31.8.14

 

 

  Simon Leys / Pierre Ryckmans

 

 

 

La Chine a connu ces dernières années de prodi­gieuses transformations. Elle est en passe de devenir une super-puissance — sinon la super-puissance. Dans ce cas, elle sera — chose inouïe — une super­puissance amnésique. Car, jusqu'à présent, sa miracu­leuse métamorphose s'effectue sans mettre en ques­tion l'absolu monopole que le Parti communiste continue à exercer sur le pouvoir politique, et sans toucher à l'image tutélaire du président Mao, sym­bole et clé-de-voûte du régime. Et le corollaire de ces deux impératifs est la nécessité de censurer la vérité historique de la République populaire depuis sa fon­dation : interdiction absolue de faire l'histoire du maoïsme en action - les purges sanglantes des années 1950, la gigantesque famine créée par Mao (dans un accès de délire idéologique) au début des années 1960, et enfin le monstrueux désastre humain de la «Révolution culturelle » (1966-1976). Treize ans après la mort du despote, le massacre de Tianan-men (4 juin 1989) est encore survenu comme un post-scriptum ajouté par les héritiers, pour marquer leur fidélité au testament laissé par l'ancêtre fonda­teur. Mais ces quarante années de tragédies histo­riques (1949-1989) ont été englouties dans un « trou de mémoire » orwellien: les Chinois qui ont 20 ans aujourd'hui ne disposent d'aucun accès à ces infor­mations-là — il leur est plus facile de découvrir l'his­toire moderne de l'Europe ou de l'Amérique que celle de leur propre pays.

 

Quelle sorte d'avenir peut-on bâtir sur l'ignorance obligatoire du passé récent? «Ce qui peut constituer le plus grand obstacle empêchant la Chine de devenir un pays moderne au meilleur sens du mot, c'est sa volonté de maquiller et de récrire l'Histoire, tout par­ticulièrement, l'histoire de la "Révolution cultu­relle" », remarquait tout récemment le journaliste Jonathan Mirsky, perspicace observateur de l'actua­lité chinoise.

 

Mais la métaphore la plus éloquente de la situa­tion présente est encore ce Coma de Pékin évoqué par Ma Jian: le protagoniste du roman (une création particulièrement puissante de la littérature chinoise contemporaine) est un jeune manifestant décerveié par une balle perdue de Tiananmen, qui flotte, para­lysé, muet, sourd et aveugle, dans un coma sans fin.

 

 

Simon Leys

in Le Studio de l'inutilité

[Relire l'histoire de la « Révolution culturelle »Intoduction à la réédition des Habits neufs du président Mao (Ivrea 2009)]

© Flammarion 2012

 

 

Mais sobre o Autor aqui e aqui

 

 

 

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27.8.14

 

 

 

Brasão da Cidade de Évora

 

 

 

 

 

 

Decapitações

 

 

O brasão da minha cidade natal representa guerreiro a cavalo que levanta na mão direita um montante e segura na esquerda as cabeças, cortadas de fresco e agarradas pelos cabelos, de um homem e de uma mulher. É Geraldo Geraldes, o Sem Pavor, que para recair nas boas graças do rei D. Afonso Henriques que o banira da corte lhe ofereceu a tomada de Évora aos mouros. Para isso meteu-se a namorar a filha do vigia que, de uma torre fora de portas, indicava à noite, por sinais de fogo, se hostes que se aproximassem da cidade eram amigas ou inimigas. Ganha a confiança de ambos, organizou bando de gente sua, um serão degolou pai e filha, assinalou à cidade chegada de amigos, o bando cavalgou pela porta escancarada da muralha, matou os defensores num Credo e — Real, Real por El-Rey de Portugal! — Évora passou a ser nossa. Foi um dos momentos altos da reconquista cristã da Península.

 

Consta-me haver agora em Évora quem queira mandar o Sem Pavor para o caixote do lixo da História e inventar brasão que não ofenda correcção política. Espero que tal nunca aconteça. A correcção política liofiliza ditos e feitos de cada um, no afã de transformar a hipocrisia em virtude, e em Portugal agora o efeito é muito pior ainda do que em lugares que não tenham escolhido, como nós, a mediocridade para ambição e a subalternidade como regra de vida. Em anos passados, menos rasteiros, a despedida do trabalho ouvida a uma mulher a dias — “Adeus, parabéns, obrigado e desculpe” —  já me parecera às vezes lema plausível para a política externa portuguesa. Desde então as coisas só têm vindo a piorar, incluindo a nossa aquiescência à adesão da Guiné Equatorial à CPLP que alia incongruência linguística e ganâncias despudoradas a incómodo moral, escusado para quem se proclamou democracia em 1976 e aderiu à Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Há quem goste de dizer que democracias são invenções ocidentais e que há outras maneiras de governantes e governados viverem a contento de todos. Mas a questão não é essa. É que, inter alia, o presidente fundador da Guiné Equatorial, país paupérrimo até à descoberta do petróleo, matou ou forçou ao exílio um terço da população, tendo crucificado adversários políticos dos dois lados de estrada que leva a Malabo e o sobrinho igualmente meio louco que o mandou assassinar e lhe sucedeu, além de manter a opressão brutal não se livra da fama de ter comido (literalmente) opositor exilado em Madrid que resolvera, insensatamente, voltar à pátria. Eu sei que tivemos o casal Ceaucescu em Queluz - mas que Diabo…

 

Voltando a decapitações. Lamentavelmente, as reacções dos Estados Unidos e da Europa às façanhas do Estado Islâmico do Iraque e da Síria e do seu Califa de Rolex no punho têm sido sobretudo retóricas, o que é erro perigoso. Os americanos começaram bombardeamentos; esperemos que os continuem; que aliados aptos a fazê-lo se lhes juntem e que deixem por fim o EIIS como Roma deixou Cartago – arrasada e sem ninguém. 

 

 

 

Imagem aqui 

 

 

 


23.8.14

 

 

 

 Casa de Alvellos, Freixo de Baixo c. 1920

 

 

 

Casa de Alvellos, Freixo de Baixo, c. 1930

 

Da esqª para a dtª : Hugo Belmarço e Maria José Barros da Costa Belmarço, criança não identicada, Maria de Lurdes da Costa Belmarço, homem não identificado, Ana Maria Barros da Costa Morais, Pedro Alvellos, Manuel José da Costa Belmarço, Jorge Morais.

 

 

 

 

 

Maria José e Ana Maria Barros da Costa eram filhas dos viscondes de Alvellos, segunda e último a contar da esquerda nesta fotografia.

 

 

 

Posts relacionados:  

 

 

 

 

Fotografias gentilmente cedidas por Isabel Belmarço de Mello e Castro a quem muito agradeço.

 

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20.8.14

 

 

 

 Tony Silva em "O Tal Canal" de Herman José, RTP 1983/1984 

 

 

 

 

 

O rame-rame

 

 

 “Que lentement passent les heures/Comme passe un enterrement./Tu pleureras l’heure où tu pleures/Qui passera si vitement/Comme passent toutes les heures” rimou Apollinaire na cadeia, acusado injustamente de cumplicidade no roubo da Gioconda do Louvre em 1911. (O Secretário de Estado das Belas Artes quisera matar-se. Roubo parecido na Europa de hoje levaria governante equivalente a dizer logo que a culpa não fora dele mas em 1911 havia honra — talvez até houvesse demais: três anos depois, os Imperadores da Alemanha, da Áustria e da Rússia, o Monarca constitucional do Reino Unido e o Presidente da República Francesa mandaram os europeus irem matar-se uns aos outros. E eles foram, a rir e a cantar). No devagar depressa dos tempos, chamou Marcello Mathias, com vénia a João Guimarães Rosa, aos diários que foi publicando.

 

Agosto vai escorregando pela ravina que leva a Setembro. Consta-me que de Carnide se vê um país cada vez mais triste: quem ande fora tem medo de cá voltar. Que da Quinta da Marinha se descobre que o mal chegar a alguns não faz bem a ninguém. Que entre os pobres de pedir as coisas vão melhor: já não os há como no tempo de Raúl Brandão e na versão moderna, com salários, subsídios e pensões abaixo da fasquia dos cortes e a vida levantada como um barco pela maré tecnológica — ecografias, mezinhas, baixas — mesmo se meninas e meninos forem para a escola em jejum esfomeado, nunca estiveram tão bem. Já quase todos têm posses para comer manteiga de vaca. Tirando o percalço de África e os descaros libertários e libertinos de Internet & Cia o Dr. Salazar, se voltasse agora, não estranharia muito o país.

 

Como no resto da Europa, falta grandeza. Dos nossos dois maiores políticos, Francisco Sá Carneiro morreu cedo demais e Mário Soares — a quem os portugueses devem mais do que a qualquer outra pessoa, incluindo o general Eanes, terem sobrevivido ao 25 de Abril em democracia — desbarata crédito em retórica disparatada de há dez anos para cá. Como no resto da Europa, quem manda tem a visão do saguão e o instinto da escada de serviço. Existirá alguém com cabeça e temperamento que nos arranquem deste rame-rame?

 

Há muitos anos, o dramaturgo Augusto Sobral inventou a “Adivinha” seguinte: “De meia tigela veio/E ficou meia tigela./Ficou a tigela em meio/Porque era meia tigela.” Podia ter sido inventada antes. Em 1963 pequeno proprietário, grande na sua aldeia alentejana, disse-me: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. E em 1834 a Câmara do seu concelho, miguelista como quase todas as câmaras durante a guerra civil, escreveu à Rainha D. Maria II afirmando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fiéis”.

 

Fará mesmo falta animar a malta? Valerá a pena?

 

                                                                                                                                                                                                               

 

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Vasco Luís Futscher Pereira

3 de Fevereiro de 1922 — 20 de Agosto de 1984

 

 

 

Brasília, 10 de Agosto [1974]

 

Almoço com o Vasco Futscher no Clube Naval.

 

Rosto glabro e redondo e olhar de sapo por detrás duns óculos onde palpita viva e ágil a retina bombeada do míope. Grande falador de riso fácil e de uma extrema simpatia natural. Tudo lhe desperta curiosidade.

 

Ostenta um instintivo gosto pela vida alimentado, ao contrário de muitos, pela cultura e a inteligência. Uma ponta de obesidade confere-lhe uma certa inteireza física acentuando-lhe a espontânea jovialidade. Quando sorri, e sorri com frequência, as bochechas sobressaem à maneira dum boneco animado, arredondando-lhe a face e a expressão reboluda do olhar.

 

A primeira impressão é a de que não poderia ter havido melhor escolha. Calhado para o Brasil, como outros o são para a Finlândia ou a Indonésia. O Brasil, que não conhece, surge-lhe como uma experiência inteiramente nova que ainda o anima e seduz, pois é homem, se não me engano, de entusiasmos repentinos.

 

Diz-me, no entanto, ter ficado horrorizado com o que lhe contou o Castelinho1, com quem jantou há dias, acerca da intensidade e polivalência aqui da repressão política a cargo simultaneamente de diversos organismos, que agem por conta própria, cada um dis­pondo de sua gente e actuando por sua iniciativa.

 

[...]

 

Voltando ao Brasil, falei-lhe da relação essencialmente freudiana que ainda hoje liga - ou separa? - o Brasil e Portugal. Quem teimar em encarar este país com o olhar peregrino do portuga, e não perceber a ambiguidade de sentimentos que o brasileiro nutre para connosco, arrisca-se a cometer grossa asneira e a nada entender desta terra e desta gente.

 

Na verdade, nada mais ilusório do que partir do princípio de que a matriz lusíada, por si só, será suficiente para preservar os laços da tão apregoada comunidade luso-brasileira.

 

[...]

 

O embaixador limitou-se a ouvir-me e apenas citou, como prova do contrário, dois exemplos: o caso do Estado de São Pauloe a proliferação de clubes Eça de Queirós disseminados por todo o Brasil. «Veja só o imenso capital de simpatia que isso representa para connosco se o soubermos aproveitar com um mínimo de in­teligência.»

 

Levantou-se — já não sei que horas eram... e quantos cafés ha­víamos ingurgitado — e com um sorriso paternal, pousando-me a mão no ombro: «Deixe lá, homem, não se preocupe, não seja tão pessimista, ainda há por aí muito caturra que gosta de nós.»

 

 

Marcello Duarte Mathias

in Os Dias e Os Anos

© D. Quixote 2010

 

 

1.Carlos Castelo Branco, mais conhecido por Castelinho, ao tempo influente editorialista do Jornal do Brasil.

 

2. Nessa altura, o Estado de São Paulo um dos jornais mais prestigiados, inseria em substi­tuição das partes censuradas, consoante a maior ou menor extensão das mesmas, extrac­tos de Os Lusíadas, assinalando assim os cortes de que era objecto.

 

 

Foto: Francisco Silva Fernandes

 

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17.8.14

 

Duas fotografias do álbum do Brasil, de finais do século XIX. O álbum pertenceu a meu tio-avô António Guilherme de Barros Pereira de Carvalho (1893-1939) e chegou-me do Brasil setenta anos depois da sua morte pela mão generosa de Maria Amália Fragelli, que o conservou depois do desaparecimento da única descendente directa de António Guilherme, Stella Maria Pereira de Carvalho

 

           

 

 Brasil, finais do séc. XIX

 

 

 

 

Aninhas, finais do séc XIX

 

 

A menina encostada ao mastro pode ser Ana Maria Barros da Costa Morais, prima de António Guilherme e de Guilherme Júnior, meu avô materno, cujo retrato se encontra na página anterior do álbum e aqui.

 

 

 

 

 

 

Leia mais sobre O álbum do Brasil

 

 

 

Outras fotografias do álbum do Brasil nos posts

 

dispersed relatives

 

A Écloga e a Epopeia (2)

 

Criança (1896)

 

Casa da Mogada (2) 

 

Criança (c.1890)

 

 

 

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13.8.14

 

 

 

 Paula Rego - A dança

 

 

 

 

 

Quem sabe, sabe.

 

 

Entre as duas guerras (a de 1914-1918 e a de 1939-1945, lembro às leitoras mais novas), a propósito da explosão de exibicionismos que borbulhavam nas années folles, André Gide (francês e Prémio Nobel da literatura em 1947, lembro às leitoras menos dadas a leituras) dizia ver à sua volta mais artistas do que obras de arte. Nessa altura não havia nem internet nem twitter nem facebook nem blogs e, com o que hoje se chamam plataformas a coisa mais parecida seria o cinema, que Meliès e os manos Lumière tinham solto em Paris e vingara na Europa e nos Estados Unidos como a prole de um casal de coelhos na Austrália — mas hedonismo, egotismo e narcisismo são antigos e para lhes dar asas cada uma sempre usou o que tivesse à volta (ensimesmada: quando perguntaram às águas do lago se Narciso era mesmo belo, estas responderam que não sabiam porque quando ele vinha olhar-se nelas, elas aproveitavam para se olharem a si próprias nos olhos dele — ou, pelo menos, foi o que Oscar Wilde contou, não sei se antes se depois de ter conhecido Gide em Paris, onde viria a morrer. O mundo é pequeno).

 

De artistas e de obras de arte pouco ou nada sei mas há mais de dez anos virei comentador e, de silêncios aconchegados, longe da balbúrdia pátria, vou mandando bocas. Agora, chegado no começo do mês de Bruxelas, lendo os jornais e olhando para o que Conchita Cintrón chamava la pantalla chiquitita, suspeito que neste maravilhoso país que tão generosamente acolhia Freddy Kotter no seu seio a algazarra dos comentadores cobre de uma espécie de smog as coisas a comentar. Não é que estas faltem — desde o esforço vão do governo para transformar os portugueses em alemães (por via fiscal, ainda por cima) com Herr Gaspar, primeiro, e Frau Albuquerque, depois, a encaminharem-nos com um vasculho, como dantes os vendedores de perus pelas ruas de Lisboa, até à sanha súbita contra várias gerações da família Espírito Santo, reminiscente do azar dos Távoras — mas, bombardeadas pela cacofonia pátria, essas coisas e outras de menor porte deformam-se como as nossas caras na galeria de espelhos de uma feira de diversões.

 

Disse à Vera, dona do blog, que estava a pensar deixar de escrever o Bloco-Notas mas ela disse-me que eu não podia fazê-lo e que o mundo agora era assim, que todos podiam deitar palavra e que havia leitoras para tudo quanto se escrevesse. É, com efeito, um pouco tarde para protestar contra o ensino obrigatório, contra enciclopédias que anunciam à cabeça não garantirem que a informação que nos dão seja verdadeira e contra o ulular desafinado dos comentários de nós todos. Mas eu sou um pequeno-burguês de Évora e às vezes sinto-me como patrício meu, sentado sobre tábuas pousadas em tripés na primeira fila de um circo de província. A gaiola dos leões desconjuntou-se, o público saltou para fugir, e o meu patrício com as partes pudendas entaladas entre duas tábuas, sem se poder levantar, gritou: “Sentem-se, caralho, que os leanitos nã fazem mal”!  

 


6.8.14

 

 

 

 

 Corridinho algarvio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Cá em cima está o tiro-liro-liro…

 

 

Dantes, era tudo mais simples. Em Janeiro de 1975, vindo de Londres, dei por mim no Rocio ao fim de um dia de encontros, com hora e meia antes do encontro seguinte e fui comer um bife ao Nicola.

 

“Que cervejas tem?”

“Tenho todas.”

 

Havia cinco cervejas no mercado lisboeta e o resto ia à proporção — mesmo depois de entremeados os Capitães de Abril que em 1974, na peugada dos seus camaradas de 1926 e 1910, tinham virado de pernas para o ar a política na Pátria. Chão que deu uvas. Os golpes de estado agora são mudanças ordeiras e burocráticas, supervisadas por Bruxelas e Berlim, e o povo come e cala — já mandava Salazar… — porque se não calar, não come.

 

Em Janeiro de 1993, quando Clinton se tornou presidente dos Estados Unidos, havia 50 páginas na Internet. Hoje há milhões; amanhã haverá milhões de milhões. Google, redes sociais, twitter, tabletes, Skype, telefones: a bisbilhotice cacofónica não pára. Em raros sítios espertos e felizes o cliente tem sempre razão, os eleitores defendem-se bem dos eleitos, a justiça consegue ser independente, todos os sexos e todas as fés coexistem e o tempo dos humanos, curto no tempo do Universo, corre com mais bem-estar do que mal-estar.

 

Em sítios menos felizes “a dor humana busca amplos horizontes/ E tem marés de fel como um sinistro mar” (disse o Poeta). E, como o apetite por desgraças alheias é insaciável, em pouco mais de 100 anos passou-se de cantigas de cegos na rua que, nos casos céleres corriam o que corre um cavalo a galope (em 1815, a notícia da vitória de Wellington em Waterloo só chegou a Londres quatro dias depois da batalha) para partilha imediata de imagens e sons, com repórteres dando-nos a conhecer à hora de jantar o pior da maldade humana. Com canais e agências em concorrência desenfreada. Com homens, mulheres e crianças cheios de água na boca à espera dos desastres do dia. Tudo isto, mais o inventado em jogos e fantasias que embotam e ensandecem almas.

 

Entretanto, nós por cá todos bem. O 25 de Abril dera-nos sensação de centro do mundo que não experimentávamos desde o tempo de D. Manuel “O Venturoso”, quando havia em Lisboa cinco perfumadoras de luvas por cada mestre-escola. Essa falsa centralidade esvaiu-se, voltamos ao rame-rame triste, chegou a miséria da troika, mas vimo-nos livres desta e o governo começa a impressionar. De entrada — contra mundo — lembrava os liberais de D. Pedro IV, cercados no Porto por país miguelista. Agora poder e povo começam a entender-se, sendo abatidos pelo meio interesses de corporações, de seitas, de famílias. Será desta?

 

Para mudar a História, não chega. Era preciso fazer cantar nas escolas:

 

em cima está o tiro-liro-liro,                                                                  

em baixo está o tiro-liro-ló”

 

a ver se acabavam de uma vez séculos de vocação de mó de baixo em Monarquias, República, Estado Novo e Democracia.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

 

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2.8.14

 

 

 

S. João do Estoril , Portugal. Princípios do século XX

 

 

As nossas férias eram passadas em S. João do Estoril em Agosto e em Ferreirim em Setembro. Para S. João em geral vínhamos de comboio, o que não era complicado ou demorado. As poucas vezes que viemos de táxi o que me impressionava era a estrada ser tão abaulada, diziam que era por causa da chuva... como era estreita, e tinha dois sentidos, o carro desviava-se para a berma, e os que vinham em sentido contrário passavam melhor! Em cada Verão o meu Avô contratava o Sr. Feliciano (dono de um táxi) que era muito simpático, para nos levar a passear a Sintra. A Avó Alda gostava muito da frescura de Sintra, o passeio era sempre o mesmo, e só íamos uma vez. Assim era uma tarde muito desejada, que me dava um enorme gozo e prazer...

 

Tudo o que havia "de melhor" era usado em Lisboa, o menos bom no Estoril, e o mais velho e estragado ia para Ferreirim. A minha Mãe aproveitava tudo e por vezes ficávamos surpreendidos como "tudo fazia jeito" nos Buxeiros...!

 

Na praia da Poça tínhamos um grande grupo de amigos. As casas eram alugadas ao ano, e assim as famílias vinham para as mesmas casas todos os anos.

 

Poucos tinham casa própria.

 

 

 

 

S. João do Estoril , Portugal. Meados do século XX

Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Horácio Novais, 1930-1980.

 

 

 

 

 

 

José Manuel da Silveira de Sousa

 

 

Também na nossa adolescência, não falhávamos um "sábado á noite" no "Casino Estoril", onde aproveitávamos para dançar... Sempre gostei muito  de  vir  para  S. João do Estoril, era divertido. O tempo era muito preenchido e passava rapidamente... tínhamos muitos amigos, uns mais amigos que outros!!!!

 

Alda Rosa Bandeira de Lima Osório Bernardo de Sousa

in  Memórias e Saudades

2011

 

 

Nota: ver também os posts "Chalet Alda" e " Festas e Mascaradas"

 

Agradecimentos: Alda Rosa Bernardo de Sousa, Maria do Rosário Sousa Machado, blog Restos de Colecção, Biblioteca de Arte Fundação Calouste Gulbenkian

 


30.7.14

 

 

 

 Barack Obama       foto: Bauer Griffin 

 

 

 

 

 

 

“Patrão fora…

 

 

…dia santo na loja!” Quando o dizer foi inventado os dias santos eram os únicos feriados que havia. Sem vigilância do patrão, cada um portava-se como lhe dava na real gana. (Na escola também, quando faltava o professor. Lembro-me, no pátio da Valsassina, de intervalo das 11 que nunca mais acabava, até que um voltou da secretaria eufórico: “É pá, não há aula! Morreu a mãe do gajo!”). Se a loja do mundo tem patrão, é Obama e, de há uns tempos para cá, anda tão distraído que há quem julgue que ele esteja fora.

 

De entrada quase ninguém deu por isso. O mundo estava farto de George W. Bush, a querer impor democracia aos outros, sem dor ou com dor, como charlatães de feira dantes arrancavam dentes; da sucessão de desastres militares que lhe couberam por causa disso; da sua fala de pobre de espírito – tornara-se caricatura de presidente americano, desenhada por estudante marxista burro. Em Janeiro de 2009, Obama era alívio que chegava, elegante, sereno, prometendo paz e decência. Discursava bem, com mais jeito para falar à gente do que qualquer dos seus predecessores de que alguém se lembrasse. “É um enlevo ouvi-lo” dizia-me admirador do tempo da primeira campanha eleitoral.

 

Depois de 5 anos de desilusão crescente, o ex-admirador diz agora: “Teria sido “speech-writer” ideal de presidente com jeito para mandar nos seus”. Nos seus e nos outros, acrescento eu, assustado por Putin em Moscovo, Xi na China, feixe de pimpões no Médio Oriente e mais malfeitores a granel, em confrontação com Obama em Washington e com Merkel no ramalhete pusilânime e indeciso dos europeus de que ela é a flor principal. “Lá vamos, cantando e rindo” cantava-se na Mocidade Portuguesa do meu tempo. Salvo jiadistas nas Arábias e entusiastas do Tea Party nas profundezas dos Estados Unidos, não ouço ninguém cantar assim agora.

 

Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos no começo da ascendência destes, fixou a regra de comportamento: “Falar baixinho e andar com um grande cacete”. Passado mais de um século, depois de duas guerras mundiais que aumentaram poder e persuasão dos Estados Unidos no mundo, e da guerra fria cujo resultado vindicou definitivamente a superioridade do capitalismo sobre o comunismo como criador de riqueza e de liberdade, e deixou os Estados Unidos a Hiperpotência, estamos a entrar em terra ignota: Obama na Casa Branca com béu-béu de pirolito e sem querer usar cacete.

 

A China acordou, outros espreguiçam-se. Milénios a fio poderes mudaram e a questão não é essa. A questão é que o alheamento de Obama, a falta de mão firme ao leme, desacredita o poder do Ocidente, garantia de relações entre governantes e governados e entre homens e mulheres muito mais humanas e decentes do que as que escapem à sua influência. Meninas infibuladas, prisioneiros de guerra decapitados, funcionários corruptos abatidos por balas na nuca — com a autoridade de Washington a sumir-se, faltas de respeito e provocações multiplicam-se por esse mundo fora.

 

 

 

 

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25.7.14

 

Folhas dos álbuns de Fernando Lezameta Simões.

 

 

 

 

Rallye de Miramar, 1949

 

 

 III Cintra Rampa 1950

 

 

Capa de um álbum 

  

Veja mais fotografias nos posts

Fernando Lezameta Simões

Cascais (1950)

Ofir (1949)

Rallye Lisboa (Estoril) 1950

Tauromaquia Portuguesa

revolução da arte 

Amália Rodrigues (1949)

 

 

 

Agradeço mais uma vez a Rita Simões Saldanha que disponibilizou generosamente os álbuns do pai para digitaliação e partilha neste blog.

 

 

 

 

Notas:

 

O “II Rallye de Miramar” teve lugar em redor da praia de Miramar (Vila Nova de Gaia) no norte de Portugal, entre 26 e 28 de Agosto de 1949, com partida de Cacilhas. 

 

A prova, promovida pela secção regional Norte do “Automóvel Clube de Portugal”, foi vencida pela equipa formada por Jorge Seixas e Martinho Lacasta, num «Allard» M Type. 

 

Agradecimentos aos blogs HeróisRestos de Colecção e João Saldanha, neto de Fernando Lezameta Simões.

 

 

 

 

 

 

 


23.7.14

 

 

 

 Destroços do voo 17 da Malaysia Airlines próximo de Hrabove, leste da Ucrânia, manhã de 19 de Julho de 2014.

(AP Photo/Evgeniy Maloletka)

 

 

 

 

 

A Cereja no Bolo

 

 

“Primeiro julguei que tivesse sido o Mossad, para distrair a nossa atenção de Gaza” disse a rapariga, sentada de Ipad ao colo. “Mas o que se foi sabendo não dava para isso. Entre russos e ucranianos…”

 

Conversa em Bruxelas, quando não restavam dúvidas quanto à origem do míssil terra-ar que deitara abaixo um avião da Malaysia Airlines com 298 pessoas a bordo sobre o leste da Ucrânia. Mas para muitos europeus dos nossos dias, criados no soft power e na correcção política, a maldade de Israel não tem limites e Vladimir Putin até nem é mau de todo, dada “a sobranceria com que os Estados Unidos trataram a Rússia a seguir ao fim da União Soviética”. Santa simplicidade.

 

Nesse fim de semana, em Paris e noutras cidades de França, numerosos manifestantes solidários com o povo da Palestina, enquanto partiam montras e ameaçavam sinagogas, gritavam palavras de ordem antissemitas — “Mort au juif!” — como não se via e ouvia em França já há muitos anos. (Coincidência de datas: o primeiro-ministro presidiu a cerimónia de desagravo comemorativa da concentração de 13.152 judeus, incluindo 5.051 crianças, num velódromo parisiense — o Vel d’Hiv — a 16 e 17 de Julho de 1942 antes de serem despachados para extermínio em Auschwitz). O antissemitismo francês tem tido altos e baixos.

 

Quanto ao avião da Malásia e a Putin, a verdade veio depressa ao de cima. Entre gabarolices e aldrabices, os rufias da República de Donesk, locais ou mercenários russos, deixaram poucas dúvidas sobre a selvajaria da sua proeza, e meios nacionais americanos de observação (NSA, etc.) revelaram com precisão cirúrgica o que se passara. Em muitas capitais do mundo, o patrão do Kremlin, cuja fanfarronice nacionalista inspirara a desordem armada no leste da Ucrânia — e cuja intendência lhe fornecera logística — é visto como corresponsável pela criação de ambiente propício à prática da atrocidade. Na União Europeia, até alemães e italianos concordaram no endurecimento de sanções à Rússia.

 

Quanto a Gaza, o horror de civis mortos e feridos por fogo israelita continua e continua também a incompreensão do que se está a passar. Gaza, com uma das mais altas densidades de população do mundo, é gigantesco e trágico escudo humano da armadilha onde Israel tem caído desde que se retirou do território em 1994. O Hamas dispara de lá todos os dias foguetões sobre Israel e cava túneis para por eles fazer mais ataques. Quando Israel pretende atingir rampas de lançamento ou quer escavacar túneis mata e fere inevitavelmente civis. A tática do Hamas não é original (em 1992, muçulmanos da Bósnia mandavam morteiros contra sérvios de pátios de hospitais) mas a escala desta vez é épica. E, lembrava Marx, alterações quantitativas conduzem a alterações qualitativas.

 

O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, tem agora muito menos apoios no mundo árabe. Mas a direita israelita de hoje está como Abba Eban disse um dia dos árabes: não perde uma oportunidade de perder uma oportunidade.

 

 

 

 

 

 

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21.7.14

 

Em tempo de Verão regresso aos álbuns de família e colecções privadas que aqui tenho explorado. 

 

À excepção da fotografia do chalet, as imagens deste post foram encontradas na blogosfera portuguesa. Não achei fotografias de fandangueiros, saltimbancos, mulheres dos bolos e banheiros nas praias de Portugal do princípio do século XX.

 

Sobre este álbum de recordações de Alda Rosa, “para os filhos, netos e bisnetos”, editado em 2011 e do qual foram feitos 3 exemplares impressos, leia neste blog o post Festas e Mascaradas. 

 

Agradecimentos especiais a Alda Rosa Bernardo de Sousa, Maria do Rosário Sousa Machado e blogs Restos de ColecçãoTeatro e MarionetasAmérico e Galafanha.  

 

 

 

 

Chalet Alda , S. João do Estoril c. 1900

 

 

No meu tempo de menina, as horas em que se ia à praia eram totalmente diferentes das de hoje. íamos de manhã, e á tarde ficávamos no jardim. Só em dia de pic-nic é que ficávamos na praia até mais tarde. Estes almoços eram de "garfo e faca" e toalha posta na mesa. De casa vinham salada russa e um prato quente trazidos pelas criadas. Os banheiros emprestavam-nos uns banquinhos e umas tábuas que serviam de mesa e as cadeiras eram também deles. Claro que com tanta mordomia estes pic-nics não podiam repetir-se muitas vezes.

 

Mesmo para se comer na praia só havia barquilhos e bolas de Berlim. O homem dos barquilhos apregoava: Barquilheiro!!! Trazia uma lata alta com uma roleta, o comprador fazia girar a roleta que ditava a sorte de comer pelo mesmo preço mais ou menos barquilhos. O homem das bolas de Berlim apregoava: bolas de Berlim, perlim pimpim! Assim andavam pela praia estes vendedores. A senhora Ana dos bolos só apareceu mais tarde...

 

 

 

 

 

 

             
Barquilheiro, Roleta de Barquilhos

 

 

 

 

Para divertir as crianças aparecia o "Fandangueiro". Trazia um pequeno estrado, e fazia o seu número de sapateado (com a música do fandango). Também para nos entreter havia o homem dos cães. Trazia 4 ou 5 cães e com cães fazia o seu número. A um dos cães ele mandava «morrer à moda da China com três cartuchos...!» e o cãozinho deitava-se fingir que tinha morrido.

 

O "Catitinha" aparecia na praia todo vestido de preto pois tinha perdido uma filha. Protegia e gostava de crianças: apertava a mão a cada criança e apitava. Os miúdos corriam para ele, apesar de ser uma figura sinistra, com um grande cabelo branco...

 

Os "Robertos" apareciam com a sua voz de flauta e o número de pancadaria a que nos habituaram. No fim pediam dinheiro pelas "actuações" que tinham feito!

 

 

 

 

Robertos na Foz do Douro, início do século XX

 

 

 

 

Para os banhos de sol os banheiros também forneciam encostos e os toldos eram ao mês. Os banheiros tinham "chatas" que levávamos até fora de pé, para aí tomar banho. Muitas vezes atirávamos água uns aos outros e ali se fazia uma guerra com água, que muito nos divertia. As "chatas" eram cada uma do seu banheiro, e não havia rivalidade, era só brincadeira.

 

Também íamos ao Rádio Clube Português patinar...

 

Com tantos programas, as férias em S. João do Estoril eram muito apreciadas...

 

 

Alda Rosa Bandeira de Lima Osório Bernardo de Sousa

in  Memórias e Saudades

2011

 

 

 


19.7.14

 

 

 

Praia de Cabedelo? Portugal c. 1930

 

 

Fotografia do espólio de Rui Feijó, gentilmente cedida por Luísa Feijó a quem muito agradeço

 

 

 

 

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16.7.14

 

 

 

 Gustave Doré

 

 

 

 

Terra Santa

 

 

As coisas vão de mal a pior do lado de Bethlehem, a Belém original onde nasceu Jesus Cristo, sagrada para os três grandes monoteísmos do mundo, agarrados ao mesmo Deus. Apesar – ou por causa – disso o lugar não é pacífico. Há anos, amiga minha que passou o Natal em casa de belenenses, no sossego relativo de entre-duas-intifadas, logo no primeiro serão assustou-se com sirenes de ambulância na praça da Igreja da Natividade, mas o anfitrião disse-lhe para não ligar. “São os coptas e os ortodoxos”, explicou. “Estão sempre à briga. Não se matam mas partem cabeças”.

 

Sem a importância, o renome e os rastos de desgraça de xiitas e sunitas (nos nossos dias só partem cabeças), cada um insiste não só em que Deus há só um mas também que só a sua maneira de O amar é boa: todos os outros cristãos são hereges. Talvez, mas na Europa e nos demais Continentes já muito raramente cristãos partem cabeças uns dos outros por isso. (Falta de fé? Progresso moral?). Quantos aos monoteístas detentores da patente original, séculos de diáspora, de pogrons, de autos de fé, de antissemitismo, culminando na eficácia germânica do Holocausto e a criação de Estado próprio, mal aceite pela vizinhança, ensinaram-nos a defenderem-se primeiro de terceiros. (Embora não haja país com debates sectários mais vibrantes do que Israel).

 

É entre os mais novos da turma, os maometanos, que pendências internas fazem hoje mais estragos. O conflito ente xiitas e sunitas começou logo a seguir à morte de Profeta, no século VII da nossa era e, ao longo da História, teve altos e baixos de importância, segundo peripécias da força de outros poderes. A partir do século XIII o Islão viveu uma “contra-Renascença” que, a arrepio das suas melhores tradições, o afastou do progresso científico e do esclarecimento humanista que triunfaram na Europa. Colonizados por europeus e pelo Império Otomano, os povos do Norte de África e da Arábia viram-se distribuídos por novos estados, delineados por um francês e um inglês a seguir à Guerra de 14-18. O arranjo manteve-se até ao estabelecimento de “Califado” sunita, que rouba terra a Iraque e Síria, e renovadas aspirações curdas de independência. Em 1948, estabelecera-se o Estado de Israel, facilitado por culpa europeia e norte-americana, que expulsou populações. Israel foi bode expiatório para os potentados xiita (Irão) e sunita (Arábia Saudita) e seus vassalos, que içavam perante o mundo a bandeira do sofrimento palestino.

 

Está tudo a mudar. Riade e Teerão temem-se mais um ao outro do que temem Telavive. Os dois abominam o Califado, cuja crueldade consegue ofender padrões locais. A extrema-direita israelita é insuportável mas o Cairo espera ferventemente que Israel destrua o Hamas (compinchas dos seus Irmãos Muçulmanos). Salvo na Tunísia, as Primaveras Árabes acabaram. Vista de Telavive, a Europa é um vasto cemitério. Os EUA de Obama metem pouco respeito.

 

Em Bethlehem, brigas de ortodoxos e coptas continuarão a ser oásis num deserto ardente.

 

 

 

 

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9.7.14

 

 

 

 

 

João e o Papa

 

 

“Só quando estiverem cumpridas as condições” respondeu-me João, emigrado a seguir ao 25 de Abril, daí a um par de verões no Algarve, à pergunta voltaste à Pátria? “Salazar no poder, Marcelo Caetano na oposição, Freitas do Amaral na clandestinidade!”. (Para leitoras novas: nesses dias Freitas do Amaral era um político de direita).

 

As pessoas e os pianos pioram com a idade. Não tenho visto o João mas consta-me que a sua visão das desigualdades do mundo se agravou e é hoje igual à da gente do Tea Party nos Estados Unidos (ou da falecida Margaret Thatcher, nos dias em que a fúria contra os sindicatos a cegava): a culpa de haver pobres é dos pobres porque Deus assim quis. É disparate quase tão estúpido quanto a culpa de haver pobres ser dos ricos mas pouco lhe fica atrás. A crise veio açular opiniões extremas de ambos os lados — quando as coisas azedam procura-se inspiração na tradição revolucionária europeia e passa a falar-se do “outro lado da barricada”.

 

Na Europa onde, para quem a imagine do Sudão do Sul, só há ricos, o tempo das vacas gordas — quando se sabia que o dia de amanhã seria melhor do que o dia de hoje tal como o dia de hoje fora melhor do que o dia de ontem — não era tempo propício a invejas nem rancores. Mas campeiam agora no tempo das vacas magras em que entrámos circa 2010 e que entendidos garantem ser para a vida como eram dantes os fatos feitos em bons alfaiates e os automóveis Rolls Royce.

 

A direita pré-industrial e pré-cristã de João e dos Tea-Parties que odeiam os pobres assusta mas a exaltação franciscana da pobreza traz riscos próprios. Bernard Shaw escreveu que o primeiro pecado era ser pobre — se alguém lhe dizia que era inculto porque era pobre estava a desculpar um mal com outro pior, assim como se dissesse: sou coxo mas é da sífilis.

 

O Papa Francisco sente os pobres e quer ajudá-los mais do que fizeram os seus dois últimos predecessores, obcecados por comunismo e por sexo, condenando diferenças abissais entre pobres e ricos que se têm acentuado nos últimos decénios — aumento de desigualdades que, pensa o Papa, pensa gente de outras fés e pensam agnósticos e ateus, está a tornar o mundo mais injusto e mais perigoso. Francisco tem verberado a tirania da autonomia dos mercados e condenado proezas do capitalismo, com carradas de razão. Desde o colapso da União Soviética e o fim da ameaça comunista o capitalismo tomou o freio nos dentes em muitos momentos e lugares causando grande dano a milhões de pessoas e, salvo em raros casos nos Estados Unidos, ninguém foi preso e condenado por isso até agora. Continuou, porém, a ser, como tinha sido antes, o maior diminuidor de pobreza e criador de liberdade jamais inventado desde que o mundo é mundo.

 

Em 1323, um século depois da morte de S. Francisco de Assis, o Papa declarou herético quem pretendesse que Jesus vivera em pobreza absoluta e fez executar alguns franciscanos mais entusiastas. A alma humana é um abismo e estas coisas nunca são simples.

 

 

 

 

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5.7.14

 

 

 

Uma visita do Governador-Geral da Índia Portuguesa Capitão de Fragata José Freitas Ribeiro

em começo de 1918

 

 

Fotografia gentilmente cedida por Laura Castro Caldas a quem muito agradeço

 

 

 

 

 

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2.7.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A decadência do Ocidente? A sério, desta vez?

 

 

“Voltei para Genève ontem à noite de Basel. A Suíça alemã é a distopia que nos faz medo. Mas é um proverbial relógio a funcionar… tudo impecável, limpo, a horas e sobretudo reliable!!! Um pesadelo, enfim” — desabafou amigo em viagem. E é esse o padrão a que Berlim nos quer obrigar, como réguas de metro ou cilindros de quilo a aferir no Museu dos Pesos e Medidas. Entre Norte e Sul, os europeus nunca se desentenderam tanto.

 

Bons tempos, quando Helmut Kohl dizia que o Chanceler alemão, antes de falar com o Presidente francês, devia fazer três reverências — porque era sinal de que ainda havia França. E bons tempos, também, quando Jean-François Revel escrevia “o anti-americanismo é o socialismo dos imbecis”. Porque ainda havia socialismo, não para governar a seu gosto mas para meter respeito a capitalistas gananciosos que, uma vez largados em roda livre, ajudaram a cavar o lindo buraco onde estamos. E porque ainda havia Estados Unidos da América a libertarem e policiarem o mundo em vez de se fecharem em copas, entre Tea Party descerebrado e presidente tão cerebral que, por querer sempre ver os dois lados de cada questão, acaba por não ver nenhum e ficar quieto. 8 anos das simplicidades da cabeça de Bush, mais 8 anos das complexidades da cabeça de Obama arriscam-se a virar o Novo Mundo para dentro e deixar os europeus ó tio, ó tio.

 

Grave para nós e para toda a gente. Decência entre governantes e governados e tratamento das mulheres como seres humanos e não como bichos de espécie zoológica inferior, começaram nesta parte do mundo, a que chamamos Ocidente, e daí têm tentado medrar in partibus infidelium. Mas exigem atenção constante porque, como tudo, desaprendem-se depressa quando não são praticados. E a obra está sempre inacabada. Desde o século de Péricles, evocado como berço da democracia, aos sistemas políticos das monarquias do noroeste da Europa, considerados os mais user friendly do mundo de hoje, houve progresso. Na realidade, o lugar onde vivi politicamente mais parecido com a democracia ateniense do século V a.C. era a Africa do Sul do apartheid, com uma diferença a favor desta: as mulheres (se fossem brancas) podiam votar e ser eleitas.

 

Se, europeus e norte-americanos, continuarmos a perder o respeito que o resto do mundo fora ganhando por nós entre o século XVI e a segunda metade do século XX – mesmo que muitas vezes de mau modo, de má fé ou sob coacção — e estando reduzido a caricaturas grotescas como a Coreia do Norte ou Cuba o que sobrou da falência da grande ilusão inventada por Marx e afinada por Lenine, Estaline e Mao-Tse-Tung, a hora é dos gladiadores, dos leigos de todas as fés — e dos fanáticos de cismas do Islão que aliam destreza em tecnologias de ponta a zelo pelas tradições mais sanguinárias dos monoteísmos da Terra Santa.

 

Todo o cuidado é pouco.

 

 

 

 

     

                                                                                                              

 

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29.6.14

 

 

A visita do Governador Geral Dr. Jaime Alberto de Castro Morais a Damão, Novembro de 1923

 

Fotografia gentilmente cedida por Laura Castro Caldas a quem muito agradeço

 

 

 

 

 

 

 

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25.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Um murro na mesa das voltas da História

 

 

Amigo meu (e dele) disse-me há dias que José Manuel Barroso deveria ter dado um murro na mesa para impedir o descalabro causado pelas políticas europeias de austeridade. A imagem é tentadora para quem ache, como nós, que Barroso vale muito mais do que poderá às vezes ter parecido ao longo da crise — e que o ramalhete de medidas que dá pelo nome de austeridade, em vez de tirar a Europa do buraco onde o carro-adiante -dos- bois dos apóstolos da moeda única a metera, a afundou ainda mais. (Só evangelistas de Goldman Sachs e nem todos — Mario Draghi, por exemplo, escapou ao sortilégio — acham que tudo vai pelo melhor, pelo melhor dos caminhos possíveis).

 

Infelizmente, se num momento de insensatez Barroso tivesse dado tal murro na mesa, além de provavelmente ter partido o punho não haveria mudado de um grau o rumo decidido pelos governos nacionais que são os patrões da União Europeia. A austeridade, nos termos em que foi concebida e aplicada a seguir à descoberta do estado calamitoso das contas gregas, correspondeu à vontade da Alemanha (que entrançou defesa dos seus próprios bancos com pregação de cruzada calvinista) e nenhum outro estado da União se lhe opôs. (A maioria dos governos era de centro-direita mas havia-os também de centro-esquerda). O que Barroso fez, com determinação e eficácia, foi pôr os meios e poderes de que a Comissão dispõe a trabalharem para ajuda dos países da eurozona que tinham de se entender sobre medidas comuns necessárias à salvação do euro e à  imunização deste a crises futuras semelhantes. Sem descurar o mercado interno, de todos. Não houve um dia de folga, um segundo de distracção e os resultados estão à vista.

 

Em tudo há modas; de vez em quando visionários encalham na realidade e a moda muda. Há três anos, quando se descobriu que havia erros fatais no estudo (de dois professores de Harvard) que inspirara os aiatolas da austeridade, o edifício estremeceu e já teria caído sem a teimosia prepotente da Alemanha. Barroso lembrou então que há limites políticos e sociais ao que teóricos advoguem e que sem solidariedade não haveria União Europeia; Berlim agastou-se (vários eurocratas também). Mas o pêndulo começara a ir em sentido inverso e assim continuará por algum tempo. Traduzido para inglês, o economista francês Thomas Piketty, focando a atenção na desigualdade, está a ser ouvido em lugares inesperados. Um condottiere chamado Matteo Renzi começa a meter respeito à Alemanha. O Papa jesuíta virou franciscano. A Europa está a mudar.

 

Mas quem sabe o futuro? Escrevo a uma légua da planura de Waterloo onde, fez na quarta-feira passada 199 anos, um projecto de união europeia capotou, desterrando o tenente corso que se guindara a Imperador para o exílio de Santa Helena. O lugar está sempre cheio de peregrinos, desde generais russos a freiras sicilianas. Tabuletas de restaurantes, inscrições em monumentos, sinais de estrada prestam homenagem a Napoleão Bonaparte.   

 

   

 

Imagem aqui

 

 

 

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22.6.14

 

 

Panorama, Revista de Arte e Turismo (1948)
Ilustração de Eduardo Anahory

 

 

 

 

 

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18.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Sem rei nem roque

 

 

Senhor antigo, dos verões de Sintra, indignava-se com a maneira como nos vestiam: “Filho meu, aos quinze anos, calça comprida, chapéu e gravata!”

 

Lembrei-me dele por causa da sucessão do meu amigo Zé Manel na Comissão de Bruxelas. Como está hoje quase esquecido, a União Europeia foi inventada para acabar de vez com guerras entre alemães e franceses que fizeram milhões de mortos. Tarefa difícil porque a guerra está-nos na massa do sangue (21 anos depois do “Nunca Mais!” jurado a seguir à Primeira Guerra Mundial, começou entusiasticamente a Segunda) mas facilitada em 1945 por duas razões. A Alemanha, rendida sem condições e dividida, deixaria por muitos anos de poder apoquentar fosse quem fosse. E terror salutar de Estaline fazia europeus ocidentais entenderem-se como nunca se tinham entendido antes (nem depois: se não houvesse União Europeia não a teríamos inventado agora). Plano Marshall e guarda-sol nuclear ajudavam a firmar a construção; Washington nessa altura sabia o que queria.

 

De caminho, criou-se o Parlamento Europeu que, desde 1979, passou a ser eleito por sufrágio universal. O que se passou a seguir não tem pés nem cabeça. Como, de 5 em 5 anos, a percentagem de votantes nele ia descendo sempre, os governos nacionais — eleitos, esses sim, com participações significativas de votantes — outorgavam-lhe cada vez mais poderes, na esperança de ganharem eleitores. Mas 9 eleições em 45 anos só os foram perdendo. E, por fim, o paradoxo deu nó-cego. O Parlamento — de calça comprida, chapéu e gravata como os crescidos — alegando, de má-fé, mais legitimidade democrática do que os governos, arroga-se o direito de designar o novo presidente da Comissão. Muitos governos, desta vez cheios de bom senso, não irão nisso. O ambiente é de cortar à faca. A decisão final será de Ângela Merkel (as coisas são o que são: o domínio da Europa que Berlim não ganhou em 11 anos de duas guerras mundiais conquistou-o desde a reunificação em 15 anos de paz). Se ela pender para os governos o Parlamento chumbará o candidato e abrirá crise constitucional que durará muito tempo. Se pender para o Parlamento não haverá crise constitucional mas o crédito das instituições europeias nos mundos dos negócios e da política levará rombo irreparável (sem falar da provável saída do Reino Unido, privando-nos da sua sensatez e deixando-nos à mercê de rigidezes alemãs e fantasias francesas).

 

Briga de comadres num canto do mundo apostado em perder o poder que ainda tenha? Talvez. Mas tudo seria menos grave se os Estados Unidos continuassem convencidos de que a sua hegemonia era boa, não só para americanos e seus amigos mas também para o mundo em geral. Duas presidências catastróficas seguidas talvez levem os yankees a recolherem a penates — embora separações assim sejam como divórcios quando há filhos pequenos. Certas obrigações perduram, diz-me amiga perspicaz que a vida moderna doutorou em fraldas antes de doutorar em filosofia. Deus a ouça.

 

 

 

   

  

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11.6.14

 

 

Yalta, 1945

A Crimeia era a sala de visitas do Kremlin

 

 

 

 

 

 

Olivença sur mer?

 

 

Pedro Monjardino (pai do João e do Carlos) era homem sábio que usava regras simples para primeira abordagem de problemas complicados. Por exemplo, quando no hospital, no consultório, na clínica, alguém espavorido o avisava “Ai Senhor Doutor vem aí um maluco!”, Pedro que era alto e forte, pegava numa cadeira, levantava-a no braço direito e esperava. Das vezes que tal aconteceu, o tresloucado acalmou e deixou-se levar a bem.

 

O Ocidente – a que os alemães ainda pertencem – embora mais lento e menos decidido do que o meu chorado Pedro, conseguiu fazer o homem do Kremlin vislumbrar a bordoada que levaria se não ganhasse juízo. De há semanas para cá Putin começou a emendar a mão; as relações entre Kiev e Moscovo irão melhorar — Países Bálticos e Moldova darão suspiros de alívio — porque entendimento entre os dois é inevitável (e benéfico quer para eles, quer para nós). Mas levará o seu tempo porque ambos vêm de muito longe. Ministro ucraniano explicou-me um dia: “Na universidade estudávamos materialismo dialéctico, marxismo-leninismo, planificação económica, história dos regimes comunistas, Marx, Engels, Lenine, em suma, sabíamos tudo sobre como transformar um regime capitalista num regime comunista. Mas não sabíamos nada sobre o contrário”.

 

Não se irá, porém, a caminho de paz perpétua de Kant enquanto durar a ocupação da Crimeia pela Rússia. Nem é sarilho fácil de resolver. Por um lado, com desplante pré-moderno, a Rússia quebrou compromissos internacionais solenes que tinha assumido quando da independência da Ucrânia após o colapso da União Soviética e a comunidade internacional não pode senão condená-la. Foi golpe dado à legalidade nas relações entre estados que se procura promover desde a fundação das Nações Unidas — com ânimo novo depois do colapso da União Soviética — para bem de toda a gente e de todos os países. Por outro lado, a vasta maioria dos habitantes da Crimeia (salvo cerca de 10%, tátaros que Estaline perseguiu, deportou e entretanto voltaram) sente-se russa. A Crimeia faz parte do imaginário da Mãe Rússia. Não lhes passará pela cabeça voltar à Ucrânia.

 

A Crimeia não fora conquistada pela Ucrânia, fora-lhe oferecida pela Rússia em 1954 e houve casos no mundo mais ou menos comparáveis, como Macau. Quando Robin Cook disse a Madeleine Allbright que os advogados dele pensavam que o bombardeamento da Sérvia em 1999 era ilegal ela respondeu-lhe que arranjasse outros advogados. Assim, na Crimeia, se Putin indemnizasse pelos estragos e não se tornasse a portar mal (dois grandes ses), dever-se-ia encontrar saída airosa para a crise: talvez outro Krutschef ucraniano pudesse oferecer agora a Crimeia à Rússia, recebendo parte da sua riqueza energética em contrapartida. Talvez advogados pudessem negociar arranjo viável que salvasse faces e enchesse bolsos.

 

A Crimeia é grande e rica demais para ficar num limbo, espécie de Olivença à beira do Mar Negro, de que Moscovo e Kiev pudessem fingir que se esqueciam.

 

 

 

 

 

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10.6.14

 

 

10 de Junho: dia de Portugal — dia de São Camões ... Depois de muitos anos e de alguns regimes que trou­xeram cambiantes ao calendário cívico e suas combi­nações com o litúrgico, a Nação canonizou civicamente o seu épico fixando no dia da sua morte o da comuni­dade nacional. Por acaso, três dias antes do dia onomás­tico de António, o santo português por excelência, paralelamente tornado dia festivo de Lisboa, embora superado no calendário municipal pelo do mártir Vicente e seus corvos domésticos.

 

Porquê a data da morte do poeta piedosamente embrulhado num lençol de esmola, diz a lenda? Porque é a única data certa do seu bilhete de identidade, tão falho de dados firmes como abundante em desgraças e aventuras. Isto significa simbolicamente que uma glória a tal nível se paga a preço de sangue. O fanal humano de um povo tira a sua luz das cinzas de quem o encarnou: Que não é prémio vil ser conhecido, etc.

 

Mas, apesar de tudo, Camões não é uma glória popular. Ou, se o chega a ser, é indirectamente. O povo, sem acesso ao estilo grandíloquo e corrente de Os Lusíadas, só reteve o perfil sofredor e aventureiro do autor. Teve de o assimilar à escala dos seus heróis de terreiro,  dos que  com  ele  compartilham a  sorte mofina e a existência bulhenta em feiras e procissões. Por isso o verdadeiro altar cívico de Camões, embora nem de longe florido como o altar de Santo António nas escadinhas da Alfama, é o tabuleiro de faianças em que verdeja o busto de barro do épico, barbado e de pálpebra descida. Em vez do resplendor dos santos — a coroa de loiros dos poetas.

 

A ingénua, terrível profanação vai mesmo muito mais longe. Tenho diante de mim, sempre que escrevo, uma caneca de loiça — a verde, branco e castanho—, uma caneca de vinho que em vez de um frade glutão representa Camões naquele preparo. Bigode e barba parecem acabados de cofiar, nos ritos do beber das tabernas. Oferta que devo a António Duarte, que se documenta no povo para esculpir os nossos maiores com verdade e com força.

 

Mas a irreverência resulta afinal num símbolo profundo e ousado. O oleiro imaginário converte o cantor de Baco em Baco mesmo. Camões, soldado de África,  náufrago na China, com uma pobre mulher indígena por amparo, tendo acutilado um homem dos arreios do Paço numa procissão da Corte e sido por ele perdoado (como fazem os pobres uns aos outros nas suas fáceis brigas);  Camões, que Diogo do Couto conheceu «vivendo de amigos» na ilha de Moçambique, como tanto inadaptado a repatriar de esmola — acaba naturalmente em caraça de caneca ao alcance de fei­rantes e turistas.

 

[...] Promovendo Camões ao absoluto biográfico da encarnação dos seus valores, o povo português como que oculta a si mesmo uma culpa ancestral. O que nos contemporâneos do poeta foi displicência ou incúria, fraca atenção a uma luz que tentava fazer de nós farol do Mundo, tornou-se, na posterioridade, um zelo repentino em sublimar o homem tratado pessoalmente como mesquinho. É certo que ele mesmo se requintou numa conduta precária, ele mesmo desdenhou o bom comportamento: Erros meus, má fortuna, amor ardente / Em minha perdição se conjugaram. A alquimia da grandeza humana por representação pessoal da grandeza de todos tem esse preço de sangue.

 

No fim de contas o que é, que significa Camões?

 

Pois é o «lugar onde» da consciência de missão de um povo à porta dos Tempos Modernos, criador de cami­nhos, de universalidade, de comunhão humana à escala do Globo Mundo, como diz Fernando Pessoa. Através de um programa de interesses e estímulos materiais, de «dilatação de império»? Sem dúvida. E como não? Deus escreve direito por linhas tortas, diz-se. O «direito», o justo, o generoso da humanização pelo enlace dos conti­nentes estanques durante milénios, fechados historica­mente em si mesmos, sem trato nem troca, teve de passar por algumas vias duras. São as «linhas tortas» da história. Descrevê-las, endireitá-las na boa intenção que tudo justifica e resgata, fazer do farol de Santelmo a pequena luz moral que prevalecerá no fim — foi o segredo  de Camões.  Na voz de Os Lusíadas tudo é «sublime», «sublimado», «excelente», «supremo». As estâncias do poema são uma oficina verbal de transfor­mações prodigiosas. Mas os sofrimentos do poeta, que andou nas toldas dos navios como os seus heróis do mar, autentica-as. Sendo sábias demais, o povo povinho mal as sente. Mas adopta o poeta quase cego, pobre como ele mesmo, e basta. E até quando traz a sua triste verónica a uma caneca de vinho o venera a seu modo.

 

[11.6.1971]

 

Vitorino Nemésio

in  Jornal do Observador

© Editorial Verbo e Vitorino Nemésio, 1974

 

 

 

 


6.6.14

 

 

  1942-2014

 

 

 

Agora que a poeira começa a assentar sobre o desaparecimento de Vasco Graça Moura, sobre tudo o que se tem dito e escrito acerca desta personalidade, há duas ou três coisas que apetece remoer.

 

Ao amplo e merecido consenso público que em volta desta figura maior da cultura portuguesa se suscitou, num primeiro momento justificado pela óbvia proximidade da sua morte, sucederam-se as declarações, os artigos, as crónicas, os comentários de louvor póstumo. E foi aí que começaram a aparecer as frases condicionais e as conjunções adversativas. Os ses e os mas.

 

Um sortido rico de colunistas encartados tratou de vir a terreiro tirar o chapéu, que decerto não usa, e curvar-se em vénias de amplitude igualmente variada.

 

Mas, porém, contudo, todavia, no entanto, não obstante.

 

Uma grande figura apesar de não ser de esquerda. Incompreensível.

 

E essa incompreensão é já uma reticência, uma sombra, uma prevenção. Uma nódoa na iminência de alastrar.

 

Pior do que isso, alguns vieram ensinar às crianças e ao povo que o homem foi realmente uma grande figura, muito embora dado ao exagero. Veja-se o que defendeu em política. Veja-se esta coisa do acordo ortográfico. Fúria demasiado grande e sonorosa para assunto tão pouco merecedor. Se era razão para tanto empolamento. Uma vocação de cavaleiro andante perdida em damas de pouca categoria. Mas, claro, isso não tira que foi uma figura importante, então não, poeta e etecetera.

 

Irra!

 

A menorização deliberada da intervenção pública de VGM, quer na vertente da acção política, quer sobretudo na oposição ao acordo ortográfico, é um mau serviço prestado à memória do escritor.

 

Mau serviço porque em ambos os casos, VGM colocou empenhamento e seriedade no que apoiou e no que contrariou. E essas suas posições, ainda que por vezes conjunturais, esses seus combates, são parte inalienável do seu legado intelectual.

 

A desvalorização da questão do acordo ortográfico como questiúncula irrelevante, como caturrice contrária aos ventos da História e do Progresso, e até como toleima, é um «branqueamento» da sua natureza eminentemente política, e não linguística, e significa o triunfo — mais um — do novo-riquismo nonchalant, que se crê muito moderno e se supõe terrivelmente sofisticado.

 

Como queria, e cria, o escritor, jornalista e panfletário austríaco, Karl Kraus, talvez seja mesmo verdade que a decadência dos povos se evidencie em primeiro lugar no descaso da língua: nos seus usos, abusos e desusos. João de Araújo Correia, escritor menos obscuro do que muitos que por aí se pavoneiam, escreveu: «Sim, o povo é que faz as línguas. Mas quem as desfaz é a canalha». E, por isso, a resistência, porventura vã, de Vasco Graça Moura ganha um significado maior, político e cultural. Resistência, cuja derradeira linha de defesa é a sua própria obra poética, romanesca e ensaística que brota de amor ciente e paciente por esta tão desconsiderada língua — «no teu próprio país te contaminas/ e é dele essa miséria que te roça./ mas com o que te resta me iluminas».

 

 

Jorge Colaço

 

 

 

 

Nota:

 

Jorge Colaço é o autor dos blogs Conteúdos em Português e Retentiva. Sinto-me honrada e feliz pelo facto de ter escolhido publicar este texto aqui.

 

 

 

 

 

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4.6.14

 

 

 

 

 

 

 

 

E agora, José?

 

 

Verso de Carlos Drummond de Andrade, que às vezes me vem à cabeça depois de chatices. Desta vez, das eleições europeias. Conhecido meu de Oxford receia que historiadores futuros lhes chamem o toque de alvorada que não acordou a Europa (“wake up call” poder-se-ia traduzir por “campainha de despertador” mas seria pouco solene e muito individualista). A avaliar por recriminações, hesitações e ausência de decisões dos chefes europeus reunidos em Bruxelas a 27 de Maio, dois dias depois da divulgação dos resultados, o receio do homem de Oxford é capaz de ser fundado.

 

Ou talvez não seja. Com história 30 vezes mais curta do que a da Santa Sé, o “processo europeu” começa a assemelhar-se-lhe na capacidade de resistir quer a golpes dados de fora — por exemplo, a agressividade russa na sua vizinhança próxima e no fornecimento de energia — quer a golpes dados de dentro — por exemplo, ‘não’ em referendos na Holanda e na França em 2005; instauração precipitada da moeda única e, a partir de 2010, uso moralista e contraproducente de austeridade para acudir ao estrago daí resultante. Palpita-me que a minoria eurofóbica agora instalada em Estrasburgo, com brigas internas e propostas de medidas nocivas para os países, não será, por definição, cavalo de Troia, e dará mais incómodo do que prejuízo.

 

Mas exame de consciência ou autocrítica ou catarse de quem dirige a Europa política (28 governações de potências pequenas e médias, três das quais infelizmente convencidas de que ainda são grandes, mais a intendência semi-politizada de Bruxelas) é urgente. Desde que o colapso da União Soviética lhes tirou dos ossos o medo de Deus e, do mesmo passo, a Alemanha geopolítica ressuscitou, reunificada, têm dado muito má conta do recado. O voto populista de Maio, à direita e à esquerda, meteu-lhes um susto mas — tal como, na primavera de 1914, os governantes das grandes potências europeias julgavam que, saídos em paz de várias crises graves na última década, dessa vez também não haveria de ser nada — arriscam-se a não fazer o preciso, já e bem.

 

Nós, os da União, somos 7% da população mundial e criamos 25% da riqueza. Mercado de 500 milhões de habitantes, com comércio externo florescente, ditamos também ao resto do mundo as regras de concorrência. E procuramos fortalecer-nos mais ainda, metendo economia digital e energia no mercado interno. O futuro deveria ser nosso.

 

Mas o gigante económico é anão político, cheio de desentendimentos, sem uma voz única para o exterior. Quanto a defesa, se fossemos atacados e ninguém nos acudisse ou nos rendíamos logo ou nos matavam todos num Credo.

 

Não apareceu ainda quem desse o tom certo. Merkel é sinónimo de austeridade. Cameron quer tanto agradar aos seus que não se dá ao respeito. Hollande, nem os seus o querem. Renzi? E, antes de escolherem o novo feitor, deveriam explicar o que cada um de nós perderia sem o poder económico da União e o que ganharia se visionários da Europa ideal metessem a viola no saco.

 

 

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28.5.14

 

 

 

 Soldados alemães encaminhando judeus para a morte, 1943

 

 

 

 

 

Antissemitismo

 

 

Sábado passado, um casal israelita, uma senhora francesa e um rapaz belga foram assassinados a tiro de kalashnikov no átrio do Museu Judeu de Bruxelas; o assassino e cúmplice que lá o levara sumiram-se de automóvel. No mesmo dia, à saída da sinagoga de Créteil, perto de Paris, dois irmãos judeus ortodoxos foram brutalmente sovados. Ataques físicos a judeus estão a aumentar na Europa desde há três anos. Tinham sido precedidos por anos de ataques verbais em panfletos, espectáculos e intervenções de um ou outro político.

 

O antissemitismo é uma das culpas pesadas da história da Europa: pogroms  na Rússia e na Europa Oriental a partir do século XIII; a Inquisição, expulsões e opressão de cristãos-novos em Portugal e em Espanha, do século XV ao liberalismo; em toda a parte menoridade cívica a que só a Revolução Francesa pôs cobro; nos anos 30 do século XX e durante a Segunda Guerra Mundial, Hitler e o extermínio dos judeus, praticado na Alemanha nazi e em países por esta ocupada (crueldade inaudita na Roménia; zelo burocrático inexcedível nos Países Baixos). Depois do fim da guerra, dos julgamentos de Nuremberga, da criação de Israel, da definição de genocídio como crime contra a humanidade, o antissemitismo deixou de vigorar como norma ou costume aceitável em países europeus mas não foi completamente extirpado, continua lá, dormente ou, sobretudo à esquerda, metamorfoseado em oposição à acção — quando não à própria existência — do estado de Israel.

 

É difícil de extirpar por uma razão simples: aquilo que condenamos hoje por antissemitismo era a maneira habitual de tratar os judeus em toda a cristandade. E quando, a pretexto de defender interesses e direitos dos palestinos, gente protesta contra Israel e os sionistas, fá-lo muitas vezes recorrendo a mentiras inventadas pela polícia secreta do Czar Nicolau II, compiladas no chamado (e apócrifo) Protocolo dos Sábios do Sião, de que Hitler se serviu para convencer os seus compatriotas da existência de uma conspiração judaica que queria tomar o comando económico do mundo. As televisões dos países árabes — mesmo do Egipto e da Jordânia que reconhecem Israel — estão cheias de telenovelas que atribuem aos judeus esse propósito (e propósitos piores, como o rapto de crianças árabes para lhes beber o sangue). Em muita escola da região, o Estado de Israel não consta dos mapas. A opinião pública é sistematicamente alimentada por mentiras que impeçam ambiente propício à solução política do problema israelo-palestino. E a Europa vai pagando.

 

O antissemitismo europeu é mais subtil. Por exemplo, evoca o Muro de Berlim (que impedia alemães de Leste de fugirem do estado policial onde viviam) a propósito do muro que Israel constrói à sua volta (para impedir que terroristas lá venham assassinar homens, mulheres e crianças).

                

Austeridade, erradamente aplicada para tentar debelar a crise, faz vir à tona os nossos demónios. Vamos levar tempo a metê-los outra vez no fundo.

 

 

Imagem aqui    

 

 

link do postPor VF, às 09:37  comentar

21.5.14

 

 

 

Anúncio do cognac feito pela família de Jean Monnet, inventor da Europa moderna

 

 

 

 

 

Votos, omeletes e ovos cozidos

 

 

De Gaulle menosprezava a construção europeia: as nações eram ovos cozidos e com ovos cozidos não se faziam omeletes.

 

Salvador da França juntamente com os comunistas contra o governo de Vichy, tratando depois da vitória a Alemanha de Bona com magnanimidade (gostava tanto da Alemanha que dizia preferir que houvesse duas), deixou o poder sobre quezílias da paz em 1946, atravessou o deserto em Colombey-les-Deux-Églises de onde o foram buscar em 1958 para presidir à República e salvar segunda vez a Pátria. Em 1969 voltou para Colombey e, morrendo a fazer uma paciência de cartas em 1970, foi poupado à reunificação alemã.

 

Quando Mitterand, inquilino do Eliseu da altura, se deu conta do risco desta já não havia nada a fazer – no Kremlin, Gorbachev fora persuadido por um Kohl determinado como Bismark e pródigo como o Emir do Qatar; de Washington, Bush pai forçara a mão a Londres e Paris. Chirac, sucessor de Mitterand, percebera que tinha acabado a papa doce e começara tentativas de reintegração da França na estrutura militar da OTAN que Sarkozy finalizaria enquanto, colando-se a Angela Merkel, fingia que ainda mandava na Europa. François Hollande tentou entrada de leão mas terá saída de sendeiro.

 

A União que vai a votos esta semana para o Parlamento Europeu não é a do tratado de Maastricht. Não por termos passado de 12 a 28 países mas por duas outras razões. A União Soviética colapsou e acabou o medo dela que unia o Ocidente (Putin é incómodo mas não mete medo comparável porque, por um lado, não prega ideologia subversiva e, por outro, conta com quinta coluna de industriais alemães, banqueiros ingleses e vendedores de armamento franceses ao pé dos quais os partidos comunistas mais estalinistas do Ocidente durante a Guerra Fria eram brincadeiras de criança). E à nossa Alemanha Ocidental com a capital em Bona, discreta para se fazer perdoar pelo Holocausto e mais crimes, sucedeu país da Europa Central com capital em Berlim que retomou alento, herdou tiques geoestratégicos (do reconhecimento da Croácia em 1992 até ao moralismo luterano/calvinista com que sufocou os países do Sul 20 anos depois), manda mais na União do que qualquer outro mas continua uma democracia exemplar.

 

Hoje, em autocarros de Bruxelas, anúncios exortam-nos a votar para escolher “o governo da Europa”. É propaganda mentirosa (o governo da Europa está nas capitais dos países e não nas instituições de Bruxelas) mas não é só propaganda. Na selva da globalização nós, os europeus, só nos safaremos unidos. E contra nacionalismos populistas a União só terá força se os povos sentirem que precisam dela. O caminho passa também pelo Parlamento Europeu por pouco votado, frívolo, irresponsável e distante que nos pareça hoje.

 

Perante concorrência desenfreada e impiedosa do resto do Mundo está-se a descobrir que os ovos afinal talvez não estivessem tão cozidos como isso tudo. A omelete não será baveuse mas, se não a quisermos comer, morreremos de fome.

 

 

 

 


18.5.14

 

 

  Alix de Saint-André

 

La puerta se abre a todos,

enfermos y sanos

no sólo a católicos,

sino aun a paganos, a judíos, herejes,

ociosos y vanos;

y más brevemente, a buenos y profanos.

 

                                                     Poema del siglo XIII

 

 

 

On peut se croiser, mais on n'habite plus dans le même monde que les automobilistes. Pendant qu'on tournicote sans fin sur nos sentiers, de village en village, ils foncent tout droit d'une ville à l'autre. Si j'avais voulu ne pas me perdre et gagner du temps, j'aurais pu aussi longer les routes nationales. Il y en a toujours une pas loin, les panneaux sont sans mystère, cela va plus vite et c'est plus court. Mais le raccourci se paye cher: on s'explose les articulations et les pieds à marcher sur la chaussée, on respire le parfum des pots d'échappement, et l'on passe à côté de l'essentiel. Des lieux et des gens. Le chemin n'est pas fait pour aller vite d'un point A à un point B, il est fait pour se perdre, et perdre du temps.  Ou prendre  son  temps,  si l'on veut. Retrouver un monde à taille humaine et ses humains habitants. Ses animaux et ses végétaux. Chaque nouvelle erreur est une nouvelle ren­contre, chaque pas sur un sentier en creuse davantage l'existence sur la croûte terrestre, et l'on zigzague autour de la modernité à quatre kilomètres à l'heure. A la vitesse (si l'on peut dire!) du pas humain. Dans un autre espace-temps.

 

Le chemin nous fait vivre dans un monde parallèle. A la fois tout près des villes, et au milieu de nulle part. Un monde de petits sen­tiers et de hameaux qui festonne les grandes routes. Un monde de maisons d'hôtes et de gîtes ruraux, où évolue aussi une population paral­lèle, qui a plaisir à être là où elle est. A vous montrer combien c'est beau chez elle. Et qu'il n'y a rien de meilleur que sa cuisine... Car si le chemin ne pousse pas au mysticisme, il ne passe pas davantage par l'ascèse, Dieu merci! Jésus a commencé sa carrière miraculeuse en changeant l'eau en vin aux noces de Cana. Et non seule­ment sa mère était là, mais c'est elle qui l'y a poussé... L'avantage parfois douloureux de redé­couvrir la faim et la soif donne aussi l'occasion de se mettre à table chaque fois avec grand appétit, et sans aucun souci de régime : un vrai miracle!

 

Alix de Saint-André

in  En avant, route!

©Éditions Gallimard, 2010

 

 

 

 

 

 

 

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14.5.14

 

 

 

Domingo Ortega

 

 

 

 

 

 

O saber dos antigos

 

 

“Os velhos mestres estabeleceram as regras” lembrou o professor, irritado com modernices do caloiro. “Quando eram novos” disparou o caloiro e pensou com os seus botões: Game, set and match. Era numa escola de belas-artes de Londres, passou-se há mais de meio século e o professor já era anacrónico.

 

Nas artes plásticas, a boa-vai-ela tinha começado em França, com “O Salão dos Recusados” dos impressionistas em 1863. Pintura, escultura, desenho não pararam desde aí de viver em sobressalto; arquitectura e artes decorativas entraram também na voragem (incluindo a fantasia de Gaudi em Barcelona, inimitável à época porque em Paris ou Londres ou Berlim a mão de obra era muito mais cara do que na Catalunha). Na música e artes conexas, na literatura, o vendaval começara um pouco mais tarde mas o vento também não caiu ainda.

 

Antes, tudo fora diferente. Numa conferência pronunciada no Ateneo de Madrid, em 1950, sob o título “El Arte del Toreo” (desculpando-se por ter ousado saltar de espontâneo para arena tão sábia) o grande matador Domingo Ortega definiu génio como a acção de uma personalidade excepcional dentro de normas que são eternas. Desde o começo do toureio a pé – prática plebeia libertada no século XVIII do toureio equestre dos fidalgos – segundo Ortega, as normas da arte eram quatro: parar, templar, cargar y mandar. E dizem-me que continuam a sê-lo nos nossos dias. (Ao contrário do que acontece noutras artes, em tauromaquia há limites impostos pela realidade ao sucesso, até à própria viabilidade do experimentalismo. Como lembrou Jacques Lacan num momento raro de lucidez: “Le réel c’est quando on se cogne”).

 

O que aconteceu às artes aconteceu à educação. Durante milénios educar crianças consistia em tentar fazer com que os filhos ficassem iguais aos pais e as filhas iguais às mães. Na Europa e nos Estados Unidos da América, a revolução industrial inglesa e a revolução política francesa acabaram com essa simplicidade. A complexidade que lhe sucedeu e a pouco-e-pouco se espalhou por todo o mundo foi-se tornando mais variada, alargando-se agora às virtualidades do mundo digital. Toca a todos, premeia algumas originalidades e quando a Áustria, que perdeu o império na Primeira Guerra Mundial e os judeus na Segunda — isto é, que ficou sem corpo nem alma — se reencontra num transsexual com voz de soprano e barba de Capitão Haddock, talvez “normas eternas” tenham ido parar às urtigas — ou talvez os austríacos estejam enfim em paz uns com os outros e com o mundo.

 

Mas aprendi muito com a velhice: com a dos outros, em novo, mais do que com a minha, agora. Até coisas práticas. Quando o PREC nacionalizou Pancada & Moraes e o meu chorado Albaninho Costa Lobo levou grande rombo financeiro não lhe ouvi queixas mas notei uma mudança sensata. Antes de almoço no Belcanto passou a mandar pôr no copo whisky Red Label e não, como antes, Black Label (quer um quer outro com água lisa natural). Talvez gente nova não fosse tão avisada.

 

 

 

Imagem: aqui

 

 

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