4.3.15

 

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Duas citações ao almoço e três ao jantar

 

 

 

O pai tinha ido passar um par de semanas a Madrid, na clínica do Dr. Lopez Ibor, psiquiatra reputado (e membro do Conselho Privado do Conde de Barcelona); a mãe fora com ele não sei se por conveniência clínica se por estratégia matrimonial; não me lembro do que fizeram os meus irmãos nem se a casa de Lisboa foi fechada (a idade não perdoa…); eu fiquei aboletado em casa de amigos.

 

Nesse tempo comia-se em casa. Dois dias depois da minha chegada o tio Clarimundo, pater famílias que presidia a mesa, proibiu-me de fazer mais de duas citações ao almoço e três ao jantar. Nunca mais me esqueci porque, até nesta idade — que dantes se considerava avançada — a tentação de citar continua a ser grande. Não, como às vezes supõem os desmemoriados, por pedantismo de bom aluno a querer fazer boa figura mas para facilitar conversa e discussão. O recurso à memória é muito tentador porque, ao longo dos séculos, houve gente que disse, numa das línguas que eu conheço, muito melhor do que eu alguma vez seria capaz, coisas que me apetece dizer por virem a propósito e acertarem em cheio no alvo visado — e as suas formulações grudaram-se-me à cabeça.

 

Nasci com memória como nasci canhoto e de olhos castanhos: é dom sem mérito moral (se tivesse nascido nas classes menos favorecidas talvez tivesse arranjado trabalho num circo), se não faz de mim um Apolo tampouco de mim faz um Quasimodo, mas reconheço duas razões que recomendam limites ao seu abuso público. Uma é pôr limites a caracter maníaco que às vezes tome. Eça de Queiroz contou de amigo tão escrupuloso na atribuição de fontes que chegava a dizer: “Na frase de Carlos Valbom: Estou triste”. A outra é tentar manter boas maneiras. É mal-educado querer parecer mais culto, mais inteligente, mais lido do que os outros ou as outras com quem se esteja a conversar, quer cara a cara e bafo a bafo, como era a prática, quer ao telefone ou das muitas outras maneiras que a modernidade vem pondo ao nosso alcance (uma das razões que torna às vezes tão difícil convívio com a gente muito competitiva que abunda no nosso mundo pós-moderno).

 

Seja como for, isto da memória tem que se lhe diga. A velho amigo meu, colega perguntara na Faculdade: “Tu estudas Medicina Legal compreendendo ou empinando?” A dicotomia não é tão tonta quanto possa parecer. As pessoas mais inteligentes com quem privo são quase todas, como uma delas gosta de dizer, “Alzeimerizadas de nascença”. Se essa maciça falta de memória lhes trouxe esforços suplementares quando as meteram na linha de montagem da educação – o Sistema Galaico-Duriense, os Reis de Portugal, etc., etc. – trouxe-lhes também enormes benefícios de agilidade mental pois não lhes sendo dado, como diria o colega do meu amigo, “empinar raciocínios”, foi em exercícios permanentes que desenvolveram a gramática intelectual precisa para confrontar o mundo.

 

NB  Chamara-lhe “O Bey de Tunis”, não me lembro porquê. Fui escrevendo, saiu isto e mudei o nome.

 

 

 

 

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25.2.15

 

 

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L'inverno (1569), Giuseppe Arcimboldo

 

 

 

 

 

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O fim da picada?

 

 

Angela Merkel, levando à ilharga François Hollande – o eixo franco-alemão redime Berlim de crimes imperdoáveis – viu as coisas mais de cima do que os seus contabilistas, pôs a mão por baixo de Tsipras, a Grécia não saiu do euro e ainda não foi agora que a construção europeia se desmoronou.

 

Por um triz. Nacionalismos antigos estalaram o verniz fresco da Casa Europeia. Para os alemães, a Grécia reduziu-se a dois séculos de aldrabices (em meados do século XIX desconfiava-se na Europa do teor de moedas de ouro cunhadas por Atenas); para os gregos, a Alemanha reduziu-se ao horror nazi (na Primavera de 1944, escritor berlinense foi denunciado, julgado e decapitado por ‘propósitos derrotistas’ e a viúva recebeu conta de 585 marcos para pagamento das despesas). Agora, inexperiência, má criação e má-fé do novo governo grego, e inabalável curteza de vistas dos burocratas financeiros alemães (recusando-se a perceber que a dívida grega explodiu devido a medidas mal pensadas impostas pela troika; que sem o fim da austeridade não haverá recuperação – para sair de um buraco a primeira coisa a fazer é parar de cavar – e que a dívida grega deverá ipso facto ser revista) animam falso combate entre Norte virtuoso e Sul pecador da Europa. Esperemos que nos próximos meses a obstinação insensata alemã se atenue e os gregos provem que passaram a ser de fiar.

 

Infelizmente esta bulha não é confortada por qualquer visão estratégica da União, porque tal visão não existe. A vontade de defender a Pátria e os orçamentos de defesa mirram de ano para ano. A Sudeste, as barbaridades do Califado – ou estado islâmico do Iraque e da Síria – alarmam os europeus por medo de terrorismo praticado por cá, levam a alguma coordenação policial mas não a medidas de uma Europa que quisesse e soubesse defender os seus interesses e gerir zangas internas sem se enfraquecer.

 

E a Leste é pior ainda. Desde o fim da União Soviética, o Ocidente esqueceu-se da Rússia, esperando que os russos quisessem vir a ser como nós – estado de direito, direitos humanos, respeito pelos vizinhos. Não o quiseram e hoje, sob a égide ávida de grandeza Imperial de Putin (que alguns entre nós admiram) a Rússia ameaça a nossa segurança. A Ucrânia está ser despedaçada: o eixo franco-alemão insiste em Minsk que só pode haver solução política e entretanto a Rússia estabelece militarmente as partes dessa solução que lhe convêm. Em 2008, Geórgia; no ano passado, Crimeia; uma vez o resto da Ucrânia fatiado sem que ninguém lhe trave o passo, talvez a Rússia se vire contra um dos bálticos (a pretexto de proteger minoria russa), apostada em que a OTAN não lhe bata de volta. Os Aliados, com Washington, Londres, Paris, Berlim e Varsóvia à frente, deveriam lembrar ao Kremlin que o artigo 5 do Tratado de Washington (ataque a um é ataque a todos) não foi abrogado.

 

Havia mais sagacidade nos antigos do que na nossa correcção política bem pensante. Se queres paz, prepara guerra, diziam.

 

 

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18.2.15

 

 

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 Foto Sonda Cassini

 

 

 

 

 

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Agora e na hora da nossa morte

 

 

António Alçada Baptista travou-me o braço e disse-me enquanto atravessávamos o foyer do teatro Maria Matos onde nessa tarde havia uma recepção: “Estou a escrever um livro porreirinho sobre Deus”. Eu chegara de Oxford uma hora antes para meia dúzia de dias na Pátria, não nos víamos há meses e assim recebi anúncio da Peregrinação Interior. Da boca do cavalo, dir-se-ia em inglês.

 

Tempo mais simples do que o nosso de hoje. Três séculos intensos de zaragatas europeias tinham acabado em muitos lugares por separar a Igreja do Estado; blasfémia era pecado mas deixara de ser crime. A fé de cada um - como os gostos de cada um - não se discutia. O nazismo fora derrotado e destruído; o comunismo estava cantonado até que o seu próprio peso o fizesse desmoronar. Na Europa Ocidental vingavam decência entre governantes e governados e comedimento na partilha do latifúndio, inéditos na história.

 

O Portugal de O Tempo e o Modo esperava pelo 25 de Abril e o Deus do António era o Deus hebraico de Abraão, Isaac e Jacob, mais tarde também de Jesus Cristo e, mais tarde ainda, de Abu Al Cassem Ben Abdalá Ben Al Mutalibe (Maomé significaria O Glorificado). Os estragos feitos ao longo da história pelo monoteísmo começavam a ser esquecidos em ambiente que André Malraux apreendera bem: “Somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem”.

 

Éramos. Talvez ainda se escrevam livros porreirinhos sobre Deus, nos quais a leitora encontre apreciação da vida, benevolência e tolerância, longe de polémicas teológicas – longe, na aparência, de qualquer teologia. Mas onde hoje mais ouvimos falar de Deus, é nos feitos do Estado Islâmico do Iraque e da Síria ou de Boko Haram na Nigéria, um Deus antropomórfico, primitivo, cruel, sangrento, cujos fiéis oferecem à outra gente conversão ou morte – ou começam matando, se mais jeito der. Nova Iorque, Washington, Londres, Madrid, Paris, Copenhague – a procissão ainda vai no adro. E, em partes da cristandade – por exemplo, na Rússia – igrejas opressivas recuperam poder temporal.

 

Entretanto, a ciência vai mudando o conhecimento do mundo de maneiras tão inesperadas e com tal rapidez que o presente – e não apenas o passado – às vezes é como se fosse país estrangeiro, com língua e hábitos diferentes dos nossos. Mudanças de paradigma sucedem-se em cascata. E a passagem de novas teorias, intuições, palpites, de mentes científicas para entusiasmos leigos faz-se num momento e sem filtro, devido à panóplia de meios de comunicação hoje ao dispor de cada um.

 

Nesta mistura adúltera de tudo, diz-me amigo entendido em coisas americanas, lá quase todos os movimentos feministas debatem o género da divindade, ao ponto de usarem o feminino nas orações. E que Deus seja um robot, nem macho nem fêmea, dados os progressos em inteligência artificial, etc., será decerto sugerido um dia destes. Separando de uma penada o físico do moral; o que é do que deveria ser. Até à guinada seguinte…

 

 

 

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11.2.15

 

baptismo de Kiev 1.jpg S. Vladimiro baptizando os russos em Kiev

 

 

 

 

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Nem paz nem guerra

 

 

Houvesse a União Soviética durado mais dez anos, a viagem da construção europeia teria continuado sem os equívocos do euro (posto em marcha antes de tempo por visionários seguros dos bois alcançarem depois o carro – por não perceberem que, acabado o medo de Moscovo, deixara de haver espora no flanco do esforço comum); sem explosão de nacionalismos centrífugos e sem termos de pagar excesso de bagagem pela reunificação alemã (quando esta por fim chegasse, a Europa seria já tão forte que quase nem daria por isso).

 

Mas a U. R. S. S. não durou. Tornámos a dar connosco confrontados com a questão do lugar da Alemanha na Europa (tão incómoda desde a primeira reunificação alemã que, no século passado, deu duas guerras mundiais; que, no fim da segunda, conselheiro do presidente americano Roosevelt propusera que se transformasse a Alemanha em país apenas agrícola; e que hoje, encaroçada com fé de aiatola em austeridade ruinosa para a economia e a política europeias, Berlim acelera a diminuição do poder europeu no mundo).

 

Sem inimigo exterior forte e decidido (como foi a União Soviética durante a Guerra Fria),os europeus da União — com mais de mil e duzentos anos de guerras e más vontades desde a coroação de Carlos Magno em Aix-La-Chapelle (Aachen em alemão) em 800 A.D. — parecem, muitos deles, mais inclinados a irem cada um para seu lado do que a meterem ombro à roda de todos. Recomeçaram a reparar nas maldades dos parceiros e parecem ter esquecido as dos antigos inimigos. Para vários partidos de extrema-direita na Europa, Putin dá exemplo a seguir e não desmando a evitar: o Front National de Marine Le Pen tem preferido bancos russos a franceses; o húngaro Victor Orban faz a apologia de regimes autoritários como o russo e o turco; na Grécia o partido de extrema-esquerda Siriza foi buscar à direita nacionalista e xenófoba parceiro para governar. Não se trata de quintas colunas; a Guerra Fria não vai voltar porque era uma guerra santa, entre duas crenças, e uma das crenças deixou de ter fiéis. Mas o tripé onde assenta a nossa democracia – separação da igreja do estado, estado de direito, respeito pelos direitos humanos – está a ser atacado de vários lados e, os nossos filhos e netos, habituados, no seu mundo sem fome e sem guerra, a considerarem esse tripé parte da ordem natural das coisas (e não o que ele é: invenção humana recente, constantemente ameaçada) se não dobrarem vigilância, arriscam-se a perder o luxo de civismo e decência ganho na Europa ocidental desde 1945 e em toda a Europa para cá da Rússia desde 1990.

 

Tirando em fundamentos que não são para aqui chamados — Há ou não há Deus? Que fazemos por cá? — sabe-se hoje mais de tudo, na hora e em toda a parte, do que alguma vez se soube. Mas não ajuda. Do Kremlin, Vladimir Vladimirovic vai fazendo Anchlüss, tomando Sudetas, qualquer dia invade um Báltico — e nós continuaremos a dizer que o problema só terá solução política e Deus nos livre de dar armas a Kiev.

 

 

 

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4.2.15

 

 

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Évora-Monte, berço do Portugal moderno

 

 

 

 

 

 

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Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico

 

 

Numa taberna grega, o ambiente é tenso e competitivo, com zaragatas à flor da pele. Numa taberna portuguesa vigora camaradagem: se dois fregueses brigam, os outros, em vez de tomarem partido, metem-se a separá-los.

 

A Grécia moderna começou em 1830, arrancando-se ao Império Otomano com ajuda de brigada romântica internacional (Lord Byron morreu lá); importou para rei um príncipe alemão (cujo descendente foi corrido do trono com a junta dos coronéis em 1974); a seguir à Primeira Guerra Mundial más relações com a Turquia deram limpeza étnica; a seguir à Segunda, guerra civil violenta — ganha à justa e ainda hoje razão de ódios — fê-la entrar para a OTAN e não para o Pacto de Varsóvia.

 

O Portugal moderno começou em 1834, na Convenção de Évora Monte (mas com 7 séculos atrás, lembrados de mãe para filha) que pôs termo a guerra civil, vivida à portuguesa. Em Lamego as forças vivas houveram-se de maneira a que nem liberais nem miguelistas locais fossem mal tratados, estivesse quem estivesse na mó de cima no país. Em Monsaraz, miguelista até ao fim, a seguir à Convenção a Câmara escreveu à Rainha D. Maria II protestando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fieis”. Em 1965, proprietário alentejano a quem perguntei como eram as relações com o governo de Lisboa durante a República respondeu-me: “Isto, senhor doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. Só depois de democrata, em 1976, Portugal foi autorizado a candidatar-se às Comunidades Europeias mas assinámos o Pacto do Atlântico em 1949. Com coisas sérias não se brinca.

 

Ao contrário dos gregos — e talvez dos espanhóis que armaram, entre 1936 e 1939, guerra civil assanhada — não vamos eleger demagogos de extrema-esquerda para governo. Nem de extrema-direita: escapámos-lhes agora apesar de austeridade e muito estrangeiro por cá e, há quarenta anos, apesar de mais de meio milhão de retornados. O acolhimento aos retornados foi momento alto da nossa história; a aceitação da austeridade imposta pela Alemanha, um dos mais baixos. A sua moralidade é um embuste e, se Berlim não der por isso a tempo, a Alemanha conseguirá o que não lograra duas vezes no século XX: destruir a Europa.

 

Com Aliado na OTAN em apuros, Barrack Obama deu aviso à navegação. A Grécia tem de mudar muita coisa mas é difícil quando o nível de vida baixou 25%. A longo prazo sociedade e sistema político não aguentarão. A melhor maneira de reduzir défices é obter crescimento.

 

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro há mais de meio século ajudou-me a perceber o país, bem como Ensaios Etnológicos de Jorge Dias e Structure and Growth of the Portuguese Economy de Xavier Pintado. Muitas coisas mudaram mas muitas mais estão na mesma.

 

A Grécia clássica inventou a filosofia. Certo. E há muitos anos, numa taberna de Campo de Ourique, ouvi um bêbado perguntar a outro: “Eu só quero que você me diga uma coisa: merda é verbo?”

 

 

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28.1.15

 

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Atenas, 2015

 

 

 

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Depois da vitória do Syriza

 

 

 

Das flores postas por Alexis Tsipras diante do muro em Atenas que recorda e condena o fuzilamento de 200 resistentes gregos por soldados alemães do III Reich em 1944, do seu anúncio da intenção de ficar na Europa e no euro, fazendo entretanto coligação de governo com partido de extrema direita, hostil à Europa, depois do anúncio de posições de partida, grega e europeia+FMI, aparentemente irreconciliáveis, seguir-se-ão semanas de regateio digno de bazar turco ou da antiga Praça da Figueira ao fim das quais a Grécia irá ficar no euro (onde nunca deveria ter entrado, mas é assim).

 

Saída seria golpe mortal no projecto europeu. Hoje a alternativa europeia é: ou prosperarmos juntos ou arruinarmo-nos separados. Apesar de haver partidos estridentes contra a União nos quatro grandes países membros (e também nalguns pequenos) o bom senso tem levado a melhor de indignações causadas pela falta de cabeça e de coração dos nossos chefes políticos. Há quem pense que a mediocridade é inevitável depois de tantas décadas sem guerra; eu julgo que ela venha de um encurtar de vistas deliberado para agradar aos eleitores, garantindo paz sem ter de gastar em defesa. Com o fim da Guerra Fria, deixara de haver rapazes maus. Entretanto, essa aldrabice levou um rombo: a Rússia de Putin, na Ucrânia; muçulmanos sunitas salafistas no Estado Islâmico destaparam-na.

 

O projecto europeu fora lançado a seguir a 1945 para acabar com guerras entre a França e a Alemanha e para resistir ao expansionismo da União Soviética. Deu boa conta do recado – tal como a OTAN, a qual se houve tão bem que no conceito estratégico russo congeminado no Kremlin de Vladimir Vladimirovich (“A maior tragédia geopolítica do século XX foi o fim da União Soviética”) ocupa, juntamente com os Estados Unidos, lugar de papão-mor.

 

Tsipras manobra trunfo táctico que o alinha com os bons sonhos inocentes da troika: combater antes de tudo a corrupção - que Pasok e Nova Democracia sempre cultivaram - fazendo cumprir leis, pagar impostos, escolher funcionários por mérito e não por parentesco e compadrio. Em suma: inventando um estado novo. Tentar substituir a Grécia que há, com ascendência fantasiada de zénite intelectual e artístico e misérias e manhas de província otomana, por uma espécie de Holanda de 5ª Divisão.

 

Talvez os europeus, cercados de perigos, decidam que têm de se entender. Fala-se de perdões de dívida: são muitos na história do capitalismo, sobretudo à Alemanha em 1953. Há quem esqueça que então a URSS existia e era vital prevenir tentações neutralistas de Bona. Hoje o quadro é outro mas encontrar-se-á maneira de aliviar o erro da austeridade aplicada como remédio à doença grega (falsa teoria e prática nefasta) sem lesar outros contribuintes europeus.

 

O direito internacional é flexível. Quando, em 1998, Robin Cook disse a Madeleine Albright que, segundo os seus advogados, bombardear a Sérvia seria ilegal, ela respondeu: “Arranje outros advogados”.

 

 

 

 

 


21.1.15

 

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Paris, Place de la République, 11 de Janeiro de 2015 *

 

 

 

 

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Vidas decentes

 

 

“Il faut de tout pour faire un monde” disse eu, resignado a já não sei que iniquidade. “É por isso que o mundo é tão mal feito”, respondeu o António Alçada.

 

Ocorreu-me essa resposta lapidar do autor de Peregrinação Interior depois de ver, ouvir e ler em resultados de inquéritos que, desde o Papa Francisco até ao Rei da Jordânia, passando por 42% dos cidadãos da República Francesa, muito boa gente acha que os humoristas do Charlie Hebdo assassinados no dia 7 tinham ido longe demais e que os sobreviventes haviam reincidido no número da semana passada, vendido aos milhões. Daí a achar-se que as razões do morticínio inadmissível possam ser entendidas – se um homem insultasse a minha mãe eu dava-lhe um murro, teria dito o Papa a jornalistas – vai caminho curto demais para salvaguarda da decência do nosso viver.

 

Quem sacrifique liberdade a segurança não merece nem uma nem outra, explicou Benjamim Franklin, revolucionário de 1776, um dos” Pais Fundadores” dos Estados Unidos da América, e evoco-o porque quando, a seguir ao massacre, milhões de pessoas ostentando “Je suis Charlie” encheram ruas e praças de Paris e outras cidades francesas, não estavam a subscrever o que os cronistas e caricaturistas do semanário houvessem escrito ou desenhado, estavam a afirmar e a defender o direito que estes tinham de o fazer.

 

Esse espírito, espinha dorsal da França desde a Revolução de 1789, que resistiu à restauração do Império, à Comuna de Paris e à sua punição brutal, ao regime de Vichy durante a Segunda Grande Guerra, mas que nas décadas de prosperidade e paz que vieram a seguir e no marasmo quezilento dos últimos anos parecia ter adormecido, endireitou-se agora quando o estandarte sangrento da tirania se levantou outra vez. Espírito capaz de mover montanhas, muitos conspiram para o abater mas nele reside a esperança da França e da Europa. E toda a conversa de “Je ne suis pas Charlie” , de Charlie ter ido longe demais no insulto a crenças e ideias de outros – neste caso muçulmanos; em casos anteriores cristãos e judeus – é falso remédio que aumenta o mal em vez de o curar.

 

Mesmo que não nos debrucemos sobre lugares onde houve queima da bandeira tricolor (embora se lembre, para exemplo, que no Paquistão as últimas manifestações anti-ocidentais antes destas haviam sido contra a atribuição do prémio Nobel da Paz à pequena que os Talibãs tinham tentado assassinar por advogar educação feminina e que na Chechénia o cacique sanguinolento que lá reina mandou manifestar também) essa conversa ataca a base de sociedades como a nossa: a liberdade de pensar e dizer o que se pensa; o direito à vida quer se creia quer não se creia em Deus. Os dois estão ligados como irmãos siameses: se se restringir a liberdade de expressão para não ofender almas sensíveis que possam ser levadas a assassinar quem faça troça do seu Deus (ou impedir que mulheres saibam ler e escrever), começa a destecer-se o pano em que é talhada a decência do nosso viver.

 

 

 

 

Foto: David Futscher Pereira

 

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14.1.15

 

 

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© Philippe Geluck

 

 

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Allons enfants de la Patrie

 

 

Qual foi a consequência principal da Revolução Francesa? Há meio século, Chu En Lai respondeu que era cedo demais para se saber. Talvez na semana passada a resposta tenha vindo, mesmo que outros sábios chineses objectem (Voltaire nunca teve fãs para as bandas de Pequim).

 

Começando no massacre de quarta-feira de manhã na redacção de Charlie Hebdo por dois jiadistas franceses e acabando na multidão afirmativa – eu sou Charlie, eu sou chui, eu sou judeu – marchando pelas ruas de Paris e de muitas outras cidades francesas no domingo à tarde, passando pelo assassinato de polícias e de quatro judeus, reféns numa loja de comida judia de terceiro jiadista francês, um enorme sobressalto sacudiu a França.

 

Tirou-a do torpor triste, desencantado e quezilento em que há anos a pouco e pouco se afundava (embora os franceses continuassem a fazer mais filhos por casal do que quaisquer outros europeus) recusando adaptar-se às exigências do mundo globalizado e digital. Desde 1995 fora assim: governo anunciava reformas, sindicatos opunham-se; Assembleia Nacional passava leis, povo saía à rua; após curto braço de ferro, o governo desistia. E em pano de fundo, apesar das iniquidades de Vichy, há em França mais judeus e, apesar de descolonização argelina calamitosa, mais árabes, do que em qualquer outro país da Europa – embora com milhares de uns a emigrarem para Israel e milhares dos outros a rumarem à jiad. No domingo à tarde era como se um sopro de liberdade tivesse levantado toda a gente do chão e a houvesse feito levitar.

 

Charlie Hebdo, que imprimira as caricaturas dinamarquesas de Maomé e publicara número “editado pelo Profeta”, vira a redacção incendiada e recebera ameaças (a protecção policial do director morreria com ele). As suas sátiras da extrema direita e dos monoteísmos eram, para muitos, de ferocidade ofensiva e de mau gosto. As vendas vinham a baixar. Mas a brutalidade dirigida da destruição – “Matámos Charlie Hebdo”; “Vingámos o Profeta” gritaram os assassinos – acordou os valores adormecidos da República. No peito de cada francês bateu de novo a liberdade contra os inimigos da revolução de 1789; a liberdade escrita por Éluard em toda a parte – Sur mes cahiers d’écolier Sur mon pupitre et les arbres Sur le sable sur la neige – contra a ocupação nazi de 1940-44.

 

A procissão só vai no adro (Charlie Hebdo troçaria da imagem): mais de 50 pequenos atentados de vizinhança antimuçulmanos foram praticados desde o dia 7 em França; em Dresden a manifestação semanal contra “a islamização da Europa” foi segunda-feira a mais concorrida de todas. Para profilaxia e tratamento da barbárie que tenta instalar-se é preciso mexer em muitas coisas, dos liceus às casernas. Mandar com cabeça fria, coração quente e pulso firme. Por muito tempo.

 

Entretanto, eu sou Charlie. Prefiro ser de um lugar onde cada um possa pensar o que queira e o possa dizer – a ser de um lugar onde seja obrigatório acreditar num Deus. É essa a escolha.

 

 

 

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7.1.15

 

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Expulsion from number 8 Eden Close

Grayson Perry, 2012

 

 

 

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A vida do porco

 

 

 

A vida do porco não é tão má como se julga nem enquanto o animal, ainda vivo, pasta bolota no montado nem, depois de morto, na fase de enchido: o que rala é a transição.

 

Sentença de Cirilo Volkmar Machado, autor de dicionário de pintores e escultores portugueses e 1º Visconde de Santo Tirso, citada em conversa pelo Professor Francisco Vieira de Almeida, filósofo, monárquico oposicionista a Salazar, espírito luminoso que tive a sorte de conhecer.

 

A Europa está em transição e tal como os suínos os europeus não percebem bem o que lhes está a acontecer nem onde irão parar – mas ao contrário dos suínos andam raladíssimos com isso. Não sirvas a quem serviu, não peças a quem pediu, recomendava-se em tempos de capilaridade social tão escassa que permitia tais preferências. A caldeirada de classes e nações em que nos fomos metendo não dá para ser niquento: mendigos não escolhem, diz-se em inglês. Claro que mendigos não somos mas deixámos de ser donos do mundo –  já não o éramos há quase 100 anos embora sábios nossos gostassem de julgar que havíamos passado a ser os gregos dos novos romanos mas mesmo essa ilusão se perdeu desde que a União Soviética se desfez e os Estados Unidos precisam menos da Europa.

 

Tudo está a mudar, com pressa inédita. A globalização tem efeitos ruinosos em partes das economias europeias; ao mesmo tempo que levanta milhões do chão da pobreza noutros continentes. Segundo medições que se fazem agora – toscas, mas é o que há – encontra-se muito mais gente no mundo convencida de ser mais feliz hoje do que era há cinco anos do que do contrário (esta última, sobretudo na Europa). A automatização – incluindo robots cada vez mais parecidos connosco e progresso em inteligência artificial – abre outras brechas nas maneiras de investir e trabalhar de há um século para cá. Nova divisão de tarefas entre sexos e idades afecta toda a gente, em diferentes graus mas no mesmo sentido. A digitalização está a virar de pernas para o ar produção e comércio. O conselheiro principal de tecnologia da Casa Branca, mulher vinda do MIT e de Google, indigna-se quando ouve adultos altamente instruídos dizerem diante de crianças que são nulos em ciência e em matemática: “Isso tem de mudar. Nunca tal diríamos sobre ler e escrever”. Que as ciências estavam a ganhar terreno às humanidades no olear das máquinas de poder do mundo já se sabia antes de Silicone Valley. “Ó tia, o que são engenheiros?” perguntou a miúda. “São doutores, filha”, respondeu a varina. Ouvidas na Madragoa, há 50 anos.

 

Meio milénio a mandar no mundo, com Vasco da Gama e Gutenberg entre as figuras de proa, criaram hábitos de mó de cima custosos de perder mas sofrer faz parte da vida – e há muito pior.

 

Acabo onde comecei, lembrando Vieira de Almeida. Numa visita ao santuário de Lourdes, diante de multidão de inválidos e milhares de ex-votos deixados por peregrinos, ocorrera-lhe de repente que tudo aquilo era apenas uma pequena gota no mar imenso da dor humana.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

 

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1.1.15

 

 

 

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Needlepoint Tapestry

© Mati Silverstein, 1976

 

 

UM BOM 2015

 

 

 

 

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31.12.14

 

 

 

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A noite europeia

 

 

 

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Bom 2015

 

 

Quando um pobre come galinha um dos dois está doente – sabedoria do Alentejo nos tempos do meu pai e do pai dele. No meu tempo apareceram os frangos de aviário, tão prezados no começo que depois de cozinhados as estalajadeiras os vendiam mais caros do que se fossem criação do campo. No tempo do meu filho, ciência com ardores impiedosos de fé havia ganho as almas e os frangos de ar livre tornaram outra vez a ser manjar de rico, ficando os de aviário para a arraia-miúda – no Alentejo como em toda a parte. (Frangos doentes passaram a ser destruídos na origem.)

 

Entretanto, nos Estados Unidos e na Europa, desregulamento progressivo da finança permitiu a esta ir-se apoderando da indústria, valorizando cada vez mais o lucro e valorizando cada vez menos o trabalho; em 2008 o cântaro que tantas vezes tinha ido à fonte partiu-se e o Ocidente entrou em crise; para o tirar do buraco, do lado de lá do Atlântico Norte estimulou-se a economia, o banco central levou a peito baixar o desemprego e hoje, em prosperidade, os Estados Unidos (tendo-se de caminho metido a produzir gás de xisto) vão à frente dos outros poderes do mundo como a lebre de uma corrida de galgos. Na Europa escolheu-se a austeridade e o banco central europeu tem como único encargo estatutário a inflação (apesar de Mario Draghi, mesmo aporrinhado pelos alemães, ter dito que faria o que fosse preciso – what it takes – para salvar o euro). A emenda foi pior do que o soneto. Não há meio de se sair do buraco e, entretanto, talvez empresa de private equity, bem alavancada, veja futuro na venda ao desbarato de frangos doentes aos pobres.

 

A recuperação económica do mundo é atrasada pela inépcia da Europa – que não tem outra força para se impor de maneira diferente. Cresceu em paz no casulo da Guerra Fria, profilaticamente protegida do mal de fora pelo arsenal nuclear americano e do mal de dentro por medo salutar de Estaline. Depois do colapso da União Soviética passou a gastar muito menos em defesa do que o pouco que já gastava e europeus convictos julgaram que iam pregar ao mundo a paz perfeita. Chão que nem uvas deu. O que hoje se vê à roda, em estepes da Ucrânia, oásis da Mesopotâmia, deltas da Birmânia, é, sim, guerra perpétua, só dominável com guerra ou ameaça de guerra. Ora na Europa só França e Reino Unido têm capacidade militar que não envergonhe patriotas e, se as armas são fracas, os corações são mais fracos ainda. Diz directora de escola internacional em Bruxelas: “O nosso propósito deveria ser instilar nas crianças adaptabilidade e flexibilidade”. Em tal bolha de relativismo, a coragem, a integridade, a capacidade de topar quem fale barato, parecem ter valor menor.

 

Guerras – hoje coisas más – eram populares. Bisavó de amiga minha alentejana dizia que de vez em quando era preciso uma “para desquintar o pessoal”. Se não formos capazes de impedir que as façam contra nós, ao menos que as saibamos ganhar. Senão a papa doce acaba mesmo.

 

Ano Novo Feliz.

 

 

Imagem aqui

 

 

 

 

 


29.12.14

 

Romanceiro Capa 1.jpg

 

Romanceiro

Manuscrito do Autor

[autógrafo de Almeida Garrett]

 

 

 

A compra pelo Estado Português do espólio garrettiano designado por “Colecção Futscher Pereira” [1], anunciada pelo Secretário de Estado da Cultura no dia 18 de Dezembro, fecha um ciclo iniciado há dez anos pela descoberta, por minha irmã Cristina Futscher Pereira (1948-2005), de manuscritos inéditos que contribuem de forma decisiva para o estudo do Romanceiro português.

 

Fica deste modo assegurada a ampla divulgação deste espólio, o maior desejo de Cristina, além da permanência dos autógrafos em Portugal, nas melhores condições [2]. Por fim, e também importante, com esta aquisição a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas valoriza aos olhos do público a recolha pioneira de Garrett de temas da nossa tradição oral. São relatos de eventos históricos e histórias de amor, transgressão e violência, de grande suspense e final incerto, que mantêm plena actualidade no século XXI.

 

Para a família, a colecção permanecerá ligada à memória de Cristina, de Venâncio Augusto Deslandes e de iniciativas e amizades inspiradas pelo Autor [3]. Entregamos estes papéis com muita satisfação e um bocadinho de nostalgia.

 

 

 

*

 

 

 

 Notas: 

 

1.  A Colecção engloba mais de 400 páginas manuscritas, grande parte delas inéditas, compreendidas no período de 1839 a 1853/54.

 

2.  “O espólio agora adquirido será objecto de um contrato de depósito na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, enriquecendo, desta forma, o já importante espólio garrettiano de que [a instituição] dispõe”, de acordo com o comunicado divulgado pelo Gabinete do Secretário de Estado da Cultura citado pela Agência Lusa.

 

3.

-  Blog garrettiano O Divino , 2004-2005

 

-  A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

Edição oferecida pelo "Diário de Notícias" aos leitores no 140º aniversário do jornal, a 29 de Dezembro de 2004

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

- No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro [Ermitão] 

Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana

Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. 

 

- As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’ [Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários]

Sandra Boto

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

 

Artigo de Luís Miguel Queirós no Público

 

Espólio Garrettiano da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra [Youtube] 

 

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25.12.14

 

 

Natal Anunciador.jpg  Anunciador simbólico da missa do galo

 

 

País de tão poéticas tradições natalícias como o nosso, em verdade, nada precisa de ir buscar à casa alheia, nem sequer o maçudo e empanturrante Bolo-Rei — o francês Gâteau des Rois  — nem de incutir na imaginação da infância, agora dotada de precoce discernimento, o mito dos saptinhos na chaminé. Dêm brinquedos às crianças, muitos brinquedos, mas eduquem-nas na compreensão de que só pelas graças do Menino Jesus é que os pais conseguiram os meios de lhos oferecer.

 

E depois de tudo isto, ainda um apelo final é de fazer. Não haverá por aí alguém que se disponha a cometer o belo crime de atacar a serrote a Árvore de Natal e a estafar de uma vez para sempre esse intruso e barbaçudo Pai-Natal da floresta germânica, de blusão e botifarras?

 

Que belos dias passados na prisão para expiar esse delito!

 

 

Francisco Lage

in "O Natal Português na Igreja, no Teatro, na Tradição, na Rua e na Família"

Panorama, nº 4, III série , Dezembro 1956

 

Foto: Mário Novais

 

 

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24.12.14

 

flight-into-egypt-1.jpg

 Fuga para o Egipto, Giotto 1311

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

Boas Festas

 

 

 

A quadra de presentes é propícia ao calibrar das posses de cada um e sente-se no ar um perfume de luta de classes de que não me lembrava há muito tempo (“consciência de classe que parecia adormecida”, escreve-me amiga em Portugal). Apesar de distracções na televisão, na telefonia, nos jornais, na internet, nas redes sociais - guerra sem quartel entre sunitas e xiitas; tropelias de Putin; aquecimento global provocado pelo homem (brinca, brincando, crescemos de dois mil para sete mil milhões em pouco mais de meio século: europeus, porém, somos cada vez menos); epidemias que resistem a remédios - mau viver insidioso alastra em cada vizinhança.

 

Como só más notícias se vendem – e compram – entram-nos desgraças pela casa dentro amanhadas “de cinco maneiras diferentes”, como os linguados do restaurante Sua Excelência quando o Queiroz recitava o menu. Contra mim falo, mas parece às vezes haver hoje mais comentadores do que coisas a comentar. Entretanto, espreguiçando-se estremunhada, a luta de classes que ninguém é capaz de definir mas em que muitos gostam de acreditar – um bocadinho assim como a Graça de Deus – arreganha os dentes. Já tínhamos passado por isso e eu julgava que o assunto estivesse arrumado. Nem pouco mais ou menos.

 

Os muito ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Muita gente na finança – banqueiros e para-banqueiros, grandes, médios e pequenos – tomou o freio nos dentes desde que a União Soviética colapsou e deixou de ter medo fosse do que fosse. Sem perceber que o fim do comunismo não fora a irradicação de uma doença mas sim o fracasso de um remédio – nunca é demais repeti-lo – abandonou o cuidado dos outros. Mas enquanto os Estados Unidos, arrancando com um programa de estímulo, saíram da crise que lá começara em 2008, a Europa, com a grilheta da austeridade a arrastar-lhe os pés, abeira-se da deflação. Irlanda, Grécia e Portugal devem mais do que deviam quando os programas de ajuda começaram - e nunca poderão pagar. Uma falsa convicção germânica de virtude obnubila responsáveis políticos e fá-los insistir no mau caminho.

 

Quando a economia, em vez de crescer, mirra, e os filhos vivem pior do que viveram os pais, os europeus, desabituados há muito tempo de tais desconfortos, tornam-se agressivos. Xenofobia pavoneia-se em França, na Alemanha, na Grã-Bretanha; protecionismo empobrece as nações. Quando não haja estrangeiros nem infiéis para bode expiatório avança a “luta de classes” - exemplo da tentação universal de fazer passar inveja por virtude - com tradição em Portugal, primeiro às escondidas da PIDE, depois posta ao léu pela Revolução dos Cravos. Esquecida a seguir – e lembrada agora.

 

A menos que os políticos entendam, percam medo da Alemanha, esqueçam austeridade e se metam a ajudar a economia com bom senso e coragem precisos, o que espera a Europa é - com vénia a Mestre António Garcia - uma broncalina do camandro ou uma Bernardette do caboz.

 

Boas Festas, mesmo assim.

 

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23.12.14

 

Natal consoada Panorama.jpg

 

 Aparador da Consoada

Composição do natural, de Francisco Lage*

 

 

Rabanadas da consoada  (Douro)

 

 

Pão de forma                          1

Ovos                                         6  a  8

Manteiga                                50  gramas

Açúcar                                    1  quilo

Canela                                    q.b.

 

 

Põe-se o açúcar a ferver com água suficiente e deixa-se tomar ponto de espadana.

 

Corta-se o pão às fatias finas, não se utilizando as dos topos. Batem-se os ovos e neles se mergulham as fatias até ficarem bem repassadas. Fritam-se logo a seguir na calda, a que se juntou a manteiga, até que os ovos que as emvolvem fiquem bem cozidos. Com uma escumadeira vão-se retirando as fatias e colocando numa travessa funda. Polvilham-se de canela e regam-se com o resto da calda em que se fritaram.

 

 

 

 *

 

 

Sonhos fofos

 

 

Ovos                                        6

Farinha                                  1  chávena

Manteiga                              60  gramas

Açúcar                                   90  gramas

Canela                                   q.b.

Sal                                          q.b.

Fermento em pó                1  colher de chá

Calda de açúcar                  q.b.

 

 

Põem-se a ferver o leite, a manteiga, o açúcar, a canela e o sal; levantando fervura vaza-se-lhe para dentro, de repente, a farinha e mexe-se até que fique enxuta e cozida.

 

Deixa-se então esfriar um pouco e juntam-se o fermento e os ovos, um a um, ligando-os muito bem com a massa. Amassa-se com a mão até ficar uma massa leve. Fritam-se colheradas desta massa em bastante óleo ou azeite fervente. As colheres devem ser de sobremesa e pequenas pois os sonhos crescem bastante enquanto se fritam.

 

Cobrem-se depois os sonhos com calda de açúcar não muito espessa e aromatizada com baunilha e servem-se frios.

 

 

 

M.A.M. [pseud. colectivo de Maria Adelina Monteiro Grillo e Margarida Futscher Pereira]

in Cozinha do mundo português [p. 661 e p.664] 

Porto: Livr. Tavares Martins, 1962

 

* Imagem: Foto Mário Novais

Revista Panorama, Número 4, III Série, Dezembro de 1956

in Caderno "O Natal Português" de Francisco Lage

 

 

 

 

FELIZ  NATAL 

 

 

 


22.12.14

 

Presépio Popular de Barcelos .jpg

 

Presépio popular de Barcelos

Panorama nº 24 - III Série - Dezembro de 1961

 

 

 

 

Associação Portugal à Mão aqui 

 

 

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21.12.14

 

Natal 1930 img912 - Version 2

Arminda D'Korth Brandão

Lisboa, Dezembro de 1930

Foto: M. Dinis

 

 

 

Foto gentilmente cedida por Henrique D'Korth Brandão, a quem muito agradecemos.

 

 

Em 2015 visitaremos o espólio fotográfico de João Christiano D'Korth (1893 - 1974) [irmão de Arminda D' Korth Brandão, na foto].

 

 

Nota:

para ampliar foto visite os meus álbuns no FLICKR aqui

 

  


19.12.14

 

 

 

Garrett desenho Júlio Gil.jpg

 

 

 

Protagonista e espectador de acon­tecimentos fundamentais na cul­tura, na política e na sociedade por­tuguesas, Garrett (1799-1854) viveu a transição do século XVIII para o século XIX, a viragem do Portugal velho para o Portugal novo. O exí­lio, o desempenho de funções diplo­máticas e outras actividades obrigaram-no a residir alguns anos na Inglaterra, na França e na Bélgica. Teve contacto directo com a vida social e política daqueles países e dos movimentos culturais de van­guarda.

 

Foi um dos principais colabora­dores de Mouzinho da Silveira na redacção e elaboração dos decretos para a reorganização das finanças públicas, da justiça, da divisão ad­ministrativa e que modificaram o sistema governativo. Pertence-lhe, também, uma das leis para a definição da propriedade literária e o direito de autor, contribuindo para a dignificação e independência da criação intelectual.

 

A modernidade começou, entre nós, com Garrett. As raízes da mo­derna poesia portuguesa, no enten­der de José Régio e depois de Óscar Lopes e António José Saraiva na História da Literatura Portuguesa, derivam da obra de Garrett. Prolongou-se até às gerações do Orpheu e da Presença. Sem o Gar­rett das Folhas Caídas não tería­mos João de Deus, nem António Nobre, nem Pascoais, toda a gran­de corrente lírica dos séculos XIX e XX , que retrata muito do comportamento do homem português.

 

Desde sempre o teatro ocupou lugar de relevo nas suas preocupa­ções. Quando Passos Manuel este­ve à frente do Governo (1836-1837) solicitou a intervenção de Garrett para renovar o teatro. Dois exem­plos: a colaboração para organizar o Conservatório e para construir um Teatro Nacional. Integraram-se nesta política cultural as peças que Garrett escreveu e onde recriou grandes ciclos da História de Por­tugal: a revolução de 1385, que res­tituiu a independência e levou ao trono o Mestre de Avis ( O Alfageme de Santarém ); a época dos Desco­brimentos, contemporânea do nas­cimento do teatro português ( Um Auto de Gil Vicente ); a perda da in­dependência em 1580, com 60 anos de ocupação espanhola ( Frei Luís de Sousa); e a governação pombali­na (A Sobrinha do Marquês).

 

Criou, igualmente, uma nova escrita nas Viagens na Minha Ter­ra. Atribuiu à palavra a nitidez do pensamento, a variedade do ritmo, uma arquitectura verbal em que a construção lógica se concilia numa expressão original. As Viagens na Minha Terra abriram caminho à língua e estilo de Eça de Queiroz. Do Carlos das Viagens resultou o Carlos de Uma Família Inglesa, de Júlio Diniz, e o Carlos d' Os Maias, de Eça de Queiroz, qualquer deles elegante, volúvel, sedutor. E não será difícil aproximar o Carlos das Viagens de outro Carlos também de Eça de Queiroz e da sua geração: Carlos Fradique Mendes, exemplo do homem requintado, medularmente europeu.

 

Entre nós, Garrett foi o primeiro a recolher o tesouro poético do povo português. Recuperou da tra­dição oral numerosas composições do Romanceiro, muitas das quais inéditas, conforme revela o DN, hoje, a propósito do espólio de Ve­nâncio Deslandes. Mas ainda lhe cabe um papel precursor nas áreas da etnografia, do folclore, dos estu­dos de antropologia. O que é preciso - salientou - é estudar as nossas pri­mitivas fontes poéticas, os romances em verso e as legendas em prosa, as fábulas e crenças velhas (...) no grande livro nacional, que é o Povo.

 

Lançou um movimento que se reflectiu até aos nossos dias. Cha­mou a atenção para os atentados à paisagem, aos monumentos, às bi­bliotecas e arquivos. Apesar dos aproveitamentos políticos, para al­gumas orientações do Integralismo Lusitano e do Salazarismo, Garrett iniciou a reabilitação e classifica­ção do património articulando as necessidades e interesses locais com a história, a geografia e o quotidiano, a fim de assegurar os fun­damentos da identidade do País.

 

Em tudo quanto fez Garrett, sem deixar de ser português, aproximou-se da Europa numa perspec­tiva aberta, dinâmica e plural, de sentido humanista.

 

 

António Valdemar

in [Garrett] "Um dos Precursores da Modernidade" 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

*

 

Imagem:

Desenho de Julio Gil  

Ilustração de Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett

Diário de Notícias, 24 de Janeiro de 1955

 

 

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17.12.14

 

Quentin_Metsys_001.jpg

O cambista e sua mulher, Quentin Metsys 1514 

 

  

José Cutileiro.jpg

 

 

Coisas do bem e do mal

 

 

“A caricatura é o tributo que a mediocridade paga ao génio”. Assim abriu Oscar Wilde conferência a estudantes de Harvard que o esperavam, todos de fraque azul e girassol na lapela porque o repentista de Dublin tinha fama de se apresentar dessa maneira. Mas alguém o prevenira, viera de cinzento e sem girassol, e quem enfiou a carapuça foram os estudantes de Harvard.

 

Lembrei-me hoje do aforismo por ter sabido que os banqueiros holandeses, alarmados com a má reputação do ramo desde a crise de 2008 — má reputação reforçada por escândalos seguidos, alguns implicando cumplicidades de grandes bancos internacionais a fim de manipularem criminosamente taxas de câmbio, outros revelando desprezo completo de banqueiros e bancários pelos interesses de clientes e de accionistas, e todos pondo ganância de lucro à frente de obrigações morais ou deontológicas — decidiram submeter os praticantes da profissão (ou ofício, ou arte) à obrigação de prestarem juramento pelo qual se obrigam a não lesar clientes e accionistas por acção ou omissão (um pouco assim como o juramento hipocrático dos médicos): “Que Deus me ajude a manter e promover confiança no sector financeiro”, reza a certa altura. Por enquanto só prestaram juramento — perante Deus ou dando a palavra de honra — administradores e empregados de alto nível mas a partir do ano que vem será obrigatório para todo o pessoal. Na Holanda, os proponentes da medida estão convencidos de que esta terá efeito moralizante e ajudará a recuperar a confiança perdida na banca.(Pelo sim pelo não, o governo limitou bónus a 20% dos salários).

 

Nos principais centros financeiros da Europa — Frankfurt, Paris, Milão e, sobretudo, Londres — não há tanta fé no remédio receitado pelos bons prestamistas de Amsterdão. Nesses restantes lugares o protestantismo está diluído, muito misturado com outras confissões religiosas — ou com nenhumas — e é, ele próprio, menos rigoroso. A veia calvinista pura é mais exigente (em Genebra, um monumento soturno a Calvino — “homenagem dos seus concidadãos” — ilustra, para quem tivesse dúvidas, que não estamos neste mundo para nos divertirmos. Genebra não é nos Países Baixos mas foi lá que Calvino pontificou). Seremos salvos — ou não — pela Graça de Deus e não por obras. E não se sabe quem é predestinado: neste mundo, o mais que cada um pode fazer é tentar portar-se tão bem quanto se o fosse, ganhando de caminho respeito dos vizinhos. Sobrado a luzir de se poder lamber mas lixo varrido para debaixo dos tapetes. Virtude pregada no templo mas alcaloide à vontade e prostituta bonita para a gente namorar. Alguns banqueiros holandeses respeitados estão cheios de fé na cruzada porque acham que moralização só poderá vir de dentro. Outros contam com estímulos mais terra a terra: medo da cadeia, por exemplo.

 

Mas uma luta do bem contra o mal foi aberta e algum jeito há de dar. Como diria Oscar Wilde — e La Rochefoucauld tinha dito —: “A hipocrisia é o tributo que o vício paga à virtude”.

 

 

 

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13.12.14

 

APV still 378 blog

Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça gravam mulheres da Beira a cantar.

Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP 1968] 

 

 

[... ] Reco­lhendo a letra dos Romances desa­companhada da respectiva música, o autor das Viagens na minha terra fez obra incompleta, truncada. Não o culpemos muito por isso. Pode­ria ele ter procedido diferente­mente ? Garrett era, antes de mais nada, um poeta, um escritor, cer­tamente pouco familiarizado com o fenómeno musical. Não era fol­clorista (a disciplina do folclore achava-se então ainda nos limbos) para poder proceder à sua reco­lha (aliás feita indirectamente, através de comunicações de ter­ceiros) com verdadeiro método científico.

 

Lembremo-nos, ademais, que, nos países que de certo modo o impulsionaram no estudo da lite­ratura popular e que lhe minis­traram as ideias interpretativas desta, a Inglaterra e a Alemanha, ou, antes, o movimento romântico naquelas duas nações, também as coisas não principiaram doutro jeito e que só mais tarde ali se começou a. prestar a devida aten­ção às melodias populares e a con­siderar em conjunto o binómio poesia-música.

 

No entanto, ao próprio Garrett. não passou acaso despercebida a deficiência do seu trabalho e o quanto importaria, sob o ponto de vista prático, isto é, para o apro­veitamento artístico dos materiais fornecidos pela nossa poesia tra­dicional, associar esta às melodias que com ela nasceram ou que com ela fraternamente andam de par. Comentando, no mesmo 2.° volume do Romanceiro, o Romance da «Bela Infanta» (que classifica de chá­cara), diz que o introduziu, com algumas alterações indispensáveis, no 5.º acto d' O Alfageme de Santarém, fazendo-o «cantar por um coro de mulheres do povo, à hora do trabalho». E relata, entre satisfeito e pesaroso: «...observei o sensível prazer que tinha o pú­blico em ver recordar as suas anti­guidades populares, que nem ainda agora deixaram de lhe ser caras, Mas por mais que fizesse, não consegui que as cantassem a uma toada própria e imitante, quanto hoje pode ser, da melopeia antiga com que há séculos andam casa­das essas trovas. Ainda em cima, os cantores desafinavam e iam fora de tempo na música italiana e com­plicada que lhe puseram. Apesar de tudo, os espectadores avaliaram a intenção e a aplaudiram.»

 

Dos Romances compendiados por Garrett conhecemos nós hoje tão só as toadas da Bela Infanta, do Bernal- Francês, do Conde Yano (ou Conde Alberto), do Conde de Ale­manha, da Silvaninha, do Reginaldo, do Conde Nilo, da Donzela que vai à guerra (também conhe­cido por D. Martinho), da Nau Catrineta, de O cego, de Linda-a-pastora (ou O príncipe e a pastori­nha), do D. João e de A morena. (E possível que ainda um que outro deles haja por aí recolhido por algum curioso ou folclorista benemérito de que não temos no­tícia). Mas o ponto é saber-se se tais toadas são de facto as que, à altura da colação garrettiana, se cantavam com as letras que ali se referem. Não terá havido em muitas delas permutas e transposições? Já se verificaria então o fenómeno, hoje corrente, de a uma determi­nada toada se poderem atribuir vários romances ou de um destes ser cantado com melodias diferen­tes ? Que alterações ou transfor­mações se terão produzido nessas toadas no decurso de um século?

 

A coisa seria importante de sa­ber-se para a organização e estudo quanto possível documentado do nosso Romanceiro no ponto de vista poético-musical; mas crêmo-la já agora impossível de apurar-se.

 

A tarefa sistemática da recolha da poesia e música dos Romances nunca chegou a ser empreendida entre nós, e talvez já seja tarde para a tentar. E que prejuízo daí não resultou, a avaliar pelos belos mas desgarrados espécimes com que se consegue topar numa que outra publicação ou ouvir ainda (cada vez menos, infelizmente) da boca do próprio povo! (*)

 

O cometimento de Garrett ficou incompleto; mas saibamos fazer jus ao grande escritor, hoje, no ano do seu Centenário, por haver dado o sinal de partida, ao menos num aspecto do conhecimento, res­guardo e apreço do rico tesouro da nossa arte popular.

 

Fernando Lopes Graça

in  A propósito do Romanceiro de Garrett

Vol. III de Gazeta Musical (Academia de Amadores de Música) nr 51 Dezembro de 1954 

 

 

(*) Nota do Autor: — Já agora, consignemos aqui os Romances (na maior parte incompletos, outros com interpolações várias) que, acom­panhados de música, andam dispersos por várias publicações de que temos conheci­mento, fazendo, para algumas das toadas recolhidas, a prudente reserva da fideli­dade da transcrição musical (por exemplo, para os das colecções de Pedro Fernandes Tomás, a quem muito se deve neste capí­tulo, mas cujo rigor musical é frequente­mente duvidoso), e formulando votos por que a presente lista possa vir a ser acres­centada com comunicações dos nossos es­tudiosos da matéria.

I. O Conde de Alemanha, Reginaldo, O Capitão da Armada, Nau Catrineta, O Cego, Frei João, Jesus pobrezinho, in Pedro Fernandes Tomás: Velhas Canções e Romances Populares Por­tugueses (França Amado, Coimbra, 1913).

II. O duque de Alba, A noiva enganada, in Pedro Fernandes Tomás : Cantares do Povo (França Amado, Coimbra, 1913)

III. O Caçador, Pastora, Sta, Catarina, Milagre da Virgem, in Pedro Fernan­des Tomás: Canções Portuguesas do século XVIII à actualidade (Coim­bra, Imprensa da Universidade, 1934).

IV. D. João, D. Fernando, D. Angela, Deus te guarde pastorinha, Mineta, A menina cativa (?), in P.e Firmino A. Martins: Folklore do Concelho de Vinhais, 2º vol. (Lisboa, Imprensa Nacional, 1939).

V. O lavrador da arada, O homem rico, Conde Alardo, Santa Iria, in António Avelino Joyce: Revista Ocidente, IV.

VI. Lavrador da Airada, D. Silvana, Santa Iria, O príncipe e a pastorinha, Ora, valha-me Deus, Morena, O rei e a pastora, D. Martinho, in J. Diogo Correia: Cantares de Malpica (Livra­ria Enciclopédica de João Bernardo, Lisboa> 1938).

VII. O cego, Conde Nino, Conde Albano, Rosa, a pastorinha, Nau Catrineta, Dona Silvanas Irene (sem letra), Bernal Francês (sem letra), Lamenta­ções da freira (sem letra), Dona In­fanta, Gerinaldo, O lavrador da arada, in Gonçalo Sampaio: Cancioneiro Mi­nhoto, 2,a edição (Livraria Educação Nacional, Porto, 1944).

VIII. O lavrador da arada (três versões), Romance ("sem titulo), in Edmundo Arménio Correia Lopes: Cancioneirinho de Fozcoa (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1926).

IX. Santa Iria, A nau Catrineta, in Fran­cisco de Lacerda: Cancioneiro Musi­cal Português   (Junta de Educação Nacional, Lisboa, 1935).

X. Rosa, a pastorinha, Confissão da Vir­gem, in Sales Viana: Cancioneiro Monsantino (Edições SNI, Lisboa).

XI. A bela Infanta, in Rodney Gallop: Portugal, a book of Folk-ways (Cam­bridge, at University Press, 1936),

XII. Silvaninha (var.), Bela Infanta, in Ro­dney Gallop: Cantares do Povo Por­tuguês (Livraria Ferin, Lisboa, 1937).

XIII. Reginaldo (ou Gerinaldo), O homem rico, in Fernando Lopes Graça: A Can­ção Popular Portuguesa (Publicações Europa-América, Lisboa).

 

Deve observar-se que certos destes Ro­mances se acham repetidos ou constituem lições diferentes do mesmo tema; estão neste caso, por exemplo, Mineta (O cego), Rosa, a pastorinha (O príncipe e a pastora, Pastora), Frei João (Morena), Jesus pobre­zinho (O lavrador da arada). Isto apenas quanto às letras, porquanto as melodias não se repetem.

 

 *

 

Notas:

 

1. Fotograma de 27 minutos com Fernando Lopes Graça [António Pedro Vasconcelos, RTP, 1968] de excerto reproduzido no documentário Uma visita aos afectos do compositor  [Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça © Sílvia Camilo 2014] 

Imagem gentilmente cedida por Sílvia Camilo a quem muito agradeço. 

 

2. O romance popular Linda-a Pastora com introdução de Garrett neste blog aqui

 

3. Artigo de Gonçalo Frota no Público O cante ouve-se com o corpo, diante das vozesaqui

 

4. Mais neste blog nas tags Lopes Graça e Garrett

 

 

 

 

 

 

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12.12.14

 

A descoberta de inéditos do Romanceiro de Almeida Garrett foi anunciada a 7 de Dezembro de 2004 pelo Diário de Notícias [1]. No dia 9 de Dezembro do mesmo ano, integrado num caderno dedicado ao Autor por ocasião dos 150 anos da sua morte, saiu no Público [2] o romance popular “Fonte da Cruz”. 

 

 

Fonte da Cruz título.jpg

 autógrafo de Almeida Garrett

 

 

As primeiras e últimas coplas deste romance são uma das mais antigas reminiscências de minha infância. Estou daqui vendo ainda o grupo de crianças que nos sentávamos no chão para o ouvir contar a uma certa pequena pouco mais velha que nós, filha de uma boa mulher que fora ama de leite de minha mãe. Isto é dizer que eu teria quatro anos, os mais velhos de entre nós seis ou sete, e a nossa cantora os seus oito ou nove anos. Era uma santa gente que morava para o Bom Jardim, no Porto, e vivia de pequeno mas honesto tráfico, protegidos por meus pais. A filha ia passar oito ou quinze dias no “Castelo”, pequena quinta nossa, situada daquém Douro. E era um dia de alegria o em que ela chegava, era choro que não acabava quando se partia. Porque ela sabia, além destes cantares ao divino, todas as xácaras da Silvana, da Bela Infanta, e mil outras histórias em prosa e verso, como as da «Maria Cortiço», da «Maria Sabida» do «Rei dos Ratos», «Gata Borralheira», «Rei Ramiro» além de infinitas aventuras de bruxos, lobisomens, moiras incantadas [3] , duendes, etc, cujos títulos individuais me não lembram; era um romanceiro vivo, uma segunda e mais completa edição daquela erudita e copiosa Brígida velha que, em outros lugares de minhas escrevinhaduras, tenho celebrado e citado.

 

Estas primeiras e últimas coplas eram as que só me lembravam quando a nossa lavadeira, que é uma boa mulher de Loures, aqui veio hoje, 15 de Abril de 1843, e a ouvi cantando a trova na cozinha donde a chamei e, sem grande dificuldade — coisa rara ! — pude obter que ma deixasse copiar, o que fielmente fiz, emendando apenas algum verso demasiado esticado ou curto demais: que poucos foram.

 

Fonte da Cruz

 

Deixa-me ir à fonte nova

Que nasceu ao pé da Cruz:

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

Um cego, que abriu a fonte

O cego já achou luz,

Que lhe deu água nos olhos

Da fonte da vera Cruz.

 

Fonte nova, fonte santa,

Fonte de amor que reluz!

Santa Maria ao pé dela,

San’ João com seu capuz.

 

Outra fonte fazem ambos

A chorar o seu Jesus.

—“ Minha mãe, esse é teu filho”

Diz o Salvador da Cruz,

 

“João, essa é tua mãe,

Que assim o quero e dispus

À hora da minha morte;

E cá vos fique esta luz:

 

Que o meu amor não tem fim,

E que entre vós dois o pus

Para se lavar o mundo

Na fonte da vera Cruz.”

 

Quem quer vir à fonte nova

Que se fez ao pé da Cruz?

É o sangue do cordeiro

Que se chama o bom Jesus.

 

 Almeida Garrett

in manuscritos do Romanceiro garrettiano inédito

Colecção Futscher Pereira

 

 

Notas

 

1. Almeida Garrett foi «o primeiro compilador do nosso Romanceiro, ou seja, de narrativas diversificadas, de vária índole, da nossa tradição oral popular, destinadas a serem meio recitadas, meio cantadas» explica a investigadora Ofélia Paiva Monteiro. O autor terá dedica­do grande parte da sua vida a esta recolha. «Entre 1843 e 1851, Garrett editou os três tomos do "seu" Romanceiro, dizendo na Introdução do segundo que a sua colecção viria a ser consti­tuída por cinco livros», lembra esta professora. Mas o elenco publicado só corresponde aos li­vros I e II. «Os manuscritos ago­ra achados parecem comportar o material compilado para os to­mos que não chegaram a vir a lume; e complementam mate­rial que já tinha sido dado a co­nhecer por um Cancioneiro, au­tógrafo garrettiano (que traz a indicação de ter sido começado em 1824)».

 

Diário de Notícias, 7 Dezembro 2004

 

 

2. "Fonte da Cruz", um poema recitado por uma lavadeira saloia de Loures, foi descoberto em Março [2004] pela família Futscher Pereira num espólio herdado, e mantém-se inédito. Este poema (também chamado "romance" ou "cancioneiro") da tradição oral popular tem origem medieval e Almeida Garrett reuniu-o no Livro III das "Lendas e Profecias", todo ele inédito. Começa com uma introdução, do próprio Garrett.

 

Público, 9 Dezembro 2004

 

3. Na transcrição dos manuscritos para o Público, desdobraram-se abreviaturas e pontuou-se raramente para compreensão dos textos, mantendo embora a redacção de palavras peculiares na ortografia garrettiana (como "incarregar" ou "incantadas". [Luís Augusto Costa Dias]

 

 

4. Sobre a divulgação dos manuscritos achados em 2004 leia também neste blog o post Long Live Garrett 

 

 

 

 

 

 

 

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10.12.14

 

 

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Helmut Kohl

 

 

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E se o povo ordena mal?

 

 

Na Baviera a CSU, irmã da CDU do resto da Alemanha, causou sensação há dias. Estudo apresentado à direcção do partido propunha que imigrantes fossem obrigados a falar alemão – mesmo em casa, quando estivessem só entre si. Até alguns bávaros ficaram perplexos e no resto do país houve indignação — salvo em partidos, pré-partidos, associações, confrarias de uma extrema-direita nacionalista e xenófoba, que pululam de há uns anos a esta parte, mais no que dantes fora a Alemanha Oriental. (“O patriotismo é o amor dos seus; o nacionalismo é o ódio aos outros” escreveu luminosamente Romain Gary).

 

A Baviera é próspera e tem outras boas coisas – automóveis BMW; braços abertos no acolhimento a Ingmar Bergman que lá pôs em cena teatro e ópera sete anos, expatriado até o fisco sueco lhe pedir desculpa por o ter feito escandalosamente prender sem razão – mas a aliança da sua direita com o resto da direita alemã nem sempre é fácil. Uma vez, num almoço de fim de Wehrkunde em Munique, ouvi Helmut Kohl, ainda Chanceler, somando aos convivas da sua mesa os anos que levava de vida política, enumerar a certa altura: “sete anos com Franz-Joseph Strauss como Vice-Chanceler — contam por catorze”.

 

Depois de algumas décadas a seguir à guerra (de 39-45) sem vestígios disso, o populismo começa a morder a Alemanha, agora reunida, não ainda com o sangue na guelra que mostra em França, na Hungria ou no norte de Itália, mas Berlim tem responsabilidade especial e se o borbulhar fascizante continuar talvez Angela Merkel dê uma guinada ao leme do seu (nosso) barco. Levando a sua chefia sem distracções causadas por “essa coisa da visão”, como diria o pai Bush, munida de antenas que captam ondas emitidas pelo povo e imune a sobressaltos que traíssem pulsões ou sentimento, deu nos últimos anos duas grandes guinadas, uma disparatada mas demagogicamente fácil, outra sábia mas politicamente complicada. A disparatada foi aproveitar desastre nuclear no Japão para decretar, à beira de eleições, o fim da energia nuclear na Alemanha. A sábia – e corajosa – foi opor-se ao gangsterismo aventureiro de Putin, que em má hora cometera o erro de lhe mentir, contra a opinião maioritária da sua gente, propensa a achar que o lugar dela é entre o Ocidente e a Rússia, e de industriais famintos de “business as usual”. A sua firmeza, desta vez, deu coluna vertebral à Europa no confronto com Moscovo.

 

Se populismo xenófobo continuar a grassar na Alemanha — e se Angela Merkel perceber que o marasmo económico o anima — talvez a Chanceler dê mais uma guinada. Resolva espaldar o Banco Central Europeu na sua missão de subir a inflação até quase 2%, permitindo-lhe comprar dívida pública, apesar dos tratados — outra vez contra os instintos do povo.

 

Se assim for, diz-me entendido nestas matérias, poder-se-á sair da crise com União e países viáveis. Se assim não for, depois de ter falhado a mal em 1918 e em 1945, a Alemanha agora terá conseguido dar cabo da Europa a bem.

 

 

 

 

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9.12.14

 

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 Foto: Júlio Novais (1904)

 

Nos 160 anos da morte de Garrett a BNP revisita a Exposição Garrettiana de 1904

aqui

 

No ano do cinquentenário da morte de Almeida Garrett, a Biblioteca Nacional promoveu uma exposição comemorativa, era então seu director o erudito e bibliófilo Xavier da Cunha (além de crítico e poeta, também sob o pseudónimo de Olímpio Freitas), ao tempo fundador da Sociedade Literária Almeida Garrett e membro dos seus corpos dirigentes.

 

Admirador de Almeida Garrett, Xavier da Cunha esteve no centro das comemorações, antes de mais no centenário do nascimento, em 1899, propondo à Academia das Ciências de Lisboa a edição de um «livro áureo» do autor de Viagens na Minha Terra, iniciativa que não vingou. Nos anos subsequentes, porém, sobretudo a partir de 1903, a proposta para a trasladação dos restos mortais de Garrett para o Panteão dos Jerónimos, a cargo da Sociedade Literária Almeida Garrett e ocorrida a 3 de maio, foi amplamente difundida pela imprensa portuguesa, com destaque para o Diário de Notícias, de que era então redactor principal o escritor Brito Aranha.

 

No ano seguinte, ao mesmo tempo que Teófilo Braga coordenava as Obras Completas de Almeida Garrett, em diversos volumes de uma «Edição ilustrada» de pequeno formato e em dois tomos de uma «Grande edição popular», a Biblioteca Nacional chamou a si a organização de uma exposição de «homenagem simples e modestíssima» ao escritor romântico, segundo descrição no Boletim da Sociedade Literária Almeida Garrett . Inaugurada a 9 de dezembro de 1904 pelo príncipe real D. Luís Filipe e seu irmão e futuro rei D. Manuel, com assinaturas inscritas em Livro de Visitantes, desta exposição não chegou a ser impresso catálogo (cujo original manuscrito consta existir na Sala Ferreira Lima, FLUC), porém o seu registo fotográfico foi deixado por Júlio Novais e reunidos numa miscelânea os jornais diários que noticiaram o evento.

 

 

 

 

Nota:

Sobre a Sociedade Literária Almeida Garrett e o escritor Xavier da Cunha leia neste blog o post Impressões Deslandesianas.

 

Mais neste blog na tag Garrett

 

 

 

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7.12.14

 

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 Fernando Lopes Graça, Horta, Açores 1983 

 

 

 

Cumpriu-se faz agora dois anos a primeira etapa do projecto ambicioso dum grupo de amigos de Fernando Lopes Graça (1906-1994): trazer a público uma colecção de peças para piano que o compositor dedicou a amigos e eventos – as “Músicas Festivas” – e registá-la em múltiplos suportes, permitindo a criação de conteúdo não efémero.

 

Das 23 peças, 13 nunca tinham sido tocadas em público e 18 nunca tinham sido gravadas. A colecção inédita foi apresentada a 16 de Dezembro de 2012 num concerto do pianista António Rosado no Centro Cultural de Belém. Na mesma data saíram os CD "Músicas Festivas de Fernando Lopes Graça", os quatro volumes das partituras (em suporte papel) e foram criados um sítio Web multilingue* e um álbum de fotografias e documentos no facebook.

 

Um duplo DVD agora lançado [o concerto no CCB, com introdução do musicólogo Rui Vieira Nery, e o documentário "Uma visita aos afectos do compositor"] completa este projecto multimédia, a vários títulos exemplar, constituído por cinco iniciativas produzidas e financiadas por um grupo muito pequeno de pessoas com apoios quase nulos.

 

O documentário "Uma visita aos afectos do compositor" — retrato intimista e muito cativante de Lopes Graça construído a partir de depoimentos, excertos musicais, fotografias, imagens em movimento e documentos reunidos ao longo da pesquisa — revela-nos com simplicidade e saber toda a riqueza da sua música (1), do seu legado intelectual e da sua personalidade, à luz do presente.

 

E nem de propósito, a coincidir com a recente consagração mundial do Cante Alentejano, este documentário vem recordar o papel pioneiro de Lopes Graça na música coral portuguesa e na recolha da nossa música tradicional (2), e inclui mesmo um apontamento extra sobre a digressão pelos Estados Unidos, pela mão do compositor, do grupo coral alentejano da Aldeia Nova de São Bento, a convite da Smithsonian Institution, por ocasião do bicentenário do país, em 1976.

 

Bem vindo às “Músicas Festivas” de Fernando Lopes Graça, disponível em DVD numa loja perto de si.

 

 

 

Notas:

 

 1. “Muita da sua reflexão vem de um trabalho de desconstrução dessas músicas tradicionais e de transposição de elementos que ele encontra nessa linguagem popular para uma esfera erudita em que depois cruza esses elementos com as referências cosmopolitas das vanguardas modernistas em que se integrou”. [Rui Vieira Nery na introdução]

 

2. Lopes Graça cria nos anos 40 o Coro da Academia de Amadores de Música. As suas harmonizações das Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas serão cantadas pelo Coro por todo o país. O interesse de Lopes Graça por este património tradicional e o trabalho que desenvolveu nesta área é comparável ao de Garrett com o Romanceiro, acerca do qual o compositor escreveu na revista Gazeta Musical um artigo que será abordado em futuro post.

 

 

 

 

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*Na web em português aqui e EN-FRA-RU-ESP-HUN

 

trailer do documentário aqui

 

facebook aqui

 

 

 

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3.12.14

 

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 Adriaen van Utrecht, Vanitas: still life with bouquet and skull c.1642

 

 

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Diques e barba rija

 

 

O meu filho holandês diz-me que na sua terra começaram este ano a nascer bebés cuja média de vida se prevê venha a ser de 120 anos e que — palpita-me — medirão, também em média, 2 metros de altura. A pátria dos heróis de Srebrenica dá pelo nome de Países Baixos não devido à estatura dos seus habitantes mas ao facto de um terço do território ter sido conquistado ao mar, estar abaixo do nível deste e ser protegido de inundações fatais por laboriosa teia de diques mantida em ordem por vigilância constante. Deus fez o mundo e os holandeses a Holanda.

 

Viver sob tal espada de Dâmocles estimula prudência e o sentimento de que pode ser preciso partir o mealheiro de um momento para o outro; com o dinheiro não se brinca. Fantasias arriscadas evitam-se: na Primeira Grande Guerra o país conseguiu ficar neutro; no fim dela acolheu o Kaiser deposto que em 1941 lá morreu feliz, convencido de que Hitler triunfaria. Na Segunda, invadido pela Alemanha, foi de todos os países europeus ocupados aquele cujas autoridades colaboraram mais eficazmente com os nazis no plano de exterminação dos judeus. Depois da vitória de 1945, a Rainha voltou para a Haia do exílio em Londres e o país foi um dos fundadores da OTAN e do que é hoje a União Europeia. Tornou-se, por comparação com os vizinhos, um paraíso para minorias —  desde transsexuais a sírios maltratados. Modelo de democracia e protecção dos direitos humanos, defende com unhas e dentes os seus interesses comerciais, seja onde for no mundo. Perante Israel, na Europa só os alemães os batem em culpa. Há uns 20 anos, o ministro dos estrangeiros anunciou-me que o lema da política externa holandesa era: “Paz e lucros”.

 

Foi feixe de contradições assim que levou Jaime Gama a dizer-me um dia “Você sabe? A política externa holandesa faz-me nojo”. Simon Schama, com visão de historiador, encontrou melhor fórmula para a inquietação das almas naquele canto da Europa: “O embaraço da riqueza”. A mim “Paz e Lucros” como lema para quem queira prosperar no mundo sem fazer muito mal aos outros, parece honesto e sensato.

 

Quanto a longevidade, não sei se há prospecções feitas para Portugal e, se as há, que números dão. Palpita-me que não deitaremos tão longe na idade (como me palpita que não seremos tão altos). Antes assim, dado que, a menos que se decretem eutanásias etárias — impopulares em princípio e conflituosas na aplicação — o comer dos velhos custará cada vez mais ao trabalho dos novos. Teremos, em todo o caso, de temperar a vontade (tomar o país ao mar é tarefa de todas as gerações; tomá-lo aos mouros foi de duas ou três) - ou de desfeitear as estatísticas, como o meu amigo Zé, hospitalizado com coisa má, a quem telefonei outra vez.

 

Vai na terceira sessão de quimioterapia. “E então?” “Disseram-me que ia perder o cabelo todo mas não me caiu nem um”. Riu-se e acrescentou: “A barba é que se pôs a crescer, rija como nunca antes”. Ah grande Zé! Fossemos todos como tu e a Pátria estaria salva.

 

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26.11.14

 

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 Nuba, 1962-77 © Leni Riefensthal

 

 

 

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Contas às vidas

 

 

Leitora atenta acha que reflexão sobre os ricos e os pobres tem muito que se lhe diga e é bastante complicada aos seus olhos. “É que para mim os ricos somos nós todos aqui no Ocidente, brancos, a quem não falta água quente para tomar banho e comidinha no prato, assediados por aqueles que se metem em barcaças e morrem à média de 5 por dia para tentar cá chegar (números de 2007, hoje devem ser mais). Assim, aos meus olhos, é tudo relativo em termos de desigualdade aqui por estas nossas bandas”.

 

Nem de propósito. Estudo apresentado quinta-feira passada por um grande banco suíço e uma agência de conselho a afortunados mostra que os cerca de 211.000 “ultra-ricos” deste mundo continuaram a prosperar em 2014 e detêm hoje 13% da riqueza mundial. O seu número aumentou de 6% e o seu património de 7%, chegando ao equivalente do dobro do PIB dos EUA. Estes ricos-ricos — patrimónios superiores a 30 milhões de dólares por bico — representam só 0,004% da população adulta mundial e compraram 19% dos produtos de luxo vendidos o ano passado. Enriqueceram ainda mais graças à boa saúde das bolsas — apesar de conflitos geo-políticos, tensões sócio-económicas, volatilidade dos mercados financeiros. Embora na Ásia vivam 46.635 deles — e tenham este ano aumentado em África mais do que noutra partes do mundo — concentram-se nos Estados Unidos (74.865) e na Europa (61.820).

 

Como, graças ao Estado providência, o fosso entre pobres e ricos na Europa é e será por muito tempo muito menos fundo do que noutros continentes, a minha amiga parece ter razão e os europeus deveriam ter vergonha e deixarem de se lamuriar.

 

Só que, como ela diz, a reflexão é complicada. Há quase 50 anos, tinha Portugal um Império Colonial e a Guerra Fria pautava o mundo, já a destruição criadora fazia das suas ao ponto do Luís Monteiro se gabar de ser um “nouveau-pauvre”. (Se estava convencido disso ou não, não sei. O Luís - de “Um homem não chora” e de “Felizmente há luar” - era mitómano, o que emaranhava a conversa: “A verdade, Zé, é uma água muito quente onde eu de vez em quando meto um dedo a ver se ainda queima, e ainda”). Seja como for, riqueza e pobreza extremas assustam à primeira vista mas depois a gente habitua-se; números como os que vão acima são difíceis de entender, como seriam os da fome e do analfabetismo — não é da leitura de estatísticas que bem estar ou mal estar vem. Os termos de comparação são o ano passado e o vizinho do lado. Os europeus veem que os seus vizinhos estão todos tão mal ou pior do que eles e percebem que — pela primeira vez há um par de séculos — os filhos vão passar pior do que os pais (sem sequer, ao contrário do que acontece noutros cantos do Mundo, fé descabelada em Deus que lhes engane a fome).

 

Uma achega mais à complicada reflexão. Enquanto, desde 2008-10, a Europa se atasca, roçando agora a deflação, milhões e milhões de pessoas no mundo inteiro passaram a comer todos os dias e para elas o século XXI é cornucópia de abundância.

 

 

 

 

   

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19.11.14

 

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Ricos e pobres? Outra vez?

 

 

You never actually own a Patek Philippe. You merely look after it for the next generation — “Nunca se é de facto dono de um Patek Philippe. Olha-se meramente por ele até à geração seguinte”. Anúncio reconfortante de marca suíça de relógios de luxo, fundada em 1851, posto em jornais e revistas de língua inglesa. Nem sempre acontece mas é boa lembrança.

 

La propriété c’est le vol — “A propriedade é o roubo” sentença alarmante do agitador francês Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865) que, diz o Dicionário Prático Ilustrado de Lello & Irmão – Editores, “preconizava revolução social que salvaguardasse a igualdade dos indivíduos e a sua liberdade; este socialismo libertário e antiestadístico opõe-se ao marxismo”. Verdades como punhos. Os marxistas do meu tempo de estudante em Lisboa consideravam Proudhon um pateta perigoso – não havia o próprio Marx chamado às ideias dele ‘A Miséria da Filosofia’? — mas, na santa simplicidade dos seus verdes anos, gostavam de achar que a propriedade (salvo a deles) era mesmo roubo. Tique fundo que muitos guardaram toda a vida. Há poucos anos, grande figura do socialismo espanhol, génio político estimado em todo o mundo, a quem perguntei se novo ministro conservador do seu país fizera a fortuna ou a herdara, respondeu: “É igual; se não foi ele a roubar foi o avô!”

 

Na Europa Ocidental da Guerra Fria, rica, cheia de bazófia moral, protegida de males interiores pela prudência de patrões, sindicatos e governos — não fosse o urso soviético inspirar bicharada local — e de males exteriores pelo escudo invisível do arsenal nuclear americano — não fosse o urso soviético perder a cabeça e pisar terreno proibido — nessa Europa Ocidental as famílias clientes do relojoeiro de Genebra e os igualitários de pacotilha tocados pelo filósofo de Besançon, coincidiam contentes e arranjava-se sempre um resto de petisco para quem tivesse chegado atrasado à mesa.

 

Bons tempos que já lá vão — amigos bálticos, polacos, checos, eslovacos e húngaros me perdoem — e não se vê jeito de poderem voltar, mesmo quando as leitoras mais novas já forem velhinhas. Sem Mal contra o qual se medir, o nosso Bem vacila e desconcentra-se. A União Soviética deu cabo de si própria e, por muito que Putin barafuste, agrida e ofenda não consegue meter-nos o medo que deveríamos ter dele. Acabou o inimigo comum e com ele de nós se foi o que faz a alma poder ser de herói (para roubar linhas ao homem da Abel Pereira da Fonseca). Quanto aos americanos — dizia Churchill — encontram sempre a solução boa de um problema depois de terem tentado todas as outras. Desta vez ainda vão nessas.

 

O colapso do comunismo não foi a erradicação de uma doença, foi o fracasso de um remédio. Por não termos percebido isso entrámos numa voragem que alarga o fosso entre ricos e pobres e nos volta uns contra os outros como não havia acontecido desde os anos que levaram à subida de Mussolini e Hitler ao poder e, mais perto de cá, à Guerra de Espanha.

 

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12.11.14

 

Mother-and-Child-with-Orange-1951.jpgMother and Child with orange, Picasso 1951

 

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Tiago, 4 anos; Europa, 2.500 desde o Século de

 

Péricles.

 

 

 

Garantem-nos que desta vez é mesmo a decadência do Ocidente e a passagem da Europa de cavalo a burro. Em tempo real, sem anestesia. E com rol de queixas: aquecimento global; envelhecimento debilitante; deflação; Ébola e outras pandemias; Rússia que quanto mais come mais vontade tem de comer; sarracenos matando-se uns aos outros em nome de Deus com sanha que tínhamos esquecido (e a decapitar alguns de nós para nos avivar a memória); China – Perigo Amarelo! - a dar má vizinhança marítima e a despejar sobre nós cada vez mais bugigangas que fabrica; zaragatas que dantes não havia ou de que não nos dávamos conta; os bárbaros às portas da cidade — tudo afogado no saber digital como pêssego em calda. Que mundo vamos nós deixar aos nossos filhos? — afligem-se pais e mães.

 

O pai do Tiago fez a pergunta contrária: “Que filhos vamos nós deixar ao mundo?”. Estavam a passar uns dias connosco e nisto de pais com filhos pequenos ficou-me de exemplo a resposta recebida há 20 anos da mulher do meu chefe de gabinete. Era domingo, ainda não havia telefones portáteis, eu precisava de falar com ele, liguei o número de casa e inqueri quando ela atendeu: “Como vai a mãe feliz de duas crianças extraordinárias?” “Desculpe, Senhor Embaixador. A mãe extraordinária de duas crianças felizes.”

 

Tiago é uma criança feliz e a felicidade é contagiosa. O restaurante onde os levámos na sexta-feira tem três salas e a certa altura parlamentou com o pai licença de ir espreitar a que não se via bem da nossa, perto da cozinha. Voltou de olho a brilhar - “Há uma festa!” anunciou, disse que lhe tinham dado um beijinho e quis lá tornar com a mãe. Foram, voltaram, o jantar continuou e de repente, pelas minhas costas chegou à nossa mesa redonda grande fatia de bolo de chocolate, trazida ao Tiago num prato de sobremesa por mulher bonita, alta, de longos cabelos louros, confiante, rendida ao sedutor de 4 anos, e que a seguir voltou, alegre, para a sua festa de anos.

 

E a decadência do Ocidente? Há cada vez mais velhos na Europa e, como Helmut Wohl me disse já há muitos anos, os violinos e os vinhos melhoram com a idade; os pianos e as pessoas pioram. Por muito que se queira contentar a terceira idade, o contentamento não é natural nela. Infelizmente, como em quase todos os países europeus — com saudável excepção da França — todos os anos morrem mais pessoas do que nascem, o velho continente ocupa lugar cada vez mais pequeno no mundo. Mas, enquanto houver mães e pais admiráveis de crianças felizes, que não perguntem que mundo vão deixar aos filhos mas que filhos vão deixar ao mundo, crianças contentes na descoberta da vida desmentirão a decadência do Ocidente.

 

Em Portugal há mais. Tiago e os pais ficaram cá em casa por eu ser padrinho da mãe dele. Amigo que os trouxe do aeroporto não pôde depois levá-los por ir a Lisboa ao baptismo de um sobrinho. Retornados em 75, austeridade agora, férias — a família cobre tudo.

 

 

 

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5.11.14

 

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Raio de vizinho!

 

 

Vladimir Putin insiste em provocar o Ocidente. Para ele o colapso da União Soviética foi a maior-catástrofe geopolítica do século XX. Oficial da antiga KGB, disfarçara esse ressabiamento durante muitos anos e Yeltsin que, de seu livre alvedrio, dissolvera a União Soviética de cima para baixo sem derramamento de sangue, designara-o seu sucessor. Fê-lo como quem, para escolher um melão, o provasse primeiro. Nos seus últimos anos de Kremlin, preocupado com o futuro da democracia na Rússia – Yeltsin era instintivamente um libertário - e com o futuro da família, enleada em negócios com grandes zonas de sombra que sucessor mal inspirado poderia querer investigar e punir, foi nomeando primeiros-ministros a ritmo acelerado, descartando depressa o primeiro, pouco tempo depois o segundo, e ungindo o terceiro seu herdeiro presuntivo. Assim Putin chegou ao Kremlin e, quer ainda em vida de Boris Nicolaievich quer depois da sua morte, a família Yeltsin – parentes e afins - nunca foi inquietada. Quanto à democracia, como se sabe, a conversa tem sido outra.

 

Movido por ambição de restaurar grandezas passadas – para o efeito, Rússia e U.R.S.S. são a mesma coisa (De Gaulle, que percebia a História, nunca dizia l’Union Soviétique; dizia sempre la Russie) – o apetite de Putin foi confortado pelos egoísmos moles dos europeus e pela falta abananada de chefia dos Estados Unidos que está a deixar o mundo sem rei nem roque. E passou das palavras aos actos (mirando al tendido: no dia seguinte ao inquilino da Casa Branca, dando o dito por não dito, desistir de bombardear a Síria, o inquilino do Kremlin publicou artigo de fundo no New York Times a explicar-lhe benevolamente como se devia mandar no mundo). Depois, sem estados de alma, ocupou ilegalmente a Crimeia, organizou referendo a mostrar que era o que os indígenas queriam e alimenta a dissidência na Ucrânia Oriental, reconhecendo voto ilegal lá efectuado Domingo, negando sempre (ele e acólitos, incluindo o MNE Lavrov, apparatchik todo-o-terreno) a participação de soldados russos; mentindo tanto que até Angela Merkel perdeu a paciência.

 

Há dias apertou mais a tenaz. Aviões militares russos, alguns capazes de transportarem bombas atómicas (a que pulverizou Nagazaqui, era de 21 kilotões; as russas de hoje são de 200) violaram espaço aéreo europeu do Mar Báltico ao Mar Negro. Não submeteram planos de voo e iam de transponders desligados – isto é, além de querer acobardar os Aliados perante ataque eventual a um dos Bálticos, a fanfarronada teve riscos próprios – lembre-se a morte de Christophe de Margerie num aeródromo de Moscovo, por bebedeira e inépcia do pessoal de terra.

 

O novo secretário-geral da OTAN, norueguês temperado por curta fronteira com o Urso, talvez ajude a endireitar as espinhas vergadas de Bruxelas e de Washington. Valha-nos isso ou milagre de S. Jorge – senão o dragão moscovita pintará a manta enquanto lhe der na real gana. 

 

 

                                        

link do postPor VF, às 08:01  comentar

29.10.14

 

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Sempre a desaprender

 

Há quase vinte e um séculos, entre salvar o assassino Barrabás e salvar o Messias Jesus, gente da terra de ambos que os conhecia bem preferiu salvar Barrabás. Em 1933, o partido de Hitler foi eleito em escrutínio livre e limpo.

 

Os desígnios de Deus são insondáveis (se Jesus não houvesse sido crucificado não teria havido cristianismo) mas os factos permanecem, nus e crus como a verdade. A voz do povo nem sempre é a voz de Deus ou, em versão adaptada aos nossos costumes políticos, a democracia pode dar para o torto. Mas dá para o torto muito menos vezes do que as tiranias, teocracias e cleptocracias que vemos à nossa roda. Como em tantas outras coisas, foi Churchill quem encontrou a fórmula certa, muito lembrada agora que condenações da decência do nosso viver se afirmam de novo, banha da cobra lembrando a dos fascistas dos anos 30 do século passado: “A democracia é a pior forma de governo que há, tirando todas as outras”.

 

Em Portugal não há ameaços de criação de uma extrema-direita significativa, a meu ver porque a enorme popularidade de Cavaco Silva, no seu primeiro mandato de Primeiro-Ministro, absorveu como uma espécie de mata-borrão cívico os pingos neo-fascistas mais radicais que haviam tentado confrontar o PREC e haviam persistido depois, aqui e além, sob os primeiros governos constitucionais. Tudo isso entrou de cambulhada, até hoje, no grande leque da direita parlamentar, bentinha pelo regime e, por aí, não há quem ponha em risco a Terceira República. Não porque nós, os portugueses, sejamos menos egoístas, menos racistas ou mais morais do que os nossos vizinhos e comparsas europeus. Remontamos todos, nós e eles, ao pecado original ou, se não quisermos presumir sobre começos, somos todos talhados em madeira tão torcida que não há um que tenha saído direito. O problema é que o como e o porquê dos portugueses interessam pouca gente porque Portugal pouco pode. Mas em lugares de mais consequência — não na Alemanha, hoje um monumento inabalável de democracia, mas em França, Reino Unido, Países Baixos, Suécia, Finlândia — direitas pouco salubres crescem como bambus e obtêm apoios de alto-a-baixo nas sociedades, (incluindo, em França, entre antigos eleitores comunistas). Os chefes dessas direitas querem expulsar os imigrantes, sobretudo muçulmanos; ‘proteger’ as economias nacionais no mundo globalizado para lá de todo o bom senso; descriminar contra minorias; alguns disfarçam mal antissemitismo renascente que chega a pôr em dúvida o Holocausto. Sondagens mostram subida constante de popularidade, confirmada em eleições parciais, prenunciando mesmo possibilidade de conquista da Presidência da República em França. As semelhanças com o que se passou na Europa dos anos trinta deviam meter medo e mobilizar os defensores da democracia na Europa de hoje.

 

Não é luta fácil. Mesmo os dois casos acima podem ser virados do avesso: os alemães mataram os judeus; os judeus mataram Jesus Cristo. A luta continua.

 

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