10.2.16

 

 

 

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25 de Abril de 1974: Francisco Sousa Tavares no Largo do Carmo

 

 

 

 

 

 

 

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Outro 25 de Abril?

 

 

 

Na manhã do dia 25 de Abril do Ano da Graça de 1974 durante o qual nasceram meninas que caminham agora para balzaquianas – o livro de Balzac que inspirou o adjectivo chama-se A Mulher de Trinta Anos (1842) mas progressos da ciência, desde a pílula ao botox, e aligeiramento dos costumes coevo, do corpete às maminhas ao léu, da ‘menoridade’ perante pais e maridos à liberdade de género e de preferência sexual, foram juntando decénios ao protótipo que estará hoje entre os sessenta e os setenta anos – eu tinha ido cedo da minha casa de Belsize Park para o meu gabinete na London School of Economics onde às oito e meia recebi telefonema da Teresa. O João Monjardino, nosso vizinho em Hampstead, telefonara porque o irmão Carlos, banqueiro em Paris, lhe telefonara dizendo que tinha havido um golpe militar em Portugal. (Tudo telefones fixos; não tínhamos outros na altura). “Da direita ou da esquerda?”, perguntei. A essa hora nenhum dos citados acima parecera saber ao certo mas depressa se percebeu - antes das chegadas do estrangeiro de Álvaro Cunhal e de Mário Soares – e há fotografias do Tareco, marido da Sophia e pai do Miguel, arengando a multidão de cima de uma guarita, diante do quartel do Carmo em Lisboa.

 

A Pátria viveu depois ano e meio de Montanha Russa (às vezes com toque de Montanha Americana diria gente de humor barato, ao qual procuro resistir mas o sentimento estava lá: amigo do peito que já morreu achava que se deveria ter erguido na Outra Banda estátua de Frank Carlucci que pudesse emparelhar com a do Cristo Rei). A 25 de Novembro de 1975 a Montanha Russa parou de repente e nos anos menos sacudidos que se seguiram havia de vez em quando quem se exaltasse: “Se isto continua assim, qualquer dia apanhamos com outro 25 de Abril!”. Aí, o António Alçada Baptista, outro amigo que já lá vai, perdia a paciência. “Outro 25 de Abril? Para isso era preciso outro Estado Novo, outro Império Colonial, outras décadas de reviralho, outra tropa farta de comissões de serviço… Nunca mais.” E recordava muitas tentativas falhadas da oposição portuguesa perante população desconfiada de mudança que parecia aceitar tudo do regime e achar, como lavrador alentejano que conheci no tempo antigo: “Isto, Senhor Doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há.”

 

Alguém se lembrou de nos oferecer outra volta na Montanha Russa. Talvez dure mais do que os seus inimigos vaticinam. As quatro décadas sem ela acabaram porque em Outubro passado os portugueses não deram votos que chegassem a liberais mascarados de sociais-democratas. Talvez já estejam arrependidos mas, entretanto, também mascarados de sociais-democratas, vieram comunistas que preferem autoridade e mando do Estado a liberdade e iniciativa de cada um. Será que afinal calam fundo em gente que prefira o conforto preguiçoso de estar bem com a lei que há ao trabalho arriscado de tentar ir mudando a lei? Haverão os portugueses de ser sempre os mesmos por não haver outros?

 

 

 

 

 

 

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6.2.16

 

 

 

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pudor
pu.dor
nome masculino
(do latim pudor, -oris)

 

Embaraço, acanhamento ou sentimento de vergonha tradicionalmente associado ao sexo em geral, à castidade ou à moralidade do recato feminino em particular, e, por isso, negativamente conotado com o resultado de uma repressão ou como obstáculo à livre expressão do desejo. Numa sociedade tolhida por diversas superstições democráticas e que adora ver-se a si mesma como não admitindo constrangimentos, o pudor é muito desvalorizado como sinónimo de escrúpulo ou pejo moral. Como sinónimo de delicadeza, virtude de pudibundos. Dir-se-ia que existe, hoje, um certo pudor de ter pudor. Veja-se, em negativo, e a título de exemplo, a falta de pudor dos governantes e dos candidatos a governantes, os despudores da exibição de figuras públicas, semi-públicas e privadas; o despudor da distribuição de sinecuras e conezias; o despudor da autopromoção, da desonestidade intelectual, das conversas (incluindo as telefónicas) em público, da ignorância, e até da autoflagelação; o impudor dos que, pondo-se nas pontas dos pés, apontam para si próprios; a impudicícia dos que colocam no cartão-de-visita a lista das suas supostas virtudes; enfim, as juras despudoradas do falso pudor.

 

 

 

 

 

 

 

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3.2.16

 

 

 

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Luís Sttau Monteiro  1926-1993 

 

 

 

 

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Austeridade

 

 

 

Better nouveau-riche than no rich at all, como eles diziam em Palm Beach. Diziam e hão de dizer ainda, que a espécie por lá não está em vias de extinção. Por cá a história é outra: o primeiro de que me lembro a declarar-se nouveau pauvre foi o Luís Sttau Monteiro no tempo do Almanaque, há um ror de anos - estavam as guerras coloniais a começar.

 

Era um percursor até porque, no geral, havia pouco dinheiro (o Luís um dia, irritado com Joaquim Figueiredo Magalhães, o excelente editor libertino que dirigia a revista, disse-me “Se este gajo continuar a chatear-me despeço-me e o dinheiro que ganho aqui vou prá praia e poupo-o” - Deus tenha as almas dos dois em descanso); a primavera marcelista trouxe algum; o 25 de Abril, reavivando medo salutar da União Soviética, fez os nossos aliados ocidentais abrirem os cordões à bolsa e trouxe mais; pré-adesão e adesão às Comunidades Europeias vieram cobrir o bolo de cerejas. O forrobodó continuou até a aldrabice das ‘subprimes’ e a falência de Lehmann Brothers inaugurarem a grande a crise de 2008 por mor da qual Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional, a cujas portas batemos quando reparámos que os cofres estavam vazios, resolveram, por inspiração alemã aceite por todos os governos da União, aplicar-nos o remédio da austeridade.

 

Sempre achei essa receita péssima mas nunca se deve subestimar um povo. Talvez não sejamos descendentes dos que foram à Índia e sejamos, sim, descendentes dos que cá ficaram: pouco importa. No começo do quarto quartel do século XX, em meia dúzia de meses absorvemos mais de meio milhão de refugiados das antigas colónias, sem que houvesse mortos nem feridos, sem gerar uma extrema direita raivosa e com aumento do PIB. Feito colectivo notável, capacidade de encaixe a revelar o estoicismo brando que austeridade e troika trouxeram outra vez para a ribalta nos últimos anos - e estava a fazer-nos sair da crise. Estava. A ânsia de mostrar diferença junta-se a preconceitos ignorantes e à convicção ingénua de que os outros europeus nos querem ajudar.

 

Entretanto, as pessoas que em Portugal consideramos da classe média (sem as quais não há economia que cresça nem cultura que não embote) passaram quatro anos a ver os proventos mirrarem e, pelo andar da carruagem, vão passar assim mais alguns, em vez de recuperarem o gosto do cheirinho a desafogo. Mostraram até agora compostura exemplar mas governo novo, com sangue na guelra, convicto de que o mundo há de querer tratar-nos bem (porque carga de água? Já não há quem se lembre do Syrisa?), excitado por bandarilhas de fogo cravadas pela esquerda apressada que diz apoiá-lo, poderá meter-nos por atalhos inviáveis, esgotar a paciência de quem nos pudesse ajudar e atirar a retoma para as calendas gregas.

 

E nouveaux pauvres cada vez há mais. O que é que se diria deles em Palm Beach? Que seriam melhores do que quê? Do que os pobres sem lembrança de melhores dias que houve sempre? Fraco consolo.

 

 

 

 

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30.1.16

 

 

O Retrovisor vai contar em breve com uma nova rubrica semanal, da autoria de Jorge Colaço, que tenho o prazer de apresentar aos Leitores, não porque se trate de um novo convidado, já que vários textos seus figuram neste espaço, mas para saudar a sua renovada presença aqui e dar-lhe as boas vindas.

  

Amigo de Garrett

 

Jorge Colaço começou por ser o desconhecido que, em finais de 2004, depois de ler notícias da descoberta, numa casa particular em Lisboa, duma importante colecção de inéditos do romanceiro garrettiano, tomou a iniciativa de escrever a minha irmã Cristina para a felicitar pelo achado e, perante o seu entusiasmo com a riqueza do material encontrado, adverti-la gentilmente a não esperar muito. Começou aí uma correspondência que deu lugar à amizade que eu herdei. Jorge Colaço acabaria por participar em todos os esforços de divulgação dos manuscritos e por ter nessa divulgação um papel fundamental. Modéstia à parte, a forma como este espólio foi tratado merecia ser um caso de estudo em Portugal. 

 

Retrovisor

 

No meio do esforço algo solitário que representou para mim nos anos mais recentes alimentar este blog, a chegada do Bloco-Notas foi um autêntico balão de oxigénio. Quando há dois anos José Cutileiro me propôs alojar aqui a sua crónica semanal, perguntei a mim mesma se teria sido o chamamento de gente como Cinatti, O'Neill, Nemésio ou Garrett. No caso de Jorge Colaço é simples, na minha família sempre lhe chamámos o Amigo de Garrett.

 

 

Stay tuned, o Dicionário Pessoal  de Jorge Colaço começa dia 6 de Fevereiro. Sai ao sábado.

 

 

 

 

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27.1.16

 

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Execução de Giordano Bruno 

 

 

 

 

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Velhice do velho continente

 

 

 

Nunca houve tanta gente quanta a que há agora. Somos hoje mais do que a soma de todos os homens e mulheres que viveram e morreram no planeta, desde que o Homo sapiens apareceu até ao fim do século XIX.

 

A maioria da população da Terra é gente nova mas, quando se vai por continentes há uma excepção: a nossa. Há hoje na Europa mais gente velha do que gente nova; diz quem percebe destas coisas que a tendência vai reforçar-se no futuro previsível. A nossa gente nova sobrevive, às aranhas, desanimada, eviscerada por desemprego altíssimo (embora haja casos a contrapelo, até em Portugal: conta The Economist da semana passada, num estudo especial sobre a juventude no mundo, que cá vive e trabalha uma rapariga, génio da informática, que criou empresa inovadora sua e tem clientes por toda a parte do mundo). A Europa, cujos dirigentes políticos passaram gerações a dá-la como exemplo de maneira de viver às outras nações, esquecendo que o milagre europeu assentava, por um lado, em medo salutar de Estaline e dos seus sucessores enquanto a União Soviética durou, medo que aconselhava as pessoas a terem juizinho em casa não fosse o caldo entornar-se (quem se lembre ou conte com quem lho saiba contar, traga à mente três datas emblemáticas lusitanas do século XX - 25 de Abril, 11de Março, 25 de Novembro - e medite sobre o bom-senso) e assentava também, por outro lado, na apólice do seguro de vida garantido pela aliança militar com os Estados Unidos chamada vulgarmente NATO, contra eventuais agressores exteriores, isto é, a dita União Soviética, seguro que dissuadiu o Kremlin de tais maus pensamentos, sendo a Guerra Fria ganha sem ter de se dar um tiro.

 

Tudo isso já lá vai. Em 2008 a doença financeira trouxe para tratamento a austeridade. Emenda pior do que o soneto mas é pior ainda quando xicos-espertos, animados pelo grego da moto, bancam num jeitinho a dar que eles saberão explicar aos alemães. Dessa, nós por cá ainda não estamos livres.

 

Entretanto inépcia do poder americano e cobardia dos confortos europeus deixaram à solta a atrocidade síria cujos fugitivos estão a escavacar pretensões morais europeias, acordando o pior em muitos corações: da brutalidade da Hungria à hipocrisia da Dinamarca. Quando Angela Merkel abriu a porta aos infelizes que não se tivessem afogado pelo caminho, esqueceu-se que a alma das pessoas de bem é um horror.

 

Há pior, por toda a parte. A grande ilusão comunista foi remédio que falhou. A julgar pelos feitos do Estado Islâmico, pelos budistas a irem ao pelo aos muçulmanos na Birmânia, pelo apoio dos evangélicos americanos a Donald Trump, a fé religiosa não nos tirará de apuros.

 

Montesquieu, Voltaire, a razão? Tem-se tentado, sem ela não teríamos chegado a separar a igreja do estado, ingrediente sine qua non de decência de vida. Está a ser agora muito atacada (exactamente por causa disso). Talvez gente nova, europeia ou outra, entre robots e inteligência artificial, encontre outra vez rumo.

 

 

 

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20.1.16

 

 

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 O Nascimento de Vénus - Sandro Botticelli (c. 1485)

 

 

 

 

 

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Depois da Cissiparidade

 

 

 

 

Quando os humanos apareceram sobre a face da Terra a sexualidade já vigorava há muito. O primeiro homo sapiens não surgiu porque homo, menos sapiens e mais amacacado que nós, se tivesse dividido em duas (ou dois). Nasceu como se nasce agora, menino ou menina (em lugares decentes onde se cuida dos outros – algumas florescências da civilização ocidental – estabeleceram-se ultimamente arranjos que burocracias formalizam para não desamparar gays, lésbicas, bis e transsexuais no seu trânsito mortal mas a norma estatística de menina e menino é geral à nascença, desde abismos misóginos da Arábia Saudita a expoentes exaltados de correção política sueca).

 

O jeito que famílias, tribos, polis, derem ao que venha a seguir varia segundo as culturas. Ser culto é ser de um sítio; sítios não faltam e muitos sítios estão a mudar a ritmo cada vez mais acelerado, às vezes confusamente. Mas uma coisa é certa: desde tempo imemorial, em todas as tradições conhecidas, os homens estão na mó de cima e as mulheres na mó de baixo. Há quem pense que houve dantes, aqui e além, sociedades matriarcais mas trata-se da fantasia de inventores de lendas antigas - ou de ingenuidade feminista de hoje. O que houve e há ainda são sociedades matrilineares nas quais estatuto e riqueza passam de uma geração para a geração seguinte só por linha feminina: tal não significa que sejam as mulheres a mandarem e que as mães passem o poder às filhas. Quem manda é sempre o homem, que recebeu a herança do irmão da mãe e a passará por sua vez ao filho da irmã.

 

Outro indicador do longo caminho a percorrer pela emancipação feminina é a mitologia. Desde as últimas décadas do século XIX, europeus e norte-americanos meteram-se a estudar os costumes de tribos chamadas primitivas, gentes sem Deus revelado nem escrita própria, que algumas nem sabiam do resto do mundo, portadoras de religiões e sistemas simbólicos muitas vezes de grande sofisticação. Destes, os muitos que se estudaram arrumam o mundo natural e o sobrenatural de maneiras diferentes mas separando sempre o Bem do Mal. Ora - salvo numa obscura tribo do Uganda - o Homem, como o dia e a mão direita, está sempre do lado do Bem e a Mulher, como a noite e a mão esquerda, sempre do lado do Mal.

 

Ciência, técnica, a força ganha pelo mental sobre o físico, as Grandes Guerras, a pílula anticoncepcional substituíram em sociedades modernas o que se considerava dantes a ordem natural das coisas. Mulheres governam países, chefiam empresas, deitam-se com quem lhes dá na real gana. Nos meus anos de ensino nunca dei porque houvesse maneira masculina ou feminina de pensar. Há, nos dois sexos, quem pense mal e há quem pense bem. Ponto final.

 

Alentejano destribalizado julga que algo terá ficado do tempo que passou. Quadra-se de maneira diferente ao conhecer um homem ou uma mulher e só encontra razões para isso no fundo da pré-história: o homem, poderia um dia ter de o matar; a mulher, poderia ter de lhe fazer um filho.

 

 

 

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13.1.16

 

 

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 Foto: Catherine Boutaud

 

 

 

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Mouros

 

 

Há anos, amigo tripeiro assistia a jogo de futebol entre Boavista e Salgueiros quando o árbitro alfacinha apitou para mandar marcar um livre. A claque castigada não gostou e um entusiasta gritou, furioso contra o árbitro: “Ah mouro, se num fossemos nós ainda andavas de lençol à cabeça!”

 

O brasão de Évora ostenta cavaleiro medieval a galope, na mão direita um montante levantado, na esquerda, agarradas pelos cabelos, duas cabeças - de homem velho e mulher nova - degoladas de fresco. Celebra o feito de Geraldo Geraldes, por alcunha O Sem Pavor, fidalgo expulso da corte de D. Afonso Henriques que para voltar às boas graças do Rei decidira ajudá-lo a tomar Évora aos mouros. De torre no campo que se via da muralha, vigia fazia sinais de fogo diferentes conforme hostes que se aproximassem à noite fossem amigas ou inimigas. Geraldo meteu-se a namorar a filha do vigia, ganhou a confiança do pai, uma noite combinou com compinchas henriquinos que viessem preparados para conquista e saque, quando eles se aproximaram matou o pai e a filha, deu sinal de fogo de chegada de amigos, a porta da cidade foi escancarada e os cristãos tomaram Évora enquanto o Diabo esfrega um olho. (É o que a lenda diz. Reparei outro dia que hoje, no brasão, as cabeças aparecem em baixo, separadas uma da outra, nada indicando ter sido o cavaleiro a cortá-las. Esboço de correcção política?).

 

Durante alguns dos anos da República (1910 – 1926), o jornal O Eco de Reguengos publicava as actas das sessões da Câmara Municipal da (então) vila. Numa delas a discussão sobre já não sei que questão animara de tal maneira que a certa altura o Presidente deu um murro na mesa, exclamando: “Irra, meus Senhores. Isto não é Marrocos!”

 

O que me traz memória menos antiga. Em 1987, era eu director político no MNE, a minha secretária veio dizer-me que o embaixador de Marrocos me queria ver urgentemente. Pedi-lhe para transmitir que se fosse muito urgente eu o poderia receber às quatro e meia; se não fosse, agradecia-lhe que viesse no dia seguinte. Era mesmo muito urgente e às quatro e meia lá estava. Homem inteligente, bem-educado, bom conversador, foi falando até que às cinco horas eu lhe perguntei qual era o assunto urgente. Não havia nenhum: tinha-lhe apetecido conversar comigo porque em Lisboa não sentia a falta de Marrocos, ao contrário do que sempre lhe acontecera noutros postos (incluindo Marselha, onde fora cônsul). Estava entre nós como na terra dele; trocar impressões comigo acentuava esse sentir-se em casa.

 

Evocações trazidas pelo réveillon de Colónia. Não se poderia ter passado aqui nem portugueses constam dos suspeitos de lá. Lembro-me de Paula Rego, aos 20 anos, vinda de Londres, contar em casa da minha mãe dos olhares malcriadamente ostensivos que os homens em Lisboa deitavam sempre na rua a partes do seu corpo. Tempo foi. Uma das maiores mudanças a que assisti na minha vida foi as mulheres terem passado a ser tratadas quase como seres humanos em Portugal. Quase.

 

 

 

 

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6.1.16

 

 

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Vontade nacional

 

 

 

“… parecer-me-ia muito interessante que escrevesse sobre um dos mais difíceis factores mensuráveis (?) do poder de um Estado - a vontade nacional. Onde está a nossa vontade nacional? Existe? Para onde caminha? O que se espera da nação? Ainda somos um estado-nação?”

 

Bom conselho de politóloga, se nos quisermos pôr a pau perante o que são Mundo, Europa, euro, democracia, desemprego, temperaturas, Maomé, Cristo, Buda, terroristas, velhos, refugiados, mulheres veladas e sem véu, passado, futuro. Embora eu olhe para o assunto de outro jeito por achar que a ciência política não ajuda muito a entendê-lo (nem a entendermo-nos a nós por via dele). Já a História ajuda, se for bem contada como foi, por exemplo, a da guerra do Peloponeso; histórias ajudam também, tal a de Anna Karenina ou as de outras infelicidades; versos; frescos; estátuas; música – e fica um ror sem fim por entender. Não é só coisa de hoje e de aqui. “Mundo mundo vasto mundo,/ se eu me chamasse Raimundo/seria uma rima, não seria uma solução” escreveu o brasileiro Carlos Drummond de Andrade no dia de Natal de 1928.

 

Seremos ainda um estado-nação? Duas vezes na vida julguei entender do que é que essa questão trata. Primeira. Quando fui embaixador em Moçambique, cinco anos depois da independência, tinha na residência três criados moçambicanos. Lourenço, Jacinto e Salomão garantiam-me o serviço da casa; eu mantinha-os livres da sua liberdade. Um estado fizera reverência à boca de cena e retirara-se para deixar outro estado tomar conta do palco. Uma nação esboroara-se. Mas, quanto a nós os quatro, o ritual que nos regia continuava a ordenar o nosso mundo. (But to the four of us the center/ Holds escrevi eu então, a rematar versos de circunstância).

 

Segunda. O massacre islamita de 13 de Novembro passado, em Paris, foi planeado ao pormenor por residentes, alguns deles franco-árabes, do bairro bruxelense de Molenbeeck, lugar com tradição jiadista antiga – de lá saíram os assassinos do comandante Massoud do Afeganistão em 2001 – e ruas onde a polícia há décadas não põe pé. As polícias secretas europeias passam constantemente informações umas às outras e a investigação do massacre de Novembro mostrou que as autoridades belgas não tinham usado, ou tinham usado pateticamente mal, informação recebida; bem aproveitada poderia provavelmente ter impedido o massacre. Porque não há na Bélgica vontade nacional: flamengos e valões detestam-se; de alto abaixo, múltiplos níveis de decisão comunicam pouco e mal entre si; a disfunção do estado é permanente.

 

Em Maputo percebi que, em transições, anseio de ordem protegida encontrará maneira de se satisfazer, mesmo à custa de incongruências, porque de dentro para fora - do lugar onde dói – estas contam pouco.

 

Em Bruxelas percebi que boa-vai-ela tolerante de antijacobinos como eu não sabe defender-se de quem queira dar cabo dela. Caricatura premonitória de Europa sem estados-nação?

 

Entretanto, e como dantes, nós por cá todos bem.

 

 

 

 

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30.12.15

 

 

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Mudança climática

 

 

 

 

Véspera de Natal com 15° Celsius à sombra em Montemor-o-Novo e sol a luzir no céu azul entre farrapos de nuvens e édredons espaçados e espessos de nevoeiro de que não me lembro por estas partes e de que não conheço as causas (mais água por esses campos fora desde a barragem da Alqueva?) mas não chegam a escangalhar a amabilidade do tempo, rara há muitos anos por esta quadra.

 

O meu amigo Olivier, belga francofone, quadragenário de fresca data, vegetariano, ecologista, preocupado com o futuro do planeta Terra (Le septième planète fut donc la Terre… etc.), com três filhas pequenas (a mais velha, chinesa, adoptada por ele e pela primeira mulher, irlandesa, as seguintes nascidas da actual mulher, cambojana) sente-se culpado com inverno tão ameno que deveria obrigar os europeus a fazerem tudo quanto pudessem contra o aquecimento global mas, como a ausência de frio lhes sabe bem, os torna mais desleixados ainda do que já eram nesta matéria de vida ou de morte (em Bruxelas, na véspera de lá sair para Portugal, ouvi na telefonia que o dia anterior fora o dia de Dezembro mais quente registado desde que se passara a tirar a temperatura aos dias).

 

A Conferência de Paris – frivolidade perdulária para candidatos a candidato do Partido Republicano à presidência dos Estados Unidos, pessoas cuja ignorância militante é escandalosa e deletéria; insuficiência desprezível para ecologistas puros e duros; mas, para gente sensata versada nestas coisas (e não só por quem pontifique, no contentamento da mediocridade, “o óptimo é inimigo do bom”), o passo possível e indispensável para tentar prevenir males no tempo dos nossos filhos e netos que não seriam remediáveis – trouxe um desafio inédito. O problema de escolher entre prazer imediato e prazer futuro é tão velho quanto a humanidade ou, pelo menos, quanto a filosofia (ou, para quem rume no sentido oposto, como muitos biólogos contemporâneos gostam de fazer, buscando animais com razão, sentimento, previsão e escolha – golfinhos? elefantes? outros? – mais antigo do que o homem e porque não: em alturas em que resvalei do ateísmo para o agnosticismo ocorreu-me que, se eu tivesse alma, o meu chorado cão Nero haveria de, à maneira dele, ter alma também) e foi bem abordado por filósofos ingleses do século XVIII, ditos utilitaristas, dos quais o mais conhecido era Jeremy Bentham (que ainda impressiona, embalsamado, numa sala de University College, Londres).

 

O dilema é simples: ceder à tentação do momento ou prescindir desse prazer para obter outro, mais sólido, num futuro determinado. Bom senso e experiência sugerem que a segunda via é mais prometedora, mas puxa-nos demais o pé para a primeira. O que é inédito – salvo talvez em dinastias antigas – é sofrermos não pelo nosso futuro, mas pelo futuro de gerações vindouras. A pessoas narcisistas e hedonistas, como nos dizem que somos agora, vivendo em quase 200 países diferentes, nem sempre ocorrerá a culpa generosa do meu amigo Olivier.

 

 

 

 

 

 

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25.12.15

 

 

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Aguarela de Vasco Futscher Pereira (2007)

 

 

 

 

Before the ice is in the pools, 
Before the skaters go, 
Or any cheek at nightfall 
Is tarnished by the snow, 
Before the fields have finished, 
Before the Christmas tree, 
Wonder upon wonder 
Will arrive to me!



Emily Dickinson

 

 

 

 

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23.12.15

 

 

 

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 Presépio de Estremoz. Alentejo, Portugal.   

Foto: Estúdio Novais, 1936 

 

 

 

 

 

 

 

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Natal

 

 

 

Há meio século, quando eu vivia em Oxford e ia muitas vezes a Londres (ou uns anos mais tarde quando eu vivia em Londres e ia poucas vezes a Oxford) o Luís de Sousa (que nessa altura vivia em Londres e agora vive em Oxford) contou-me que um professor de história de arte de cujo nome me esqueci e dava aulas já não sei em qual dos colégios da Universidade de Londres, quando chegava às escolas ou maneiras da pintura europeia das últimas décadas do século XIX e das primeiras décadas do século XX ensinava aos alunos: “No Impressionismo, pinta-se o que se vê; no Expressionismo, pinta-se o que se sente; no Neorrealismo, pinta-se o que se ouve” (as aulas eram em inglês e o professor dizia social realism em vez de neorrealismo mas é o mesmo).

 

A sentença ficou-me gravada no canto da memória onde estão arrumados os julgamentos estalinistas dos anos trinta na Rússia, quando centenas e centenas de funcionários do partido comunista da União Soviética, dos mais altos aos mais baixos na nomenklatura, em tribunal confessaram falsamente (com boa consciência) terem traído a pátria e o partido, às vezes ao serviço de potências estrangeiras, sendo condenados à morte e executados, para exemplo do povo em geral e opróbrio de suas famílias, bem como arrumada nesse canto está a lembrança de um dia no Outono de 1991 em Argel, em visita oficial, com a cidade, entre europeia e africana, pobre, mal cuidada mas ainda bonita ao sol, fazendo-me pensar que Lisboa seria assim se Vasco Gonçalves se tivesse aguentado uma dúzia de anos no poder – e como vai ser também guardado o momento contado por amiga que há dias num elevador apinhado de Luanda, ouviu jovem triste do MPLA responder ao “Então?” matinal de um colega, dizendo: “Sofremos felizes”. 

                                  

Sou um dos muitos portugueses que consideram que o país, logo a seguir ao 25 de Abril, ficou a dever a liberdade da democracia à visão e à coragem de Mário Soares. Durante quatro décadas não tive disso a menor dúvida e não a tenho agora. Pelo contrário: nas últimas semanas, maus augúrios levam-me a recear mais pobreza e mais demagogia inspiradas de cima – e a apreciar melhor ainda a barragem de bom senso e decência oposta por Soares a disparates de esquerda e de direita.

 

Mas é semana de Natal, não neva na província, esqueço estas coisas todas e lembro um poema (neorrealista?) de que gosto muito.

 

 

Natal

 

 

Foi numa cama de folhelho,

entre lençóis de estopa suja

num pardieiro velho.

Trinta horas depois a mãe pegou na enxada

e foi roçar nas bordas dos caminhos

manadas de ervas

para a ovelha triste.

E a criança ficou no pardieiro

só com o fumo negro das paredes

e o crepitar do fogo,

enroscada num cesto vindimeiro,

que não havia berço

naquela casa.

E ninguém conta a história do menino

que não teve

nem magos a adorá-lo,

nem vacas a aquecê-lo,

mas que há-de ter

muitos reis da Judeia a persegui-lo;

que não terá coroas de espinhos

mas coroas de baionetas

postas até ao fundo do seu corpo.

Ninguém há-de contar a história do menino.

Ninguém lhe vai chamar o Salvador do Mundo.

 

 

 

Álvaro Feijó

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                                                                                                                        

    


16.12.15

 

Trudeau aeroporto.jpgO Primeiro Ministro Justin Trudeau acolhe os primeiros refugiados sírios no aeroporto de Toronto

 

 

 

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Sem anestesia

 

 

 

A feminista marroquina Fatima Mernissi, dada a aforismos e com jeito para os inventar, escreveu um dia que o pessimismo era o luxo dos poderosos. Lembrei-me deste aforismo dela – mulher bonita que envelheceu bem, ao contrário de tantas velhas e velhos que ninguém atura a não ser a literatura e outros velhos (Alexandre O’Neill dixit) – neste tempo em que os europeus, por um lado, estão a acabar de perder o poder que dantes tinham no mundo, sendo os últimos talhes da amputação sofridos sem anestesia e, provavelmente por isso mesmo, por outro lado, são pessimistas quanto ao futuro, isto é, acharia a grande dama marroquina, alardeiam – alardeamos – ainda por cima dessa maneira manias de grandeza acima das nossas posses.

 

Li que sondagens mostram haver hoje muitas mulheres e homens convencidos de que as suas filhas e os seus filhos pequenos terão em crescidos vidas piores do que aquelas que eles próprios tiveram e estão agora a deixar de ter. Por piores presumo que se queira dizer mais pobres e não com teores mais baixos no sangue de substâncias geradas pelo nosso próprio organismo que nos façam sentir felizes, quer chova ou quer bata o sol. Porque, embora a Sabedoria das Nações apregoe que o dinheiro não dá felicidade (e muitos o recordem logo, acenando que sim com a cabeça, sempre que alguém o lembre quando se saiba de rico apanhado na tenra idade pela Grande Ceifeira), outra máquina eficaz de criar aforismos, George Bernard Shaw, ensinou-nos que o dinheiro não dá felicidade mas dá uma coisa tão parecida que só um perito é que é capaz de distinguir. (Há mais ou menos três quartos de século, romancista italiano medíocre, Pittigrili, popular em Portugal e no Brasil – ou pelo menos os exemplares dos seus livros que os meus tios maternos tinham eram naquele impressos e publicados - criara fórmula menos subtil do que a de Shaw mas perfeitamente satisfatória para as necessidades estilísticas de leitores nos Aquém e Além Mar de Gago Coutinho e Sacadura Cabral: “O dinheiro não dá felicidade, principalmente quando é pouco”.

 

Austeridade – teimosia em aplicar às nossas economias receita de alemães, por alemães e para alemães não nos deixa passar da cepa torta. Refugiados – incapacidade de entender que a Europa precisa de muito mais mão-de-obra ainda do que aquela que as guerras na Síria, no Afeganistão e alhures lhe estão a meter pelas portas dentro envenena tudo (os nossos primeiros ministros deveriam ter feito como o canadiano Justin Trudeau que foi esperar os primeiros refugiados que lhe couberam ao aeroporto de chegada). Terrorismo – desleixo de décadas em defesa e segurança e agora incitações populistas à xenofobia por chefes de governo ou de oposição fazem muito mal, especialmente a prevenção e combate ao terrorismo. (Uma política externa digna desse nome também teria ajudado – mas seria pedir muito).

 

Teimosia, incapacidade, desleixo. Sem progresso neste tripé não haverá Europa nem – ipso facto – Portugal que se segure.

 

 

 

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9.12.15

 

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 França, 2015

 

 

 

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De mal a pior

 

 

Os alemães hão de ser sempre alemães, os franceses franceses e os portugueses portugueses, porque não há outros. Dito isto (quanto aos portugueses, já fora dito pelo primeiro Duque de Palmela, homem avisado que nas suas memórias contou ter tido dois grandes fitos na vida: fazer de Portugal uma monarquia liberal e casar o filho primogénito com a herdeira mais rica do país), a Alemanha de Merkel é muito menos parecida com a Alemanha de Hitler do que a França de Hollande com a França de Pétain, mesmo que fotografias de Paris e Berlim em 1944 e 1945 possam sugerir o contrário (Paris libertada por De Gaulle e os aliados ocidentais, sem uma vidraça partida, com pequenas na rua a saltarem ao pescoço dos magalas; Berlim arruinada pelo exército vermelho, com as mulheres em casa cheias de medo de sair à rua, não fosse a soldadesca soviética violá-las).

 

Ou talvez por isso mesmo. Depois de expansão fulgurante no começo da guerra, triunfos nazis que alargaram o domínio do Reich e incharam o orgulho dos alemães, vieram derrotas no Norte de África e em Estalinegrado que mudaram o curso da guerra até ao suicídio de Hitler e à rendição incondicional, seguida da ocupação - zonas russa, americana, britânica e francesa -, da proibição de ter forças armadas, dos julgamentos de Nuremberga, da divisão em dois estados até ao colapso da União Soviética, da vigilância e culpabilização permanente pelos vencedores. A Alemanha foi martelada para ficar tenra, como se fazia dantes aos bifes. De tal maneira que, mesmo hoje, mais rica e poderosa que qualquer dos seus parceiros europeus (salvo - por não o querer - militarmente) é, de longe, a grande potência que melhor respeita os direitos humanos e que trata os pequenos com mais decência.

 

Na França, a história foi outra. Graças à coragem e ao génio político de De Gaulle, em 1945 figurou entre as vencedoras da guerra e não entre as vencidas, como o comportamento do regime de Pétain e da grande maioria dos franceses por ele governados teria amplamente justificado. Instalada nesse casulo (poetas e prosadores haviam dourado a Resistência) viveu décadas de fantasia, considerando-se equidistante dos Estados Unidos, a quem invejava o poder (e que De Gaulle detestava) e da Rússia Soviética por quem a esquerda francesa - a operária e a caviar – esteve longamente fascinada (Yves Montand e Simonne Signoret saíam malcriadamente de jantares se algum conviva sugerisse que o Gulag existia).

 

Desde a reunificação alemã, o conchego do casulo começou a estragar-se; a crise de 2008 deu-lhe bolada grande; refugiados e terroristas bateram mais e às 8 da noite de Domingo passado os resultados da primeira volta das eleições regionais mostraram, urbi et orbi, o descalabro a que a França chegou. O Front National, racista, xenófobo e protecionista poderá vir a ganhar 6 de 13 regiões e passou a ser o partido mais votado do país.

 

Por este andar, talvez Marine Le Pen ponha a cereja no bolo, conquistando o Eliseu em 2017.

 

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2.12.15

 

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Giovanni Francesco Rustici (ca. 1495)

 

 

 

 

 

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Civilização

 

 

 

André Malraux, escroque francês de génio que se distinguiu nas letras (L’Espoir, La Métamorphose des Dieux), na guerra contra o fascismo (Brigada Internacional em Espanha), na guerra contra o nazismo (Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial) e na política (ministro da cultura de De Gaulle que, quando o amigo François Mauriac, prémio Nobel da literatura, lhe perguntou como conseguia aturá-lo, respondeu: “Malraux c’est mon vice”), escreveu: “Nós somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem.”

 

Era bom, era. O “nós” de Malraux referia-se a um grupo de pessoas muitíssimo mais pequeno do que aquelas que a nossa “civilização” abrange. Apesar de nas escolas actualizadas dos países mais desenvolvidos se aprender que o Big Bang, origem de nós e de tudo o resto, se deu há 13,8 biliões de anos, nada se sabendo do nada que houvesse antes, a vasta maioria da gente – sem chegar aos excessos de literalismo bíblico dos evangélicos americanos (ou, noutra variante de monoteísmo, igualmente candidata a civilização, ao literalismo corânico dos salafistas sauditas) – conforta-se com mitos de criação e redenção que – tal como água de Fátima desde que seja fervida – não fazem mal a ninguém, a não ser se, como acontece agora entre os salafistas, exijam a matança dos infiéis. (Há uns séculos também éramos assim: “E com muitas Ave Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num credo” conta Fernão Mendes Pinto, com o desembaraço de um tempo em que não havia ONG dedicadas aos direitos do homem nem governos empenhados na salvaguarda do estado de direito).

 

No século XX os europeus (e os chineses) foram apanhados em cheio por novo mito, na aparência tão radicalmente diferente das restantes fés – também vinha curar os nossos males mas tudo se passaria neste mundo - que podia ser tomado por outra coisa. Raymond Aron chamou-lhe o ópio dos intelectuais. O estardalhaço foi enorme mas o paraíso não se instalou na Terra. Gato por lebre, dirão alguns, mas o problema é que a lebre, ou melhor, as lebres também não dão conta do recado. Ao mesmo tempo que ser marxista passou a opção privada (assim como ser vegetariano ou filatelista), fés mais antigas - duradouras por nunca terem caído na esparrela de se considerarem ciência - reapareceram no esplendor da sua intolerância. E no mundo globalizado de hoje podem chegar a toda a parte. Na Birmânia, maioria budista maltrata sem dó nem piedade minoria muçulmana. 1.300 anos de cizania sangrenta entre sunitas e xiitas levaram o mês passado à matança de Paris, inspirada, planificada e executada por salafistas.

 

A Europa, adubada pelo Iluminismo, separou a igreja do estado: não matamos nem morremos por mitos religiosos. Considerá-la fortaleza cristã é disparate nocivo. A sua força vem da tolerância. É para defesa desta contra intolerâncias (budista, sunita, xiita, calvinista, católica romana, marxista, o que for) que precisamos de nos armar até aos dentes.

 

 

 

 

 

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25.11.15

 

 

 

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Chocalhos

 

 

 

A UNESCO, organização educacional, científica e cultural das Nações Unidas, a que muitos países pertencem, alguns, como nós, por inércia, outros devido a diligência burocrática própria de regimes que sistematicamente violam direitos humanos e julgam que a organização lhes confere respeitabilidade (falta-lhes a lucidez de Groucho Marx: “Eu teria vergonha de pertencer a um clube que me aceitasse como membro”) vai distinguir Portugal no universo do Património Cultural Imaterial da Humanidade - mais uma vez, pois já o tinha feito quanto ao Fado, ao Cante Alentejano e à Dieta Mediterrânica, neste caso sendo a distinção partilhada com Espanha, Marrocos, França, Itália, Grécia e, salvo erro, Tunísia.

 

Agora são os Chocalhos de Alcáçovas, concelho de Viana do Alentejo, distrito de Évora, a subir ao pódio (dizem-me que também ainda há artesãos vivendo de fazer chocalhos na Ilha Terceira dos Açores e em Trás-os-Montes mas foi a ‘comunidade representativa’ das Alcáçovas que meteram à liça e Alcáçovas será o nome que a distinção contemplará). À minha pergunta “Porquê Imaterial?” a resposta veio em duas partes. Primeira, que a UNESCO estabelece a terminologia para os seus programas, prémios e distinções e, a pedido, esclarece termos menos claros a quem, prima facie, não os entenda. Segunda, que é o som dos chocalhos que passa a Património Imaterial por pertencer ao que os antropólogos chamam “paisagens sonoras”, as quais vão mudando, esperando a UNESCO, presumo eu, que a entrada no Património da Humanidade ajude a suspender o desaparecimento progressivo do rumor chocalhal das calçadas da província portuguesa. Palpita-me que seja esforço vão – assim como os que são feitos quando o Estado decide usar dinheiro do contribuinte para salvar empresas cuja vocação é a falência. As Alcáçovas trazem-me outra memória: a mulher de Évora mais bonita do seu tempo (e de todos os tempos entre o seu tempo e o nosso de hoje) que lá viveu pequena, tão inteligente e tão direita que por esse dom e essa virtude mais vezes é lembrada do que pela beleza ímpar. Ainda hoje faz falta.

 

Na UNESCO confirmei uma certeza política e ganhei outra. No Verão de 1974 fiz parte da delegação portuguesa no nosso regresso à organização depois do 25 de Abril em reunião geral que durou várias semanas. Coube-me cobrir sessão noturna em que discursaram representante da Albânia e chefe estudantil do Chile, fugido dos algozes de Pinochet. O albanês demoliu primeiro o Capitalismo, depois o Comunismo Soviético e, quando estava quase a convencer-nos, rendeu elogio abjeto ao camarada Enver Hoxha. Entusiasta, o estudante gabou o paraíso que o país perdera com o fim brutal de Allende e do seu governo.

 

Saí para a noite de Paris confirmado no que pensava dos horrores da Albânia mas convicto de que, se o regime de Allende houvesse durado, o Chile teria passado por muitas e penosas baralhadas.

 

Vem a propósito lembrar isso quando cá se celebra – ou devia celebrar-se – o 25 de Novembro.

 

 

 

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18.11.15

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Uma invenção recente

 

 

“A guerra é tão antiga quanto a humanidade” disse jurisconsulto inglês em meados do século passado: “A paz é uma invenção recente”. Ilustrando a razão dessa sentença deflagraram, já no século XX, as duas maiores guerras de sempre – até agora. Nós, na União Europeia, nascida como Fénix de brasidos deixados pelo fim da segunda depois da rendição incondicional da Alemanha nazi, parecíamos convencidos de que desta vez a paz era a valer e, sobretudo desde o colapso da União Soviética, achámos que não valia a pena gastar dinheiro em defesa, preferindo sacrificar esta a aumentos na saúde e noutros mimos, possíveis em tempo de paz. (Como escreveu outro inglês, Duff Cooper, ministro no governo de guerra de Churchill, autor de óptima biografia de Talleyrand e embaixador britânico em Paris em 1945 que saiu um dia abruptamente de restaurante explicando que a vida era curta demais para um mau almoço: “A ideia de que cortar nas despesas militares diminuirá os riscos de guerra é tão absurda como pensar que para reduzir o número de roubos se devam fechar as esquadras de polícia”). 

 

A inércia do bem-estar é muito forte. Em matéria de defesa - e de política externa, sem a qual não se saberia ao certo quem defenderia o quê de quem – nada parecia alarmar os nossos povos ou os nossos governos: nem Putin na Ucrânia, nem o Estado Islâmico no Iraque e na Síria, nem o caos na Líbia depois de lá termos borrado a pintura. (Há alguns meses, antigos países de Leste e antigas Repúblicas bálticas da U.R.S.S., com memórias ainda vivas do bafo do urso no pescoço, conseguiram que a OTAN mostrasse os dentes lembrando que existia - sensatez milagrosa manteve a OTAN pronta a servir, agora com Secretário-Geral à altura - mas, no geral da União, não se pensava nestas coisas ou pensava-se nelas com pouco zelo). 

 

No fim da semana passada, da noite para o dia, as coisas mudaram com os ataques terroristas em Paris, comandados de Racca no Estado Islâmico do Iraque e da Síria e planeados no bairro bruxelense de Molenbeek, à esquerda de quem vá do Jardim Botânico para a Basílica, depois do canal, bairro que já pertencerá ao imaginário do Islão radical - também foram lá planeados o assassinato do comandante afegão antitaliban Massud, 2001, e os quase 200 assassinatos da gare de Atocha em Madrid, 2004 - em partes do qual a policia belga não se atreve a entrar.

 

François Hollande declarou que a França estava em guerra; Angela Merkel acrescentou que o acolhimento aos refugiados deveria continuar como antes. Por uma vez, desde há muito tempo, o eixo franco-alemão falou de cima, com razão e com coragem. Para continuar a existir a Europa precisa de absorver centenas de milhares de jovens que não tem na sua força de trabalho e precisa de saber defender-se de quem a atacar.

 

Vozes já se levantaram – também em Portugal - clamando que uso de força contra o Estado Islâmico não se deve permitir. Há gente que nunca aprende e gente que esquece o que tinha aprendido.

 

 

 


15.11.15

 

 

 

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 Samuel van Hoogstraten (1664)

 

 

Queridos Leitores,

 

o blog faz hoje sete anos, os últimos dois com a presença semanal do Bloco-Notas de José Cutileiro. São já mais de cem crónicas com o respectivo boneco, como ele diz. São textos que me orgulho de publicar e estou-lhe muitíssimo grata por isso. Grata ainda pela ajuda que tem dado a manter vivo este espaço e por me deixar exercer funções de iconógrafa – mot savant que ouvi há uns anos numa conferência no Instituto Francês e a que logo me identifiquei. 

 

Este ano o Retrovisor recebeu outras contribuições valiosas: as fotografias de João D’Korth, cerca de 300 imagens dos anos 30 e 40, que Henrique D’Korth Brandão pôs à minha disposição e ajudou a digitalizar, e a série My Years in Angola (1950-1970) graças à colaboração de Elizabeth Davies. Agradeço ainda a Jorge Colaço, amigo e colaborador deste blog desde o princípio. 

 

Ao longo destes anos tenho acompanhado com interesse a expansão dos conteúdos em português na rede, muito graças à blogosfera, e detectado lacunas também. Ainda há personalidades do século XX em Portugal com pouca ou nenhuma presença na net. A fotografia vernacular começa a despertar mais interesse – neste momento estão patentes em Lisboa fotografias dos álbuns da Raínha D. Amélia e dos Retornados das ex-colónias – mas quanta coisa não se terá já perdido ou continua a desbotar no fundo duma gaveta? 

 

Há pouco tempo, para ilustrar um artigo sobre o poeta Tomaz Kim, o Jornal de Letras usou uma fotografia deste blog (muito bonita apesar de um pouco estragada). No verão passado o jornal Observador usou imagens que tenho coleccionado das praias de antigamente, algumas das quais eu própria descobri na rede. As fotografias de João D’Korth da Exposição do Mundo Português contêm surpresas apesar de tratar-se de um evento tão amplamente registado. Espero continuar a mostrar aqui curiosidades do mesmo género, que no entanto não vêm ter comigo ao ritmo a que eu desejaria.

 

Aos leitores que visitam pela primeira vez, ou que do Retrovisor conhecem pouco mais que o Bloco-Notas de José Cutileiro, convido à leitura de anteriores posts de aniversário.

 

Muito obrigada pela visita!

 

 

*

 

 

Álbum de Família (2008)

 

Queridos Leitores, (2011)

 

Cabinet de Curiosités (2011)

 

Na blogosfera desde 2008 (2012)

 

Cabinet de curiosités 2 (2013)

 

Tags (2013)

 

 


14.11.15

 

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 Une victime des terroristes à l'extérieur du Bataclan à Paris, le 13 novembre 2015.

(AP Photo/Jerome Delay)

 

 

 

 

Entre le tortionnaire et le corps qu'il déchire, la dissy­métrie est extrême. Le premier s'affirme délié de tout inter­dit. Le second doit se retrouver lié de partout. « Celui qui a, même une seule fois, exercé un pouvoir illimité sur le corps, le sang et l'âme de son semblable... celui-là devient incapable de maîtriser ses sensations. La tyrannie est une habitude douée d'extension... Le meilleur des hommes peut, grâce à l'habi­tude, s'endurcir jusqu'à devenir une bête féroce», écrit Dos­toïevski. La torture recèle in nuce, à l'état réduit et concentré, encore fruste et élémentaire, un style de rapport humain que seule la littérature russe ose scruter avec patience, avec sang-froid sous l'étiquette «nihiliste». Comme tous les articles en vogue sur le marché des biens et des idées, le mot eut tôt fait de se dévaluer. Ainsi crut-on démonétiser l'idée et exorciser cet inquiétant horizon de la modernité. Peine perdue. Dou­blement. D'une part, la réalité est têtue. Et Dostoïevski au retour de la maison des morts, Tchékhov visitant le bagne de Sakhaline, Soljénitsyne et Chalamov rescapés du goulag s'en­tendent à rappeler l'inhumanité de notre humanité. Par ailleurs, la littérature russe est obstinée et n'a de cesse qu'elle n'examine, tourne, retourne l'unique objet de sa méditation, une barbarie qu'elle a toujours refusé, depuis Pouchkine, d’ensevelir dans les lointains antérieurs des sociétés dites primitives ou des caractères taxés incultes. Et Dostoïevski d’insister: «D’où sont sortis les nihilistes ? mais de nulle part, ils ont toujours été avec nous, en nous, à nos côtés».

 

 

André Glucksmann

in Dostoïevski à Manhattan [4. Le cogito du nihiliste]  p. 125-126

© Éditions Robert Laffont,S.A., Paris 2002

 

 

 

 

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11.11.15

 

 

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 Lisboa, 2015

 

 

 

 

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O futuro?

 

 

 

A família donde se venha (pai, mãe, avôs, avós, irmãs, irmãos) prepara-nos para a vida, inclusive porque, sem a gente sequer dar por isso, tantas vezes nos leva a amar pessoas de quem nunca gostaríamos. Com países é diferente: cada um tem os vizinhos que tem e ou se gosta deles ou não se gosta: daí não se sai. Pelo sim pelo não, dantes qualquer país que se prezasse tinha o seu Ministério da Guerra. De há décadas a esta parte passou a dizer-se Ministério da Defesa. Valha-nos S. Jorge Orwell.

 

Vizinhos, vizinhos, nós portugueses só tínhamos um; daí a prudência. “De Espanha nem bom vento nem bom casamento” é prevenção tão ancestral que o tratado internacional de entreajuda mais antigo do mundo ainda em vigor foi assinado por Portugal e a Inglaterra em 1386. E também para garantir mais independência à dinastia que inaugurava, o Mestre de Avis foi buscar mulher à casa inglesa de Lancaster. Histórias de poder: veio a seguir o Tratado de Tordesilhas dividir o mundo descoberto e a descobrir entre Portugal e Espanha. Depois, já com Os Lusíadas escritos – há países para quem a epopeia é ao mesmo tempo o epitáfio, disse há quase século e meio Oliveira Martins - regras dinásticas trouxeram-nos o primeiro rei Filipe (segundo de Espanha) para, sessenta anos depois, revolta popular e fidalga nos livrar do terceiro (quarto de Espanha). São águas passadas. Neste nosso tempo em que a fatia europeia do bolo mundial continua a mirrar o único vislumbre que pessoalmente tive do que seria o “espírito de Tordesilhas” aconteceu quando, havendo eu sido escolhido para Secretário-Geral da União da Europa Ocidental em 1994, Javier Solana foi escolhido para Secretário-Geral da OTAN em 1995. Mas não éramos patrões – éramos só gerentes.

 

Entretanto, bem entendido, Espanha e Portugal tinham aderido às Comunidades Europeias. Entre ambos a corrida, por assim dizer, passara a ser com touros embolados ou, abandonando folclores, a nossa vizinhança passara a ser outra, fora da União. Essa preocupa e poderá dar maus exemplos, sobretudo agora que um toque de Terceiro Mundo parece convir às predilecções de parte do novo poder político. Já existe espalhado em Portugal, mesmo para lá da extrema esquerda, um apoio bem intencionado mas faccioso e ignorante à “luta do povo palestiniano”, condimentado por laivos frequentes de antissemitismo (o velho antissemitismo europeu, com longas raízes históricas, mudou-se no nosso tempo da direita para esquerda). Sobre esse caldo de cultura alguns poderão agora ser tentados a imitar jeitos dos que se impacientam com as delongas da democracia formal e preferem ganhar batalhas políticas e sindicais na rua. A ir deitando pela borda fora costumes de civilidade democrática estabelecidos desde o fim do Estado Novo. A parecerem dar razão, em suma, àqueles e àquelas que, de vez em quando, olhando para trás e olhando à sua roda, sombriamente se convencem de que Portugal é incapaz de criar no seu seio elites sustentáveis. É pena.

 

 

 

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10.11.15

 

 

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Que répliquer à l'hégélianisme spontané qui gouverne la une des journaux ? Comment ne pas concéder que l'histoire du monde juge tout le monde et emporte tout un chacun (Weltgeschichte ist Weltgericht)? Ma réponse est brutale, je te l'expédie sous forme d'une injonction pragmatique et sai­gnante : redevenons classiques. Pas naïvement classiques, bien sûr. Casse-cou jusqu'au bout, je n'aurai de cesse avant que tu m'entendes: revenons à Racine. Oui, résiste à l'incoer­cible désir de normalité qui pousse à s'immerger dans ce qui semble le cours des choses. Oui, prête au journal télévisé l'attention détachée, mais imprescriptible, que suscite une représentation d'Athalie ou d'Andromaque. Sur la scène, à l'écran, l'éclair du définitif risque à tout moment d'accrocher ton regard. Accrocher à quoi? La question est bonne. Garde la tête hors de l'eau, redeviens « classique », et tu ne seras jamais l'homme d'une seule époque.

 

Le classique habite deux patries, la sienne et une autre. La Florence des Médicis et la Grèce, la Rome du quintocento et celle d'Auguste. Le Siècle d'or espagnol, l'Angleterre d' Élisabeth, la France du Roi-Soleil, au choix, mais jamais sans son ombre glorieuse et antique. Les classiques cultivent le sentiment paradoxal mais banal d'une plongée dans l'histoire qui les élève et les enlève hors histoire. Ils s'autorisent de l'expérience immobilisée du temps qui passe. Ces esprits à double nationalité recherchent le temps perdu plus frénétiquement que l'existence de Dieu, quitte à reconnaître, avec Proust que, perdu pour perdu, le temps est cette recherche même, dont on ne sort que mort. Il n'y a pas de train pour Cythère, mon ami. Afin de vaincre l'angoisse des quais de gare, grignote une madeleine.

 

 

 

André Glucksmann

in Le Bien et le Mal, Lettres immorales d'Allemagne et de France

© Éditions Robert Laffont, S. A., Paris, 1997

 

 

 

 

 

 

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4.11.15

 

 

  

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 Mário Soares na manifestação da Fonte Luminosa, Lisboa 1975.

 

 

 

 

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Salvar a Pátria outra vez?

 

 

 

Talvez o Dr. Mário Soares pudesse salvar a Pátria, tal como fez durante o PREC há 40 anos. Não estamos juntos há algum tempo. Mas se nestas coisas sentir como quando me lembro dele no Verão quente de 1975 e saísse do silêncio das últimas semanas, proclamando alto e bom som que sem defesa constante da liberdade, da democracia parlamentar e da Europa não há caminho para Portugal, talvez número suficiente de dirigentes socialistas retomassem o rumo sensato e moderado do Partido - cortassem com o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda, deixassem passar no Parlamento o governo de Passos Coelho e cumprissem o seu dever patriótico de oposição parlamentar.

 

Dizem-me que tudo isto é muito improvável. Mário Soares não intervirá; mesmo que interviesse, poucos dirigentes socialistas lhe dariam ouvidos; mesmo que alguns lhos dessem, partidos políticos no poder são hoje máquinas eficazes de distribuição de serviços e influências e muitos socialistas, há 4 anos afastados da cornucópia do governo central e ávidos dela, dando por si de repente tão perto, preferem fazer vista grossa sobre o estratagema tosco que lá os fez chegar e, encorajados por desajeitamento natural e impopularidade à esquerda de Passos Coelho e Cavaco Silva, pretendem que tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos democráticos possível. É erro moral de consequências pesadas previsíveis, algumas das quais se começam já a sentir. Nestes últimos dias, duas pessoas cujas sensibilidade e visão aprecio sentiram no ar um cheiro de guerra civil; outra escreveu, lapidarmente: “A linguagem da ‘esquerda unida contra a direita’ e dos ‘pobres contra os ricos’ é um dos distintivos do ‘terceiro mundo’ e uma das causas da pobreza”.

 

‘Terceiro mundo’ para cujo estilo de vida poderemos resvalar. Enquanto, em 1974 e 1975, a União Soviética existia e, por isso, trabalhistas e conservadores britânicos, sociais-democratas e cristãos democratas alemães, decididamente contra ela, nos puseram a mão por baixo como Deus faz aos borrachos, agora, a Europa, haja ou não de nos mandar troika e nos pôr de castigo, tem muito mais e pior com que se preocupar. Além disso, quem possa trazer dinheiro fresco de fora, sem o qual não sairemos do buraco, olhará para a estabilidade do regime e, se esta não o satisfizer, irá bater a outra porta aberta. Em regabofe pré-governativo, socialistas, comunistas e bloquistas não parecem ter-se dado conta disso. Nem, os dois últimos, de implicação perversa: vão mandar às urtigas convicções temperadas pelos anos para apoiar governo que agirá contra elas?

 

Continuo a pensar que a austeridade não é maneira boa de tratar da crise financeira. Mas os governos da zona euro e as instituições europeias, incluindo o Banco Central, entendem que sim. Passos Coelho fez bem o que pôde, ao fim de 4 anos ganhou os votos e estávamos a começar a viver com menos aperto. A manobra para o deitar abaixo, imprópria de pessoas de bem, vai demorar a saída da crise.

 

 

 

 

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1.11.15

 

 

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 La Blessure (2004 França/Bélgica)

de Nicolas Klotz e Elisabeth Perceval

 

 

O melhor filme que vi nesta edição do Doclisboa é uma recriação notável das condições de acolhimento e de vida de imigrantes africanos em França.

Um texto sobre o filme e mais fotografias na revista Courte-Focale aqui.

 

A crítica de Jacques Mandebaum no Le Monde aqui

A text in English here.

 

 

 

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28.10.15

 

 

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Jacob van Ruisdael 

 

 

 

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E agora, José?

 

 

 

“Isto o que é preciso, Senhor Doutor, é a gente estar bem com a lei que há” respondeu-me há meio século grande proprietário de aldeia alentejana minúscula – peixe grande em redoma pequena – a quem eu perguntara como eram as relações com o poder - com o Governo Civil de Évora; com os ministérios em Lisboa – no tempo da República (nessa altura o Estado Novo apodrecia no marcelismo e não era preciso dizer Primeira porque só tinha havido uma). Homem letrado para o seu tempo, o seu lugar e a sua condição - mesmo que o modo conjuntivo lhe escapasse às vezes - deixou-me essa pérola de sabedoria cartesiana: quem não estivesse bem sob uma ditadura (ou não estivesse bem numa democracia…) tinha obrigação de saber que se agisse em consequência o faria por sua conta e risco. Era por assim dizer a tábua rasa onde se jogava. Valeu até à semana passada.

 

Acabado este parágrafo, copio para a leitora o que velho amigo acaba de me escrever. “O País que é o nosso perdeu mesmo a vergonha. Depois de 4 anos abúlicos perante uma violência estúpida e destrutiva de pessoas, bens, património e instituições a noviciada esquerda unida prepara-se para nos servir de bandeja dentro de meia dúzia de meses mais 4 ou 8 anos de coligação PAF que acabará definitivamente com o que temos para terminar honradamente as nossas vidas. Se isto não é o finis Patria do G. Junqueiro não sei o que será”.

 

Carradas de razão: a seguir aos desmandos da obsessão neo-liberal, iremos sofrer golpadas populistas do pior oportunismo e nos próximos votos, que depressa nos irão pedir, a direita ganhará forte e feio, deixando o PS Pasokificado, como agora se diz (não esquecer que durante esta campanha eleitoral o único partido que propunha a união das esquerdas não elegeu um único deputado). Mas eu talvez acrescentasse que, com Guerra Junqueiro ou sem ele, a Pátria ganhou o costume, desde há uns 150 anos para cá, de ser vista de vez em quando a chegar ao fim por alguns dos seus filhos mais insignes. Eça de Queiroz, Fernando Pessoa, Alexandre O’Neill - e agora cabeças pensantes que escrevem para jornais e receiam que a crise de estima e de confiança nos partidos políticos se agrave mais, a seguir às faltas de tento, de patriotismo e de maneiras exibidas por quase todas as chefias nacionais e partidárias desde as eleições de 4 de Outubro, e ponha em perigo a democracia. (Tem sido um espectáculo triste, de que somos todos responsáveis. No tempo do Dr. Salazar, quando as coisas iam mal, achava-se que a culpa era dele – ou, para os salazaristas, do reviralho e de Moscovo. Passou a ser nossa).

 

Mas os portugueses hão de ser sempre os mesmos porque não há outros, como dizia o primeiro Duque de Palmela, a quem chamavam em Lisboa o Inglês-Mor – ou, pelo menos, assim me contou um dia o Vasco Pulido Valente. O que não torna cada finis Patria menos desagradável. Pelo contrário. No que atravessamos agora sinto-me, pela primeira vez na vida, sem saber qual é a lei que há. Muito grave.

 

 

 

 

 

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25.10.15

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A primeira série dos “Cadernos” (1940-42) foi organizada pelos três poetas referidos e engloba cinco números antológicos; a segunda (1951) foi concretizada por Jorge de Sena, Ruy Cinatti, José Blanc de Portugal e José-Augusto França com sete fascículos. A terceira teve três números (1952-53).

 

 

 

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21.10.15

 

 

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Sala de Actos do Colégio do Espírito Santo, Évora

 

 

 

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Aldeia da roupa branca

 

 

 

Amiga do coração, voltando de sessão solene universitária, passada algures em sala bonita na província deste maravilhoso país que tão generosamente me acolhe no seu seio – assim escreveria o meu chorado A.B. Kotter, da Várzea de Colares - saíra dela tão bem impressionada que me disse “[H]oje senti-me muito feliz e orgulhosa de Portugal”.

 

Conto isto aqui à leitora metendo A.B. Kotter pelo meio porque há muitas maneiras de se ser do país de onde se é e há também diferenças marcadas de país para país. Num dos Diários do Marcello Mathias, não me lembro qual deles e é de memória que arrisco, Marcello está de visita a uma catedral inglesa (Salisbury?) quando o espaço da igreja e inscrições várias nas suas paredes, algumas sobre mortos pela Pátria em guerras contra estrangeiros, o levam de repente a perceber que ser inglês is a full time job.

 

Ser português nem sempre parece tal. Nós somos menos intensos; dá-nos a coisa nalguns dias, noutros não tanto. Por exemplo, na derrocada de honra e de bom senso que, desde a noite do passado dia 4, no rescaldo das eleições legislativas, alguns insistem em nos apresentar como construção do futuro – de um futuro cheio de amanhãs que cantam – é só em oásis de tempo ou de espaço que muita gente portuguesa se poderá agora sentir bem com Portugal.

 

O avesso – como na roupa – da apregoada brandura dos nossos costumes, refractária a guerras civis, revoluções e motins por tudo e por nada, que, sem alarde ou vanglória, cometeu o maior feito histórico do país desde 25 de Abril de 1974 – a absorção pacífica de centenas de milhares de retornados de África, muitos dos quais nunca cá tinham posto pé - revela-se no bom modo com que o país sustentou quatro anos de austeridade sem tugir nem mugir. É o reverso da medalha.

 

Ora longos períodos de apatia cívica definham a fibra do respeito por si próprio, da mesma maneira que, mutatis mutandis, longos períodos de imobilidade física vão definhando as fibras do tecido muscular e chegam, por vezes, a fazer desaparecer os músculos. Assim enfraquecida, incapaz de perceber bem quem é, atordoada pelo rumor da vida a dar socos na porta cada vez mais ensurdecedor de há século e meio para cá, desde que telégrafo, e depois telefone, telefonia, televisão, internet, redes sociais e o mais que virá, se verá, ouvirá e sentirá, mudaram de alto abaixo a nossa residência na Terra – nos foram dilacerando da tribo sem nos armar em cidadãos do mundo – a gente tenta agarrar-se à aldeia, enterrar a cabeça como as avestruzes. Na aldeia de cada um às vezes tudo parece possível: o novo primeiro ministro do Canadá vai deixar de bombardear o Estado Islâmico; os trabalhistas britânicos escolheram Corbyn para chefe; em Portugal uma suposta ‘esquerda unida’, apesar de diferenças de crença que tornam tal união impossível, entende que o povo a quer para governo, apesar dos resultados do voto de 4 de Outubro não indicarem isso de todo. Terá a nossa aldeia perdido a vergonha?

 

 

 

 

 


14.10.15

 

 

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 O Rei Jorge V de Inglaterra e um mendigo no Derby

 

 

 

 

 

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Broncalina do camandro?

 

 

 

“De resto, cá vamos andando – agora observando este impasse da política portuguesa, com um misto de incredulidade e apreensão. Vamos lá ver como é que o António Costa faz o seu jogo – francamente não gostava de estar no lugar dele. A Social-Democracia está numa situação impossível um pouco por todo lado, não é? Como diria o seu amigo designer de quem fez o obituário há uns meses, é uma broncalina do camandro…” desabafou correspondente lisboeta, em e-mail sobre outro assunto.

 

Está, sim senhor – desde o fim da União Soviética, embora nem toda a gente tenha dado por isso. Os regimes comunistas foram logo ao ar (tirando a Coreia do Norte e Cuba) mas quase só Tony Blair percebeu que a social-democracia também estava condenada. Ela existira como mal menor – os dirigentes sindicais vendiam metade da alma ao Diabo para serem aceites pelo patronato mas a outra metade chegava para lhes dar credibilidade junto dos seus e toda gente vivia em paz e sossego na prosperidade ocidental – mas, com o mal maior extinto, o mal menor deixou de ter razão de ser. Blair, Brown (e Mendelson, a cabeça pensante do partido) adoptaram a “terceira via” (a arte de cortar pensões a velhinhas com boa consciência, chamava-lhe um cínico); não tivesse havido a desastrosa guerra do Iraque talvez ainda hoje governassem o Reino Unido. De resto sociais-democratas só se aguentam na Alemanha como parceiros menores, em coligação com Merkel e, na Suécia, depois de quase meio século de poder, desapareceram há anos do governo.

 

A partir da “terceira via”, terá de se inventar melhor senão está o caldo entornado, porque as desigualdades económicas hoje são excessivas. Os ricos estão cada vez mais ricos: nos Estados Unidos, por exemplo, enquanto os rendimentos de operários estagnaram ou diminuíram, entre 1978 e 2012 o pagamento dos CEO das grandes companhias aumentou 876%! Como Marx lembrou, alterações quantitativas acabam por levar a alterações qualitativas e se a tendência continuar não é preciso perspicácia de Papa ou de trotskista para prever balbúrdia.

 

O desabafo do meu amigo lisboeta também se preocupa com o jogo que fará o Secretário-Geral do Partido Socialista português. Para isso, 1974 devia ser exemplo. A URSS era forte, os amanhãs que cantam pareciam evidentes a muitos, havia no PS muita gente à esquerda de Mário Soares e o marxista-leninista Manuel Serra disputou-lhe o lugar. Acordados com Soares, alguns militantes (entre eles Victor Cunha Rego, Vasco Pulido Valente) apresentaram moção social-democrata, colocando ao centro Soares que derrotou Serra e manteve rumo sensato, decente e patriótico, ganhando eleições em 1975 e 1976 e, de caminho, salvando o país. Bem para lá do talento táctico o que deu força a Soares foi a sua crença inabalável na democracia parlamentar e na Europa (a cuja porta bateu logo que primeiro-ministro). Quem tiver crença menos forte quer numa quer noutra, se alcançar por fim poder político fará muito mal a Portugal.

 

 

 

 

 

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10.10.15

 

fotografias de João D' Korth

 

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Álbuns de João D'Korth no Flickr:

 

Exposição do Mundo Português

França Anos 30

Marrocos Anos 40

 

 


7.10.15

 

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Não há de ser nada…

 

 

 

Melhor: talvez até possa ser tudo. A crise da imigração, encarada ao gosto de cada um, de Helsínquia a Bucareste, de Londres a Paris, pelos políticos mais demagógicos das nossas praças – a Hungria que arrancara arame farpado cortante da sua fronteira para pessoas poderem fugir dela para o Ocidente em 1989, repô-lo agora para impedir outras pessoas de entrarem nela a caminho da Alemanha, que as quer acolher – estimula políticos que agitam espantalhos julgados de efeito seguro junto de eleitores assustados. A Europa é cristã, dizem eles, a mourama está à porta e, se a deixarmos entrar, o Estado Islâmico vai, pelo menos, encher isto tudo de terroristas, ou talvez até tomar conta do governo de um ou outro dos nossos países (como o escritor francês Michel Houllebecq imaginou para a França num romance de ficção histórica de sucesso). No Médio Oriente há quem sonhe com tais triunfos: em 1992 o Chico Quevedo, nosso embaixador em Ancara, viu numa manifestação de apoio aos muçulmanos dos Balcãs cartaz que rezava: “Não deixaremos que a Bósnia se transforme numa segunda Andaluzia”.

 

Mas o sonho não passa disso, do sonho de escassos entusiastas, e a ideia de que se poderão ressuscitar guerras religiosas na Europa - espantalho plantado por muitos desses demagogos - é profundamente disparatada. O que caracteriza a Europa – a União Europeia e os seus Estados Membros – não é ser cristã, embora o tenha sido durante séculos, a sua cultura esteja impregnada de cristianismo e parte considerável dos seus habitantes pertençam a igrejas cristãs: católicas, ortodoxas, protestantes. O que caracteriza a Europa é ninguém nela poder ser preso ou perseguido em justiça devido às suas crenças ou práticas religiosas. A separação entre estado e igreja é radical – mesmo quando haja uma igreja oficial e o chefe do estado seja também o chefe dessa igreja como acontece em Inglaterra (conhecida, além disso, por ser considerada o berço da democracia e nos ter dado a Magna Carta). Quem poderá ter problemas aqui não serão os europeus mas alguns dos recém vindos do Islão que abracem variedades deste intolerantes de outras crenças: esses, se não se adaptarem, terão de se ir embora. Guerras religiosas já as corremos do nosso seio há muito tempo.

 

Quanto à questão de fundo: os imigrantes precisam da Europa e a Europa precisa dos imigrantes. Para manter o equilíbrio de hoje entre população activa e o resto, a Alemanha necessita 500.000 migrantes por ano até 2050. Há demografias menos atrapalhadas mas, com diferenças de grau, o problema é de todos. Cabe aos políticos encaminharem as coisas de maneiras que nos convenham e, guiando-me pelo passado, julgo que tal acontecerá. Por duas razões: 1 Na Europa, quando as coisas vão bater no fundo aparecem chefes à altura (Churchill; De Gaulle; Soares em 1975). 2 Desde o começo, a construção europeia progrediu de zaragata em zaragata - e a crise da imigração vai obrigá-la a dimensão política que lhe tem faltado.

 

 

 

 

 

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3.10.15

 

 

 

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   Garrett - Columbano (detalhe)

 

 

 

 

 

 

Carta de Almeida Garrett ao político e amigo Rodrigo da Fonseca Magalhães

 

"Pensa", escreve Garrett em 1846 ou 1847 ao seu amigo, nesta carta inédita que pertence à Biblioteca Nacional. "E se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secreto, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver." Estava-se em plena Guerra da Patuleia, que dividiu o país entre liberalistas e miguelistas, e Garrett oferece-se para ajudar. O "acordo", se existiu, manteve-se mesmo secreto. Não se sabe qual foi — se algum — o envolvimento de Garrett nos bastidores.

 

 

5a feira

 

[...]

Meu Rodrigo, aproveito esta ocasião para te pedir que estejas bem em guarda para te não deixares comprometer com certos sujeitos que nós sabemos. Olha que eles nada te podem dar, e se te pudes­sem dar alguma coisa, não ta davam. Se se chegam para ti é porque sabem que nada têm, e fazem de vampiros para vi­ver do teu sangue. E depois uma de duas, ou te hás-de desfazer deles, e chamam-te traidor, ou os aturas e alienas de ti os verdadeiros valores. No meio destas ruínas em que está Portugal tu podes ter uma bela missão.

 

Isto é como o terramoto de 55: nós não o fizemos, tu não o fizeste. E o que se incarregar de levantar a cidade caída não é responsável pelo que a deitou abaixo. Esta opinião e modo de ver não é meu, é de muita gente, e pode­remos fazê-lo ser do maior número se se for com tento e firmeza.

 

Tu bem sabes que eu não cos­tumo oferecer-me para nada; mas também sabes que sou amigo verdadeiro e eficaz quando a consciência da razão e da alma se juntam às minhas simpatias pessoais. Eu digo a todos que não sou de políticas, e que abdiquei, mas a ti digo-te que escolhi de propósito e de longamão esta posição insuspeita porque vi do princípio que por bastante tempo outra era impossível com proveito público. Creio que me não inganei. Assim vejo todos, e com todos falo em negócios que de outro modo não são tratáveis.

 

Se vires que podemos falar sério e com proveito nestas coisas, e que convém, dize e  falaremos. Os patuleus estão com mais senso do que os eu supunha.

 

Se se tenta alguma coisa, é preciso tentá-lo já, isto é, prepará-lo; e parece-me a mim que posso ajudar-te nal­guma coisa, especialmente porque cuidam que o não pretendo.

 

Ora eu realmente para mim aqui nada quero.

 

Adeus. Pensa, e se julgares que podemos com um acordo perfeito, íntimo, mas secre­to, fazer algum bem a esta pobre terra, avisa das horas mais convenientes de te ver. E tu bem deves saber que eu não sou poeta em prosa, e que todos valem mais que eu, menos em lealdade e certeza que ninguém mais que eu vale. Teu dedicado amigo

 

JBAG

 

 

*

 

 

A 4 de Março de 1852, ao apresentar o texto do primeiro Acto Adicional à Carta Constitucional, por si redigido, Almeida Garrett proferiu o último discurso na Câmara dos Deputados. Este é um verdadeiro testamento político (a que deve juntar-se a alocução, também derradeira, na Câmara dos Pares, em 10 de Fevereiro de 1854), e nele se inclui este enigma de decifração de profundas convicções:

 

Eu também já perdi as minhas ilusões; também já não creio na maior parte das cousas em que acreditava; mas há uma única crença, é a crença na minha Pátria é na liberdade dela [...]. Mas quando a per­desse, sumia-a no fundo de minha alma para que ma não suspeitasse a Nação Portuguesa.

 

Das bancadas parlamentares que o aplaudiram (no registo dos taquígrafos, emotiva e efusivamen­te o fizeram), não podem contar-se aqueles que terão penetrado o sentido dissimulador, tão do agrado do escritor, que essas palavras contêm.

 

Ora, descrente das soluções e dos oportunismos que enchem páginas na história do nosso liberalis­mo, Garrett aprendeu a dissimular as mais fundas crenças, cobrindo-as sob um manto (ou jogo) irónico de "ilusões" e "crenças" com que manteve incólume uma postura de independência dos partidos e inte­resses particulares de então. Daí a fórmula, que não deixa de ser perturbadora e que podemos traduzir deste outro modo: se hoje deixei de pensar o que ontem posso ter pensado, não afirmo nem desminto tanto o que ontem posso ter pensado como, hoje, o ter deixado de pensá-lo.

 

Fórmula especiosa... e perturbadora! Afinal de contas, fórmula geral de uma "intimidade cons­trangida", que, com o tempo (sobretudo, por força de um tempo histórico vivido), aprendeu a escamo­tear em público as convicções mais íntimas, sem as apagar de todo. Mas quais terão sido estas?

 

Creio que, de um juvenil ponto de partida repu­blicano (de que o federalismo norte-americano foi "a pedra filosofal" dos sistemas políticos) e jacobino (de que as revoluções servem para "colocar os homens no seu lugar"), permaneceu uma dissimulada posição de defesa do que, no primeiro liberalis­mo português, podemos considerar os difusos interesses populares.

 

E, de forma irruptiva e mais ou menos velada, conforme as circunstâncias — nessa "posição in­suspeita" de quem já vira "que por bastante tempo outra era impossível com proveito público" (ver carta inédita junto) — , Garrett surgiu nos picos de maior radicalidade ao lado do partido popular e contra o oportunismo das facções.

 

No geral, manteve o princípio de conservação das liberdades e de estabilidade política que se não confunde com conservadorismo e não pode esconder as crenças subtilmente veladas pelas "endiabradas políticas" que "tudo absorve[ra]m" no nosso longo século XIX.

 

 

 

 

Luís Augusto Costa Dias

in Jornal Público, Caderno "150 anos da morte de Almeida Garrett ", 9 de Dezembro 2004

 

 


 

 

 

* Imagem: Óleo sobre tela de Columbano Bordalo Pinheiro concluido em 1926 [pormenor] . Passos Perdidos, Assembleia da República, Lisboa

 

 

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30.9.15

 

 

 

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Retornados

foto de Rui Ochôa

 

 

 

 

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O fim ou o começo?

 

 

 

Valha-nos o Papa Francisco com manto de bondade universal que não tinha ombros a sustentá-lo desde a morte de Nelson Mandela. Muito de vez em quando, há homens e mulheres assim, Estrelas do Norte que levam tempo a iluminar – Principal dos jesuítas na Argentina dos Generais; comunista a britar pedra na Africa do Sul do Apartheid – mas que, depois de firmada a luz, nada e ninguém apaga.

 

Bem precisamos deles agora. Não só por causa do detestável Victor Orban e demagogos quejandos, vindos do lado de lá da Cortina de Ferro, deitada a baixo há 26 anos mas cujo mal levará muito mais tempo a desfazer do que se imaginou: gerações em que filhos desconfiaram de pais, pais desconfiaram de filhos, vizinhos de vizinhos, polícia dos outros cidadãos e os outros cidadãos da polícia, fizeram sumir a confiança e, como dizia a cantiga: sem confiança, não pode haver felicidade. Mas também por causa de demagogos do lado de cá, sobretudo em França que se arrisca a eleger Marine Le Pen presidente da república daqui a dois anos. Muitos franceses e amigos da França, criados nos mitos de “la Republique” e da resistência antinazi, acham impossível mas receio que se enganem. Não se deram conta de que a França de François Hollande é muito mais parecida com a França do Marechal Pétain do que a Alemanha de Angela Merkel é parecida com a Alemanha de Adolf Hitler, Volkswagen e tudo. Na União Europeia, a Alemanha é hoje o bastião mais sólido contra tentações ditatoriais e tentativas de abuso dos direitos civis e políticos das pessoas. (A virtuosos profissionais como os suecos e, em certa medida, os ingleses, falta o travão brutal e salutar que a memória histórica faz disparar nos alemães sempre que poem o pé em ramo verde).

 

A Europa Comunitária, inventada a seguir à guerra de 39-45 por Jean Monet & Cia., na esteira de muitos visionários, não herdou tradições de Império. Pelo contrário: entalada entre o Comintern e o excepcionalismo americano tentou desfazer-se das que alguns estados membros albergavam. Defendida do papão Estaline pelo arsenal militar americano e adubada por dólares do Plano Marshall, cresceu até ser União Europeia, espécie de gigantesca ONG que, entre nostalgia, culpa, cobardia e inveja, não encontrou ainda o seu lugar no mundo.

 

A catadupa de refugiados de hoje poderia acordá-la dessa espécie de sonambulismo mas, em quase todos os nossos países, políticos e comentadores ponderam as boas razões de Orban - disfarçadas de neofascismo, explicam, por ele querer, democraticamente, agradar aos eleitores - e escandalizam-se com excessos do Bem, esquecidos de que o Bem é sempre escandaloso. Assim não iremos lá.

 

Os factos são simples: a Europa precisa de imigrantes como de pão para a boca, e eles querem vir. Para os aproveitar os europeus têm de se organizar e coordenar. Parece evidente mas não o é e o tempo foge. Se nos enlearmos no medo dos mouros dos demagogos, o futuro ir-nos-á apanhando cada vez mais enfraquecidos e divididos.

 

 

 

 

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