24.4.15

 

Henrique D’Korth Brandão,  que alguns leitores conhecem do Facebook onde publica regularmente fotografias – as suas e as do seu álbum de família ­– pôs gentilmente à disposição deste blog os álbuns de fotografias de seu tio João D'Korth, que lhe foram recentemente oferecidos. Em futuros posts apresentaremos as fotografias de João D'Korth, começando pelo álbum da Exposição do Mundo Português (1940), a coincidir com as efemérides dos 75 anos do evento e dos 120 anos do nascimento de António Ferro.

 

Pedi a Henrique uma apresentação de João D'Korth:

 

 

 

D'Korth João Carris15

 

 

 

 

João D’Korth (1893-1974) 

 

Meu tio-avô João "Grande" (como me ensinaram a chamar-lhe para o distinguir do tio João "Pequeno", irmão de minha mãe), nasceu em Lisboa ao meio-dia de terça-feira 2 de Maio de 1893 na Rua Larga de São Roque, número 66, 2º andar e foi baptizado aos 25 dias do mesmo mês, na igreja do Santíssimo Sacramento com o nome de João Chrystiano Castagna D'Korth.

 

Sei que o "Tio Faísca" trabalhou décadas na C.R.G.E. [Companhias Reunidas de Gás e Electricidade] quando ainda sediada na rua Vítor Cordon, que esteve em França na Grande Guerra, e aí se interessou por pombos-correios. Também gostava de pesca. No jardim da sua Princesa, havia pombas de leque e carpas brocadas em profusão; rosas de Santa Teresinha e brincos-de-princesa.

 

 

 

D'Korth João fardado 1917 07 

João D'Korth em 1917

 

 

 

Segundo a minha mãe e a minha tia, o tio João tratou a Néné "como uma Princesa". Era a Princesa dele e uso agora a aliança que ele usou, revelando quando aberta o nome dela e a data do casamento: Maria das Dôres, 9-2-1931.

 

Foi a Néné que encadernou livros e albuns de fotografias, preservando a maior parte do espólio de imagens a que tive acesso — a guardadora de imagens que me permitem evocar e aceder a esse mapa da cidade-de-cada-um, feito das ruas-do-onde-morava.

 

 

 

 

img050

 

Nené - Maria das Dores D'Korth no seu estúdio de encadernação

em Lisboa na Travessa da Fábrica das Sedas, 23

 

 

 

img044 

 

 Álbum de fotografias de João D'Korth encadernado e com papel estampado por Néné 

 

 

Foi engenheiro e engenhocas. Os relógios, que coleccionou, pontuaram a vida da casa, do rés-do-chão ao primeiro andar; acertados por ele, disparavam a cada quarto-de-hora em intervalos de segundos para se poder ouvir distintamente o toque de cada um. Eram relógios de caixa-alta, de carrilhão, de mesa, de três movimentos, de parede e, em profusão no estúdio de encadernação da tia Dores, os de cuco.

 

 

A música foi outra das suas paixões: seu pai, meu bisavô João Gregório D'Korth, médico-homeopata, foi um dos fundadores da Academia de Amadores de Música. Tocava violino e os três filhos estudaram todos um instrumento. Piano, violino e violoncelo, em casa, em Paris e em Berlim.

 

 

 

img120

 

Da esq. para a dta Maria Henriqueta (1892), João Cristiano (1893) e Arminda Mariana (1894)

Lisboa, fotografia Vidal e Fonseca, c. 1900

 

 

 

As aparelhagens de som foram em várias casas de parentes montadas por ele com requintes de amplificação e pré-amplificação. Gostava de automóveis e de viagens; primeiro, das complicadas, daquelas guiadas horas a fio e com guindastes pelo meio para içar a máquina da estrada para o ferry e do barco para outras margens.

 

 

 

 img050 - Version 2

 

 Viagem a Marrocos, anos 40

 

 

 

Com o passar dos anos, foram os cruzeiros e a linha "C", "Grande come il mare", com todo o seu rol de nomes de Augusto a Flavia, passando pelo meu: Enrico.

 

 

Só há pouco descobri que aos pombos, peixes, automóveis, abelhas, relógios, navios, e aviões, podia juntar ainda como paixão sua a fotografia. Faceta oculta que me é revelada meio-século volvido: quando julgava não existirem mais fotografias de família para digitalizar, aparecem quatro álbuns que me dão a ver um mundo que se estende para além do país dos afectos.

 

 

 

 

 

img070 - Version 3

Estádio Nacional, 1944

Toni e Néné, os irmãos António José Brandão e Maria das Dôres Brandão D'Korth

 

 

 

post 1-41.jpg

 

Exposição do Mundo Português, Lisboa 1940

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FAMÍLIAS - NOMES

 

Os Castagna vieram de Malta em meados do século XIX, e foram comerciantes com loja de câmbio na Rua dos Capellistas, ou Rua Nova d'El-Rey (2).

 

Os D'Korth eram médicos que emigraram da Antuérpia para a cidade da Horta e daí para Montevideo, Porto e Lisboa. O tio João Grande era irmão de minha avó [materna] e casou com uma irmã de meu avô [materno]: cunhados, irmãos e vizinhos, numa espécie de imagem de espelho a revelar as duas famílias de que descende minha mãe: os (Carvalho) Brandão, brincalhões e mais down-to-earth, vindos da Mealhada-Anadia para Lisboa onde meu bisavô abriu loja na rua Augusta em 1913. Os de Korth, reservados de aparência e assaz altivos.

 

img117 - Version 2

 

Pintura a óleo representando o bisavô João Gregório D'Korth (1853-1925) a tocar violino com o "seu" quarteto; pintado pela minha bisavó, Marianna Castagna D'Korth, em 1900, na casa da Estrada das Laranjeiras a Palhavã. A casa foi demolida para dar lugar á Praça de Espanha e o quadro desapareceu também.

 

 

Henrique D'Korth Brandão

Lisboa 2015

 

 

 

 

 

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22.4.15

 

 

Mediterraneo.jpg

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Oh Senhor, é bom ser burro mas não tanto…

 

 

Assim desabafava, antes de nos dar zero, o major David dos Santos que tinha feito a Guerra de 14 na Flandres e nos ensinava matemática na Valsassina quando um de nós, chamado ao quadro, era incapaz de resolver o problema posto.

 

Gostava de ser um major David dos Santos gigante que tivesse por alunos os chefes políticos europeus de hoje e os chamasse ao quadro. Os problemas por resolver começam a ser demais e é incómodo em democracia que, como somos nós a escolher ou não quem manda em nós, ao fim de anos de mais do mesmo, a culpa é nossa também.

 

Deixo para o fim os naufragados do Mediterrâneo e começo pelo menos desculpável dos desmandos da turma de irresponsáveis: a austeridade, aplicada aos povos do sul da Europa (e aos irlandeses, sulistas deshonorários) depois da crise financeira de 2008. No clima de desregulação herdado de Reagan e de Thatcher, ganância financeira - desculpabilizada de vez pelo fim de medo da União Soviética - fez estalar a crise nos Estados Unidos, causando lá estragos inéditos desde 1929 pelo nome de crise das subprimes, e passou depois à Europa cujos governos, sob égide incontestada da Alemanha, a trataram com inépcia tal que passou a ser crise de dívidas soberanas. Inspirados por estudos entretanto desqualificados, contra teoria económica e bom-senso político elementar, julgaram que cortar salários e aumentar impostos iria estimular a economia. A história dessa austeridade é nossa conhecida: dívida maior agora do que antes do tratamento, crescimento nulo ou mínimo, desemprego desmoralizante, fim provável do projecto de União que reforçaria prosperidade e segurança europeias (foi bilhete de ida e volta…). Os Estados Unidos reagiram ao contrário e saíram da crise, nós persistimos no erro, com o ministro das finanças alemão a reger a banda, como se vivêssemos no melhor dos mundos possíveis sem ninguém dizer que o rei vai nu, enquanto demónios antigos regressam a galope - os do Sul não trabalham; os alemães são nazis; estrangeiros é má gente que nos rouba empregos e nos viola as filhas. (Certo: o paraíso não é deste mundo – por exemplo, nas últimas semanas moçambicanos foram assassinados na África do Sul, só por não serem de lá. Mas, para quem se pretende modelo social e pilar da protecção dos direitos humanos, é duro).

 

Como se não bastasse, a Europa, embora com força para pôr Google em tribunal (o que não tem qualquer dos estados que a constituem) não seria capaz de se defender sem ajuda dos Estados Unidos de quem a atacasse militarmente e não tem, até hoje, política externa que metesse respeito ao mundo e tornasse tal ataque menos provável.

 

E os mortos no Mediterrâneo – agora à razão de centenas por dia? Khadafi tinha-nos prevenido: sem ele a Líbia seria o caos - mas Sarkozy e Cameron quiseram dar uma de homem e deixaram-no linchar. E agora? Abrir os portos europeus a toda a gente? Invadir a Líbia e fechar os portos?

 

Há de vir o Diabo e de escolher.

 

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17.4.15

 

My Years in Angola (1950-1970)
Andries Pieter van der Graaf
 
Previous posts:

By 1962, Portugal started to get over the 1961 scare, and Adriano Moreira, Minister for the Ultramar, was working on the Lei Orgânica do Ultramar, which was to lead to the creation of a Common Market for the Portuguese territories. Work was also being done on the Statute for the Indigenous People, which was to grant them more rights.

 

Governor Deslandes (1) ran up against friction with Lisbon, where people felt that he wanted to govern in too autonomous a fashion.

 

Angola Venâncio Deslandes

Governor Venâncio Augusto Deslandes and Andries Pieter van der Graaf

 

 

Economic activity took off. In Portugal itself there was now far more interest in Angola's economic potential, and in the following years many government projects were started, such as building roads, airports, schools, hospitals, and so forth. The government also became interested in oil production and iron-ore mining. Industry, fisheries, and tourism all began to be given more attention.

 

 

Agfa

Loading lorry Casa Holandesa/Zuid Afrikaans Handelshuis (ZAH)

 

 

Coffee exports got going again, and some years later production reached around 200.000 tons. The services of the Instituto do Café (formerly Junta do Café) were improved, and it became an institution guaranteeing the quality of exported coffee.

 

 

Fazenda Sofia Angola

 

Fazenda Sofia, Cuanza-Sul

Sociedade Agrícola e Comercial Luís Henriques Moutinho S.A.R.L.

Cuanza-Sul (1910-1975)

 

Fazenda Sofia 2

Fazenda Sofia, Angola (2

 

 

 

Commercial banks in Portugal also began to show an interest. Up until then, the Banco de Angola, as both issuer and commercial bank, held the monopoly. However, with the arrival of the Banco Comercial de Angola came an influx of Portuguese banks, followed by the English/Portuguese Banco Totta Standard de Angola.

 

In the meantime, Cabinda underwent a great change. The days when people called for the taxi (as there was only one) instead of a taxi, were over. Banks, shipping companies, and trading companies became established there. With the expansion of oil exploration, terrorist activities tailed off in that area. The interior of Cabinda, a tropical wilderness with various hard woods, including mahogany, was also once again accessible. From time to time the border between Cabinda and Congo was closed off due to political disturbances, but a lively smuggling business continued across the border, making Cabinda a good market for all sorts of products, and our travelling salesmen therefore sold a lot.

 

In the northern coffee regions, the terrorists were able to stand firm, though practically all the connecting roads were in Portuguese hands. Even on these roads, attacks took place on troop columns and convoys. To reach Carmona, in the centre of the coffee production area, the detour via Vila Salazar was still used.

 

 

carmona_aerea

Carmona, Angola

 

 

Travel in the interior became progressively safer, and faster with the new asphalt roads. The asphalt road Luanda-Dondo-Quibala-Nova Lisboa-Lobito was completed, and links between Luanda and Lobito (600 km), and Luanda and Nova Lisboa (700 km) were excellent. Moçamedes got a railway link to the iron-ore mines, which had been almost completely taken over by the government. Railway equipment was delivered by Krupp, against payment in iron-ore deliveries over a number of years. A modern ore transfer harbour was built in Moçamedes.

 

In the meantime, disturbances were felt from Zambia, meaning that the eastern border areas to the north and south of the Benguela railway became dangerous. The eastern districts were very suited to terrorist activities: they were far away (some of them were called "terras do fim do mundo" (lands at the end of the world) and rich in cattle, especially red buffalo (pacaça) and various types of antelope. "Aldeamentos" (native housing regroupings) were set up in these areas in order to provide some protection for the population. The capitals remained accessible by Fokker Friendship or other airplanes.

 

A DTA Fokker F-27-200 at Benguela Airport in 1965.

 A DTA Fokker F-27-200 at Benguela Airport in 1965.

 

 

 * * *

 

On November 13, 1968, we received the longest telegram we had ever had in Luanda, with news of the merger between ZAH and CTC (Curaçao Trading Company, later Ceteco).

This was a completely unexpected development, and everyone was stunned. The Dutch staff was split in its opinion on the matter, the Portuguese as a whole were negative (the Portuguese version of "rather the devil you know, than the devil you don't" came up again and again), and I had my hands full trying to get everyone to see things from the bright side; after all, you never know what a good Portuguese worker will do when beset by doubts. Convincing some exceptionally good people to stay with the company, when they received offers from other companies, had been a constant concern before, and this might well have been "the last straw." But there were no mishaps.

 

A period of adjustment and new initiatives began, which it was interesting to be involved in. End January 1971 I handed business administration in Angola over to Mr. de Groot.

 

Farewell, 1971

 

Farewell dinner. From left: De Groot, D. Augusta Neves e Sousa, A.P. van der Graaf and others.

 

It was a pleasure for me to be able to hand over a good, profitable business, with a staff that undoubtedly still had a lot of untapped potential. It is with great pleasure that I think back to the times when we worked together.

 

 

ZAH staff - 49

ZAH Luanda office staff, with A.P. van der Graaf (front row, 4th from the right), his wife Joyce, and Chargois (HQ)

 

 

 

 

A.P. van der Graaf and Queen Juliana 

 Knighted by Queen Juliana (Ridder in de Orde van Oranje-Nassau)

 23 April 1968

 

 

 

 

 

Andries Pieter van der Graaf Jan/Feb 1974

Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

 

A.P. e Elizabeth

 Andries Pieter van der Graaf and daughter Elizabeth (Betty), Angola 1968

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e cederam fotografias do espólio do autor.

 

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

 

Links to previous posts in this blog:

My Years in Angola (1950-1970)

My Years in Angola (2)

My Years in Angola (3)

My Years in Angola (4)

 

Link to photo album "Vintage Angola" on Flickr: 

https://www.flickr.com/photos/vfutscher/sets/

 

 

 

 

 

Notes:

1.

Venâncio Augusto Deslandes (1909 - 1985)

 

Not to be confused with his ancestor of the same name (V.A.D. 1829-1909) referred to several times in this blog.

 

Venâncio Augusto Deslandes (1909- 1985), Air Force General, Ambassador to Spain, Governor-General and Commander-in-Chief of the Armed Forces of Angola, Chief of Defence Staff.

 

General Deslandes took office while the UPA* terrorism crisis continued to devastate northern Angola. Once the situation was under control, and all the north reoccupied, General Deslandes launched a vast development plan for Angola, which included the creation of a university in Luanda. This initiative and the success of his administration met with strong resistance from the Minister of the Overseas, Adriano Moreira, who soon removed him from office. (In Memória da Nação and Wikipédia, excerpt translated by Elizabeth Davies)

 

*UPA – União dos Povos de Angola, founded in 1959, by Holden Roberto.

 

More on General Venâncio A. Deslandes in Memória de África

 

 

Venâncio Augusto Deslandes (1909 - 1985)

 

A não confundir com o seu antepassado do mesmo nome (V.A.D. 1829-1909) várias vezes referido neste blog.

 

Venâncio Augusto Deslandes (1909-1985) General da Força Aérea, Embaixador em Espanha, Governador Geral e Comandante-Chefe das FA de Angola, Chefe do Estado Maior General das Forças Armadas.

 

O General Deslandes assumiu funções quando o terrorismo da UPA* assolava ainda o Norte de Angola. Controlada a situação, e concluída a reocupação de todo o Norte, o General Deslandes lançou um vasto plano de fomento para Angola que incluia a criação de uma Universidade em Luanda. O sucesso da sua administração e a sua iniciativa encontraram forte resistência no Ministro do Ultramar, Adriano Moreira, que rapidamente o demitiu. (Fontes: Memória da Nação e Wikipédia)

 

*UPA – União dos Povos de Angola, fundada em 1959, por Holden Roberto. 

 

Mais sobre o General Venâncio A. Deslandes em Memória de África

 

 

 

 

 

2. 

Photos 

Fazenda Sofia: Many thanks to Sofia and Fernando Luís Plácido de Abreu.

 

Carmona: cc3413.wordpress.com

 

DTA Folker: http://en.wikipedia.org/wiki/TAAG_Angola_Airlines

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


15.4.15

 

MapasNCondeJoanina.jpg

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Fofocas

 

 

 

Na semana passada a Vera tinha-me prevenido – “Aqui ninguém pensa em guerra; têm medo de outras coisas mas guerra não lhes passa pela cabeça” – e eu modificara o texto mandado antes, procurando colocar o público em terreno que me conviesse.

 

Êxito mitigado. Leitora entre as happy few a quem eu mando o Bloco já paginado - escusam de o ir buscar elas (e eles) ao web, assim como dantes se faziam de livros pequenas tiragens fora do comércio, com exemplares numerados e impressos em melhor papel – pilar de discernimento na minha vida, foi a primeira a disparar: “Acho que estás a precisar de apanhar um bocadinho de sol, de ver o Guincho… ” Leitor com a cabeça mais bem arrumada que encontrei fora de grandes universidades inglesas e norte-americanas surgiu a seguir: “Almocei umas iscas de leitão muito simpáticas e estava bastante contente da vida, quando quiçá por praga rogada pela mãe do reco, me chega este murro do real para dificultar a pacífica digestão. Irra lá terei de chupar uma Rennie, para tentar recolocar-me no paraíso artificial.”

 

A leitora já foi sobrinha por afinidade do leitor - e também minha por, digamos, contra-afinidade. A família de pai, mãe, filhos, filhas, cognaticamente alargada, apesar das muitas bordoadas levadas desde que a minha geração chegou à idade de descasar, continua a ser o núcleo indestrutível e indispensável da vida dos portugueses (como verificou elegantemente num pequeno estudo empírico a Dra. Isabel Marçano, que não conheço nem sei se lê estes Bloco-Notas).

 

Em Portugal, a seguir à família, talvez o mais importante corrimão de escada seja o lugar de onde se venha, aquilo a que o emigrante Alves – conheci-o em Maputo mas a diáspora começara em França – chamava “a minha parvónia”, no meu caso Évora, Alto Alentejo. Deste, na semana passada, disseram também de sua justiça patrício e patrícia do meu mundo de correspondentes. Ele percebia o “desânimo que te provoca a cultura de mercearia europeia que não tem um só motivo para que qualquer jovem (e os respectivos progenitores) aceitasse morrer por ela”. Ela foi sucinta : “Que grande texto!” – tinha gostado da substância e da forma. Devo acrescentar que, já antes destes encómios, se eu tivesse de organizar duas bichas alentejanas, uma de homens e outra de mulheres, pô-los-ia à cabeça de cada uma delas.

 

Como os do Tejo para cima não têm no meu coração canto menos acolhedor do que os transtaganos (ou os algarvios), perguntei se teria sido pessimista a estrangeira que conhece o direito e o avesso da Europa comunitária e conhece Portugal sem a ternura difusa dos residentes estrangeiros (ricos) nem a raiva uns aos outros dos indígenas (ricos e pobres). Achou que eu não fora pessimista mas fora brutal. “Brutal como Al Capone ou como o Sermão da Montanha?” inqueri . “Como o Sermão da Montanha.”

 

Fiquei todo babado pois o mesmo me palpita que na altura tenha dito ao Filho Nossa Senhora, acrescentando à parte para Santa Ana: “Ai este rapaz, este rapaz…”

 

 

Imagem aqui

 

 

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10.4.15
My Years in Angola (1950-1970)
Andries Pieter van der Graaf
 
Other posts:
 

 

 

In the 1950s, interest began in Angolan mineral resources, and Petrofina was the first to start drilling for oil. Oil discoveries remained limited, but oil did bring with it all sorts of other activities to Angola, and "Angola has never been the same again." Some years later, Petrofina built a small refinery just outside Luanda, and in spite of a difficult relationship with the government (which imposed all sorts of restrictions, royalties, and bureaucracy), production capacity kept increasing.

 

 

Cabinda - Petroleo 5

oil rig, Cabinda

 

 

In 1957, Gulf Oil was given rights to drill off the coast of Cabinda, and in 1958 large-scale shipments of equipment came to Cabinda from America. American firms, such as Union Carbide, came to Angola to carry out soil resource studies, but their reports, to the extent that they were known, were not very positive. Work on iron ore had already begun, e.g., near Vila Salazar, as well as in the south, near Nova Lisboa and Sá da Bandeira.

 

16 Luanda port

 Luanda Port

 

In 1960, the revolution took place in the Belgian Congo, which meant that many Belgian refugees, but also those of other nationalities, came to Luanda. The first sign of political unrest in the Portuguese African territories was the hijacking of the "Santa Maria" in January 1961.

 

 

Santa-Maria

Paris Match 1961

 

 

People thought that this ship, taken over by Galvão (who had held prominent positions in Angola), might come to Angola, but this did not happen. However, soon after that, during the night of the 3rd and 4th February, a bloody attack took place against whites and blacks in the northern coffee area, during which many hundreds of people, including women and children, lost their lives in the early hours of the morning. It was an act of frightful terror, in which the most appalling acts of cruelty took place.

 

Most certainly elements from the Congo were involved in this, who had gained influence over the local people, and many of the killings were carried out under the influence of drugs, marijuana, etc. This area of small coffee plantations was perhaps one of the most fertile areas for rebellion, for the conditions under which the natives worked were bad, and there had already been signs of dissatisfaction, but to which government officials had paid no attention. At the same time, there was an attack on the Penedo jail in Luanda, with a number of people killed, and some days later more clashes during the funeral for one of the victims. By March, people were already talking about organized terrorism in the northern areas, and refugees streamed into Luanda from those areas, mainly women and children. Luanda was in a state of great agitation, and many families left for Portugal or elsewhere at the first opportunity. The population also turned against the Protestant mission in Luanda, smashing all the windows of its buildings in the city.

 

 

 

Congo émeutes 

Congo riots, 1959

 

For months and months you could hear machine-gun fire at night, coming from skirmishes at the city limits and the outskirts, the native neighbourhoods. Since there was very little military power to protect the people should a large scale attack by the natives take place, people were in a high state of anxiety, aggravated by all kinds of alarming rumours doing the rounds, such as imminent slaughtering of children in the schools, mass poisoning of the drinking-water supply, and so on. From the cotton districts of Cassange, to the east of Malange, again and again came news of mass uprisings, and there were people who believed that a complete encircling of Luanda by the blacks was not impossible.

 

 

angola selo

 

 

After that we were not able to visit those regions for some time, as it was too dangerous to travel there independently, and even in convoy it was hazardous. Many clients were still unreachable, as they had entrenched themselves behind walls and barbed wire. We had a consignment of "Jacaré" machetes, from Martindale, in our stocks, and these had to be handed over to the police.

 

Luanda's needs increased with refugees and soldiers swelling the city's population, and it was a matter of adjusting as best possible to this situation. Progressively the areas around Luanda were cleared, and people could once again travel in the direction of Cacuaco, and later as far as Caxito, but further north, so some 100 to 150 km from Luanda, travel remained unsafe.

 

to be continued...

 

Andries Pieter van der Graaf Jan/Feb 1974

Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 
March 2012

 

Previous posts:

My Years in Angola (1950-1970)

My Years in Angola (2)

My Years in Angola (3) 

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e disponibilizaram fotografias do espólio do autor.

 

 

Photos

Oil rig: Fotos Cabinda  

Paris-Match: Pitigrili 

Congo riots: ammafricaworld 

 

 

 

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8.4.15

 

Fernao-Mendes-Pinto.jpg

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Ave-Marias e Pelouros

 

 

 

“Com muitas Ave-Marias e pelouros nos fomos a eles e os matámos todos num Credo” conta Fernão Mendes Pinto da abordagem ao junco do pirata Cimilau no Mar da China. Os europeus começavam meio milénio de domínio do mundo que estamos a ver acabar “in real time” e sem anestesia.

 

Hoje, Ave-Marias, não sei se chegaríamos ao fim duma, quanto mais de muitas que a fé é pouca e preguiçosa neste recanto temperado do hemisfério Norte — 5% da população, 20% do produto e 50% da despesa social do mundo não se cansa de lembrar Angela Merkel. E pelouros dos nossos dias – armas “state of the art” – custam dinheiro que povos europeus amantes da paz (e de que os deixem em paz) preferem gastar noutras coisas enquanto Rússia e China aumentam substancialmente todos os anos os seus orçamentos de defesa — isto é, de ataque. Continuamos a depender da protecção dos Estados Unidos para nos defender de quem nos queira atacar (ou para que quem tal queira, pense duas vezes e não ataque). Mas é menos certo hoje do que durante a Guerra Fria que ataque a qualquer Aliado seja inexoravelmente tomado por Washington como ataque aos Estados Unidos. Nós — portugueses e outros — estamos muito menos seguros do que estávamos quando a União Soviética existia. Pior ainda, aqui e agora, as pessoas não vislumbram guerra - como não a vislumbraram em 1913…

 

Assim, ganhar força para a luta não vai ser fácil. Na União Europeia e arredores, a combater como Fernão Mendes Pinto, só me ocorrem as hostes do ISIS, as arrebanhadas localmente e as brigadas internacionais emigradas da Europa, rapazes e raparigas que encontraram sentido a dar à vida. A fé é outra mas a mistura de vigor espiritual e engodo material é a mesma. Nos dois casos, creem que Deus os ajudará a limpar a face da terra de infiéis e, com especiarias que abarrotavam o junco do Cimilau ou com petróleo de Mosul, enchem os cofres da causa.

 

E batermo-nos por quem? A União Europeia é uma grande cooperativa de produção e consumo, capaz de nos dar o melhor viver quantificável do mundo mas incapaz de levar seja quem for a morrer ou matar por ela. Para Super-Pátria não dá. Na Europa já se morreu e matou por Deus, por Príncipes e por fim por Pátrias. Hoje, abafadas pelo cobertor comunitário, as pulsões que estas nos dão são como dores fantasmas em membros amputados. Mas é o que há.

 

E, quando a guerra vier, como derrotar a barbaria sem criar outra? Primeiro, é preciso estarmos convencidos de que temos razão e eles não a têm. Segundo, querermos vitória e só vitória. Terceiro, sabermos que ‘quem mata primeiro, ganha’ (lição aprendida em Pretória do motorista Vasco, que usava pistola porque ia e vinha todos os dias do township onde vivia). Quarto, reforçarmos a OTAN (até porque, sem os americanos, quem mandaria?). E, quinto, pormos botas no terreno (só com aviões e drones não se irá lá).

 

E se nos furtarmos a guerra assim? Em vez de passarmos de cavalo para burro passaremos de cavalo para burro morto.

 

 

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3.4.15
 
 
My Years in Angola (1950-1970)
Andries Pieter van der Graaf
 
Other posts:
 

 

Besides food (Mozambique tea - chá licungo - , and cashew nuts should also be mentioned), drinks and textiles, there was an assortment of other articles, which pretty well matched the range of articles in the "mercearias" (general stores) in the interior and in the city. These were: storm lanterns, primus stoves, chopping knives, hoes, corrugated panels, plumbing, floor covering, sewing machines, iceboxes, bicycles. In the shop window was a graphic poster of a Raleigh bicycle, with a native on it, chased by a lion. Many Velosolex (motorized bicycles) were also imported, but more in Lobito than to Luanda, where the roads were too steep. In the first years, copper wire, beads and other decorative articles were important. Importing of beads was arranged through Amsterdam from Italy ("missangas"), and from Czechoslovakia ("contas").

 

 

raleigh-bicycle-lion-vintage-bicycle

 poster of a Raleigh bicycle

 

 

Angola is generally a "price market," but Bacalhau is an exception to this rule. Bacalhau (dried cod) the way the Portuguese like it, is Clipfish, dried on rocks (Stockfish is dried hanging on wooden racks). Codfish came mainly from Norway, with occasional shipments from Iceland and Scotland. For dried cod, or "o fiel amigo" (the faithful friend) as the Portuguese call it, quality is the top requirement, since they are so fond of Bacalhau that no feast day may be celebrated without it, e.g., Christmas.

 

 

In the warehouse

 In the warehouse

 

What with one thing and another, the months of November and December were always exceptionally busy for anyone who had anything to do with the "armazém" (warehouse). During this period, a great deal of work was done by the native assistants in the warehouse, and when the bonuses were handed out, they were given extra consideration too. There were some very strong men among them, I especially remember "Maximbombo", the native word for "bus", commonly used in Angola. Many of the natives have Portuguese, or Portuguese-derived names, but there are exceptions to this. For example, Van Dunen harks back to the Dutch administrator Van Duinen; Fançoni to Van Zon, etc. One particularly good tribe came from the Bailundo area, who didn't speak Kimbundo, as they do in the North, but Umbundu. As employees, the natives were still very subservient, something which was to change a great deal in the next decade; they also had very few rights, notwithstanding the official policy of equality and assimilation. The economic colour barrier was enormous.

 

 

 

Luanda was still small. Behind the Avenida Brito Godins, where our "residencia" was situated, there were a few residential areas, but otherwise nothing very much yet. There was no Avenida Marginal, just a sandy shore to the bay, and not far from there was the market, where now the Banco Commercial rises up.

 

13 Luanda, no Marginal

 

Luanda bay, before the Avenida Marginal was built

 

4 Luanda, '50s

 

Luanda in the fifties

 

3 A residencia, front garden

 A residência, front garden. Circa 1952, with Joyce, Kees and Betty

 

1 Causeway to the Ilha

 Causeway to the Ilha

 

 

When I arrived in Luanda, the peak demand for foreign imported cotton prints had already passed. Around Sá da Bandeira you didn't see very much textile, for there the native people kept mostly to their traditional dress, a loincloth, some arm rings, beads and buttons. In this cattle-rich area, the women wore leather strips, onto which sawn-through cone shells had been added. These cost about "an ox" each, and from the number of these shells you could calculate the financial status of the native family.

 

Muhuila married women

 Muhuila married women

 

 

In the surrounding area, Huila, and Cuanhama, there is still a great deal of traditional life to be seen. A trip into the Huila area stands out as the most interesting one in my memory. The native tribes provided the most picturesque spectacle. They were mostly Huilas and Mucubais, tribes that had resisted the trend to wearing European clothes - in contrast to Northern Angola. They kept to their own ways and it was marvellous to see their dark brown shining bodies, embellished by thick copper wire wound around their necks and legs, all sparkling in the sunlight. The women, with finery differing according to age or status, often wore strings of shells, cowrie and others, and beads. On their backs they wore cone shells, sawn in halves. These came all the way from the coast and were very expensive. I was told that one could tell how rich they were by the number of shells they wore. One of them was worth " an ox ". In their necklaces and bracelets, however, there were often small European objects, such as coins and safety pins and other shiny objects.  

 

 

6 %22Trip through South and Central Angola%22, Muhuila women, with cut off cone shells

Muhuila women, with cut off cone shells, Joyce, Kees and Betty by the car

 

 

 

The travelling salesmen took as many samples with them as possible of everything that we sold. There was a good variety, and therefore our men were always welcomed by the clients. Still, they always had to keep in mind the custom of never being over hasty. The first day had to be seen as the lead up to the real business visit. First, time needed to be patiently spent on "cumprimentar" (greetings) and "conversa" (conversation). The next day was the day for business. Only then were the boxes of samples brought out from under the canvas of the carrinha (pick-up), and opened.

 

Trip to Nova Lisboa, May, 1965

 Trip to Nova Lisboa, 1965

 

The roads were appalling. Heading inland, there was asphalt only as far as Catete (60km), and on the way to Malange, around Zenza, there was a 30 km stretch of very fine sand, all very well for growing cotton, but not quite the right thing for a road. Driving through those 30 km would take a good three hours. But these trips also had a very attractive side as well. Astonishing vegetation: baobabs ("imbondeiro"), and candelabra-euphorbias along the road to Dondo, and further along perhaps coffee plants in bloom. Towards the south, instead, you would see different types of acacia, and then dry savannah.

 

 

057

baobab tree

 

The hotels along the way were pretty shabby, but they sometimes made good meals: feijoada (a bean stew), guisado (stewed meat and greens), churrasco (piri-piri chicken). Breakfast was "sem garfo" or "com garfo" (with or without a fork). "With" was with meat, almost a full meal, and "without" was coffee and a couple of rock-hard buns with very salty butter. For the lorry drivers there was still another "matabicho" (matar o bicho = to kill the animal; the official Portuguese word for breakfast is "pequeno almoço"): a strong cup of coffee with brandy upon departure at dawn, followed later in the morning with a "matabicho com garfo." Another delicacy of the "mato" was muamba (palmoil stew).

 

 

to be continued...

 

Andries Pieter van der Graaf Jan/Feb 1974

Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

 

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e disponibilizaram fotografias do espólio do autor.

 

 

 

 

 

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1.4.15

 

 

 

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 Cemitério de vítimas do Gulag em Vorkuta, Rússia. 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

Quaresma

 

 

 

Sábado, 28 - Entre cornflakes e café, folheio o International New York Times e leio, ao fundo da página 5, que no quadro do desastre de avião que matou o Presidente Lech Kaczynski e mais 95 altas figuras do estado que viajavam com ele, na Rússia ocidental, em 2010, procurador militar polaco acusou ontem 2 controladores aéreos russos. Depois de quase 5 anos de investigação, um dos controladores, de responsabilidade directa pelo desastre; o outro de responsabilidade indirecta. Poderão ser condenados a 8 anos de prisão. Todavia, acrescentou o coronel procurador, a causa mais imediata do desastre fora a falta de treino e o comportamento negligente da tripulação polaca que havia feito descer demais o avião abaixo do nevoeiro e ignorara sinal automático para retomar altitude. Tripulação que não estava autorizada a conduzir o avião presidencial.

 

As revelações do procurador militar foram logo aproveitadas pelo partido conservador Lei e Justiça, maior partido de oposição polaco, fundado pelo falecido presidente e por seu irmão gémeo Jaroslaw, antigo primeiro-ministro, que tem sustentado sempre que o presidente foi assassinado, possivelmente pelos russos, e acredita também que o governo de Donald Tusk (agora Presidente do Conselho Europeu) ajudou a encobrir os factos. Antoni Macierewicz, um dos barões do partido acusou os investigadores de “desencaminharem o público” e disse que o desastre fora causado por explosão misteriosa a bordo. A Rússia ainda não devolveu os restos do avião, apesar de repetidas insistências polacas.

 

Tragédias, intrigas, mistérios em curso bem como muitas opiniões sábias – que se passaria na cabeça do copiloto de Germanwings?; ditos, reditos e desditos de Bibi sobre todo o mundo e ninguém e dinheiro de impostos devolvido aos palestinos; labirinto de becos sem saída, desenhado pela ignorância curta de vistas de Washington na escolha de amigos e inimigos no Médio Oriente (onde o amigo do meu inimigo também muitas vezes meu amigo é); esforços para limpar o Laos, uma das terras mais bombardeadas deste mundo; decisão final pendente da justiça italiana sobre a americana Amanda Knox (a telefonia veio dizer que fora definitivamente absolvida da acusação de ter morto a amiga); Sigmund Freud na história da psiquiatria; o novo Museu Whitney em Nova Iorque; Silicon Valley e automóveis de luxo velozes; mudanças na banca privada internacional – tudo em 22 páginas, no meio de anúncios de joias, de relógios, de bagagens, de hotéis, tudo de luxo, para entreter convalescentes e mais ociosos nesta véspera de Domingo de Ramos, quase me fizeram falhar o inquérito ao desastre do avião polaco.

 

Teria sido pena. Em poucas linhas, não me deixou esquecer que nessa interface entre Leste e mais a Leste, onde desconfiança mútua impera, má-fé campeia e transparência é opaca, está todos os dias em risco a paz geral da Europa. Todo o cuidado é pouco, a começar com Putin. E, vistas bem as coisas, também a acabar nele. Páscoa Feliz.

 

 

 

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27.3.15

 

 

My Years in Angola (1950-1970) 

Andries Peter van der Graaf

 

Other posts:

My Years in Angola (1950-1970)

My Years in Angola (3)

My Years in Angola (4)

My Years in Angola (5)

 

 

nestles-milk-banner

 

 

In the '50s, business with Nestlé was developing very well, for which we held the monopoly. At first condensed milk was the main product, then milk powder replaced it, as well as all sorts of baby food. We were not able to remain sole agent, in part as a result of pressure exerted by C.U.F. (Companhia União Fabril) on S.P.L. (Sociedade Produtos Lacteos).

 

 

 

1955-Nestl-em-Avanca

  

S.P.L. (Sociedade Produtos Lacteos)

 

For many years it was only possible to import milk products from Portugal (significantly more expensive than Dutch milk powder, for example) as no import licenses were issued for foreign milk. Later on, this situation changed. Only in later years was fresh milk available in the cities, and also sterilized milk, mainly from Cela.

 

 

Cela Igreja_e_Pelourinho_cedida_por_Z_Valada_Feliris_e_Milai

Cela, Angola c. 1960

 

Cela is a colony for white Portuguese settlers, situated in a highly fertile area of Central Angola, along the Cuvo River, most probably formerly a river bed.

 

 

10 House of a colonist at Cela

 

Cela c.1960

 

 

A lot of money was squandered in Cela because things were done in a disorganized fashion (land planning took place when work had been on-going for over ten years, thousands of head of cattle were imported from Denmark and which were unable to adapt to the climate, colonists were recruited in Portugal more on the basis of connections than suitability). Still, it was an interesting project, to which we also contributed a good deal. One big client was the colonists' Cooperative, though unfortunately they were always short of cash, and couldn't pay their debts.

 

 


12 Colonization project at Cela

 

Cela c.1960

 

Cooperation is not a strong point in the Portuguese. They are too individualistic for that, they say so themselves. The only Cooperative with which we had no financial problems was one in which the members were mostly Germans. Here and there in Angola there were some groups of Germans, among them the Mannhardt brothers, for example in Calulu, where they very successfully grew coffee.

 

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A.P. van der Graaf visiting a coffee plantation

 

Sometimes missionaries came to buy goods from us and I was invited by them to come and have a look at their mission services. These were at Dondi, some 80 miles from Nova Lisboa. It was a Protestant mission, "Congregational", American and Canadian. This was a big mission, providing teaching in a number of subjects including agriculture and other trades, as well as providing medical care, including a leper colony. It covered a large area, many brick buildings in which the various services, hospitals and workshops were housed. 

 

 

 

 

IGREJA LUTAMO 1

Dondi Mission, Angola

 

Means School, 1950's

 Means School, Dondi, 1950's

 

 

 

What I remember best is the choir singing led by one of the American missionaries. The Bantu have an exceptional sensitivity to sound and rhythm, and the choir master had, I thought, brought them to a high level of performance.

 

Listen here to Angolan Umbundu music 

 

See here ruins of Dondi mission (Images of Angola - Noel Henderson-James, 2011)

 
 

 

... to be continued...

 

 

 

Andries Pieter van der Graaf

Jan/Feb 1974
Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

 

 

Notes:

 

Read post # 1:  My Years in Angola (1950-1970) here

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

Muito agradeço a Elizabeth Davies e sua família que autorizaram gentilmente a edição do texto para publicação neste blog e disponibilizaram fotografias do espólio do autor.

 

Images and Photos:

NestléLeite Condensado

S.P.L.: Restos de Colecção

Means School, Dondi: Nancy Henderson-James

Music:

Angolan Umbundu Music: Nancy Henderson-James

 

 

 

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25.3.15

 

Battle_of_Waterloo_Map.jpg

 

Mapa da batalha de Waterloo 

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

 

 

Waterloo

 

 

 

De imprevisto, a palavra poderia significar retrete em estância termal, na fala de algum condado do centro de Inglaterra, por exemplo, mas não - era nome de aldeia, então no sul da Holanda, que saiu da insignificância porque Wellington lá pernoitou e estabelecera quartel-general na véspera da última batalha que Napoleão travou, a 18 de Junho de 1815. Napoleão pernoitara a alguns quilómetros, na Ferme du Caillou, perto da aldeia de Plancenoit, onde estabelecera o seu quartel-general. (A cama de campanha ainda lá está e mostra que o Imperador nascido na Córsega era realmente pequenino). Se Napoleão tivesse ganho – e como dizia sem domínio do português idiomático, sueca que conheci: “Foi pela unha de um preto…” - a história dir-nos-ia da batalha de Plancenoit e a União Europeia haveria sido fundada século e meio mais cedo. 124 anos depois desse fiasco, foi a vez de alemão nascido na Áustria tentar a sua sorte mas tampouco se saiu bem. Como, entre a primeira e a segunda tentativa, a revolução industrial florescera, mortandade e prejuízo material na Europa foram incomparavelmente maiores nos 6 anos da Segunda Guerra Mundial do que na década das campanhas napoleónicas. De maneira que, com cidades e campos arruinados, ajuda material americana voluntariosa e terror salutar de Tio Zé Estaline & Herdeiros, os europeus para cá da Cortina de Ferro meteram-se à terceira tentativa, ainda em curso, de União Europeia. Três diferenças graúdas - e ligadas entre si - a separam das duas tentativas anteriores: está a ser feita a bem e não a mal, com votos e não com balas; hoje, nenhuma potência europeia tem poder que, sozinho, contasse no mundo; França e Alemanha, inimigos históricos, juntaram-se para serem “o motor da Europa”. Nem sempre tudo vai de vento em popa: tanta paz torna-se irritante sobretudo para quem, macho ou fêmea, seja novo e esteja desempregado. Desenvolveu-se indústria, assim uma espécie de app, para culpar Bruxelas de todas as nossas desgraças e querer extrair das pátrias - como um minério - bem-aventuranças de que a União nos privou. Se a economia recuperar ao ponto de criar empregos – e é um grande Se - não há de ser nada. Se não recuperar…

 

A Bélgica que na altura da batalha não existia ainda mas que hoje dela recolhe fama e proveito, prepara festejos de arromba, incluindo restituição de partes da batalha. A seguir à vitória, o Príncipe de Orange fez erguer a colina cónica com o leão em cima que desfeou para sempre a paisagem e passou a ser emblema do lugar. Desde o começo o sítio foi adaptado para celebrar e festejar. O curioso é que celebra Napoleão. Wellington era muito alto mas o grande homem era o outro.

 

O primeiro centenário caiu durante a Grande Guerra e mal se deu por ele. O terceiro terá porventura a batalha revivida por robots. E lá mais para diante, viajando-se para traz no tempo, talvez Napoleão, Wellington, o cavalo Copenhague e o resto do pessoal tornem a dar um ar da sua graça à morne plaine .

 

 

Imagem: aqui

 

 

 

 

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20.3.15

 

 

A.P. van der Graaf

 

Andries Pieter van der Graaf (1909-1996) spent almost his entire professional career (1928-1970) with the Dutch company Zuid Afrikaans Handelshuis (ZAH). In 1950 he was posted to Angola to act as managing director of the Luanda Office. He served as Dutch Honorary Consul from 1952 till 1971.

 

It is with great pleasure that we present in Retrovisor excerpts from a memoir in which he tells about his experiences learning to run a Dutch trading company in Angola in colonial times and his fascination with the country and its peoples.

 

Many thanks to Elizabeth Davies (van der Graaf) and her family for allowing me to adapt the text and to illustrate it by using photos from the family's collection.

 

 

 * * *

 

 

I visited Angola for the first time in 1950. ZAH (Zuid Afrikaans Handelshuis) had two offices there, one in Luanda, the other in Nova Lisboa. The area covered by the Nova Lisboa office was mostly that along the Benguela Railway: a section from the coast to the border with the Belgian Congo (Katanga). The purpose of my stay in Nova Lisboa was to familiarize myself with the activities that the business had in Africa. Luanda always brought in good year-end results, but paid very little attention to the advice and instructions coming from Head Office, causing continued conflict.

 

 

 

Untitled

Zuid Afrikaans Handelshuis, Luanda c. 1960

 

 

The ZUID building in Nova Lisboa was a warehouse, mostly. Trade was mainly in foodstuffs, textile, construction materials, paint, small agricultural tools, general merchandise, and so on.

 

Massive square piles of cotton cloth were the first thing you saw. The cotton prints that attracted the greatest interest were the ones that had just arrived: "novidades". In the area around Nova Lisboa, "pintados" ("blue print"), originally from Germany (Fritz Becker), were still in general use, and worn by both men and women. It was dark blue material with white lines or spotted patterns.

 

Casa Holandesa

Casa Holandesa

 

Sometimes business contacts arrived from the interior with elephant tusks. Their weight varied from 10 to 40 kg, sometimes even more. Consignments were made up and eventually shipped to Holland, where there was always a great deal of interest in these tusks. The tusks were mainly used to make billiard balls. Other products from the upper plateau which were exported by ZUID were beans, castor seed, manioc (cassava, Portuguese: crueira) and sesame seed; and from the river basins: palm nuts, palm oil; also Arabica coffee, as opposed to Robusta, which was practically the only kind of coffee grown in the north of Angola.

 

 

 

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 Map of Angola c. 1960

 

 

During the eight months I spent in Nova Lisboa, I made a number of trips to the coast. In the rainy season, these trips often had to be postponed, as the road was poor, and very little was done about this, as the Railways, who had a great say in the matter, felt that good road connections would harm the railway's interests.

 

7 Ferry across the Quanza

Ferry across the Cuanza

 

 

On the road from Sá da Bandeira (formerly "Lubango") to Moçamedes, I saw groups of zebra grazing near the road, and further off, herds of springbok, leaping to get out of the way. There are very few springbok left nowadays. The Portuguese name for them is "cabra de leque." "Leque" means "fan," and when alarmed, the hair on their backs stands up on end.

 

 

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 Cabra de Leque

 

 

Benguela itself still had the appearance of an old slave town, with the old walled enclosures still there, where the slaves were kept after their arrival from the interior until being shipped away. Other than that, the most striking things were the red-colored earth and the orange blossoms of the acacia rubra (flame tree).

 

 

Nova Lisboa, Angola 1960   

Nova Lisboa c. 1960

 

 Benguela anos 60

 Benguela, c. 1960

 

 

I remember that one morning, a young native man who always travelled with us to help with the bags, told me that "the rain had rained during the night." This was the first time I had come across the typically Bantu personification of natural phenomena.

 

 ... to be continued... 

 

 

Andries Pieter van der Graaf

Jan/Feb 1974

Translated by Elizabeth Davies (van der Graaf) 2012

 

Other posts:

My Years in Angola (2)

My Years in Angola (3)

My Years in Angola (4)

My Years in Angola (5)

 

 

Full text:

The memoir of Andries Pieter van der Graaf is in two parts: Part 1 (written in English) starts in 1909 with his birth, and provides a vivid description of his early life in Krimpen aan de Lek, a small community near Rotterdam; of the effects of the Depression on the family; and of his experiences during the war. In Part 2 (written in Dutch, translation into English provided), he takes us from his first day in Angola, through his years learning how to run a Dutch trading company in Angola in colonial times, to his fascination with Angola and its peoples.

 

www.asclibrary.nl/docs/341/217/341217840.pdf

http://www.asclibrary.nl/docs/341220647.htm

 

 

Notes:

Map of Angola: Veteranos da Guerra do Ultramar

Nova Lisboa and Benguela: Tempo Caminhado 

 

 

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18.3.15

 

 

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 O rapto de Europa, Ticiano, 1628-1629

 

 

 

  

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In real time e sem anestesia

 

 

Coube-nos na roda da sorte assistir à decadência da Europa e, se não tomarmos juízo depressa, caberá pior aos nossos filhos, filhas, netas e netos. Claro que denunciar decadência da civilização ocidental é prática tão antiga quanto a própria civilização, começando na Grécia clássica, continuando em Roma, tocando teólogos medievais, enciclopedistas, monárquicos chocados pela presunção de Saint-Just (“de agora em diante, a felicidade é possível”), anti-darwinistas no século XIX e - no Bible Belt do Sul dos Estados Unidos - no século XXI. De Doutores da Igreja a doutores da mula ruça, passando por amigos de Fräu Tichbein em Emílio e os Detectives, convencidos de que no tempo deles “o céu era mais azul e as cabeças dos bois eram maiores”, toda a gente molhou a sopa. E a ascensão continuou.

 

Desta vez é diferente. Se a malta não se põe a pau (traduzo livremente, do grego demótico, exortação de um ministro do Syriza) a decadência corre o risco de ser definitiva. Mais de meio século seguido de paz, duração inédita na história da Europa, convenceu-nos de que não precisamos de nos armar. Ora tal só aconteceu porque a confrontação entre duas superpotências nucleares responsáveis, os Estados Unidos e a União Soviética, mantinha franceses e alemães e outros antigos inimigos com o freio nos dentes e, se alguém de fora quisesse atacar, Washington, deste lado, e Moscovo, do outro, saberiam mete-los na ordem.

 

Mas a União Soviética acabou. Os Estados Unidos acharam que deveriam olhar menos pelo mundo e a União Europeia foi apanhada nessa volta. Nós, os europeus, estamos convencidos de que, por querermos paz, ninguém quererá atacar-nos. Ora, primeiro, nós não queremos paz – queremos é que nos deixem em paz. E, segundo se, durante a Guerra Fria, a protecção americana fez com que ninguém se metesse connosco, nos tempos que correm as coisas não serão certamente tão simples.

 

Em custos de defesa, a partilha do fardo transatlântico tornou-se ainda mais desigual: os Estados Unidos arcam agora com 70% dos seus custos. Em Setembro passado, em cimeira no País de Gales, os aliados europeus comprometeram-se solenemente a dedicarem - como deveriam – 2% do seu PIB a despesas de defesa. Vários deles estão muito abaixo; o único que lá chegou foi a Estónia. Pior: enquanto França e Reino Unido, os dois grandes poderes militares da União Europeia, se mantinham há anos muito perto dos 2% (por boas e más razões, a Alemanha gasta muito menos e muito mal), Londres anunciou agora reduções substanciais, alarmando os seus militares e Washington.

 

A decisão no País de Gales fora tomada porque Putin, que invadira a Geórgia em 2008, dava mais sinais de perigo. Entretanto, anexou a Crimeia, acicata a guerra civil na Ucrânia – e, vendo que a fibra da Europa em vez de enrijar continua bamba, olha para nós à espera. O pai do meu amigo Henrique, grande caçador, dizia: “A gente, quando vê o coelho, não o mata logo”. Nessa está Vladimir Vladimirovitch.

 

 

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11.3.15

 

 

 

Bentiu, UNMISS Camp.jpg

 Bentiu, UNMISS camp

 

 

 

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Em terras do Preste João

 

 

Sexta-feira passada, em Adis Abeba, sede da União Africana, capital da Etiópia (onde há muitos séculos reinou Preste João, rei cristão que os nossos navegadores esperaram em vão encontrar) conversações de paz entre governo e rebeldes do Sudão do Sul, o mais jovem país independente do mundo, acabaram sem acordo, apesar de terem sido prorrogadas de um dia – declarou num comunicado o primeiro-ministro etíope, Hailemariam Desalegn, lamentando não ter sido possível tirar as duas partes do desentendimento onde se tinham metido quanto a: justiça durante a transição, partilha do poder e segurança. Três dias antes, o Conselho de Segurança das Nações Unidas adoptara por unanimidade resolução impondo sanções a qualquer das partes que prejudicasse esforços de restauração da paz no Sudão do Sul mas não fora ao ponto de proibir compra de armas pelas facções em guerra: a tribo Dinka, leal ao presidente Salva Kir e a tribo Nuer, fiel ao antigo vice-presidente Riek Machar, que juntas fazem mais de 50% da população do país. (Percebe-se que o Conselho de Segurança não tenha tocado no comércio de armas: os seus cinco membros permanentes – China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia – são grandes exportadores de armamento e já têm razões de sobra para se desentenderem).

 

Muito antes das achegas tecnológicas e cosmopolitas – armas automáticas; assento na Assembleia Geral das Nações Unidas – Dinkas e Nuers, andavam nus, não sabiam ler, pastoreavam bois e batiam-se muitas vezes uns contra aos outros à lançada. Assim os encontraram os ingleses que trouxeram administradores, negociantes, missionários e mais espingardas (as primeiras tinham chegado com os árabes); continuaram a bater-se sob governo de Cartum no Sudão independente e agora, que o feitiço do petróleo e teimosia metafísica cristã ou animista levaram o sul à independência, depois de mais de 20 anos de guerra civil – o Sudão “do norte” é muçulmano – à bulha permanecem. Até agora colonização e globalização não tocaram muito em valores e crenças (a religião Nuer, de resto, não fica atrás dos Evangelhos e dos doutores da Igreja em profundidade e sofisticação) mas morre muito mais gente dum lado e doutro. E há milhares e milhares refugiados.

 

O Sudão do Sul é longe da Europa mas pelo meio não há muitos oásis de paz. Não é só porque da paz não veem notícias. Se se pintarem num mapa lugares de conflito aberto ver-se-á como estes abundam e persistem ou, quando acabam, deixam chagas ruins de sarar (para eles não há, como houve para a Europa ocidental a seguir a 1945, nem Plano Marshall nem OTAN, a seguir a resultado indiscutível).

 

Alguns são perto demais para ficarmos no nosso conforto irresponsável (Ucrânia malferida por Putin; atrocidades do Califado no Médio Oriente). Os europeus têm de passar a gastar mais em defesa, de se reforçar na OTAN e, até terem uma política de defesa comum, de reestabelecerem, todos eles, serviço militar obrigatório. Para começar.

 

 

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4.3.15

 

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Duas citações ao almoço e três ao jantar

 

 

 

O pai tinha ido passar um par de semanas a Madrid, na clínica do Dr. Lopez Ibor, psiquiatra reputado (e membro do Conselho Privado do Conde de Barcelona); a mãe fora com ele não sei se por conveniência clínica se por estratégia matrimonial; não me lembro do que fizeram os meus irmãos nem se a casa de Lisboa foi fechada (a idade não perdoa…); eu fiquei aboletado em casa de amigos.

 

Nesse tempo comia-se em casa. Dois dias depois da minha chegada o tio Clarimundo, pater famílias que presidia a mesa, proibiu-me de fazer mais de duas citações ao almoço e três ao jantar. Nunca mais me esqueci porque, até nesta idade — que dantes se considerava avançada — a tentação de citar continua a ser grande. Não, como às vezes supõem os desmemoriados, por pedantismo de bom aluno a querer fazer boa figura mas para facilitar conversa e discussão. O recurso à memória é muito tentador porque, ao longo dos séculos, houve gente que disse, numa das línguas que eu conheço, muito melhor do que eu alguma vez seria capaz, coisas que me apetece dizer por virem a propósito e acertarem em cheio no alvo visado — e as suas formulações grudaram-se-me à cabeça.

 

Nasci com memória como nasci canhoto e de olhos castanhos: é dom sem mérito moral (se tivesse nascido nas classes menos favorecidas talvez tivesse arranjado trabalho num circo), se não faz de mim um Apolo tampouco de mim faz um Quasimodo, mas reconheço duas razões que recomendam limites ao seu abuso público. Uma é pôr limites a caracter maníaco que às vezes tome. Eça de Queiroz contou de amigo tão escrupuloso na atribuição de fontes que chegava a dizer: “Na frase de Carlos Valbom: Estou triste”. A outra é tentar manter boas maneiras. É mal-educado querer parecer mais culto, mais inteligente, mais lido do que os outros ou as outras com quem se esteja a conversar, quer cara a cara e bafo a bafo, como era a prática, quer ao telefone ou das muitas outras maneiras que a modernidade vem pondo ao nosso alcance (uma das razões que torna às vezes tão difícil convívio com a gente muito competitiva que abunda no nosso mundo pós-moderno).

 

Seja como for, isto da memória tem que se lhe diga. A velho amigo meu, colega perguntara na Faculdade: “Tu estudas Medicina Legal compreendendo ou empinando?” A dicotomia não é tão tonta quanto possa parecer. As pessoas mais inteligentes com quem privo são quase todas, como uma delas gosta de dizer, “Alzeimerizadas de nascença”. Se essa maciça falta de memória lhes trouxe esforços suplementares quando as meteram na linha de montagem da educação – o Sistema Galaico-Duriense, os Reis de Portugal, etc., etc. – trouxe-lhes também enormes benefícios de agilidade mental pois não lhes sendo dado, como diria o colega do meu amigo, “empinar raciocínios”, foi em exercícios permanentes que desenvolveram a gramática intelectual precisa para confrontar o mundo.

 

NB  Chamara-lhe “O Bey de Tunis”, não me lembro porquê. Fui escrevendo, saiu isto e mudei o nome.

 

 

 

 

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25.2.15

 

 

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L'inverno (1569), Giuseppe Arcimboldo

 

 

 

 

 

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O fim da picada?

 

 

Angela Merkel, levando à ilharga François Hollande – o eixo franco-alemão redime Berlim de crimes imperdoáveis – viu as coisas mais de cima do que os seus contabilistas, pôs a mão por baixo de Tsipras, a Grécia não saiu do euro e ainda não foi agora que a construção europeia se desmoronou.

 

Por um triz. Nacionalismos antigos estalaram o verniz fresco da Casa Europeia. Para os alemães, a Grécia reduziu-se a dois séculos de aldrabices (em meados do século XIX desconfiava-se na Europa do teor de moedas de ouro cunhadas por Atenas); para os gregos, a Alemanha reduziu-se ao horror nazi (na Primavera de 1944, escritor berlinense foi denunciado, julgado e decapitado por ‘propósitos derrotistas’ e a viúva recebeu conta de 585 marcos para pagamento das despesas). Agora, inexperiência, má criação e má-fé do novo governo grego, e inabalável curteza de vistas dos burocratas financeiros alemães (recusando-se a perceber que a dívida grega explodiu devido a medidas mal pensadas impostas pela troika; que sem o fim da austeridade não haverá recuperação – para sair de um buraco a primeira coisa a fazer é parar de cavar – e que a dívida grega deverá ipso facto ser revista) animam falso combate entre Norte virtuoso e Sul pecador da Europa. Esperemos que nos próximos meses a obstinação insensata alemã se atenue e os gregos provem que passaram a ser de fiar.

 

Infelizmente esta bulha não é confortada por qualquer visão estratégica da União, porque tal visão não existe. A vontade de defender a Pátria e os orçamentos de defesa mirram de ano para ano. A Sudeste, as barbaridades do Califado – ou estado islâmico do Iraque e da Síria – alarmam os europeus por medo de terrorismo praticado por cá, levam a alguma coordenação policial mas não a medidas de uma Europa que quisesse e soubesse defender os seus interesses e gerir zangas internas sem se enfraquecer.

 

E a Leste é pior ainda. Desde o fim da União Soviética, o Ocidente esqueceu-se da Rússia, esperando que os russos quisessem vir a ser como nós – estado de direito, direitos humanos, respeito pelos vizinhos. Não o quiseram e hoje, sob a égide ávida de grandeza Imperial de Putin (que alguns entre nós admiram) a Rússia ameaça a nossa segurança. A Ucrânia está ser despedaçada: o eixo franco-alemão insiste em Minsk que só pode haver solução política e entretanto a Rússia estabelece militarmente as partes dessa solução que lhe convêm. Em 2008, Geórgia; no ano passado, Crimeia; uma vez o resto da Ucrânia fatiado sem que ninguém lhe trave o passo, talvez a Rússia se vire contra um dos bálticos (a pretexto de proteger minoria russa), apostada em que a OTAN não lhe bata de volta. Os Aliados, com Washington, Londres, Paris, Berlim e Varsóvia à frente, deveriam lembrar ao Kremlin que o artigo 5 do Tratado de Washington (ataque a um é ataque a todos) não foi abrogado.

 

Havia mais sagacidade nos antigos do que na nossa correcção política bem pensante. Se queres paz, prepara guerra, diziam.

 

 

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18.2.15

 

 

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 Foto Sonda Cassini

 

 

 

 

 

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Agora e na hora da nossa morte

 

 

António Alçada Baptista travou-me o braço e disse-me enquanto atravessávamos o foyer do teatro Maria Matos onde nessa tarde havia uma recepção: “Estou a escrever um livro porreirinho sobre Deus”. Eu chegara de Oxford uma hora antes para meia dúzia de dias na Pátria, não nos víamos há meses e assim recebi anúncio da Peregrinação Interior. Da boca do cavalo, dir-se-ia em inglês.

 

Tempo mais simples do que o nosso de hoje. Três séculos intensos de zaragatas europeias tinham acabado em muitos lugares por separar a Igreja do Estado; blasfémia era pecado mas deixara de ser crime. A fé de cada um - como os gostos de cada um - não se discutia. O nazismo fora derrotado e destruído; o comunismo estava cantonado até que o seu próprio peso o fizesse desmoronar. Na Europa Ocidental vingavam decência entre governantes e governados e comedimento na partilha do latifúndio, inéditos na história.

 

O Portugal de O Tempo e o Modo esperava pelo 25 de Abril e o Deus do António era o Deus hebraico de Abraão, Isaac e Jacob, mais tarde também de Jesus Cristo e, mais tarde ainda, de Abu Al Cassem Ben Abdalá Ben Al Mutalibe (Maomé significaria O Glorificado). Os estragos feitos ao longo da história pelo monoteísmo começavam a ser esquecidos em ambiente que André Malraux apreendera bem: “Somos a primeira civilização consciente de ignorar o significado do homem”.

 

Éramos. Talvez ainda se escrevam livros porreirinhos sobre Deus, nos quais a leitora encontre apreciação da vida, benevolência e tolerância, longe de polémicas teológicas – longe, na aparência, de qualquer teologia. Mas onde hoje mais ouvimos falar de Deus, é nos feitos do Estado Islâmico do Iraque e da Síria ou de Boko Haram na Nigéria, um Deus antropomórfico, primitivo, cruel, sangrento, cujos fiéis oferecem à outra gente conversão ou morte – ou começam matando, se mais jeito der. Nova Iorque, Washington, Londres, Madrid, Paris, Copenhague – a procissão ainda vai no adro. E, em partes da cristandade – por exemplo, na Rússia – igrejas opressivas recuperam poder temporal.

 

Entretanto, a ciência vai mudando o conhecimento do mundo de maneiras tão inesperadas e com tal rapidez que o presente – e não apenas o passado – às vezes é como se fosse país estrangeiro, com língua e hábitos diferentes dos nossos. Mudanças de paradigma sucedem-se em cascata. E a passagem de novas teorias, intuições, palpites, de mentes científicas para entusiasmos leigos faz-se num momento e sem filtro, devido à panóplia de meios de comunicação hoje ao dispor de cada um.

 

Nesta mistura adúltera de tudo, diz-me amigo entendido em coisas americanas, lá quase todos os movimentos feministas debatem o género da divindade, ao ponto de usarem o feminino nas orações. E que Deus seja um robot, nem macho nem fêmea, dados os progressos em inteligência artificial, etc., será decerto sugerido um dia destes. Separando de uma penada o físico do moral; o que é do que deveria ser. Até à guinada seguinte…

 

 

 

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11.2.15

 

baptismo de Kiev 1.jpg S. Vladimiro baptizando os russos em Kiev

 

 

 

 

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Nem paz nem guerra

 

 

Houvesse a União Soviética durado mais dez anos, a viagem da construção europeia teria continuado sem os equívocos do euro (posto em marcha antes de tempo por visionários seguros dos bois alcançarem depois o carro – por não perceberem que, acabado o medo de Moscovo, deixara de haver espora no flanco do esforço comum); sem explosão de nacionalismos centrífugos e sem termos de pagar excesso de bagagem pela reunificação alemã (quando esta por fim chegasse, a Europa seria já tão forte que quase nem daria por isso).

 

Mas a U. R. S. S. não durou. Tornámos a dar connosco confrontados com a questão do lugar da Alemanha na Europa (tão incómoda desde a primeira reunificação alemã que, no século passado, deu duas guerras mundiais; que, no fim da segunda, conselheiro do presidente americano Roosevelt propusera que se transformasse a Alemanha em país apenas agrícola; e que hoje, encaroçada com fé de aiatola em austeridade ruinosa para a economia e a política europeias, Berlim acelera a diminuição do poder europeu no mundo).

 

Sem inimigo exterior forte e decidido (como foi a União Soviética durante a Guerra Fria),os europeus da União — com mais de mil e duzentos anos de guerras e más vontades desde a coroação de Carlos Magno em Aix-La-Chapelle (Aachen em alemão) em 800 A.D. — parecem, muitos deles, mais inclinados a irem cada um para seu lado do que a meterem ombro à roda de todos. Recomeçaram a reparar nas maldades dos parceiros e parecem ter esquecido as dos antigos inimigos. Para vários partidos de extrema-direita na Europa, Putin dá exemplo a seguir e não desmando a evitar: o Front National de Marine Le Pen tem preferido bancos russos a franceses; o húngaro Victor Orban faz a apologia de regimes autoritários como o russo e o turco; na Grécia o partido de extrema-esquerda Siriza foi buscar à direita nacionalista e xenófoba parceiro para governar. Não se trata de quintas colunas; a Guerra Fria não vai voltar porque era uma guerra santa, entre duas crenças, e uma das crenças deixou de ter fiéis. Mas o tripé onde assenta a nossa democracia – separação da igreja do estado, estado de direito, respeito pelos direitos humanos – está a ser atacado de vários lados e, os nossos filhos e netos, habituados, no seu mundo sem fome e sem guerra, a considerarem esse tripé parte da ordem natural das coisas (e não o que ele é: invenção humana recente, constantemente ameaçada) se não dobrarem vigilância, arriscam-se a perder o luxo de civismo e decência ganho na Europa ocidental desde 1945 e em toda a Europa para cá da Rússia desde 1990.

 

Tirando em fundamentos que não são para aqui chamados — Há ou não há Deus? Que fazemos por cá? — sabe-se hoje mais de tudo, na hora e em toda a parte, do que alguma vez se soube. Mas não ajuda. Do Kremlin, Vladimir Vladimirovic vai fazendo Anchlüss, tomando Sudetas, qualquer dia invade um Báltico — e nós continuaremos a dizer que o problema só terá solução política e Deus nos livre de dar armas a Kiev.

 

 

 

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4.2.15

 

 

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Évora-Monte, berço do Portugal moderno

 

 

 

 

 

 

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Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico

 

 

Numa taberna grega, o ambiente é tenso e competitivo, com zaragatas à flor da pele. Numa taberna portuguesa vigora camaradagem: se dois fregueses brigam, os outros, em vez de tomarem partido, metem-se a separá-los.

 

A Grécia moderna começou em 1830, arrancando-se ao Império Otomano com ajuda de brigada romântica internacional (Lord Byron morreu lá); importou para rei um príncipe alemão (cujo descendente foi corrido do trono com a junta dos coronéis em 1974); a seguir à Primeira Guerra Mundial más relações com a Turquia deram limpeza étnica; a seguir à Segunda, guerra civil violenta — ganha à justa e ainda hoje razão de ódios — fê-la entrar para a OTAN e não para o Pacto de Varsóvia.

 

O Portugal moderno começou em 1834, na Convenção de Évora Monte (mas com 7 séculos atrás, lembrados de mãe para filha) que pôs termo a guerra civil, vivida à portuguesa. Em Lamego as forças vivas houveram-se de maneira a que nem liberais nem miguelistas locais fossem mal tratados, estivesse quem estivesse na mó de cima no país. Em Monsaraz, miguelista até ao fim, a seguir à Convenção a Câmara escreveu à Rainha D. Maria II protestando lealdade “que o jugo do usurpador há muito fizera calar em seus peitos fieis”. Em 1965, proprietário alentejano a quem perguntei como eram as relações com o governo de Lisboa durante a República respondeu-me: “Isto, senhor doutor, o que é preciso é a gente estar bem com a lei que há”. Só depois de democrata, em 1976, Portugal foi autorizado a candidatar-se às Comunidades Europeias mas assinámos o Pacto do Atlântico em 1949. Com coisas sérias não se brinca.

 

Ao contrário dos gregos — e talvez dos espanhóis que armaram, entre 1936 e 1939, guerra civil assanhada — não vamos eleger demagogos de extrema-esquerda para governo. Nem de extrema-direita: escapámos-lhes agora apesar de austeridade e muito estrangeiro por cá e, há quarenta anos, apesar de mais de meio milhão de retornados. O acolhimento aos retornados foi momento alto da nossa história; a aceitação da austeridade imposta pela Alemanha, um dos mais baixos. A sua moralidade é um embuste e, se Berlim não der por isso a tempo, a Alemanha conseguirá o que não lograra duas vezes no século XX: destruir a Europa.

 

Com Aliado na OTAN em apuros, Barrack Obama deu aviso à navegação. A Grécia tem de mudar muita coisa mas é difícil quando o nível de vida baixou 25%. A longo prazo sociedade e sistema político não aguentarão. A melhor maneira de reduzir défices é obter crescimento.

 

Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico de Orlando Ribeiro há mais de meio século ajudou-me a perceber o país, bem como Ensaios Etnológicos de Jorge Dias e Structure and Growth of the Portuguese Economy de Xavier Pintado. Muitas coisas mudaram mas muitas mais estão na mesma.

 

A Grécia clássica inventou a filosofia. Certo. E há muitos anos, numa taberna de Campo de Ourique, ouvi um bêbado perguntar a outro: “Eu só quero que você me diga uma coisa: merda é verbo?”

 

 

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28.1.15

 

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Atenas, 2015

 

 

 

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Depois da vitória do Syriza

 

 

 

Das flores postas por Alexis Tsipras diante do muro em Atenas que recorda e condena o fuzilamento de 200 resistentes gregos por soldados alemães do III Reich em 1944, do seu anúncio da intenção de ficar na Europa e no euro, fazendo entretanto coligação de governo com partido de extrema direita, hostil à Europa, depois do anúncio de posições de partida, grega e europeia+FMI, aparentemente irreconciliáveis, seguir-se-ão semanas de regateio digno de bazar turco ou da antiga Praça da Figueira ao fim das quais a Grécia irá ficar no euro (onde nunca deveria ter entrado, mas é assim).

 

Saída seria golpe mortal no projecto europeu. Hoje a alternativa europeia é: ou prosperarmos juntos ou arruinarmo-nos separados. Apesar de haver partidos estridentes contra a União nos quatro grandes países membros (e também nalguns pequenos) o bom senso tem levado a melhor de indignações causadas pela falta de cabeça e de coração dos nossos chefes políticos. Há quem pense que a mediocridade é inevitável depois de tantas décadas sem guerra; eu julgo que ela venha de um encurtar de vistas deliberado para agradar aos eleitores, garantindo paz sem ter de gastar em defesa. Com o fim da Guerra Fria, deixara de haver rapazes maus. Entretanto, essa aldrabice levou um rombo: a Rússia de Putin, na Ucrânia; muçulmanos sunitas salafistas no Estado Islâmico destaparam-na.

 

O projecto europeu fora lançado a seguir a 1945 para acabar com guerras entre a França e a Alemanha e para resistir ao expansionismo da União Soviética. Deu boa conta do recado – tal como a OTAN, a qual se houve tão bem que no conceito estratégico russo congeminado no Kremlin de Vladimir Vladimirovich (“A maior tragédia geopolítica do século XX foi o fim da União Soviética”) ocupa, juntamente com os Estados Unidos, lugar de papão-mor.

 

Tsipras manobra trunfo táctico que o alinha com os bons sonhos inocentes da troika: combater antes de tudo a corrupção - que Pasok e Nova Democracia sempre cultivaram - fazendo cumprir leis, pagar impostos, escolher funcionários por mérito e não por parentesco e compadrio. Em suma: inventando um estado novo. Tentar substituir a Grécia que há, com ascendência fantasiada de zénite intelectual e artístico e misérias e manhas de província otomana, por uma espécie de Holanda de 5ª Divisão.

 

Talvez os europeus, cercados de perigos, decidam que têm de se entender. Fala-se de perdões de dívida: são muitos na história do capitalismo, sobretudo à Alemanha em 1953. Há quem esqueça que então a URSS existia e era vital prevenir tentações neutralistas de Bona. Hoje o quadro é outro mas encontrar-se-á maneira de aliviar o erro da austeridade aplicada como remédio à doença grega (falsa teoria e prática nefasta) sem lesar outros contribuintes europeus.

 

O direito internacional é flexível. Quando, em 1998, Robin Cook disse a Madeleine Albright que, segundo os seus advogados, bombardear a Sérvia seria ilegal, ela respondeu: “Arranje outros advogados”.

 

 

 

 

 


21.1.15

 

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Paris, Place de la République, 11 de Janeiro de 2015 *

 

 

 

 

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Vidas decentes

 

 

“Il faut de tout pour faire un monde” disse eu, resignado a já não sei que iniquidade. “É por isso que o mundo é tão mal feito”, respondeu o António Alçada.

 

Ocorreu-me essa resposta lapidar do autor de Peregrinação Interior depois de ver, ouvir e ler em resultados de inquéritos que, desde o Papa Francisco até ao Rei da Jordânia, passando por 42% dos cidadãos da República Francesa, muito boa gente acha que os humoristas do Charlie Hebdo assassinados no dia 7 tinham ido longe demais e que os sobreviventes haviam reincidido no número da semana passada, vendido aos milhões. Daí a achar-se que as razões do morticínio inadmissível possam ser entendidas – se um homem insultasse a minha mãe eu dava-lhe um murro, teria dito o Papa a jornalistas – vai caminho curto demais para salvaguarda da decência do nosso viver.

 

Quem sacrifique liberdade a segurança não merece nem uma nem outra, explicou Benjamim Franklin, revolucionário de 1776, um dos” Pais Fundadores” dos Estados Unidos da América, e evoco-o porque quando, a seguir ao massacre, milhões de pessoas ostentando “Je suis Charlie” encheram ruas e praças de Paris e outras cidades francesas, não estavam a subscrever o que os cronistas e caricaturistas do semanário houvessem escrito ou desenhado, estavam a afirmar e a defender o direito que estes tinham de o fazer.

 

Esse espírito, espinha dorsal da França desde a Revolução de 1789, que resistiu à restauração do Império, à Comuna de Paris e à sua punição brutal, ao regime de Vichy durante a Segunda Grande Guerra, mas que nas décadas de prosperidade e paz que vieram a seguir e no marasmo quezilento dos últimos anos parecia ter adormecido, endireitou-se agora quando o estandarte sangrento da tirania se levantou outra vez. Espírito capaz de mover montanhas, muitos conspiram para o abater mas nele reside a esperança da França e da Europa. E toda a conversa de “Je ne suis pas Charlie” , de Charlie ter ido longe demais no insulto a crenças e ideias de outros – neste caso muçulmanos; em casos anteriores cristãos e judeus – é falso remédio que aumenta o mal em vez de o curar.

 

Mesmo que não nos debrucemos sobre lugares onde houve queima da bandeira tricolor (embora se lembre, para exemplo, que no Paquistão as últimas manifestações anti-ocidentais antes destas haviam sido contra a atribuição do prémio Nobel da Paz à pequena que os Talibãs tinham tentado assassinar por advogar educação feminina e que na Chechénia o cacique sanguinolento que lá reina mandou manifestar também) essa conversa ataca a base de sociedades como a nossa: a liberdade de pensar e dizer o que se pensa; o direito à vida quer se creia quer não se creia em Deus. Os dois estão ligados como irmãos siameses: se se restringir a liberdade de expressão para não ofender almas sensíveis que possam ser levadas a assassinar quem faça troça do seu Deus (ou impedir que mulheres saibam ler e escrever), começa a destecer-se o pano em que é talhada a decência do nosso viver.

 

 

 

 

Foto: David Futscher Pereira

 

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14.1.15

 

 

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© Philippe Geluck

 

 

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Allons enfants de la Patrie

 

 

Qual foi a consequência principal da Revolução Francesa? Há meio século, Chu En Lai respondeu que era cedo demais para se saber. Talvez na semana passada a resposta tenha vindo, mesmo que outros sábios chineses objectem (Voltaire nunca teve fãs para as bandas de Pequim).

 

Começando no massacre de quarta-feira de manhã na redacção de Charlie Hebdo por dois jiadistas franceses e acabando na multidão afirmativa – eu sou Charlie, eu sou chui, eu sou judeu – marchando pelas ruas de Paris e de muitas outras cidades francesas no domingo à tarde, passando pelo assassinato de polícias e de quatro judeus, reféns numa loja de comida judia de terceiro jiadista francês, um enorme sobressalto sacudiu a França.

 

Tirou-a do torpor triste, desencantado e quezilento em que há anos a pouco e pouco se afundava (embora os franceses continuassem a fazer mais filhos por casal do que quaisquer outros europeus) recusando adaptar-se às exigências do mundo globalizado e digital. Desde 1995 fora assim: governo anunciava reformas, sindicatos opunham-se; Assembleia Nacional passava leis, povo saía à rua; após curto braço de ferro, o governo desistia. E em pano de fundo, apesar das iniquidades de Vichy, há em França mais judeus e, apesar de descolonização argelina calamitosa, mais árabes, do que em qualquer outro país da Europa – embora com milhares de uns a emigrarem para Israel e milhares dos outros a rumarem à jiad. No domingo à tarde era como se um sopro de liberdade tivesse levantado toda a gente do chão e a houvesse feito levitar.

 

Charlie Hebdo, que imprimira as caricaturas dinamarquesas de Maomé e publicara número “editado pelo Profeta”, vira a redacção incendiada e recebera ameaças (a protecção policial do director morreria com ele). As suas sátiras da extrema direita e dos monoteísmos eram, para muitos, de ferocidade ofensiva e de mau gosto. As vendas vinham a baixar. Mas a brutalidade dirigida da destruição – “Matámos Charlie Hebdo”; “Vingámos o Profeta” gritaram os assassinos – acordou os valores adormecidos da República. No peito de cada francês bateu de novo a liberdade contra os inimigos da revolução de 1789; a liberdade escrita por Éluard em toda a parte – Sur mes cahiers d’écolier Sur mon pupitre et les arbres Sur le sable sur la neige – contra a ocupação nazi de 1940-44.

 

A procissão só vai no adro (Charlie Hebdo troçaria da imagem): mais de 50 pequenos atentados de vizinhança antimuçulmanos foram praticados desde o dia 7 em França; em Dresden a manifestação semanal contra “a islamização da Europa” foi segunda-feira a mais concorrida de todas. Para profilaxia e tratamento da barbárie que tenta instalar-se é preciso mexer em muitas coisas, dos liceus às casernas. Mandar com cabeça fria, coração quente e pulso firme. Por muito tempo.

 

Entretanto, eu sou Charlie. Prefiro ser de um lugar onde cada um possa pensar o que queira e o possa dizer – a ser de um lugar onde seja obrigatório acreditar num Deus. É essa a escolha.

 

 

 

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7.1.15

 

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Expulsion from number 8 Eden Close

Grayson Perry, 2012

 

 

 

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A vida do porco

 

 

 

A vida do porco não é tão má como se julga nem enquanto o animal, ainda vivo, pasta bolota no montado nem, depois de morto, na fase de enchido: o que rala é a transição.

 

Sentença de Cirilo Volkmar Machado, autor de dicionário de pintores e escultores portugueses e 1º Visconde de Santo Tirso, citada em conversa pelo Professor Francisco Vieira de Almeida, filósofo, monárquico oposicionista a Salazar, espírito luminoso que tive a sorte de conhecer.

 

A Europa está em transição e tal como os suínos os europeus não percebem bem o que lhes está a acontecer nem onde irão parar – mas ao contrário dos suínos andam raladíssimos com isso. Não sirvas a quem serviu, não peças a quem pediu, recomendava-se em tempos de capilaridade social tão escassa que permitia tais preferências. A caldeirada de classes e nações em que nos fomos metendo não dá para ser niquento: mendigos não escolhem, diz-se em inglês. Claro que mendigos não somos mas deixámos de ser donos do mundo –  já não o éramos há quase 100 anos embora sábios nossos gostassem de julgar que havíamos passado a ser os gregos dos novos romanos mas mesmo essa ilusão se perdeu desde que a União Soviética se desfez e os Estados Unidos precisam menos da Europa.

 

Tudo está a mudar, com pressa inédita. A globalização tem efeitos ruinosos em partes das economias europeias; ao mesmo tempo que levanta milhões do chão da pobreza noutros continentes. Segundo medições que se fazem agora – toscas, mas é o que há – encontra-se muito mais gente no mundo convencida de ser mais feliz hoje do que era há cinco anos do que do contrário (esta última, sobretudo na Europa). A automatização – incluindo robots cada vez mais parecidos connosco e progresso em inteligência artificial – abre outras brechas nas maneiras de investir e trabalhar de há um século para cá. Nova divisão de tarefas entre sexos e idades afecta toda a gente, em diferentes graus mas no mesmo sentido. A digitalização está a virar de pernas para o ar produção e comércio. O conselheiro principal de tecnologia da Casa Branca, mulher vinda do MIT e de Google, indigna-se quando ouve adultos altamente instruídos dizerem diante de crianças que são nulos em ciência e em matemática: “Isso tem de mudar. Nunca tal diríamos sobre ler e escrever”. Que as ciências estavam a ganhar terreno às humanidades no olear das máquinas de poder do mundo já se sabia antes de Silicone Valley. “Ó tia, o que são engenheiros?” perguntou a miúda. “São doutores, filha”, respondeu a varina. Ouvidas na Madragoa, há 50 anos.

 

Meio milénio a mandar no mundo, com Vasco da Gama e Gutenberg entre as figuras de proa, criaram hábitos de mó de cima custosos de perder mas sofrer faz parte da vida – e há muito pior.

 

Acabo onde comecei, lembrando Vieira de Almeida. Numa visita ao santuário de Lourdes, diante de multidão de inválidos e milhares de ex-votos deixados por peregrinos, ocorrera-lhe de repente que tudo aquilo era apenas uma pequena gota no mar imenso da dor humana.

 

 

 

Imagem aqui

 

 

 

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1.1.15

 

 

 

cast thy bread.jpeg

Needlepoint Tapestry

© Mati Silverstein, 1976

 

 

UM BOM 2015

 

 

 

 

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31.12.14

 

 

 

europe.space.night.jpg

A noite europeia

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

Bom 2015

 

 

Quando um pobre come galinha um dos dois está doente – sabedoria do Alentejo nos tempos do meu pai e do pai dele. No meu tempo apareceram os frangos de aviário, tão prezados no começo que depois de cozinhados as estalajadeiras os vendiam mais caros do que se fossem criação do campo. No tempo do meu filho, ciência com ardores impiedosos de fé havia ganho as almas e os frangos de ar livre tornaram outra vez a ser manjar de rico, ficando os de aviário para a arraia-miúda – no Alentejo como em toda a parte. (Frangos doentes passaram a ser destruídos na origem.)

 

Entretanto, nos Estados Unidos e na Europa, desregulamento progressivo da finança permitiu a esta ir-se apoderando da indústria, valorizando cada vez mais o lucro e valorizando cada vez menos o trabalho; em 2008 o cântaro que tantas vezes tinha ido à fonte partiu-se e o Ocidente entrou em crise; para o tirar do buraco, do lado de lá do Atlântico Norte estimulou-se a economia, o banco central levou a peito baixar o desemprego e hoje, em prosperidade, os Estados Unidos (tendo-se de caminho metido a produzir gás de xisto) vão à frente dos outros poderes do mundo como a lebre de uma corrida de galgos. Na Europa escolheu-se a austeridade e o banco central europeu tem como único encargo estatutário a inflação (apesar de Mario Draghi, mesmo aporrinhado pelos alemães, ter dito que faria o que fosse preciso – what it takes – para salvar o euro). A emenda foi pior do que o soneto. Não há meio de se sair do buraco e, entretanto, talvez empresa de private equity, bem alavancada, veja futuro na venda ao desbarato de frangos doentes aos pobres.

 

A recuperação económica do mundo é atrasada pela inépcia da Europa – que não tem outra força para se impor de maneira diferente. Cresceu em paz no casulo da Guerra Fria, profilaticamente protegida do mal de fora pelo arsenal nuclear americano e do mal de dentro por medo salutar de Estaline. Depois do colapso da União Soviética passou a gastar muito menos em defesa do que o pouco que já gastava e europeus convictos julgaram que iam pregar ao mundo a paz perfeita. Chão que nem uvas deu. O que hoje se vê à roda, em estepes da Ucrânia, oásis da Mesopotâmia, deltas da Birmânia, é, sim, guerra perpétua, só dominável com guerra ou ameaça de guerra. Ora na Europa só França e Reino Unido têm capacidade militar que não envergonhe patriotas e, se as armas são fracas, os corações são mais fracos ainda. Diz directora de escola internacional em Bruxelas: “O nosso propósito deveria ser instilar nas crianças adaptabilidade e flexibilidade”. Em tal bolha de relativismo, a coragem, a integridade, a capacidade de topar quem fale barato, parecem ter valor menor.

 

Guerras – hoje coisas más – eram populares. Bisavó de amiga minha alentejana dizia que de vez em quando era preciso uma “para desquintar o pessoal”. Se não formos capazes de impedir que as façam contra nós, ao menos que as saibamos ganhar. Senão a papa doce acaba mesmo.

 

Ano Novo Feliz.

 

 

Imagem aqui

 

 

 

 

 


29.12.14

 

Romanceiro Capa 1.jpg

 

Romanceiro

Manuscrito do Autor

[autógrafo de Almeida Garrett]

 

 

 

A compra pelo Estado Português do espólio garrettiano designado por “Colecção Futscher Pereira” [1], anunciada pelo Secretário de Estado da Cultura no dia 18 de Dezembro, fecha um ciclo iniciado há dez anos pela descoberta, por minha irmã Cristina Futscher Pereira (1948-2005), de manuscritos inéditos de Almeida Garrett que contribuem de forma decisiva para o estudo do Romanceiro português.

 

Fica deste modo assegurada a ampla divulgação deste espólio, o maior desejo de Cristina, além da permanência dos autógrafos em Portugal, nas melhores condições [2]. Por fim, e também importante, com esta aquisição a Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas valoriza aos olhos do público a recolha pioneira de Garrett de temas da nossa tradição oral. São relatos de eventos históricos e histórias de amor, transgressão e violência, de grande suspense e final incerto, que mantêm plena actualidade no século XXI.

 

Para a família, a colecção permanecerá ligada à memória de Cristina, de Venâncio Augusto Deslandes e de iniciativas e amizades inspiradas pelo Autor [3]. Entregamos estes papéis com muita satisfação e um bocadinho de nostalgia.

 

 

 

*

 

 

 

 Notas: 

 

1.  A Colecção engloba mais de 400 páginas manuscritas, grande parte delas inéditas, compreendidas no período de 1839 a 1853/54.

 

2.  “O espólio agora adquirido será objecto de um contrato de depósito na Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, enriquecendo, desta forma, o já importante espólio garrettiano de que [a instituição] dispõe”, de acordo com o comunicado divulgado pelo Gabinete do Secretário de Estado da Cultura citado pela Agência Lusa.

 

3.

-  Blog garrettiano O Divino , 2004-2005

 

-  A Moira Encantada de João Baptista de Almeida Garrett  

Edição oferecida pelo "Diário de Notícias" aos leitores no 140º aniversário do jornal, a 29 de Dezembro de 2004

ISSN 0870-1954 Lisboa, Dezembro 2004

 

- No aniversário da morte de Garrett. Apresentação de um inédito do Romanceiro [Ermitão] 

Ofélia Paiva Monteiro e Maria Helena Santana

Annualia Verbo. Temas, Factos, Figuras, 2005/2006. 

 

- As Fontes do Romanceiro de Almeida Garrett. Uma Proposta de ‘Edição Crítica’ [Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas, Especialidade de Estudos Literários]

Sandra Boto

Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa, 2011

 

 

Artigo de Luís Miguel Queirós no Público

 

Espólio Garrettiano da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra [Youtube] 

 

Sobre a Colecção Futscher Pereira e Venâncio Augusto Deslandes leia também aqui 

 

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25.12.14

 

 

Natal Anunciador.jpg  Anunciador simbólico da missa do galo

 

 

País de tão poéticas tradições natalícias como o nosso, em verdade, nada precisa de ir buscar à casa alheia, nem sequer o maçudo e empanturrante Bolo-Rei — o francês Gâteau des Rois  — nem de incutir na imaginação da infância, agora dotada de precoce discernimento, o mito dos saptinhos na chaminé. Dêm brinquedos às crianças, muitos brinquedos, mas eduquem-nas na compreensão de que só pelas graças do Menino Jesus é que os pais conseguiram os meios de lhos oferecer.

 

E depois de tudo isto, ainda um apelo final é de fazer. Não haverá por aí alguém que se disponha a cometer o belo crime de atacar a serrote a Árvore de Natal e a estafar de uma vez para sempre esse intruso e barbaçudo Pai-Natal da floresta germânica, de blusão e botifarras?

 

Que belos dias passados na prisão para expiar esse delito!

 

 

Francisco Lage

in "O Natal Português na Igreja, no Teatro, na Tradição, na Rua e na Família"

Panorama, nº 4, III série , Dezembro 1956

 

Foto: Mário Novais

 

 

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24.12.14

 

flight-into-egypt-1.jpg

 Fuga para o Egipto, Giotto 1311

 

 

 

 

 

José Cutileiro.jpg

 

Boas Festas

 

 

 

A quadra de presentes é propícia ao calibrar das posses de cada um e sente-se no ar um perfume de luta de classes de que não me lembrava há muito tempo (“consciência de classe que parecia adormecida”, escreve-me amiga em Portugal). Apesar de distracções na televisão, na telefonia, nos jornais, na internet, nas redes sociais - guerra sem quartel entre sunitas e xiitas; tropelias de Putin; aquecimento global provocado pelo homem (brinca, brincando, crescemos de dois mil para sete mil milhões em pouco mais de meio século: europeus, porém, somos cada vez menos); epidemias que resistem a remédios - mau viver insidioso alastra em cada vizinhança.

 

Como só más notícias se vendem – e compram – entram-nos desgraças pela casa dentro amanhadas “de cinco maneiras diferentes”, como os linguados do restaurante Sua Excelência quando o Queiroz recitava o menu. Contra mim falo, mas parece às vezes haver hoje mais comentadores do que coisas a comentar. Entretanto, espreguiçando-se estremunhada, a luta de classes que ninguém é capaz de definir mas em que muitos gostam de acreditar – um bocadinho assim como a Graça de Deus – arreganha os dentes. Já tínhamos passado por isso e eu julgava que o assunto estivesse arrumado. Nem pouco mais ou menos.

 

Os muito ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. Muita gente na finança – banqueiros e para-banqueiros, grandes, médios e pequenos – tomou o freio nos dentes desde que a União Soviética colapsou e deixou de ter medo fosse do que fosse. Sem perceber que o fim do comunismo não fora a irradicação de uma doença mas sim o fracasso de um remédio – nunca é demais repeti-lo – abandonou o cuidado dos outros. Mas enquanto os Estados Unidos, arrancando com um programa de estímulo, saíram da crise que lá começara em 2008, a Europa, com a grilheta da austeridade a arrastar-lhe os pés, abeira-se da deflação. Irlanda, Grécia e Portugal devem mais do que deviam quando os programas de ajuda começaram - e nunca poderão pagar. Uma falsa convicção germânica de virtude obnubila responsáveis políticos e fá-los insistir no mau caminho.

 

Quando a economia, em vez de crescer, mirra, e os filhos vivem pior do que viveram os pais, os europeus, desabituados há muito tempo de tais desconfortos, tornam-se agressivos. Xenofobia pavoneia-se em França, na Alemanha, na Grã-Bretanha; protecionismo empobrece as nações. Quando não haja estrangeiros nem infiéis para bode expiatório avança a “luta de classes” - exemplo da tentação universal de fazer passar inveja por virtude - com tradição em Portugal, primeiro às escondidas da PIDE, depois posta ao léu pela Revolução dos Cravos. Esquecida a seguir – e lembrada agora.

 

A menos que os políticos entendam, percam medo da Alemanha, esqueçam austeridade e se metam a ajudar a economia com bom senso e coragem precisos, o que espera a Europa é - com vénia a Mestre António Garcia - uma broncalina do camandro ou uma Bernardette do caboz.

 

Boas Festas, mesmo assim.

 

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23.12.14

 

Natal consoada Panorama.jpg

 

 Aparador da Consoada

Composição do natural, de Francisco Lage*

 

 

Rabanadas da consoada  (Douro)

 

 

Pão de forma                          1

Ovos                                         6  a  8

Manteiga                                50  gramas

Açúcar                                    1  quilo

Canela                                    q.b.

 

 

Põe-se o açúcar a ferver com água suficiente e deixa-se tomar ponto de espadana.

 

Corta-se o pão às fatias finas, não se utilizando as dos topos. Batem-se os ovos e neles se mergulham as fatias até ficarem bem repassadas. Fritam-se logo a seguir na calda, a que se juntou a manteiga, até que os ovos que as emvolvem fiquem bem cozidos. Com uma escumadeira vão-se retirando as fatias e colocando numa travessa funda. Polvilham-se de canela e regam-se com o resto da calda em que se fritaram.

 

 

 

 *

 

 

Sonhos fofos

 

 

Ovos                                        6

Farinha                                  1  chávena

Manteiga                              60  gramas

Açúcar                                   90  gramas

Canela                                   q.b.

Sal                                          q.b.

Fermento em pó                1  colher de chá

Calda de açúcar                  q.b.

 

 

Põem-se a ferver o leite, a manteiga, o açúcar, a canela e o sal; levantando fervura vaza-se-lhe para dentro, de repente, a farinha e mexe-se até que fique enxuta e cozida.

 

Deixa-se então esfriar um pouco e juntam-se o fermento e os ovos, um a um, ligando-os muito bem com a massa. Amassa-se com a mão até ficar uma massa leve. Fritam-se colheradas desta massa em bastante óleo ou azeite fervente. As colheres devem ser de sobremesa e pequenas pois os sonhos crescem bastante enquanto se fritam.

 

Cobrem-se depois os sonhos com calda de açúcar não muito espessa e aromatizada com baunilha e servem-se frios.

 

 

 

M.A.M. [pseud. colectivo de Maria Adelina Monteiro Grillo e Margarida Futscher Pereira]

in Cozinha do mundo português [p. 661 e p.664] 

Porto: Livr. Tavares Martins, 1962

 

* Imagem: Foto Mário Novais

Revista Panorama, Número 4, III Série, Dezembro de 1956

in Caderno "O Natal Português" de Francisco Lage

 

 

 

 

FELIZ  NATAL 

 

 

 


22.12.14

 

Presépio Popular de Barcelos .jpg

 

Presépio popular de Barcelos

Panorama nº 24 - III Série - Dezembro de 1961

 

 

 

 

Associação Portugal à Mão aqui 

 

 

link do postPor VF, às 14:27  comentar

21.12.14

 

Natal 1930 img912 - Version 2

Arminda D'Korth Brandão

Lisboa, Dezembro de 1930

Foto: M. Dinis

 

 

 

Foto gentilmente cedida por Henrique D'Korth Brandão, a quem muito agradecemos.

 

 

Em 2015 visitaremos o espólio fotográfico de João Christiano D'Korth (1893 - 1974) [irmão de Arminda D' Korth Brandão, na foto].

 

 

Nota:

para ampliar foto visite os meus álbuns no FLICKR aqui

 

  



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