24.8.16

 

 

 

transatlantic phone call 1927.jpg

Telefonema transatlântico (1927)  

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Escrita em dia

 

 

 

“Senhoras analfabetas a porem a escrita em dia” disse para mim mesmo, numa de Alexandre O’Neill, quando as vi as duas ao fundo da Comida de Santo, raparigas do meu tempo, exercitando as mandíbulas mais na conversa do que no feijão preto. Passou-se isto antes do Facebook e da restante variedade das chamadas redes sociais – antes do skype, embora já houvesse telefones (modernice que o Marechal Foch, comandante das forças francesas na Primeira Guerra Mundial, detestava, delegando sempre que possível num ajudante de campo e desejando vivamente o seu desaparecimento em tempo de paz) telefones que permitiam e permitem, valha-nos isso, namorar horas a fio, com fios ou sem fios através do éter, emitindo ou recebendo sopros delicados nas orelhas quando tenha de se julgar em vez de se poder experimentar.

 

Esta estranheza com o que é novo e algum medo dele existiu sempre mas é muito pior do que alguma vez foi (isto é, passou a haver muito mais gente assustada com o progresso do que encantada com o progresso, pelo menos no Velho Mundo) porque, por um lado, o ritmo das mudanças técnicas nunca acelerou tanto quanto agora e, por outro lado, também graças a esse ritmo, tudo se sabe in real time (como há quem goste de dizer nestes nossos dias em vez de dizer ‘no mesmo momento’ ou ‘na mesma altura’). Dantes não era assim: a batalha de Waterloo que fixou por quase um século o destino da Europa, derrotando Napoleão e reforçando o poder da Inglaterra e dos alemães, foi travada um pouco ao sul de Bruxelas entre o nascer e o pôr-do-sol do dia 18 de Junho de 1815 mas o resultado dela, levado por estafeta que ia mudando de cavalos – com o Canal da Mancha de permeio - só foi conhecido em Londres quatro dias depois. Washington Irving, romancista americano do século XIX escreveu um conto que ficou célebre, apareceu em antologias, foi ensinado em cursos de literatura, traduzido em dezenas de línguas e se chamava O homem que dormiu vinte anos. O herói, para lhe chamar assim, dormira efectivamente duas décadas e, depois de acordar na mesma cama, encontrara ao levantar-se, no dia-a-dia restabelecido, muitas coisas novas que nunca conhecera antes e muito o perturbavam. Tenho-me lembrado dele mas pensando que, pelo andar da carruagem, daqui a quinze ou vinte anos, outro ficcionista americano dotado poderá publicar novo best-seller sob o nome “O homem que dormiu vinte minutos”.

 

Muito do que se passa agora nas tecnologias de ponta é inédito: entra na categoria das novidades absolutas mas mudanças vertiginosas de outra natureza já várias vezes assustaram gente. Por exemplo, inflações galopantes, de que a alemã dos anos 20 por ajudar à subida de Hitler ao poder ficou célebre, deram quotidianos bizarros. Amiga exilada no Brasil em 1975, no supermercado punha-se à frente do empregado que ia aumentado os preços de uma ponta à outra da loja e teve uma criada que comprava cuecas pagando em dez prestações porque assim lhe saíam muito mais baratas. 

 

 

 

 

 

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21.8.16

 

 

Penguin-1248 Salinger Catcher on the Rye-rc.jpg

 

 

 

Seymour'd told me to shine my shoes just as I was going out the door with Waker. I was furious. The studio audience were all morons, the announcer was a moron, the sponsors were morons, and I just damn well wasn't going to shine my shoes for them, I told Seymour. I said they couldn't see them anyway, where we sat. He said to shine them anyway. He said to shine them for the Fat Lady. I didn't know what the hell he was talking about, but he had a very Seymour look on his face, and so I did it. He never did tell me who the Fat Lady was, but I shined my shoes for the Fat Lady every time I ever went on the air again — all the years you and I were on the program together, if you remember. I don't think I missed more than just a couple of times. This terribly clear, clear picture of the Fat Lady formed in my mind. I had her sitting on this porch all day, swatting flies, with her radio going full-blast from morning till night. I figured the heat was terrible, and she probably had cancer, and — I don't know. Anyway, it seemed goddam clear why Seymour wanted me to shine my shoes when I went on the air. It made sense.

 

J.D. Salinger in Zooey (1957)

 

 

*

 

 

What stays to me the most from your books is the Fat Lady from Franny and Zooey. I remember Seymour telling his siblings to polish their shoes for the fat lady [...] I remember Zooey explaining years later to Franny that there wasn’t really a Fat Lady, that the Fat Lady is God, or that faceless unknown person in the audience for whom a performer must always do his or her best, even when we don’t feel like it, or when we’re confronted with a cold, unresponsive, audience.

 

Stephen Collins in Letters to J.D. Salinger, edited by Chris Kubica, Will Hochman

 

 

 

Letters to J.D.S..jpeg

 

 

 

 

 Leia também neste blog o post Everyone is the Fat Lady 

 

 

 

 

 

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20.8.16

 

 

A-16th-Century-letter-a-q85-468x500.jpg

 

 

 

acrimónia
a.cri.mó.ni.a
nome feminino
(do latim acrimonia, «acidez», «amargor»)

 

 

A acrimónia distingue-se do amargor, que é a experiência pessoal do que é amarescente, do que tem um certo travo adstringente. Do seu prolongamento na alma resulta, por exemplo, o gosto deixado pelo desgosto (o qual sendo uma experiência pessoal é muitas vezes também intransmissível), que aplicado a gente se diz amargura. A acrimónia, ao invés, embora decorrendo também do que é acre, azedo, usa-se para designar a atitude relacional marcada por maus humores, ressentimentos, ou ressabiamentos (ver ressabiamento), e se traduz em azedume, em aspereza, em má vontade, em irritação permanente.

 

 

 

 

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17.8.16

 

 

Aniki-Bobó-1942.jpg

Aniki-Bóbó, 1942

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Contas do Porto

 

 

 

A primeira vez que fui ao Porto estranhei que me aceitassem o dinheiro. Ia em trabalho e ao fim de meio dia na cidade parecia-me evidente que um escudo de Famalicão ou de Ponte da Barca incorporava muito mais capital e trabalho do que um escudo de Almodôvar ou de Vendas Novas. Eu tinha quase trinta anos, isto é, foi há muito tempo: antes da adopção do euro como moeda nacional ter atirado os escudos para museus de numismática onde já se mostravam réis e cruzados e maravedis; antes de, a seguir ao 25 de Abril, se terem mudado nomes às coisas pensando-se que assim se mudava a natureza destas (mas a Ponte 25 de Abril é a mesmíssima ponte que a Ponte Salazar e o país que adiante e atrás dela se vê não pertence nem mais nem menos ao povo do que pertencia no dia 24 de Abril de 1974); antes da morte do Doutor Salazar por mor de ter caído da cadeira de lona onde gostava de se sentar no forte de Santo António do Estoril - por ordem cronológica invertida destes acontecimentos.

 

Mais atrás ainda. Eu era elitista, sulista e arrogante. Aos 15 anos fora aprender a pintar no atelier de António Pedro, em Campo de Ourique, onde pintores do primeiro grupo surrealista português, a que ele pertencia, elaboravam um cadavre exquis (quadro colectivo de que cada autor só ia vendo a sua parte). Pedro era sábio: não me meteu em cavalarias tão altas; mandou-me fazer retrato a óleo de um boi de loiça das Caldas. Passados meses desisti de vir a ser pintor; depois Pedro foi para o Porto onde fundou e dirigiu durante anos o Teatro Experimental. Num fim de tarde de inverno chuviscoso encalhámos os dois um no outro numa paragem de autocarro na Praça dos Restauradores, em Lisboa. Depois de saudações efusivas, “Mestre” perguntei-lhe eu “Como é que se pode viver no Porto?”. António Pedro era alto, de traços finos, óculos e barbicha bem aparada. Lá de cima respondeu-me com bonomia: “Oh filho: o Porto é uma cidade de província da Europa. E Lisboa não é nada”.

 

Depois de longa ausência, entrecortada por visitas curtas com fito certo, passei o último fim da semana a flanar no Porto e o efeito desta vez foi fulgurante. Lança autoestradas para fora como os polvos lançam tentáculos, por cada uma delas se entra na cidade e se deita até à Ribeira, sem léguas de subúrbios pelo meio. E a actividade permanente que já há mais de meio século me parecera de outro mundo, acentuou-se ainda mais e varia nas muitas novas coisas que se vão fazendo. Estamos, diz-se agora, todos ligados pela internet mas haverá lugares mais intensos na ligação do que outros. O dinheiro, a moeda, hoje não me dá problemas, porque já nem é deles nem é nossa. Mas há outra coisa, mais funda. O Porto, pensei, é Portugal acordado. E que o tripeiro ainda ature o alfacinha talvez devesse espantar muita gente (escrevo à vontade por não ser nem um nem outro).

 

Mário Cesariny de Vasconcelos pôs o dedo na ferida de maneira incómoda: “Lisboa, capital do Porto”. Injusto? Talvez mas por aqui me fico.

 

 

 

 

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15.8.16

 

Wartime Lies L. Begley.jpg

 

 

 

 

… upon rereading my book, it is clearer to me than ever, that it is quintessentially a work of fiction and not an autobiography or memoir, and that I had to write the story of Maciek and Tania in the form of a novel. The form was no less necessary than the emotional distance from the events I was going to evoke conferred by exile and the passage of time.

 

Perhaps I should briefly explain what I mean when I refer to the form of the novel. I understand the convention of the realist novel — a tradition in which I place myself — to require the novelist to write avowedly invented stories that so engage the reader's interest and sympathy that, while the spell lasts, he believes they are true or, at least, suspends disbelief. Novelistic invention does not, of course, preclude use of the novelist's own experiences and observations — of himself and others — in addition to material whose connection to his actual experience may be tenuous or indiscernible as he puts words down on paper. That is because the act of writing has the power to release thoughts and images of which one has had no premonition; one did not know they were within one's ability to summon up. Of course, when the novel has at last been finished, none of the material included in it has conserved its nature, whether it be personal experience, make believe, or serendipitous dis­covery; all of it has been transformed, as though the writer were a silkworm, and the bits and pieces of memory, associations, and knowledge leaves of a mulberry bush. These characteristics of the novel as form have an importance for me that I cannot overstate. They give the freedom to invent, consistent with the profound moral and psychological truth of the story being told, that treasure as my essential prerogative, and, like the passage of time and exile, they provide a psychic screen that has permitted me to approach matters, including the annihilation of Jews in Poland, that would otherwise seem intractable, even forbidden.

 

It should by now be clear that my insistence on the fictional nature of Wartime Lies is not a form of coquetry, and has nothing to do with some bizarre need on my part to avoid embarrassment to my mother or me. Neither of us has any more cause to apologize for or be ashamed of our lies or degradation during those war years than did Tania or Maciek — if I exclude the profound shame and disgrace of belonging to the same animal species as the men and women whose cruel and vile deeds I describe.

 

 

Louis Begley

in Wartime Lies [Afterword]

© Louis Begley, 1991 Afterword © Louis Begley, 2004

 

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13.8.16

 

 

E classic.png

 

 

 

epopeia
e.po.pei.a
nome feminino
(Do grego epopoía, de epos «palavra» + poíeo «compor»)


A epopeia clássica é um poema narrativo, composto em hexâmetro dactílico (formado por seis dáctilos, uma unidade métrica de versificação constituída por uma sílaba longa seguida de duas sílabas breves), cujo assunto são os feitos praticados por heróis, superiores em força e coragem, engenho e astúcia, mas que dependem dos deuses, os quais intervêm na orientação das suas acções.
É, porém, no mais doloroso verso lírico camoniano —«Errei todo o discurso dos meus anos»— que encontramos a única epopeia que o homem moderno ainda pode/ poderá/ poderia ser capaz de compreender. 

 

 

 

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10.8.16

 

img053 Estádio Nacional.jpg

 Inauguração do Estádio Nacional, 1944

Fotos: João D'Korth

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Vergonha na cara

 

 

 

 

Nuno Bragança tinha tido uma nanny de maneira que quando foi a Londres pela primeira vez, já com mais de trinta anos, os nativos com quem falava não percebiam que ele era estrangeiro. Passou lá um mês; a jantarmos na véspera de se ir embora perguntei-lhe o que achara. “Levaria muito tempo a habituar-me a viver aqui mas a Portugal sei que nunca hei de me habituar.”

 

Com efeito assim foi e o problema não era só do Nuno; o sentimento também assalta muitos que não acabam matando-se. Para Alexandre O’Neill era uma moinha permanente: “Portugal, questão que tenho comigo mesmo”. No meu caso, o incómodo deve vir do Pai que tive. Nos meus primeiros anos de liceu, era director do Centro de Saúde de Lisboa; todas as manhãs um automóvel o vinha buscar, que o trazia à noite (e muitos dias também para almoço que nessa altura comia-se mais em casa do que hoje). A Escola Valsassina, onde o João e eu andávamos, era a caminho do Centro mas nunca pusemos o rabo naquele carro porque um carro de serviço não servia para levar meninos ao liceu. O civismo ia mais longe. A CUF convidou o Pai para dirigir a parte de saúde pública dos seus serviços médicos. Era um lugar novo e aliciante mas havia uma condição: que ele prescindisse de intervenções políticas (não tinham passado da assinatura de alguns abaixo assinados contra o regime; nem sequer era comunista). Quando ele recusou, o médico que lhe transmitira o convite tentou demovê-lo, perguntando-lhe se ele não se lembrava de que tinha filhos. “É exactamente por me lembrar de que tenho filhos” respondeu o Pai.

 

Só comecei a dar-me conta daquilo a que alguns gostam de chamar o “país real” e outros o “Portugal profundo” já na universidade, alguns anos depois do Pai ter morrido. Mandara fazer um sobretudo e o alfaiate teve de mudar a data de uma prova para ir ao Minho testemunhar num julgamento. Contou-me depois: “O Senhor Doutor está a ver, o Juiz queria que eu dissesse a verdade mas eu…”.

 

Outros anos passaram. Virei antropólogo, veio o 25 de Abril, o PREC, a descolonização mas um ano depois disso tudo já se tinha percebido que o país mais parecido com Portugal antes do 25 de Abril era Portugal depois do 25 de Abril. Um dia disse ao Vitor Cunha Rego que meu pai me ensinara serem os portugueses um povo maravilhoso, oprimido por uma cáfila na qual o bandido-mor era Salazar. “Pois é” respondeu o Vitor “eu também tive um pai assim. E é grave um homem aos cinquenta anos descobrir que o pai era parvo”.

 

A identidade entre o país da Exposição do Mundo Português e o país da CPLP parece hoje quase completa. Pelo menos do ponto de vista moral. Em 1944, quando foi inaugurado o Estádio Nacional, avionette lançou sobre o público milhares de panfletos dizendo “O que nós queremos é futebol!” e explicando porquê.

 

Havia censura prévia e a imprensa – jornais e rádio – não podia contar de viagens duvidosas de secretários de estado. Agora pode e conta mas ganhamos as mesmas. Já ninguém terá vergonha na cara?

 

 

 

 

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9.8.16

 

 

simone-biles-gymnast-olympics-usa-team.jpg

 

Simone Biles fotografada por Norman Jean Roy para a Teen Vogue, Abril 2016

 

 

“Simone trains hard, but she also has uncanny air awareness. She can judge where she is in relation to the ground, even when she’s upside down. Some things you just can’t teach.”

 

o artigo The Full Revolution na revista The New Yorker aqui

 

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6.8.16

 

 

P for Pamela Pinterest.jpg

 

 

 

 

palinódia
pa.li.nó.di.a
nome feminino
(do grego palinodía, canto diferente)

 

 

Como género literário da Grécia antiga era uma retractação, que servia ao autor para desdizer ou desmentir o que dissera num canto anterior. Nem sempre é fácil perceber se tais retractações eram sinceras, mas é um facto que a palinódia se tornou uma forma poética que teve a sua fortuna. Estesícoro, no século VII-VI a.C., terá sido o primeiro a usá-la. Leopardi, já no século XIX, retomou o género na «Palinodia al marchese Gino Capponi», que a certa altura diz assim: «Vendo isto/ e meditando profundamente sobre as largas/ folhas, de minhas graves, antigas/ ilusões e de mim próprio senti vergonha.»* (tradução de Albano Martins). Em português, tanto na variante brasileira como na europeia, o termo designou, pelo menos a partir do século XIX, a mudança de opinião, sobretudo política, sem rasto da retractação original. Isto é, sem vergonha.

 

 

*Così vedendo,/ e meditando sovra i largui fogli/ profondamente, del mio grave, antico/ errore, e di me stesso, ebbi vergogna.

 

 

 

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3.8.16

 

 

Bad-war.jpg

 

 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

Fim de festa

 

 

 

 

Saiu o ano, entrou o ano. No topo do Estado dois chatos tristonhos deram lugar a dois faroleiros alegres e parece que o povo gosta assim. Ao menos anda a gente distraída, Senhor Doutor. Não ficámos menos pobres mas passámos a viver com mais gosto, dizem-me médicos de Lisboa e mestres d’obras de província. E nesta aventura inédita a que chamamos Europa – já lá vai mais de meio século sem andarmos à estalada uns aos outros (e sem batermos em pretos) – há muitos que nos invejam por esse mundo fora, apesar do mal que gostamos de dizer de nós próprios. Mas será preciso acordarmos e ganharmos juízo porque a papa doce está a acabar.

 

Não acabaria nunca enquanto a União Soviética existisse e a Alemanha estivesse dividida. (Gosto tanto da Alemanha que prefiro que haja duas – lembrava o General De Gaulle). O medo que o Camarada Estaline e os seus herdeiros nos metiam nos ossos tinha efeito salutar nas nossas decisões de europeus do Ocidente: dava força e razão ao que nos unia, punha de lado o que nos afastava e a construção europeia não parava. Se idade e doença não tivessem levado tão depressa desta para melhor os dois predecessores imediatos de Gorbachev, a perestroika e o colapso da União Soviética só teriam chegado dez anos depois, com a União Europeia já pronta para entrega aos europeus, chave na mão, pelo empreiteiro Delors ao serviço do casal franco-alemão (gravado para todo o sempre na sabedoria das nações por Mitterrand e Kohl de mão dada em Verdun).

 

A reunificação alemã deu cabo desse casal. Como no drama de Almeida Garrett Frei Luís de Sousa, que dantes se estudava no liceu, o primeiro marido afinal ainda estava vivo. “Perdida, desonrada, infame” grita da filha inocente a bígama involuntária quando tal descobre, antes de se fechar num convento a expiar a culpa até ao fim da vida. Para a Alemanha Reunida, o centro da Europa passou a ser a Leste. Tem algum respeito ainda pelo Noroeste protestante, à cabeça os holandeses, heróis de Srebrenica e gente de contas certas; Inglaterra indispensável para equilibrar França que não só descobriu que não manda na Europa (tempo foi em que Kohl dizia que o Chanceler alemão, quando ia ver o Presidente francês, devia começar por fazer três reverências) mas também que nem sequer em si própria manda - com os ingleses a irem-se embora, como é que vai ser? – e os de Sul e Sueste que se arranjem, punidos com cegueira analfabeta, norteada por calendários eleitorais teutónicos. Até à reunificação, a Alemanha Ocidental expiara exemplarmente a sua gigantesca culpa (ajudada por perdão de dívida que afastava fantasias de ir para Leste) mas, depois de reunida, a tentação de ser alemã e não cidadã europeia cruza cada vez mais cabeças, deixando mais nódoas negras nos vizinhos.

 

Enquanto a Europa se afunda. Quando agora o Sultão de Istanbul acusa as potências ocidentais de conspirarem contra ele, as potências em vez de mandarem canhoneiras para o Bósforo desfazem-se em desculpas de mau pagador.

 

 

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30.7.16

 

 

 

B van Bibliotheek den Haag.jpg

 

 

 

 

bambúrrio
bam.búr.ri.o
nome masculino
(possivelmente do baixo latim bamburrus)

 

 

Sorte inesperada; acaso feliz ou maré de acasos felizes – não procurados, nem planeados – que tilintam (de forma real ou simbólica) como o jackpot de uma máquina onde não se tinha introduzido qualquer ficha. Oportunidade caída do céu. Casualidade; ganho inexplicável. Bafejo do destino. Golpe favorável que intimamente se conhece, mas não se reconhece publicamente, pois isso seria admitir a parca, ou nula, contribuição do bafejado no processo que conduz a tão benigno resultado.

 

 

 

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27.7.16

 

 

Marie_Eléonore_Godefroid_-_Portrait_of_Mme_de_Sta

Germaine de Staël

(Marie Eléonore Godefroid segundo François Gérard)

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

 

O passado e o futuro

 

 

 

 

 

Cosimo de Medici, o mais sábio e ponderado de ninhada de irmãos florentinos de que o mais vaidoso era Lourenço, o Magnífico, banqueiro respeitadíssimo e homem de trato exemplar - dava sempre a parede a pessoas mais velhas (no seu tempo as ruas de Florença não tinham passeios e quando nelas se andasse “dar a parede” , fosse à direita ou à esquerda, era sinal de deferência) – dominava práticas financeiras novas que no seu tempo animavam o comércio internacional europeu e era, nesse sentido, um homem virado para o futuro. Mas, por outro lado, detestava a invenção da imprensa por Gutenberg, não porque esta tivesse tirado valor à sua biblioteca de incunábulos mas porque leitura era exercício requintado que não se compadecia com a vulgaridade dos paralelepípedos de papel a que chamamos livros, saídos em quantidades industriais das prensas tipográficas. Para Cosimo, a Renascença fora manchada pelo aviltamento de uma das mais refinadas experiências humanas e, nesse sentido, era um homem do passado. Lembro-me dele às vezes, escrevendo onde escrevo agora: penas (plumas) propriamente ditas já tinham desaparecido quando aprendi a redigir mas canetas de molhar o aparo na tinta, canetas de tinta permanente, máquinas de escrever – comecei por uma Olivetti lettera 22 – que passaram a eléctricas, vi um dia no Diário de Notícias que Jimmy Carter estava a escrever as memórias dele num “word-processor”, até ao computador que uso agora e me obriga de vez em quando a pedir ajuda ao Cipriano que, sem sair do escritório dele, entra no meu écran e, enquanto o diabo esfrega um olho, em série de cliques que obedecem a gramática que não conheço, acaba com o impedimento ou corrige o desvio que me levara a telefonar-lhe. (Isto, na escrita. Quanto à leitura, enquerenço como Cosimo embora não em incunábulos mas sim em livros impressos em papel - assim fazem touros em Praças que não saem de um lugar por muitas capas que lhes metam pela frente. Não julgo que alguma vez me meta a ler um livro electrónico – é assim que se diz? – nem mesmo em leituras de verão, onde a modernice poupa imenso espaço dentro das malas de bagagem que se levem para férias.

 

A propósito, não só nisso os antigos eram diferentes dos modernos. Hoje, chegado o Verão, os europeus vão para férias. Antigamente iam para a guerra. Deixando memórias vivas, mesmo em país neutro aonde havia férias (agradeciam as mães portuguesas ao Dr. Salazar, a despropósito, pois fora Franco que travara qualquer apetite de Hitler para invasão da Península Ibérica). Lembro-me como se fosse hoje do Pai chegar ao Estoril ao fim da tarde e dizer que a guerra tinha começado.

 

Com a Europa a esfrangalhar-se, Trump na maior, o Czar e o Sultão sem ganharem tino, gente nova cheia de sangue na guelra, correcção política que não deixa pôr nomes aos bois e divórcio entre elites e povos parecido com o que alarmou Madame de Staël durante a Revolução Francesa, talvez os nossos verões tornem a pegar fogo.

 

 

 

 

 

 

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23.7.16

 

 

C Celtic.jpg

 

 

contubérnio
con.tu.bér.ni.o
nome masculino
(do latim contubernium, «camaradagem ou comunidade de tenda»)

 

 

Na Roma antiga designava a união conjugal entre escravos ou mesmo entre escravos e pessoas livres. Por extensão passou também a designar o concubinato ou a mancebia em geral, fazendo a ponte com uma certa ideia de vida dissoluta ou espúria (ver espúrio). Restringido à vida boémia, o contubérnio refere-se sobretudo à camaradagem, não implicando a vida em comum. Porém, na realidade, o tipo de convivência implícita no contubérnio é uma ideia de comunidade familiar. O termo, hoje geralmente caído em desuso, poderia designar, com vantagem, certos casos espúrios de aliança política ou certos alinhamentos do que habitualmente se chama coabitação.

 

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20.7.16

 

 

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 Donald Trump e Nigel Farage

 

 

 

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Mundo novo

 

 

 


Pedro Pires de Miranda, com quem tive a honra de trabalhar quando ele era ministro dos negócios estrangeiros (“A política externa é óptima: só se tem inimigos!” disse-me uma vez - e outra vez, quando eu o informava que com três pessoas não conseguiria levar a cabo tarefa de que me encarregara, perguntou-me “Já experimentou com duas?”) pediu-me ao jantar em que o conheci que eu lhe pusesse, para o dia seguinte, em meia página, as diferenças entre as posições da OTAN e do Pacto de Varsóvia na Conferência Europeia de Segurança, em Estocolmo, onde ele viera acompanhar Mário Soares, Presidente da República, ao funeral de Olaf Palme (primeiro ministro sueco assassinado) e onde eu vivia, chefiando a delegação portuguesa à Conferência. No papel que lhe entreguei quando ele ia apanhar o avião escrevera meia dúzia de frases. A primeira, em inglês (língua franca da diplomacia, onde eu estava, e dos negócios, donde ele vinha), tocava no nó do problema: “We are right and they are wrong” (Nós temos razão e eles não). O mundo era menos complicado do que é agora.


Pedro foi-se embora há pouco tempo, eu ainda por cá ando mas nos trinta anos desde esse enterro nórdico especial (o assassino de Palme andava a monte, não se sabia quem era nem se havia cúmplices, desabaram sobre a cidade num fim de semana chefes políticos do mundo inteiro e, para preocupação suplementar dos serviços de segurança suecos, Shimon Peres, PM de Israel, no sábado, em vez de ir como os outros em carros mais ou menos blindados, foi a pé aos lugares onde tinha de se ir) desde esse enterro, dizia, os que tínhamos razão, ganhámos a guerra fria – e a Rússia perdeu-a - sem termos de dar um tiro. Éramos os melhores, os mais fortes, os mais ricos e ainda por cima, para algumas almas optimistas a História tinha acabado. Só que, como escreveu Nelson Mandela, quando se chega ao cimo da montanha que se está a subir descobre-se que há outra montanha que tem de se subir também, depois dessa mais outra ainda e por aí fora.


Ora para as montanhas que se seguiram e para a cordilheira que se vislumbra até onde a vista alcança nem nós nem os americanos - Atenas e Roma do mundo de hoje, houve quem gostasse de pensar - temos mostrado grande jeito. Perante a decadência do Ocidente (será finalmente desta?) avultam novos poderes – China, Índia; menos grandes mas incomodamente perto, a Rússia de Putin, segunda potência nuclear do mundo, batoteira das Olímpiadas, invasora de vizinhos e a Turquia, onde o islamista Erdogan venceu golpe militar pondo o povo na rua pelo FaceTime do seu iPhone – mas o podre vem de dentro.


Na pátria da Magna Carta, políticos encartados mentiram escandalosamente a eleitores que mostraram ignorância abissal e fartura sem remédio das “elites” - como se chama agora a quem saiba ler e escrever e tenha onde cair morto. Do outro lado do Atlântico, “Nós, o povo” reduziu a duas as pessoas entre quem escolher para suceder a Barack Obama e uma delas é Donald Trump. 

 

 

 

   

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16.7.16

 

 

 

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eclectismo
e.clec.tis.mo
nome masculino
(do francês éclectisme)


Na história das ideias corresponde à formação de um corpo doutrinário composto por elementos colhidos em, ou aproveitados de, diversos, e por vezes contraditórios, sistemas de pensamento. Equivalente a manta de retalhos. Modernamente é muitas vezes assimilado ao sincretismo, de que é uma forma. Nos tempos que passam, é, geralmente, reflexo da atitude relativista reinante, da construção de um sistema em que todas as coisas se equivalem (há quem diga que tudo é bom — sobretudo nas artes, mas não só — desde que — cláusula misteriosa — seja «de qualidade»). Aplicado mais habitualmente ao pensamento e ao gosto, em política pode assumir facetas particularmente sinistras. Com a decadência das verdades únicas e absolutas, e apresentado como virtude, o eclectismo confunde-se, na maior parte dos casos, erradamente, com heterodoxia, de que não é sinónimo, pois esta configura um entendimento do mundo não conforme a uma visão ou regra dominantes, claramente assente na liberdade de espírito (sendo que a liberdade é a mais severa disciplina do espírito).

 

 

 

 

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13.7.16

 

 

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Barroso, Goldman Sachs e bom senso

 

 

 

De há uma dúzia de anos para cá, no calendário cinegético deste maravilhoso país que tão generosamente nos acolhe no seu seio – assim chamava a Portugal amigo inglês que cá vivia e já esticou o pernil – abre de vez em quando a caça ao Barroso. (Os nossos compatriotas atiradores à espécie folgam quando franceses rompem também o defeso. Franceses a cuja visão marxista primária do mundo se junta nessas alturas indignação escandalizada pelo triunfo do filho da concierge. Michel Rocard disse uma vez a Barroso que mesmo que ele cantasse a Marselhesa e erguesse ao alto o estandarte tricolor a esquerda francesa nunca o toleraria).

 

A pulsão condenatória nacional tem raízes mais variadas do que a estrangeira, nutrida por todos os horrores da alma humana. Inveja, empertigamento moral e ignorância fazem má mistura, da qual saem comentários nos jornais, nas telefonias, nas televisões, nas “redes sociais” e nas conversas. Num caldo de cultura de má-fé e má-vontade.

 

No cargo que Barroso vai agora ocupar em Londres – Presidente não executivo de Goldman Sachs International – esteve durante uma década, até ao ano passado, o irlandês Peter Sutherland  (o melhor Presidente que a Comissão Europeia não teve: política interna irlandesa impediu o que haveria sido escolha unânime) que foi Comissário Europeu e criou o programa Erasmus, Representante do Secretário-Geral da ONU para Migração, pilotou a transição de GATT para OMC, presidiu à BP, preside à Comissão Católica Internacional sobre Migração, tem vários outros encargos e a mais alta das reputações no mundo em que política e economia internacionais se entrecruzam. Encontrar sucessor à altura não terá sido fácil até Goldman Sachs decidir convidar Durão Barroso.

 

Ouviu-se e leu-se logo um coro de protestos, de entrada esperançados numa ilegalidade. Como esta não existe procuraram, também em vão, conflito de interesses. Por fim trataram Barroso como se fosse um traidor que se tivesse posto ao serviço do inimigo. Tal é, evidentemente, absurdo mas, como essa evidência parece escapar a muitos, vale a pana recordar algumas coisas elementares.

 

Durão Barroso, que foi presidente incansável da Comissão Europeia, vai agora presidir a Goldman Sachs. Mesmo a mais eurocéptica das cidadãs terá de reconhecer que é dever da Comissão - que nos próximos anos não terá mãos a medir na definição das novas relações entre o Reino Unido e a União Europeia - obrar pelo bem dos europeus. Por sua vez Goldman Sachs tem todo o interesse em que essa definição garanta a melhor articulação possível entre a praça financeira de Londres e a Europa Continental, como terá de reconhecer mesmo o mais eurofílico dos cidadãos europeus. A escolha de Durão Barroso faz assim o maior sentido e merece parabéns.

 

Salvo, claro, para quem ache que banqueiros – homens de negócios em geral - são cambada de gatunos apostada em esbulhar o povo e o alto funcionalismo internacional um bando de lacaios do capitalismo.

 

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9.7.16

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contemporizar
con.tem.po.ri.zar
verbo transitivo e intransitivo
(de con + temporizar)

 

Ceder aos tempos e às circunstâncias. Deixar-se torcer, ou torcer-se, para não quebrar. Acomodar-se. Fingir que se gosta do que na realidade não se gosta. Transigir. Consentir. Resignar-se. Desistir. Confunde-se por vezes, na prática, erradamente, com manifestação de tolerância (ver tolerância). Em certos enunciados poderá aparecer com o sentido de «dar tempo» ou «ganhar tempo», o que pode ter carácter benigno nalguns casos e ser fatal em muitos mais. Raras vezes significa estar à altura das circunstâncias; na maior parte dos casos adquire mesmo um sentido oposto.

 

 

 

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6.7.16

Xarope_de_Capile.jpg

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Errata

 

 

 

Sempre tive dificuldades com a ortografia de nomes. De gentes e de sítios. Escrevi uma vez Camões com z no fim, abaixo de O homem que for sisudo/Numa tão grande questão/Terá de tomar por escudo/A justiça e a razão/Que estas armas vencem tudo, versos que escolhera para citação de abertura em apontamento douto e terso sobre política europeia  -  mas dei por isso e emendei antes de o mandar por e-mail ao seu ilustre destinatário. Outra vez, há muito mais tempo, numa série de textos publicitários curtos, encomendados por Eduardo Calvet de Magalhães, escrevi várias vezes Carcave-los, como se carcaver fosse um verbo, mas também dei por isso antes de os entregar, comentando o percalço com Calvet. (Lembrando-me dele agora, ressinto a injustiça do seu esquecimento. O mano Manuel, pedagogo, tal renome teve que lhe deram nome de rua e tudo. O nome do mano José, embaixador, é venerado no Palácio das Necessidades como uma das sumidades diplomáticas da segunda metade do nosso século XX. Do Eduardo ninguém fala, embora tenha introduzido a publicidade moderna em Lisboa e no Porto e, entre a chegada da Canada Dry e a chegada da Coca Cola, ter imaginado o refrigerante que mais conviria a Portugal - capilé gaseificado - para publicidade do qual até inventara slogan: “A bebida que lhe corre nas veias”).

 

Na semana passada tornei a disparatar: chamei a Louise de Vilmorin, Louise de Villemorin. Quando dei por isso, avisei a Vera que corrigiu logo no blog e, por conseguinte, o bloco que anda no éter (é assim que se deve dizer?) está como deveria estar mas as poucas amigas e amigos a quem todas as semanas mando directamente o pdf  – ces êtres malhereux, aimables, charmants, point hypocrites, point “moraux”, assim lhes poderia haver chamado Stendhal, ou We few, we happy few, we band of brothers proclamaria talvez, imune a correcção política, Shakespeare quando estava em ‘mode’ heroico  ficaram com o erro por corrigir. A todas e a todos, quer tenham lido esse Bloco-Notas quer não e, se o leram, quer tenham dado pelo disparate quer lhes tenha escapado, aqui e agora deixo o nome bem soletrado da amante principal de Duff Cooper em Paris (mais tarde amante de André Malraux que depois da morte dela herdou no leito sua sobrinha Sophie, também de Vilmorin, conta esta num livro).

 

Assobios para o lado, tudo quanto escrevi acima. André Gide dizia, no Paris dos anos 20 do século passado –“ les années folles” – que às vezes lhe parecia haver mais artistas do que obras de arte. Em Portugal - na Europa - de 2016, às vezes parece haver mais comentadores do que factos a comentar. Sou suspeito por ser eu próprio comentador mas ao acordar de manhã já o mundo está a ser batido em gigantesca montanha de claras em castelo, perfumadas com o aroma do dia. Omnipresente mas efémera conversa de treinadores de bancada, lembra o mano João, com Schadenfreude de quem arranca ternas figuras à brutidão dos calcários e nelas deixa os seus estados de alma per omnia secula seculoram. Amen.

 

 

 

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2.7.16

 

 

G red.jpg

 

 

 

galhardia
ga.lhar.di.a
nome feminino
[de galhardo (do provençal antigo galhart, francês gaillard) + ia]

 

A galhardia pode referir-se à beleza ou à distinção, à generosidade, à vivacidade, à robustez ou à bravura. O coloquialismo espanhol trapío (de etimologia incerta; segundo José María de Cossío a palavra terá origem no jargão náutico, no qual designaria o velame), ausente dos dicionários portugueses, embora usado na língua com frequência, sobretudo em contexto tauromáquico, aglutina algumas destas acepções. O Dicionário da Real Academia Espanhola oferece como segunda acepção de trapío a «boa presença e galhardia de um touro de lide». Mas não é esse o primeiro significado listado; nesse primeiro lugar aparece o «ar garboso que costumam ter algumas mulheres».
Não é necessária uma grande investigação para concluir que, relativamente ao touro, na sua «presença e galhardia» se articulam envergadura, beleza, brio e bravura. Relativamente à mulher, a ideia é sobretudo designar a elegância e o porte. A vivacidade e aprumo inerentes à prática de dançar galhardas, popularizadas em Portugal nos salões dos séculos XVI e XVII, deixou algum vestígio no significado de galhardia que toca também o significado de garbo (palavra de origem italiana). A elegância grácil do garbo é, no entanto, designada com acerto por uma outra palavra fora de moda, belíssima por sinal, que aliás nos chegou por via castelhana: donaire.
Seja como for, em Portugal, o termo trapío, usado — sem dúvida por gente com uma organização mental especiosa — para designar o porte garboso da mulher desliza facilmente para a outra acepção: uma mulher com trapío é uma mulher com a envergadura necessária. Que por certo se desenvencilhará com galhardia, seja o que for que isso, no momento, queira dizer.

 

 

 

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29.6.16

 

 

 

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A Nave dos Loucos - Pieter van der Heyden (1562)

 

 

 

 

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“E agora José?”

 

 

 

perguntou Yvonne por SMS (haver quem se lembre de Carlos Drummond a propósito da maioria dos britânicos decidirem de um dia para o outro sair da União Europeia dá logo algum conforto). É pergunta retórica mas eu respondo. Agora, Yvonne, das duas uma: se, dos outros europeus, aqueles a quem a Inglaterra faz falta dentro da União tiverem mais poder do que aqueles que suspiram de alívio por a verem sair dela, tudo irá menos mal no menos mau dos mundos possíveis. Se for ao contrário vamos ter, Você e eu, fim de vida muito mais incómodo do que aquele que havíamos antecipado.

 

Vai ouvir e ler agora toda a espécie de argumentos, vindos de um lado e do outro, mas não será o valor intrínseco de qualquer deles que ditará o futuro mas sim o resultado do confronto de forças indicado acima. É sempre assim. Por exemplo, durante a Guerra (como nós dizemos; para leitoras mais novas, a Segunda Guerra Mundial) uma tarde, no Norte de África, Duff Cooper tentava persuadir Churchill dos grandes méritos de De Gaulle (Churchill, primeiro-ministro britânico e De Gaulle, chefe exilado em Londres das forças francesas livres, não precisarão de apresentação; Duff Cooper foi ministro inglês próximo de Churchill, embaixador em Paris logo a seguir à guerra, biógrafo exímio de Talleyrand e polígamo natural: a mulher, Lady Diana Cooper tinha às vezes de consolar a sua principal amante francesa, Louise de Vilmorin, dos devaneios do marido). A certa altura Winston interrompeu Duff: “Não vale a pena insistires. Tu gostas dele e eu não (You like the man and I don’t)”.

 

É o que se está a passar. Felizmente para quem pense, como eu, que União Europeia, privada de Reino Unido, seria objecto político teratológico, girafa sem pescoço ou touro sem cornos, o chefe de fila dos que lamentam a saída e não a querem apressar é Angela Merkel, ao pé da qual resmungões anti-ingleses de vários partidos e pátrias, sedentos de divórcio litigioso, são pigmeus. Vale a pena ir demorando porque os jogos não estão feitos. O referendo não era vinculativo. Referendos europeus foram repetidos. Danos nos interesses de todos causados por tão egrégia insensatez cega os olhos. Brutidão xenófoba – a começar pelos ingleses – precisa de correcção exemplar. Talvez se possa ainda virar o bico ao prego.

 

Moralistas evocarão Bertolt Brecht: “É preciso dissolver o povo e eleger outro!”. Haverá lembranças diferentes. Em 1999, quando a OTAN ia bombardear a Sérvia, Robin Cook, MNE inglês, disse a Madeleine Albright, MNE americana, que os seus juristas (lawyers) achavam que tal era ilegal. “Get other lawyers” respondeu ela. E na Cidade e as Serras quando os dois homens de Madame de Trèves, o marido, o Conde de Trèves e o amante, o banqueiro judeu David Ephraim, querem convencer Jacinto a investir numa mina de esmeraldas no Ceilão e Jacinto pergunta enfadado Ele há esmeraldas no Ceilão? o banqueiro indigna-se: “Homem, há sempre esmeraldas desde que haja accionistas!

 

Brexit? Ou talvez não?

 

 

 

 

 

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25.6.16

 

 

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melindre
me.lin.dre
nome masculino
(etimologia incerta)

 

 

Termo com duas acepções que são como as duas faces de uma moeda: tanto pode designar o especial cuidado para não ferir, magoar ou ofender, como a extrema facilidade de ficar ferido, magoado ou ofendido. Ambos os sentidos são centrais na relação social. A sua manifestação por defeito é bruteza; por excesso, é moléstia. Ambos se aplicam a pessoas, situações e coisas. O conhecimento dos aspectos comuns do melindre é uma disciplina central da Diplomacia, que se ocupa da susceptibilidade, nas suas diversas modalidades e graus. Nela confluem as cautelas e os caldos de galinha, insuficientes por si só, mas também o estudo da sensibilidade, da mais epidérmica à mais profunda, e do macramé, que é arte de fazer e desfazer nós. A consciência do melindre obriga, frequentemente, ao uso de vestuário adequado, luvas esterilizadas e outros acessórios, como pinças cautelares e calçado apropriado a andar de mansinho. Não raro envolve um sentido estratégico do risco, que ora exige recato, ora temeridade. Perigo fatal é o melindre do melindre: a hesitação por receio de errar o dito e o feito.

 

 

 

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22.6.16

 

 

 

Philippe Wojazer Reuters.jpg© Philippe Wojazer/Reuters

 

 

 

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Europa sem ingleses ? Não, obrigado

 

 

 

Desde o Tratado de Windsor - e da batalha de Aljubarrota – Portugal e a Inglaterra têm tido relações privilegiadas que resistiram ao ultimato inglês de 1890 e a pressão alemã durante a II Guerra Mundial para que a nossa neutralidade nos impedisse de aceitar a instalação de base militar inglesa (e, depois, americana) na Ilha Terceira dos Açores.

 

Potências marítimas, confrontadas por poderes continentais, demo-nos bem assim quando a Europa passou a ser o centro do mundo e também agora, que a União Europeia já não o é. Na quinta-feira (eleições e referendos são às quintas-feiras no Reino Unido), os ingleses - a escoceses e irlandeses do Norte o problema não se põe -, em inusitada manifestação colectiva de falta de bom senso, poderão optar por sair da União. Não acredito que o façam mas, se o fizerem, Portugal deveria começar a pensar em sair também.

 

Temos recebido muito da União, como tínhamos recebido muito das Comunidades Europeias que a precederam. Sem a Inglaterra, porém, a União será um animal político muito diferente do que é agora, contrário ao nosso interesse.

 

Com o Tratado de Roma de 1957, França, Alemanha, Itália e Benelux criaram a Comunidade Económica Europeia. O Reino Unido - isto é, a Inglaterra - não se quis então juntar aos seis fundadores. Poucos anos depois passou a querê-lo mas De Gaulle opôs-se. O alargamento a Reino Unido, Irlanda e Dinamarca fez-se em 1973; quando Portugal aderiu em 1986, já a Inglaterra era um dos ‘Quatro Grandes’. A chamada Construção Europeia fora possível porque, a seguir a seis anos de guerra, os europeus, sobretudo a Alemanha, estavam de rastos e URSS (potência atómica desde 1949) e EUA partilhavam o domínio do mundo em Guerra Fria. Os EUA protegiam a Europa Ocidental: defendiam-nos da Rússia - e defendiam-nos também uns dos outros. Sem uma Rússia que nos aterrorizava e uma Alemanha de rastos não se teria chegado à União Europeia.

 

A URSS colapsou e a Rússia revanchista de Putin não mete medo que se lhe compare. O terror soviético animava forças centrípetas vitais para a Europa; sem ele medram forças centrífugas de nacionalismo (patriotismo é amor aos nossos; nacionalismo é ódio aos outros, Romain Gary). Entretanto, a Alemanha levantou-se do chão, reunificou-se, fez do Eixo Franco-Alemão a trela com que Berlim puxa Paris, ajeitou os Tratados e, sem Inglaterra a bater-se por liberdade económica, defesa forte a Leste e Sul e bom senso em geral, acabaria obtendo em paz – mais por erros dos outros do que por desígnio próprio – o que lhe escapara nas guerras lançadas em 1914 e 1939: domínio incontestado da Europa.

 

Não há país mais longe do fascismo do que a Alemanha de hoje mas há vigências antigas. A saga da austeridade atasca a economia do Continente, afunda o Sul, divide Norte e Sul, com os alemães convencidos de estarem a fazer bem, por bem. Querem livrar-nos dos nossos Demónios e não entendem que a gente queira livrá-los dos Demónios deles. Assim não.

 

 

 

 

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18.6.16

 

 

 

A - Ann Solberg.jpg

 

 

 

 

 

ademane
a.de.ma.ne
nome masculino
(do latim ou do árabe, através do castelhano ademán)

 

 

Gesto ou encadeamento de gestos afectados ou amaneirados; sintaxe gesticular e posicional, mais ou menos personalizada, caracteristicamente expressiva, com maior ou menor espalhafato, associada a uma determinada forma de estar, ou de falar, particularmente quando se trata de um processo discursivo marcado pela presunção ou a artificialidade. Movimento das mãos ou de outras partes do corpo postas em destaque: meneio, atitude, tique, trejeito. Entre uma gama vasta e variada de ademanes, salientam-se os chamados «trejeitos de mulher mundana», universal e facilmente observáveis em indivíduos de todos os sexos oriundos da fauna da pequena fama.

 

 

 

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15.6.16

 

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 Mário Soares e Aníbal Cavaco Silva

 

 

 

 

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Da cepa torta

 

 

 

A nossa sabedoria popular não fica atrás da do relógio humano de Koenisberg, na Prússia (hoje Kaliningrado, na Rússia) – os vizinhos sabiam que era meio-dia quando o viam entrar em casa para almoçar – conhecido por Emmanuel Kant, considerado por uns o maior filósofo moderno e por outros não, quando escreveu que da madeira torcida da humanidade nada de direito poderia alguma vez ser feito. Em alturas de entusiasmo – pessoal, religioso, corporativo, partidário, patriótico – a gente às vezes julga que vai cortar a direito e quando depois cai em si, descobre que afinal a tábua não destorceu. Aconteceu com o 5 de Outubro de 1910, com o 28 de Maio de 1926 e está agora a acontecer com o 25 de Abril de 1974. É grande pena que seja assim mas é assim mesmo.

 

Ou pelo menos tal me parece, embora me sinta obrigado a lembrar à leitora anedota desenhada na revista humorística madrilena antifranquista La Codorniz – “La revista más audaz para el lector más inteligente”, rezava tarja de um lado ao outro da capa – de uma série delas dedicadas ao pessimismo, em que sujeito lúgubre dizia a compincha mais lúgubre ainda: “Lo único bueno del pesimismo es que a veces uno no tiene razón”. Pode ser que eu não tenha razão agora e que tudo vá pelo melhor no melhor dos mundos possíveis – mas não me palpita nada que tal seja o caso.

 

Do grande sobressalto de há pouco mais de 40 anos, que começou com a Grândola, vila morena, do Zeca Afonso, a sair das telefonias, viemos numa montanha russa, divertida para uns, arrepiante para outros - em giga joga alternando quem se divertia e quem se arrepiava - até que o paralelo divisório da Europa ocidental que passa no coração de Bruxelas - com flamengos na mó de cima e valões na mó de baixo - linha a Norte da qual toda a autoridade é, até prova em contrário, legítima e acreditamos no que um estranho nos diga a menos que tenhamos razões para desconfiar dele e a Sul da qual toda a autoridade é, até prova em contrário, ilegítima e desconfiamos, por princípio, de qualquer estranho que nos fale, nos desabou em cima. Implicações desta configuração vieram dar-nos mau viver quando a crise financeira levou os alemães, com acordo quase geral das gentes do Norte, a nos imporem austeridade cega e irracional, em parte para salvar bancos seus que haviam animado despesas a Sul e em parte para nos fazerem pagar o que acham ser os nossos pecados. (Os franceses não foram capazes de lhes lembrar que, sem a mão que a França lhe estendera, a Alemanha talvez andasse ainda a espiar os seus pecados).

 

Entretanto, por cá, a coragem e visão do Dr. Mário Soares, sobretudo em 1975 e 1985, salvaram a Democracia; Deus o abençoe apesar de ateu. E, entre 1985 e o começo dos anos 90, o Dr. Cavaco Silva, talvez por não pertencer à burguesia urbana, salvou o Estado. Valha-nos isso, mas não é preciso ser pessimista para perceber que as aldrabices risonhas e inconsequentes com que se trata agora dos destinos da Pátria são de muito mau agoiro.

 

 

 

 

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13.6.16

 

 

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 7 postais ilustrados por André Carrilho

 

 

 

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Poètes de Lisbonne - Camões, Cesário Verde, Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Pessoa | Traduction Élodie Dupau.

 

 

Lisbon Poets - Camões, Cesário Verde, Sá-Carneiro, Florbela Espanca, Pessoa | Portuguese originals and English translations, by Austen Hyde and Martin D'Evelin | Illustrations by André Carrilho | Foreword by Leonor Simas-Almeida | 1st edition: June 2015  Publisher: lisbon poets & co.

 

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11.6.16

 

 

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frioleira
fri.o.lei.ra
nome feminino
(do latim frivolus «sem importância» + eira)

 

 

Faixa estreita de renda ou galão ornamental geralmente recortado (em bicos) de um dos lados, como a espiguilha, para guarnição de peças diversas de vestuário e roupa de casa. Talvez por extensão passou a designar a frivolidade, a coisa desprovida de importância, a insignificância, a ninharia, a bagatela, isto é, a coisa sem valor, mas também a sensaboria. Talvez por contiguidade, e com valor eufemístico, passou a equivaler também a tolice, patetice, parvoíce, inépcia ou despropósito. Termo firme do léxico queirosiano, foi entrando em desuso, sendo hoje pouco ou nada utilizado, acompanhando a progressiva decadência da própria guarnição de renda e tudo o que noutro tempo, mal ou bem, se chamavam lavores femininos, mas seguramente não por declínio da frivolidade ou da tolice. O comentário político e desportivo oferece um vastíssimo leque de frioleiras.

 

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10.6.16

 

Arigato, eu.jpg

 aqui

 

 

 

O Japão é daqueles sítios que transformam as pessoas. Posso atestá-lo pela minha experiência pessoal, cumpridos três meses por lá e quase meio milénio após os meus compatriotas ali entra­rem, eles que também terão mudado após o acidente de Tanegashima (que adiante conheceremos) e dito «obrigado» por este não os ter matado. Também poderei confirmar que a experiência do Extremo Oriente é marcante quando, nos próximos capítu­los, escrever sobre os sete portugueses que aí conheci, abertos e aventureiros como lusos, mornos e simpáticos mas cada vez mais formais, trabalhadores e concentrados como os nipónicos.

 

Em 1512, durante o reinado de D. Manuel I, chegaram notí­cias de que existiria um arquipélago ao largo da China. Fora o mercador italiano Marco Polo quem o dissera, acrescentando que esse conjunto de terras rodeadas por mar era chamado «Cipanto» ou «Ji-pangu», em chinês «o local onde o sol nasce».

 

Na época os japoneses viviam isolados, pois o seu território não tem ligação por terra com nenhum outro e eles só mantinham contacto com a China e com a Coreia, de onde vieram fortes influências culturais, como a escrita, o cultivo do arroz e o budismo. «Uma ilha grande, de gente branca, de boas maneiras, formosa e de uma riqueza incalculável», escreveu Marco Polo. A descrição deixava o novo local envolto numa névoa de fabu­losas riquezas, o mistério que ainda hoje se lhe associa e que atrai portugueses, emigrantes, viajantes e exploradores de todo o mundo.

 

Já em 1540 as informações sobre o Japão eram mais claras, pois barcos japoneses ancoravam nas pequenas ilhas de Liampo, na costa chinesa, e por aí tinham contacto com mercadores lusi­tanos. Segundo uma das versões da história, um dos barcos mercadores dirigia-se para lá levando três portugueses quando foi apanhado numa violenta tempestade, indo parar à ilha de Tane­gashima, ao sul do Japão, no tal acidente pelo qual podemos dizer muito obrigado ou arigato gosaimasu.

 

 

Luís Brito

in  Arigato, eu. Os portugueses no Japão

© Fundação Francisco Manuel dos Santos e Luís Brito. Abril de 2016

 

 

 

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8.6.16

 

 

 

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Buraco negro, Via Láctea 

 

 

 

 

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E a brancura duns ossos a apontar…

 

 

 

…o caminho que já não passa ali. Cito Miguel Torga de memória, não me lembrando do título do poema, do nome do livro em que o poema foi publicado nem do que os seus versos dizem para lá deste fragmento (e mesmo quanto ao fragmento: escreveu o autor duns ou de uns?). A idade não perdoa: a memória vai passando cada vez mais de esquecimento descriminado a esquecimento a granel. Que a leitora me perdoe e pense que, quando chegar à minha idade, também será apoquentada por vezes assim e esperará que, ao contrário da idade, os mais novos lhe perdoem.

 

Lembro-me, sim, que Torga antecipava o desaparecimento do Homo Sapiens – julgo que não lhe chamasse assim mas vernaculamente homem no sentido de homem ou mulher – causado por desmando grosso feito pelo próprio homem, talvez a bomba atómica, porque na altura da publicação daqueles versos a ciência, todas as ciências estavam muito mais atrasadas do que estão agora, não havia tampouco ecologistas alarmados, do género de pessoas que se consideram permanentemente à beira do abismo, independentemente dos valores que apregoem e da moda que lhes vista as mentes: é pulsão que se acomoda a todas a ideologias (alentejana que conheci menina e moça militante da JIC - Juventude Independente Católica, para quem não o saiba –, na força da vida militante do PC com entusiasmo igual e, um pouco mais madura, agitadora ecologista de ânimo indómito, foi sempre a mesma debaixo destas máscaras: quem se recusasse a aceitar a evidência do que pregava na altura era por ela considerado ou débil mental, ou monstro imoral ou ambos). Fim da espécie próximo era imaginado como resultando de guerra nuclear impiedosa e expedita ao virar da esquina. Estar a brancura dos ossos à vista indicava tempo histórico ou quando muito pré-histórico, maneirinho, à nossa escala - e não à escala de dimensão no tempo e no espaço, medida em biliões de anos-luz, de buracos negros e ondas gravitacionais e isto para ficarmos só por um universo, o nosso, pois ele haverá outros.

 

Contei as batidas – incluindo pois intervalos entre palavras – e, no fim do parágrafo acima, ia em 2.047. Acrescentando “da era de Cristo” pergunto-me como será o mundo nessa altura? 31 anos passam num instante, por isso palpita-me que o Deus de Abraão, Isaac e Jacob existirá ainda e o Profeta Maomé também bem como divindades orientais mais longínquas. Religiões não reveladas continuarão a vingar, erva miúda, um pouco por toda a parte. Protectores dos animais insistirão terem alguns deles direito a direitos humanos. Por sua vez, génios da informática ter-nos-ão dado máquinas conscientes de que existem, capazes de inventar outras máquinas mais conscientes ainda, assim se reproduzindo. Como há 500 anos teólogos espanhóis fizeram quanto aos índios da América, teólogos de Silicon Valley debaterão se tais engenhos têm alma quer se julgue, quer não, que nós a temos também. Barrigas de aluguer? Onde isso já irá, perdido no tempo antigo.

 

 

 

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4.6.16

 

 

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incontornável
in.con.tor.ná.vel
adjectivo (2 géneros)
(de in­- + contornável)


Termo com que se designa uma pessoa ou coisa que não conseguimos evitar. Figura publicamente omnipresente: muito mais notória do que notável. Modismo, de uso insistente e detestável, cujo significado se confunde, muitas vezes erradamente, com o de indispensável. O que não conseguimos evitar, por força de circunstâncias que não determinamos, nem sempre é indispensável. Quando aplicado a pessoas pode ser, por vezes, um enorme aborrecimento ou uma clara injustiça. Aplicado a coisas e a situações, os poderes — central e local — têm-se encarregado de demonstrar a vacuidade da sua utilização e o esvaziamento do seu significado: não há incontornáveis.

 

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1.6.16

 

 

 

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Cem anos depois

 

 

 

Ernst Jünger, autor de diários de guerra célebres na Alemanha e também em França – traduzidos na Bibliothèque de La Pléiade (Tomo I: 1914-1918; Tomo II: 1939-1945), sendo o primeiro considerado por muitos o mais belo livro de guerra e o segundo, onde o autor, já homem feito, hostil aos nazis, deixou para trás a excitação do combate e o horror das trincheiras para ser oficial durante a ocupação alemã de Paris, relata com a mesma franqueza a extrema dificuldade de conservar “a sua integridade num mundo onde verdade e moralidade já não têm qualquer expressão visível” – quando lhe haviam perguntado, nos anos de l’entre deux guerres, qual a impressão mais forte que lhe ficara da Grande Guerra, respondera “A pena de a termos perdido”.

 

Lembrei-me dessa resposta com as comemorações do centenário da batalha de Verdun que durou onze meses, matou oitocentos mil soldados sob as bandeiras alemã e francesa vindos de muitas pátrias - no caso da França bem para lá da Europa e da cristandade – e foi ganha sob a égide do Marechal Pétain que ficou herói nacional – quase à altura de Joana d’Arc no altar patriótico que cada francesa ou francês traz dentro da cabeça – até a Alemanha atacar de novo, 20 anos depois de humilhada pela paz de Versailles, tendo Pétain, guindado a Presidente da República, negociado rendição que deixou a Alemanha a ocupar o país e o governo francês, subalterno, sediado em Vichy. De Gaulle, de cujo filho mais velho Pétain fora padrinho, fugiu para Londres, de lá exortou à rebelião pela BBC, organizou a Resistência e foi condenado à morte à revelia. (Os comunistas só passaram a resistir aos nazis depois de Hitler invadir a Rússia em 1941). Com a vitória Aliada em 1945, De Gaulle, entretanto Presidente, amnistiou Pétain que de Leão de Verdun passara a traidor condenado à morte e acabou a vida preso da Ilha de Yeu. François Mitterand, Presidente socialista eleito em 1981, mandava pôr-lhe flores na campa nos aniversários da sua morte.

 

No Domingo, diante do ossuário monumental que guarda milhares de ossadas desconhecidas franco-alemãs, inaugurado em1932 (condenar o horror da Grande Guerra não impediu os chefes de se meterem noutra), François Hollande e Angela Merkel lembraram erros e crimes passados e avisaram de nuvens negras no futuro. De facto, novos fascismos e racismos de sempre atraem muita gente. Na Europa, fronteiras voltam: só a que separa Chéquia e Eslováquia não foi traçada a sangue. A guerra é tao antiga quanto o homem; a paz é uma invenção recente, disse jurista inglês a meio do século XIX.

 

Felizmente há a Bomba (nuclear) para moderar ímpetos mas quanto mais amigos animarem à toa redes sociais e mais jornais com pés e cabeça forem desaparecendo de bancas e écrans, maiores serão as probabilidades de gente que não sabe nada e julga saber tudo ser posta no poder em eleições livres e limpas e o usar muito mal. O puto coreano já é grande susto; meia dúzia de graúdos democráticos serão o fim da picada.

 

 

 

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