18.10.14

 

Rita Barros regista desde 1987 a vida no Hotel Chelsea, em Nova Iorque, e vem registando a sua agonia desde que em 2011 o hotel foi vendido, encerrado ao turismo, esventrado por obras e os residentes de longa data se viram confrontados com muitas incertezas pessoais e a morte anunciada da sua casa comum.

 

Negação, zanga, negociação, depressão, aceitação — as etapas do luto são cinco, não necessariamente por esta ordem mas fica a ideia.

 

Embora centrada no trabalho de Rita Barros no Chelsea, a exposição comissariada por Jorge Calado dá a ver todo o universo da artista, dos seus primeiros trabalhos a preto e branco às suas imagens mais emblemáticas [o sapato e a chávena de café da série Presença na Ausência] e incluídos estão também outros temas [11 de Setembro] e uma bonita colecção dos seus photobooks artesanais. 

 

Nesta exposição um engenhoso biombo vermelho separa o antes do depois: à entrada somos naturalmente conduzidos para o Chelsea e os seus habitantes nos bons tempos [reunidos no livro Chelsea Hotel Fifteen Years] e para três auto-retratos de Rita Barros no seu apartamento, cuidadosamente encenados, coloridos, solares.

 

À saída, após as imagens fúnebres e irónicas [de Displacement] e uma deambulação melancólica pelos belíssimos interiores do Chelsea despovoado e semi destruído [a série mais recente] encerram o percurso, nas costas do biombo, duas imagens intimistas que convido o Leitor a descobrir . 

 

 

 

 

 Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia /UNLCampus da Caparica 

 

 

 

 

Biblioteca da Faculdade de Ciência e Tecnologia /UNL

 

Campus da Caparica

 

2ª a 6ª feira | 09:00h - 20:00h

 

Sábados | 18 e 25 de Outubro, 15 Novembro | 15h - 18h

 

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15.10.14

 

 

M. de V. p&b.jpg

 

 

 

 

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Quislings?

 

 

Em 1640, Miguel de Vasconcellos, valido da Duquesa de Mântua, regente do Reino, morreu atirado de uma janela. Em 1945, Philippe Pétain, herói da guerra de catorze, viu a sua pena de morte comutada por De Gaulle e veio a finar-se em prisão perpétua (todos os anos Mitterand, já no Eliseu, mandava pôr um ramo de flores na sua campa no dia do armistício de 1918). Também em 1945, Vidkun Quisling — que, ao governar a sua Noruega natal por conta do ocupante nazi, deu nome genérico a esses traidores ambíguos — foi fuzilado numa prisão de Oslo. Guerras de independência desapareceram da Europa de hoje. Agora, fronteiras e soberanias esfumam-se e o domínio de Berlim sobre as decisões fiscais de outras capitais, impondo políticas de austeridade que estão a estalar pelas costuras e quase a matar o cavalo do inglês, é tão grande que amigo sábio chama à zona euro Alemanha Magna. Até quando?

 

Há dias Matteo Renzi, primeiro-ministro italiano, rapaz quase sempre pimpão demais para meu gosto, acertou em cheio no alvo. Acossado, como outros governantes do sul, por visão teutónica paranoide que faz da inflação pecado mortal — disposta a correr o risco, presumivelmente virtuoso, de deflação — disse: “Prefiro uma França com 4% de défice a uma França com Marine Le Pen presidente.” A questão é essa e é isso que a Alemanha parece incapaz de perceber. Convicta da bondade dos seus valores; de que, no seu seio, nazismo, fascismo, nacionalismo agressivo não brotarão de novo e incapaz de perceber outros povos, insiste em considerar diferenças entre o norte e o sul como combate entre o bem e o mal que será ganho quando nós, meridionais, reconhecermos o nosso erro. Entretanto a deflação está à porta, a crise morde a própria Alemanha e, com coro que vai da Casa Branca ao FMI e ao Papa a pedir estímulos à economia e não só prestações para o tonel das Danaides de dívidas impagáveis talvez Merkel e Schäuble se desimaginem da cruzada moralizante antes que esta arruíne de vez a Europa.

 

Não foram eles que desregularam demais o sistema financeiro nem foram eles que fizeram do euro nossa moeda sem o cuidado devido. A culpa da crise foi doutros — mas é culpa deles que o remédio escolhido agrave a doença em vez de a curar. Será que, por fim, se juntarão a Mario Draghi do Banco Central Europeu, dispostos a “fazer o que for preciso” para salvar o euro (e os europeus)? Provavelmente tarde e a más horas.

 

E por agora? Os Quislings de hoje? Os que seguem regras ditadas por Berlim via Bruxelas porque senão não há agiota que empreste dinheiro em conta aos países que governam? Poder-se-iam inspirar em Mitterand que começou por servir Vichy, quando sentiu no ar um perfume de vitória aliada se mudou para a resistência e acabou por chegar à Presidência da quinta República, onde ficou catorze anos? Duvido. A História não se repete. Não há génios políticos tortos em todas as gerações nem, quando a austeridade acabar, os povos irão pedir as cabeças dos capatazes de Berlim.

 

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8.10.14

 

 

 

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O passado é um país estrangeiro

 

Já sabíamos e descobrimos agora que o futuro também o é. Não o futuro que havia dantes, oculto ou fantasiado por visionários. Mas o futuro que há hoje ao lado dos lares de terceira idade onde os protagonistas do passado agonizam (“em suma, somos os velhos, cheios de cuspo e de conselhos”), praticado por gente nova, homens e mulheres que falam outra língua, têm outros modos, fazem outras contas, tecem a revolução numérica, colonizam o país estrangeiro armado à nossa volta e, sem a gente entender bem como eles e elas sejam, única esperança que nos resta da Pátria vir a ter melhores dias — desde que dons e virtudes diferentes dos nossos, neles e nelas afinados, cheguem para as encomendas.

 

“E com muitas Avé-Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo”, rematou Fernão Mendes Pinto o relato da abordagem do junco do pirata Similau nos mares da China. (Ao tempo não havia Nações Unidas, nem Comissão dos Direitos do Homem, nem Tribunal Criminal Internacional). “Fartar, vilanagem!” gritou Álvaro Vaz de Almada, amigo de D. Pedro, aos áulicos do Rei que o acabavam à espadeirada em Alfarrobeira - em vez de, como fariam pimpões de agora, ameaçar mandá-los para a Haia. Durante pelo menos dois mil anos os europeus matavam e morriam de alma-e-coração; hoje, depois de meio século de Pax Atomica e de room service, não nos sentimos tentados a fazê-lo.

 

Juntamente com os americanos começámos a bombardear do ar os homens sanguinários e vestidos de preto que estão a devastar outra vez Síria e Iraque, assassinam barbaramente gente de outras seitas, querem massacrar todos os infiéis, tentam impor ao mundo o Islão mais fanático, estreito e cruel de que há notícia (pior ainda do que os outros monoteísmos) e, de vez em quando, degolam um dos nossos na televisão porque precisam de se convencer de que são homens e não rapazes. Ora os entendidos sabem que só com bombardeamentos aéreos não se conseguirá acabar com o Califado e se corre mesmo o risco de reforçar o seu prestígio e a sua atracção perante uma juventude muçulmana europeia alienada, que se sente cada vez mais excluída. Seria preciso mandar infantaria - “boots on the ground”, diz-se expressivamente em inglês – mas não há país ocidental que o queira fazer. Como, além disso, o moral e a competência das tropas locais deixam muito a desejar (à excepção das dos Kurdos, a quem o Tratado de Versailles de 1919 não concedeu pátria e nunca ninguém deu mimos) a aniquilação rápida do Estado Islâmico do Iraque e da Síria que seria higiénica e pedagógica para o futuro do mundo inteiro parece, no mínimo, muito improvável.

 

Se a História fosse uma corrida de estafetas regulada pelo Comité Olímpico Internacional não nos deixariam passar testemunho assim às gerações seguintes. Mas não é, o mal está feito e só nos resta esperar, como do jovem guerreiro cantado por Homero: “Que se possa dizer dele quando voltar da guerra: mas este é muito melhor do que era o pai.”

 

 


1.10.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O antigo regime e a revolução

 

 

Poucos anos antes ou poucos anos depois do 25 de Abril, num bar no Cais de Sodré onde o Albaninho Costa Lobo me levara a tomar um copo ao fim da tarde, entre fregueses compinchas do Albaninho, gente de negócios de barcos, havia um, devoto da memória de Salazar, que contou ter em casa discos com discursos dele que muitas vezes punha na grafonola e ouvia, a chorar.  

 

Tinha o falar franco e confiante dos praticantes de desporto (no caso, andebol no Sporting) e contava a sua história sem pompa nem pretensão. Lembrei-me hoje dessa passagem que me impressionara na altura. Nado e criado em casa de tradição republicana, que por Salazar nutria uma mistura de desprezo, desgosto e zanga; tendo por assim dizer posto entre parêntesis avô materno salazarista; dando-me com filhos de amigos dos pais de inclinação parecida e fazendo eu próprio amizades laicas e esquerdistas — nem eu nem os meus irmãos tínhamos sido baptizados — vivi a universidade, a morte do pai, a ida para Inglaterra, numa bolha oposicionista que não se desfez até à queda do regime. Vindo de Londres a Lisboa no começo de Maio de 1974, ao passar o controle de fonteira no aeroporto da Portela — “Seja bem-vindo a este país livre” disse o jovem guarda-fiscal ao devolver-me o passaporte — senti o que continua a ser a maior alegria da minha vida fora do foro privado.

 

Depois da revolução ter derrubado o antigo regime, porém, aprendi a ver Portugal de outra maneira. Episódios curiosos chegavam do mundo universitário: estudantes maoistas foram a Sintra convidar MS Lourenço para professor de filosofia da Faculdade de Letras de Lisboa, onde o regime anterior não o deixara ensinar. Acordo feito, até que à saída um dos maoistas perguntou “O Senhor Professor conhece o trabalho do camarada Estaline sobre lógica?” “Não, não conheço”. “Mas vai com certeza ler?” “Nem pouco mais ou menos”. Acordo desfeito. Alguns anos depois, numa aula prática com dez alunos, um deles contou a Mena Mónica de argumento espectacular num livro que vários deles tinham lido. “Num livro de quem?” perguntou a Mena. “Aqui da Joana”. Doutro mundo que eu também conhecera, o da agricultura alentejana, vinham notícias piores ainda e o que lá fui ver em 1976 mais me desencorajou. Portugal fora destapado, como dizia o meu chorado Horácio Menano. E dentro do tacho havia de tudo (incluindo alguns patriotas impolutos). Espartilhada pela Guerra Fria, a Revolução dos Cravos acabou em democracia (tal como a Primavera de Praga acabara em Inverno) e depressa me convenci de duas coisas. Primeira: não havia país mais parecido com Portugal depois do 25 de Abril do que Portugal antes do 25 de Abril. Segunda: ao contrário do que aprendera em casa dos pais, Salazar não tinha sido causa dos nossos males mas sim sua consequência.

 

5 de Outubro; 28 de Maio; 25 de Abril. Hoje, na União Europeia, com a tropa limitada aos seus deveres constitucionais, deixará de haver datas dessas e não teremos mais desculpas.

 

 

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27.9.14

 

 

Cristina Futscher Pereira

17 Abril 1948—27 Setembro 2005 

 

 

 

 

 

Caro Almeida Garrett

 

 

Perdoe-me tão directa interpelação, mas creia que não o incomodaria por pouca coisa. Conhece bem o drama de partir, e de partir cedo. De partir cedo demais. Sei, por isso, que entenderá o que tenho para dizer.

 

O seu nome e a sua obra são ainda venerados nesta sua terra, embora um pouco da mesma forma que os monumentos o costumam ser. Reverenciados, mas na verdade esquecidos, ignorados, e vandalizados. Nada de novo, como muito bem sabe.

 

Imagine que se descobriram os manuscritos inéditos do seu Romanceiro misturados com outros papéis que estavam em casa de Venâncio Deslandes, na época director da Imprensa Nacional. Podemos talvez imaginar as razões pelas quais o Senhor Deslandes poderá ter levado os manuscritos para casa, mas provavelmente nunca saberemos ao certo a razão de lá terem ficado até a Cristina Futscher Pereira os ter descoberto.

 

Mas o achado constituiu também um encontro.

 

A partir desse momento o destino de Cristina Futscher Pereira passou a estar ligado ao destino desses papéis, e Você, meu caro Garrett, passou a estar no centro do seu entusiasmo. Ela pressagiava que aqueles manuscritos eram um sinal da sua boa estrela, e até construiu este pequeno «templo», de onde agora lhe escrevo, para nele partilhar as boas novas com todos os interessados.

 

Mas (quase) ninguém estava verdadeiramente interessado. Bem, houve alguns lampejos de interesse pelos papéis, noblesse oblige, embora frouxos e breves. Não sei, talvez estejamos cansados de ser um País, de ter uma História tão pesada e de tão incerto saldo.

 

Além do mais, o romanceiro é uma coisa tão out, tão old fashioned you know what I mean? —, é coisa de um mundo que já não existe, e que por isso já não nos interessa. Claro, é bom que se preserve, alguém que se encarregue de guardar essas coisas. Pode ser que um dia façam falta, sei lá.

 

Apesar de tudo, o meu Amigo nem tem muito de que se queixar. Apesar do infortúnio pedagógico das Viagens, ainda faz parte do cânone, ninguém lhe impugna o episódio do Mindelo, ainda lhe dão palco nos teatros, o fraque verde, a gravata de cor e o chapéu branco ainda causam um simulacro de furor entre as senhoras. Da sua poesia sobraram as Folhas Caídas (cujo pathos aumenta se se souber da história com a viscondessa da Luz), e a sua eloquência ainda ecoa vagamente no Parlamento. Outros não se podem gabar de tanto.

 

Mas na verdade pouca gente o lê e, hélas!, cada vez menos gente fala a mesma língua em que Você escreveu páginas tão marcantes.

 

Adiante. Eu conheci a Cristina por sua causa. Digamos que foi o ilustre Autor que propiciou o nosso encontro. Assim que lhe ouvi os planos, logo a alertei para esperar muito pouco ou nada. Mas o meu cepticismo foi cedendo à sua energia e vontade de suscitar um interesse renovado pela sua figura e pela sua obra, caro Garrett. E a isso eu não me poderia negar.

 

O resultado dessa colaboração está aqui nestas páginas escritas no éter (o meu caro Amigo perdoará não me atrever sequer a tentar explicar-lhe o que isto é…), mas está também nas muitas cartas que trocámos, através da quais o nosso relacionamento atingiu a patente de amizade.

 

Caro Almeida Garrett, a Cristina Futscher Pereira morreu.

 

Partiu cedo demais, como também aconteceu consigo. Com a morte dela, morre também este espaço que ela lhe dedicou, no qual eu tive a honra e o gosto de participar.

 

Ele aí – aí?, aqui? – fica, como testemunho de como lhe pulsou o coração ao longo do seu último ano de vida. A Cristina fez o que pôde, até já não poder fazer mais. Mas fica também o exemplo, e, quem sabe?, talvez ele frutifique, talvez possa ser retomado. Não é verdade que todos lhe devemos isso?

 

Cumprido este dever de que voluntariamente me incumbi, despeço-me com a estima e a admiração de sempre.

 

Jorge Colaço

 

Post-Scriptum – Se os mortos e os tempos conviverem e se misturarem como acontece na Torre de Barbela de Ruben A., estou certo de que há-de vir a conhecer a Cristina. Peço-lhe que a trate como a uma boa e dedicada Amiga.

 

 

 

 

Notas:

 

Este texto fechou o blog O Divino em 2005. O blog garrettiano fora criado por Cristina em 2004 e foi retirado dos blogs do sapo cinco anos depois.

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Retentiva e Conteúdos em Português. 

 

 

Leia também os posts

 

Long Live Garrett

 

Garrett inédito

 

Garrett liberal, romântico, escritor, homem de espírito, pesquisador, homem de acção...

 

Garrett leitor de Vicente

 

Venâncio Augusto Deslandes (1829-1909)

 

 

Inéditos do romanceiro garrettiano neste blog na tag Garrett 

 

 


24.9.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Nous avons tous des trous dans les chaussettes”

 

 

Assim me surpreendeu o médico das pernas quando eu lhe disse que, no osteopata, antes de o vir ver a ele, reparara no buraco da peúga. Lembrei-me do historiador A. J. P. Taylor para quem a convicção amarga da decadência da civilização vinha do facto de, dantes, os professores de história terem pessoal doméstico e agora serem eles a lavar a sua roupa. O agora dele era há 50 anos em Oxford; receios de decadência da civilização ainda não atingiam Portugal onde os professores universitários tinham criadas de servir e o resto vinha à proporção: na minha mocidade conheci camponês analfabeto e canalizador semiletrado inteligentíssimos bem como catedrático de filosofia burro como uma porta. No agora de hoje, Portugal está muito mais perto da Europa do que estava nessa altura. “Que ele seja médico não me espanta; o que me espanta é que tenha aprendido a ler”, sentença cruel que ouvi ao nosso médico de família (cujos atestados, a partir de 1947, começavam: ‘Francisco Pulido Valente, professor catedrático da Faculdade de Medicina de Lisboa compelido à reforma por motivos políticos’) punha o dedo na ferida: em Portugal licenciava-se quem tivesse família com dinheiro para lhe pagar os estudos, mesmo que levasse 20 anos neles. Era a vida, diria o Engenheiro Guterres.

 

Hoje, a decadência da civilização toca todos os europeus, os do Norte, protestantes e mais ricos; os do Sul, católicos romanos ou ortodoxos e menos ricos, mordendo até a economia alemã. A Alemanha manda. Antes da reunificação, a inflação já era, para Bona, pecado mortal mas quem mandava era a França, onde uma pitada de inflação fora sempre o sal da economia. Desde 2008 Sarkozy e Hollande foram incapazes de lembrar convincentemente a Merkel que, a seguir à guerra de 39/45, a Alemanha só fora aceite à mesa das nações decentes por a França lhe ter estendido a mão. Com a economia estagnada sob a batuta austera de Berlim, vendo mirrar o seu quinhão do comércio mundial, quase desarmada num mundo cada vez mais agressivo e desordeiro, uma vasta classe média europeia, ensanduichada entre tantos desempregados que o welfare state se torna insustentável e 1% de ricos-ricos a quem cabe percentagem escandalosa da riqueza total, passou a ver o túnel ao fundo da luz: pela primeira vez desde que alguém se lembre os filhos irão ser mais pobres do que os pais. E — a acreditar no médico das pernas que viu mais pés sem sapatos do que a leitora ou do que eu — toda a gente tem buracos nas peúgas. Pequenezes de fim de civilização.

 

Escócia

   

Sensatez e tolerância na Escócia (e no Reino Unido) merecem celebração. Como merece o discurso de 13 minutos de Gordon Brown que, entre políticos que falam como quem venda apólices de seguro, elevou o debate a tom Shakespeareano. Por fim, a Rainha, constitucionalmente calada, tem, pela mãe, 50% de sangue escocês, pelo pai 50% de sangue alemão e, quer por um quer por outro, 0% de sangue inglês. Magia da realeza. 

 

 

 

 

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17.9.14

 

 

 

 

 Cosimo de Medici 

 

 

 

 

 

Progresso?

 

 

“Quem saiba a língua sabe a cultura e quem saiba a cultura entende as pessoas” dizia o professor de antropologia social em Oxford. Por estudar gente do meu país —  e da minha província natal — em vez de estudar gente de fala, lugar, manhas e fé diferentes das minhas, eu tinha meio caminho andado. Sobre isso, para Evans-Pritchard  (EP como a gente lhe chamava), não havia a menor dúvida. Concordei.

 

Hoje não concordaria. A conversa foi há cinquenta anos e cinquenta anos agora não são o que eram cinquenta anos há cinquenta anos. As diferenças entre passado e presente são maiores do que alguma vez haviam sido desde o Big Bang, ou, para tentar entender, desde que a consciência humana inventou e mediu espaço e tempo. Mais perto de nós, longe dos mistérios do tempo cósmico e dos buracos de traça do tempo histórico, no tempo pessoal de cada um, a velocidade da mudança acelerou como nunca acontecera. A língua falada pelos netos afasta-se da língua falada pelos avós e o confronto entre as duas roça a incompreensão. A escrita, desde os tijolos gravados da Caldeia ao processador de palavras que estou a usar, passando pela Bíblia de Gutenberg, o Dicionário de Moraes, a cartilha de João de Deus, fora acompanhando e resistindo, guardando e deitando fora, mantendo-se viva ao contrário do latim e do grego clássico. Hoje é diferente.

 

“[O] blog está a perder fluidez: trazes muitos temas colaterais à colação. A net exige uma escrita mais linear, frases mais curtas e menos ornamentos de erudição sobre o assunto principal” escreveu-me leitor fiel a quem Verão dantesco revelou que amigos do peito eram, afinal, amigos de Peniche, afastando-o algumas semanas de rotinas que incluíam a leitura destes Bloco-Notas. “Eu não sou especialista mas estive a vê-lo com os meus filhos [que o são] e aquilo que observo foi deles que o ouvi”.

 

Devem ter razão mas a pressa competitiva, inventando maneiras cada vez mais curtas e rápidas de dar recados para espalhar notícias antes da concorrência ou ganhar milhões em fracções de segundo, está a afunilar a língua, reduzindo ou conseguindo mesmo eliminar ambiguidades, preferindo certezas a dúvidas, acção a reflexão, usando, para referir maneiras de agir ou reagir, metáforas que reflectem métodos financeiros, investigação económica, práticas comerciais e se afastam cada vez mais do ciclo das estações, tal como no supermercado se encontra sempre agora fruta que não é da época. (A popularidade de Twitter, que restringe comunicações a 142 caracteres, atesta gosto pela brevidade mas não era bem disso que Tchekov falava quando dizia: “escrever bem é escrever com concisão”).

 

O banqueiro Cosimo de Medici, dono da melhor biblioteca de Florença e o mais sábio dos irmãos, detestava a invenção de Gutenberg. Os livros não se comparavam em qualidade com os seus incunábulos. A cultura acabara.

 

Enganava-se mas quem saiba a língua hoje não sabe por isso a cultura nem entenderá melhor as pessoas. Como fazem agora os antropólogos?

 

 

 

 

 

  

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10.9.14

 

 

 

© Thomas Peter/Reuters

 

 

 

 

 

 

Mau jeito e má-fé

 

 

Há pouco mais de vinte anos, quando a Federação Jugoslava de que o Marechal Tito, durante a Guerra Fria, forjara reputação de farol de liberdade numa Europa Oriental talhada e adubada por Estaline (embora, quanto a virtude, a Jugoslávia fosse assim como pequena que trabalhasse num bordel, saísse, abrisse casa por conta própria e chamasse ao novo estabelecimento colégio de freiras) começara a desmoronar-se e rebentaram guerras locais, uma entre sérvios e croatas, a chamada comunidade internacional agitou-se, um entusiasta declarou que chegara “a Hora da Europa”, entrou-se na contradança de cessar-fogos e uma missão de monitores europeus fazia relatórios diários. Fixei o começo de um: “Cease fire holding despite major violations”.

 

Em 1992, os monitores europeus não eram os únicos interessados em que as pazes fossem feitas. A Alemanha pró-croata e a França pró-sérvia, encastradas na construção europeia — se não fosse esta, disse Mitterand, alemães e franceses ter-se-iam pegado outra vez — moderaram instintos e tradições. Os ingleses ficaram quase de fora; os americanos começaram por apoiar Belgrado porque não queriam dar mau exemplo à União Soviética; quando esta colapsou desinteressaram-se e depois, como é seu costume, inventaram mais um caso de bem contra o mal (o bem eram os muçulmanos bósnios e o mal, os sérvios).Todas as potências, até os russos de Gorbatchev e de Ieltsin, queriam a paz na região. Guerra só queriam mesmo sérvios e croatas — e eram poucos para arreliarem o mundo.

 

Matavam-se uns aos outros com afã, mas pararam quando os mandaram parar. Disputaram-se nas Kraínas, com a mesma etimologia de Ucrânia: terra de fronteira. As histórias são parecidas: na Ucrânia como nos Balcãs, durante a II Guerra Mundial, comunistas e nazis locais pintaram a manta, deixando nas memórias um duro génio de vinganças. Agora, separada da Mãe Rússia pela primeira vez desde que S. Vladimiro baptizou os russos em Kiev, a Ucrânia divide-se entre um Leste pró-moscovita e um Oeste pró-ocidental, o primeiro ainda mais longe de um estado de direito do que o segundo. O país é vasto mas, se os grandes deste mundo quisessem, a sarrafusca acabava e arranjos de paz seriam negociados. Um dos grandes, porém, quer que a sarrafusca continue.

 

É a Rússia de Putin, vingador de humilhações imaginadas que não quer paz na Ucrânia se não for ele a mandar. A tomada descarada da Crimeia (crime nos nossos dias mas bagatela comparada com tantos feitos militares passados) e mentiras igualmente descaradas do Kremlin, guindaram-no aos olhos dos seus à galeria dos grandes estadistas russos. Para nossa segurança futura é preciso travá-lo.

 

Pregar-lhe moral é igual ao litro. Meter-lhe medo sem ameaça de uso da força, tem feito pouca mossa. Mas é por aí, Alemanha à frente, que teremos de ir, apertando sanções até obtermos o efeito pretendido. E se, afinal de contas, tiver de haver mesmo guerra, preparados para a ganharmos. Somos homens ou somos rapazes?

 

 

 

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3.9.14

 

 

 França, 2014

 

 

 

 

 

 

Si t’es pas bi, t’as rien compris

 

 

Se não és bissexual não percebeste nada, dizia frase tirada do texto e posta em relevo, a meio de artigo sobre bissexualidade que parece agora estar na moda entre adolescentes franceses, numa revista para senhoras, também francesa, com fotografias a preto e branco de miúdas e miúdos a beijarem-se na boca, rapaz a rapaz, rapariga a rapariga. Nenhuma intenção pornográfica, só diligência informativa. Aprender até morrer.

 

Sempre, indo para velha, a gente mudava. O que é novo, de há menos de três séculos para cá, é que o mundo parece mudar mais depressa do que nós, e nos últimos tempos, muito mais depressa ainda. Desconfiança das vantagens da Revolução Francesa começou logo com ela e teve, desde então, protagonistas convictos. O meu amigo Chico Quevedo, por exemplo, quando ainda ia de automóvel de Bruxelas para Lisboa acrescentava mais de uma centena de quilómetros de estrada para evitar Paris. A Revolução Industrial também teve logo detractores – o poeta William Blake fulminou “the dark, Satanic mills” — e continua a apoquentar ecologistas mas sai-se muito melhor do que “Liberté, Égalitè, Fraternité” sempre que a gente toma um comprimido de Aspirina e a dor passa.

 

No meu tempo de liceu, de bissexualidade quase não se falava e, de qualquer maneira, tínhamos, por assim dizer, mais ralações do que relações sexuais. Nessas coisas a mudança foi e, pelos vistos, continua ser, enorme — e ainda bem. Como ainda bem também as mudanças em governação: internacional (onde não existe mas se tenta compensar e, com sorte, talvez se preveja melhor do que em 1914) e nacional (onde as pessoas podem cada vez mais dar palavra) mas o desinteresse pela coisa pública e a desconfiança dos políticos alastra assustadoramente. O húngaro Victor Orban, admirador de Putin, foi ao ponto de declarar que a democracia é um mau sistema de governo porque enfraquece os povos e os regimes autoritários são preferíveis porque os reforçam. Tentações assim pulsam cada vez mais pela Europa fora.

 

Europa que, com islamitas do Califado no Iraque e na Síria, por um lado, o Czar Vladimiro, por outro e — cereja no bolo — um banana indeciso na Casa Branca, começa sombriamente a convencer-se de que se não for capaz de se defender de quem lhe queira mal, ninguém o fará por ela. A reconversão urgente e penosa de recursos e de ideias necessária à nossa sobrevivência será aproveitada pelos inimigos da liberdade — desde protectores de interesses corporativos em agricultura, comércio, indústria, serviços até almas ofendidas com a variedade de práticas sexuais aceites. Toda essa gente tem de perceber que onde as suas preferências de ordem e de respeito pelo passado imperam e onde o chefe quer, pode e manda, são, perto de nós, o Califado do Iraque e da Síria, ou, em versão light cristã, a Ucrânia oriental.

 

(Lembrete: os soldados com maior reputação de bravura de toda a antiguidade clássica vinham de Esparta, onde a bissexualidade era de rigueur.)

   

   

  

 

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31.8.14

 

 

  Simon Leys / Pierre Ryckmans

 

 

 

La Chine a connu ces dernières années de prodi­gieuses transformations. Elle est en passe de devenir une super-puissance — sinon la super-puissance. Dans ce cas, elle sera — chose inouïe — une super­puissance amnésique. Car, jusqu'à présent, sa miracu­leuse métamorphose s'effectue sans mettre en ques­tion l'absolu monopole que le Parti communiste continue à exercer sur le pouvoir politique, et sans toucher à l'image tutélaire du président Mao, sym­bole et clé-de-voûte du régime. Et le corollaire de ces deux impératifs est la nécessité de censurer la vérité historique de la République populaire depuis sa fon­dation : interdiction absolue de faire l'histoire du maoïsme en action - les purges sanglantes des années 1950, la gigantesque famine créée par Mao (dans un accès de délire idéologique) au début des années 1960, et enfin le monstrueux désastre humain de la «Révolution culturelle » (1966-1976). Treize ans après la mort du despote, le massacre de Tianan-men (4 juin 1989) est encore survenu comme un post-scriptum ajouté par les héritiers, pour marquer leur fidélité au testament laissé par l'ancêtre fonda­teur. Mais ces quarante années de tragédies histo­riques (1949-1989) ont été englouties dans un « trou de mémoire » orwellien: les Chinois qui ont 20 ans aujourd'hui ne disposent d'aucun accès à ces infor­mations-là — il leur est plus facile de découvrir l'his­toire moderne de l'Europe ou de l'Amérique que celle de leur propre pays.

 

Quelle sorte d'avenir peut-on bâtir sur l'ignorance obligatoire du passé récent? «Ce qui peut constituer le plus grand obstacle empêchant la Chine de devenir un pays moderne au meilleur sens du mot, c'est sa volonté de maquiller et de récrire l'Histoire, tout par­ticulièrement, l'histoire de la "Révolution cultu­relle" », remarquait tout récemment le journaliste Jonathan Mirsky, perspicace observateur de l'actua­lité chinoise.

 

Mais la métaphore la plus éloquente de la situa­tion présente est encore ce Coma de Pékin évoqué par Ma Jian: le protagoniste du roman (une création particulièrement puissante de la littérature chinoise contemporaine) est un jeune manifestant décerveié par une balle perdue de Tiananmen, qui flotte, para­lysé, muet, sourd et aveugle, dans un coma sans fin.

 

 

Simon Leys

in Le Studio de l'inutilité

[Relire l'histoire de la « Révolution culturelle », Intoduction à la réédition des Habits neufs du président Mao (Ivrea 2009)]

© Flammarion 2012

 

 

Mais sobre o Autor aqui e aqui

 

 

 

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27.8.14

 

 

 

Brasão da Cidade de Évora

 

 

 

 

 

 

Decapitações

 

 

O brasão da minha cidade natal representa guerreiro a cavalo que levanta na mão direita um montante e segura na esquerda as cabeças, cortadas de fresco e agarradas pelos cabelos, de um homem e de uma mulher. É Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, que para recair nas boas graças do rei D. Afonso Henriques que o banira da corte lhe ofereceu a tomada de Évora aos mouros. Para isso meteu-se a namorar a filha do vigia que, de uma torre fora de portas, indicava à noite, por sinais de fogo, se hostes que se aproximassem da cidade eram amigas ou inimigas. Ganha a confiança de ambos, organizou bando de gente sua, um serão degolou pai e filha, assinalou à cidade chegada de amigos, o bando cavalgou pela porta escancarada da muralha, matou os defensores num Credo e — Real, Real por El-Rey de Portugal! — Évora passou a ser nossa. Foi um dos momentos altos da reconquista cristã da Península.

 

Consta-me haver agora em Évora quem queira mandar o Sem Pavor para o caixote do lixo da História e inventar brasão que não ofenda correcção política. Espero que tal nunca aconteça. A correcção política liofiliza ditos e feitos de cada um, no afã de transformar a hipocrisia em virtude, e em Portugal agora o efeito é muito pior ainda do que em lugares que não tenham escolhido, como nós, a mediocridade para ambição e a subalternidade como regra de vida. Em anos passados, menos rasteiros, a despedida do trabalho ouvida a uma mulher a dias — “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe” —  já me parecera às vezes lema plausível para a política externa portuguesa. Desde então as coisas só têm vindo a piorar, incluindo a nossa aquiescência à adesão da Guiné Equatorial à CPLP que alia incongruência linguística e ganâncias despudoradas a incómodo moral, escusado para quem se proclamou democracia em 1976 e aderiu à Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Há quem goste de dizer que democracias são invenções ocidentais e que há outras maneiras de governantes e governados viverem a contento de todos. Mas a questão não é essa. É que, inter alia, o presidente fundador da Guiné Equatorial, país paupérrimo até à descoberta do petróleo, matou ou forçou ao exílio um terço da população, tendo crucificado adversários políticos dos dois lados de estrada que leva a Malabo e o sobrinho igualmente meio louco que o mandou assassinar e lhe sucedeu, além de manter a opressão brutal não se livra da fama de ter comido (literalmente) opositor exilado em Madrid que resolvera, insensatamente, voltar à pátria. Eu sei que tivemos o casal Ceaucescu em Queluz - mas que Diabo…

 

Voltando a decapitações. Lamentavelmente, as reacções dos Estados Unidos e da Europa às façanhas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria e do seu Califa de Rolex no punho têm sido sobretudo retóricas, o que é erro perigoso. Os americanos começaram bombardeamentos; esperemos que os continuem; que aliados aptos a fazê-lo se lhes juntem e que deixem por fim o EIIS como Roma deixou Cartago – arrasada e sem ninguém. 

 

 

 

Imagem aqui 

 

 

 


23.8.14

 

 

 

 Casa de Alvellos, Freixo de Baixo c. 1920

 

 

 

Casa de Alvellos, Freixo de Baixo, c. 1930

 

Da esqª para a dtª : Hugo Belmarço e Maria José Barros da Costa Belmarço, criança não identicada, Maria de Lurdes da Costa Belmarço, homem não identificado, Ana Maria Barros da Costa Morais, Pedro Alvellos, Manuel José da Costa Belmarço, Jorge Morais.

 

 

 

 

 

Maria José e Ana Maria Barros da Costa eram filhas dos viscondes de Alvellos, segunda e último a contar da esquerda nesta fotografia.

 

 

 

Posts relacionados:  

 

 

 

 

Fotografias gentilmente cedidas por Isabel Belmarço de Mello e Castro a quem muito agradeço.

 

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20.8.14

 

 

 

 Tony Silva em "O Tal Canal" de Herman José, RTP 1983/1984 

 

 

 

 

 

O rame-rame

 

 

 “Que lentement passent les heures/Comme passe un enterrement./Tu pleureras l’heure où tu pleures/Qui passera si vitement/Comme passent toutes les heures” rimou Apollinaire na cadeia, acusado injustamente de cumplicidade no roubo da Gioconda do Louvre em 1911. (O Secretário de Estado das Belas Artes quisera matar-se. Roubo parecido na Europa de hoje levaria governante equivalente a dizer logo que a culpa não fora dele mas em 1911 havia honra — talvez até houvesse demais: três anos depois, os Imperadores da Alemanha, da Áustria e da Rússia, o Monarca constitucional do Reino Unido e o Presidente da República Francesa mandaram os europeus irem matar-se uns aos outros. E eles foram, a rir e a cantar). No devagar depressa dos tempos, chamou Marcello Mathias, com vénia a João Guimarães Rosa, aos diários que foi publicando.

 

Agosto vai escorregando pela ravina que leva a Setembro. Consta-me que de Carnide se vê um país cada vez mais triste: quem ande fora tem medo de cá voltar. Que da Quinta da Marinha se descobre que o mal chegar a alguns não faz bem a ninguém. Que entre os pobres de pedir as coisas vão melhor: já não os há como no tempo de Raúl Brandão e na versão moderna, com salários, subsídios e pensões abaixo da fasquia dos cortes e a vida levantada como um barco pela maré tecnológica — ecografias, mezinhas, baixas — mesmo se meninas e meninos forem para a escola em jejum esfomeado, nunca estiveram tão bem. Já quase todos têm posses para comer manteiga de vaca. Tirando o percalço de África e os descaros libertários e libertinos de Internet & Cia o Dr. Salazar, se voltasse agora, não estranharia muito o país.

 

Como no resto da Europa, falta grandeza. Dos nossos dois maiores políticos, Francisco Sá Carneiro morreu cedo demais e Mário Soares — a quem os portugueses devem mais do que a qualquer outra pessoa, incluindo o general Eanes, terem sobrevivido ao 25 de Abril em democracia — desbarata crédito em retórica disparatada de há dez anos para cá. Como no resto da Europa, quem manda tem a visão do saguão e o instinto da escada de serviço. Existirá alguém com cabeça e temperamento que nos arranquem deste rame-rame?

 

Há muitos anos, o dramaturgo Augusto Sobral inventou a “Adivinha” seguinte: “De meia tigela veio/E ficou meia tigela./Ficou a tigela em meio/Porque era meia tigela.” Podia ter sido inventada antes. Em 1963 pequeno proprietário, grande na sua aldeia alentejana, disse-me: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. E em 1834 a Câmara do seu concelho, miguelista como quase todas as câmaras durante a guerra civil, escreveu à Rainha D. Maria II afirmando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fiéis”.

 

Fará mesmo falta animar a malta? Valerá a pena?

 

                                                                                                                                                                                                               

 

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Vasco Luís Futscher Pereira

3 de Fevereiro de 1922 — 20 de Agosto de 1984

 

 

 

Brasília, 10 de Agosto [1974]

 

Almoço com o Vasco Futscher no Clube Naval.

 

Rosto glabro e redondo e olhar de sapo por detrás duns óculos onde palpita viva e ágil a retina bombeada do míope. Grande falador de riso fácil e de uma extrema simpatia natural. Tudo lhe desperta curiosidade.

 

Ostenta um instintivo gosto pela vida alimentado, ao contrário de muitos, pela cultura e a inteligência. Uma ponta de obesidade confere-lhe uma certa inteireza física acentuando-lhe a espontânea jovialidade. Quando sorri, e sorri com frequência, as bochechas sobressaem à maneira dum boneco animado, arredondando-lhe a face e a expressão reboluda do olhar.

 

A primeira impressão é a de que não poderia ter havido melhor escolha. Calhado para o Brasil, como outros o são para a Finlândia ou a Indonésia. O Brasil, que não conhece, surge-lhe como uma experiência inteiramente nova que ainda o anima e seduz, pois é homem, se não me engano, de entusiasmos repentinos.

 

Diz-me, no entanto, ter ficado horrorizado com o que lhe contou o Castelinho1, com quem jantou há dias, acerca da intensidade e polivalência aqui da repressão política a cargo simultaneamente de diversos organismos, que agem por conta própria, cada um dis­pondo de sua gente e actuando por sua iniciativa.

 

[...]

 

Voltando ao Brasil, falei-lhe da relação essencialmente freudiana que ainda hoje liga - ou separa? - o Brasil e Portugal. Quem teimar em encarar este país com o olhar peregrino do portuga, e não perceber a ambiguidade de sentimentos que o brasileiro nutre para connosco, arrisca-se a cometer grossa asneira e a nada entender desta terra e desta gente.

 

Na verdade, nada mais ilusório do que partir do princípio de que a matriz lusíada, por si só, será suficiente para preservar os laços da tão apregoada comunidade luso-brasileira.

 

[...]

 

O embaixador limitou-se a ouvir-me e apenas citou, como prova do contrário, dois exemplos: o caso do Estado de São Pauloe a proliferação de clubes Eça de Queirós disseminados por todo o Brasil. «Veja só o imenso capital de simpatia que isso representa para connosco se o soubermos aproveitar com um mínimo de in­teligência.»

 

Levantou-se — já não sei que horas eram... e quantos cafés ha­víamos ingurgitado — e com um sorriso paternal, pousando-me a mão no ombro: «Deixe lá, homem, não se preocupe, não seja tão pessimista, ainda há por aí muito caturra que gosta de nós.»

 

 

Marcello Duarte Mathias

in Os Dias e Os Anos

© D. Quixote 2010

 

 

1.Carlos Castelo Branco, mais conhecido por Castelinho, ao tempo influente editorialista do Jornal do Brasil.

 

2. Nessa altura, o Estado de São Paulo um dos jornais mais prestigiados, inseria em substi­tuição das partes censuradas, consoante a maior ou menor extensão das mesmas, extrac­tos de Os Lusíadas, assinalando assim os cortes de que era objecto.

 

 

Foto: Francisco Silva Fernandes

 

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17.8.14

 

Duas fotografias do álbum do Brasil, de finais do século XIX. O álbum pertenceu a meu tio-avô António Guilherme de Barros Pereira de Carvalho (1893-1939) e chegou-me do Brasil setenta anos depois da sua morte pela mão generosa de Maria Amália Fragelli, que o conservou depois do desaparecimento da única descendente directa de António Guilherme, Stella Maria Pereira de Carvalho

 

           

 

 Brasil, finais do séc. XIX

 

 

 

 

Aninhas, finais do séc XIX

 

 

A menina encostada ao mastro pode ser Ana Maria Barros da Costa Morais, prima de António Guilherme e de Guilherme Júnior, meu avô materno, cujo retrato se encontra na página anterior do álbum e aqui.

 

 

 

 

 

 

Leia mais sobre O álbum do Brasil

 

 

 

Outras fotografias do álbum do Brasil nos posts

 

dispersed relatives

 

A Écloga e a Epopeia (2)

 

Criança (1896)

 

Casa da Mogada (2) 

 

Criança (c.1890)

 

 

 

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13.8.14

 

 

 

 Paula Rego - A dança

 

 

 

 

 

Quem sabe, sabe.

 

 

Entre as duas guerras (a de 1914-1918 e a de 1939-1945, lembro às leitoras mais novas), a propósito da explosão de exibicionismos que borbulhavam nas années folles, André Gide (francês e Prémio Nobel da literatura em 1947, lembro às leitoras menos dadas a leituras) dizia ver à sua volta mais artistas do que obras de arte. Nessa altura não havia nem internet nem twitter nem facebook nem blogs e, com o que hoje se chamam plataformas a coisa mais parecida seria o cinema, que Meliès e os manos Lumière tinham solto em Paris e vingara na Europa e nos Estados Unidos como a prole de um casal de coelhos na Austrália — mas hedonismo, egotismo e narcisismo são antigos e para lhes dar asas cada uma sempre usou o que tivesse à volta (ensimesmada: quando perguntaram às águas do lago se Narciso era mesmo belo, estas responderam que não sabiam porque quando ele vinha olhar-se nelas, elas aproveitavam para se olharem a si próprias nos olhos dele — ou, pelo menos, foi o que Oscar Wilde contou, não sei se antes se depois de ter conhecido Gide em Paris, onde viria a morrer. O mundo é pequeno).

 

De artistas e de obras de arte pouco ou nada sei mas há mais de dez anos virei comentador e, de silêncios aconchegados, longe da balbúrdia pátria, vou mandando bocas. Agora, chegado no começo do mês de Bruxelas, lendo os jornais e olhando para o que Conchita Cintrón chamava la pantalla chiquitita, suspeito que neste maravilhoso país que tão generosamente acolhia Freddy Kotter no seu seio a algazarra dos comentadores cobre de uma espécie de smog as coisas a comentar. Não é que estas faltem — desde o esforço vão do governo para transformar os portugueses em alemães (por via fiscal, ainda por cima) com Herr Gaspar, primeiro, e Frau Albuquerque, depois, a encaminharem-nos com um vasculho, como dantes os vendedores de perus pelas ruas de Lisboa, até à sanha súbita contra várias gerações da família Espírito Santo, reminiscente do azar dos Távoras — mas, bombardeadas pela cacofonia pátria, essas coisas e outras de menor porte deformam-se como as nossas caras na galeria de espelhos de uma feira de diversões.

 

Disse à Vera, dona do blog, que estava a pensar deixar de escrever o Bloco-Notas mas ela disse-me que eu não podia fazê-lo e que o mundo agora era assim, que todos podiam deitar palavra e que havia leitoras para tudo quanto se escrevesse. É, com efeito, um pouco tarde para protestar contra o ensino obrigatório, contra enciclopédias que anunciam à cabeça não garantirem que a informação que nos dão seja verdadeira e contra o ulular desafinado dos comentários de nós todos. Mas eu sou um pequeno-burguês de Évora e às vezes sinto-me como patrício meu, sentado sobre tábuas pousadas em tripés na primeira fila de um circo de província. A gaiola dos leões desconjuntou-se, o público saltou para fugir, e o meu patrício com as partes pudendas entaladas entre duas tábuas, sem se poder levantar, gritou: “Sentem-se, caralho, que os leanitos nã fazem mal”!  

 


6.8.14

 

 

 

 

 Corridinho algarvio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cá em cima está o tiro-liro-liro…

 

 

Dantes, era tudo mais simples. Em Janeiro de 1975, vindo de Londres, dei por mim no Rocio ao fim de um dia de encontros, com hora e meia antes do encontro seguinte e fui comer um bife ao Nicola.

 

“Que cervejas tem?”

“Tenho todas.”

 

Havia cinco cervejas no mercado lisboeta e o resto ia à proporção — mesmo depois de entremeados os Capitães de Abril que em 1974, na peugada dos seus camaradas de 1926 e 1910, tinham virado de pernas para o ar a política na Pátria. Chão que deu uvas. Os golpes de estado agora são mudanças ordeiras e burocráticas, supervisadas por Bruxelas e Berlim, e o povo come e cala — já mandava Salazar… — porque se não calar, não come.

 

Em Janeiro de 1993, quando Clinton se tornou presidente dos Estados Unidos, havia 50 páginas na Internet. Hoje há milhões; amanhã haverá milhões de milhões. Google, redes sociais, twitter, tabletes, Skype, telefones: a bisbilhotice cacofónica não pára. Em raros sítios espertos e felizes o cliente tem sempre razão, os eleitores defendem-se bem dos eleitos, a justiça consegue ser independente, todos os sexos e todas as fés coexistem e o tempo dos humanos, curto no tempo do Universo, corre com mais bem-estar do que mal-estar.

 

Em sítios menos felizes “a dor humana busca amplos horizontes/ E tem marés de fel como um sinistro mar” (disse o Poeta). E, como o apetite por desgraças alheias é insaciável, em pouco mais de 100 anos passou-se de cantigas de cegos na rua que, nos casos céleres corriam o que corre um cavalo a galope (em 1815, a notícia da vitória de Wellington em Waterloo só chegou a Londres quatro dias depois da batalha) para partilha imediata de imagens e sons, com repórteres dando-nos a conhecer à hora de jantar o pior da maldade humana. Com canais e agências em concorrência desenfreada. Com homens, mulheres e crianças cheios de água na boca à espera dos desastres do dia. Tudo isto, mais o inventado em jogos e fantasias que embotam e ensandecem almas.

 

Entretanto, nós por cá todos bem. O 25 de Abril dera-nos sensação de centro do mundo que não experimentávamos desde o tempo de D. Manuel “O Venturoso”, quando havia em Lisboa cinco perfumadoras de luvas por cada mestre-escola. Essa falsa centralidade esvaiu-se, voltamos ao rame-rame triste, chegou a miséria da troika, mas vimo-nos livres desta e o governo começa a impressionar. De entrada — contra mundo — lembrava os liberais de D. Pedro IV, cercados no Porto por país miguelista. Agora poder e povo começam a entender-se, sendo abatidos pelo meio interesses de corporações, de seitas, de famílias. Será desta?

 

Para mudar a História, não chega. Era preciso fazer cantar nas escolas:

 

em cima está o tiro-liro-liro,                                                                  

em baixo está o tiro-liro-ló”

 

a ver se acabavam de uma vez séculos de vocação de mó de baixo em Monarquias, República, Estado Novo e Democracia.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

 

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2.8.14

 

 

 

S. João do Estoril , Portugal. Princípios do século XX

 

 

As nossas férias eram passadas em S. João do Estoril em Agosto e em Ferreirim em Setembro. Para S. João em geral vínhamos de comboio, o que não era complicado ou demorado. As poucas vezes que viemos de táxi o que me impressionava era a estrada ser tão abaulada, diziam que era por causa da chuva... como era estreita, e tinha dois sentidos, o carro desviava-se para a berma, e os que vinham em sentido contrário passavam melhor! Em cada Verão o meu Avô contratava o Sr. Feliciano (dono de um táxi) que era muito simpático, para nos levar a passear a Sintra. A Avó Alda gostava muito da frescura de Sintra, o passeio era sempre o mesmo, e só íamos uma vez. Assim era uma tarde muito desejada, que me dava um enorme gozo e prazer...

 

Tudo o que havia "de melhor" era usado em Lisboa, o menos bom no Estoril, e o mais velho e estragado ia para Ferreirim. A minha Mãe aproveitava tudo e por vezes ficávamos surpreendidos como "tudo fazia jeito" nos Buxeiros...!

 

Na praia da Poça tínhamos um grande grupo de amigos. As casas eram alugadas ao ano, e assim as famílias vinham para as mesmas casas todos os anos.

 

Poucos tinham casa própria.

 

 

 

 

S. João do Estoril , Portugal. Meados do século XX

Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Horácio Novais, 1930-1980.

 

 

 

 

 

 

José Manuel da Silveira de Sousa

 

 

Também na nossa adolescência, não falhávamos um "sábado á noite" no "Casino Estoril", onde aproveitávamos para dançar... Sempre gostei muito  de  vir  para  S. João do Estoril, era divertido. O tempo era muito preenchido e passava rapidamente... tínhamos muitos amigos, uns mais amigos que outros!!!!

 

Alda Rosa Bandeira de Lima Osório Bernardo de Sousa

in  Memórias e Saudades

2011

 

 

Nota: ver também os posts "Chalet Alda" e " Festas e Mascaradas"

 

Agradecimentos: Alda Rosa Bernardo de Sousa, Maria do Rosário Sousa Machado, blog Restos de Colecção, Biblioteca de Arte Fundação Calouste Gulbenkian

 


30.7.14

 

 

 

 Barack Obama       foto: Bauer Griffin 

 

 

 

 

 

 

“Patrão fora…

 

 

…dia santo na loja!” Quando o dizer foi inventado os dias santos eram os únicos feriados que havia. Sem vigilância do patrão, cada um portava-se como lhe dava na real gana. (Na escola também, quando faltava o professor. Lembro-me, no pátio da Valsassina, de intervalo das 11 que nunca mais acabava, até que um voltou da secretaria eufórico: “É pá, não há aula! Morreu a mãe do gajo!”). Se a loja do mundo tem patrão, é Obama e, de há uns tempos para cá, anda tão distraído que há quem julgue que ele esteja fora.

 

De entrada quase ninguém deu por isso. O mundo estava farto de George W. Bush, a querer impor democracia aos outros, sem dor ou com dor, como charlatães de feira dantes arrancavam dentes; da sucessão de desastres militares que lhe couberam por causa disso; da sua fala de pobre de espírito – tornara-se caricatura de presidente americano, desenhada por estudante marxista burro. Em Janeiro de 2009, Obama era alívio que chegava, elegante, sereno, prometendo paz e decência. Discursava bem, com mais jeito para falar à gente do que qualquer dos seus predecessores de que alguém se lembrasse. “É um enlevo ouvi-lo” dizia-me admirador do tempo da primeira campanha eleitoral.

 

Depois de 5 anos de desilusão crescente, o ex-admirador diz agora: “Teria sido “speech-writer” ideal de presidente com jeito para mandar nos seus”. Nos seus e nos outros, acrescento eu, assustado por Putin em Moscovo, Xi na China, feixe de pimpões no Médio Oriente e mais malfeitores a granel, em confrontação com Obama em Washington e com Merkel no ramalhete pusilânime e indeciso dos europeus de que ela é a flor principal. “Lá vamos, cantando e rindo” cantava-se na Mocidade Portuguesa do meu tempo. Salvo jiadistas nas Arábias e entusiastas do Tea Party nas profundezas dos Estados Unidos, não ouço ninguém cantar assim agora.

 

Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos no começo da ascendência destes, fixou a regra de comportamento: “Falar baixinho e andar com um grande cacete”. Passado mais de um século, depois de duas guerras mundiais que aumentaram poder e persuasão dos Estados Unidos no mundo, e da guerra fria cujo resultado vindicou definitivamente a superioridade do capitalismo sobre o comunismo como criador de riqueza e de liberdade, e deixou os Estados Unidos a Hiperpotência, estamos a entrar em terra ignota: Obama na Casa Branca com béu-béu de pirolito e sem querer usar cacete.

 

A China acordou, outros espreguiçam-se. Milénios a fio poderes mudaram e a questão não é essa. A questão é que o alheamento de Obama, a falta de mão firme ao leme, desacredita o poder do Ocidente, garantia de relações entre governantes e governados e entre homens e mulheres muito mais humanas e decentes do que as que escapem à sua influência. Meninas infibuladas, prisioneiros de guerra decapitados, funcionários corruptos abatidos por balas na nuca — com a autoridade de Washington a sumir-se, faltas de respeito e provocações multiplicam-se por esse mundo fora.

 

 

 

 

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25.7.14

 

Folhas dos álbuns de Fernando Lezameta Simões.

 

 

 

 

Rallye de Miramar, 1949

 

 

 III Cintra Rampa 1950

 

 

Capa de um álbum 

  

Veja mais fotografias nos posts

Fernando Lezameta Simões

Cascais (1950)

Ofir (1949)

Rallye Lisboa (Estoril) 1950

Tauromaquia Portuguesa

revolução da arte 

Amália Rodrigues (1949)

 

 

 

Agradeço mais uma vez a Rita Simões Saldanha que disponibilizou generosamente os álbuns do pai para digitaliação e partilha neste blog.

 

 

 

 

Notas:

 

O “II Rallye de Miramar” teve lugar em redor da praia de Miramar (Vila Nova de Gaia) no norte de Portugal, entre 26 e 28 de Agosto de 1949, com partida de Cacilhas. 

 

A prova, promovida pela secção regional Norte do “Automóvel Clube de Portugal”, foi vencida pela equipa formada por Jorge Seixas e Martinho Lacasta, num «Allard» M Type. 

 

Agradecimentos aos blogs HeróisRestos de Colecção e João Saldanha, neto de Fernando Lezameta Simões.

 

 

 

 

 

 

 


23.7.14

 

 

 

 Destroços do voo 17 da Malaysia Airlines próximo de Hrabove, leste da Ucrânia, manhã de 19 de Julho de 2014.

(AP Photo/Evgeniy Maloletka)

 

 

 

 

 

A Cereja no Bolo

 

 

“Primeiro julguei que tivesse sido o Mossad, para distrair a nossa atenção de Gaza” disse a rapariga, sentada de Ipad ao colo. “Mas o que se foi sabendo não dava para isso. Entre russos e ucranianos…”

 

Conversa em Bruxelas, quando não restavam dúvidas quanto à origem do míssil terra-ar que deitara abaixo um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo sobre o leste da Ucrânia. Mas para muitos europeus dos nossos dias, criados no soft power e na correcção política, a maldade de Israel não tem limites e Vladimir Putin até nem é mau de todo, dada “a sobranceria com que os Estados Unidos trataram a Rússia a seguir ao fim da União Soviética”. Santa simplicidade.

 

Nesse fim de semana, em Paris e noutras cidades de França, numerosos manifestantes solidários com o povo da Palestina, enquanto partiam montras e ameaçavam sinagogas, gritavam palavras de ordem antissemitas — “Mort au juif!” — como não se via e ouvia em França já há muitos anos. (Coincidência de datas: o primeiro-ministro presidiu a cerimónia de desagravo comemorativa da concentração de 13.152 judeus, incluindo 5.051 crianças, num velódromo parisiense — o Vel d’Hiv — a 16 e 17 de Julho de 1942 antes de serem despachados para extermínio em Auschwitz). O antissemitismo francês tem tido altos e baixos.

 

Quanto ao avião da Malásia e a Putin, a verdade veio depressa ao de cima. Entre gabarolices e aldrabices, os rufias da República de Donesk, locais ou mercenários russos, deixaram poucas dúvidas sobre a selvajaria da sua proeza, e meios nacionais americanos de observação (NSA, etc.) revelaram com precisão cirúrgica o que se passara. Em muitas capitais do mundo, o patrão do Kremlin, cuja fanfarronice nacionalista inspirara a desordem armada no leste da Ucrânia — e cuja intendência lhe fornecera logística — é visto como corresponsável pela criação de ambiente propício à prática da atrocidade. Na União Europeia, até alemães e italianos concordaram no endurecimento de sanções à Rússia.

 

Quanto a Gaza, o horror de civis mortos e feridos por fogo israelita continua e continua também a incompreensão do que se está a passar. Gaza, com uma das mais altas densidades de população do mundo, é gigantesco e trágico escudo humano da armadilha onde Israel tem caído desde que se retirou do território em 1994. O Hamas dispara de lá todos os dias foguetões sobre Israel e cava túneis para por eles fazer mais ataques. Quando Israel pretende atingir rampas de lançamento ou quer escavacar túneis mata e fere inevitavelmente civis. A tática do Hamas não é original (em 1992, muçulmanos da Bósnia mandavam morteiros contra sérvios de pátios de hospitais) mas a escala desta vez é épica. E, lembrava Marx, alterações quantitativas conduzem a alterações qualitativas.

 

O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, tem agora muito menos apoios no mundo árabe. Mas a direita israelita de hoje está como Abba Eban disse um dia dos árabes: não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade.

 

 

 

 

 

 

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21.7.14

 

Em tempo de Verão regresso aos álbuns de família e colecções privadas que aqui tenho explorado. 

 

À excepção da fotografia do chalet, as imagens deste post foram encontradas na blogosfera portuguesa. Não achei fotografias de fandangueiros, saltimbancos, mulheres dos bolos e banheiros nas praias de Portugal do princípio do século XX.

 

Sobre este álbum de recordações de Alda Rosa, “para os filhos, netos e bisnetos”, editado em 2011 e do qual foram feitos 3 exemplares impressos, leia neste blog o post Festas e Mascaradas. 

 

Agradecimentos especiais a Alda Rosa Bernardo de Sousa, Maria do Rosário Sousa Machado e blogs Restos de ColecçãoTeatro e MarionetasAmérico e Galafanha.  

 

 

 

 

Chalet Alda , S. João do Estoril c. 1900

 

 

No meu tempo de menina, as horas em que se ia à praia eram totalmente diferentes das de hoje. íamos de manhã, e á tarde ficávamos no jardim. Só em dia de pic-nic é que ficávamos na praia até mais tarde. Estes almoços eram de "garfo e faca" e toalha posta na mesa. De casa vinham salada russa e um prato quente trazidos pelas criadas. Os banheiros emprestavam-nos uns banquinhos e umas tábuas que serviam de mesa e as cadeiras eram também deles. Claro que com tanta mordomia estes pic-nics não podiam repetir-se muitas vezes.

 

Mesmo para se comer na praia só havia barquilhos e bolas de Berlim. O homem dos barquilhos apregoava: Barquilheiro!!! Trazia uma lata alta com uma roleta, o comprador fazia girar a roleta que ditava a sorte de comer pelo mesmo preço mais ou menos barquilhos. O homem das bolas de Berlim apregoava: bolas de Berlim, perlim pimpim! Assim andavam pela praia estes vendedores. A senhora Ana dos bolos só apareceu mais tarde...

 

 

 

 

 

 

             
Barquilheiro, Roleta de Barquilhos

 

 

 

 

Para divertir as crianças aparecia o "Fandangueiro". Trazia um pequeno estrado, e fazia o seu número de sapateado (com a música do fandango). Também para nos entreter havia o homem dos cães. Trazia 4 ou 5 cães e com cães fazia o seu número. A um dos cães ele mandava «morrer à moda da China com três cartuchos...!» e o cãozinho deitava-se fingir que tinha morrido.

 

O "Catitinha" aparecia na praia todo vestido de preto pois tinha perdido uma filha. Protegia e gostava de crianças: apertava a mão a cada criança e apitava. Os miúdos corriam para ele, apesar de ser uma figura sinistra, com um grande cabelo branco...

 

Os "Robertos" apareciam com a sua voz de flauta e o número de pancadaria a que nos habituaram. No fim pediam dinheiro pelas "actuações" que tinham feito!

 

 

 

 

Robertos na Foz do Douro, início do século XX

 

 

 

 

Para os banhos de sol os banheiros também forneciam encostos e os toldos eram ao mês. Os banheiros tinham "chatas" que levávamos até fora de pé, para aí tomar banho. Muitas vezes atirávamos água uns aos outros e ali se fazia uma guerra com água, que muito nos divertia. As "chatas" eram cada uma do seu banheiro, e não havia rivalidade, era só brincadeira.

 

Também íamos ao Rádio Clube Português patinar...

 

Com tantos programas, as férias em S. João do Estoril eram muito apreciadas...

 

 

Alda Rosa Bandeira de Lima Osório Bernardo de Sousa

in  Memórias e Saudades

2011

 

 

 


19.7.14

 

 

 

Praia de Cabedelo? Portugal c. 1930

 

 

Fotografia do espólio de Rui Feijó, gentilmente cedida por Luísa Feijó a quem muito agradeço

 

 

 

 

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16.7.14

 

 

 

 Gustave Doré

 

 

 

 

Terra Santa

 

 

As coisas vão de mal a pior do lado de Bethlehem, a Belém original onde nasceu Jesus Cristo, sagrada para os três grandes monoteísmos do mundo, agarrados ao mesmo Deus. Apesar – ou por causa – disso o lugar não é pacífico. Há anos, amiga minha que passou o Natal em casa de belenenses, no sossego relativo de entre-duas-intifadas, logo no primeiro serão assustou-se com sirenes de ambulância na praça da Igreja da Natividade, mas o anfitrião disse-lhe para não ligar. “São os coptas e os ortodoxos”, explicou. “Estão sempre à briga. Não se matam mas partem cabeças”.

 

Sem a importância, o renome e os rastos de desgraça de xiitas e sunitas (nos nossos dias só partem cabeças), cada um insiste não só em que Deus há só um mas também que só a sua maneira de O amar é boa: todos os outros cristãos são hereges. Talvez, mas na Europa e nos demais Continentes já muito raramente cristãos partem cabeças uns dos outros por isso. (Falta de fé? Progresso moral?). Quantos aos monoteístas detentores da patente original, séculos de diáspora, de pogrons, de autos de fé, de antissemitismo, culminando na eficácia germânica do Holocausto e a criação de Estado próprio, mal aceite pela vizinhança, ensinaram-nos a defenderem-se primeiro de terceiros. (Embora não haja país com debates sectários mais vibrantes do que Israel).

 

É entre os mais novos da turma, os maometanos, que pendências internas fazem hoje mais estragos. O conflito ente xiitas e sunitas começou logo a seguir à morte de Profeta, no século VII da nossa era e, ao longo da História, teve altos e baixos de importância, segundo peripécias da força de outros poderes. A partir do século XIII o Islão viveu uma “contra-Renascença” que, a arrepio das suas melhores tradições, o afastou do progresso científico e do esclarecimento humanista que triunfaram na Europa. Colonizados por europeus e pelo Império Otomano, os povos do Norte de África e da Arábia viram-se distribuídos por novos estados, delineados por um francês e um inglês a seguir à Guerra de 14-18. O arranjo manteve-se até ao estabelecimento de “Califado” sunita, que rouba terra a Iraque e Síria, e renovadas aspirações curdas de independência. Em 1948, estabelecera-se o Estado de Israel, facilitado por culpa europeia e norte-americana, que expulsou populações. Israel foi bode expiatório para os potentados xiita (Irão) e sunita (Arábia Saudita) e seus vassalos, que içavam perante o mundo a bandeira do sofrimento palestino.

 

Está tudo a mudar. Riade e Teerão temem-se mais um ao outro do que temem Telavive. Os dois abominam o Califado, cuja crueldade consegue ofender padrões locais. A extrema-direita israelita é insuportável mas o Cairo espera ferventemente que Israel destrua o Hamas (compinchas dos seus Irmãos Muçulmanos). Salvo na Tunísia, as Primaveras Árabes acabaram. Vista de Telavive, a Europa é um vasto cemitério. Os EUA de Obama metem pouco respeito.

 

Em Bethlehem, brigas de ortodoxos e coptas continuarão a ser oásis num deserto ardente.

 

 

 

 

Imagem aqui

 

 

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9.7.14

 

 

 

 

 

João e o Papa

 

 

“Só quando estiverem cumpridas as condições” respondeu-me João, emigrado a seguir ao 25 de Abril, daí a um par de verões no Algarve, à pergunta voltaste à Pátria? “Salazar no poder, Marcelo Caetano na oposição, Freitas do Amaral na clandestinidade!”. (Para leitoras novas: nesses dias Freitas do Amaral era um político de direita).

 

As pessoas e os pianos pioram com a idade. Não tenho visto o João mas consta-me que a sua visão das desigualdades do mundo se agravou e é hoje igual à da gente do Tea Party nos Estados Unidos (ou da falecida Margaret Thatcher, nos dias em que a fúria contra os sindicatos a cegava): a culpa de haver pobres é dos pobres porque Deus assim quis. É disparate quase tão estúpido quanto a culpa de haver pobres ser dos ricos mas pouco lhe fica atrás. A crise veio açular opiniões extremas de ambos os lados — quando as coisas azedam procura-se inspiração na tradição revolucionária europeia e passa a falar-se do “outro lado da barricada”.

 

Na Europa onde, para quem a imagine do Sudão do Sul, só há ricos, o tempo das vacas gordas — quando se sabia que o dia de amanhã seria melhor do que o dia de hoje tal como o dia de hoje fora melhor do que o dia de ontem — não era tempo propício a invejas nem rancores. Mas campeiam agora no tempo das vacas magras em que entrámos circa 2010 e que entendidos garantem ser para a vida como eram dantes os fatos feitos em bons alfaiates e os automóveis Rolls Royce.

 

A direita pré-industrial e pré-cristã de João e dos Tea-Parties que odeiam os pobres assusta mas a exaltação franciscana da pobreza traz riscos próprios. Bernard Shaw escreveu que o primeiro pecado era ser pobre — se alguém lhe dizia que era inculto porque era pobre estava a desculpar um mal com outro pior, assim como se dissesse: sou coxo mas é da sífilis.

 

O Papa Francisco sente os pobres e quer ajudá-los mais do que fizeram os seus dois últimos predecessores, obcecados por comunismo e por sexo, condenando diferenças abissais entre pobres e ricos que se têm acentuado nos últimos decénios — aumento de desigualdades que, pensa o Papa, pensa gente de outras fés e pensam agnósticos e ateus, está a tornar o mundo mais injusto e mais perigoso. Francisco tem verberado a tirania da autonomia dos mercados e condenado proezas do capitalismo, com carradas de razão. Desde o colapso da União Soviética e o fim da ameaça comunista o capitalismo tomou o freio nos dentes em muitos momentos e lugares causando grande dano a milhões de pessoas e, salvo em raros casos nos Estados Unidos, ninguém foi preso e condenado por isso até agora. Continuou, porém, a ser, como tinha sido antes, o maior diminuidor de pobreza e criador de liberdade jamais inventado desde que o mundo é mundo.

 

Em 1323, um século depois da morte de S. Francisco de Assis, o Papa declarou herético quem pretendesse que Jesus vivera em pobreza absoluta e fez executar alguns franciscanos mais entusiastas. A alma humana é um abismo e estas coisas nunca são simples.

 

 

 

 

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5.7.14

 

 

 

Uma visita do Governador-Geral da Índia Portuguesa Capitão de Fragata José Freitas Ribeiro

em começo de 1918

 

 

Fotografia gentilmente cedida por Laura Castro Caldas a quem muito agradeço

 

 

 

 

 

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2.7.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A decadência do Ocidente? A sério, desta vez?

 

 

“Voltei para Genève ontem à noite de Basel. A Suíça alemã é a distopia que nos faz medo. Mas é um proverbial relógio a funcionar… tudo impecável, limpo, a horas e sobretudo reliable!!! Um pesadelo, enfim” — desabafou amigo em viagem. E é esse o padrão a que Berlim nos quer obrigar, como réguas de metro ou cilindros de quilo a aferir no Museu dos Pesos e Medidas. Entre Norte e Sul, os europeus nunca se desentenderam tanto.

 

Bons tempos, quando Helmut Kohl dizia que o Chanceler alemão, antes de falar com o Presidente francês, devia fazer três reverências — porque era sinal de que ainda havia França. E bons tempos, também, quando Jean-François Revel escrevia “o anti-americanismo é o socialismo dos imbecis”. Porque ainda havia socialismo, não para governar a seu gosto mas para meter respeito a capitalistas gananciosos que, uma vez largados em roda livre, ajudaram a cavar o lindo buraco onde estamos. E porque ainda havia Estados Unidos da América a libertarem e policiarem o mundo em vez de se fecharem em copas, entre Tea Party descerebrado e presidente tão cerebral que, por querer sempre ver os dois lados de cada questão, acaba por não ver nenhum e ficar quieto. 8 anos das simplicidades da cabeça de Bush, mais 8 anos das complexidades da cabeça de Obama arriscam-se a virar o Novo Mundo para dentro e deixar os europeus ó tio, ó tio.

 

Grave para nós e para toda a gente. Decência entre governantes e governados e tratamento das mulheres como seres humanos e não como bichos de espécie zoológica inferior, começaram nesta parte do mundo, a que chamamos Ocidente, e daí têm tentado medrar in partibus infidelium. Mas exigem atenção constante porque, como tudo, desaprendem-se depressa quando não são praticados. E a obra está sempre inacabada. Desde o século de Péricles, evocado como berço da democracia, aos sistemas políticos das monarquias do noroeste da Europa, considerados os mais user friendly do mundo de hoje, houve progresso. Na realidade, o lugar onde vivi politicamente mais parecido com a democracia ateniense do século V a.C. era a Africa do Sul do apartheid, com uma diferença a favor desta: as mulheres (se fossem brancas) podiam votar e ser eleitas.

 

Se, europeus e norte-americanos, continuarmos a perder o respeito que o resto do mundo fora ganhando por nós entre o século XVI e a segunda metade do século XX – mesmo que muitas vezes de mau modo, de má fé ou sob coacção — e estando reduzido a caricaturas grotescas como a Coreia do Norte ou Cuba o que sobrou da falência da grande ilusão inventada por Marx e afinada por Lenine, Estaline e Mao-Tse-Tung, a hora é dos gladiadores, dos leigos de todas as fés — e dos fanáticos de cismas do Islão que aliam destreza em tecnologias de ponta a zelo pelas tradições mais sanguinárias dos monoteísmos da Terra Santa.

 

Todo o cuidado é pouco.

 

 

 

 

     

                                                                                                              

 

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29.6.14

 

 

A visita do Governador Geral Dr. Jaime Alberto de Castro Morais a Damão, Novembro de 1923

 

Fotografia gentilmente cedida por Laura Castro Caldas a quem muito agradeço

 

 

 

 

 

 

 

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25.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um murro na mesa das voltas da História

 

 

Amigo meu (e dele) disse-me há dias que José Manuel Barroso deveria ter dado um murro na mesa para impedir o descalabro causado pelas políticas europeias de austeridade. A imagem é tentadora para quem ache, como nós, que Barroso vale muito mais do que poderá às vezes ter parecido ao longo da crise — e que o ramalhete de medidas que dá pelo nome de austeridade, em vez de tirar a Europa do buraco onde o carro-adiante -dos- bois dos apóstolos da moeda única a metera, a afundou ainda mais. (Só evangelistas de Goldman Sachs e nem todos — Mario Draghi, por exemplo, escapou ao sortilégio — acham que tudo vai pelo melhor, pelo melhor dos caminhos possíveis).

 

Infelizmente, se num momento de insensatez Barroso tivesse dado tal murro na mesa, além de provavelmente ter partido o punho não haveria mudado de um grau o rumo decidido pelos governos nacionais que são os patrões da União Europeia. A austeridade, nos termos em que foi concebida e aplicada a seguir à descoberta do estado calamitoso das contas gregas, correspondeu à vontade da Alemanha (que entrançou defesa dos seus próprios bancos com pregação de cruzada calvinista) e nenhum outro estado da União se lhe opôs. (A maioria dos governos era de centro-direita mas havia-os também de centro-esquerda). O que Barroso fez, com determinação e eficácia, foi pôr os meios e poderes de que a Comissão dispõe a trabalharem para ajuda dos países da eurozona que tinham de se entender sobre medidas comuns necessárias à salvação do euro e à  imunização deste a crises futuras semelhantes. Sem descurar o mercado interno, de todos. Não houve um dia de folga, um segundo de distracção e os resultados estão à vista.

 

Em tudo há modas; de vez em quando visionários encalham na realidade e a moda muda. Há três anos, quando se descobriu que havia erros fatais no estudo (de dois professores de Harvard) que inspirara os aiatolas da austeridade, o edifício estremeceu e já teria caído sem a teimosia prepotente da Alemanha. Barroso lembrou então que há limites políticos e sociais ao que teóricos advoguem e que sem solidariedade não haveria União Europeia; Berlim agastou-se (vários eurocratas também). Mas o pêndulo começara a ir em sentido inverso e assim continuará por algum tempo. Traduzido para inglês, o economista francês Thomas Piketty, focando a atenção na desigualdade, está a ser ouvido em lugares inesperados. Um condottiere chamado Matteo Renzi começa a meter respeito à Alemanha. O Papa jesuíta virou franciscano. A Europa está a mudar.

 

Mas quem sabe o futuro? Escrevo a uma légua da planura de Waterloo onde, fez na quarta-feira passada 199 anos, um projecto de união europeia capotou, desterrando o tenente corso que se guindara a Imperador para o exílio de Santa Helena. O lugar está sempre cheio de peregrinos, desde generais russos a freiras sicilianas. Tabuletas de restaurantes, inscrições em monumentos, sinais de estrada prestam homenagem a Napoleão Bonaparte.   

 

   

 

Imagem aqui

 

 

 

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22.6.14

 

 

Panorama, Revista de Arte e Turismo (1948)
Ilustração de Eduardo Anahory

 

 

 

 

 

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