consumidores de História a mais pairam constantemente, como abutres. Os Estados Unidos de Bill Clinton viram em Sarajevo governo muçulmano que lhes convinha ajudar, fizeram durar a guerra e os seus desastres mais três anos do que preciso, e inventaram depois paz que só presença militar estrangeira garante. Fortalecendo de caminho tradição criada no Afeganistão de ajudar e armar inimigos jurados do seu país e do Ocidente em geral.

 

Amiga queria saber dos Balcãs. Chegará?

 

 

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