26.8.15

 

4-inquisio-26-638.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Fés

 

 

 

Foi no século XX que se descobriu que o Bispo Pedro de Santa Maria, um dos mais zelosos inquisidores espanhóis, tinha nascido judeu, chegara a rabino em família de rabinos, e só aos trinta anos virara católico. Quem se espante, não devia. No mundo de twitters, Facebook, selfies, ponha os olhos nos rapazes e nas meninas que em Bordéus, Manchester, Santa Comba Dão – poderá acontecer lá também - troquem confortos multiculturais do estado social europeu pela certeza sangrenta que oferece o Estado Islâmico do Iraque e da Síria. (Alexandre O’Neill sabia que a sociedade de consumo iria dar para o torto: Sonetos garantidos por dois anos./E é muito já leitor, que mos compraste/Para encontrar a alma que trocaste/Por rádios, frigoríficos, enganos…)

 

Poderemos mais pacatamente lembrar-nos dos neocons americanos que desencaminharam George W. Bush ou de alguns liberais europeus apologistas da austeridade. Viveram, uns e outros, juventudes embebidas nas extrema-esquerdas dos respectivos países. Muito inteligentes e lidos, na minha experiência do seu convívio partilham uma pecha. Sem folga entre certezas ideológicas da juventude que repudiaram e certezas ideológicas da idade madura que abraçaram, são incapazes de perceber que as vidas das pessoas não se regem nem por umas nem por outras. Quase dão razão ao alentejano orgulhoso, baixo com cara de homem alto, que um dia me perguntou: “O que é que vem nos livros que um homem da minha idade não saiba?”

 

Geralmente são incorruptíveis - o que no Portugal de hoje os torna bentinhos – mas não confundir alhos com bugalhos. Não esquecer que incorruptíveis também foram Robespierre, em França; Salazar, em Portugal; o Mullah Omar, no Afeganistão. Vão fazendo muito mal ao mundo porque a sua paranoia doce os leva, num passe de mágica, de premissas incontestáveis a conclusões dementes.

 

Florescem muito bem em tempos de crise. Em Les Dieux ont Soif (Os Deuses têm Sede), romance de Anatole France passado na Revolução Francesa durante o Terror, Évariste Gamelin, pintor, membro do Comité de Salvação Pública, jacobino apaniguado de Robespierre, cruza-se num jardim de Paris com mãe burguesa nova e bonita acompanhada por filho pequeno brincando com uma bola que rola até aos pés do pintor. Este devolve-a, recebe sorriso contente e grato da burguesa e a seguir pensa, com tristeza resignada, que para que aquela criança viesse a ser feliz em crescida, talvez fosse preciso guilhotinar a mãe.

 

A jantar com liberal iluminado – marxista duro nos seus verdes anos - e católico reflectido, daqueles a quem o Dr. Mário Soares chamava “a direita inteligente”, tornei a confirmar o meu preconceito. Não há mais erudito, racional (e bem educado) do que o liberal mas, fosse ele a mandar, galoparíamos para a chamada luta de classes com vigor inédito desde a guerra de Espanha. O católico constante sabia que, embora o Bem esteja sempre longe, muito mal pode ser evitado usando de bom senso, decência e - lembrai-vos? - amor do próximo.

 

 

 

link do postPor VF, às 11:06  comentar

19.8.15

 

 

belmonte4--644x362.jpgJuan Belmonte

 

 

 

José Cutileiro.jpg 

 

Melhores dias?

 

 

Paul Kruger, presidente da república do Transvaal, derrotada pelos ingleses na Guerra dos Boers, e Grã Cruz da Ordem de Nossa Senhora da Conceição (nos anos a seguir ao ultimato inglês não morríamos de amores em Portugal pelo nosso aliado mais antigo, além de que havia por toda a Europa grande simpatia pelos africânder, que só passaram a maus depois de inventado e imposto o apartheid em 1948) finou-se exilado na Suíça em 1904, convencido de que a Terra era plana: forte leitor da Bíblia e fraco leitor de tudo o resto, passara pelos feitos de Fernão de Magalhães e Galileu Galilei como cão por vinha vindimada e ficara-se pela interpretação que dera ao evangelho.

 

Presumo que hoje, por causa de fotografias tiradas de naves espaciais, não ficaria na sua. Nenhum dos 17 candidatos a candidato do Partido Republicano à Presidência dos Estados Unidos na eleição do ano que vem (17 quando escrevo; quando a leitora me ler poderá já haver mais) até agora o fez. Ora como, por um lado, parte deles é gente cujo catecismo, sem interferência exterior, a levaria a essa crença e todos eles são gente pronta a declará-la mesmo que não a sintam se tal fizesse ganhar votos em Novembro de 1916 na Cintura Bíblica do Sul dos Estados Unidos, é de supor que, pelo menos nisso, o Partido Republicano profundo – a gente da Festa do Chá; a gente que iça a bandeira da Confederação esclavagista batida na guerra do Norte contra o Sul em 1865 – se curvou a algumas evidências científicas que travejam hoje o entendimento do mundo.

 

Reconheço ser difícil. Tirar a Terra do centro do mundo e pô-la a transladar à roda do Sol deu tonturas metafísicas no século XVII mas isso é café pequeno comparado com o que nos cabe a nós. Sabemos hoje que há no Universo milhões de nebulosas como a nossa – a Via Láctea - as quais têm cada uma milhões de estrelas, a milhões de anos-luz umas das outras, muitas com planetas orbitando-as. É difícil de imaginar. Simples questão de magnitude ou, olhando para a Terra, de insignificância? Parece que não. Eu sou ateu mas católicos com cabeças bem melhores do que a minha dizem-me que nada disso torna mais ou menos provável o Deus de Abraão, Isaac e Jacob.

 

Porque a gente pensa em muitas outras coisas. Há anos, em impressos da Universidade da Califórnia, quem se matriculasse punha uma cruz em “macho” ou “fêmea”. Hoje tem 6 escolhas: macho, fêmea, gay, transsexual macho, transsexual fêmea, outra – tal é a largueza do reino de Deus. Além disso, cada pessoa tem vida e morte suas e que se lixem os biliões de estrelas. Juan Belmonte, com problema numa perna, inventou o toureio parado (aquele que vigora há quase 100 anos). Não foi morto na praça por um touro como o seu mais mexido rival, Gallito. Cortou a coleta e, glória nacional, aos 70 anos apaixonou-se por rejoneadora colombiana linda, 50 anos mais nova: ela deu-lhe tampa e ele deu um tiro na cabeça. (A pequena depois dizia que não tinha sido bem assim mas assim ficou para a História).

 

 

 

 

link do postPor VF, às 11:38  comentar

12.8.15

 

jogo da glória.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Passado; futuro

 

 

 

“Os ricos são como os ciganos. São todos primos uns dos outros” pontificava há cinquenta anos Senhora do Alentejo nem cigana nem rica. O Minho era diferente – ciganos quase não havia; disparidades entre ricos e pobres eram de menor monta - e diferente continuou a ser. Há 41 anos, em conversa fora de Portugal, Senhor minhoto - que também já lá vai - explicava “Nós, na Ribeira Lima, temos duas coisas em comum: sumos todos fidalgos e sumos todos parentes”.

 

Salpicos do que inspirou Orlando Ribeiro a descobrir Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico? Com certeza - mas há bem mais do que isso. Por muito mal que os melhores de entre nós às vezes deem por ela, que a suponham nas vascas da agonia (“Pátria para sempre passada; memória quase perdida”, acabou Eça de Queiroz O Crime do Padre Amaro, em 1875), a besta teima em não morrer. Mesmo debaixo de vergonhas que a façam sofrer, de varas no cachaço a ver se lhe baixam a cabeça para dar melhor lide a quem a queira desfeitear (novo Acordo Ortográfico; admissão da Guiné Equatorial na CPLP) não lhe receio fim à vista. Mas está a chegar a terra ignota ou, se preferirmos o arrimo do mastro da epopeia, a entrar outra vez por mares nunca dantes navegados.

 

À balbúrdia sanguinolenta seguira-se a noite negra do fascismo - para usar chavões predilectos dos inimigos jurados de uma e de outra porque ao longo das décadas gente menos intensa, isto é, a maioria, estava perto do poeta Alberto de Monsaraz que dizia viver em país ocupado mas ter boas relações com o ocupante. Íamos seguindo canones estabelecidos nas metrópoles europeias: a certa altura, devido à preeminência da França, a República esteve na moda - e vá República! Depois com Hitler (Olimpíadas de Berlim e tudo), Mussolini a marchar sobre Roma, veio a moda do fascismo (mais no sul da Europa, mas também na Finlândia e, sem poder mas com estardalhaço, mesmo em Inglaterra), os militares do 28 de Maio entusiasmaram-se – e vá Fascismo! (Na versão portuguesa, Estado Novo, que nunca esteve à altura, até porque o país era agrícola e não industrial e Salazar gostaria que ele assim ficasse: “Entre o comércio, a indústria e a agricultura prefiro a agricultura”). Quando chegou a vez dos capitães de Abril, a moda na Europa era a da Democracia (como Mário Soares percebeu e Álvaro Cunhal e Henry Kissinger não) – e vá Democracia!

 

Hoje não há apetites de mudança de regime mas é outro mundo. A República jacobina desacreditara a esquerda; o Estado Novo fascizante desacreditara a direita. A Democracia vingou sobre o segundo descrédito – o partido mais à direita chamou-se, Orwelianamente, Centro Democrático Social – entretanto URSS e comunismo foram ao ar, Tony Blair arrumou o socialismo, a virtude bem-pensante perdeu poleiro. Quem será levado a sério? Quem irá dar à besta ganas de ganhar às outras feras? O comunismo não era doença: era remédio que falhou. O capitalismo, menos mau, precisa conserto grande. Onde dorme e se exila o futuro vigor?

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:27  comentar

5.8.15

 

 

 

Bosch pecados detalhe.jpg

 

Jerónimo Bosch 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Bases e cúpulas

 

 

 

«Não conheço a alma dos criminosos mas conheço a alma das pessoas honestas e é um horror!» disse François Mauriac. Lembro-me deste desabafo muitas vezes, a ler jornais ou a ver televisão. E, com o patrão do Mundo distraído desde o fim da Guerra Fria, no regabofe da loja a maldade humana borbulha à rédea solta.

 

A Rússia é governada pelo chefe de uma cleptocracia que mente com quantos dentes tem na boca, veta decisão da ONU que criaria tribunal para tratar do abate criminoso de avião malaio sobre a Ucrânia porque os responsáveis foram guerrilheiros pró-russos, ocupa territórios vizinhos (Crimeia; partes da Geórgia), ameaça os países bálticos, provoca a OTAN, manda assassinar inimigos políticos, fomenta na Rússia sentimento paranoide de perseguição pelo Ocidente e apesar disso tudo, ou melhor, graças a isso tudo, goza de popularidade altíssima no país.

 

Na gigantesca panela de pressão que é hoje a China, onde partido comunista único quer fazer vingar capitalismo selvagem em estufa, sem conceder direitos cívicos e políticos, as contradições – como diziam os marxistas – parecem cada vez mais próximas de fazerem saltar a tampa mas talvez seja pensamento desejado (assim o meu chorado Gérard traduzia wishful thinking) de europeus nostálgicos de mando. A bolsa de Shangai conheceu há dias grande queda, as autoridades não sabem como tratar dos fundamentos da questão, confirmando inépcia de que se suspeitava, o crescimento sustentado chinês com que o mundo inteiro conta poderá estar comprometido. Para dificultar ainda mais emendas necessárias a qualquer hipótese de decência política futura, Pequim desencadeou perseguição redobrada aos pouquíssimos advogados de direitos humanos que insistem em praticar no Império do Meio, ajudando quem proteste contra ditadura sufocante. E, para animar xenofobia, sempre útil a quem governe, está a transformar em ilhas penhascos do Mar da China, assustando Japão, Vietname, Camboja, Filipinas. O povo gosta e é sagaz contentar o povo.

 

Nos Estados Unidos, país democrático que festeja a Magna Carta com mais entusiasmo do que os ingleses, entre 17 candidatos (por enquanto) a candidato do partido Republicano à presidência do país em 2016, sondagens põem à frente Donald Trump, bilonário populista xenófobo deliberadamente ofensivo e malcriado cujo pensamento tosco e vulgaridade de sentimentos e maneiras entusiasma os militantes do partido, que são os grandes animadores de primárias.

 

Na Europa onde se vive com mais saúde, segurança e decência política do que no resto do mundo, as bases enervam-se, acusam as cúpulas de elitismo, destestam imigrantes, admiram ditadores estrangeiros, são contra “a Europa”, e enfraquecem-nos no confronto com o resto do mundo. Bases, como sempre, bem piores do que as cúpulas e, se os nossos chefes políticos não lhes souberem deitar a mão, brotarão nesta península da Eurásia (7% da população; 25% do produto; 50% da despesa social) os Hitlers e os Mussolinis vindouros.

 

N.B. O parágrafo acima não se aplica a Portugal. Por razões que historiadores futuros entenderão melhor do que nós, desde o 25 de Abril o país, de bom modo e sem estimular extremismos políticos, desempenhou duas tarefas que muitos achavam acima das suas capacidades: integrou mais de meio milhão de retornados e sobreviveu a programa europeu de austeridade. De se lhe tirar o chapéu.

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:09  comentar

31.7.15

 

 

 

Maria das Dores (Néné)

 

 

 

 

 

 

Déjeuner sur l'herbe 1933

 

 

 

 

 

Néné campagne

 

 fotografias de João D' Korth

 

 França Anos 30 no Flickr

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 14:18  comentar

29.7.15

 

 

uruguay-mundo-despidieron-alcides-ghiggia-uruguayoO golo de Ghiggia que calou 200.000 pessoas no Maracanã

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

As almas dos povos

 

 

 

Morreu neste passado mês de Julho com 88 anos herói nacional uruguaio, nome conhecido e venerado por todos os seus compatriotas (e detestado por todos os vizinhos brasileiros) porque, em 1950, marcara o golo que roubara a vitória ao favorito Brasil e a dera ao Uruguai no Campeonato do Mundo de Futebol, ainda por cima em jogo no Maracanã. “Só três pessoas calaram o Maracanã” dizia Alcides Ghiggia: “o Papa, Frank Sinatra e eu”. Mais de meio século depois do feito, polícia das fronteiras brasileira perguntou-lhe se era ele o Ghiggia do gôlo. “Sou, sou; já foi há tanto tempo...” “Mas ainda nos dói no fundo do peito” respondeu a rapariga enquanto lhe carimbava o passaporte. Pelé adolescente, que se estrearia e ficaria célebre no campeonato do mundo seguinte, contava ser a primeira vez que vira o pai chorar.

 

O desporto (o Rei e alguns outros) tem muitas datas assim, ou quase assim, com sentimentos nacionais embutidos nelas e tendemos a associá-las mais a países agitados e turbulentos como os dos Sul da Europa ou os da América Latina do que a países comedidos na expressão de sentimentos, como têm fama de ser os da Europa do Norte. (No caso acima, tentaram sovar Ghiggia à saída; o guarda –redes brasileiro nunca mais na vida teve contrato decente). Mas, seja qual for a expressão aparente - da quase imperceptível à faca e alguidar - a fundura do sentimento por trás dela nunca se deve subestimar. Um ligeiro fremir dos beiços poderá esconder abismos.

 

A 7 de Novembro de 1978, a fim de celebrar a despedida de futebolista de Iohan Cruiff (que mais tarde tornou a jogar, antes de se despedir de vez e vir a ser por fim treinador do Barcelona), o AJAX de Amestardão convidara para jogo amigável o Bayern de Munique. Por razão nunca bem explicada, ninguém estava no aeroporto à espera da comitiva do Bayern, havendo jogadores, dirigentes e pessoal técnico tido de apanhar taxis para o hotel. Não protestaram nem se queixaram mas concentraram-se bem e, no dia seguinte, em casa, rodeado por milhares de adeptos, o AJAX foi derrotado por 8 a 0. Passados 28 anos, em 2006 - por razão ainda menos bem explicada – a direcção do Bayern de Munique mandou pedir desculpa, ficando por assim dizer o incidente encerrado.

 

Faz confusão à leitora? A mim também mas foi assim e conto-o agora porque desde que a crise grega animou e os europeus começaram a andar à bulha uns com os outros, passaram a ler-se, sob formas variadas – sumários de tratados pretendendo isenção científica; catilinárias parciais e contentes de o serem – resmas de prosa dedicadas às almas nacionais. O pequeno episódio futebolista mostra, por exemplo, que os holandeses podem ser de uma falta de maneiras devastadora sem parecerem dar-se conta disso; que os alemães, se se sentirem humilhados, são capazes de aplicar as virtudes e dons do milagre alemão a punição exemplar mas, se tempo for dado ao tempo, de pedirem desculpa por o terem feito. Talvez a Europa não esteja afinal perdida.

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:55  comentar

25.7.15

 

fotografias de João D' Korth

 

 

Richebourg img765.3

 

 

 

 

Richebourg img765

 

Le cimetière militaire portugais de Richebourg regroupe les corps de 1.831 soldats tombés notamment lors de la bataille de la Lys. Il demeure le symbole de l’engagement du Portugal dans la Première Guerre mondiale.

 

 

 

 

Richebourg img765

 

 

 

Richebourg img770

 

 

Sur près 56.500 hommes mobilisés, le Portugal doit déplorer en 1918 environ 2.100 morts, 5.200 blessés et 7.000 prisonniers.  

 

 

Richebourg img770 copy 4

 

 

 

 

Richebourg img770 copy 3

 

 

 

 

Richebourg img770 copy

 

 

 

 

img769 copy

 

 

 

Apesar da já existência nos E.U.A. de cemitérios militares, na Europa este fenómeno está inevitavelmente ligado à Grande Guerra. Pela primeira vez foi criada legislação para o tratamento dos soldados mortos – projecção e concepção de cemitérios militares. A França foi o primeiro país a fazê-lo, em Dezembro de 1915, sanciona o direito de cada indivíduo a um lugar único de repouso, ultrapassando soluções anteriores em que os soldados eram depostos em valas comuns. [...] Em Portugal, a primeira legislação para tratamento dos mortos de guerra portugueses na frente europeia surge em 1917. Procurou-se regulamentar esta situação com a estruturação de um serviço, futuramente denominado Comissão Portuguesa das Sepulturas de Guerra (CPSG), responsável pela identificação, concentração e inumação dos corpos. Face a uma limitação de recursos, exigiu-se da CPSG um esforço acrescido para concentrar os corpos espalhados pelo território da Flandres em cemitérios militares exclusivamente portugueses, criados para tal com a devida e necessária monumentalidade. Na verdade, durante o conflito, os esforços desta comissão debateram-se com as limitações sanitárias e espaciais impostas pelas autoridades francesas, levando a que os corpos ficassem espalhados por vários cemitérios (em 88 cemitérios da Alemanha, 23 da Bélgica; 2 da Espanha; 141 da França; 1 da Holanda e em 3 cemitérios da Inglaterra)*. Texto integral aqui

 

 

***

 

Monumento de La Couture, do escultor António Teixeira Lopes, inaugurado em 10 de Novembro de 1928.

 

img766

 

Nós usamos Soldado desconhecido; os franceses Nom inconnu. Os ingleses encontraram (Kipling encontrou) forma melhor: Known unto God.

 

Cemitério WWI 1933

 

 

Agradecimentos: Henrique D' Korth Brandão, José Cutileiro,  Chemins de Mémoire en Nord Pas de CalaisMemória Virtual.Defesa.pt,  Operacional , Jornal Público, Momentos de História,

 

 

Fotografias de João D'Korth no Flickr aqui nos álbuns Vintage France e Exposição do Mundo Português

 

 

 

 

link do postPor VF, às 10:47  comentar

22.7.15

 

 

 

 

Kohl 1.jpg

 

Helmut Kohl

Foto: AP

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Aprendizes de Feiticeiro

 

 

Abriu a caça à Europa. Enquanto a Alemanha esteve dividida e a União Soviética durou o projecto europeu floresceu. Mas desde a crise de 2008 e das más respostas que lhe fomos dando, começa a ver-se o túnel ao fundo da luz.

 

A França percebeu logo o perigo da Alemanha reunida (como a Inglaterra, tentou à última hora evitá-la mas Kohl foi apoiado por Gorbachev e Bush) a quem Mitterand forçou a engolir a moeda única (os alemães prefeririam manter o marco) na esperança de a travar um pouco. Estratagema vão, como a tragicomédia grega à boca de cena e a fraqueza económica geral europeia em pano de fundo mostram. Agora Hollande quer governo, orçamento e parlamento da zona euro, na esperança de que tal arranjo federal ajude a enquadrar o poder de Berlim. Que o projecto exclua a Inglaterra e enfraqueça a União Europeia não o preocupa desde que Paris ganhe mais voz contra Berlim do que a que tem hoje. Não sei se terá sucesso: talvez nem todos os utilizadores da moeda única estejam dispostos a juntarem-se a essa aventura. O papão, que fazia dantes os meninos comerem a sopa sem rabujarem, já não existe.

 

O pai da construção europeia foi Estaline, dizia Paul-Henri Spaak e nunca é demais repeti-lo. Acabado o terror incutido pela União Soviética, foi-se a propensão contra natura dos europeus a colaborarem uns com os outros. Durante 45 anos, permitira-lhes atingir a União Europeia mas quando Jacques Delors – 90 anos convictos de que o Presidente da Comissão deveria ser sempre um francês – e os seus discípulos lançaram o euro, esperando que as harmonizações necessárias para seu funcionamento fossem sendo acordadas pelos estados, já Yeltsin desmantelara o monstro e as capitais europeias, livres da canga da solidariedade e do interesse geral, retomavam hábito e gosto antigos de desconfiarem umas das outras.

 

O mau estar explodiu com a crise grega e mostrou coisa pior ainda. Desaparecido o medo salutar da União Soviética, uma noite de decisões brutais em Bruxelas restaurou em muitos corações o medo da Alemanha. Strauss-Kahn, um dos raros políticos em quem Angela Merkel confiara, achou as medidas contra a Grécia ‘quase mortíferas’; o filósofo Habermas, que 70 anos de diplomacia de reabilitação tinham sido deitados a perder.

 

É complicado. Toda a gente – incluindo muitos gregos – entende que, para o projecto europeu não se desmantelar, os gregos terão de passar a ser mais virtuosos. Menos gente – e quase nenhum alemão – entende que, também para o efeito, os alemães terão de passar a ser menos virtuosos. Durante a Guerra Fria, Bona, readmitida por De Gaulle ao convívio das pessoas de bem, deixara Paris mandar e não viera daí mal ao mundo. Desde a reunificação quem manda é Berlim. Na Alemanha a virtude tomou o freio nos dentes; se não aparecer outro Helmut Kohl, nacionalismos curtos de vistas darão cabo da riqueza e do poder da Europa.

 

Não seria o fim do mundo, muito menos da História. E tornaria a haver guerras entre nós.

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:26  comentar

18.7.15

 

 

img751

 

 

 

 

img747 copy 2

 

 

 

 

img751 copy 3

 

 

 

 

 

 

img749 copy

 

 

 

 

 

img758 copy

 

 

 

 

 

img758 copy 4

 

 

 

 

img758 copy 2

 

 

 

 

img758 copy 3

 

 

 

 

img759 copy 2

 

 

 

 

 

img758 copy 5

 

 

 

 

 

img759

França, anos 30

 

 

 

fotografias de João D' Korth

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 10:45  comentar

15.7.15

 

Kennan.jpg

 George Frost Kennan

Desenho de Mary Bundy

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Isto do Sul

 

 

«Porque é que Vocês gostavam tanto de Salazar?»

 

«Porque ele não era corrupto» respondeu-me Kennan que começara a transaccionar com o Presidente do Conselho de Ministros português a cedência das Lajes aos americanos durante a guerra de 39/45, quando era encarregado de negócios da embaixada americana em Lisboa entre dois embaixadores (e também algumas vezes ainda sob o primeiro, homem de negócios bonacheirão que achava Salazar esperto demais para ele e arranjava desculpas que justificassem mandar Kennan em seu lugar).

 

«Robespierre também não», quase me saiu da boca mas contive-me. Acabava de conhecer George F. Kennan, 97 anos, monumento vivo da diplomacia e da história diplomática americanas que me recebia em casa dele em Princeton, fora eu convidado para me candidatar à cátedra que leva o seu nome no Institute for Advanced Study, onde estive de 2001 a 2004. Começara por me dizer quanto tinha gostado de Portugal.

 

Ainda bem que me contive porque, primeiro, Kennan não tinha vestígio do zelo escuteiro que tantas vezes torna ridículos (ou, excepcionalmente, admiráveis) compatriotas seus do corpo diplomático e porque, segundo, a ausência de corrupção faz um chefe ser respeitado por aqueles em quem mande, mesmo que tenha a mão pesada.

 

Está a acontecer agora no Califado, ou Estado Islâmico. É constituido por cidades e campos de que se apossou na Síria e no Iraque, países inventados a seguir à guerra de 14/18, talhados no que fora o Império Otomano pela França e o Reino Unido, e corruptos desde a sua criação. É propósito das relações públicas do Califado aterrorizar toda a gente, a começar pela sua. Inimigos são massacrados com crueldade. Espectadores distantes, como os europeus, são mimoseados na televisão com execuções atrozes que deixámos de praticar entre nós de há algum tempo a esta parte. No Califado, porém, é diferente: a lei é dura mas é a lei. Infieis e apóstatas são decapitados; ladrões, cortam-lhes a mão; adúlteras e adúlteros lapidam-nos (apedrejam-nos até à morte) – mas, dizem-me entendidos, a corrupção acabou: já não é preciso dar dinheiro indevido a toda a gente ligada ao estado, para tudo e por toda a parte. Passados excessos da conquista, quem acate as leis e cumpra as regras é menos incomodado pelo poder do que no tempo do Iraque e da Síria.

 

Se for sunita e dos bons. Gente doutras crenças ou com fantasias do género as mulheres devem saber ler terá de se pôr ao fresco se quiser salvar a pele. E o Rolex do Califa Al Baghdadi sugere luxos escondidos. A Utopia não foi desta mas para o camponês, o pequeno comerciante, o mestre d’obras de aldeia, está-se melhor do que sob as prepotências anteriores. Comer e calar.

 

Salazar era incorrupto mas a pobreza ajudava. O país antigo tinha esmoído as modernices do liberalismo. Por 1960 começou a haver mais dinheiro e as coisas mudaram. O 25 de Abril trouxe liberdade; a União Europeia despejou dinheiro fresco a rodos; o euro foi o fim da picada. Muito sizo temos nós tido.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

link do postPor VF, às 08:13  comentar

8.7.15

 

the-concert-in-the-egg.jpg

O Concerto no Ovo, Hieronymus Bosch (c.1450-1516)

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Europeus

 

 

 

«Ih patrão, um homem pra ser um homem tem de ter feitos de alarve!» explicou rapaz que se tinha atirado a um pego no Guadiana sem saber nadar durante festa de campo e fora salvo à justa.

 

Assim fizeram no Domingo os gregos que votaram ‘não’. Mas ao contrário de Guilherme Gião, da Herdade da Abegoaria, que achou graça ao rapaz, os patrões do Norte e do Centro da Europa não acharam graça nenhuma e, açulados pelos eleitores - as bases são sempre muito mais intolerantes do que as cúpulas – gostariam de continuar a tirar aos gregos coiro e cabelo (mas agora fia mais fino) não porque tal melhorasse economia grega ou europeia, pelo contrário, mas porque os gregos pecaram e têm de expiar os seus pecados.

 

Tal convém a Angela Merkel: por um lado, fazer o que os eleitores querem segura votos; por outro, tal como para o Pai Bush, a vision thing não é para ela (no dia da queda do Muro de Berlim, cidade onde vivia, em vez de ir molhar a sopa ou pelo menos assistir à destruição, foi à sauna - porque era dia de sauna) de maneira que quem precise de timoneiro para a viagem europeia terá de bater a outra porta. E há mais, lembrou-me amiga perspicaz: criada desde os 3 anos na República Democrática entre os vencedores da Segunda Guerra Mundial – o heróico povo alemão, ajudado pelo heróico povo russo, derrotara o nazismo e derrotaria um dia o capitalismo – nunca sentira a culpa salutar que fizera Helmut Kohl ter uma regra: quando o Chanceler alemão encontra o Presidente francês, começa por fazer três reverências.

 

Nos dias de hoje, para ela, eleitores e partido vêm à frente da Alemanha e a Alemanha muito antes da Europa. Até à reunificação muitos alemães ocidentais consideravam-se europeus antes de alemães mas esse chão deu uvas. Deutschland über alles.

 

Não há, em princípio, mal nenhum nisso. Cosi fan tutte. Gregos, atirando-se à água sem saberem nadar para mostrarem que são homens. Polacos, cuja cavalaria atacou tanques alemães a sabre, em 1939. Suécia, que se deu à eutanásia há 80 anos mas se arma em sogra do mundo e prega moral. Portugal, convencido de que, apesar do tiro-liro-liro estar lá em cima e nós estarmos cá em baixo, não há de ser nada. Inglaterra, capital da excentricidade, de onde The Economist faz em cada número obituário de morto ilustre (nossos, lembro-me de Amália e Melo Antunes) e escolheu a semana passada não uma pessoa mas uma gata, célebre no Japão onde era chefe de estação e Vice-Presidente honorária de companhia de combóios e, diz The Economist, sabia que era divina.

 

Gente variada, os europeus. Não se dão mal uns com os outros desde que um deles não queira mandar no resto e pôr todos à sua imagem e semelhança. Ora, depois de mais de meio século caladinha, a Alemanha recomeçou a afirmar-se. Terceira investida em cem anos, desta vez a bem – mas se não a refrearem vai de novo criar cizânias. Não por mal mas por desejo irreprimível de meter tudo na ordem sem nunca perceber que a sua ordem possa não convir aos outros.

 

 

 

link do postPor VF, às 07:22  comentar

1.7.15

 

 

 

Pieter_van_der_Heyden_-_Ship_of_Fools_(Die_blau_sc

 Nave dos Loucos,  Pieter van der Heyden

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Sem Europa

 

 

 

 

Amigo antigo perguntou-me há dias como era isto da Grécia. Embora o bloco só saia à Quarta-Feira, esta semana tenho de o aprontar mais cedo e bato teclas ao Domingo. Se, entre o momento em que escrevo e o momento em que a leitora lê, o primeiro ministro Tsipras, possuído de élan ecuménico, tiver ido ver o papa Francisco a Roma, ou o seu partido prometer apresentar provas de que o ministro Schäuble recebeu instruções directas do grupo Bilderberg, ou um movimento de Cristãos Sociais bávaros, com freiras, curas e bandeirolas, garantir que o ministro Varoufakis é o Anticristo, sem que nada disso apareça no blog a explicação fica dada.

 

Resposta ao meu amigo. 1 Muita gente acha que a Grécia não estava em estado de ser admitida nas Comunidades Europeias quando o foi, em 1981 (por grande pressão francesa, com Giscard Presidente). A política e a economia eram conduzidas por famílias, compadrios, redes de corrupção, a evasão fiscal era a norma, tudo coisas dificeis de conciliar com um Estado moderno. 2 Gente acha também que, depois, a adopção do euro foi ainda mais disparatada. 3 Em 2010, George Papandreu, recém-eleito primeiro ministro, disse que governos anteriores tinham falsificado as contas e que a situação financeira do país era catastrófica (verdade e ninguém foi preso; tampouco algum político se reformou). 4 Perante o «buraco» grego, os países europeus e a troika (Comissão Europeia, Banco Central Europeu, FMI) impuseram austeridade muito dura que salvou bancos franceses e alemães mas aumentou dívida e desemprego e enterrou a economia. (Quando em 2011, Papandreu quiz fazer um referendo a fim de procurar apoio popular a medidas difíceis, Merkel e Sarkozy mandaram-no bugiar e foi substituido por um tecnocrata). Nos últimos anos, a administração de Samaras conseguiu mesmo assim obter um supervavid primário que se viesse a ser acompanhado de restruturação da dívida permitiria à Grécia ir saindo do buraco – mas que sem restrusturação de pouco serve. 5 No começo deste ano, Syrisa, partido de extrema esquerda com vocação de PREC, mentira fácil e ignorância militante ganhou eleições prometendo acabar com a austeridade, coligou-se com pequeno partido de extrema direita, e tem negociado de má fé com os credores. 6 Quando, há dias, Tsipras anunciou referendo em que diria não, os ditos credores – Comissão, FMI, Estados Membros – acabaram a conversa e a Grécia que se governe.

 

Porque é que o desentendimento tem sido tão grande ? Porque para os alemães, dívida é pecado e para os gregos tem sido, há gerações, modo de vida. Hoje, apesar da inépcia crassa do Syrisa, muitos gregos tentam corrigir-se mas como mudar os alemães? (No seu diário de 14-18, Enrst Junger fala do «surpreendente amor dos nossos soldados pela ordem» mesmo no meio dos horrores da guerra).

 

E como já não há estadistas com visão europeia (Grécia; emigração) vai tudo de mal a pior. O mundo globalizado não é pera doce e sem uma União forte seremos deitados às feras.

 

 


 

 

 

link do postPor VF, às 08:49  comentar

29.6.15

 

 

 

La vida es un sueño y los sueños sueños son. Calderón cut a play's title out of that old Spanish proverb. Life is a Dream. The rest translates: 'Dreams are dreams.'

 

On the fifth of March 1933, the banks of the nation closed. Led more by a nose for drama than by the concern proper to a son, I hustled uptown to see how the 'old man' was weathering the crisis; my curiosity was not altogether sympathetic.

 

His business was located at 295 Fifth Avenue, the Textile Building, a hive of importers, wholesalers like himself, dark-complexioned men, immigrants all, most of them Armenians but some Anatolian Greeks, as well as a few Persians, Syrians and Egyptians. These men had come overseas from the East, propelled by a dream: that here their throats would not be cut. Working in the dust of carpets, living alone in dark back rooms, depriving themselves of pleasures, they'd put the dollars together, year after year, obeying the voice in the air of America; to accumulate money; that was safety, that was happiness. They married late, unromantically, going back to their native lands, as my father had, to find a proper woman out of their own tradition, ten, fifteen, twenty years younger, then made children as quickly as possible in half-paid-for homes while dutifully continuing to feed their accounts in banks whose doors, that morning, had remained locked.

 

Generally these men entered my father's store only when they had a customer whose needs they weren't able to meet from their own stock. They'd escort this buyer to Father's place and there pick up, in place of a profit, a commission. These encounters were rare since they were a last resort. My father's competitors paid each other no casual visits. But when I walked in that morning, there they were, a dozen or more, sitting cross-legged on piles of three-by-five Sarouk or Hamadan 'mats', clumped together in static postures, like hens roosting. Motionless, inanimate, they seemed to be waiting – but for what? Occasionally a few mournful words would be mumbled, a puzzled complaint. No response was expected, none offered.

 

Skirting the motionless figures, I circled back to the small desk where I was supposed to tend the accounts-due books. With business as bad as it had been, there'd been little to do that summer. I'd typed a few letters: 'Your immediate check would be sincerely appreciated' or 'We will regretfully be forced to place your account in the hands of our lawyers.' But most of the time I'd tilted up the large stock of our book and hidden The Brothers Karamazov behind it. This had been noticed, of course, and reinforced the general opinion that I was a young man without a future.

 

On this morning I sat idle, like the others, studying the assembly of merchants, men whose skins had once been a rich olive and were now pale from worry and the cold light that concrete walls shed. They're like shipwrecked sailors, I thought, thrown up on a desert and waiting for someone to rescue them.

 

Actually my father's business had gone 'kaput' - his word — three years before, in 1929, when the market collapsed. He'd put the yield of a life's labour into a stock issued by the National City Bank. Bought at just over 300, climbing as millions cheered past 600, it then rumpled with all the others down the mountain of high finance, like the boulders of an avalanche, to 23. At that time, he'd thought of his disaster as something for which he was in some way responsible; he must have done something wrong, made some awful mistake. Had he been outsmarted? Had he been cheated?

 

But now, in 1933, on the day the banks closed, surrounded as he was by men who shared the catastrophe — no one smarter, no one luckier, he knew them all to be as ordinary as he was - Father must have begun to accept that what had happened was more serious than any mistake he could have made. The men around him were all bleeding from the same invisible lesions. In a few years many of them would be out of business. They all shared a dread of what was coming.

 

 

Elia Kazan

in  A Life   p.102-103

© Elia Kazan 1988

 

 

Elia Kazan.jpg

 

 

On board the Keiser Wilhelm which brought us to America (1913)



link do postPor VF, às 08:44  comentar

28.6.15

 

img737

 

 

 

 

img749 copy 4

 

 

 

 

 

img767 - Version 2

 

 

 

 

 

 

img771 copy 3

 

 

 

 

 

img764 copy

 

 

 

 

 

img764

 

 

 

 

 

fotografias de João D' Korth

 

 

 

link do postPor VF, às 15:00  comentar

26.6.15

 

 

img750 copy

 

 

 

 

 

 

 img750 copy 4

 

 

 

 

 

 

img750 copy 2

 

 

 

 

 

img750 2

 

 

 

fotografias de João D' Korth

 

 

 

 

 France c.1933

 

 

 

 

 

img760 copy 4 - Version 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 08:51  comentar

24.6.15

 

waterloo.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

A asneira da austeridade

 

 

Em tempo de vacas gordas, haver ricos conforta os pobres e vive tudo na paz do Senhor. Em tempo de vacas magras, o Diabo põe-se à coca e faz das suas. De entrada, a esperança teima: para o ano vai ser melhor, pensam muitos (e depois pensam poucos). Quando anos passam e quase nada melhora, o azedume rói as almas. O mau viver instala-se a pouco-e-pouco; cava-se um fosso entre o mundo cada vez mais pequeno dos ricos e o mundo cada vez mais vasto dos pobres e acaba por se estragar tudo — mesmo em lugar tão cordato e tão pouco dado a excessos quanto Portugal.

 

Estamos a chegar aí – tal como vários outros países europeus – graças a política de austeridade que de há quase cinco anos a esta parte os países que têm o euro como moeda resolveram adoptar. Em lugares do Sul animados por tradições de guerra civil, como a Espanha e a Grécia, a violência formiga à flor da pele. Mais acima no Continente, os países decisores ou por falta de visão (tais aqueles jogadores de futebol que olham para a bola em vez de olharem para o campo) ou por ignorância de história (a qual lhes diria que, em 1953, a Alemanha Ocidental ter um superavid primário foi crucial para a decisão de lhe reduzir drasticamente a dívida) estão a minar a segurança e o bem-estar dos europeus. É certo que em 1953 os europeus ocidentais tinham pavor salutar da URSS. Mas hoje a Europa inteira deveria ter medo geral profilático: da Rússia; da concorrência desregrada dos outros BRICS; do descalabro sanguinário do Próximo Oriente. Somos uma jangada de paz e decência em mar alto onde borbulham monstros.

 

E nem é hoje a Alemanha que nos empurra para o abismo. Finlândia, Holanda, Eslováquia, Eslovénia falam mais grosso ainda. Mas com chefe à altura de Adenauer, que puxou os seus do fundo do opróbio; ou de Churchill que salvou a Democracia das garras de Hitler e Estaline; ou de De Gaulle que, em 1945, fez da França vencida França vencedora – tudo iria ao sítio. Mesmo sem eles, talvez vá se Angela Merkel tiver unhas para essa guitarra. Talvez as tenha.

 

Escrevo da Nova Iorque dos pobres, onde houve festa da música no Solstício de Verão. No bistrot da esquina, com mesas cá fora, quarteto francês de jazz (The Blues Syndicate, amadores cinquentões) veio dar acompanhamento ao aperitivo e, depois de jantar, ao serão. “Perdemos Waterloo mas ganhámos os blues” disse o guitarrista entre duas peças. Quinta-Feira, à reconstituição comemorativa dos 200 anos da batalha tinham vindo o Rei dos Belgas, o Príncipe Carlos, descendentes de Napoleão, de Wellington, de Blücher, outros estadistas europeus. Os franceses têm mau perder e mandaram só o embaixador em Bruxelas. Os alemães fizeram o mesmo mas porque, desde a atrocidade nazi, ganhar dá-lhes amargos de boca — por muito antigo que o ganho haja sido.

 

Isso deveríamos todos aprender com eles. Na minha experiência, a Alemanha era o único grande país europeu que se portava decentemente com os pequenos e dizem-me que continua a sê-lo.

 

 

 

Imagem: aqui

 

 

link do postPor VF, às 07:06  comentar

17.6.15

 

24-Merkel-Tsipras-AFPGet.jpg© AFP/Getty

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Maleita grega; mezinha alemã

 

 

Waterloo foi há duzentos anos. Despachado para Santa Helena, Napoleão passou a ruminar o passado. O fiel Las Cases tomava notas; regressado a França depois da morte do Imperador, publicou-as em livro que foi best-seller na Europa inteira. Em página arrancada ao Memorial de Santa Helena, ilustração a cores mostra o Imperador junto de uma palmeira, mãozinha na barriga, cogitando sobre cette pauvre machine humaine, tão diferente em cada um de nós. “Et c’est par se refuser à cette vérité qu’on commet tant d’erreurs. Pensava em pessoas – reis, marechais, bispos, banqueiros, patriotas, amigos e inimigos – avaliadas na sua carreira meteórica; lamentava escolhas mal feitas. Mas há também enganos colectivos e alguns estão a dar cabo da Europa de hoje.

 

Os alemães parecem inabalavelmente convencidos de que os outros europeus deveriam ser todos como eles. A ingenuidade desta convicção é quase comovente mas ajuda a consolidar miopia que mina o bem-estar europeu. O folhetim seria cómico se não fosse trágico – “Atenas e os seus credores” – e é resultado de se quererem tratar os gregos como se fossem alemães quando não o foram, não o são nem o serão nunca. Vamos em 5 anos do baile de máscaras da austeridade e apesar de tudo estar pior na Grécia (o superavid primário obtido antes de Syrisa chegar ao poder – isto é, o estado grego ter passado a receber mais do que paga, excluído o serviço da dívida – dado o montante astronómico desta, só pode dar satisfação a quem finja que a dívida não exista ou imagine que ela seja perdoada). Ora tal reestruturação é anátema para Berlim, Bruxelas, até FMI (Strauss-Kahn faz muita falta) que privilegiam preconceitos ideológicos em lugar de bom senso. Não é tanto por ultra liberalismo económico (embora desde o fim da Guerra Fria o capitalismo financeiro tenha tomado o freio nos dentes). É sobretudo por  Mário Monti disse-o  os alemães entenderem que a economia é um ramo da filosofia moral.

 

Falta de solidariedade mina a União Europeia e anima nacionalistas eurocépticos como a francesa Le Pen ou o inglês Farage. Ignorantes, não perceberam que a União não é capricho de fortes: é necessidade de fracos. Enquanto os europeus foram poderosos mataram-se uns aos outros e, a partir do século XV, foram também matar além-mar. Mas não há bem que sempre dure — e a guerra de 1939-1945 deixou-os de rastos. Medo de Estaline e ajuda americana – OTAN; Plano Marshall – levaram-nos ao que é hoje a União Europeia. Mas a URSS acabou, Washington não tem mãos a medir, o euro foi mal enjorcado, já nenhum governante europeu se lembra da guerra e, em países do sul, serão os nossos netos a pagar as nossas dívidas (nada de inédito, mas frustrante para quem julgava ter inventado o futuro).

 

A Grécia produz 2% do PIB europeu mas maleita grega e mezinha alemã fazem mal desproporcionado. Nas costas dos gregos: 79% destes preferem manter o euro. Terão afinal mais confiança na troika do que nos eleitos do povo?

 

 

link do postPor VF, às 09:03  comentar

12.6.15

Fotografias de João D' Korth 

 

img762 copy 2

 

 

 

img762 copy 3

 

 

 

 

img763

 

 

 

 

img763 copy 3

 

 

 

 

 img763 copy 2

 

 

 

 

 

img762 copy

 

 

 

 

 

img763 copy 4

 

 

 

 

 

img763 copy

 

 

 

 

 Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

 

 

 

img760 copy 3 - Version 2

 

link do postPor VF, às 15:41  comentar

10.6.15

 

 

Camoes_-_retrato_de_goa_2b.jpg

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

10 de Junho

 

 

 

“Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo”. Este verso da Feira Cabisbaixa de Alexandre O’Neill ressoa em mim. Tentei ver-me livre dele por via post-moderna — “Portugal é questão que Alexandre O’Neill tem consigo mesmo” — mas, sendo o post-modernismo um rosário de asneiras, a esperteza não me ajudou a sair do labirinto.

 

Alguns anos depois, o homem de teatro Mário Viegas, em campanha para a Presidência da República, lançou esta palavra de ordem: “Europa não. Portugal nunca!”. Também ressoou em mim. Deveria ser adaptada e divulgada em todas as línguas da União. Os europeus – 7% da população, 25% do produto, 50% da despesa social do mundo… E ainda se queixam? – terão de perceber que se não há ninguém melhor do que eles, tampouco eles são melhores do que seja quem for. É claro que píncaros éticos assim são para Espinosas, não para mortais comuns. Mas, se não quisermos outra vez guerras entre nós, é para esse lado que se deve esticar a corda e não para o outro como fazem agora patriotas finlandeses, lepenistas franceses, ukipistas ingleses, tantos outros. (Hoje digo sim à Europa. Sabe-se que, para quem não tenha muita fé, não há nada pior do que ir a Roma; no meu caso, quinze anos de vida em Bruxelas fizeram de um eurocéptico um europeísta. E passei a preferir Portugal sempre a Portugal nunca: sabedoria ou senilidade?)

 

Entre os dizeres de O’Neill e Viegas, Portugal vivera a 25 de Abril de 1974 o seu terceiro grande sobressalto no século XX. Hoje a maioria não se lembra do Estado Novo. António Alçada Baptista, em 1998, escreveu sobre ele: “(…) no tempo do antigo regime vivi com alguma ansiedade a condição de ser português. Não tínhamos liberdade e aguentámos uma guerra colonial que era para mim uma vergonha. O governo tinha tomado conta de todos os valores patrióticos e religiosos e por isso era com muita dificuldade que eu conseguia ter orgulho no meu país”.

 

Era assim nesse tempo com muitos de nós, católicos ou ateus, monárquicos ou republicanos. Ditaduras e guerras dão tratos de polé ao patriotismo. Em 1940, o regime francês de Vichy, presidido pelo marechal Pétain, julgou à revelia o general De Gaulle, refugiado em Londres, e condenou-o à morte por traição à pátria. Por sua vez, em 1945, o regime francês de Paris, presidido por De Gaulle que ajudara a derrotar a Alemanha nazi, condenou Pétain à morte por traição à pátria. De Gaulle, cujo único filho varão era afilhado de Pétain, comutou a pena em prisão perpétua.

 

Na paz e democracia do Portugal europeu de hoje, um inglês da Várzea de Colares - Deus lhe tenha alma em descanso – gabava-se ser o único colunista da imprensa lisboeta que gostava de Portugal; os seus confrades lusos não paravam de dizer mal do país. Alguém lhe explicou. Ele louvava Portugal mas se estrangeiros viessem atacá-lo meter-se-ia no primeiro avião para Londres. Os confrades lusos talvez não gostassem de Portugal mas amavam-no e, se estrangeiros investissem, morreriam por ele. Simples, no fundo.

 

 

 


3.6.15

 

 

t1212tejero-picasso_feat1_3.jpg

 

Europa, filha do rei de Tyr, raptada por Zeus 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Irmãs da namorada de Zeus

 

 

 

Há anos, no Itamaraty, perguntei a diplomata brasileiro como era o Paraguai. “É assim como o México” respondeu ele “mas, como não mudam de 7 em 7 anos, roubam menos”. Era o presidente que não mudava; pouco tempo depois o ditador Stroessner foi corrido – para exílio no Brasil – pelo que hão de ter passado a roubar mais. Mas o pior não é isso: há mês e meio, miúda de dez anos, grávida depois de violada pelo padrasto, foi levada ao hospital pela mãe pedindo que a fizessem abortar. As autoridades, espaldeadas pela igreja católica, disseram que não (prendendo a mãe como cúmplice). Em vários outros países da América Latina, as gravidezes juvenis também são muito mais frequentes do que na Europa e mais difíceis de prevenir por uma mistura de ignorância, machismo e doutrina católica.

 

Passando para outra das irmãs da namorada de Zeus e para outros desmandos: na sexta-feira passada, federações nacionais de futebol, sobretudo de África, votaram sem hesitação para renovar o mandato de Sepp Blatter à frente da FIFA, apesar de indignação de muitos entendidos e de outras federações. (Michel Platini, presidente da europeia, exortou publicamente Blatter a não se recandidatar). Como a investigação de crimes graves veio do FBI, esboça-se movimento para caracterizar o caso como expressão de imperialismo americano atrabiliário contra costumes, diferentes mas honrados, de gente menos rica e menos forte por esse mundo fora.

 

Um que logo se manifestou nesse sentido, alto e bom som, foi Vladimir Putin que, de súcia com o alto clero da igreja ortodoxa, continua a restringir cada vez mais as liberdades na Rússia – no rosário de repressões: há dias fundações que recebam dinheiro do estrangeiro foram consideradas inimigas da nação e do estado – para consolidar a sua cleptocracia; deverá saber ou suspeitar de trafulhices na escolha do seu país para acolher mundial de futebol e verá também oportunidade de reforçar a sua excelente imagem interna, fomentada por controle quase total de jornais, telefonias e televisões e por serviço de segurança levado ao nível do KGB.

 

O que me levou a outra irmã da Europa, a Ásia, de que a Rússia também faz parte embora não esgote, muito longe disso, as malevolências dela. Igualmente em notícias dos últimos dias, encontramos emigrantes, refugiados de tentativas de genocídio, postos à deriva no alto-mar com promessas de nova vida sem que países que os poderiam ajudar mexam um dedo para tal fazer, da Tailândia à Austrália (esta já na Oceânia, última irmã de Europa). Assim escancarada, a indiferença pelo próximo nesses países não encontra termos de comparação na Europa de hoje. Entretanto, sobre a terra e sobre o mar dessa parte do mundo, acena a presença totalitária e impiedosa da China.

 

No começo e no fim do dia, lembremo-nos da sorte que tivemos em nos ter calhado a filha do Rei de Tyr, raptada por Zeus (disfarçado de touro para escapar à vigilância ciumenta da mulher – o Mediterrâneo mudou pouco).

 

 

 

 

Imagem aqui

 

 

 

link do postPor VF, às 09:32  comentar

31.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 28 a 31

 

img039 - Version 2

 

 

 

 

 

 

img039 - Version 3

 

 

 

 

 

 

img039 - Version 4

 

 

 

 

 

 

img039 - Version 5

 

 

 

 

 

 

img040 - Version 2

 

 

 

 

 

 

 img040 - Version 3

 

 

 

 

 

 

 

img040 - Version 4

 

 

 

 

 

 

 

img040 - Version 5

 

 

 

 

 

 

 

img041 - Version 2

 

 

 

 

 

 

img041 - Version 3

 

 

 

 

 

 

 

img041 - Version 4

 

 

 

 

 

 

img041 - Version 5

 

 

 

 

 

img042 - Version 2

 

 

 

 

 

 

img042 - Version 3

 

 

 

 

 

 

 

img042 - Version 4

© Henrique D'Korth Brandão

 

 

 

Apresentámos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

6. páginas 16 a 18

7. páginas 19 a 21

8. páginas 22 a 24

9. páginas 25 a 27

 

 

 

1940 ALBUM COMEMORATIVO

Exposição do Mundo Português

 

 

 

Agradecimentos:

 

Restos de Colecção, Coisas de outros tempos, Aterrem em Portugal , Alexandre Pomar , Largo dos Correios , Padrão dos Descobrimentos , Hemeroteca Digital , Instituto Camões  , O Leme , Candelabro

 

 

 

img014

Álbum de fotografias de João D' Korth

 Exposição do Mundo Português [no Flickr]

 

 

 

 

Apresentámos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

6. páginas 16 a 18

7. páginas 19 a 21

8. páginas 22 a 24

9. páginas 25 a 27

 

 

 

 

 Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:17  comentar

29.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 25 a 27

 

 

img036 - Version 2

 

 

 

 

 

 

img036 - Version 3

 

 

 

 

 

 

img036 - Version 4

 

 

 

 

 

 

img036 - Version 5

 

 

 

 

 

 

img037 - Version 2

 

 

 

 

 

 

img037 - Version 3

 

 

 

 

 

 

img037 - Version 4

 

 

 

 

 

 

img037 - Version 5

 

 

 

 

 

 

img038 - Version 2

 

 

 

 

 

 

img038 - Version 3

 

 

 

 

 

 

img038 - Version 4

 

 

 

 

 

 

img038 - Version 5

 

 

 

 

© Henrique D'Korth Brandão

 

continua...

 

 

Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

6. páginas 16 a 18

7. páginas 19 a 21

8. páginas 22 a 24

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

 

 

selo?

Exposição do Mundo Português

 

 

 

 

 

 

 

 

link do postPor VF, às 16:24  comentar

27.5.15

 

female soldier 3.jpg

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Voltas que o mundo deu

 

 

 

“Ó tio, posso ler o Bonjour tristesse?” perguntou a adolescente, espernegada numa cadeira de lona do jardim.

 

“A menina feche as perninhas e leia o Pim Pam Pum” respondeu o tio, militar distinto que saía da casa de jantar, sentindo-se in locus parentis no calor daquele serão de Agosto.

 

Cumpridora, a pequena uniu com recato as coxas debaixo da saia de algodão; o tio voltou para junto dos crescidos e a ordem natural das coisas não foi beliscada pelo sobressalto.

 

Mas o homem põe e Deus dispõe; a velocidade de mudança do mundo não para de aumentar; desde 1954, ano da revelação de Françoise Sagan (quando falaram do editor a aceitar o manuscrito, tiveram de telefonar mais tarde porque a menina ainda estava a dormir e a criada não a quis acordar) até ao momento em que bato estas linhas num computador que terá de ser substituído muito brevemente por outro mais moderno e por isso mais rápido, andamos todos numa lufa-lufa (para usar um dos termos predilectos do Senhor J. Fonseca). Naquela noite, a adolescente obedeceu ao tio: fechou as perninhas e não pegou no livro da Sagan, mas passado algum tempo percebera que gostava de mulheres e por aí seguiu, primeiro às escondidas, depois meio às escondidas, depois à vista de toda a gente, agora, com a lei nova, até é capaz de ter passado por alguma repartição de Registo Civil. As mudanças de costumes convieram à sua inclinação e embora haja momentos de nostalgia de segredo completo e de fruição de ilegalidade - como do dia em que se percebera melhor a si própria, deitada num quarto por se ter sentido fraca em festa de casamento, e uma irmã do noivo viera ver como ela estava, começara a fazer-lhe festinhas, encetando nessa tarde as duas ligação que duraria cinco anos – a vida agora é mais como deveria ser.

 

Com o tio – que era mesmo tio e não apenas assim tratado por convenção nas maneiras do meio em que a sobrinha vivia, por ser um meio bem (nalguns casos, ultimamente, acontece também em meios que querem parecer sê-lo) – a história foi outra. Militar distinto, o 25 de Abril apanhou-o já general e desempenhou nos dois anos a seguir a essa data histórica cargos muito importantes na hierarquia das forças armadas não por ser de esquerda, como se dizia na altura, ou por ter sido, como alguns camaradas seus foram, inebriado pelo poder que as instituições militares ganharam nessa altura e fez alguns dos seus protagonistas desempenharem papeis que não lhes teriam sido atribuídos em tempos normais da vida da Pátria mas exactamente por ser um militar pundonoroso, atento à disciplina e às obrigações das servidões e grandezas da sua carreira, respeitador de superiores e fazendo-se respeitar por subordinados, exerceu funções e cumpriu deveres que nem sempre agradaram a camaradas e familiares do mundo donde vinha.

 

A História amaciou o caminho da vida da sobrinha; o tio viu cortadas as asas da sua alma mater, as quais, em 1910, 1926 e 1974, tinham ajudado a mudar o destino da Pátria.

 

link do postPor VF, às 07:26  comentar

24.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 22 a 24

 

 

 

img033 - Version 2

 

 

 

img033 - Version 3

 

 

 

img033 - Version 4

 

 

 

img033 - Version 5

 

 

 

img034 - Version 2

 

 

 

img034 - Version 3

 

 

 

img034 - Version 4

 

 

 

img034 - Version 5

 

 

 

img035 - Version 2

 

 

 

img035 - Version 3

 

 

 

img035 - Version 4

 

 

 

img035 - Version 5

 

 

Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

6. páginas 16 a 18

7. páginas 19 a 21

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

capa-2-560x800

Exposição do Mundo Português

 

link do postPor VF, às 15:12  comentar

22.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 19 a 21

 

 

img030-2

 

 

 

 

img030 - Version 3

 

 

 

img030 - Version 4

 

 

 

img030 - Version 5

 

 

 

img031 - Version 2

 

 

 

 

 img031 - Version 3

 

 

 

 

img031 - Version 4

 

 

 

 

img031 - Version 5

 

 

 

img032 - Version 2

 

 

 

img032 - Version 3

 

 

 

img032 - Version 4

 

 

 

img032 - Version 5

 

© Henrique D'Korth Brandão

 

continua...

 

 

Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

6. páginas 16 a 18

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

Bandeira_exposição_mundo_português.svg copy

Exposição do Mundo Português

 

 

 

 

link do postPor VF, às 09:30  comentar

20.5.15

 

 

2-Ponte_Vasco_da_Gama.jpg

 Ponte Vasco da Gama - Há valores seguros.

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Verniz a estalar

 

 

Os sapatos de verniz levados a S. Carlos estalavam depressa mas não fazia mal: só novos-ricos queriam tudo novo em folha e, como o bom senso de Miami (Better nouveau riche than no rich at all), não tinha chegado à capital deste Império, ricos-velhos, nouveaux pauvres (o Luís Stau Monteiro dizia que era um desses), todo o resto da tribo olhavam por cima da burra para volframistas, africanistas, brasileiros, porque nisto de dinheiro, o único bem ganho e moralmente aceite era o herdado. Na novela de José Régio “Davam Grandes Passeios aos Domingos”, que decorre em Portalegre, Alto Alentejo, entre a primeira e a segunda Guerras Mundiais, o melhor partido para meninas casadoiras nos filhos de lavradores ricos, o Chiquinho Paleiros, não estudava “porque não precisa”, de rica que a família era. “Manhã de rico” queria dizer levantar-se tarde por não ter de trabalhar para outros nem para si. Quem não tivesse nascido rico e começasse a alardear dinheiro levantava logo suspeitas e – até mais ou menos ao fim do século do XIX  se não pudesse provar ter encontrado tesouro escondido em cova no campo ou buraco de ruína, da fama de trafulha não se livrava (no século XX, se não tivesse ganho a Lotaria, mais tarde o Totobola ou o Euro milhões). Gente de bem não mudava a ordem das coisas e das pessoas. Ainda no Alentejo: um golpista era muitas vezes chamado de “pulante” ou “trampolineiro” – alguém que queria chegar acima da sua condição. Por isso também, em grandes apertos financeiros da Nação, se esperava dos ricos que pagassem a crise. Entretanto, serões de ópera, de boa música sinfónica ou de câmara entretinham-nos, ataviados como reis, diante da casa onde nasceu Fernando Pessoa. Vivia-se ao tempo em que o meu chorado Alexandre O’Neill ouviu no mestre Escama, barbeiro, um agente da P.S.P. afirmar didaticamente ao resto da freguesia: “Ser polícia dá cantina, barbeiro, autoridade!” (E o senhor engenheiro responder ao engraxador residente que hoje não engraxava porque engraxava na Baixa).

 

Já houve quem dissesse que o passado é um país estrangeiro. Talvez, mas eu além de me ir afastando no tempo, vivo fora e apesar de tudo isso cada vez que volto acho que o país não mudou no essencial, apesar de três diferenças conspícuas: os novos são mais altos, os velhos são mais velhos e as pequenas fodem todas. À parte isso, às vezes, quanto mais diferença querem, pior. Exemplo: a Ponte Salazar passou a Ponte 25 de Abril não por nós termos mudado mas por não termos. “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há” disse-me homem bom da sua aldeia em 1965. O acolhimento aos retornados, a cerviz vergada à austeridade, não lhe tornariam a dar razão?

 

Hoje, brutalidade da polícia indigna os portugueses. Em 1965 cabo chefe de subposto da GNR contou-me que quando lhe vinham fazer uma queixa, ele ouvia e dava logo a seguir um par de estaladas ao queixoso/a. Se a queixa fosse mantida, abria processo.

 

Não há de ser nada.

 

 

 

link do postPor VF, às 07:44  comentar

17.5.15

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

páginas 16 a 18

 

 

img027 - Version 2

 

 

 

 

img027 - Version 3

 

 

 

 

img027 - Version 4

 

 

 

 

img027 - Version 5

 

 

 

 

img028 - Version 2

 

 

 

 

img028 - Version 3

 

 

 

 

img028 - Version 4

 

 

 

 

img028 - Version 5

 

 

 

 

img029 - Version 6

 

 

 

 

img029 - Version 7

 

 

 

 

img029 - Version 8

 

 

 

 

img029 - Version 9

 

 

 

Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

© Henrique D'Korth Brandão

1. páginas 1 a 3 aqui

2. páginas 4 a 6

3. páginas 7 a 9

4. páginas 10 a 12

5. páginas 13 a 15

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

 

Mundo Português capa

Exposição do Mundo Português

 

 

 

 


15.5.15

 

 

Álbum de fotografias de João D' Korth (1893-1974) 

 

páginas 13 a 15

 

img024 - Version 2

 

 

 

img024 - Version 3

 

 

 

img024 - Version 4

 

 

 

img024 - Version 5

 

 

 

 

img025 - Version 2

 

 

 

img025 - Version 3

 

 

 

img025 - Version 4

 

 

 

img025 - Version 5

 

 

 

img026 - Version 2

 

 

 

img026 - Version 3

 

 

 

img026 - Version 4

 

 

 

img026 - Version 5

 

 

 

 

Apresentamos as fotografias do álbum pela ordem em que o autor as paginou.

páginas 1 a 3 aqui

páginas 4 a 6

páginas 7 a 9

páginas 10 a 12

 

Álbum Exposição do Mundo Português no Flickr

 

 

 

Mundo Português capa 2

Exposição do Mundo Português 

 

 

 

link do postPor VF, às 14:08  comentar

13.5.15

 

 

M-K 3.jpgBons tempos

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Bom senso

 

 

 

Foi bom ver Ed Milliband e o Partido Trabalhista, livre da viragem à direita feita por Tony Blair, levarem no coco. Ficaram só com um deputado na Escócia, os Conservadores ganharam maioria absoluta na Câmara dos Comuns e Ed demitiu-se. É uma história moral, como fábula de Esopo. Há cinco anos, o candidato natural à chefia do partido a seguir à demissão de Gordon Brown era o irmão mais velho de Ed, David, que acabara de ser ministro dos estrangeiros e seguia a via social-democrata aberta por Blair. Mas Ed mancomunou-se com sindicatos esquerdistas, prometeu-lhes voltar ao passado quando o partido retomasse o governo (no Reino Unido, o chefe dos trabalhistas é escolhido por deputados e dirigentes sindicais). Ficou chefe da oposição em Westminster e David deixou a política.

 

Aliança de sindicatos trogloditas e irmão fratricida foi coisa feia e deu gosto vê-la acabar tão mal. De Ed não é preciso dizer mais nada: na nossa parte do mundo gente como ele tem mau nome desde que Caim matou Abel. Dos sindicatos convém acrescentar que, se a austeridade dos Tories de Cameron deixa muito a desejar (tal como a austeridade imposta pela Alemanha na zona euro) não é seguramente com receitas socialistas de anteontem, de ineficácia provada, que se poderá emendar o soneto. Quase toda a gente - salvo quase todos os alemães - sabe que é preciso mudar mas não para voltar a erros passados (embora a tentação de muitos seja grande, como o caminho feito por demagogos em outras áreas da vida política atesta – proteccionismo; xenofobia – fazendo lembrar os anos de pré-nazismo e pré-fascismo do século XX, só não havendo ainda arruaças em cidades da Europa graças aos 50% da despesa social do mundo gastos pelos europeus).

 

A austeridade foi e continua ser um erro caro mas a vasta maioria dos alemães continua a exigi-la e os governos dos outros países da União Europeia, não só os da zona euro, aceitam essa exigência. Desde 2010, os alemães, às arrecuas, depois de dizerem que não várias vezes, têm cedido ao bom senso. Mas mudam muito devagar e, sem guerras entre nós, a demora será grande. Enquanto a França mandou, os vícios francês e alemão neutralizaram-se. Mas desde a moeda única a França, com orçamentos em défice desde 1974, não consegue impor uma pitada de inflação e a Alemanha, desinibida, faz vigorar a sua visão caseira e moralista da economia. Virtude à solta que pode acabar mal.

 

Por cá, alguma grandeza daria jeito mas fracos reis fazem fraca a forte gente. Lembro a adivinha de Augusto Sobral:

 

De meia tijela veio

E ficou meia tijela.                                                                

Ficou a tijela em meio                                                              

Porque era meia tijela.

 

E o refrigerante imaginado pelo meu chorado Eduardo Calvet de Magalhães, antes de cá ter chegado a Coca-Cola: “ Capilé gaseificado – a bebida que lhe corre nas veias”.

 

 

 

Imagem: François Mitterrand e Helmut Kohl em Verdun, 1984 © Associated Press

 

 

link do postPor VF, às 10:22  comentar

12.5.15

 

 

Capa_5_400px__81359_zoom.jpgaqui

 

 

Surge finalmente uma bonita colecção a preço acessível que vem colmatar a quase total ausência de obras de referência sobre a história do design contemporâneo em Portugal.

 

A Colecção Design Português, constituída por 8 volumes organizados cronologicamente, apresenta-se como a primeira história do design nacional desde o início do século XX até à actualidade nas mais diversas áreas de intervenção. Reúne os principais designers portugueses e descreve, em cerca de 800 páginas, a evolução do design, o seu contexto histórico, as modalidades da sua prática e os debates teóricos que acompanham a institucionalização desta disciplina.

O último volume sai hoje com o Público.

 


COLECÇÃO DESIGN PORTUGUÊS

Coordenação de José Bártolo

Edição ESAD e Verso da História, com a chancela do Ano do Design Português

Distribuição com jornal Público, todas as terças-feiras, até 12 de maio

 

 

Volume 1: 1900-1919 | Maria Helena Souto
Volume 2: 1920-1939 | Rui Afonso Santos
Volume 3: 1940-1959 | Maria João Baltazar
Volume 4: 1960-1979 | Victor M. Almeida
Volume 5: 1980-1999 | Helena Sofia Silva
Volume 6: 2000-2015 | José Bártolo
Volume 7: Cronologia 1900-1959 | José Bártolo
Volume 8: Cronologia 1960-2015 | José Bártolo

 

link do postPor VF, às 14:50  comentar


pesquisar neste blog
 
mais sobre mim
Translator
sitemeter
contador sapo